Prova-modelo 1
GRUPO I
Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Lê o poema.
Meu coração é um pórtico1 partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
5 Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
10 Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas2,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
Fernando Pessoa, Poesias (nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor),
Lisboa, Ática, 1942 (15.ª ed. 1995), p. 49
1
pórtico: entrada monumental de um edifício nobre, de um palácio, de um templo.
2
ametistas: pedras preciosas de cor roxa.
1. No primeiro verso, é notória uma associação entre o coração do sujeito poético e um pórtico partido.
1.1 Explicita essa associação e justifica a tua resposta com elementos textuais.
2. Interpreta a postura do sujeito poético face à sua interioridade.
3. Seleciona a opção de resposta adequada para completares a afirmação abaixo apresentada.
No âmbito da argumentação desenvolvida ao longo da segunda e da terceira estrofes, o recurso a
uma linguagem ________________________ , nos versos de 5 a 13, evidencia a ideia de que é pelo sonho
que se pode _____________________.
A. metafórica … atingir a ideia de felicidade
B. simbólica … alcançar desejos
C. metafórica … perspetivar o futuro
D. simbólica … realizar projetos
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PARTE B
Lê o excerto do Ato Primeiro da peça Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett.
Manuel (Passeia agitado de um lado para o outro da cena, com as mãos cruzadas detrás
das costas: e parando de repente) – Há de saber-se no mundo que ainda há um português
em Portugal.
Madalena – Que tens tu, dize, que tens tu?
5 Manuel – Tenho que não hei de sofrer esta afronta… e que é preciso sair desta casa,
senhora.
Madalena – Pois sairemos, sim: eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa
era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em
tudo. Mas oh! esposo da minha alma… para aquela casa não, não me leves para aquela casa
10 (deitando-lhe os braços ao pescoço).
Manuel – Ora tu não eras costumada a ter caprichos1! Não temos outra para onde ir; e
a estas horas, neste aperto… Mudaremos depois, se quiseres… mas não lhe vejo remédio
agora. – E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido? É por mim que tens essa
repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória,
15 por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar-me debaixo dos
mesmos tetos que o cobriram. Viveste ali com ele? Eu não tenho ciúmes de um passado que
me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena… Não
falemos mais nisso; é preciso partir, e já.
Madalena – Mas é que tu não sabes… eu não sou melindrosa2 nem de invenções: em
20 tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; nisso não… mas tu não sabes a violência, o
constrangimento3 de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Parece-me
que é voltar ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar ali… oh, perdoa,
perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… – que vou achar ali a sombra despeitosa4 de
D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes5… que a atravessa no meio
25 de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre… – Que queres? Bem
sei que é loucura; mas a ideia de tornar a morar ali, de viver ali contigo e com Maria, não posso
com ela. Sei decerto que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali
três dias, três horas, sem que todas as calamidades do mundo venham sobre nós. – Meu esposo,
Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor to peço, pela nossa filha… vamos seja para
30 onde for, para a cabana de algum pobre pescador desses contornos6, mas para ali não, oh! não.
Manuel – Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de acreditar
em agouros.
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Lisboa, Editorial Comunicação, 1994, p. 124.
1
caprichos: vontade súbita sem fundamentos. 2 melindrosa: de amuos fáceis. 3 constrangimento: sofrimento interior que se torna
impeditivo. 4 despeitosa: ressentida. 5 espada de dois gumes: que corta impiedosamente doa a quem doer. 6 contornos: arredores.
4. Através das falas de Manuel de Sousa Coutinho é possível determinar o seu caráter.
4.1 Apresenta duas características da personagem e explica cada uma delas com uma transcrição
textual pertinente.
5. Explicita os motivos do medo e da angústia de Madalena.
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6. Seleciona a opção de resposta adequada para completar a afirmação abaixo apresentada.
Com a fala «– Meu esposo, Manuel, marido da minha alma» (ll. 28-29), Madalena pretende
A. exigir, através do apelo aos sentimentos, que Manuel desista das suas intenções.
B. reforçar a expressão dos sentimentos que tem pelo marido.
C. suplicar, através do apelo aos sentimentos, que Manuel desista das suas intenções.
D. confrontar, através do apelo aos sentimentos, as intenções de Manuel.
PARTE C
7. Baseando-te na tua experiência de estudo da poesia trovadoresca, escreve uma breve exposição sobre
as representações de afetos e emoções na cantiga de amigo, e expõe os teus conhecimentos num
texto bem estruturado.
A tua exposição deve incluir:
• uma introdução ao tema;
• um desenvolvimento no qual explicites dois aspetos em que é evidente a representação de afetos
e emoções por parte da donzela, fazendo referências a poemas que tenhas lido;
• uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
GRUPO II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.
Lê o texto.
Tal como nos é sugerido pelo título da pintura War (Guerra), de Paula Rego, pertencente
ao acervo da Tate, em Londres, que utiliza o pastel, apresenta uma transfiguração da dura
realidade e do ambiente de terror que se faz sentir na guerra.
De acordo com o seu próprio testemunho, a autora ter-se-á inspirado numa fotografia
5 publicada no jornal The Guardian, no início da guerra do Iraque, em março de 2003. Neste
quadro, destacam-se, desde logo, duas figuras femininas com cabeças de coelho, que usam
vestidos. Uma destas encontra-se ensanguentada e em evidente sofrimento ao colo da outra.
Ambas configuram, possivelmente, a situação de fuga e o desespero do cenário de guerra.
O facto de a pintora recorrer à representação de figuras animalescas e híbridas, em vez de
10 humanos, confere o caráter animalesco da guerra para além de concorrer para a natureza
grotesca da obra – e do próprio homem.
Na pintura em análise, é possível observar-se ainda outras situações de desumanidade,
características da guerra, como as violações, simbolizadas pela cegonha com as asas estendidas
e com uma garra dentro do vestido de outra figura com cabeça de coelho no canto inferior
15 esquerdo da composição. Aparece, de igual modo, o símbolo de coragem representado
numa mulher que carrega um pau com um ar autoritário e destemido. Para além disto,
testemunhamos também, na parte superior da obra, por detrás das personagens centrais,
um inseto gigante, que parece ser uma formiga a lutar com um cão, uma figura feminina a
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abraçar um pelicano e, finalmente, um gato, simbolizando os comportamentos de alheamento
20 e indiferença dos homens relativamente aos cenários de guerra no mundo.
O fundo de War encontra-se dividido em três blocos de cor: um tom castanho-amarelado,
em baixo, castanho-terra, no meio, e, no topo, um azul-escuro sombrio com uma pluma
de preto, intensificando sentimentos como o sofrimento e o medo. Estas bandas de cor
contrastam com as figuras representadas, as quais são bastante mais trabalhadas.
25 Em suma, a autora da obra, Paula Rego, foi capaz de retratar de forma caricata e autêntica
a cruel realidade da guerra bem como o sofrimento das vítimas e o caráter desumano do
homem, ao agir de forma irracional como os animais. Através da representação do absurdo,
a pintora consegue representar a violência e a angústia, que tanto caracterizam os cenários de
guerra, usando o imaginário que decorre de memórias da infância, o que corrobora o lado
30 monstruoso do homem – vítima, mas também autor (lobo) da mesma guerra (e do próprio
homem, seu semelhante).
Maria Inês Antunes, Apreciação crítica da obra War de Paula Rego, disponível em
http://blogesssbiblioteca.blogspot.com/2018/10/apreciacaocritica-da-obra-war-de-paula.html
(consultado em 02.02.2023, adaptado).
1. De acordo com o texto, a obra War, de Paula Rego é uma pintura
A. moralista, mas com interesse relativo.
B. impressionista, porque choca.
C. que impressiona pela temática representada.
D. alheia à crueldade da guerra.
2. A expressão «o caráter animalesco da guerra» (l. 10) constitui
A. uma descrição. C. um argumento.
B. um juízo de valor. D. um comentário irónico.
3. A autora do texto conclui que a obra de Paula Rego é uma
A. caricatura de uma realidade cruel, que é a guerra.
B. visão artística de uma realidade cruel, que é a guerra.
C. visão absurda de uma realidade cruel, que é a guerra.
D. reprodução de memórias de infância.
4. A utilização das expressões «pintura» (l. 1) e «quadro» (l. 6) contribui para a coesão
A. gramatical referencial. C. lexical por reiteração.
B. gramatical interfrásica. D. lexical por substituição.
5. A expressão «para além de» (l. 10) tem um valor
A. adicional. C. comparativo.
B. temporal. D. alternativo.
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6. O constituinte «que», na expressão «que usam vestidos» (ll. 6-7), pertence à classe
A. das conjunções. C. das locuções.
B. das preposições. D. dos pronomes.
7. A oração «as quais são bastante mais trabalhadas.» (l. 24) é
A. subordinada substantiva relativa.
B. subordinada substantiva completiva.
C. subordinada adjetiva relativa restritiva.
D. subordinada adjetiva relativa explicativa.
GRUPO III
Para muitas pessoas, o valor da amizade é muito importante na sua realização social.
Elabora um texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de 200 e um máximo de 350 palavras,
no qual apresentes o teu ponto de vista sobre o tema sugerido.
No teu texto:
• explicita, de forma clara e pertinente, o teu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos,
cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
• formula uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida;
• utiliza um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta
integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente dos
algarismos que o constituam (ex.: /2023/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados, há que atender ao seguinte:
− um desvio dos mesmos implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
− um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
FIM
Grupo Itens/Cotação (em pontos)
1.1 2. 3. 4.1 5. 6. 7.
I 104
16 16 12 16 16 12 16
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7.
II 56
8 8 8 8 8 8 8
III Item único 40
Total 200
75