NULIDADE
Pertencendo os atos processuais ao gênero dos atos jurídicos, aplicam-se-lhes as exigências comuns de validade de todo
e qualquer destes atos, isto é, o agente deve ser capaz, o objeto, lícito e a forma, prescrita ou não defesa em lei.
LD por Luiz Dammski
C¾µcpø¾ jp NĀ«jajp
As partes, no entanto, além de atender aos requisitos materiais de
capacidade jurídica (maioridade, assistência ou representação), terão
também que satisfazer as exigências do ius postulandi, que só toca aos
advogados regularmente habilitados e inscritos na OAB (CPC/2015, art. 103).
Isso porque, segundo o art. 4º, caput, da Lei 8.906, de 04.07.1994, "são nulos
os atos privativos de advogados praticados por pessoas não inscritas na
OAB" ou por inscritos impedidos ou suspensos. Para o órgão judiciário
também há de se observar o pressuposto da capacidade, que se apresenta in
casu, sob a feição de competência (CF, art. 5º, LIII), ou seja, "ninguém será
processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.
Eìáqcpì jp Vc¾ì j¾ Aø¾ Pä¾cpììĀa«
Por violação aos seus elementos ou requisitos de validade, os atos do processo, como os demais atos jurídicos, recebem
na doutrina múltiplas classificações. Preferimos a de Couture, por julgá-la interessante e bastante razoável para a
abordagem do tema. A classificação adotada, portanto, é a seguinte:
Aø¾ì µpĝìøpµøpì Aø¾ì abì¾«Āøa³pµøp Aø¾ì äp«aøėa³pµøp
Não reúnem os mínimos µĀ«¾ì µĀ«¾ì
requisitos de fato para sua Dispõem da categoria de ato Embora viciados, são capazes
existência como ato jurídico processual mas com defeito de produzir efeitos se a parte
grave em seus requisitos prejudicada não requerer
essenciais invalidação
Atos Inexistentes
Ato inexistente é o que não reúne os mínimos requisitos de fato para sua existência como ato jurídico, do qual não
apresenta nem mesmo a aparência exterior. O problema da inexistência, dessa forma, não se situa no plano da eficácia,
mas sim no plano anterior do ser ou não ser, isto é, da própria vida do ato.
Com relação ao ato juridicamente inexistente, não se pode sequer falar de ato jurídico viciado, pois o que há é um simples
fato, de todo irrelevante para a ordem jurídica. Falta-lhe um elemento material necessário à sua configuração jurídica.
Assim, por exemplo, é inexistente o ato falsamente assinado em nome de outrem. O dado fático 3 declaração de vontade
do signatário 3 nunca existiu, nem mesmo defeituosamente.
Noção de Nulidade
A nulidade é, portanto, uma sanção que incide sobre a declaração de vontade contrária a algum preceito do direito
positivo. Essa sanção 3 privação de validade 3 admite, porém, graus de intensidade. Quando a ilegalidade atinge a tutela
de interesses de ordem pública, ocorre a nulidade (ou nulidade absoluta), que ao juiz cumpre decretar de ofício, quando
conhecer do ato processual viciado (não depende, pois, de requerimento da parte prejudicada; o prejuízo é suportado
diretamente pela jurisdição).
Sempre, porém, que a ilegalidade tiver repercussão sobre interesse apenas privado da parte (que, por isso, tem
disponibilidade do direito tutelado pela norma ofendida), o que ocorre é a anulabilidade (ou nulidade relativa). Pela menor
repercussão social do vício, a lei reserva para o titular da faculdade prejudicada o juízo de conveniência sobre anular ou
manter o ato defeituoso. Não cabe ao juiz, por sua própria iniciativa, decretar a invalidação de ato apenas anulável. Sem o
requerimento da parte interessada, o ato se convalida (é como se não portasse o defeito que nele se instalou).
Nulidade Absoluta Nulidade Relativa
Atinge interesses de ordem pública Atinge interesse privado da parte
Decretada de ofício pelo juiz Depende de requerimento do interessado
Independe de requerimento da parte Convalida-se sem manifestação da parte
Atos Absolutamente Nulos
O ato absolutamente nulo já dispõe da categoria de ato processual; não é mero fato como o inexistente; mas sua condição
jurídica mostra-se gravemente afetada por defeito localizado em seus requisitos essenciais. Havendo ainda oportunidade
para a prática eficaz do ato nulamente realizado, deverá o juiz ordenar sua repetição (CPC/2015, art. 282, caput). Caso
contrário, a parte sofrerá as consequências da preclusão e, para todos os efeitos, ter-se-á o ato como não praticado.
Uma das características do ato processual nulo, que o distingue do ato jurídico comum, é que o vício que o contamina, por
mais grave que seja, não impede que produza efeitos dentro do processo. A nulidade dependerá sempre de
pronunciamento judicial que a reconheça, nunca operando por si mesma.
Exemplo de ato absolutamente nulo é o da citação, com inobservância das prescrições legais (art. 280); e, consequente,
nula de pleno direito será também a sentença que vier a ser proferida no processo, se tiver ocorrido a revelia do réu (arts.
525, § 1º, I, e 535, I). Em qualquer época que se pretender opor os efeitos de tal sentença ao réu, lícito lhe será arguir a
nulidade e obter do juiz a sua decretação. Isto não quer dizer que o ato nulo, embora insanável, não possa ser suprido por
outro de igual efeito. Assim a citação nula, ou mesmo inexistente, pode ser suprida pelo comparecimento do réu ao
processo.
Aø¾ì Rp«aøėa³pµøp NĀ«¾ì
A nulidade relativa ocorre quando o ato, embora viciado em sua formação, mostra-se capaz de produzir seus efeitos
processuais, se a parte prejudicada não requerer sua invalidação. O defeito, aqui, é muito mais leve do que o que se nota
nos atos absolutamente nulos, por recair sobre interesses privados (disponíveis) do litigante;
O traço que mais distingue a nulidade absoluta da relativa, em matéria de processo civil, é o da iniciativa: a nulidade
absoluta é decretável de ofício pelo juiz, enquanto a relativa depende de provocação da parte prejudicada. Em síntese,
pode-se dizer que as nulidades relativas ocorrem quando se violam faculdades processuais da parte (cerceamento do
direito ao contraditório e ampla defesa), e as absolutas quando se ofendem regras disciplinadoras dos pressupostos
processuais e condições da ação.
Exemplo de nulidade absoluta é a do processo presidido por juiz absolutamente incompetente; e de nulidade relativa, a que
ocorre quando a incompetência é apenas relativa.
V¾«afã¾ jp acĀ«jajp Paäøp áäp¥Ājcaja jpµøca RpãĀpä³pµø¾ ¾ä³a«
áä¾cpììĀa« ¾ ėc¾ Solicitação de invalidação do ato
Cerceamento do direito ao Avaliação do prejuízo causado
contraditório
NĀ«jajp j¾ Pä¾cpìì¾ p NĀ«jajp j¾ Aø¾
Pä¾cpììĀa«
A nulidade pode atingir toda a relação processual ou apenas um determinado ato do procedimento. Há nulidade do
processo, quando se desatende aos pressupostos de constituição válida a desenvolvimento regular da relação processual,
ou quando existe impedimento processual reconhecido, ou então pressuposto negativo concernente ao litígio (CPC/2015,
art. 337, § 5º).
Como o ato processual não tem vida autônoma, pois forma um tecido ou uma cadeia com os diversos atos que integram o
procedimento, incumbe ao juiz, ao pronunciar a nulidade, declarar que atos são atingidos, ordenando, ainda, as
providências necessárias, a fim de que sejam repetidos ou retificados (art. 282).
Haverá, para o Código, nulidade de todo o processo, como lembra Frederico Marques:
quando se registrar falta não suprida pelo juiz, da autorização marital ou da outorga uxória, se necessária (art. 74,
parágrafo único);
quando, em certos casos previstos no Código, omitir-se o autor na prática de atos ordenados pelo juiz, para sanar
nulidade do processo ou de atos processuais (arts. 76, § 1º, I;104, § 2º; 313, § 3º, e 321, parágrafo único).
Há, também, nulidade do processo, segundo o art. 279, caput, quando o Ministério Público não foi intimado a acompanhar
o feito em que deva intervir. Via de regra essas nulidades são consideradas absolutas.
Päµcá¾ ja Iµìøä³pµøa«jajp jaì F¾ä³aì
O princípio que inspirou o Código, nesse passo, foi o que a doutrina chama de princípio da instrumentalidade das formas e
dos atos processuais, segundo o qual o ato só se considera nulo e sem efeito se, além de inobservância da forma legal,
não tiver alcançado a sua finalidade. Assim, dispõe o art. 277 do CPC/2015 que "quando a lei prescrever determinada
forma, o juiz considerará válido o ato se, realizado de outro modo, lhe alcançar a finalidade", o que evidencia a fidelidade de
nossa lei à lição de Liebman no sentido de que "é necessário evitar, tanto quanto possível, que as formas sejam um
embaraço à plena consecução do escopo do processo; é necessário impedir que a cega observância da forma sufoque a
substância do direito".
Segundo a ideologia inspiradora do atual CPC, prevalece na matéria o princípio básico da primazia da resolução do mérito,
incumbindo ao juiz, mesmo em casos de grave infração de normas processuais, dar oportunidade à parte de sanar os
defeitos, ou suprir as faltas, antes de extinguir o processo sem apreciação do meritum causae (arts. 139, IX; 352 e 932,
parágrafo único).
Entretanto, em qualquer caso, mesmo quando haja expressa cominação de nulidade para a inobservância de forma, o juiz
não decretará a nulidade nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta:
AĀìuµca jp áäp¥ĀĨ¾ Dpcìã¾ aė¾äáėp«
Se não houve prejuízo para a parte (art. 282, § 1º) Quando puder decidir do mérito a favor da parte a
quem aproveite a decretação da nulidade (art. 282, §
2º)
Caì¾ì Eìápcc¾ì jp NĀ«jajp
A rigor, ato nulo de pleno direito é só aquele que contamina o processo de nulidade e o inutiliza inteiramente, como se dá
na omissão do autor no cumprimento das diligências que lhe determina o juiz nas hipóteses dos arts. 76, § 1º, I; 104; 313,
§ 3º, e 321, ou quando um juiz de grau inferior pratica atos privativos de Tribunal Superior, como processar e julgar ação
rescisória de sentença, em violação às regras de competência hierárquica.
Mas apenas anuláveis são os atos decisórios, por exemplo, praticados com violação da competência absoluta, entre juízes
do mesmo grau de jurisdição. As decisões do juiz incompetente permanecerão válidas enquanto não modificadas pelo juiz
competente (art. 64, § 3º).
Há casos de nulidade expressa, como a da falta de intervenção do Ministério Público (art. 279) e da ausência de outorga
uxória não suprida pelo magistrado (art. 74, parágrafo único) que obviamente são casos de nulidade absoluta por
determinação da própria lei. Mas nem essas nulidades escapam à incidência do princípio da instrumentalidade, pois sem
prejuízo do interesse tutelado não haverá invalidação do processo, i.e., não se anulará o processo se a sentença de mérito
foi favorável ao titular do interesse questionado (a mulher, o incapaz etc.).
Tipo de Nulidade Exemplo Consequência
Nulidade de pleno direito Omissão do autor no cumprimento Inutilização completa do processo
de diligências
Atos anuláveis Violação de competência absoluta Decisões válidas até modificação
entre juízes do mesmo grau pelo juiz competente
Nulidade expressa Falta de intervenção do Ministério Nulidade absoluta por
Público determinação legal
Arguição das Nulidades
Diante do que já se expôs, as nulidades, no sistema do Código, só poderão ser decretadas a requerimento da parte
prejudicada e nunca por aquela que foi a sua causadora (CPC/2015, art. 276). Por exemplo, o autor que numa ação real
imobiliária não promoveu a citação da mulher do réu e veio a perder a causa não poderá pretender anular o processo pela
inobservância do disposto no art. 73, § 1º, I.
Para a arguição, o réu pode usar a contestação ou petição simples. O autor também pode pedir nulidade em petição
simples. É possível também a invocação de nulidade em razões de apelação ou em alegações orais de audiência, por
qualquer das partes e pelo Ministério Público.
Por outro lado, embora admita o Código que o juiz decrete de ofício as nulidades absolutas (art. 278, parágrafo único), fica-
lhe vedada essa decretação nos casos de falta de prejuízo para a parte (art. 282, § 1º) e de possibilidade de julgamento de
mérito em favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade (art. 282, § 2º).
M¾³pµø¾ ja AäĀfã¾ p Epø¾ì ja Dpcäpøafã¾
M¾³pµø¾ ja AäĀfã¾ Epø¾ì ja Dpcäpøafã¾
A nulidade relativa deve ser arguida pela parte interessada "Anulado o ato, consideram-se de nenhum efeito todos os
em sua decretação na primeira oportunidade em que lhe subsequentes, que dele dependam" (CPC/2015, art. 281),
couber falar nos autos, após o ato defeituoso, sob pena de pois, como já se afirmou, o ato processual não tem vida
preclusão (CPC/2015, art. 278), isto é, de perda da isolada, mas apenas dentro do contexto dos diversos atos
faculdade processual de promover a anulação. que compõem o procedimento, em que se dá um
encadeamento, sem solução de continuidade, desde a
Permite o parágrafo único do art. 278 que a parte elida a
propositura da ação até final julgamento da lide.
preclusão, provando legítimo impedimento, que não lhe
permitiu a alegação no momento adequado. Um desdobramento dessa mesma norma se encontra no
art. 283, em que se dispõe que "o erro de forma do
Se, porém, a nulidade for absoluta, como a falta de citação
processo acarreta unicamente a anulação dos atos que
do cônjuge nas ações reais ou a intervenção do Ministério
não possam ser aproveitados, devendo ser praticados os
Público nos casos do art. 178, não prevalece a preclusão,
que forem necessários, a fim de se observarem, quanto
de sorte que a alegação pode ser feita em qualquer fase
possível, as prescrições legais". Esse aproveitamento dos
do processo, salvo as exceções tratadas nos nos 421 e
atos praticados, porém, só poderá ser feito se não houver
422, retro.
prejuízo para a defesa de qualquer parte (art. 283,
Uma característica especial das nulidades processuais é a parágrafo único).
sanação de todas elas pela preclusão máxima operada
por meio da coisa julgada. Mesmo as nulidades absolutas
não conseguem ultrapassar a barreira da res iudicata, que
purga o processo de todo e qualquer vício formal
eventualmente ocorrido em algum ato praticado
irregularmente em seu curso.
Há, porém, vícios fundamentais que inutilizam o próprio
processo, como relação processual, a exemplo da falta ou
nulidade da citação. Neste caso o defeito não é sanado
pela preclusão da coisa julgada porque para formar-se a
res iudicata é indispensável a existência de um processo
válido, e sem a citação regular, ou sem o comparecimento
do réu que a supre, não se pode sequer cogitar de
processo. Daí por que a nulidade absoluta da sentença
proferida à revelia do réu pode ser utilizada como simples
matéria de defesa em embargos à execução, mesmo
depois de operada, aparentemente, a coisa julgada (art.
535, I).