𝐀 𝐋𝐈𝐓𝐄𝐑𝐀𝐓𝐔𝐑𝐀 𝐄́ 𝐑𝐄𝐕𝐎𝐋𝐔𝐂𝐈𝐎𝐍𝐀́𝐑𝐈𝐀
(𝐑𝐞𝐜𝐨𝐫𝐝𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨𝐝 𝐜̧𝐨 𝐦𝐞𝐮 𝐅𝐚𝐜𝐞𝐛𝐨𝐨𝐤 𝐝𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐭𝐚
𝐜𝐨𝐦 𝐦𝐞𝐮 𝐞𝐱-𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬𝐬𝐨𝐫 𝐆𝐨𝐝𝐨𝐟𝐫𝐞𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐎𝐥𝐢𝐯𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐍𝐞𝐭𝐨
𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚 𝐑𝐞𝐯𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐎𝐛𝐯𝐢𝐨𝐮𝐬𝐞𝐦 𝟐𝟎𝟏𝟕)
𝐆𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐪𝐮𝐞𝐫𝐢𝐝𝐚, 𝐞 𝐨 𝐟𝐚𝐜𝐞𝐛𝐨𝐨𝐤 𝐬𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞 𝐦𝐞 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐫𝐝𝐚𝐧𝐝𝐨
𝐜𝐨𝐢𝐬𝐚 𝐛𝐨𝐚!
𝐥𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚, 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐩𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐞 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚 𝐬𝐞
𝐁𝐞𝐦-𝐯𝐢𝐧𝐝𝐨𝐬 𝐚𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐂𝐚𝐟𝐞́ 𝐏𝐨́𝐬-𝐌𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐨, 𝐮𝐦 𝐞𝐬𝐩𝐚𝐜̧𝐨 𝐨𝐧𝐝𝐞
𝐞𝐧𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐮𝐦 𝐝𝐢𝐚́𝐥𝐨𝐠𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐞 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐢𝐠𝐚𝐧𝐭𝐞.
𝐇𝐨𝐣𝐞, 𝐭𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐚 𝐡𝐨𝐧𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞𝐫 𝐆𝐨𝐝𝐨𝐟𝐫𝐞𝐝𝐨 𝐝𝐞 𝐎𝐥𝐢𝐯𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐍𝐞𝐭𝐨, 𝐮𝐦
𝐛𝐫𝐚𝐬𝐢𝐥𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐞𝐦𝐩𝐨𝐫𝐚̂𝐧𝐞𝐚, 𝐜𝐮𝐣𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐞𝐜𝐨𝐚 𝐚 𝐟𝐨𝐫𝐜̧𝐚
𝐝𝐨𝐬 𝐧 𝐨𝐦𝐞𝐬 𝐦 𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫 𝐨𝐞𝐦 𝐢 𝐧 𝐞𝐧 𝐭 𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐥 𝐢𝐭 𝐞𝐫 𝐚𝐭 𝐮 𝐫 𝐚
𝐫𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚́𝐫𝐢𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐩𝐚𝐥𝐚𝐯𝐫𝐚𝐬. 𝐍𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞𝐯𝐢𝐬𝐭𝐚,
𝐩𝐮 𝐛𝐥 𝐢 𝐜𝐚𝐝𝐚 𝐨𝐫 𝐢𝐠𝐢 𝐧 𝐚𝐥 𝐦𝐞𝐧 𝐭 𝐞 𝐧 𝐚 𝐑 𝐞𝐯 𝐢 𝐬𝐭 𝐚 𝐎𝐛𝐯 𝐢𝐨𝐮 𝐬 𝐩𝐨𝐫
𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐝𝐚 𝐢́𝐧𝐭𝐢𝐦𝐚 𝐞 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐥𝐞𝐜𝐭𝐮𝐚𝐥, 𝐫𝐞𝐥𝐞𝐦𝐛𝐫𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐬𝐮𝐚
𝐌𝐚𝐫 𝐜𝐢𝐨 𝐒𝐚𝐥 𝐞𝐬 𝐒𝐚𝐫 𝐚𝐢𝐯 𝐚 , 𝐆𝐨𝐝𝐨𝐟 𝐫 𝐞𝐝𝐨 𝐧 𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐧 𝐝𝐮 𝐳 𝐩𝐨𝐫 𝐮 𝐦 𝐚
𝐢𝐧𝐟𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚, 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐥𝐡𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐬𝐮𝐚𝐬 𝐩𝐚𝐢𝐱𝐨̃𝐞𝐬 𝐥𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚́𝐫𝐢𝐚𝐬 𝐞
𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬𝐬𝐨𝐫 𝐝𝐞 𝐥𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐝𝐚 𝐔𝐅𝐑𝐉. 𝐂𝐨𝐦 𝐮𝐦𝐚 𝐭𝐫𝐚𝐣𝐞𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐚
𝐝𝐞𝐬𝐯 𝐞𝐥 𝐚𝐧 𝐝𝐨 𝐨 𝐦 𝐞𝐧 𝐢𝐧 𝐨 𝐨𝐜𝐮 𝐥 𝐭 𝐨 𝐪𝐮 𝐞 𝐚𝐢 𝐧 𝐝𝐚 𝐡 𝐚𝐛𝐢 𝐭 𝐚 𝐨
𝐣𝐮𝐬𝐭𝐢𝐜̧𝐚 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥, 𝐞𝐥𝐞 𝐧𝐨𝐬 𝐥𝐞𝐦𝐛𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 '𝐚 𝐥𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐞́
𝐦 𝐚𝐫 𝐜𝐚𝐝𝐚 𝐩𝐞𝐥 𝐨 𝐬𝐢 𝐧 𝐜𝐫 𝐞𝐭 𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐜𝐮 𝐥𝐭 𝐮 𝐫 𝐚𝐥 𝐞 𝐩𝐞𝐥𝐚 𝐥𝐮 𝐭 𝐚 𝐩𝐨𝐫
𝐫𝐞𝐯𝐨𝐥𝐮𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚́𝐫𝐢𝐚', 𝐜𝐚𝐩𝐚𝐳 𝐝𝐞 𝐫𝐨𝐦𝐩𝐞𝐫 𝐢𝐥𝐮𝐬𝐨̃𝐞𝐬 𝐞 𝐫𝐞𝐯𝐞𝐥𝐚𝐫
𝐯𝐞𝐫𝐝𝐚𝐝𝐞𝐬. 𝐏𝐫𝐞𝐩𝐚𝐫𝐞𝐦-𝐬𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐞𝐫𝐠𝐮𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐧𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐟𝐥𝐞𝐱𝐨̃𝐞𝐬
𝐝𝐞 𝐮 𝐦 𝐞𝐬𝐜𝐫 𝐢𝐭 𝐨𝐫 𝐪𝐮 𝐞 , 𝐜𝐨𝐦 𝐬𝐮 𝐚 𝐩𝐞𝐧 𝐚 𝐚𝐟 𝐢𝐚𝐝𝐚 , 𝐜𝐞𝐥𝐞𝐛𝐫 𝐚 𝐨
𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐚𝐨 𝐜𝐚𝐟𝐞́ — 𝐞 𝐚̀ 𝐜𝐨𝐧𝐯𝐞𝐫𝐬𝐚!
𝐁𝐫 𝐚𝐬𝐢𝐥 𝐞𝐦 𝐭 𝐨𝐝𝐚 𝐚 𝐬𝐮 𝐚 𝐝𝐢𝐯 𝐞𝐫 𝐬𝐢 𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞 𝐜𝐨𝐦 𝐩𝐥𝐞𝐱 𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 .
𝐂𝐀𝐅𝐄́ 𝐏𝐎́𝐒𝐌𝐎𝐃𝐄𝐑𝐍𝐎
𝐋𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚, 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐩𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐞 𝐩𝐨𝐥𝐢́𝐭𝐢𝐜𝐚.
𝐌𝐀𝐑𝐂𝐈𝐎 𝐒𝐀𝐋𝐄𝐒 𝐒𝐀𝐑𝐀𝐈𝐕𝐀
"𝐀 𝐋𝐈𝐓𝐄𝐑𝐀𝐓𝐔𝐑𝐀 𝐄́ 𝐑𝐄𝐕𝐎𝐋𝐔𝐂𝐈𝐎𝐍𝐀́𝐑𝐈𝐀", 𝐂𝐄𝐋𝐄𝐁𝐑𝐀
𝐆𝐎𝐃𝐎𝐅𝐑𝐄𝐃𝐎 𝐃𝐄 𝐎𝐋𝐈𝐕𝐄𝐈𝐑𝐀 𝐍𝐄𝐓𝐎.
𝐏𝐔𝐁𝐋𝐈𝐂𝐀𝐃𝐎 𝐄𝐌 𝐋𝐈𝐓𝐄𝐑𝐀𝐓𝐔𝐑𝐀 𝐏𝐎𝐑 𝐌𝐀𝐑𝐂𝐈𝐎 𝐒𝐀𝐋𝐄𝐒
𝐒𝐀𝐑𝐀𝐈𝐕𝐀
Godofredo de Oliveira Neto é um dos escritores mais importantes da
literatura brasileira. Nesta entrevista ele lembra sua infância,
reafirma a paixão pela leitura, faz alguns desabafos, expõe
referências e nos revela o menino oculto no professor de literatura da
UFRJ.
Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Godofredo de Oliveira Neto que
irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.
1- Quando você começou a escrever?
Godofredo de Oliveira Neto (GON): Três elementos foram
fundamentais para que eu começasse a escrever. O primeiro foi o
estímulo dos pais pelo estudo. Meu nome, considerando os
ascendentes mulheres, é Godofredo Bazzanella Kunhasky de Oliveira
Neto. Estudar era, para eles, fundamental para "vencer na vida",
imigrantes que vinham sem nada para o Brasil. Do Vêneto, de Berlim,
dos Açores e de Portugal continental-norte. Passaram isso para mim.
Essa coisa bonita, ler e estudar, mas com uma consciência de justiça
social muito diminuta, que só aprendi na vida, sozinho, na luta.
Lembro também que meu avô paterno foi da chefia de gabinete do
Nereu Ramos e deixou livros de poesia, de ficção e de política que
meu pai lia pra mim quando pequeno.
Desse empuxo vem o meu trabalho cognitivo sempre com migrações,
em especial, migrações contemporâneas, vistas por um viés político.
Não esqueço que se a gente quer falar de migrações, forçadas ou
não, a gente tem que pensar na transposição obrigada de africanos
para o Brasil. Desses nós temos hoje cento e dez milhões de
descendentes. Com uma cultura sufocada, mas que agora aflora,
felizmente, em várias áreas. Isso é o Brasil.
Sincretismo, São Jorge e Ogum! E dezenas e dezenas de milhões de
brasileiros cultuando Iemanjá no primeiro dia do ano nas águas do
Brasil inteiro. Mas no segundo semestre tem a ‘oktoberfest’ de
Blumenau, entre tantas outras festas em homenagem à colonização
europeia (espanhola, portuguesa, italiana), mas também árabe,
japonesa, libanesa etc. pelo Brasil afora.
A valorização da cultura indígena é indispensável para se entender o
Brasil, seus vícios e seus pecados. E sua perfídia. E sua nação. Não há
nação brasileira sem a compreensão do componente indígena nas
veias e na alma do povo brasileiro. Meu livro “Ana e a margem do rio”
quer homenagear os povos originários e o conflito cultural no país.
Debruço-me há muito tempo sobre a literatura afrobrasileira, meu
curso atual na UFRJ, Doutorado, é sobre essa literatura.
Em segundo lugar, serviu de incentivo para eu escrever o fato de ter
eu estudado, desde a alfabetização, em colégio religioso, primeiro das
irmãs da Divina Providência e em seguida dos padres Franciscanos
em Blumenau, Santa Catarina. Essa educação me deu uma disciplina
rígida para os estudos, particularmente nas áreas de humanas e na
literatura, áreas fortes entre os franciscanos, junto com a Biologia.
Herdo disso tudo um apreço pelos estudos e pela leitura e pela
escrita. Sou, entretanto, um defensor absoluto do ensino laico e
público. Apesar da ideia de fraternidade ensinada por estas escolas
religiosas, o que ajuda para a tomada de consciência politica depois,
há também certa camisa de força neste tipo de formação, uma
sensação permanente de culpa cristã que, por vezes, impedem a
libertação do humano, especialmente, dos mais jovens. A liberdade, a
conscientização, a abertura para o mundo e para a visão crítica de
ordenações e de hierarquias, coisas que só fui aprender no
movimento estudantil secundarista, se dá plenamente, digo
plenamente, em ensino laico e público, penso. E a liberdade de culto
é fundamental, ou a escolha do ateísmo.
O que me motivou a ser escritor, em terceiro lugar, foi o sentimento
amoroso. Que todos conhecem. Começa pra valer lá pelos doze, treze
anos. Todo mundo escreveu poeminhas para o amado ou a amada.
Escrevi muito textinho penetrado por esses sentimentos na época.
Muuuuuitos.
Em síntese, se hoje escrevo, agradeço o apoio dos meus pais, a
formação em colégios religiosos extremamente zelosos com a
disciplina de leituras e também o amor, este amor que desde a
juventude fisgou-me a alma.
2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e
transpiração?
GON: Não é nada de dom. Tem que lembrar, desde já, que a literatura
não é o espelho do mundo nem a expressão direta dos sentimentos.
Só uma parte do texto literário tem a ver com o autor, a sua
criatividade, o seu talento etc. Grande parte do que está escrito é
anônimo e coletivo. Penso em Ítalo Calvino e Robbe-Grillet. O autor de
Helena não é o autor de Brás Cubas e que não é a pessoa Machado
de Assis. O sujeito da escritura é um " eu fantasmático", um espaço
vazio a ser preenchido. Ele vai servir de mediador à cultura coletiva
num momento dado. Daí você pergunta: E o/a cara escritor/escritora
não é nada? Sim, ele é a projeção dele na escritura. Ele vai inventar o
personagem mais importante do romance: o narrador/a. Outra coisa:
as determinações socioeconômicas e culturais castram a possível e
desejada individualidade autoral. Ele está preso à língua e ao estilo
adotado, que não são criação dele. E ele está presíssimo às formas
literárias do seu tempo ou que vieram antes dele. Mesmo quando há
ruptura ela está sendo considerada em função do que está sendo
rompido (risos). Você vê, Marcio, que o espaço para o simples dom
não existe. A menos que a gente entenda esse dom como a
capacidade de leitura desses interditos todos. Daí ok. Mas muitas
pessoas pensam em dom como uma unção e não é... claro que não é.
3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras
e autores influenciaram tua escrita?
GON: São tantos que admiro... Como irei te responder? Diria, neste
momento, G. Flaubert, Graciliano Ramos, Machado de Assis e
Guimarães Rosa, estes em primeiro plano, sempre. Mas em outros
momentos, talvez eu dissesse outros nomes. Então expresso o que
me vem agora, estes quatro nomes.
4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem
você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?
GON: A literatura brasileira atual é abundante e vigorosa, mas falta
articulação com as grandes questões da sociedade brasileira, como
relembrou Antonio Candido. Dá para ter essa articulação sem perder
a literariedade. Não citarei nomes aqui, pois são tantas pessoas que
gosto de ler, entre os contemporâneos, que não quero aventurar-me
em citar apenas de memória.
5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?
GON: “Ponciá Vicêncio” (relendo), da Conceição Evaristo e “Torto
arado”, do Itamar Vieira.
6- O que você já publicou até aqui?
GON: Publiquei doze livros de ficção. Os títulos andam por aí na
internet.
[Nosso blog conferiu a lista, ficção e não ficção:]
Faina de Jurema (1981)
O nome e o verbo na construção de São Bernardo (1988)
A ficção na realidade em São Bernardo (1990)
O bruxo do contestado : romance (1996)
Pedaço de Santo (1997)
Oleg e os clones (1999)
Marcelino Nanmbrá: o Manumisso (2000)
Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem Nauá (2002)
O menino oculto (2005)
Libertinagem & estrela da manhã (2006)
Marcelino (2008)
Cruz e Sousa: o poeta alforriado (2010)
Gramática comparativa Houaiss: quatro línguas românicas:
português, espanhol, italiano, francês, com Ana Maria Brito e José
Carlos de Azeredo (2010)
Amores exilados: romance (2011)
A ficcionista (2012)
Secchin : uma vida em letras (2013)
Ilusão e mentira : as histórias de Adamastor e de Lalinha (2014)
Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira (2016)
Grito (2016)
7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você
recomenda começar por onde?
GON: Comece lendo o romance “A Ficcionista” que publiquei em
2012.
8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?
GON: Leio de tudo, incluindo rótulos de cervejas e vinhos. Gostaria
mesmo é de ser poeta como vejo brilhantes colegas serem. Mas,
quando eu escrevo, sou cem por cento prosa. É minha sina.
9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?
GON: Sou professor na UFRJ. Sobre direitos autorais, o que ganho....
nem vale comentar.
10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho
político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre
fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a
relação entre arte (ou obra literária) e a política?
GON: A literatura se constrói com a língua, que já é significante antes
de o texto ser escrito. Ela cria um segundo sistema de significações.
Então ela se refere á língua e não ao real. A linguagem do dia-a-dia é
um sistema ideológico, imagens, mitos, conceitos. Não traduzem a
plena e independente consciência do autor da frase, que ele acha que
tem. O coroamento mais perceptível disso aí são os clichês. Onde fica
o engajamento da literatura? Justamente ao mostrar com a sua ilusão
que a linguagem já em si é ilusão. Mostrar para o cara que o seu
discurso veicula uma ilusão – em maior ou em menor escala. Daí
então, como você pode perceber, podemos afirmar que a literatura é
revolucionária.
11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.
GON: Quando saiu o primeiro livro impresso, com editora e tudo.
“Faina de Jurema”, 1981. Romance experimental escrito nos anos 70.
12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?
GON: Não perguntou se tinha um projeto literário. Sim, tento escrever
os livros pensando num todo. Tudo está traçado no Faina de Jurema.
A minha carreira vai de romance de formação e de defesa do cafuzo
na literatura brasileira, como no “Marcelino...” (ninguém atentou para
esse fato, o herói cafuzo na literatura brasileira) até mais “
descolados” como o “Menino oculto” ou “A Ficcionista”, ou como o de
extração histórica tal “O Bruxo do Contestado”. Queria que todos
fossem vistos formando um todo.
13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?
GON: Estou com um romance pronto, cujo título é “Esquisse”. O PDF
está sendo traduzido para o francês e uma editora parisiense vai
publicá-lo no primeiro semestre de 2021. Ainda não tenho editora
para ele no Brasil.
Por último, deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu
esta entrevista fazer uma “degustação”...
“Em Nova York. A porta quase arrebenta, não eram batidas, mas
murros, acordei com a impressão de levar pauladas na cabeça. Já vai,
já vai, balbuciei, um momento, abri e dois homens de capuz me
empurram, caí, o de olhos claros me mantinha imobilizado com o pé
no peito, o outro, tipo indiano, chutava as minhas costelas, senti um
pano enfiado goela abaixo, tossi, não conseguia respirar, o pano na
boca impedia qualquer ar (...) É isso que tu qué, seu escroto, a
herança? Seu brasileiro viadinho (...) sabe o que eu faço com essas
merdas de cartaz do Bosh? Isso aqui, ó rasgo pedacinho por
pedacinho e enfio na porra da tua boca, senti o algodão do
guardanapo ser substituído por pedaços de papel. Acabou enfiando o
quadro inteiro em pedacinhos na minha boca, senti que ia morrer
sufocado, o braço dormente, o travesseiro apertando o nariz, as
costelas doíam , a cabeça latejava.”
(Trecho inédito do seu novo romance, “Esquisse”)
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Cinco e-books, sendo que “O bruxo do Contestado” está disponível
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marciosaraiva
MARCIO SALES SARAIVA
Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do
diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo
Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos
de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu
seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para
almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
Saiba como escrever na obviou
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