Sexualidade e Gênero
1. Introdução
Os conceitos de sexualidade e gênero são fundamentais para compreender a experiência
humana, suas relações sociais, afetivas e políticas. Contudo, ambos são construções
sociais e históricas que variam conforme o tempo, a cultura e os contextos institucionais. Na
Psicologia, essas categorias são analisadas em diferentes abordagens, contribuindo para
uma compreensão crítica e ética das subjetividades.
2. Gênero e Sexualidade: Conceitos Fundamentais
2.1 Gênero
O termo "gênero" diz respeito aos papéis, comportamentos, expressões e identidades que
uma sociedade considera apropriados para homens, mulheres e outras identidades. Ele se
diferencia de "sexo", que é designado com base em características biológicas (genitais,
cromossomos, hormônios).
● Judith Butler (1990), em Gender Trouble, propõe que o gênero não é algo que se
"é", mas algo que se "faz", sendo performativo — ou seja, construído por meio de
atos repetidos.
● Joan Scott (1986) afirma que o gênero é uma categoria útil de análise histórica,
revelando relações de poder.
2.2 Sexualidade
A sexualidade abrange aspectos biológicos, emocionais, sociais e culturais do desejo,
orientação sexual, práticas sexuais, identidade sexual e prazer. Não é reduzida apenas ao
ato sexual, mas envolve afetividade, relações interpessoais, valores morais e sociais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define sexualidade como um aspecto central do
ser humano ao longo da vida, que inclui sexo, identidade de gênero, papéis de gênero,
orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução.
3. Contexto Histórico
3.1 Antiguidade
Na Grécia Antiga, a homossexualidade era socialmente aceita em muitos contextos (como a
pederastia entre homens adultos e jovens). Já em Roma, embora houvesse tolerância a
práticas homossexuais, havia também maior rigidez em papéis sexuais ativos e passivos.
3.2 Idade Média
Com a ascensão da Igreja Católica, o corpo passou a ser considerado pecaminoso, e o
sexo, tolerado apenas para a reprodução. Atos sexuais não reprodutivos eram vistos como
pecados.
3.3 Idade Moderna
Com a Reforma e a Contrarreforma, reforça-se a visão do casamento como única forma
legítima de sexualidade. Na medicina e no direito, começa-se a tipificar condutas sexuais
como "desvios", dando origem às categorias modernas como "homossexualidade",
"heterossexualidade", "perversão".
3.4 Século XIX e XX
Com o surgimento da psiquiatria e da sexologia, como em Krafft-Ebing (1886) e Havelock
Ellis (1897), a sexualidade passa a ser objeto de estudo científico. Já Sigmund Freud
inaugura a noção de sexualidade infantil e propõe que a sexualidade está na base do
desenvolvimento psíquico.
● Michel Foucault (1976), em História da Sexualidade, mostra como os discursos
médicos, jurídicos e religiosos passaram a regular e produzir verdades sobre o sexo
e os corpos.
4. Gênero e Sexualidade na Psicologia
4.1 Psicanálise
● Freud vê a sexualidade como uma força motriz do desenvolvimento humano,
introduzindo as fases psicossexuais. Contudo, suas visões sobre homossexualidade
e gênero eram marcadas pelos valores de sua época.
● Lacan amplia o conceito ao inserir o simbólico e a linguagem como estruturantes da
sexualidade.
4.2 Psicologia Humanista
● Abordagens como a de Carl Rogers e Abraham Maslow valorizam a
autodeterminação e a autenticidade da experiência sexual e identitária, defendendo
o respeito às individualidades.
4.3 Psicologia Comportamental e Cognitivo-Comportamental
● Foca nas práticas sexuais, crenças disfuncionais sobre o corpo, prazer e identidade
sexual. É utilizada no tratamento de disfunções sexuais, traumas e afirmação de
identidade de gênero.
4.4 Psicologia Social
● Estuda a construção de estigmas, preconceitos, estereótipos e violência contra
pessoas LGBTQIA+. Sandra Bem, com sua Teoria da Tipificação de Gênero, criou o
Bem Sex-Role Inventory (BSRI), analisando a androginia como traço positivo.
4.5 Psicologia do Desenvolvimento
● Analisa como se desenvolve a identidade de gênero e sexual ao longo da infância e
adolescência. Jean Piaget e Erik Erikson trataram das fases do desenvolvimento
psicossexual e de identidade, embora com lacunas em relação às diversidades de
gênero e orientação.
5. Questões Atuais e Inclusivas
5.1 Diversidade Sexual e de Gênero
A Psicologia contemporânea trabalha com uma noção ampliada de sexualidade,
reconhecendo identidades como transgênero, não binária, assexual, pansexual, entre
outras. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) orienta, por meio da Resolução CFP nº
01/1999, que profissionais da área não devem patologizar a homossexualidade e devem
respeitar as identidades de gênero.
5.2 Violência e Discriminação
O Brasil é um dos países com maiores índices de violência contra pessoas LGBTQIA+. A
Psicologia tem papel fundamental na promoção de práticas clínicas e sociais éticas e
inclusivas.
5.3 Educação e Direitos Humanos
A abordagem da sexualidade e do gênero nas escolas ainda enfrenta resistência. Contudo,
são elementos centrais na construção da cidadania e do respeito aos direitos humanos.
6. Críticas às Teorias Tradicionais
● As teorias psicanalíticas clássicas foram amplamente criticadas por sua
heteronormatividade e androcentrismo.
● A sexologia do século XIX e início do século XX muitas vezes classificava a
homossexualidade como patologia.
● Apenas nas últimas décadas houve avanços na despatologização das identidades
trans e na construção de modelos afirmativos.
7. Referências
● Butler, J. (1990). Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity.
Routledge.
● Foucault, M. (1976). História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro:
Graal.
● Organização Mundial da Saúde (OMS). (2006). Relatório sobre a Saúde no Mundo.
● Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 01/1999.
● Scott, J. W. (1986). “Gender: A Useful Category of Historical Analysis”. The American
Historical Review.
● Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
● CFP (2018). Manual de atuação profissional para psicólogas(os) em relação às
pessoas transexuais e travestis.