A mentira é, desde os primórdios da civilização, uma das ferramentas mais antigas e
poderosas da humanidade. Quando usada com intencionalidade, ela se torna um
instrumento de poder — capaz de manipular massas, silenciar verdades e reescrever
histórias. Vivemos em uma era onde a verdade parece cada vez mais relativa, e a mentira,
muitas vezes, se mascara de opinião, de fé ou até de patriotismo.
No campo da política, a mentira sempre teve um lugar privilegiado. Desde os regimes
autoritários até democracias modernas, a manipulação da verdade é usada como arma
estratégica. Como disse George Orwell em 1984: “Quem controla o passado, controla o
futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” Essa frase resume o perigo de se
permitir que a mentira se torne narrativa oficial: ela apaga os fatos e constrói uma realidade
conveniente para quem está no poder.
O filósofo Friedrich Nietzsche já afirmava que “as convicções são inimigas mais perigosas
da verdade do que as mentiras.” Isso porque, quando a mentira se disfarça de convicção,
ela não precisa mais de provas — apenas de fé cega. Vemos isso nas fake news, nas
teorias da conspiração, nos discursos polarizados que se espalham nas redes sociais e
moldam mentalidades com base em medo, raiva ou ressentimento.
Mas por que a mentira é tão poderosa? Talvez porque ela oferece uma versão simplificada
da realidade. A verdade, muitas vezes, é complexa, contraditória, difícil de digerir. Já a
mentira seduz com clareza, com respostas fáceis e com promessas de segurança. Isso vale
tanto no plano político quanto no pessoal. Mentimos para não magoar, para parecer
melhores, para evitar conflitos — e, assim, normalizamos o engano.
O problema não é apenas a mentira em si, mas a sua institucionalização. Quando a
sociedade passa a aceitar a falsidade como algo natural, ela mina os pilares do diálogo, da
justiça e da empatia. Como bem disse Hannah Arendt, em Verdade e Política: “O resultado
de uma substituição consistente da verdade por mentiras não é que as mentiras passem a
ser aceitas como verdade, mas que o senso comum das pessoas se destrói.”
Em um mundo onde a mentira se espalha em segundos, talvez o maior ato de resistência
seja cultivar o pensamento crítico. Questionar, investigar, duvidar — e, sobretudo, não
aceitar como verdade aquilo que apenas confirma nossas crenças.
A mentira continuará existindo, mas o poder que ela exerce depende de quão alerta
estamos para reconhecê-la. A liberdade, como disse Orwell, é “a liberdade de dizer que dois
mais dois são quatro.” Que nunca nos falte essa coragem.