“Travessia”
“Quatro Luas”
“A felicidade”
“Tudo Que Você Podia Ser” - Lô Borges
“Saídas e bandeiras nº 1” - Fernando Brant e Milton Nascimento
“Cais” - Milton Nascimento e Ronaldo Bastos
“Clube da Esquina n° 2” - Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges
“Saídas e Bandeiras nº2” - Fernando Brant e Milton Nascimento
“Os povos” - Márcio Borges e Milton Nascimento
“Um gosto de Sol” - Milton Nascimento e Ronaldo Bastos
“Trem De Doido” - Lô Borges e Márcio Borges
“San Vicente” - Fernando Brant e Milton Nascimento
“Gran Circo” - Milton Nascimento e Márcio Borges
“Idolatrada” - Fernando Brant e Milton Nascimento
“Leo”
“Maria, Maria”
“Credo”
“O Que Foi Feito Devera (De Vera)”
“Pão e água”
"Povo Da Raça Brasil"
“Roupa Nova”
Sueño Con Serpientes
“Itamarandiba”
“Coração Civil”
“Sonho de moço”
“Caçador de mim”
“Essa voz”
“Filho”
“Certa canção”
“Comunhão”
“Olha”
“Coração de Estudante”
“Maria Maria”
“Solar”
“Um gosto de sol”
“Canção do novo mundo”
Nesse ano, os compositores voltam ao passado e recolhem, no tempo, vestígios da
canção que inaugurou a trajetória de uma das mais fecundas parcerias da história da
música
popular no Brasil. Em 1967, Milton Nascimento ofereceu a Fernando Brant uma melodia
e
um tema: a vida de um caixeiro-viajante em meio a estradas e cidades, sonhos e
caminhos.
Passada a recusa inicial, visto que, o então estudante nem se quer se imaginava
como o
compositor que viria a ser a partir daquele momento, Fernando Brant escreveu os
versos de
“O vendedor de sonhos”, porém sem tratar diretamente do tema que lhe foi sugerido.
Dessa
forma, a alternativa foi trocar o título da canção. Sua primeira parceria com
Milton
Nascimento passava a se chamar, então, “Travessia”, última palavra escrita por João
Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. A idéia do caixeiro-viajante ficaria
guardada
por duas décadas, até que, em 1987, ela foi visitada novamente pela dupla.37 Nessa
nova
canção, eles ensaiam, de maneira própria e particular, uma autodefinição do ofício
do
compositor popular que marcou não somente a carreira de ambos, mas também a
trajetória
do próprio Clube da esquina:
Vendedor de sonhos
Tenho a profissão viajante
De caixeiro que traz na bagagem
Repertório de vida e canções
E de esperança
Mais teimoso que uma criança38
Depoimento de Fernando Brant. In: [Link]; BORGES, M. Os
sonhos não
envelhecem; histórias do Clube da esquina, 1996; DOLORES, M. Travessia: a vida de
Milton Nascimento,
2006.
Na narrativa, os compositores realizam uma aproximação entre a arte de compor
canções e o caminhar de um viajante que, percorrendo as estradas, transmite aos
lugares por
onde passa, um conhecimento prático que provém de sua experiência de vida. “O
vendedor
de sonhos” é interpretada por Milton Nascimento em companhia de Paul Simon.
Na canção, além de seu “repertório de vida”, o narrador revela um estar-no-mundo
transpassado pela tradução do vivido e do sonhado em uma matéria narrativa capaz de
estruturar, através de idéias e experiências, uma memória. Porém, essa memória é
construída a partir de desvios e digressões, com os quais o Clube da esquina amarra
suas
canções numa rede interligada por histórias em que se reúnem acidentes e aventuras
sem
uma ordem ou seqüência estabelecida.42
Vendo os meus sonhos
E em troca da fé ambulante
Quero ter no final da viagem
Um caminho de pedra feliz43
O diário de viagens desses compositores parece mesmo não conter rotas regulares,
paisagens homogêneas ou limites a serem respeitados. Ele é feito, sobretudo, por
sonhos de
“pó, poeira, ventania e movimento”. Percorrendo caminhos desiguais, essa viagem se
torna
perigosa, inacabada e, por vezes, contraditória. Enquanto viajantes, as dobras da
distância
não inibem esses compositores. Seus olhos não se assustam com tamanho
estranhamento,
mas, pelo contrário, retira dessa experiência um rico conhecimento, em permanente
transformação.
Como instrumentos de um combate ético, as canções do Clube da esquina
carregaram, durante as décadas de 1960 e 1970, o propósito de intervir na cena
pública,
agindo, sobretudo, sobre a “alma dos cidadãos”, para estabelecer na realidade os
alicerces
de seus sonhos e fantasias. Os alicerces sobre os quais vigorou a cidade ideal
criada pelos
compositores são, porém, construídos “pelo mais trágico realismo”. Na luta contra o
cerceamento do cidadão e a restrição da liberdade, a cidade imaginária se contrapõe
ao real,
desafiando a Fortuna e a natureza destrutiva do homem.397 Através de suas canções,
o
Clube da esquina tramou a resistência, conjurando idéias que visaram a criação de
novos
mundos:
Entre uma realidade restrita aos limites impostos pela falta de liberdade e pela
hegemonia da vida particular sobre o mundo público; em contraposição a um
imaginário
onde reinavam possibilidades que se abriam ao impossível, os olhares do Clube da
esquina
nos convidaram, a voltar, mais uma vez, nossas atenções para as esquinas, amálgama
feita
395 O 3° ENE foi organizado com o objetivo de reestruturar o movimento estudantil
que passava por uma fase
de dispersão. No dia 4 de junho de 1977, vários estudantes foram presos e fichados
pelo DOPS-MG, após se
recusarem a se retirar do Diretório Acadêmico da Escola de Medicina da UFMG,
causando comoção em toda
a cidade. VILARA, P. Palavras musicais: letras, processo de criação, visão de mundo
de 4 compositores
brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral, 2006, p.
73. 396 NASCIMENTO, M. Credo. M. Nascimento; F. Brant. In: Clube da Esquina II,
1978. 397 BRANDÃO. C. A. L. A república da arquitetura, 2003. 398 GUEDES, B. Sol de
primavera. B. Guedes; R. Bastos. In: Sol de primavera, 1979.
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de concreto e sonho na qual se fundem o real e o imaginário. Porém, diante da
esquina não
há pergunta que receba uma resposta definitiva. No exercício da dúvida, a esquina
nos
impele a uma decisão na medida em que ela nos apresenta novos caminhos. A esquina
seria, sobretudo, um convite para ir além do que já foi vivido. Lugar de esperança,
ela
conserva sempre novas direções, até que se encontre um rumo certo. Quando essas
alternativas desaparecem é porque, enfim, nossas escolhas foram felizes.399
No conturbado cenário político vivido pelo país, as canções do Clube da esquina
construíram um conjunto vigoroso de idéias e valores a partir da combinação entre
ambição
intelectual e contestação política empreendidas por seus compositores. Canções que
contrariavam o sentimento coletivo de fracasso e impotência política disperso no
país,
principalmente, após a promulgação do Ato Institucional N° 5, de 1968, ao
apresentar à
cena pública novas possibilidades de ação expressas pela evocação de alternativas
de
futuro. Ao contrário da Tropicália que “dispôs em cena as relíquias do Brasil”, o
Clube da
esquina desafiou a desordem das lembranças de um Brasil em ruínas, transmitindo
novas
esperanças presentificadas por canções carregadas de radicalidade crítica.
Durante as décadas de 1960 e 1970, o Clube da esquina, através de suas canções,
demonstrou que, diante do perigo que supunha a perda da liberdade presente, havia
também
a necessidade de sonhar um futuro possível. Contudo, para enfrentar a ditadura
militar era
preciso reconquistar a cidade enquanto espaço de realização política, exercício que
prima
pela consciência que aproxima os homens pela reciprocidade entre iguais e que
apenas a
existência comum fundada no sentimento de pertencimento é capaz de produzir.
A partir dessa tentativa de reencontro com o bem comum, o Clube da esquina
construiu uma linguagem musical que buscou revitalizar o espaço próprio à cena
pública
que o grupo pretendeu fixar no presente.
Nesse sentido, as canções do Clube da esquina, além de possuir um significado,
podem ser entendidas como uma ação intencional decorrente da necessidade de reagir
defronte a uma realidade política hostil. Seja através da utilização de recursos
retóricos
como a metáfora, a citação, a sátira; seja através da mobilização de princípios,
valores ou
idéias ausentes em seu tempo, os compositores podem ser tidos como atores
políticos, na
medida em que fizeram uso da canção como uma espécie de instrumentos de combate
ético.
É certo que uma canção possui vários significados, inclusive, distantes daqueles
intencionados por seus autores. No entanto, através da crítica, o repúdio ou a
negação de
uma determinada conjuntura, realizadas por um compositor, é possível avaliar o
posicionamento e as ações efetivadas por ele frente aos debates da época. Em se
tratando do
Clube da esquina, verificamos que durante a sua trajetória musical, o grupo elegeu
três
grandes enfoques específicos: a amizade, a narrativa viajante e a utopia das
cidades ideais.
A amizade nasceu, portanto, antes de qualquer canção. Segundo eles, as esquinas de
Belo Horizonte
proporcionavam os mais diversos tipos de encontros. Em uma delas, se deu o encontro
entre a amizade, os sonhos de liberdade e as canções.
Em muitas canções, os integrantes do Clube da esquina vestiram, sem cerimônia,
“os trajes do viajante”. No papel de narradores, os viajantes são aqueles que “vêm
de longe
e têm muito por contar”. Enquanto caminham, eles recolheram histórias de cidades
perdidas
e tempos esquecidos, reunidos em um processo de re-significação da realidade, no
qual o
moderno e o arcaico foram flagrados em encontros fortuitos. Essas “iluminações
profanas” foram observadas e cantadas pelo Clube da esquina através de um tipo
especial
de linguagem: a narrativa viajante.
Esse viajar, contudo, se tornou maior do que qualquer viagem, pois visou mais que
transpor distâncias tão grandes quanto os Gerais. Diante dos obstáculos dessa
grandeza
física, os olhares desses compositores assumiram o prisma da busca. Este é o olhar
de quem
não se cansa de descobrir o “novo no velho e o velho no novo”, como um estrangeiro
ou
como se tivesse mesmo “olhos de criança”. Durante o seu caminhar, os viajantes do
Clube da esquina decifraram o mundo através de versos, sons e imagens inscritos em
um
presente que não se limitou ao poder da distância, mas que se abriu à vertigem do
tempo.
Segundo Renato Lessa, “cidades sem repúblicos são ruínas vazias e sem espírito;
repúblicos sem cidades são seres exilados, passageiros de uma diáspora sem fim”.
Por
essa razão, se deva a presença, nas canções do Clube da esquina, do desejo
freqüente de
empreender viagens em busca de cidades envoltas pela imaginação de uma vida melhor.
Nas canções do Clube da esquina, a antiga “utopia das cidades ideais” ganhou novos
contornos e cores por meio da linguagem musical do Clube da esquina. Concebidas
como
obra de arte, as cidades ideais emergem, de tempos em tempos, através da imaginação
de
artistas como um contraponto necessário para a reflexão acerca dos problemas
enfrentados
pelos habitantes da cidade real.
Na luta contra o cerceamento do cidadão e a restrição da liberdade, o Clube da
esquina tramou a resistência, conjurando idéias com o propósito de intervir na cena
pública,
agindo, sobretudo, sobre a “alma dos cidadãos”, para estabelecer na realidade os
alicerces
de seus sonhos e fantasias. Nesse contexto, a utopia das cidades ideais,
disseminada através
de uma narrativa oblíqua, se tornou o “ponto de encontro entre o pensamento
político e o
pensamento estético.