Crary, Jonathan (2018), “Capítulo 3”, in 24/7.
Capitalismo tardio e os
fins do sono. Lisboa: Antígona
Neste capítulo, Jonathan Crary discute como o capitalismo
contemporâneo visa colonizar todos os aspectos do tempo humano,
transformando até mesmo o sono em um alvo para a exploração
econômica. Ele explora as seguintes ideias principais:
1. Atemporalidade do Capitalismo:
● Crary argumenta que o capitalismo moderno funciona em
um regime 24/7, onde não há distinção clara entre dia e
noite. Esse sistema visa maximizar a produtividade e o
consumo contínuos, desconsiderando os ritmos naturais do
corpo humano.
● A demanda incessante por disponibilidade e atividade
resulta na erosão das fronteiras entre trabalho e lazer,
impactando negativamente o sono e o descanso.
Funcionamento Contínuo e Ininterrupto:
● O capitalismo moderno opera em um regime 24/7, ou seja,
24 horas por dia, 7 dias por semana. Esse modelo é
facilitado por avanços tecnológicos que permitem a
comunicação e transações globais em tempo real.
● Empresas e mercados nunca dormem; a atividade
econômica continua incessantemente, independente de
fusos horários e ciclos naturais de dia e noite.
Dissolução das Fronteiras Temporais:
● Na busca por maximizar a produtividade e o consumo, o
capitalismo dissolve as fronteiras entre trabalho e lazer, dia e
noite, semana e fim de semana.
● A tradicional separação entre tempo de trabalho e tempo de
descanso é continuamente erodida, resultando em um
estado constante de alerta e disponibilidade.
Impacto da Tecnologia:
● Tecnologias digitais e conectividade permanente (como
smartphones, internet e redes sociais) intensificam a
atemporalidade, permitindo que as pessoas estejam sempre
conectadas e disponíveis para trabalhar, consumir e se
comunicar.
● A cultura da "urgência" e da resposta imediata é fomentada
por essas tecnologias, o que contribui para a sensação de
que o tempo nunca para.
Pressão para a Produtividade Contínua:
● A atemporalidade do capitalismo impõe uma pressão
constante sobre os indivíduos para serem produtivos a todo
momento. A ideia de "tempo livre" é cada vez mais invadida
por expectativas de produtividade.
● Pessoas são encorajadas a utilizar seu tempo "livre" para
atividades que possam melhorar suas habilidades ou
produtividade, como cursos online ou autoaperfeiçoamento.
Erosão do Sono e do Descanso:
● O sono, um dos últimos refúgios do tempo pessoal não
colonizado pelo capitalismo, está sendo atacado por essa
lógica atemporal.
● A privação de sono é muitas vezes vista como um
subproduto inevitável do sucesso profissional e da vida
moderna, exacerbada por ambientes de trabalho que
esperam disponibilidade constante.
Consequências Psicológicas e Sociais:
● A constante dissolução das fronteiras temporais afeta
negativamente a saúde mental e física das pessoas.
Exaustão, estresse, ansiedade e outros problemas de saúde
estão se tornando mais prevalentes.
● Socialmente, a atemporalidade do capitalismo contribui para
a fragmentação das relações humanas e da comunidade,
pois o tempo dedicado às interações sociais genuínas e ao
lazer é reduzido.
Resistência e Alternativas
Crary sugere que uma forma de resistência à atemporalidade do
capitalismo é valorizar e proteger o sono e o descanso como atos de
autonomia pessoal. Isso envolve:
1. Valorização e proteção do sono
Respeitar os Ciclos Naturais de Sono:
● Proteger o sono é uma forma de resistir à lógica de produtividade
incessante do capitalismo. Isso significa manter uma rotina de
sono consistente e priorizar o descanso adequado.
● Crary vê o sono como um ato de autonomia pessoal, uma maneira
de reivindicar tempo para si mesmo longe das pressões do
mercado.
Redução da Exposição à Tecnologia Antes de Dormir:
● Limitar o uso de dispositivos eletrônicos antes de dormir para
melhorar a qualidade do sono.
● Estabelecer "zonas livres de tecnologia" em casa, especialmente
nos quartos, para criar um ambiente propício ao descanso.
2. Políticas de Trabalho Saudáveis
Implementação de Horários Flexíveis:
● Promover políticas que permitam horários de trabalho flexíveis,
ajudando os trabalhadores a equilibrar suas responsabilidades
pessoais e profissionais.
● Incentivar a prática de trabalhar menos horas ou adotar semanas
de trabalho mais curtas para melhorar o bem-estar e a
produtividade.
Limitação das Horas Extras e Trabalho Remoto:
● Estabelecer limites claros para horas extras e o uso de
dispositivos corporativos fora do horário de trabalho.
● Promover um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal,
especialmente em contextos de trabalho remoto, onde a linha
entre o trabalho e o lar pode se tornar nebulosa.
3. Desconexão Digital Intencional
Práticas de Desconexão Regular:
● Incentivar momentos regulares de desconexão digital, como fins
de semana sem internet ou "dias de detox digital".
● Estabelecer limites pessoais para o uso de redes sociais e outras
formas de comunicação digital para reduzir o estresse e a
ansiedade.
Promover Atividades Offline:
● Investir tempo em atividades que não envolvam tecnologia, como
leitura, hobbies, exercícios físicos e socialização cara a cara.
● Fomentar a cultura de aproveitar momentos offline para se
reconectar consigo mesmo e com os outros de maneira
significativa.
4. Mudanças Estruturais e Sociais
Movimentos e Campanhas de Conscientização:
● Apoiar movimentos sociais que defendem melhores condições de
trabalho, tempo de descanso e políticas de saúde mental.
● Promover campanhas que aumentem a conscientização sobre a
importância do sono e do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Redefinição dos Valores Sociais:
● Questionar e redefinir os valores sociais que glorificam a
produtividade incessante e o trabalho excessivo.
● Promover uma cultura que valorize o bem-estar, a saúde mental e
o tempo de lazer como aspectos essenciais de uma vida
equilibrada e satisfatória.
5. Urbanismo e Espaços Públicos
Design de Espaços Públicos que Promovam o Descanso:
● Criar e manter espaços públicos que incentivem o descanso e a
desconexão, como parques, bibliotecas e áreas de recreação.
● Planejar cidades e comunidades que facilitem um ritmo de vida
mais calmo e menos acelerado, proporcionando oportunidades
para atividades relaxantes e sociais.
6. Educação e Autonomia Pessoal
Educação sobre o Impacto do Capitalismo 24/7:
● Incluir na educação formal e informal discussões sobre os
impactos do capitalismo 24/7 na saúde e no bem-estar.
● Ensinar habilidades de gestão do tempo e autocuidado,
incentivando práticas que promovam a autonomia pessoal e a
resistência às pressões sociais e econômicas.
Promoção de Autonomia Pessoal:
● Incentivar as pessoas a serem proativas na gestão de seu próprio
tempo e saúde, tomando decisões que priorizem seu bem-estar a
longo prazo.
● Promover uma abordagem consciente ao consumo e à
produtividade, reconhecendo os limites pessoais e a importância
do descanso.
Jonathan Crary argumenta que a luta contra a atemporalidade do
capitalismo é essencial para preservar a saúde, o bem-estar e a
autonomia dos indivíduos em um mundo cada vez mais dominado pela
lógica do funcionamento contínuo e ininterrupto.
2. Privatização e Comercialização do Sono:
● O sono, que deveria ser um espaço de refúgio do
capitalismo, está sendo progressivamente invadido por ele.
Empresas e tecnologias tentam monitorar, melhorar e
comercializar o sono, tratando-o como uma mercadoria.
● Produtos e serviços relacionados ao sono, como aplicativos
de monitoramento do sono, colchões especializados e
terapias, são exemplos de como o mercado tenta capitalizar
sobre a necessidade humana básica de dormir.
1. Sono como Mercado e Produto
● Produtos e Serviços de Monitoramento do Sono:
● O mercado está inundado com uma variedade de
dispositivos e aplicativos que monitoram e analisam os
padrões de sono, prometendo melhorias na qualidade do
sono. Exemplos incluem smartwatches, pulseiras de fitness,
e aplicativos de smartphone que rastreiam o ciclo de sono.
● Esses dispositivos muitas vezes oferecem dados detalhados
sobre a quantidade e a qualidade do sono, fases do sono
(leve, profundo, REM) e até mesmo feedback e dicas
personalizadas para melhorar o sono.
● Colchões e Produtos de Cama de Alta Tecnologia:
● Empresas especializadas em produtos de cama, como
colchões e travesseiros, oferecem produtos de alta
tecnologia projetados para melhorar o conforto e a
qualidade do sono. Colchões ajustáveis, que regulam a
temperatura e a firmeza, são exemplos dessa tendência.
● Há também o desenvolvimento de produtos como roupas de
cama com tecidos especiais que prometem melhor controle
de temperatura e conforto.
● Suplementos e Terapias:
● A indústria de suplementos oferece uma gama de produtos,
como melatonina, magnésio e outros compostos, que
prometem ajudar a regular o sono.
● Terapias relacionadas ao sono, incluindo terapia
cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) e outras
formas de tratamento, são comercializadas para aqueles
que enfrentam dificuldades crônicas de sono.
2. Comercialização do Tempo Pessoal
Ocupação do Tempo de Sono pelo Capitalismo:
● Crary argumenta que o capitalismo moderno tenta colonizar
até o tempo de sono das pessoas. A pressão para ser
produtivo e maximizar o uso do tempo faz com que o sono
seja frequentemente sacrificado.
● A comercialização do sono é um reflexo da tentativa do
capitalismo de não deixar nenhum aspecto da vida humana
sem exploração econômica.
Sono como Atividade Econômica:
● Empresas e startups veem o sono como uma nova fronteira
para gerar lucros. A ideia é que melhorar o sono pode
aumentar a produtividade, e, portanto, há um incentivo
econômico para vender produtos e serviços que prometem
otimizar o sono.
● O sono é tratado como uma "atividade econômica", onde a
qualidade do descanso pode ser aumentada mediante um
custo.
3. Impactos na Saúde e Bem-estar:
● A falta de sono adequada tem consequências graves para a
saúde mental e física. Crary aponta que a privação de sono
está ligada a uma série de problemas de saúde, incluindo
doenças cardíacas, diabetes, depressão e ansiedade.
● A pressão para estar constantemente disponível e produtivo
contribui para um estado geral de exaustão e esgotamento
na população.
Efeitos Negativos da Comercialização:
● A privatização e comercialização do sono podem levar a
uma visão utilitarista do descanso, onde o sono é valorizado
apenas pelo seu potencial de aumentar a produtividade no
trabalho e não pelo seu valor intrínseco para a saúde e
bem-estar.
● Pode haver aumento da ansiedade e do estresse
relacionados ao sono, uma vez que as pessoas podem
sentir-se pressionadas a alcançar "metas" de sono ideais,
muitas vezes estipuladas por produtos e serviços
comerciais.
Saúde Mental e Física:
● A falta de sono adequado tem consequências graves, como
problemas de saúde mental (depressão, ansiedade) e física
(doenças cardíacas, diabetes). A pressão para estar
constantemente disponível e produtivo exacerba esses
problemas.
● A comercialização do sono também pode levar à
dependência de produtos e serviços para dormir bem, em
vez de promover hábitos saudáveis de sono que não
envolvem custos contínuos.
4. Resistência e Alternativas:
● Crary sugere que a resistência à lógica 24/7 do capitalismo
pode ser encontrada na defesa do sono como um ato de
autonomia e resistência. Dormir bem e manter uma rotina de
sono saudável podem ser vistos como formas de resistir à
colonização do tempo pessoal pelo capitalismo.
● Ele também aponta para a necessidade de políticas e
práticas sociais que valorizem o descanso e o bem-estar,
promovendo um equilíbrio mais saudável entre trabalho e
vida pessoal.
O capítulo 3 de "24/7" enfatiza a ideia de que o sono é uma das últimas
fronteiras a serem colonizadas pelo capitalismo e que a preservação do
sono é crucial para manter a saúde e a autonomia pessoal. Jonathan
Crary argumenta que a resistência à exploração do tempo pessoal pelo
capitalismo é necessária para o bem-estar individual e social.