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Cumbe

O artigo analisa a tradução da graphic novel Cumbe, de Marcelo D’Salete, para o inglês, intitulada Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom. O foco é entender como as escolhas tradutórias e a recepção da obra influenciam a construção de significados, considerando aspectos étnico-raciais e as estratégias utilizadas para suavizar a opressão racial retratada. Utilizando Estudos Descritivos da Tradução e outros referenciais teóricos, os autores discutem a complexidade da tradução em contextos culturais específicos.

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O artigo analisa a tradução da graphic novel Cumbe, de Marcelo D’Salete, para o inglês, intitulada Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom. O foco é entender como as escolhas tradutórias e a recepção da obra influenciam a construção de significados, considerando aspectos étnico-raciais e as estratégias utilizadas para suavizar a opressão racial retratada. Utilizando Estudos Descritivos da Tradução e outros referenciais teóricos, os autores discutem a complexidade da tradução em contextos culturais específicos.

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Artículo recibido: 30/04/2019

Artículo aceptado: 28/06/2019


DOI: 10.17533/udea.mut.v12n2a04
ISSN 2011-799X

De Cumbe a Run for It:


tradução e questões étnico-raciais1

Luciana de Mesquita Silva


[email protected]
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca,
Rio de Janeiro, Brasil

Fabio Sampaio de Almeida


[email protected]
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca,
Rio de Janeiro, Brasil

Maria Cristina Giorgi


[email protected]
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca,
Rio de Janeiro, Brasil

Alexandre de Carvalho Castro


[email protected]
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca,
Rio de Janeiro, Brasil

Resumo
Cumbe (2014), de Marcelo D’Salete, é um romance gráfico que retrata a resistência dos negros escravizados
durante o período colonial no Brasil, a partir de suas perspectivas. Neste artigo, abordamos a tradução de Cum-
be para o inglês: Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom (2017). Considerando as relações entre
linguagem, tradução e questões étnico-raciais, nosso objetivo é compreender como as escolhas tradutórias
e a recepção da obra constroem sentidos em seu contexto de publicação. Para tal, analisamos os paratextos
que compõem o livro (capa, quarta capa, notas de rodapé, entre outros) e fragmentos selecionados da obra.
Como referencial teórico e metodológico utilizamos os Estudos Descritivos da Tradução (Lambert e Van
Gorp, 1985; Toury, 1995; Bassnett e Lefevere, 1990; Tymoczko, 1999) em diálogo com os Estudos Culturais
(Tymoczko, 2007) e os Estudos do Discurso (Bakhtin, 2000; Rocha, 2014; Maingueneau, 2008). Os principais
resultados apontam para determinadas estratégias tradutórias que propõem sentidos com o intuito de didatizar

1 Este artigo é produto de discussões do Grupo de Pesquisa do diretório do CNPq “Práticas discursivas na produ-
ção de identidades sociais: Fatores humanos, organizações, trabalho, tecnologia e sociedade”, no CEFET/RJ, liderado
pelos professores Alexandre de Carvalho Castro e Maria Cristina Giorgi. Uma primeira versão desta pesquisa foi
apresentada no congresso da Latin American Studies Association (LASA), em Barcelona, em 2018.
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

a experiência de leitura do texto em seu novo contexto e suavizar a opressão racial imposta aos escravizados
no Brasil, tal como foi retratada na obra de D’Salete.
Palavras-chave: Cumbe, Run for It, questões raciais, Estudos Descritivos da Tradução, Estudos Culturais, Es-
407
tudos do Discurso

De Cumbe a Run for It: traducción y cuestiones étnico-raciales


Resumen:
Cumbe (2014), de Marcelo D’Salete, es una novela gráfica que retrata la resistencia de los negros esclavizados
durante el período colonial en Brasil, desde sus perspectivas. En este artículo, abordamos la traducción de
Cumbe al inglés: Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom (2017). Al considerar las relaciones entre
lenguaje, traducción y cuestiones étnico-raciales, nuestro objetivo es comprender cómo las elecciones del tra-
ductor y la recepción de la obra construyen sentidos en su contexto de publicación. Para esto, analizamos los
paratextos que componen el libro (portada, contraportada, notas a pie de página, entre otros) y fragmentos
seleccionados de la obra. Como marco teórico y metodológico usamos los estudios descriptivos de la traduc-
ción (Lambert y Van Gorp, 1985; Toury, 1995; Bassnett y Lefevere, 1990; Tymoczko, 1999) en diálogo con los
Estudios Culturales (Tymoczko, 2007) y los estudios del discurso (Bakhtin, 2000; Rocha, 2014; Maingueneau,
2008). Los principales resultados apuntan a determinadas estrategias de traducción que proponen sentidos con
el objetivo de didactizar la experiencia de lectura del texto en su nuevo contexto y suavizar la opresión racial
impuesta a los esclavizados en Brasil, tal como fue retratada en la obra de D’Salete.
Palabras-clave: Cumbe, Run for It, cuestiones raciales, estudios descriptivos de traducción, estudios culturales,
estudios del discurso

From Cumbe to Run for It: translation and ethnic-racial issues


Abstract:
Cumbe (2014), by Marcelo D’Salete, is a graphic novel that portrays the resistance of blacks enslaved during
the colonial period in Brazil, from their perspectives. In this article, we approach Cumbe’s translation into
English: Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom (2017). Considering the relations between
language, translation and ethnic-racial issues, our aim is to understand how the translation choices and the
reception of the work construct meanings in their context of publication. For this purpose, we analyze the
paratexts that compose the book (cover, back cover, footnotes, among others) and selected fragments of the
work. As a theoretical and methodological reference, we use Descriptive Translation Studies (Lambert and
Van Gorp, 1985; Toury, 1995; Bassnett and Lefevere, 1990; Tymoczko, 1999) in dialogue with Cultural Studies
(Tymoczko, 2007) and Discourse Studies (Bakhtin, 2000; Rocha, 2014; Maingueneau, 2008). The main results
point to certain translation strategies that propose meanings in order to make the experience of text reading
didactic in its new context and to soften the racial oppression imposed on enslaved people in Brazil, portrayed
in D’Salete’s work.
Keywords: Cumbe, Run for It, racial issues, Descriptive Translation Studies, Cultural Studies, Discourse Studies

Mutatis Mutandis. Vol. 12, N.° 2, 2019, julio-diciembre, pp. 406-432


Luciana de Mesquita Silva/Fabio Sampaio de Almeida/Maria Cristina Giorgi/
Alexandre de Carvalho Castro

1. Introdução mentada, distinguindo-se, assim, das HQs mais


tradicionais.
408 Iniciamos este artigo com o pensamento de
que a tradução não é um mero processo de O romance gráfico Cumbe foi escrito e ilustra-
transposição linguística de uma língua para do pelo brasileiro Marcelo D’Salete, publica-
outra. Nela estão envolvidos fatores ideoló- do em 2014 e reeditado em 2018 pela Editora
gicos, históricos, culturais, editoriais, entre Veneta. Essa obra se constitui de quatro nar-
outros, os quais exercem um papel preponde- rativas que retratam a luta dos escravizados
rante na elaboração do produto final. Além durante o período colonial brasileiro –entre
disso, se consideramos a diversidade cultural os séculos XVI e XIX– a partir de seus próprios
em que vivemos, mesmo diante de um mun- pontos de vista. Tal temática se desenvolve
do globalizado, surgem inúmeros desafios no no livro pelas imagens, que demonstram uma
que diz respeito à tradução de determinados postura ativa das personagens: os negros no
gêneros discursivos. É o caso das histórias em movimento de resistência ao sistema de traba-
quadrinhos (HQs), que possuem característica lho forçado; bem como pelo uso de uma lin-
multimodal por serem compostas de texto ver- guagem verbal que mistura termos da língua
bal e visual, linguagens que atuam conjunta- portuguesa com vocábulos de origem africa-
mente na construção de sentidos da narrativa. na, vinculados principalmente às línguas con-
O mesmo se pode dizer dos romances gráfi- go e angola.
cos, também conhecidos como novelas gráficas,
gênero de quadrinhos que caracteriza a obra Assim, os desafios para a tradução se rela-
foco desta pesquisa. cionam não apenas ao fato de Cumbe ser um
romance gráfico, como também por se tratar
Foi no fim da década de 1970 que surgiram de uma obra engajada em questões étnico-
obras que se apresentavam explicitamente -raciais. Sobre a relação de tais questões com
como Graphic Novels. Estas causaram um efe- a atividade tradutória, Denise Carrascosa
tivo impacto editorial, destacando-se a publi- (2017) afirma que a linguagem é um elemen-
cação em 1978 de A Contract with God, de Will to preponderante na construção de culturas
Eisner. Posteriormente, 1986 foi marcado pelo afrodiaspóricas e, devido a isso, torna-se im-
lançamento de Batman: o Cavaleiro das Trevas, portante acionar características desse elemen-
de Frank Miller e Maus, de Arnoul Spielge- to, tais como formas, ritmos, ritos, gestos e
man. Esses produtos quadrinhísticos se torna- imagens no texto traduzido. Nas palavras da
ram sucessos de venda e representaram uma autora: “esse conjunto de traços que deriva-
verdadeira ruptura com o que tinha sido feito ram, dentre tantos outros, da força cultural
antes, por serem mais ousados do que as HQs afrodiaspórica, são fundamentais no exercício
anteriores do ponto de vista discursivo e esté- político de tradução de seus textos literários,
tico, devido à forma adulta com que trataram mesmo porque eles estão aí intimamente im-
temas humanos e sociais. Como consequên- bricados, fazendo parte dessa matriz de pro-
cia, as produções –em formato de um livro dução” (Carrascosa, 2017, p. 72).
em quadrinhos– passaram a contar com mais
sofisticação, fato que possibilitou às editoras Por conseguinte, com o objetivo de investigar
vender esse material com preço mais elevado. de que modo essas questões foram trabalha-
Foi nesse contexto que a designação romance das na tradução da obra para a língua inglesa
gráfico foi construída como uma marca seg- e, além disso, como se configurou seu con-
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

texto de publicação, propomos o presente ar- contexto de tradução e publicação de Run for
tigo. Dessa forma, trazemos para este texto It e terminamos com as considerações finais.
reflexões sobre Run for It: Stories of Slaves Who
409
Fought for Their Freedom (2017), traduzido por
2. Estudos Descritivos da Tradução,
Andrea Rosenberg e publicado pela Editora
questões socioculturais, ideológicas
Fantagraphics Books. Para isto, utilizamos
e de poder
como arcabouço teórico os Estudos Descriti-
vos da Tradução (edt). Entretanto, tendo em Um dos principais autores dos Estudos Des-
vista que os edt são um campo em expansão critivos da Tradução (edt), Gideon Toury
e com possibilidades de abertura de conexões (1995), parte do princípio de que todo texto
com diferentes áreas de estudos, defendemos que circulou ou que foi aceito como tradução
a necessidade da introdução de discussões in- em um contexto cultural e em um momento
terdisciplinares. Por essa razão, consideramos histórico específico é considerado uma tradu-
igualmente os Estudos Culturais, os Estudos ção. Além disso, para ele, a cultura-meta, ou
do Discurso, entre outros. Afinal, como afir- seja, a cultura em que a tradução é publicada,
ma Lambert (2017), ainda que a pesquisa em orienta não apenas a escolha dos textos que
tradução esteja muito vinculada a questões de serão traduzidos, como também os procedi-
língua(s), não se podem deixar de lado as so- mentos tradutórios que serão empregados e a
ciedades e os tradutores que compõem essas função que será exercida pela tradução. Esse
línguas, as ideologias, a religião, a mídia e as cenário, portanto, é marcado por regularida-
editoras com suas políticas editoriais. des nas conexões entre a função, o processo
e o produto, ou seja, entre o objetivo da tra-
Nesse sentido, como somos um grupo forma- dução na cultura receptora, as estratégias de
do por pesquisadores tradutores, linguistas tradução adotadas e o resultado final. Como
aplicados e psicólogos sociais, procuramos a construção do produto se propõe a atender
refletir acerca de questões de tradução que a demandas ou preencher lacunas em um sis-
transcendem os limites disciplinares, que refu- tema literário, algumas características do tex-
tam verdades únicas e investigadores neutros. to-fonte são conservadas na tradução não por
Alinhamo-nos, portanto, a uma lógica inves- serem relevantes por si sós, mas sim devido à
tigativa que propõe como exigência: “que se sua importância para a cultura-meta (Toury,
trabalhe em grupo, que se respeite o outro, que 1995). Entre as contribuições de Toury para
se trate o conhecimento como atividade e não o desenvolvimento dos edt, na visão de Gent-
como mercadoria, que se tenha humildade zler (2001), estão o abandono de ideias como
para ouvir o outro e para expor perguntas e a noção tradicional de equivalência linguísti-
dúvidas ingênuas” (Bicudo, 2008, p. 146). ca e literária e a existência de uma mensagem
original contendo uma identidade fixa; a ob-
Na próxima seção, discorremos sobre as re- servação de tendências literárias do sistema
lações entre os edt e aspectos socioculturais, de recepção na produção do texto traduzido;
ideológicos e de poder. Posteriormente, apre- e a interseção do texto-fonte com o texto-me-
sentamos uma discussão específica sobre as ta por meio de uma rede de sistemas culturais
HQs, incluindo os romances gráficos. Em se- que se relacionam.
guida, começamos a dialogar com Cumbe den-
tro do âmbito das questões raciais no Brasil. Assim como Toury, José Lambert e Hendrik
Depois, trazemos nossas análises relativas ao Van Gorp (1985) tornaram-se referências im-

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Luciana de Mesquita Silva/Fabio Sampaio de Almeida/Maria Cristina Giorgi/
Alexandre de Carvalho Castro

portantes para os edt. Segundo os autores, tiva ampla e sistêmica e leve em conta as espe-
no que diz respeito à comparação entre texto- cificidades de cada contexto cultural.
410 -fonte e texto-meta, ela deve ser considerada
em uma dimensão mais abrangente do que o Bassnett e Lefevere (1990), por sua vez, afir-
simples cotejo linguístico entre os dois textos. mam que a tradução é uma forma de reescri-
Soma-se a isso o fato de que toda compara- ta e “[...] como todas as (re)escritas nunca é
ção entre textos é/será submetida a seleções inocente. Há sempre um contexto em que a
por parte do pesquisador, uma vez que não há tradução ocorre, sempre uma história da qual
como realizar esse procedimento somente co- um texto emerge e para a qual um texto é
locando-os lado a lado. Desse modo, especifi- transposto” (tradução nossa)2. Com essa con-
camente na análise da tradução de Cumbe para cepção, a tradução passa a ser vista como uma
a língua inglesa, escolhemos trechos de Run representação do texto-fonte fundamentada
for It que, ao nosso ver, se constituem como em determinados valores ideológicos (Tymo-
elementos relevantes para uma reflexão acer- czko, 2007) que irão definir a construção do
ca dos modos de construção da função, do produto final. Nesse sentido, realizada a ser-
processo e do produto em questão no contexto viço do poder, a tradução está submetida a
de chegada. mecanismos de controle internos ou externos.
Conforme Lefevere (1992), os mecanismos
Ainda considerando os pensamentos de Lam- de controle internos são representados por
bert e Van Gorp, eles propuseram a criação reescritores –tradutores, críticos, professores
de uma metodologia para descrever e explicar de literatura e revisores–, os quais tendem a
traduções, fundamentada em ideias como a manipular as obras literárias de acordo com a
relevância de diferentes sistemas, além do lite- poética e a ideologia dominantes em dada cul-
rário, na composição de determinada cultura; tura e em dado momento histórico. Já os me-
a relação complexa e dinâmica entre o autor, canismos de controle externos se relacionam
o texto e o leitor da cultura-fonte e o autor, o à patronagem: indivíduos ou instituições com
texto e o leitor da cultura-meta; e as escolhas autoridade para regular a produção, a divulga-
do tradutor moldadas pelas normas vigentes ção, a leitura e a reescrita da literatura. Entre
no contexto de recepção. Estas são as etapas eles se encontram partidos políticos, associa-
que constituem a metodologia em questão ções religiosas, editoras e veículos midiáticos.
(Lambert e Van Gorp, 1985): a) dados prelimi- A patronagem é constituída por um compo-
nares: títulos, paratextos (capa, quarta capa, nente ideológico, que determina o desenvol-
prefácio, posfácio, notas, entre outros), meta- vimento tanto da forma quanto do conteúdo
textos (apresentações, ensaios, críticas sobre do produto final; um componente econômico,
a obra) e composição estrutural da tradução; por meio do financiamento dos trabalhos de
b) macronível: segmentação do texto, títulos escritores e reescritores; um componente de
de capítulos e seções, constituição interna da status, a partir do qual submeter-se à patrona-
narrativa e comentários do autor; c) microní-
vel: mudanças em níveis fônicos, gráficos, gra-
maticais e estilísticos; d) contexto sistêmico:
2 Versão em inglês: “[…] like all (re)writings [transla-
oposições entre micro e macroníveis, relações tion] is never innocent. There is always a context in
intertextuais e intersistêmicas. Dessa maneira, which the translation takes place, always a history from
os autores defendem um estudo de literatura which a text emerges and to which a text is transposed.”
traduzida que se caracterize por uma perspec- (Bassnett e Lefevere, 1990, p. 11)
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

gem significa integrar-se a um grupo e a um produções textuais, como também as condi-


estilo de vida. ções em que um texto é escrito, vendido, di-
vulgado e lido. Nesse diálogo entre os edt e 411
Bassnett e Lefevere, desse modo, colaboram os Estudos Culturais, é relevante destacar os
para o pensamento sobre tradução ao conside- estudos que conectam teorias pós-coloniais a
rarem fatores como quem reescreve, por que tradução literária, abordando questões de po-
motivo, sob quais circunstâncias e para que der e de ideologia.
público-alvo. As palavras de Marcia Martins
(2002) demonstram a relevância dos autores Como uma maneira de ilustrar esse cenário,
mencionados para o campo dos edt: Tymoczko (1999) trata das dificuldades en-
frentadas pelo tradutor ao lidar com textos
Suas ideias com respeito à interação do texto traduzi- provenientes de culturas marginalizadas –ge-
do com a cultura e suas estruturas de poder são fun- ralmente situados à distância dos cânones lite-
damentais para se entender o papel das editoras e das rários– visto que eles são carregados de parti-
instituições que, através de incentivo e patrocínio, in- cularidades linguísticas, históricas e culturais.
terferem nas decisões editoriais e na implementação Assim, o tradutor terá que tomar decisões
de políticas culturais. (Martins, 2002, p. 41) sobre o que irá traduzir ou buscar um modo
de constituição do produto que abra espaço
Além disso, é importante ressaltar que as contri- para o uso de elementos paratextuais, incluin-
buições dos teóricos em questão foram determi- do prefácios, posfácios e notas de rodapé. O
nantes para a chamada “virada cultural” nos Es- tradutor, nesse sentido, deve fazer escolhas,
tudos da Tradução (Bassnett e Lefevere, 1990). o que irá levar a perdas e ganhos no trânsito
entre diferentes línguas e culturas, escolhas
Com respeito às relações entre a abordagem essas que serão baseadas em parâmetros ideo-
descritivista dos Estudos da Tradução e os Es- lógicos específicos e fatores externos como os
tudos Culturais, Tymoczko (2007) tece impor- seguintes: “[...] a identidade e as afiliações do
tantes considerações: a) a tradução apresenta autor, a identidade e as afiliações do tradutor,
registros de interações entre culturas que po- as conexões do tradutor com movimentos so-
dem ser analisados por pesquisadores; b) a tra- ciais e políticos, o contexto de recepção (tais
dução é marcada por uma interface de línguas como críticas, censura, ações legais) da tradu-
e produtos culturais, tornando visíveis as simi- ção” (tradução nossa)3. Valente e Silva (2015)
laridades e diferenças entre eles; c) a tradução ilustram esse pensamento de Tymoczko ao
revela o uso de determinadas atitudes ideoló- abordarem determinados desafios para a tra-
gicas, o que é assunto de interesse dos Estu- dução de obras afrodiaspóricas, tais como as
dos Culturais; d) assim como grande parte dos das escritoras Conceição Evaristo e Toni Mor-
objetos de análise dos Estudos Culturais, as rison, marcadas por elementos dialetais e cul-
traduções são geralmente marginalizadas; e) o
aspecto econômico, bem como os sistemas de
patronagem e de poder são evidentes nos pro-
cessos de tradução e considerados também no 3 Versão em inglês: “[…] the identity and affiliations of
the author, the identity and affiliations of the translator,
âmbito dos Estudos Culturais. Susan Bassnett
the connections of the translator with social and politi-
(1998) já havia feito referência a essas ideias cal movements, the reception context (such as reviews,
ao destacar, por exemplo, a importância de se censorship, legal action) of translation.” (Tymoczko,
observar não só a manipulação existente em 2010, p. 233)

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Alexandre de Carvalho Castro

turais específicos. Com relação às literaturas Considerando, então, essa necessária articula-
da diáspora negra: ção entre tradução e relações de poder, recor-
412 remos, no campo dos Estudos do Discurso, à
[...] independentemente da língua em que sejam es- concepção de linguagem-intervenção propos-
critas, esses elementos culturais são itens de grande ta por Rocha (2014), para quem o discurso
importância, uma vez que fazem parte do universo não caracteriza uma simples representação
de um povo historicamente subjugado e relegado à do mundo, mas um modo de intervir e inven-
marginalidade e revelam uma postura de resistência
tar esse mundo, produzindo formas de vida e
ao padrão branco e eurocêntrico por parte de au-
subjetividades. Paralelamente, usamos a no-
toras como Morrison e Evaristo. (Valente e Silva,
2015, p. 432) ção de discurso descrita como prática discur-
siva (Maingueneau, 2008), isto é, a produção
Ainda conforme Tymoczko (1999), “[...] cer- simultânea de textos e comunidades por um
tos aspectos ou atributos do texto-fonte aca- viés que relaciona o linguístico ao social. Des-
bam representando o texto-fonte como um se modo, o texto-meta, produzido pelo proces-
todo na tradução. Por definição, portanto, a so tradutório, pode ser entendido como práti-
tradução é metonímica” (tradução nossa)4.Ty- ca discursiva que desloca os sentidos de uma
moczko ressalta, com isso, que, para o público língua a outra considerando as tensões cultu-
leitor no contexto de recepção, a tradução, sen- rais e as relações de poder que se instauram.
do metonímica, constrói uma imagem –como
já tinha sido observado por Lefevere (1990)–, Na próxima seção, discutimos as histórias em
uma tradição literária, uma cultura e um povo quadrinhos (comics), em geral, e os romances
ao se constituir de determinados elementos gráficos, em específico, como gêneros dis-
que caracterizarão um conjunto. Gentzler e cursivos multimodais e intersemióticos, rela-
Tymoczko (2002) ampliam essa discussão e cionando-os ao seu contexto de produção e
asseveram que, ao reconhecer a natureza frag- circulação. Ainda refletimos sobre como sua
mentária da tradução, o pesquisador deve se especificidade, a relação entre verbal e visual,
preocupar tanto com os elementos do texto- atua na produção de sentidos.
-fonte que foram conservados no texto-me-
ta, quanto com os apagamentos textuais e a 3. Histórias em quadrinhos
ausência de algumas traduções em um dado como práticas intersemióticas
sistema cultural. Observar o contexto históri-
co de uma tradução, no sentido de verificar os A tradução de histórias em quadrinhos em
possíveis mecanismos de poder vigentes, tam- geral –bem como a de romances gráficos– en-
bém deve ser um fator a ser considerado, de seja algumas especificidades que decorrem do
acordo com os autores. Dessa forma, a “vira- caráter multimodal desse gênero discursivo5.
da cultural” nos Estudos da Tradução abriu
caminho para uma “virada do poder” (Gent- 5 Entendemos gêneros discursivos pela perspectiva
zler e Tymoczko, 2002, p. 16). bakhtiniana, para quem esses constituem: “tipos re-
lativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin, 2000,
p. 279) que se relacionam à utilização da língua em
diferentes esferas da atividade humana. Conforme o
4 Versão em inglês: “[…] certain aspects or attributes autor, “o enunciado reflete as condições específicas
of the source text come to represent the entire source e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só
text in translation. By definition, therefore, translation por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal,
is metonymic.” (Tymoczko, 1999, p. 55) ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

Como explica Silva (2014, p. 129): “o texto curso (Bakhtin, 2000; Maingueneau, 2008) e
traduzido deve caber nos espaços que não fo- dos estudos semióticos sobre quadrinhos (Eis-
ram feitos para ele, mas sim para o texto de ner, 2010; Groensteen, 2015).
413
partida, ou seja, os espaços dos balões, as ono-
matopeias, as palavras desenhadas”. O autor Ao tratar da produção de sentidos de textos
ainda destaca que na tradução da HQ a inter- que constituem uma determinada formação
venção do tradutor não se dá sobre a imagem, discursiva, Maingueneau (2008) usa o termo
mas sobre o texto verbal, e às vezes, sobre o intersemiótico, ou mais especificamente prática
texto verbal tratado como imagem. Esse tam- intersemiótica, para descrever práticas discur-
bém é o pensamento de Assis (2016). Para ele: sivas que se constituem no encontro de duas
ou mais formas de materialidade linguageira,
a grande maioria das traduções de quadrinhos con- imagem e texto verbal, por exemplo. No in-
temporâneas evita ou é coagida6 a não realizar alte- tuito de se contrapor a análises intuitivas de
rações nos desenhos do texto de partida. A con- tipo impressionista e a abordagens insulares
catenação entre desenhos e material linguístico é,
que visam isolar cada domínio em seu fecha-
contudo, propriamente o texto quadrinístico. O tradu-
mento, Maingueneau (2008) propõe um des-
tor, porém, comumente só terá ingerência sobre o
material linguístico. (Assis, 2016, p. 17) vio pela abstração, ao confrontar globalmente
os termos postos em relação –os desenhos dos
Além dessas particularidades relativas ao uni- quadrinhos e a linguagem verbal– de modo a
verso das hqs e dos romances gráficos, é neces- definir unidades mais amplas, por exemplo,
sário levar em consideração a importância da temas que são ou não privilegiados. Para tal, o
subjetividade na interpretação de textos dos autor lança mão do conceito de prática discur-
referidos gêneros discursivos. Desse modo, siva: “como a unidade de análise pertinente,
como afirma Aragão (2012, p. 44): “elemen- que pode integrar domínios semióticos varia-
tos culturais e ideológicos, então, podem ser dos: enunciados, quadros, obras musicais...”
identificados diversamente, ainda mais quan- (Maingueneau, 2008, p. 139). Ele parte do
do um determinado quadrinho é inserido, pela pressuposto de que esses diversos domínios,
tradução, em uma outra cultura”. longe de serem estruturalmente isomórficos,
sofrem restrições semânticas de seu sistema de
Portanto, torna-se fundamental compreender formação discursiva, com destaque para o pa-
como o texto hq, sendo multimodal, se cons- pel dominante que as produções linguísticas aí
titui e produz sentidos, com o intuito de ana- desempenham.
lisar a tradução de Cumbe para o inglês. Desse
modo, a partir de um diálogo com os EDT, tra- Por comodidade, o autor propõe “chamar de
remos as contribuições dos Estudos do Dis- ‘textos’ os diversos tipos de produções semió-
ticas que pertencem a uma prática discursiva”
(Maingueneau, 2008, p. 139). Ao ampliar o
—recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais—, mas uso do termo, o autor pretende evidenciar a
também, e sobretudo por sua construção composicio- capacidade que qualquer texto verbal ou não
nal” (Bakhtin, 2000, p. 279).
verbal possui de ser investido por um mesmo
6 “Por exigências contratuais, por pressão de leitores e
críticos com acesso à publicação original, por prejuízo
sistema semântico. No caso em estudo, enten-
ao ritmo de produção (arquitetado acima de tudo para demos que a inserção do texto-fonte por meio
alterações apenas no material linguístico), entre outros da tradução em outro contexto sociocultural
motivos.” (Assis, 2016, p. 17). implica uma mudança em seu sistema semân-

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tico, uma vez que os valores ideológicos já não e palavras, havendo contínua preocupação em
são os mesmos. atenuar todos os diálogos dos personagens.
414
O linguista explica que não é qualquer do- Nos anos de 1980, época em que o Comic Code
mínio semiótico que pode se combinar com ainda estava em vigência nas editoras de comics
qualquer outro no interior de uma mesma for- americanas, o surgimento do romance gráfico
mação discursiva. Há restrições relacionadas como novo gênero de discurso possibilitou um
aos gêneros de práticas discursivas e do con- escape desse controle no emprego da lingua-
teúdo de cada prática. O gênero, por sua vez, gem (Weiner, 2012). Romances gráficos, por
“impõe restrições que se relacionam com o exemplo, como “Batman: o Cavaleiro das Tre-
contexto histórico e com a função social dessa vas” de Frank Miller, lançavam mão de uma
prática” (Maingueneau, 2008, p. 139). temática reprovável aos olhos da cmaa, mas
não havia nenhum problema com isso, porque
Desse modo, há uma questão sobre os inter- não eram efetivamente comics, mas romance
ditos ao discurso implicados em hqs nos Esta- gráfico, tipicamente direcionado a um público
dos Unidos (comics, em inglês) que precisa ser mais adulto, com temática mais séria e produ-
ressaltada neste artigo. Com a publicação do ção artística mais refinada (Assis, 2016).
livro Seduction of the Innocent de Fredric Wer-
tham, em meados dos anos 1950, uma forte Em uma análise bakhtiniana (Castro, Portu-
tendência conservadora, com apoios reitera- gal, Jacó-Vilela, 2011), o campo discursivo
dos inclusive de profissionais da saúde mental que envolve hqs e romance gráfico deve ser in-
e congressistas americanos, passou a conside- terpretado sociologicamente a partir do meio
rar a linguagem dos comics como alvo prefe- sociocultural implicado, pois a comunicação
rencial de críticas (Fernández Sarasola, 2016). no corpo social ocorre sob a forma de diferen-
Com isso, houve a criação de um ambiente so- tes modos de discurso, que mantêm dialogis-
ciocultural desfavorável para produção e ven- mos na produção de sentidos. Nessa perspec-
da desses produtos, o que poderia representar tiva, é preciso perceber que Cumbe se alinha
sérios prejuízos para a indústria cultural. a um procedimento discursivo esteticamente
mais ousado do que as comics tradicionais es-
Nesse contexto e antes de sofrerem qualquer tadunidenses, por conta da forma crítica com
tipo de intervenção externa, as editoras de hqs que esse gênero do discurso –romance gráfi-
criaram em 1954 uma associação denomina- co– passou a tratar de temáticas sociais.
da de Comics Magazine Association of America
(cmaa), cuja principal função era a de estabe- E, certamente, lidar com o romance gráfico,
lecer e zelar pela aplicação do Comic Code Au- bem como outros gêneros de hqs, é confrontar-
thority. Na prática, isso oferecia a pais e educa- -se com um texto que, de modo geral, coloca o
dores uma garantia de que os textos dos comics leitor diante de imagens e palavras apresenta-
seriam alvo de controle e auditoria, a partir de das simultaneamente para as quais uma teoria
um código de conduta, um procedimento de do discurso ligada estritamente ao verbal não
autocensura (Tilley, 2012). Contudo, o ponto daria conta. Portanto, torna-se fundamental
de interesse nesta análise é que uma dentre as recorrer a conceitos e modelos propostos no
várias coisas que o código prescrevia era a rí- âmbito dos estudos em comunicação e artes
gida regulamentação quanto ao uso de temas que se voltam para a compreensão das HQs.
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

Tais estudos (Groensteen, 2015; Eisner, 2010) imagem requer uma comunidade de experiên-
apontam uma tensão entre imagem e texto nas cia” (Eisner, 2010, p. 13).
hqs, inclusive a imagem pode ser lida como
415
linguagem pregnante, cuja primazia é cons- Nesse sentido, pode-se afirmar que o leitor
titutiva do gênero em questão, como afirma de hqs possui uma competência discursiva
Groensteen (2015). Nesse sentido, conside- (Maingueneau, 2008) para ler com facilidade
rando que não houve qualquer modificação na os textos produzidos nesse gênero e essa leitu-
apresentação dos elementos do código visual ra envolve o todo semiótico da articulação en-
em Cumbe, marcado espaço-temporalmente tre imagens e palavras. Como explica Eisner:
nos quadros ou vinhetas, traços e designs de
personagens, poderíamos supor que a narra- A configuração geral da revista de quadrinhos apre-
tiva se mantém bastante estável e próxima ao senta uma sobreposição de palavra e imagem, e, as-
texto em português. No entanto, uma com- sim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidades
interpretativas visuais e verbais. As regências da arte
preensão discursiva em conformidade com
(por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as
os edt de que a construção de sentidos é um
regências da literatura (por exemplo, gramática, en-
processo orientado por uma complexa relação redo, sintaxe) superpõem-se mutuamente. A leitura
de diálogos com outros textos e outros enun- da revista de quadrinhos é um ato de percepção es-
ciadores (Bakhtin, 2000), que constitui assim tética e de esforço intelectual. (Eisner, 2010, p. 7)
uma rede nem sempre evidente sobre a qual
transita o leitor, já seria impossível afirmar a E, além disso, é preciso destacar que o texto-
existência de um mesmo texto, uma vez que -fonte é sempre produzido para um leitor-mo-
o deslocamento contextual, por si só, já pro- delo (Maingueneau, 2002), um sujeito proje-
duziria efeitos outros na leitura da materiali- tado que supostamente dispõe de um conjunto
dade textual. Entretanto, entendemos que ao de saberes linguísticos e socioculturais que lhe
se fazer escolhas sobre o que e como traduzir possibilitariam “decifrar” o discurso. No caso
o texto-fonte, o tradutor opera sobre um gêne- de Cumbe, ressaltamos a relevância de se (re)
ro essencialmente multimodal possibilitando conhecer a temática da escravização de negros
outras leituras também do plano visual, uma africanos e das tensões raciais no Brasil colo-
vez que a separação entre palavras e imagens nial e seus efeitos na contemporaneidade para
é arbitrária e serve apenas a demandas analíti- a produção de sentidos. Maingueneau (2008)
cas dos estudiosos da comunicação, como ex- cita os temas como um dos planos que, junta-
plica Eisner (2010). As palavras em sua inser- mente com a intertextualidade, o vocabulário,
ção como texto verbal nas hqs (caracterizado o estatuto do enunciador e do destinatário, a
pelo processo chamado letreiramento ou le- dêixis enunciativa, o modo de enunciação e o
treirização) são também lidas como imagens, modo de coesão constituem dimensões ana-
uma vez que seu tratamento visual como arte líticas para quem busca apreender o discurso
gráfica é parte constitutiva do gênero. Para o com base em uma semântica global, conceito
autor: “quando se examina uma obra em qua- teórico que integra os diversos planos discursi-
drinhos como um todo, a disposição dos seus vos simultaneamente, na ordem do enunciado
elementos específicos assume a característica e da enunciação.
de uma linguagem” (Eisner, 2010, p. 7). Uma
linguagem comum entre criador e público que Assim, a tradução de hqs e do romance gráfico
reitera a ideia de que “a compreensão de uma impõe certos desafios ao trabalho de tradução,

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uma vez que o tradutor precisa articular saberes como também de filmes, novelas, séries de tv
sobre as relações entre o verbal e o não verbal e livros didáticos que apresentam um escravo
416 em sua organização semiótica ou multimodal passivo e submisso ao colonizador.
(quadros, vinhetas, balões, onomatopeias, tex-
tos visuais etc.), ao entender a arte sequencial As quatro histórias “Calunga”, “Sumidou-
dos quadrinhos como uma linguagem que será ro”, “Cumbe” e “Malungo” encenam esse
significada pelos leitores da versão traduzida. contexto de outra perspectiva que possibilita
Assis (2016) entende que o processo de tra- uma reflexão sobre a resistência dos negros ao
dução de romances gráficos tende a ser mais sistema escravocrata brasileiro e, desse modo,
complexo do que aquele relativo a uma obra contribuem para a desconstrução de uma ima-
literária composta apenas por uma linguagem gem estereotipada dos negros. Cumbe, portan-
verbal. Soma-se a isso o seguinte cenário: to, ilustra a seguinte afirmação de Carrascosa:

Há estipulações em contrato que determinam, por Nas contraculturas afrodiaspóricas, em suas produ-
exemplo, que a versão estrangeira deve ater-se ao ções artístico-culturais, encontramos uma presença
formato gráfico da versão no idioma original, que a forte de rastros que nos endereçam genealogica-
letreirização deve seguir determinada fonte tipográ- mente aos processos mais delicados e invisíveis da
fica ou, ainda, que a letreirização deve ficar a cargo escravidão e colonização, que deixaram marcas no
do autor original (geralmente para ser realizada de corpo e imaginário das sociedades estruturadas por
forma manual). (Assis, 2016, p. 21) tais regimes, na medida em que nenhum gesto ge-
nocida elimina por completo a força da cultura que
Na próxima seção, apresentamos o romance decide violentar, mormente se falamos de milhões
gráfico Cumbe em seu contexto de produção e milhões de sujeitos traficados para territórios es-
no Brasil, a partir do discurso racial com o trangeiros. (Carrascosa, 2017, p. 70)
qual dialoga.
Apresentamos, a seguir, um quadro com um
resumo das quatro narrativas e apontamentos
4. O romance gráfico Cumbe analíticos sobre as temáticas que constituem a
e as questões raciais no Brasil obra. Conforme Maingueneau (2008) os temas
O romance gráfico Cumbe, publicado no Brasil são relevantes para uma análise discursiva, no
pela Editora Veneta em 2014 e relançado em sentido em que recaem diretamente sobre as
2018, é composto por quatro narrativas sobre articulações essenciais do modelo semântico
os negros escravizados no Brasil durante o pe- em questão. E no que se refere a Cumbe, enten-
ríodo colonial sob domínio português entre demos que D’Salete aborda as questões raciais
1500 e 1822. A obra foi aclamada pela crítica do período colonial brasileiro a partir de uma
e concorreu a diversos prêmios como o Troféu formação discursiva contemporânea antirra-
hq Mix em 2015. Seu foco narrativo é o da re- cista que se opõe ao que conhecemos como a
sistência negra à escravidão, que foi construído narrativa “normal”, nos livros didáticos, nos
a partir do ponto de vista dos próprios negros discursos hegemônicos em geral (Silva, Souza
escravizados. O modo como a obra se constrói e Almeida, 2018). A visão do autor se articula
devolve aos protagonistas um lugar de sujei- a produções mais recentes que dão visibilida-
tos de discurso, de emoções, de práticas e de de ao modo como negros escravizados, ainda
formas de vida; diferentemente da perspectiva desumanizados pela história e historiografias
racista e elitista construída no imaginário bra- tradicionais, produziram formas de resistên-
sileiro, não só por meio da literatura canônica cia. Em seguida, está presente o quadro:
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

Quadro 1. Análise temática das quatro narrativas de Cumbe. Fonte: Elaboração dos autores

Título da
história
Resumo da narrativa Temas abordados 417
Apresenta a história de amor entre Valu e Nana em Tensões que se desenvolvem a partir da
sua tentativa de fuga da fazenda onde eram mantidos relação entre vida e morte conjugadas
escravos. Valu, que trabalhava incessantemente no com liberdade e escravidão.
engenho, decide chamar sua amada para acompanhá- Afetividade entre negros escravizados
“Calunga”

lo em seu plano de fuga, mas recebe como resposta como motor de resistência.
que na casa grande ela era conhecida e bem tratada.
Diante da objeção, Valu relembra a Nana que ela
chorou ao chegar à propriedade, ainda criança, e
insiste na ideia de levá-la daquele lugar, mas Nana não
concorda e pede a ele que façam o caminho de volta.

Relata o estupro e a gravidez da escrava Calu por um Estupro das mulheres escravizadas pelo
homem branco –capataz ou dono da fazenda onde ela branco colonizador.
trabalhava–; além de focalizar o assassinato do bebê de Reificação do corpo negro, no caso, o
“Sumidouro”

Calu pela sinhá que o jogou em um sumidouro (“poço bebê, cuja posse é da sinhá.
fundo”). A escrava, mesmo tentando encontrar alento Tortura por insubmissão.
em um líder religioso, acaba sofrendo tortura por sua
insubmissão. No entanto, resiste, esfaqueia e mata seu
agressor. Por fim, ela vê a imagem do seu filho, ele sobe
em direção ao céu e se transforma em uma estrela.

Dá nome à obra a história de um grupo de escravizados Protagonismo dos escravizados em


“Cumbe”

que se reúne para planejar uma rebelião que é seus relacionamentos afetivos, na
sabotada por um traidor. organização de grupos de resistência e
na elaboração de táticas de rebelião.

Mostra um grupo de escravizados reunidos em um Tensões que se desenvolvem a partir da


quilombo, entoando gritos de resistência. Nessa relação entre vida e morte conjugadas
narrativa, são os sentimentos de Damião por sua irmã com liberdade e escravidão, opondo-se
Ciça, apresentada como uma criança pequena e à simples vingança.
doente, o fio condutor do clímax e do desfecho da Afetividade entre negros escravizados
“Malungo”

história. Apesar das histórias que conta para a menina, como motor de resistência.
da impossibilidade de protegê-la como escravo da Reificação do corpo negro
violência do regime escravista colonial que desumaniza concretizada na morte da escrava.
os negros, Damião retorna à fazenda junto com outros
“malungos” para libertar outros escravizados, atear fogo
no local e recolher os restos mortais de sua irmã e, assim,
poder dar-lhe um enterro digno.

As temáticas presentes nas quatro histórias ten- do uma releitura do período colonial do país e
sionam a narrativa tradicional, já que apresentam ressignificando esse contexto a partir do olhar
os escravizados como protagonistas de formas de e da atitude do sujeito explorado pelo sistema
resistências que se dão nos campos da afetivida- escravagista. Um sujeito que, como outros,
de, da organização social e da luta anti-escravo- não tem direito à voz numa sociedade branca,
crata. Da mesma forma, as histórias mobilizam masculina e heteronormativa. Desse modo,
em seus temas diversos modos de violência –físi- é possível dizer que o discurso de Cumbe se
ca, sexual, psicológica e simbólica– que o regime constitui no interior de uma formação discur-
colonial impôs aos sujeitos negros. siva (Maingueneau, 2008) antirracista.

D’Salete retrata questões relativas à temática A obra tem como contexto de produção um
da história e cultura negras no Brasil, fazen- momento da história contemporânea do Brasil

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no qual as questões étnico-raciais estão em am- Ribellione Degli Schiavi Africani in Brasile Raccon-
pla discussão em diversas instâncias da socieda- tata Con Gli Occhi Degli Oppressi, publicado pela
418 de, principalmente desde 2003, ano em que foi Editora Becco Giallo em 2016; Áustria–Cumbe,
promulgada a Lei Federal 10.639/03 que torna publicado pela Editora Bahoe Books em 2017 e
obrigatório o ensino de história e culturas afri- Estados Unidos–Run for It: Stories of Slaves Who
canas e afro-brasileiras em todo o currículo da Fought for Their Freedom, publicado pela Editora
educação básica, com as respectivas diretrizes Fantagraphics Books em 2017. Como discuti-
curriculares que foram lançadas em 2004. No mos anteriormente, a tradução é um fato ca-
ano de 2018, Cumbe foi aprovado no Programa racterístico da cultura-meta (Toury, 1995), cujo
Nacional do Livro Didático Literário (pnld Li- produto final visa atender aos interesses de um
terário) para aquisição e disponibilização em público leitor específico ou outro leitor-modelo
bibliotecas de escolas públicas pelo país. (Maingueneau, 2002). Assim, a tradução rea-
lizada por Andrea Rosenberg na edição esta-
Antes de seguirmos para a próxima seção sobre
dunidense de Cumbe teve seu título traduzido
a tradução de Cumbe para a língua inglesa, acre-
completamente para o inglês, além de ter sido
ditamos ser importante ressaltar, novamente,
acrescentado um subtítulo na mesma língua:
o quanto as especificidades linguísticas dessa
Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their
obra afrodiaspórica estão diretamente ligadas à
Freedom. Essa escolha tradutória enfatiza a fuga
produção de significados de ordem social e ra-
cial. Diante desse cenário, no qual o português dos escravizados, bem como a luta pela sua
brasileiro se mistura a vocábulos das línguas liberdade, aspectos que poderiam passar des-
congo e angola, dialogamos com o seguinte percebidos aos leitores de língua inglesa caso
pensamento de Gian Luigi de Rosa (2017): tivesse sido mantido o título Cumbe. Ao mes-
mo tempo, a hegemonia do inglês se sobressai
Querendo analisar a tradução desde a perspectiva nessa estratégia editorial, que demonstra uma
sociolinguística, o problema central é o dos textos resistência ao que é “estrangeiro” na tradução.
marcados sociolinguisticamente pela presença de Retomamos aqui Lambert e Van Gorp (1985)
mais variedades de língua(s), que, por definição, quando destacam a relevância da complexa e
são portadoras de significados sociais e, portanto, dinâmica relação existente entre autor-texto-
da tradução do significado social associado aos ele-
-leitor-da-cultura-fonte e autor-texto-leitor-da
mentos (formas, palavras, etc.) de uma (variedade
de) língua que o veiculam. (Rosa, 2017, p. 3695) cultura-meta e o que disso implica nas escolhas
do tradutor que rejeita o termo “estrangeiro”
Vejamos, a seguir, entre outros aspectos, o tra- Cumbe, tendo em vista as normas predominan-
tamento dispensado às variedades linguísticas tes no contexto de recepção.
em Run for It.
Para ampliar nossas análises sobre as questões
referentes à tradução de Cumbe para a língua
5. A tradução de Cumbe no contexto
inglesa, em diálogo com os Estudos do Discur-
de língua inglesa: De Cumbe a Run for It
so e os edt, iniciamos nossas reflexões com o
O romance gráfico Cumbe foi traduzido e pu- intuito de compreender de que modo Run for
blicado, até o momento, nos seguintes países: It tem sido recebido pelo público leitor. Desse
Portugal –Cumbe, publicado pela Editora Pol- modo, utilizamos o site da Amazon®, a maior
vo em 2015; França–Cumbe, publicado pela empresa de comércio virtual do mundo; e o site
Editora Çá et Lá em 2016; Itália–Cumbe: La Goodreads®, considerado a maior comunidade
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

de amantes de livros do mundo. De uma pers- to na de Rebeca percebemos a importância de


pectiva metodológica discursiva, compreender Run for It para ressignificar imagens passivas e
o contexto de produção da obra contribui para submissas dos escravizados no Brasil, muitas 419
a análise dos enunciados e das estratégias usa- vezes presentes na literatura de nosso país, e
das na tradução enquanto prática discursiva. atribuir a esse grupo historicamente margina-
lizado um senso de humanidade. No site Goo-
No site da Amazon®, Run for It recebeu 4,6 de dreads®, há 63 avaliações sobre as diferentes
5 estrelas e teve três avaliações de clientes. A edições de Cumbe, publicadas em vários países.
primeira, de Cinnamone, apenas afirma que o De modo geral, foram atribuídas 3,64 estrelas
livro foi recebido em um ótimo período de tem- (entre cinco) para o livro. Entre as avaliações,
po. Já a segunda, de Joseph M. Reninger, tem que podem ser constituídas apenas de estrelas
este título: “Difícil, mas um olhar importante ou adicionadas de comentários, algumas foram
para a escravidão” (tradução nossa)7. Nela, feitas pelos leitores de Run for It. São os casos
Joseph destaca os horrores da escravidão, ilus- de Dan Clark, Kurt, Dakota Gordan e Mag-
trando essa ideia com as cicatrizes existentes gie Gordon. Dan Clark evidencia a expressão
nas costas dos negros, resultantes das chicota- artística de D’Salete e ressalta a seguinte pe-
das que levavam dos capatazes, e com o fato de culiaridade do livro: “Há um elemento de ce-
as escravizadas terem filhos gerados após terem lebração do desejo humano nas piores circuns-
sido estupradas por seus proprietários. Em suas tâncias possíveis e a quantidade de beleza que
palavras, “a humanidade dos escravos transpa- pode surgir do menor gosto de vitória” (tradu-
rece mesmo na desumanidade de suas condi- ção nossa)11. Kurt, por sua vez, define Run for It
ções. Esse é um testemunho sério e infeliz, mas como um romance gráfico de partir o coração,
importante para a história” (tradução nossa)8. com suas quatro histórias em que almas cor-
Quanto à terceira avaliação, intitulada “muito rem (referência ao título em inglês) de diferen-
bom: desenhos simples e questões complexas” tes formas. Além disso, de acordo com ele, “as
(tradução nossa)9, ela foi escrita por Rebeca K., ilustrações são sobressalentes assim como as
que salienta a beleza dos desenhos de D’Salete vidas dos personagens, com linhas fortes que
e a temática da resistência negra à escravidão não podem ser quebradas, e se configuram de
no Brasil. Rebeca conclui seu pensamento ao tal forma que o leitor se sinta frequentemente
afirmar: “E, possivelmente, a maior rebelião envolvido” (tradução nossa)12. Em contraposi-
que os escravos conseguiam (às vezes) vencer ção às opiniões de Dan e de Kurt, Dakota Mor-
era manter um senso de valor de suas próprias gan descreve o livro como um pacote de ilus-
vidas e das vidas de seus amados” (tradução trações medíocres e narrativas mal acabadas.
nossa)10. Tanto na avaliação de Joseph quan- Em sua visão, ainda que se tratem de histórias

7 Versão em inglês: “Tough but important look at slav- to maintain a sense of worth to their own lives and the
ery.” (Amazon®, 2019) lives of their loved ones.” (Amazon®, 2019)
8 Versão em inglês: “the humanity of the slaves shines 11 Versão em inglês: “There is an element of celebra-
through even in the inhumanity of their conditions. tion of the human will in the worse possible circum-
This is a serious and unhappy but important testimony stances and the amount of beauty that can come from
to history.” (Amazon®, 2019) the smallest taste of victory.” (Amazon®, 2019)
9 Versão em inglês: “very good: simple drawings and 12 Versão em inglês: “The illustrations are spare like the
complex issues.” (Amazon®, 2019) characters lives, with thick lines that cannot be broken
10 Versão em inglês: “And possibly the greatest rebel- and set up in such a way that the reader often feels en-
lion that the slaves managed to (sometimes) win, was circled.” (Amazon®, 2019)

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importantes sobre os escravizados no Brasil,


“Run for It poderia ter sido mais poderoso e ter
420 ajudado mais leitores a entenderem o que real-
mente aconteceu no Brasil se a construção das
narrativas fosse mais clara” (tradução nossa)13.
Já Maggie Gordon ressalta o fato de Run for It
realçar a crueldade a que eram submetidos os
escravizados, mas também traz duas críticas ao
livro: a primeira crítica expressa a imagem das
mulheres nas narrativas, as quais, na opinião de
Maggie, são mostradas como meras vítimas da
violência, além de exercerem papéis secundá-
rios nas rebeliões e acabarem mortas no final
da maioria das histórias. A segunda crítica de
Maggie é em relação ao fato de as narrativas
terem poucas páginas para esclarecer o que
realmente ocorreu em cada uma delas. Apesar
Figura 1. Capa de Run For It.
desses pontos negativos, Maggie encerra sua re- Fonte: D’Salete, 2017
senha de Run for It enfatizando que “essa é uma
obra importante, com histórias poderosas” (tra-
dução nossa)14. É importante destacar que fon- publicado no site de notícias The Huffington
tes como as mencionadas aqui são importantes Post e outro na revista online de artes Hype-
para a análise da tradução e da sua recepção na rallergic. Neles, é destacada a expressão artís-
cultura-meta. tica de Marcelo D’Salete: “A jornada gráfica
e ousada de D’Salete revela que mesmo que a
Começamos nossas análises do texto do livro expressão artística possa não mudar o passa-
com a metodologia de descrição e análise de do, ela pode certamente manifestá-lo por meio
traduções (Lambert e Van Gorp, 1985). A capa de uma luz nova, mais precisa e generativa”
dura possui fundo azul e contém desenhos de (tradução nossa)15 / “Embora Run for It esteja
três negros: dois deles, na parte superior, em enraizado na realidade, suas ilustrações duras
movimento, com lanças em suas mãos, e o ou- e seu realismo mágico incitam brilhantemente
tro, na parte inferior, segurando um ramo de a imaginação poética” (tradução nossa)16.
folhas/flores. Entre essas imagens está o títu-
lo, com letras brancas, no centro da capa. Além disso, há um pequeno parágrafo que
ressalta os fatos de o livro ter sido aclama-
Quanto à quarta capa, no topo, estão presen- do mundialmente e de que se trata de um ro-
tes dois comentários sobre a obra: um deles
15 Versão em inglês: “D’Salete’s bold and graphic jour-
ney reveals that even if artistic expression can’t change
13 Versão em inglês: “Run For It could have been more the past, it can certainly convey it in a new, more accu-
powerful and helped more readers understand what rate and generative light.” (D’Salete, 2017, quarta capa)
truly happened in Brazil if the storytelling was more 16 Versão em inglês: “Though Run for It is rooted in
clear.” (Amazon®, 2019) fact, its stark illustrations and magical realism vividly
14 Versão em inglês: “This is an important piece with provoke the poetic imagination.” (D’Salete, 2017, quar-
powerful stories.” (Amazon®, 2019) ta capa)
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

mance gráfico que aborda a resistência negra mestrado em História da Arte pela Universi-
à escravidão no Brasil, a partir da perspectiva dade de São Paulo” (tradução nossa)17.
dos africanos e seus descendentes. Também 421
estão presentes elementos como uma cita- Sobre os metatextos relativos a Run for It, no
ção de Allan da Rosa, retirada do prefácio, site da Fantagraphics Books, o livro é apresenta-
e o nome da editora Fantagraphics Books que, do como vencedor do Prêmio Eisner em 2018,
desde 1976, tem publicado obras dos maio- na categoria de melhor publicação estaduni-
res cartunistas do mundo. Na parte inferior dense de material estrangeiro. É importante
central da quarta capa, há uma imagem de enfatizar que o Eisner é considerado o Oscar
duas pessoas, que remete a Nana e Valu, em dos quadrinhos, portanto, é o maior evento de
“Kalunga”. premiação do mundo nessa área. Soma-se a
essa informação um texto de apresentação que
define o livro como um dos primeiros esforços
artístico-literários para desvelar a história en-
coberta da escravidão no contexto brasileiro e
evidencia o fato de ele ter sido indicado para
três dos mais prestigiados prêmios de quadri-
nhos do Brasil, país onde a obra de D’Salete
foi publicada originalmente. Nesse mesmo
site, há diversos comentários sobre Run for It
veiculados pela mídia. Entre eles podem ser
citados: “Run for It é uma obra de arte linda,
brutal e profunda que assegura que o legado
de homens e mulheres corajosos que se re-
cusaram a renunciar à sua humanidade não
desaparecerá” (tradução nossa)18 (Publishers
Weekly) / “Estes contos brutais e trágicos, re-
latados através dos olhos das vítimas, dão con-
Figura 2. Quarta capa de Run for It. texto à luta constante pelas liberdades indivi-
Fonte: D’Salete, 2017 duais em todo o mundo” (tradução nossa)19
(Library Journal).
Acerca dos demais paratextos, Run for It apre-
senta uma introdução de dois parágrafos, que
17 Versão em inglês: “an acclaimed Brazilian cartoonist,
contextualizam o enredo da obra e trazem a illustrator, and teacher. He has a master’s degree in art
explicação do vocábulo “cumbe”, baseada no history from University of São Paulo.” (D’Salete, 2017,
glossário presente no livro. Também há um p. 175)
prefácio –“The Sun Rises on Brazilian Bantu 18 Versão em inglês: “Run for It is a beautiful, brutal,
Culture” [“O sol se levanta na cultura banto and profound work of art that ensures that the legacy
brasileira”, em português]– que se constitui of brave men and women who refused to relinquish
their humanity will not disappear.” (Fantagraphics
como uma tradução de partes do posfácio es-
Books, 2019)
crito por Allan da Rosa em Cumbe, além de
19 Versão em inglês: “These brutal and tragic tales, re-
glossário, bibliografia, uma foto e pequena ported through the eyes of the victims, lend context
biografia de D’Salete: “um aclamado cartu- to the ongoing fight for individual liberties worldwide.”
nista brasileiro, ilustrador e professor. Ele tem (Fantagraphics Books, 2019)

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Luciana de Mesquita Silva/Fabio Sampaio de Almeida/Maria Cristina Giorgi/
Alexandre de Carvalho Castro

Trata-se de críticas sobre Run for It que apon- Passemos à análise discursiva e comparativa
tam para aspectos positivos e, por isso, dentro de escolhas tradutórias no texto-meta em re-
422 de um mecanismo de patronagem promovi- lação ao material verbal do texto-fonte, tendo
do pela Fantagraphics Books, contribuem para em mente a ideia de que o tradutor deve fazer
atrair pessoas a adquirirem a obra. escolhas sobre o que e como irá traduzir (Ty-
moczko, 1999). A seleção dos excertos con-
No nível macrotexual, a tradução mantém os siderou mudanças que, de modo mais direto,
mesmos títulos para as histórias: “Kalunga”, modificam a produção de sentidos construída
“Sumidouro”, “Cumbe” e “Malungo”, estra- na relação imagem-texto.
tégia que se contrapõe àquela relativa ao título
Run for It, já que nesse contexto o vocábulo
Fragmentos de “Kalunga”:
“cumbe” foi substituído por um título e um
subtítulo em inglês. A única diferença dos tí- a) O capataz chama a atenção do escravizado
tulos das histórias em relação ao texto-fonte é Valu:
o fato de “Kalunga” ter sido grafado com “k”
e não com “c”. As estruturas narrativas, bem
como a estrutura geral da tradução, incluindo
os números das páginas, são praticamente as
mesmas em comparação à edição brasileira,
como se poderia esperar ao considerar a ca-
racterística do gênero em questão.

Quanto ao nível microtextual, é importante


enfatizar que, “nas novelas gráficas, o quadri-
nho de status literário, é mais comum encon-
trar estes elementos de material linguístico tra-
balhados de forma rebuscada, com inovações
de linguajar e explorações tipográficas” (Assis,
2016, p. 27), que é o que acontece em Cumbe.
No caso de Run for It, diferentemente do que
ocorre no título, em geral, foram mantidas as
palavras de origem banto, tais como “kalun-
ga” (ideia de grandeza, imensidão), “nsanga”
(planta fundamental para os povos bakongo e
umbundo, utilizada para revigorar as forças) Figuras 3 e 4. Run for It / Cumbe. Fonte:D’ Salete, 2017,
e “mocambo” (quilombo). Buscamos consi- p. 17 / D’ Salete, 2014, p. 17
derar em nossas análises microtextuais, além
dos textos verbais, os não verbais, já que ambas Do ponto de vista do discurso racial que se ma-
as estruturas fazem parte do gênero romance terializa em Cumbe, entendemos que a escolha
gráfico que, como mencionamos anteriormen- da expressão “Black boy” no lugar do termo
te, trata-se de um gênero caracterizado pela “negro”, em português, implica um processo
multimodalidade. de amenização na tradução, visto que “Black
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

boy” apaga sentidos de desqualificação e me- gro”, uma vez que, conforme Richard B. Moo-
nosprezo do termo “negro” ao ser utilizado por re, nos países euro-coloniais, a palavra “Negro”
um homem branco, capataz, no âmbito do sis- tinha um significado específico que transcendia 423
tema escravocrata, quando este se refere a um a uma mera questão de cor ou pele. Dizer “Ele
escravizado. Amenização que talvez não ocor- é negro” era dizer “Ele é um escravo”. Ou seja,
resse se o contexto histórico tivesse sido levado visto que como quase todos os escravos em cer-
em conta, como propõe Tymoczko (1999). A tos países e épocas eram “negros”, “Negro” pas-
amenização da tradução propicia uma certa sou a ser sinônimo de escravo (Moore, 1972).
neutralização de efeitos discursivos mais po-
lêmicos e modifica a relação entre as persona- Além disso, o vocábulo “lambá” (trabalho
gens, principalmente se consideramos que o duro), de origem banto, foi substituído por
leitor da língua-meta vive em um país que tam- “working in the fields” (“que trabalham no cam-
bém passou por um período de escravização de po”, em português). Apaga-se, assim, o efeito
negros africanos que deixou tensões raciais que discursivo da intensidade do trabalho execu-
permanecem até hoje naquela sociedade. tado pelos negros escravizados na tradução e
apenas ressalta-se o local em que os mesmos
exerciam as atividades a que eram submetidos.
b) Nana recebe conselhos de uma escravizada Ainda que o texto seja ficcional, tal mudança
mais velha: impacta no modo como a linguagem intervém
construindo versões de mundo (Rocha, 2014).

c) Valu vai ao encontro de Tata, que lhe pergunta:

Figuras 5 e 6. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,


2017, p. 24 / D’ Salete, 2014, p. 24

Nesse caso, a amenização do texto original se


mantém, a palavra “Blacks” foi novamente uti-
lizada como tradução para “negro”, quando Figuras 7 e 8. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,
haveria a possibilidade do uso do termo “Ne- 2017, p. 29 / D’ Salete, 2014, p. 29

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Alexandre de Carvalho Castro

Essa vinheta aparece após Valu supostamen-


te ter matado Nana com uma faca. Ele corre
424 até o local onde está Tata e pede a ele que
abra a porta. Ao ver Valu, Tata se preocupa,
porque era fugitivo, e pergunta sobre o san-
gue, que provavelmente se fazia visível em
seu corpo. Na tradução em Run for It, essa
questão é completamente retirada: a pergun-
ta de Tata se resume a “What are you so worked
up about, Valu?” [“Com o que você está tão
preocupado, Valu?”, em português]. O pla-
no visual apenas sugere que Valu tenha es- Figuras 9 e 10. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,
2017, p. 30 / D’ Salete, 2014, p. 30
faqueado Nana para que pudessem alcançar
o Calunga, uma vez que as escolhas estéti-
cas do autor no traçado em preto e branco e Mais uma vez, suaviza-se a questão racial na
a própria seleção do que aparece ou não no tradução, quando se substitui “negro” pelo
quadro não mostram o ato ou o sangue deri- pronome “him” [“ele”, em português], pois
vado dele, sendo o texto verbal imprescindí- há uma diferenciação entre o uso do substanti-
vel para que o coenunciador identificasse a vo e o do pronome. O primeiro atua como de-
presença do sangue. Indiscutivelmente, a es- signação que aponta para determinados sen-
colha tradutória intervém no andamento da tidos construídos discursivamente na cultura,
narrativa reduzindo significativamente seu funcionando como um elemento constitutivo
impacto narrativo, revelando atitudes ideo- da semântica global (Maingueneau. 2008) do
lógicas (Tymoczko, 2007) distintas entre o discurso racista: o vocabulário. Já o segundo
texto-fonte e o texto-meta, que possivelmente atua apenas como elemento de coesão inter-
se explicam pelo sistema de patronagem, re- na ao discurso, deixando para o coenunciador
metendo ao já extinto Comic Code, discutido o trabalho de recuperar seu referente. Desse
anteriormente. modo, a opção pelo pronome indetermina a
referência a quem está sendo caçado, o negro,
escravizado, animalizado.
d) Após o sumiço de Valu, um homem diz para
o outro: Fragmentos de “Sumidouro”:

Calu canta para o filho com o Sr. Tomé, logo


após o seu nascimento:
Em Run for It, a letra da canção foi mantida
em português, ou melhor, uma variante lin-
guística que mescla elementos do português
com outros de línguas africanas como kikon-
go e kimbundu, usada pelos escravizados,
como estratégia comunicativa de resistência.
Foram também acrescentados símbolos mu-
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

425

Figuras 11 e 12. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 62 / D’ Salete, 2014, p. 62

sicais para facilitar o entendimento do leitor excerto, materializa-se discursivamente a afir-


quanto ao gênero presente nos balões de fala mação de Tymoczko (1999) de que a carga de
das cenas em questão, além de uma nota de informações linguísticas, históricas e culturais
rodapé contendo uma tradução das seguintes é grande em textos provenientes de culturas
partes da letra da canção: “Ô minino mané no marginalizadas.
uandá” e “Ô mané piquinino no uandá”, bem
como a indicação de que o leitor verifique
Fragmentos de “Cumbe”:
no glossário da obra o vocábulo “vissungo”:
“‘The child mane in the hammock’/ ‘Little mane
in the hammock’ (see vissungo entry in glossary)”. Um grupo de escravizados planeja uma rebelião:
Vissungo era um canto de trabalho usado pe-
los negros escravizados para se comunicarem
sem serem compreendidos pelos brancos. De
modo geral, as escolhas tradutórias aqui vi-
sam, a nosso ver, didatizar o processo de lei-
tura, no sentido de favorecer um letramento
das questões raciais ao encaminhar o leitor
para uma expansão de seu repertório e pro-
piciar uma compreensão da arte sequencial a
partir de um uso específico do glossário. Neste

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do leitor por meio da compreensão da designa-


ção e a remissão desse leitor ao glossário, por
426 meio de nota explicativa.

Fragmentos de “Malungo”:

a) Um grupo de escravizados decide atacar


uma fazenda e Damião insiste em participar
do ataque:
Figuras 13 e 14. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,
2017, p. 91 / D’ Salete, 2014, p. 91

Na tradução, a mudança de “Vocês devem se


encontrar aqui na tartaruga” por “Everybody
should meet here” implica algumas considera-
ções: em primeiro lugar, a substituição do pro-
nome “vocês”–segunda pessoa no discurso–
por “everybody” (todo mundo) –terceira pessoa
no discurso– elimina uma referência direta
às pessoas que estão na imagem. Além disso,
a supressão do termo “tartaruga” exclui um
registro feito no texto original a um símbolo
ancestral do povo cabinda, relativo a uma pro-
víncia em Angola, apresentado iconicamente
em detalhes nas vinhetas anteriores. Segundo
o glossário do livro, “tartaruga” é um “símbolo
de resistência, por sua carapaça, emblema de Figuras 15 e 16. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,
defesa, e por levar a própria casa nas costas, 2017, p. 137-138 / D’ Salete, 2014, p. 137-138
simboliza a independência e a capacidade de
adaptação” (D’Salete, 2014, p. 173). Por con- Na tradução, há o acréscimo da fala “I need…”/
seguinte, em Run for It, ainda que mantido no “...to go back”, em balões que tipicamente são
glossário, no texto da narrativa sequencial está usados para marcar a voz do narrador, mas que
ausente o vocábulo “tartaruga”, constitutivo da pode ser atribuída a Damião, na qual o per-
semântica global (Maingueneau, 2008) a que o sonagem afirma que precisava voltar à antiga
texto de D’Salete remete e simbolicamente re- fazenda onde fora escravizado, junto com sua
levante para o movimento de resistência dos irmã Ciça. Segundo Kaindl, no contexto da
negros ao sistema de escravidão; o que termina tradução de quadrinhos essa estratégia é de-
por prejudicar a remissão ao contexto cultural nominada “adiectio (acréscimo de material lin-
recuperado na obra (Tymoczko,1999). Nesse guístico ou pictórico ao discurso de chegada)”
caso, o que havíamos denominado didatização (tradução nossa)20. No caso acima, novamente,
se dá de forma distinta do que ocorre no excer-
to anterior (Figura 11), simplificando o traba- 20 Versão em inglês: “adiectio (adding a linguistic or picto-
lho de leitura, em vez de expandir o repertório rial material to the target discourse).” (Kaindl 1999, p. 275)
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

há uma preocupação com a didatização da lei- Novamente o texto nos dois livros sequer se
tura do texto-meta no processo tradutório, ao aproxima. Em Run for It, o personagem em
oferecer pistas verbais ao leitor para a constru- questão diz: “If it’s not one thing, it’s another”. Ao 427
ção dos sentidos onde no texto-fonte, em sua passo que, no texto-fonte, sua fala reforça que
primeira versão, só havia informação visual. em sua fazenda “todo negro trabalha”, fala que
Aqui, o que chamamos didatização opera so- pressupõe discursivamente que em outros luga-
bre o gênero discursivo e não sobre elementos res há negros que não trabalham ou que não
linguísticos ou culturais, o que, a nosso ver, querem trabalhar, além da existência de uma
se choca com o leitor-modelo (Maingueneau, coerção para que esse trabalho seja realizado.
2002) de romances gráficos, um coenunciador Ou seja, na tradução foi apagado o discurso de
que, acostumando à densidade e complexidade subjugação, do controle dos negros pelos bran-
do gênero, possui uma competência discursiva cos, detentores de poder, o que é denunciado
para construir sentidos a partir da linguagem por D’Salete (2014). Em nosso ponto de vista,
visual dos quadrinhos21. novamente há uma amenização do processo de
exploração e submissão dos negros, inerente ao
colonialismo. Conforme o contexto e os leito-
b) Reação do capataz quando Damião disse res do texto-meta (Tymoczko, 1999), também é
que sua irmã Ciça não iria trabalhar, por ser relevante o fato de o texto traduzido não dialo-
pequena e estar doente: gar minimamente com o texto-fonte, oferecen-
do ao leitor outras pistas para a construção de
sentidos que se distanciam do que se apresenta
na edição brasileira.

c) Reação do feitor quando Damião volta


à fazenda de onde havia escapado:

Figuras 17 e 18. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,


2017, p. 144 / D’ Salete, 2014, p. 144

21 Na versão de Cumbe de 2018, publicada após a tradução


em inglês, essas informações verbais foram acrescidas ao
romance gráfico em português, invertendo assim as rela-
ções entre texto-fonte e texto-meta, nas quais a tradução Figuras 19 e 20. Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete,
passa também a influenciar o texto do qual se originou. 2017, p. 152 / D’ Salete, 2014, p. 152

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Nesse caso, na tradução foi omitido o trecho análoga à do texto de partida no sistema de
“negro atrevido” e, em seu lugar, foi colocada origem. E isso não significa uma deformida-
428 a expressão “What nerve! ”. Pela similaridade de. Trata-se, apenas, da representação de um
da extensão textual do enunciado nas duas lín- autor e de sua produção que esteja de acordo
guas não se pode atribuir a mudança à questão com os valores dominantes no sistema de che-
da letreirização. Portanto, além do tratamento gada em dado momento histórico e que atenda
direto ter sido eliminado, do sujeito ter sido a determinados interesses domésticos. Dialo-
substituído por um pronome que o indetermi- gam também com as propostas de Tymoczko
na; a questão racial, evidenciada na fala do (1999), no sentido de que o tradutor, diante
feitor por meio da inferiorização do negro que dos desafios relativos a questões linguísticas e
se atreveu a voltar à fazenda de onde havia culturais em um texto a ser traduzido, precisa
fugido, é deixada de lado em Run for It. No- tomar decisões, o que irá gerar perdas e gan-
vamente, temos o apagamento de uma desig- hos na tradução.
nação constitutiva da semântica global (Main-
gueneau, 2008) do discurso racista ao qual se
6. Considerações finais
opõe Cumbe, ao expor explicitamente os maus
tratos físicos e simbólicos a que estavam sub- Neste artigo, buscamos desenvolver uma aná-
metidos os negros escravizados pelos brancos lise abrangente do contexto de tradução e pu-
colonizadores. blicação de Run for It, edição do romance grá-
fico brasileiro Cumbe, de Marcelo D’Salete, em
Tecemos agora algumas considerações do inglês. Para tanto, consideramos as relações
que observamos até aqui. Run for It se encon- entre linguagem, tradução e questões étnico-
tra em um contexto sistêmico no qual é dado -raciais e, como pesquisadores nas áreas de
destaque para a estética do trabalho de Mar- Tradução, Linguística Aplicada e Psicologia
celo D’Salete, em cuja biografia ressaltam-se Social, propusemos um trabalho interdiscipli-
os fatos de ele ser um ilustrador aclamado e nar a partir do diálogo dos estudos descritivos
de ter o título de mestre em História da Arte da tradução com outros campos de estudo,
pela Universidade de São Paulo. Além disso, é tais como os estudos culturais e os estudos do
construída uma imagem de sua obra que ate- discurso.
nua o processo de violência na escravização
de africanos no período colonial brasileiro, Ao considerar que se faz necessária uma con-
diferentemente do que ocorre no texto-fonte. textualização de cada fenômeno tradutório,
Tal imagem, em nossa visão, pode ser reflexo visto como um fato característico da cultu-
do momento político atual, tanto nos Estados ra-meta (Toury, 1995), e conforme a meto-
Unidos quanto no Brasil, em que pensamen- dologia de análise de traduções proposta por
tos e movimentos antirracistas, contra hege- Lambert e Van Gorp (1985), observamos que,
mônicos e decoloniais vêm sendo suprimidos a começar pelo seu título Run for It, a obra
pela imposição de um mecanismo de poder traduzida buscou trazer o texto até o leitor de
que reforça a supremacia branca, racista e língua inglesa, ou seja, fez questão de deixar
colonialista. o leitor confortável ao evitar qualquer estra-
nhamento em relação ao uso de termos em
Nossas afirmações dialogam com Toury outras línguas. Esse dado reforça a hegemonia
(1995), para quem a obra traduzida, no con- do inglês e a resistência ao que é diferente, es-
texto de recepção, pode não ter uma posição trangeiro. Ainda assim, só o fato de Cumbe ter
De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

sido selecionado pela Fantagraphics Books para raciais no Brasil colonial ao leitor do texto-me-
ser traduzido já é um dado relevante, especial- ta; b) apagou e substituiu termos, suavizou a
mente por se tratar de um gênero discursivo opressão racial imposta aos escravizados, re- 429
que geralmente tem um público leitor especí- tratada na obra de D’Salete; e c) acrescentou
fico e por abordar a temática racial a partir de textos verbais inexistentes na edição brasilei-
uma perspectiva de resistência negra. ra, conduzindo a uma única possibilidade de
leitura do texto não verbal. Por conseguinte,
No que diz respeito aos paratextos da edição assumem especial relevo as frequentes moda-
estadunidense, verificamos que há algumas di- lizações na linguagem empregada na tradução
ferenças em relação à publicação brasileira: a do material de Cumbe para a língua inglesa
capa é dura, as imagens de capa e quarta capa porque, dada a sua característica discursiva,
são distintas, na quarta capa há dois comen- não seria de se esperar, em se tratando de um
tários veiculados pela mídia que destacam romance gráfico, um controle tão efetivo para
a qualidade estética do trabalho de D’Sale- tentar atenuar o texto original.
te e um pequeno texto que descreve Run for
It como uma obra aclamada. Além disso, há Esse cenário ressalta a não existência de neu-
uma introdução, um prefácio que é parte do tralidade na tradução (Bassnett e Lefevere,
posfácio presente em Cumbe e uma biografia 1990), bem como seu caráter metonímico.
acompanhada da foto do autor, considerado Como uma forma de representação em que
um prestigiado ilustrador. É importante reite- determinados aspectos do texto-fonte foram
rar que essas distinções não são um defeito, conservados, enquanto outros foram descar-
mas sim resultantes de uma ideologia referen- tados, Run for It foi construído para atender a
te ao polo receptor, o qual irá determinar que interesses específicos da cultura de chegada,
textos serão escolhidos para serem traduzidos, sejam esses interesses editoriais, econômicos
a função que a tradução irá exercer naquele e/ou ideológicos, que ficam marcados dis-
contexto sociocultural e as estratégias que o cursivamente na materialidade do texto, não
tradutor irá utilizar. ocupando, desse modo, uma posição análoga
a Cumbe no Brasil.
Quanto a esse último ponto, Cumbe é um ro-
mance gráfico e, por esse motivo, marcado Esperamos que as reflexões apresentadas
pela multimodalidade. Como mencionamos, neste artigo contribuam para os Estudos da
os espaços relativos aos balões nesse gênero Tradução, em diálogo com outros campos de
discursivo foram criados com base no texto- pesquisa, não só no que diz respeito à diver-
-fonte. Soma-se a esse desafio de tradução o sidade cultural e à análise de gêneros discur-
fato de a temática do livro fazer parte de uma sivos multimodais, como também no que se
cultura ainda marginalizada o que, segundo refere a obras advindas de contextos não-he-
Tymoczko (2010), incita o tradutor a inserir gemônicos, principalmente as que abordem
comentários ou escolher o que irá traduzir. No temas relevantes para a construção de uma
caso de Run for It, a tradutora utilizou as duas sociedade antirracista e anticolonialista. Por
estratégias de três modos diversos, produzin- fim, gostaríamos de destacar que nosso grupo
do diferentes formas do que denominamos de pesquisadores tem realizado investigações
didatização: a) adicionou nota de rodapé com sobre Cumbe há algum tempo, resultando na
explicações que remetem ao glossário da obra escrita de textos e apresentação de comunica-
de modo a favorecer o letramento das questões ções em congressos, e que, como formas de

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Luciana de Mesquita Silva/Fabio Sampaio de Almeida/Maria Cristina Giorgi/
Alexandre de Carvalho Castro

desdobramento do presente artigo, estamos do trabalho científico/acadêmico. Edu-


desenvolvendo pesquisas sobre a tradução da cação, Matemática, Pesquisa, 10(1), 137-150.
430 obra para outras línguas, tais como o italiano Carrascosa, D. (2017). Traduzindo no Atlânti-
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de tradução entre literaturas afrodiaspóri-
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Cómo citar este artículo: Silva, L. de M., de Almeida, F. S., Giorgi, M. C. y Castro, A. de C.
(2019). De Cumbe a Run for It: tradução e questões étnico-raciais. Mutatis Mutandis. Revista
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De Cumbe a Run for It: reflexões sobre a tradução de uma graphic novel brasileira

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