The Unemployment in The History of Economic Thought: O Desemprego Na História Do Pensamento Econômico
The Unemployment in The History of Economic Thought: O Desemprego Na História Do Pensamento Econômico
Resumo
O artigo tem o objetivo de apresentar as mais influentes teorias sobre as causas do desemprego até 1980,
evidenciando sua vinculação com distintas conjunturas históricas. Partindo da tradição da economia
política aplicada ao estudo do mercado de trabalho, apoia-se no entendimento de que as distintas teorias
refletem compreensões divergentes sobre o funcionamento de uma economia capitalista. A argumentação
está dividida em três passos. O primeiro prioriza as formulações sobre o desemprego nas abordagens
marxista e neoclássica, e mostra que a proteção contra o desemprego involuntário gerava divergências no
início do século XX. O segundo ressalta a revolução no pensamento econômico nos anos 1930 e esclarece
como o pleno emprego passou a ser visto como uma construção política. O terceiro enfatiza a reação
contra a escola keynesiana e critica o postulado de que certo nível de desemprego é necessário para
manter a taxa de inflação sob controle e propiciar um crescimento econômico equilibrado.
Palavras-chave: teoria do desemprego; pleno emprego; história do pensamento econômico.
Abstract
The paper aims to present the most influential theories about the causes of unemployment until 1980,
highlighting its connection with different historical contexts. It follows the political economy framework
applied to the study of the labor market, and relies on the understanding that such theories reflect different
views on how a capitalist economy works. The argument is divided into three steps. The first emphasizes
the formulations on unemployment in Marxist and Neoclassical approaches, and shows that the protection
against involuntary unemployment caused disagreements in the early twentieth century. The second
focuses the revolution in economic thought in the 1930s, and clarifies how full employment was seen as a
political construction. The third emphasizes the reaction against Keynesian school, and criticizes the
belief that certain level of unemployment is necessary to keep inflation under control and to support
balanced economic growth.
Keywords: theory of unemployment; full employment; history of economic thought.
1. INTRODUÇÃO
Desde o século XIX, economistas de diferentes correntes de pensamento
dedicaram atenção especial ao desemprego, mas foi no século XX que o debate sobre o
tema se tornou mais acirrado, tanto no âmbito acadêmico quanto no político. É possível
constatar que as teorias econômicas mais conhecidas refletem diferentes pontos de vista
sobre o funcionamento de uma economia de mercado em períodos de normalidade e
sobre os fatores responsáveis por crises conjunturais (DATHEIN, 2005). Quando essas
distintas visões da dinâmica econômica são aplicadas na explicação do funcionamento
do mercado de trabalho, as divergências são ressaltadas. Por isso, um inventário das
principais teorias elaboradas para explicar as causas do desemprego – e indicar como o
problema deve ser tratado – deve percorrer capítulos importantes da história do
pensamento econômico e, em adição, comprovar que esse terreno de debates
acadêmicos é permeado por disputas políticas e ideológicas (GARRATY, 1978).
Sem dúvida, é essencial uma contextualização dos debates em torno de ideias
controversas (por exemplo, sobre o papel do Estado na regulação da economia) e da
formulação de novas teorias econômicas (no caso, sobre as causas do desemprego), uma
vez que o contexto histórico exerce grande influência sobre as explicações das relações
econômicas (HUNT, 1992). Tanto os economistas que foram capazes de criar teorias
com base na observação de regularidades e tendências empíricas, quanto os que
derivaram suas formulações de raciocínio lógico-abstrato, em alguma medida,
pretendiam responder questões motivadas pelas configurações econômicas, sociais e
políticas predominantes em sua época (HARVEY, 2015).
O objetivo do artigo é apresentar as principais teorias sobre as causas do
desemprego – e a possibilidade do pleno emprego – formuladas até os anos 1970,1
mostrando sua vinculação com distintas conjunturas históricas. Buscando selecionar
textos que balizaram o estudo do mercado de trabalho, a argumentação se apoia no
entendimento de que as teorias do desemprego mais influentes refletem diferentes
compreensões sobre o funcionamento de uma economia capitalista.
O texto está dividido em mais quatro seções. A primeira resume as formulações
iniciais sobre o desemprego no âmbito da economia política, as quais tinham como
referência o capitalismo concorrencial na Inglaterra, e mostra que a proteção contra o
desemprego involuntário gerava divergências no início do século XX. A segunda
ressalta a revolução no pensamento econômico após o colapso da ordem liberal nos
anos 1930, favorecendo uma mudança na condução da política econômica, o surgimento
de novas instituições para o mercado de trabalho e o compromisso político de manter o
pleno emprego. A terceira prioriza a reação contra a teoria keynesiana nos EUA e a
difusão do postulado de que certo nível de desemprego é necessário para evitar um
aumento da inflação e propiciar um crescimento econômico equilibrado. A última seção
traz as considerações finais deste artigo.
2. O DESEMPREGO COMO TEMA DA ECONOMIA POLÍTICA
1
Os enfoques teóricos contemporâneos, formulados a partir de 1980, serão tratados em outro artigo.
causado pela introdução de inovações tecnológicas devia ser visto como um preço
necessário a ser pago pelas nações movidas pelo progresso.
Em oposição a essa visão apologética, Karl Marx construiu uma análise crítica
da problemática do emprego no modo de produção capitalista, que se assenta em duas
ideias-chave presentes em Das kapital (1867): i) a acumulação de capital está assentada
na necessária exploração do trabalho assalariado no interior da esfera de produção com
o objetivo de gerar mais-valia; e ii) a reprodução do sistema passa pela garantia de uma
oferta de mão de obra suficiente para atender a demanda das empresas, ou seja, um
mercado de trabalho funcional aos interesses do capital. Nesse sentido, convém
mencionar que, ao explicar a lei geral da acumulação de capital (livro 1, cap. XXIII),
Marx argumentou que a concorrência intercapitalista requer a busca incessante pelo
aumento da produtividade do trabalho, que por sua vez exige a recorrente introdução de
inovação tecnológica – estava implícito que a grande indústria já tinha subordinado
plenamente os trabalhadores aos seus ditames. Para que a acumulação capitalista não
fosse contida por uma eventual escassez de trabalhadores ou por uma forte elevação
salarial, o desenvolvimento do capitalismo providenciou o surgimento de um “exército
industrial de reserva” (formado por desempregados, trabalhadores em domicílio e
camponeses, que podem ser recrutados nos momentos de expansão econômica). Assim,
desemprego, salários próximos do nível de subsistência e pobreza deveriam ser
entendidos como resultados inerentes da dinâmica daquele regime de acumulação de
capital, que impõe um modo de funcionamento para o mercado de trabalho2.
Ademais, ele argumenta que a anarquia da produção, a desarticulação entre a
oferta e o consumo de mercadorias e o caráter fictício da riqueza financeira conduzem o
sistema a crises de superacumulação. Portanto, ao fazer uma crítica contundente à “Lei
de Say”, postulado segundo o qual a oferta agregada cria automaticamente uma
demanda correspondente, Marx recusa a crença de que as forças de mercado tendem a
propiciar o pleno emprego dos fatores produtivos numa economia fundada na livre
concorrência, e mostra que o sistema tende a aumentar progressivamente a redundância
do trabalho vivo (MAZZUCCHELLI, 1985).
Em contraste com o pensamento crítico de Marx, a teoria econômica neoclássica
de Léon Walras (Eléments d’économie politique pure, 1874) afirmava que o sistema
econômico tendia naturalmente ao equilíbrio geral, otimizando o resultado agregado das
decisões dos agentes econômicos e conduzindo ao pleno emprego dos fatores
produtivos (terra, capital e trabalho). Nesse sentido, o desemprego era um desequilíbrio
momentâneo do sistema. Embora a realidade cotidiana não correspondesse à situação
ideal propalada no modelo de análise, o postulado de equilíbrio era válido por se basear
em um raciocínio lógico-matemático.
Por sua vez, na abordagem neoclássica marginalista, que se tornou hegemônica
no final do século XIX a partir das contribuições de Alfred Marshall (Principles of
economics, 1890), quaisquer desajustes no funcionamento dos mercados de trabalho
deviam ser vistos como problemas decorrentes de interferências na livre ação das forças
de mercado – as quais tendiam para equilíbrios parciais. Embora, de vez em quando,
surgissem crises conjunturais que produziam desemprego, em razão do movimento
2
O mercado de trabalho observado por Marx, em meados do século XIX, era aquele que predominava na
Inglaterra durante a vigência da ordem liberal clássica, na qual o trabalho havia se tornado uma mera
“mercadoria”. A livre compra e venda de força de trabalho representou um passo importante na direção
de uma “sociedade de mercado”, cujos traços mais marcantes ficaram claros nas décadas seguintes
(POLANYI, 1980).
cíclico dos negócios, era mais prudente evitar uma intervenção do governo para
remediar o problema, cujos desdobramentos poderiam provocar disfunções maiores. Ele
acreditava no poder infalível do desenvolvimento econômico de superar obstáculos.
Mas, tais interferências indesejadas no mecanismo de definição dos preços e dos
salários deviam ser eliminadas para que fossem curados os males da sociedade e fossem
alcançados os benefícios prometidos pela ordem liberal: gradativo progresso social e
paulatina redução da pobreza.
As transformações econômicas no final do século XIX trouxeram novas
configurações produtivas e introduziram novas correlações de força. O funcionamento
do mercado de trabalho foi aos poucos se modificando. A mudança da estrutura
ocupacional (em razão dos novos ramos de atividade advindos com a II Revolução
Industrial) colaborou para alterar a composição da classe trabalhadora e renovar a elite
operária, constituindo um “novo sindicalismo” (HOBSBAWM, 2000). Na Inglaterra, os
sindicatos se organizaram com base numa estrutura mais moderna e adotaram novas
estratégias de luta: primeiro, pressionando as grandes empresas a concederem aumentos
salariais e redução da jornada de trabalho e a melhorarem as condições de segurança no
trabalho; em complemento, reforçando o combate ao trabalho infantil e expandindo
métodos de assistência mútua entre os trabalhadores.
Na década de 1890, a imigração era vista como uma das principais causas do
desemprego nos EUA (estimado em 12% da força de trabalho masculina entre 1895-
1898, numa conjuntura econômica recessiva). Mas, na Europa, a emigração não tinha
eliminado o problema (no Reino Unido, pico de 10% entre trabalhadores sindicalizados
em 1886). Aos poucos, foram surgindo vozes argumentando que, se a existência de
certo número de desempregados era necessária para o funcionamento de uma economia
industrializada e medidas preventivas eram pouco eficazes, era preciso que o governo
criasse políticas para oferecer paliativos, algum tipo de assistência contra os riscos que
afetam o bem-estar social. Contudo, também havia vozes contrárias a uma assistência
pública aos desempregados porque poderia perpetuar o problema, em vez de resolvê-lo.
Nesse contexto, ganhou evidência a perspectiva singular de John Hobson, um
dos primeiros economistas a tratar o desemprego como problema específico, tendo
publicado Problem of the unemployed, em 1896, e Economics of unemployment, em
1922. Assumindo a postura de reformador social, acreditava que o reconhecimento de
que o desemprego era inevitável sob as condições existentes devia motivar políticas
governamentais para resolver o problema. Porém, induzir a emigração era impraticável;
criar campos de trabalho não vinha sendo uma solução eficaz; e aumentar a
sindicalização entre os trabalhadores sem qualificação não ajudava a criar empregos.
Por sua vez, projetos sociais deveriam ser apoiados mesmo que não gerassem trabalho
para os desempregados. E havia a hipótese, ele acrescenta, do governo assumir a função
de empregador, mas essa solução era impugnada pelos defensores do liberalismo, pois
implicava oferecer um prêmio para aqueles que falharam em obter um trabalho num
mercado competitivo e podia prejudicar interesses do setor privado (o que acabaria
diluindo o efeito positivo que inicialmente tal medida poderia ter sobre o desemprego).
Hobson argumentava que, se as estatísticas mostravam que o número de desempregados
era muito maior nos períodos de recessão, diminuindo acentuadamente nos períodos de
expansão, não seria correto dizer que os desocupados são pessoas que não querem
trabalhar. Para ele, o desemprego era resultado da má distribuição da renda e do
subconsumo (ideia que soava como heresia numa época em que predominava a crença
na Lei de Say). Ainda que sua formulação teórica fosse pouco convincente e tenha sido
rejeitada no meio acadêmico, é importante frisar que os livros de Hobson mostram que
o desemprego passou a ser discutido como tema da agenda política.
Entender a causa do problema era essencial para propor uma solução apropriada.
O próprio Marshall, escrevendo em 1903 (apud WHITAKER, 1996), havia notado que
o desemprego pode ser um sintoma de diferentes tipos de desajuste, devendo ser feita
uma distinção entre o desemprego “ocasional” (causado pela flutuação econômica e
pela dificuldade das pessoas de prever mudanças) e o desemprego “sistemático” (que
atinge aquelas pessoas que não são capazes de obter um emprego regular e transitam
entre trabalhos avulsos, eventuais). Então, o combate ao desemprego requeria diferentes
tipos de tratamento. Para ele, o desemprego ocasional vinha se reduzindo à medida que
crescia a compreensão a respeito do funcionamento dos mercados (o melhor modo de
lidar com esse sintoma era reduzir a intensidade e frequência das recessões por meio de
estabilidade monetária). Por sua vez, o desemprego sistemático vinha crescendo à
medida que aumentava a população urbana, sendo necessário mobilizar fundos públicos
e privados para combater o mal pela raiz (em especial, adotar medidas para superar as
debilidades próprias da vida urbana, o que requeria disciplinar aqueles indivíduos que
estavam habitualmente desempregados e evitar que os mesmos comportamentos e
incapacidades se reproduzissem nos seus filhos).
Apesar da objeção de economistas influentes, por motivação política começou a
se desenvolver um embrião do sistema público de proteção ao trabalho na Inglaterra. Na
época da criação do primeiro sistema nacional de seguro-desemprego, entre 1909 e
1911, havia duas posições distintas sobre o tipo de proteção. De um lado, William
Beveridge (Unemployment: a problem of industry, 1909) defendia um programa
assistencialista para atenuar os efeitos de um problema econômico inevitável, que
atingia os indivíduos mais vulneráveis. De outro, Sidney e Beatrice Webb (The
prevention of destitution, 1911) enfatizavam a necessidade de ações preventivas para
ajudar os trabalhadores a desenvolver virtudes tais como previdência e independência, e
para eliminar gradualmente a destituição causada pela existência do desemprego. De
forma pragmática e audaciosa, Winston Churchill organizou um sistema contributivo
compulsório, pagando um terço do salário de um trabalhador de baixa renda durante um
período de até 15 semanas. Também em 1909, entrou em vigor uma legislação
estabelecendo um piso mínimo para o salário pago por hora.
Não por acaso, na 11ª edição da Encyclopedia Britannica (1911), o desemprego
surgiu pela primeira vez como verbete (GARRATY, 1978). Foi definido como uma
questão social causada por fatores sobre os quais os trabalhadores não têm controle. Já
não se esperava que o funcionamento normal da economia produzisse o pleno emprego
da força de trabalho. Mesmo dentro da normalidade, o desemprego ocorria devido a
uma oferta excedente de mão de obra (ou seja, era um fenômeno que não podia ser
evitado, apenas remediado).
A conquista progressiva de direitos do trabalho contribuiu para que parcelas
crescentes dos trabalhadores das nações mais ricas do Ocidente pudessem alcançar uma
condição de vida e um status social superiores àqueles das gerações anteriores à belle
époque. Contudo, a I Guerra Mundial deixou marcas profundas e enfraqueceu as
economias nacionais europeias, revelando os problemas crônicos de funcionamento do
mercado de trabalho e voltando a explicitar as inseguranças a que estavam submetidos
os trabalhadores. A própria criação da Organização Internacional do Trabalho, em 1919,
demonstra uma preocupação crescente com a adoção de normas destinadas a impedir
que o trabalho fosse tratado meramente como uma mercadoria livremente
comercializada, inclusive no que diz respeito aos serviços de intermediação da mão de
obra (RODGERS; LEE; SWEPSTON; VAN DAELE, 2009).
No início da década seguinte, diante da crise econômica na Europa, a OIT
produziu seu primeiro relatório sobre o desemprego e as políticas governamentais
necessárias para reduzir o problema e dar assistência aos desempregados (Remedies for
unemployment, 1922). O documento mostra que já havia programas de seguro-
desemprego (compulsórios ou por adesão) ou assistência pública aos que estavam
involuntariamente desempregados em vários países europeus, esclarecendo as
diferenças nos arranjos institucionais e nas condições para receber os benefícios em
cada país. O estudo também aponta a necessidade de oferecer uma compensação aos
que involuntariamente trabalhavam só poucas horas por dia, fenômeno classificado
como “desemprego parcial”, que poderia acarretar problemas sociais tão graves quanto
a falta completa de trabalho.
Nos EUA, de acordo com John Commons, pioneiro da economia do trabalho e
editor de Trade unionism and labor problems (1921), o seguro-desemprego era uma das
demandas legítimas dos sindicatos no início dos anos 1920. Porém, uma política
nacional de proteção aos desempregados demorou mais a surgir, talvez porque a
prioridade fosse conter o fluxo de migrantes que eram atraídos pelo vigor da economia
norte-americana – a qual propiciava salários maiores do que na Europa – e pelas
oportunidades de ascensão social na pátria da liberdade. Na ordem liberal norte-
americana, quase não havia regulação pública do mercado de trabalho: a escassa
legislação protetiva era frequentemente descumprida, o poder judiciário favorecia
sistematicamente os empregadores contra queixas de trabalhadores e os sindicatos eram
reprimidos pela polícia (ROBERTSON, 1964).
O economista neoclássico Knut Wicksell, ao tentar explicar o “enigma” do
elevado desemprego na Suécia em uma conjuntura econômica recessiva, atribuiu a
causa do problema ao excedente de mão de obra e à impossibilidade de redução dos
salários para um patamar inferior ao nível de sobrevivência (JONUNG, 1989). A
solução para ele, no curto prazo, seria a emigração de trabalhadores sem emprego para
outros países; no longo prazo, sugeria a adoção de métodos anticonceptivos para conter
o crescimento populacional e, em adição, que o governo permitisse uma redução salarial
para um nível que estimulasse as empresas a contratarem trabalhadores e subsidiasse os
salários (a diferença entre o salário contratado e o nível de sobrevivência seria coberta
por um fundo público). Mas, num artigo escrito em 1923 (Ricardo on machinery and
the present unemployment), Wicksell apontou a necessidade de reconhecer que o
desemprego podia resultar de uma condição forçada ou involuntária, que contrariava o
pressuposto neoclássico do pleno emprego, uma vez que a plena utilização dos fatores
produtivos no longo prazo poderia requerer uma taxa de juros negativa e implicar uma
tendência contínua de redução dos salários (BOIANOVSKY e TRAUTWEIN, 2003).
Por fim, merece destaque a contribuição fundamental de Joseph Schumpeter. Em
The theory of economic development, publicado inicialmente em 1911 e revisado em
1926, ele buscou entender a dinâmica dos ciclos econômicos e como a inovação
tecnológica se tornou um vetor recorrente de transformação do sistema econômico.
Partindo da ideia walrasiana de equilíbrio geral, procurou superar as limitações da
análise neoclássica, incapaz de compreender os motivos da flutuação da atividade
econômica e de lidar com o avanço irregular e descontínuo da acumulação de capital. O
importante, aqui, é mencionar que Schumpeter refutou a dicotomia entre o desemprego
tecnológico (associado com a adoção de novas tecnologias e de novas formas de
organização da produção que elevam a produtividade do trabalho) e o desemprego
conjuntural (causado pelo movimento cíclico da economia), uma vez que o progresso
técnico é um fator inerente ao ciclo econômico. Nessa abordagem, a destruição de
empregos nos ramos de atividade que incorporam inovações tecnológicas pode ser
compensada, ao longo do ciclo, pela criação de novos empregos em razão da expansão
econômica estimulada pelo aumento do nível de investimentos. Portanto, o desemprego
deveria ser visto como um fenômeno inevitável, mas transitório.
3. O PLENO EMPREGO COMO CONSTRUÇÃO POLÍTICA
3
Começam a proliferar explicações realçando o impacto da inovação tecnológica, ou o
desestímulo causado pelo seguro-desemprego, ou os efeitos da instabilidade financeira e da
adoção de políticas de austeridade fiscal, ou ainda, combinando a análise microeconômica com
a macroeconômica.
Convém acrescentar algumas considerações sobre o debate travado neste terreno
acadêmico claramente permeado por interesses econômicos e políticos. O ponto a
ressaltar se refere ao alcance e influência das teorias do desemprego.
As teorias neoclássicas a respeito do funcionamento do mercado de trabalho não
explicam satisfatoriamente as causas concretas do desemprego, mas durante muito
tempo tiveram grande influência e legitimaram os arranjos institucionais predominantes
na potência hegemônica (primeiro na Inglaterra, depois nos EUA), restringindo o papel
do governo nessa área. Na abordagem neoclássica o mercado de trabalho é basicamente
uma construção teórica pautada na ideia de forças em equilíbrio, cuja análise geralmente
abstrai a complexidade das relações que resultam de um campo de interação humana
descentralizado, fragmentado, assimétrico e dinâmico. A experiência histórica tornou
evidente que o funcionamento do mercado de trabalho não corresponde ao que pregam
os modelos teóricos baseados em concorrência perfeita e em comportamento
padronizado dos agentes, uma vez que tanto as empresas como os trabalhadores têm
acesso restrito às informações, estão sujeitos a custos de transação significativos, podem
ter interesses variados, podem não adotar uma racionalidade utilitária focada em
maximizar benefícios e podem ser obrigados a mudar suas estratégias de ação em razão
de eventos imprevistos ou circunstanciais.
Entre os seguidores dessa tradição de pensamento, destacam-se três perspectivas
sobre o desemprego: a) quando a inserção ocupacional dos indivíduos é determinada
livremente por escolhas feitas num mercado de trabalho não regulado (sem distorções
provocadas pela intervenção estatal), a existência voluntária de trabalhadores sem um
emprego não constitui um problema econômico; b) quando o desemprego está associado
com o esforço dos trabalhadores em melhorar sua situação ocupacional e obter ganhos
salariais, não configura um mal em si, mas pode requerer a atenção do governo para
evitar que a situação prejudique o desempenho das empresas; c) quando o desemprego é
uma manifestação intrínseca de falhas no funcionamento do mercado de trabalho, então
são necessárias certas intervenções corretivas ou mesmo uma mudança institucional.
É preciso frisar que as teorias que se baseiam nessa abordagem não só oferecem
uma explicação parcial para o fenômeno como são inadequadas para explicar o
desemprego em momentos de crise econômica. As tentativas de representar as relações
econômicas em modelos econométricos não têm sido bem-sucedidas e encontram
grande dificuldade de lidar com as diversas configurações que um mercado de trabalho
nacional pode assumir. Em geral, tais modelos simplificam demasiadamente a realidade,
confundem o sentido da causalidade dos problemas e subsidiam a formulação de
políticas públicas ineficazes para enfrentar o desemprego crônico.
Vale mencionar que o significado econômico e social do desemprego se alterou
ao longo do tempo. A época de Keynes é diferente daquela de Marx: o surgimento de
grandes corporações e de federações sindicais trouxe mudanças no funcionamento do
mercado de trabalho nas economias industrializadas, embora ainda prevalecesse o
contrato individual de trabalho e a proteção aos trabalhadores avançasse timidamente.
Após a II Guerra Mundial, houve uma ampliação considerável da regulação pública dos
mercados, difundiu-se a negociação coletiva e foi firmado um compromisso político
com o pleno emprego em vários países desenvolvidos. Durante três décadas, a
vulnerabilidade dos trabalhadores diante de flutuações econômicas diminuiu bastante e
o desemprego tornou-se um fenômeno residual e transitório. Posteriormente, quando o
desemprego voltou a assombrar parcela expressiva da força de trabalho, talvez suas
consequências já não fossem tão dramáticas (onde houvesse seguridade social).
O fenômeno do desemprego também se manifesta de modo particular em cada
país, podendo assumir distintos significados sociais de acordo com os segmentos da
população atingidos e os arranjos institucionais para a proteção dos desempregados. Em
geral, o significado econômico e social do desemprego está associado, em grande
medida, ao modo como a questão é tratada politicamente em cada nação. Sempre que
ocorre uma crise econômica, as sociedades democráticas exigem que seus governos
tomem as medidas necessárias para equacionar o problema, mas são poucos os que
adotam políticas econômicas efetivamente compromissadas com o pleno emprego.
Pode-se questionar: se o fenômeno do desemprego se modifica no tempo e no
espaço, é correto supor que as diferentes teorias mencionadas tratam do mesmo objeto
de estudo? As teorias do desemprego são válidas apenas para a conjuntura histórica na
qual foram plasmadas? Ou melhor, as explicações oferecidas pelas principais escolas de
pensamento econômico para o desemprego, assim como as recomendações de políticas
para atenuar ou resolver o problema, fazem sentido fora do contexto em que foram
formuladas? Ou ainda, como conciliar a reflexão sobre o desemprego nos termos da
economia política com a análise focada na dinâmica macroeconômica?
Certamente, mudanças no ordenamento institucional, na dinâmica demográfica,
nas estratégias de concorrência das empresas ou mesmo no regime de acumulação, ao
provocarem alterações no funcionamento do mercado de trabalho, exigem, de tempos
em tempos, uma reformulação das teorias. Ainda assim, as abordagens contemporâneas
continuam se inspirando nas proposições de Marx, Marshall, Keynes, Friedman e outros
expoentes da história do pensamento econômico – seja para refutar ou confirmar suas
proposições, ou mesmo para delimitar o alcance de suas contribuições.
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Recebido em março de 2014
Aprovado em maio de 2014