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A CONCORDÂNCIA VERBAL DE 3ª PESSOA DO PLURAL EM PELOTAS/RS1
THE VERBAL AGREEMENT OF 3RD PERSON PLURAL IN PELOTAS/RS
Dirce Welchen2
RESUMO: O artigo analisa a concordância verbal de 3ª pessoa do plural com base em
entrevistas de 90 informantes que compõem o VarX – Banco de Dados Sociolinguísticos
Variáveis por Classe Social de Pelotas/RS –, estratificados conforme gênero, classe social,
faixa etária: 45 do gênero masculino e 45 do feminino; 30 da classe social média alta, 30 da
média baixa e 30 da baixa; 30 da faixa etária entre 16 e 25 anos, 30 da faixa etária entre 26 e
49 anos e 30 da faixa etária com mais de 50 anos. Utilizamos metodologia quantitativa, a
partir da interface Windows para o Varbrul e formulário de codificação de dados. Os
resultados mostram que, em Pelotas, há variação de concordância verbal de 3ª pessoa do
plural, mas com predomínio do uso da marca, uma vez que existe presença de desinências
verbais em 4.317 contextos (de um total de 5.263), perfazendo 82%, e em 945 contextos não
ocorrem marcas de concordância, totalizando 18%. Também, constatamos, com base no
resultado das variáveis sociais, que há indícios de aquisição de concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, visto que há um aumento gradual de emprego de marcas de concordância,
cuja direção é dos informantes mais velhos para os mais novos, sendo que os mais novos
apresentam maiores percentuais e peso relativo de emprego de desinências verbais de 3ª
pessoa do plural.
PALAVRAS-CHAVE: Variação Linguística. Concordância Verbal. Pelotas.
ABSTRACT: The article analyzes the variation in 3rd person plural verbal agreement based
on interviews of 90 informants from VarX – Sociolinguistics Database Variable by Social
Class of Pelotas/RS –, stratified according to gender, social class, age: 45 males and 45
females; 30 of the upper middle class, 30 of the low middle class, and 30 of the low social
class; 30 between 16 and 25 years old, 30 between 26 and 49 years old, and 30 over 50 years
old. We used quantitative methodology based on the Windows interface for Varbrul and on
data encryption form. The results show that, in Pelotas, there is variation in 3rd person plural
verbal agreement, but predominating the use of the mark, since the presence of verbal endings
occurs in 4317 contexts (of a total of 5263), totaling 82%, and in 945 contexts there are no
agreement marks, totaling 18%. We also found that, based on social variables, there is
evidence of acquisition of 3rd person plural agreement, since there is a gradual increase in the
use of verb agreement marks, whose direction goes from the older to the younger informants,
given that the younger have higher rates and relative use of verbal endings of 3rd person
plural.
1
O artigo discute resultados da tese de doutorado, particularmente, os relativos à rodada presença versus ausência
de marca de concordância verbal na 3ª pessoa do plural, deixando para outro momento os resultados da rodada
concordância verbal padrão versus não padrão. A tese foi apresentada à UFRGS, no ano de 2009, sob a
orientação da professora doutora Ana Maria Stahl Zilles e do coorientador professor doutor Luís I.C. do Amaral.
2
Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; professora de Produção de Texto,
Português Aplicado ao Direito. E-mail: [Link]@[Link].
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KEYWORDS: Linguistic [Link] agreement. Pelotas.
INTRODUÇÃO
Os primeiros estudos acerca da concordância verbal de 3ª pessoa do plural datam do
início da década de setenta, destacando-se as pesquisas de Naro e colaboradores,
particularmente, Lemle e Naro (1977), que, em Competências básicas do português,
estudaram a concordância verbal de 3ª pessoa do plural, com base na fala de 20 mobralenses
do Rio de Janeiro ou adjacências, e identificaram as variáveis a que o objeto de estudo em
questão está associado. A partir dos resultados dessa pesquisa, os autores passaram a defender
a tese de perda da marca de concordância no português popular brasileiro. Outro pesquisador
de destaque é Guy (1981), que, contrariando a tese desses autores, inclusive baseando-se no
mesmo corpus utilizado por eles, defende a ideia de que marcas de concordância estão sendo
adquiridas de forma gradual e parcial, no português popular. Desde então, muitos outros
trabalhos têm surgido sobre o assunto, a partir de diferentes amostras do português: urbanas,
rurais, rurbanas, de comunidades quilombolas, etc. Algumas dessas pesquisas defendem a
perda da concordância; outras, a aquisição.
Este estudo alia-se aos supracitados, na medida em que visa a contribuir para traçar o
panorama geral da concordância verbal de 3ª pessoa do plural no português popular brasileiro,
arrolando indícios que possam servir para delinear a direção dessa variação: aquisição ou
perda. Nesse intuito, ocupamo-nos da descrição da concordância verbal de 3ª pessoa do
plural, em Pelotas (RS), com base nas 90 entrevistas estratificadas do Banco de Dados VarX.
Nossa hipótese é de que a concordância verbal de 3ª pessoa do plural, em Pelotas, está
sendo adquirida gradualmente. São sub-hipóteses dessa hipótese: a concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, em Pelotas, está associada à escala de saliência fônica, de modo que as
formas mais salientes apresentam maior probabilidade de concordância; a concordância
verbal de 3ª pessoa do plural está associada à classe social (com base na renda, patrimônio,
escolaridade e ocupação do informante); a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está
associada ao gênero do informante; a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está
associada à idade do informante; a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está associada à
escolaridade do informante; a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está associada à
posição do sujeito na frase; a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está associada ao tipo
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de discurso reportado, pois, com base no que diz Amaral (2002), há mais marcas de
concordância verbal no estilo mais próximo do formal ou a relações assimétricas.
A formulação dessa hipótese está subordinada à discussão que tem movido e dividido
os sociolinguistas: de um lado, os que defendem a tese de que o português popular brasileiro
está adquirindo marcas de concordância verbal; de outro, perdendo marcas.
1 A CONCORDÂNCIA VERBAL VARIÁVEL NA TERCEIRA PESSOA DO PLURAL
A concordância verbal de 3ª pessoa do plural tem sido estudada desde a década de 70,
e os resultados exibem um cenário bastante difuso. Naro e seus colaboradores defendem a
perda de marcas no verbo nessa pessoa verbal, enquanto Guy (1981) defende a aquisição; mas
também há outros trabalhos, a exemplo do de Jung (2000), Monguilhott (2001) e Barden
(2004), cujos resultados apontam para a estabilidade no sistema da concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, não haveria perda nem aquisição.
Comecemos pelo estudo de Lemle e Naro (1977) acerca da concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, não porque foram os primeiros a estudá-la, mas por terem estabelecido as
variáveis que são relacionadas a ela e até hoje são analisadas em trabalhos sobre a temática.
Os autores, em Competências básicas do português, analisaram a fala de 20 mobralenses
(Movimento Brasileiro de Alfabetização, que visava à alfabetização funcional de jovens e
adultos) do Rio de Janeiro ou adjacências (Nova Iguaçu, Caxias), dos quais, nove eram
mulheres e 11, homens, na faixa etária de 17 aos 50 anos (seis informantes com mais de 40
anos e 14 com menos de 30).
Castilho (1997) frisa que os pesquisadores observaram que a regra da concordância
verbal está sujeita a certas variáveis, que são
(i) variável morfológica: quanto maior a saliência fônica da oposição entre a
forma verbal do singular e do plural, tanto maior a ocorrência da regra de
concordância; (ii) variável posicional: o sujeito imediatamente anteposto ao
verbo favorece a concordância; (iii) variável semântica: o sujeito
indeterminado desencadeia a concordância com frequência maior que o
sujeito determinado; (iv) variável estilística: as situações de maior
formalidade favorecem a regra de concordância. (CASTILHO, 1997, p.
252).
Nesse estudo, em que estabeleceram as variáveis para a concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, Lemle e Naro (1977) chegaram à seguinte conclusão:
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[...] a atuação da mudança em direção a um sistema sem concordância verbal
foi fundamentalmente fonológica, enquanto que a sua implementação se deu
através de uma difusão no eixo da saliência, sendo a principal coordenada a
morfológica [...] Assim sendo, a mudança se introduz no ponto zero da
saliência e vai se difundindo a contextos cada vez mais salientes. (LEMLE;
NARO, 1997, p. 49).
A perda de marcas de concordância verbal no português popular brasileiro teria sido
desencadeada pela perda da nasalização final em sílabas átonas, fenômeno que teria se
estendido a todas as classes gramaticais, a exemplo do que, na visão deles, aconteceu com
outras palavras, como virgem, homem, garagem.
Guy (1981), ao contrário desses autores, compreende que a variável concordância
verbal, no português popular contemporâneo, esteja sendo adquirida gradual e parcialmente.
Ele chega a essa conclusão com base no mesmo corpus de Lemle e Naro (1977), quando
reinterpreta a escala de saliência fônica.
Embora Naro e Scherre (1991) tenham proposto perda de concordância verbal no
português popular brasileiro, algumas vezes, nem os resultados de seus próprios estudos
sustentam essa conclusão. Por isso, ao observarem aumento no uso de marcas de
concordância em suas pesquisas, inclusive, entre as mesmas pessoas estudadas em épocas
distintas, alegam que há fluxos e contrafluxos na sociedade brasileira, dizendo de outra forma,
enquanto alguns falantes aumentam o emprego de marcas de concordância verbal; outros
diminuem seu uso.
Mudanças na concordância nominal, na concordância verbal, no sistema gramatical,
nos processos fonológicos levam a questionar a sua origem. Para explicá-la, existem teorias
distintas. De um lado, está Guy (1981), que acredita na existência de crioulos na formação do
português popular brasileiro; de outro, estão Naro e colaboradores, que defendem a ideia da
deriva. Atualmente, chamam sua posição de “[...] confluência de motivos: vemos a atração de
forças de diversas origens – algumas oriundas da Europa; outras da América; ainda, da África
– que, juntas, reforçaram-se para produzir o português popular do Brasil.” (NARO;
SCHERRE, 2007, p. 25) Eles consideram que esses fenômenos teriam sua origem unicamente
na antiga deriva secular das línguas indo-europeias em geral, e das românicas em particular,
em direção a uma gramática sem flexão. Tais estruturas variáveis poderiam ter existido tanto
em Portugal quanto no Brasil. A outra corrente, a da crioulização, defende o ponto de vista de
que o português do Brasil é totalmente distinto do europeu, em função da presença maciça de
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pessoas de origem africana, cujas línguas originárias teriam influenciado o português do nosso
país por meio de um estágio hipotético de um pidgin ou crioulo de base portuguesa.
A fim de aprofundar essa discussão e arrolar argumentos para sua posição, Naro e
Scherre (1993 apud NARO; SCHERRE, 2007) fizeram um retrospecto das evidências
históricas das origens europeias da perda de concordância explícita em português, traçando a
linha de mudança da época pré-latina ao português pré-clássico. Então, puderam observar que
as concordâncias verbal e nominal são variáveis em todo território de Portugal, embora essa
variação seja pequena. Salientam, todavia, que o que causou espanto foi o fato de a literatura
conter poucas referências sobre essa variação e os próprios linguistas de Portugal negarem a
sua existência.
Por fim, Naro e Scherre (2007) salientam que não puderam testar todas as variáveis
independentes que já se mostraram pertinentes para o português moderno falado no Brasil,
por insuficiência de dados. Mas concluem que a variação na concordância não é um fenômeno
do nosso país e que as diferenças nesse aspecto da linguagem são mais uma questão de grau
do que de princípios. Na sua visão, o português moderno do Brasil é o resultado natural da
deriva secular inerente à língua trazida de Portugal, talvez, exagerado no nosso país, em
função da influência de diversas outras línguas.
Tendo discutido os argumentos apontados pelas duas teorias acerca da origem do
português popular brasileiro, a proposta de Naro e Scherre, chamada de ‘confluência de
motivos’, parece razoável, embora os autores não apresentem argumentos consistentes que a
sustentem. Eles alegam que discordam de Guy, porque este defenderia o ponto de vista de que
o português popular estaria passando por uma descrioulização de um único crioulo, apesar de
Guy não ter defendido essa ideia. Falam em língua geral, todavia com pouca base, pois não
apresentam citações de Arion Rodrigues, maior autoridade em línguas indígenas brasileiras.
Concordamos, em partes, com a teoria da crioulização defendida por Guy, embora pareça-nos
difícil avaliá-la, porque os indícios que apontam para a presença de crioulos podem ser
decorrentes de outros fatores linguísticos e culturais/sociais. A hipótese da crioulização pauta-
se em um conjunto de fatores, entre os quais, não podemos deixar de citar as condições de
colonização do Brasil, em que entraram em contato falantes adultos de línguas diversas, sem
nenhuma língua em comum, como as indígenas, africanas e europeias (português, francês,
holandês, alemão, italiano, espanhol); e as diferenças estruturais entre o português brasileiro e
o europeu, realçadas pela ampla variação na concordância verbal e nominal, especialmente a
de número.
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Na seção seguinte, elucidaremos os procedimentos metodológicos utilizados.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Em Pelotas, a realização da concordância verbal de 3ª pessoa do plural é variável,
manifestando-se de diversas formas, as quais incluem variantes padrão e não padrão, e
ausência de marcas de concordância. Assim, a fim de contemplar todas essas variantes, a
nossa variável dependente apresentou oito fatores, os quais aparecem ao lado de exemplos:
0 – sem concordância [ø] – forma não padrão “Aí é as fazendas de tratamento pra
drogado” (VarX 19, cód. 4493);
2 – com concordância padrão, presença de ditongo nasal tônico final [ãw] (falarão,
vão, são, estão): “Agora estão mantendo a casa da seguinte maneira” (VarX 75, cód. 3329);
3 – com concordância padrão, presença de ditongo nasal átono final [ẽy] (comprem,
comprarem, falem, falassem): “Estudem só sobre a matéria” (VarX 37, cód. 4642);
4 – com concordância padrão: presença de ditongo nasal átono final [ãw] (falam,
falaram, escrevam): “Começam à meia noite” (VarX 53, cód. 2804);
5 – com concordância não padrão, realização do ditongo nasal átono [ãw] como [ũ]
(falarum): “Eles já entrarum nessa coca-cola multinacional” (VarX 30, cód. 986);
6 – com concordância não padrão, realização do ditongo nasal átono [ãw] como [u]
(falaru): “E aí vieru faze o teste”. (VarX 38, cód. 2543);
7 – com concordância não padrão, realização do ditongo nasal átono [ẽy] como [ĩy]
(estudim): “Como se fossim irmãos”. (VarX 38, cód. 2571);
8 – com concordância não padrão, realização do ditongo nasal átono [ẽy] como [i] sem
nasalização (fazi): “Elas fazi excursão. (VarX 1, cód. 1555).
Elencamos oito grupos de variáveis linguísticas: tempo verbal, traço humano do
sujeito, saliência fônica, posição do sujeito, tipo de sujeito, discurso reportado e tipo de
assunto.
Em relação às variáveis sociais, cabe esclarecer que realizamos análise da
concordância verbal, com base nas 90 entrevistas estratificadas do Banco de Dados Varx.
Seus informantes estão distribuídos da seguinte forma: 45 do gênero masculino e 45 do
feminino; 30 da classe social média alta, 30 da classe social média baixa e 30 da classe social
baixa; 30 da faixa etária entre 16 e 25 anos, 30 da faixa entre 26 e 49 anos e 30 da faixa etária
com mais de 50 anos.
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A escolha por essas variáveis e não por outras teve como critério o que a literatura
acerca do assunto tem discutido e considerado importante para explicar a variação nessa
pessoa verbal.
Na sequência, descrevemos os resultados e nossa análise a par da literatura sobre o
assunto.
3 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
A rodada presença versus ausência de marca foi realizada com base em um total de
5.263 contextos de 3ª pessoa do plural, nos quais houve marcas de concordância em 4.317, ou
seja, 82%; somente em 945 contextos não ocorreram marcas de concordância, o que perfaz
18%. Este resultado permite inferir que, na cidade de Pelotas, fala-se um português em que
há variação de concordância verbal de 3ª pessoa do plural, mas com predomínio do uso da
marca.
A tabela 1, na sequência, permite visualizar o efeito de todas as variáveis sobre a
concordância verbal de 3ª pessoa do plural, com base no Banco de Dados VarX, em Pelotas.
Tabela 1 - Aplicação de concordância verbal, segundo todas as variáveis estudadas
Variável Fatores Aplicação/ocorrências Percentual Peso
Tempo verbal Futuro do pretérito indicativo 13/15 87 0,60
Futuro do subjuntivo 18/21 86 0,55
Pretérito imperfeito indicativo 1520/1947 78 0,53
Pretérito perfeito do indicativo 1210/1366 89 0,50
Presente do indicativo 1447/1733 83 0,48
Futuro do subjuntivo 27/34 79 0,48
Imperfeito do subjuntivo 34/57 60 0,31
Infinitivo pessoal 47/88 53 0,17
Traço humano do sujeito Humano 3654/4197 87 0,55
Não humano 664/1066 62 0,30
Saliência fônica Come/comem, fale/falem etc. 173/240 72 0,30
Fala/falam, ia/iam, etc. 2044/2580 79 0,40
Faz/fazem, quer/querem, etc. 188/261 72 0,35
Dá/dão, está/estão, etc. 325/357 91 0,66
Sumiu/sumiram + foi/foram 334/389 86 0,57
é/são, falou/falaram, fez/fizeram, etc. 1254/1436 87 0,66
Posição do sujeito Sujeito anteposto contíguo 2427/2798 86 0,58
SN anteposto não contíguo 327/405 80 0,51
SN posposto 558/702 50 0,20
Tipo de sujeito Sujeito nulo 1194/1346 89 0,58
Numeral 87/118 74 0,55
Pronome reto 1327/1483 89 0,53
Pronome indefinido 141/161 84 0,47
Pronome relativo 256/295 87 0,44
Sintagma nominal 1294/1825 71 0,41
Pronome demonstrativo 19/28 68 0,29
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Discurso reportado Reportado de pessoa não próxima 17/18 94 0,76
Discurso indireto 61/63 97 0,52
Reportado de pessoa próxima 30/33 91 0,42
Reportado do próprio falante 27/30 90 0,35
Assunto Trabalho intelectual 331/362 91 0,60
Trabalho manual 584/719 81 0,55
Escola 446/550 81 0,48
Família 889/1076 83 0,46
Amigos 495/594 83 0,43
Classe social Média alta 1576/1762 89 0,68
Média baixa 1984/1605 81 0,46
Baixa 1517/1137 75 0,32
Gênero* 3 Mulher 2520/3038 82 0,51
Homem 1798/2225 80 0,48
Faixa etária* 1= 16-20 anos 778/929 83 0,52
2= 21-25 anos 579/693 83 0,52
3= 26-37 anos 709/860 82 0,50
4= 38-49 anos 871/1099 79 0,45
5= 50-64 anos 639/774 82 0,50
6= + 65 anos 742/908 81 0,49
Os resultados da rodada geral apontam vários indícios de que, em Pelotas, há
aquisição de marcas de terceira pessoa do plural, confirmando nossa hipótese. E esses indícios
podem ser observados com base nos resultados das variáveis faixa etária, classe social,
gênero, escolaridade, saliência fônica, posição do sujeito e tipo de discurso. As variáveis em
questão têm importância, porque são discutidas na literatura sobre o assunto, permitindo,
portanto, comparações, e também em razão do fato de, a par dos resultados de faixa etária, por
exemplo, ser possível discutir se determinada variação é estável ou se há mudança linguística
na amostra estudada; já a saliência fônica possibilita analisar, no caso de constatada a
aquisição ou perda de marcas, se o nível de saliência fônica que diferencia as formas da 3ª
pessoa do singular e do plural interfere nessa aquisição/perda de marcas; a classe social
poderá indicar se a variável estudada está difundida em todas as classes sociais, ou se se trata
de um marcador de classe; o gênero permitirá vislumbrar, quanto ao aspecto em estudo, se
existe um dialeto masculino e outro feminino; a escolaridade mostrará os efeitos dos distintos
níveis escolares sobre o emprego da concordância verbal de terceira pessoa do plural; posição
do sujeito esclarecerá a influência da posição do sujeito em relação ao verbo para o uso de
desinências verbais de 3ª pessoa do plural; e por último, o tipo de discurso poderá elucidar se
3
As variáveis assinaladas com asterisco não foram selecionadas pelo programa Varbrul, porque não alcançaram
significância estatística. Gênero e Faixa Etária apresentam os percentuais e os pesos muito semelhantes, sem
que qualquer dos fatores se destaque. Seus pesos estão todos em torno de 0,50, “ponto neutro”, que não
favorece, nem desfavorece a aplicação da regra estudada.
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o discurso reportado de pessoa próxima e não próxima interfere ou não no emprego de
desinências verbais de 3ª pessoa do plural.
Iniciamos a discussão dos resultados avaliando a primeira hipótese, bem como uma de
suas sub-hipóteses: a concordância verbal de 3ª pessoa do plural está associada à idade do
informante. Os resultados da variável faixa etária, os quais constam da tabela 1, não
apresentam diferenças significativas entre as faixas etárias mais novas e mais velhas do Banco
de Dados VarX. Isso poderia ser interpretado como evidência de que a variação nessa pessoa
verbal caracteriza-se como estável: na variante pelotense, desinências de 3ª pessoa do plural
continuarão sendo empregadas por alguns, mas nem sempre, e por outros, não; porém, não
deixarão de ser usadas variavelmente ao longo do tempo. Ainda assim, acreditamos que, de
alguma forma, existam evidências de que esteja havendo aquisição de marcas, e não perda
delas, em função de o comportamento linguístico dos mais jovens favorecer levemente a
concordância verbal de 3ª pessoa do plural.
Optamos por fazer amalgamações na variável faixa etária e reduzimos as seis idades
para três. Mas, os resultados obtidos confirmaram os anteriores: a variável em questão não foi
selecionada como significativa pelo programa estatístico, indicando relativa estabilidade no
uso de zero nas faixas etárias estudadas, em torno de 18%. No entanto, considerando que a
ausência de marca de 3ª pessoa do plural é estigmatizada, investigamos possíveis relações
entre idade e classe social, com o propósito de observar o emprego de zero.
Gráfico 1– Cruzamento entre as variáveis faixa etária e classe social em relação ao emprego
de zero (em percentuais)
32
31
30
29
28
27
26
25
24
23
22
21
20 a
19
18
17
16 m
15
14
13 b
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
acima 50-64 38-49 26-37 21-25 16-20
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Há uma oscilação em torno de 5% de ausência de marca de 3ª pessoa do plural, em
cada classe social, ao longo do tempo. Mas é na classe média baixa que a linha medianizada
mostra uma oscilação maior: decréscimo de uso de formas sem desinência na terceira pessoa
do plural, à medida que o tempo passa; na classe baixa, essa oscilação é um pouco menor; já
na classe média alta, a oscilação é mínima quanto ao emprego de formas zero, nos últimos
sessenta anos, além de ficar evidente que é essa classe social a que menos apresenta casos de
ausência de desinência. Enfim, o fato de o cruzamento entre as variáveis faixa etária e classe
social ilustrar um decréscimo de uso de formas verbais com marca zero, na terceira pessoa do
plural, cuja direção é dos informantes mais velhos para os mais novos, pode ser outro indício
de que, em Pelotas, a concordância verbal de 3ª pessoa do plural esteja sendo adquirida
gradualmente.
Cruzando as variáveis faixa etária e gênero, resultou que, quanto menos idade, menos
homens e mulheres empregam a marca zero em verbos de 3ª pessoa do plural. Inversamente,
pode significar que estão, cada vez mais, falando português com marca, nessa pessoa verbal.
Até este ponto, arrolamos vários indícios relacionados aos resultados da variável faixa
etária que apontam para a tese de que a concordância verbal de 3ª pessoa do plural, em
Pelotas, apesar de parecer estável, numa observação mais geral ou superficial, está, de fato,
sendo adquirida gradualmente. Em amostras urbanas, os resultados da variável faixa etária
têm apontado para variação estável, a exemplo do que ocorre nos trabalhos de Monguilhott
(2001) e de Barden (2004). A pesquisa de Monguilhott (2001) foi realizada em Florianópolis,
com informantes estratificados de acordo com as variáveis sociais gênero, idade (15 a 24; 25 a
45 e 52 a 76) e escolaridade (4 anos de escolarização e 11 de escolarização); a de Barden
(2004) foi desenvolvida em Porto Alegre, com base em 24 informantes estratificados
conforme gênero, idade (26-49; 50-65) e nível educacional (Ensino Fundamental e Médio).
Na sequência, analisaremos outra sub-hipótese: a concordância verbal de 3ª pessoa do
plural, em Pelotas, está associada à escala de saliência fônica, de modo que as formas mais
salientes apresentam maior probabilidade de concordância.
Embora a escala de saliência fônica tenha sido proposta por Lemle e Naro (1977),
pensando em perda da concordância verbal no português popular brasileiro, concordamos
com Guy (1996), ao afirmar que essa escala representa graus de facilidade de aquisição, e não
de perda. Devemos lembrar que os dois trabalhos discutiram resultados ligados a falantes que
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então frequentavam o Mobral, portanto, pessoas adultas com pouca ou nenhuma escolaridade
anterior.
A saliência fônica foi selecionada como estatisticamente significativa pelo programa
Varbrul, cujos resultados constam na tabela 1 e evidenciam que a hierarquia de saliência
fônica, conforme proposta por Lemle e Naro (1977), aprimorada por Naro (1981) e por Guy
(1981), praticamente é sustentada pelos dados do Banco de Dados VarX. Cruzando saliência
fônica e faixa etária, a fim de podermos analisar a hipótese e sub-hipótese supracitadas,
encontramos os seguintes resultados.
Gráfico 2 – Aplicação de concordância verbal, segundo o cruzamento das variáveis saliência
fônica e faixa etária (em percentuais)
100 88 91 88
90 80
80 67 65 9392
70 88 8489
60
80 7781 77 79
70
50 60
40
30 3(50+65)
20
10 2(26-49)
0
1(16-25)
Podemos observar que há uma pequena oscilação de emprego de desinências verbais
de 3ª pessoa do plural entre as distintas faixas etárias nos diferentes níveis de saliência fônica:
ora uma faixa etária, ora outra utiliza mais desinências verbais de 3ª pessoa do plural. Por
conseguinte, fica difícil afirmar que os resultados da variável indicam aquisição de
desinências verbais de terceira pessoa do plural. Todavia parece haver uma relação entre
presença de concordância verbal e a gradação das formas, segundo a sua saliência, pois, em
linhas gerais, aumenta o uso de desinências, conforme o grau de saliência fônica.
Dando continuidade, Analisaremos outra sub-hipótese: a concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, em Pelotas, está associada à classe social (com base na renda, patrimônio,
escolaridade e ocupação do informante.
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Gráfico 3 – Importância dos componentes ‘zona de residência’, ‘escolaridade’ e ‘ocupação’
para a definição de classe social no VarX – Pelotas (em percentuais)
-am -um -u
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Escolar 1 Escolar 2 Escolar 3 Manual Técnica Intelectual Arrabalde Periferia Centro
Com base nesse gráfico, observamos que, para o emprego da variável dependente -am,
que abrange todos os verbos terminados em -am (brincam), -ao (são), -em (fazem), a
escolaridade é determinante e se sobrepõe aos demais indicadores sociais (ocupação e zona de
residência), de modo a diminuir o surgimento das demais variáveis não padrão: -um
(brincum), -u (brincu). São, consequentemente, os informantes da amostra que residem no
centro, com maior escolaridade e ocupação intelectual, que mais usam desinências padrão de
3ª pessoa do plural.
Classe social foi a única variável social considerada estatisticamente relevante na
rodada com concordância versus sem concordância verbal de 3ª pessoa do plural, cujos
resultados constam da tabela 1 e dão indícios de que a presença de concordância verbal de 3ª
pessoa do plural, com base no Banco de Dados VarX, em Pelotas, está associada à classe
social. A classe média alta, com percentagem de 89% e peso relativo de 0,68, favorece o
emprego da concordância verbal de terceira pessoa do plural, enquanto as demais classes –
média baixa e baixa – inibem o uso de desinências dessa forma verbal.
O cruzamento das variáveis classe social e faixa etária demonstra que há um
comportamento linguístico bastante próximo entre uma classe e outra nas distintas faixas
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etárias quanto ao emprego de desinências de terceira pessoa plural. Nas três faixas etárias, são
os informantes da classe média alta que utilizam mais formas de 3ª pessoa do plural, seguidos
dos da classe média baixa, e por último, aparecem os da classe baixa.
Outro cruzamento, agora, entre classe social e gênero, mostra que as linhas de
tendência feminina e masculina, nas diferentes classes sociais, praticamente se sobrepõem,
pois os percentuais de ambos os gêneros, nas distintas classes sociais, é muito próximo. As
mulheres das classes médias aplicam mais desinências verbais de 3ª pessoa do plural em
relação ao gênero masculino, mas na classe baixa, a relação entre os percentuais se inverte:
são os homens que usam maiores percentuais de emprego de formas de concordância verbal.
No estudo de Amaral (2003), em todas as classes, as mulheres utilizavam mais marcas
de concordância verbal em relação aos homens. Nas classes médias, todavia, o padrão de
concordância masculino se aproximava mais do feminino, o que levou o autor a concluir que
o comportamento de ambos os gêneros nas distintas classes sociais poderia ser um indício de
que haveria uma distinção meramente cultural entre homens e mulheres, principalmente na
classe baixa.
Fica difícil estabelecer mais comparações com outros estudos, já que a variável classe
social ainda tem sido pouco estudada em pesquisas sociolinguísticas, também porque alguns
pesquisadores, para defini-la, basearam-se em um único critério: escolaridade. Mas,
atualmente, a sua importância já foi atestada e critérios para sua definição estão sendo
estabelecidos, a exemplo de como procedeu Amaral (2003), que a definiu, tomando por base
renda, patrimônio, escolaridade e ocupação do informante.
A próxima sub-hipótese a ser discutida é a que associa a concordância verbal de 3ª do
plural à escolaridade do informante. Mas, dado que ‘escolaridade’ representa a variável classe
social, neste estudo da concordância verbal de 3ª pessoa do plural, não há por que discutirmos
com profundidade esses resultados, pois eles já foram apresentados e analisados como sendo
os de classe social.
Em linhas gerais, a escolaridade tem relação com o emprego de formas da 3ª pessoa do
plural, independentemente de essas formas serem ou não padrão, pois, à medida que sobe o
grau de escolarização, os informantes da amostra empregam mais formas de 3ª pessoa do
plural. Somente os informantes com ensino superior da nossa amostra favorecem o emprego
de desinências verbais de 3ª pessoa do plural, enquanto os indivíduos dos níveis médio e
fundamental inibem esse emprego. A nossa expectativa era de que os informantes com ensino
médio também mostrassem pesos relativos favoráveis ao emprego de marcas, como ocorreu
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em estudos com amostras afins, a exemplo do de Monguilhott (2001) e do de Barden (2004).
O trabalho de Barden (2004), inclusive, mostra que o efeito da escolaridade sobre homens e
mulheres é muito semelhante: ambos apresentam aumento de probabilidade de concordância,
à medida que aumenta o tempo de escolarização, o que também ocorreu com base na nossa
amostra.
Cruzando faixa etária e escolaridade, observamos que, independentemente da faixa
etária, são os informantes com nível superior que empregam mais formas de 3ª pessoa do
plural. Parece, ainda, que a escola exerce maior pressão sobre as pessoas mais novas, pois o
aumento de emprego de marcas vai dos mais velhos para os mais novos, de forma gradual, em
todos os níveis escolares. Esse seria, então, um argumento a favor da hipótese de que a marca
de 3ª pessoa estaria sendo gradualmente adquirida, justamente como um efeito da
escolarização.
A concordância verbal de 3ª pessoa do plural, em Pelotas, está associada ao gênero
do informante é a próxima sub-hipótese analisada. São, conforme prevíamos, as mulheres
que empregam mais marcas de 3ª pessoa do plural, em Pelotas, em relação aos homens. Mas
elas apresentam comportamento linguístico bem próximo ao deles, tanto em termos de
percentagem, quanto de peso relativo. Esse resultado pode ser um indício de que, em Pelotas,
não há um dialeto feminino e outro masculino em relação ao emprego da concordância verbal
de 3ª pessoa do plural, apesar de, naquela comunidade de fala, o uso de desinências dessa
pessoa parecer ter prestígio, como mostra a variável classe social: quanto mais alta a escala
social do informante, maior o emprego de tais formas. Neste momento, é importante
recordarmos o cruzamento entre as variáveis gênero e classe social. Mulheres das classes
médias parecem empregar mais marcas de desinências verbais; somente na classe baixa, os
homens usam mais desinências verbais em relação às mulheres, outro indício de que se
trataria de variação estável, e não de mudança linguística, pois, conforme Chambers e
Trudgill (1980), as mulheres tendem a ser mais sensíveis ao emprego de formas de prestígio,
em situações de variação estável. Mas convém frisar que o papel das mulheres nem sempre é
tão claro na literatura sociolinguística.
Portanto, como há diferenças pequenas em termos de percentuais e pesos relativos de
emprego de desinências verbais entre os gêneros, com base nas 90 entrevistas do Banco de
Dados VarX, em Pelotas, a concordância verbal de 3ª pessoa do plural não parece estar
associada a gênero isoladamente. Resultados semelhantes foram encontrados por Barden
(2004), em cujo estudo homens e mulheres alcançaram pesos relativos iguais de presença de
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concordância verbal de 3ª pessoa do plural (0,50) e percentuais um pouco diversos: homens
com 74% e mulheres com 78%. Nessa mesma linha, encontra-se ainda o trabalho de
Monguilhott (2001), em que as mulheres obtiveram 81% de concordância (0,53), e os
homens, 76% (0,45).
Em síntese, o que podemos depreender dos resultados da variável gênero para nossa
hipótese sobre a aquisição de marcas de concordância verbal de 3ª pessoa do plural com base
na nossa amostra? O fato de as mulheres empregarem mais formas com marca é um indício de
variação estável (CHAMBERS; TRUDGILL, 1980), mas o cruzamento das variáveis gênero e
faixa etária pode nos dizer algo diverso.
Em todas as idades, as mulheres são mais sensíveis ao emprego de desinências verbais
de 3ª pessoa do plural. Uma provável motivação pode ser a sua responsabilidade na educação
dos filhos. Na nossa amostra, há um crescimento de emprego de desinências verbais com o
passar do tempo, embora haja um pequeno declínio entre as mulheres na faixa etária
intermediária, mas, novamente ocorre um aumento maior de uso da forma verbal em estudo,
entre as mais novas. O resultado desse cruzamento pode ser um indício de aquisição de
marcas de concordância verbal de 3ª pessoa do plural, já que, de acordo com Chambers e
Trudgill (1980), em uma variação em que os jovens apresentem percentuais maiores de uso de
formas inovadoras, há possibilidade de mudança linguística. Mas, com base em nossa
amostra, não são formas inovadoras as aprendidas; o que os jovens estão mostrando é que
essa aprendizagem resulta da pressão da escola e da normatização. Talvez por isso, ou seja,
por se tratar de aprendizagem da língua padrão, e não mudança linguística espontânea, os
padrões esperados não apareçam.
Dando continuidade à discussão das sub-hipóteses relacionadas à presença de
concordância verbal de 3ª pessoa do plural, avaliaremos se ela está associada à posição do
sujeito na frase. Consideramos que a variável posição do sujeito em relação ao verbo afeta a
concordância, principalmente, em função do fato de, no português brasileiro, a ordem
canônica ser sujeito-verbo, e quando há uma inversão nessa ordem, sobretudo na oralidade, é
comum o falante deixar de utilizar desinências verbais; além disso, sujeito distante do verbo
pode fazer com que o falante, talvez por falta de atenção, deixe de realizar a concordância
verbal.
Os resultados dessa variável mostram que a concordância verbal de 3ª pessoa do plural
é favorecida com sujeito anteposto contíguo, o qual apresenta uma percentagem de 86%, e
peso relativo de 0,58, resultado que condiz com o de outros estudos acerca da questão. O
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sujeito anteposto não contíguo também favorece, ainda que levemente, o emprego da
concordância verbal de 3ª pessoa do plural em Pelotas, trazendo uma percentagem alta de
concordância: 80%; mas, seu peso relativo fica um pouco acima de neutro: 0,51. Ressaltamos,
todavia, que sujeito anteposto não contíguo aparece consideravelmente menos em relação aos
demais fatores desse grupo no nosso corpus, ou seja, há 405 contextos com sujeito anteposto
não contíguo, nos quais houve aplicação da regra em 327 exemplos. Esse resultado nos
surpreende, uma vez que nossa expectativa era de que, quando houvesse material entre sujeito
e verbo, ou seja, muitas palavras separando-os, a tendência fosse não flexionar o verbo de 3ª
pessoa do plural. O sujeito posposto, com 50% e peso relativo de 0,20, inibe fortemente a
concordância verbal de 3ª pessoa do plural em Pelotas. Isso significa que os 90 sujeitos do
Banco de Dados VarX tendem a não marcar a concordância verbal de terceira pessoa do
plural, no caso de o sujeito ser posposto, igual ao que acontece em outras variedades
populares do português brasileiro, inclusive até nos dados do Nurc de São Paulo.
Resolvemos cruzar as variáveis posição do sujeito e classe social, com o intuito
investigar como as distintas classes da amostra se comportam diante da posposição do sujeito,
e observamos que, em todas as classes sociais, os informantes da amostra fazem menos
concordância com sujeito posposto; a classe média alta apresenta 71% de concordância com
esse tipo de sujeito, enquanto nas classes média baixa e baixa, os percentuais de presença de
concordância verbal de 3ª pessoa do plural são inferiores a 50%: respectivamente, 48% e
32%.
Em termos gerais, os resultados de posição do sujeito vêm ao encontro dos achados de
outros estudos realizados com amostras semelhantes à nossa, como os de Monguilhott (2001)
e Barden (2004), e com amostras distintas da nossa, como o de Naro (1981), Naro e Scherre
(2003 apud NARRO; SCHERRE, 2007), Rodrigues (1987), Bortoni-Ricardo (1985), Jung
(2000), os quais têm mostrado que o sujeito anteposto ao verbo desencadeia mais marcas de
plural; efeito inverso têm os sujeitos pospostos ou à direita do verbo.
Dessa forma, podemos concluir que nossos resultados dão suporte para a hipótese de
que a concordância verbal de 3ª pessoa do plural, em Pelotas, está associada à posição do
sujeito, visto que, com sujeito anteposto contíguo, há favorecimento de uso de desinências
verbais de 3ª pessoa; com sujeito anteposto não contíguo, o peso relativo é próximo do neutro;
enquanto com posposto, a concordância verbal de 3ª pessoa do plural é inibida.
Finalmente, discutiremos nossa última sub-hipótese: a concordância verbal de 3ª
pessoa do plural está associada ao tipo de discurso reportado, pois com base no que diz
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Amaral (2002), há mais marcas de concordância verbal no estilo mais próximo do formal ou
de relações assimétricas.
Ao propor a análise dessa variável, esperávamos encontrar alguma relação entre ela e
o emprego da concordância verbal de 3ª pessoa do plural, mas não conseguimos avaliar, de
modo adequado, essa relação, em função de ter havido poucos contextos de discurso
reportado no Banco de Dados VarX de Pelotas.
Nossa variável foi formulada com quatro fatores, dos quais, três apresentaram
resultados que devem ser analisados com ressalvas, em função da quantia de ocorrências:
poucos contextos totais. São eles: discurso reportado de pessoa próxima, com 33 ocorrências,
discurso reportado de pessoa não próxima, com 18 ocorrências, e discurso reportado do
próprio falante, com 30 ocorrências. Entre esses três fatores, ou seja, entre os com poucos
contextos, o único que favorece o uso da concordância verbal de 3ª pessoa do plural, em
Pelotas, é o discurso reportado de pessoa não próxima.
Diante da insuficiência de ocorrências de contextos com discurso reportado, fica difícil
concluirmos algo mais concreto acerca da variável, embora haja relação entre ela e o emprego
de desinências verbais de 3ª pessoa do plural, tanto que foi considerada estatisticamente
relevante. Com base em nosso corpus, pudemos observar o que Amaral (2002) já havia
proposto: realmente, há mais marcas de concordância verbal de 3ª pessoa do plural no estilo
mais próximo do formal ou de relações assimétricas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A fim de retomar os resultados relativos à avaliação da hipótese principal e suas sub-
hipóteses, apresentaremos um quadro com as evidências que as sustentam e evidências que as
refutam.
Quadro 1– Hipótese e sub-hipóteses sobre a presença versus ausência de concordância
verbal de 3ª pessoa do plural
Presença versus ausência de concordância Evidências Observações
verbal de 3ª pessoa do plural favoráveis
1. A concordância verbal de 3ª pessoa do plural, SIM Os indivíduos mais novos da amostra
em Pelotas, está sendo adquirida gradualmente, no (16-20 anos com 83% e 0,52) usam mais
português contemporâneo. formas com desinências em relação aos
mais velhos (+ de 65 anos com 81% e
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0,49).
Decréscimo de uso de formas verbais
com marca zero, cuja direção é dos
informantes mais velhos para os mais
novos.
Quanto menos idade, menos homens e
mulheres empregam a marca zero com
verbos na 3ª pessoa do plural.
Inversamente, pode significar que estão,
cada vez mais, falando português com
marca, nessa pessoa verbal.
Aumento gradual de uso de desinências
verbais de 3ª pessoa do plural, em
relação a Ensino Médio e Ensino
Fundamental.
A escola exerce mais pressão sobre as
pessoas mais novas, pois, à medida que
avançam nos níveis escolares, tem
aumentado o uso de desinências verbais
nessa pessoa, indicando que há um
aumento em decorrência do efeito da
escolarização.
1.1 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural, SIM Embora a hierarquia de saliência fônica
em Pelotas, está associada à escala de saliência não funcione exatamente como proposto,
fônica, de modo que as formas mais salientes as formas mais salientes favorecem a
apresentam maior probabilidade de concordância. concordância verbal.
1.2 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural, SIM Classe média alta 89% e 0,68
em Pelotas, está associada à classe social (com Classe média baixa 81% e 0,46
base na renda, patrimônio, escolaridade e ocupação Classe baixa 75% e 0,32
do informante).
1.3 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural, NÃO Mulheres 82% e 0,51
em Pelotas, está associada ao gênero do Homens 80% e 0,48
informante.
1.4 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural NÃO 16-20 anos 83% e 0,52
está associada à idade do informante. 21-25 anos 83% e 0,52
26-37 anos 82% e 0,50
38-49 anos 79% e 0,45
50-64 anos 82% e 0,50
Mais de 65 anos 81% e 0,49
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1.5 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural SIM Ensino Superior 89% e 0,68
está associada à escolaridade do informante. Ensino Médio 81% e 0,46
Ensino Fundamental 75% e 0,32
1.6 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural SIM Sujeito anteposto contíguo 86% e 0,58
está associada à posição do sujeito na frase. SN anteposto não contíguo 80% e 0,51
SN posposto 80% e 20%
1.7 A concordância verbal de 3ª pessoa do plural SIM Reportado de pessoa não próxima 94% e
está associada ao tipo de discurso reportado, pois 0,76
Discurso indireto 97% e 0,52
com base no que diz Amaral (2002), há mais
Reportado de pessoa próxima 91% e 0,42
marcas de concordância verbal no estilo mais Reportado do próprio falante 90% e 0,35
próximo do formal ou de relações assimétricas.
A presente pesquisa é importante na medida em que fornece pistas da variedade
linguística falada em Pelotas/RS e também por prover argumentos à discussão que tem
dividido os linguistas entre os que defendem o ponto de vista de que está havendo aquisição
de marcas de concordância verbal de 3ª pessoa do plural e os que defendem a perda dessas
marcas. E como podemos observar, a análise detalhada da variável faixa etária é de
fundamental importância, quando o assunto envolve aquisição, ou melhor, aprendizagem de
marcas, especificamente, marcas padrão de 3ª pessoa do plural, por pressão da escola e da
normatização.
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Data de recebimento: 19/02/2015
Data de aprovação: 25/05/2015
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