TDAH: Compreendendo o Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade
Introdução
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição
neurobiológica crônica que se manifesta, principalmente, na infância, mas pode persistir
até a vida adulta. Caracteriza-se por sintomas de desatenção, hiperatividade e
impulsividade que prejudicam significativamente o desempenho escolar, as relações
sociais e a vida profissional do indivíduo. Embora descrito desde o início do século XX,
o TDAH continua sendo alvo de debates e preconceitos, o que torna essencial a
disseminação de informações claras, baseadas em evidências científicas.
A origem do TDAH está relacionada a fatores genéticos e neuroquímicos, e não se deve
à falta de disciplina, problemas educacionais ou desinteresse por parte do indivíduo. A
despeito disso, muitas vezes, o diagnóstico é negligenciado ou realizado de maneira
equivocada, o que pode gerar consequências severas ao bem-estar e ao desenvolvimento
da pessoa afetada. Neste texto, abordaremos os principais aspectos do TDAH, incluindo
sua etiologia, sintomas, diagnóstico, tratamento e impacto social.
Desenvolvimento
1. Etiologia e bases neurobiológicas
Diversos estudos apontam que o TDAH possui uma forte base genética. Parentes de
primeiro grau de pessoas diagnosticadas têm mais chance de também apresentarem o
transtorno. Pesquisas com gêmeos indicam que cerca de 70% a 80% da variabilidade nos
sintomas pode ser atribuída a fatores hereditários. Além disso, exames de neuroimagem
mostram diferenças na estrutura e no funcionamento de áreas do cérebro envolvidas no
controle da atenção, no autocontrole e na regulação das emoções, especialmente nos lobos
frontais, no corpo caloso e nos gânglios da base.
Também há evidências de que o TDAH está associado a desequilíbrios nos níveis de
neurotransmissores, especialmente dopamina e noradrenalina. Esses sistemas químicos
são cruciais para funções executivas, como concentração, tomada de decisão e controle
de impulsos. Outras hipóteses, menos prevalentes, incluem fatores pré-natais (como
exposição fetal ao álcool ou tabaco), prematuridade e baixo peso ao nascer.
2. Sintomas e subtipos
O TDAH se manifesta de diferentes formas, levando à sua classificação em três subtipos
principais:
• Predominantemente desatento: mais comum em meninas, esse subtipo é
marcado por dificuldade em manter a atenção, esquecer tarefas, parecer não ouvir,
cometer erros por descuido e evitar atividades que exigem esforço mental
prolongado.
• Predominantemente hiperativo-impulsivo: mais frequente em meninos,
caracteriza-se por agitação motora, fala excessiva, dificuldade em permanecer
sentado, impulsividade e tomada de decisões precipitadas.
• Combinado: quando há um equilíbrio entre sintomas de desatenção e
hiperatividade-impulsividade.
Esses sintomas devem estar presentes em dois ou mais contextos (como casa, escola ou
trabalho), ter início antes dos 12 anos de idade, durar pelo menos seis meses e impactar
negativamente o funcionamento social, acadêmico ou ocupacional da pessoa.
2. Diagnóstico e comorbidades
O diagnóstico do TDAH é clínico, baseado em entrevistas com o paciente, observações
comportamentais e relatos de familiares e professores. Utilizam-se critérios estabelecidos
por manuais como o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais)
da Associação Americana de Psiquiatria. Embora não existam exames laboratoriais ou de
imagem específicos para detectar o transtorno, testes neuropsicológicos podem auxiliar
na identificação de déficits cognitivos associados.
É importante destacar que o TDAH frequentemente está associado a outras condições,
como transtornos de aprendizagem (dislexia, disgrafia), transtornos de ansiedade,
depressão, transtorno opositor desafiador, entre outros. Essas comorbidades dificultam o
diagnóstico e exigem uma abordagem multidisciplinar, envolvendo psicólogos,
psiquiatras, neurologistas e pedagogos.
4. Tratamento e manejo
O tratamento do TDAH deve ser individualizado e multifatorial, envolvendo intervenções
farmacológicas e não farmacológicas. Entre os medicamentos mais prescritos estão os
psicoestimulantes, como o metilfenidato e a lisdexanfetamina, que atuam na regulação
dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina, melhorando a atenção e o controle do
comportamento.
As intervenções psicoterapêuticas também são fundamentais, especialmente a terapia
cognitivo-comportamental (TCC), que ajuda o indivíduo a desenvolver estratégias para
lidar com a desatenção e a impulsividade, além de auxiliar no tratamento de
comorbidades. Em crianças, a orientação aos pais e professores é essencial, promovendo
uma abordagem mais empática, estruturada e eficiente em sala de aula e no ambiente
doméstico.
Além disso, programas de treinamento de habilidades sociais, suporte pedagógico e
técnicas de organização podem trazer grande benefício, especialmente em ambientes
escolares. O uso de agendas, rotinas previsíveis e metas claras são ferramentas práticas
que contribuem para a autonomia e o bom desempenho de quem convive com o
transtorno.
5. Impactos sociais e escolares
O TDAH pode afetar significativamente a vida escolar, profissional e social do indivíduo.
Crianças com o transtorno, muitas vezes, são rotuladas como "desobedientes",
"bagunceiras" ou "preguiçosas", o que pode levar à baixa autoestima, isolamento social e
frustração. Sem diagnóstico e tratamento adequados, o TDAH pode evoluir para quadros
mais graves na adolescência e vida adulta, como abandono escolar, dificuldades no
emprego, uso de substâncias psicoativas e envolvimento em comportamentos de risco.
Por outro lado, quando o transtorno é reconhecido e tratado de forma precoce, muitos
indivíduos com TDAH conseguem desenvolver seu potencial e levar uma vida produtiva.
Existem inúmeros relatos de pessoas diagnosticadas com o transtorno que se destacam
em áreas criativas, empreendedoras e técnicas, mostrando que, com o suporte certo, o
TDAH não é uma sentença de fracasso, mas um desafio gerenciável.
Conclusão
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma condição neurobiológica
complexa, que exige atenção, compreensão e cuidado. A desinformação sobre o TDAH
ainda é um obstáculo para o diagnóstico precoce e para a aceitação social do transtorno.
Muitas pessoas passam anos sem entender suas dificuldades, acumulando frustrações e
traumas que poderiam ser evitados com apoio adequado.
Com o avanço da ciência e o fortalecimento de políticas públicas de saúde mental, é
possível promover um diagnóstico mais preciso e um tratamento eficaz, melhorando a
qualidade de vida de milhões de pessoas. É fundamental, portanto, que pais, educadores,
profissionais de saúde e a sociedade em geral estejam bem informados, preparados para
acolher e apoiar indivíduos com TDAH em suas jornadas de crescimento, aprendizado e
desenvolvimento pessoal.