UDM
UNIVERSIDADE TÉCNICA DE MOÇAMBIQUE
FACULDADE DE CIÊNCIAS TECNOLÓGICAS
Licenciatura em Engenharia e Gestâo de Tecnologias de Informação e Comunicação
TIC
Sistemas de informação geográfica
Modelação da Susceptibilidade à Inundações Baseada Em
Análise Multicritério Em Sistemas de Informação
Geográfica
Discentes:
Ednilson Eulario
Alessandra Mouzinho
Hemerson Impasso
Docentes: Alexandre Pondeca & Ramalho Pondeca
Maputo, 07 de Novembro de 2022
Resumo
A ocorrência de eventos extremos, como é o caso das inundações tem sido frequente nos últimos anos
em Moçambique, devido as alterações climáticas e também como consequência da dinâmica de uso do
espaço territorial. A inundação tem causado prejuízos avultados, sejam de nível social, económico e
ambiental. Nos últimos anos o Distrito de Boane tem sido assolado por inundações severas.
O presente trabalho tem como objectivo fazer uma análise da susceptibilidade as inundações no Distrito
de Boane, aplicando a análise multicritério na escolha da solução mais adequada do problema estudado,
visando identificar áreas susceptíveis a esse fenómeno.
Na aplicação do modelo de susceptibilidade às inundações utilizou-se um conjunto de factores
condicionantes ao padrão de distribuição espacial das inundações na área de estudo. Para análise
comparativa dos factores recorreu-se a Análise Hierárquica de Processos em ambiente de Sistema
Geográfico de Informações.
1
Índice
Resumo.................................................................................................................................................ii
Lista de Figuras....................................................................................................................................iv
Lista de Tabelas....................................................................................................................................v
1.....................................................................................................................................................1
1.1. Contextualização.....................................................................................................................1
1.2. Definição do problema...........................................................................................................2
1.3. Justificativa.............................................................................................................................2
1.4. Relevância...............................................................................................................................3
1.5. Objectivos...............................................................................................................................3
1.5.1. Objectivo Geral...............................................................................................................3
1.5.2. Objectivos específicos.....................................................................................................3
1.6. Área de Estudo........................................................................................................................4
1.6.1. Localização da área de estudo.........................................................................................4
1.6.3. Aspectos Climáticos e Hidrografia..................................................................................7
1.6.4. Precipitação.....................................................................................................................9
1.6.5. Vegetação........................................................................................................................9
2...................................................................................................................................................10
2.1. Fenómenos Hidrológicos extremos......................................................................................11
2.2. Inundações................................................................................................................................12
2.2.1. Tipos de inundações e suas causas................................................................................12
2.2.2. Inundações Urbanas......................................................................................................13
2.2.3. Inundações Fluviais.......................................................................................................14
2.2.4. Inundações no Distrito de Boane...................................................................................16
17
2
3.2.1. Selecção e Avaliação dos factores.................................................................................17
4.1. Resultados.............................................................................................................................25
4.1.1. Susceptibilidade às inundações Urbanas.......................................................................26
4.1.2. Validação dos resultados...............................................................................................29
5...................................................................................................................................................32
5.1. Conclusões............................................................................................................................32
5.2. Recomendações........................................................................................................................33
6...................................................................................................................................................33
7...................................................................................................................................................34
7.4. Anexo 4: Modelo Digital de Elevação.....................................................................................35
1
1. Introdução
Neste capítulo são descritos os aspectos fundamentais da susceptibilidade às inundações. E tem
como objectivo dar um enquadramento sobre o problema que o trabalho procura responder, a sua
justificativa, a relevância, os objectivos da pesquisa e a localização da área de estudo.
1.1. Contextualização
As inundações tornaram-se recorrente na actualidade. É fácil encontrar números a nível global e ou
nacional que justifiquem tais cenários. Só no continente Africano dezenas de países incluindo
Moçambique foram assolados por este fenómeno nos últimos 15 anos (ONU, 2018).
Para Caprario (2017) as inundações são consideradas fenómenos naturais decorrentes de
precipitações internas com curta duração ou de longos períodos de precipitação contínua. Ainda
segundo o mesmo autor salienta que este fenómeno vem sendo agravado pelo desenvolvimento
urbano descontrolado, o qual, aliado ao mau planeamento público, modifica a capacidade de
3
infiltração e drenagem das águas precipitadas, aumentando a frequência e magnitude de ocorrência
de desastres ambientais.
Segundo dados da ONU (2017), a cidade dos países em desenvolvimento tem vindo a registar um
crescimento acentuado nas últimas décadas. Facto que tem sido caracterizado por uma procura de
espaço para erguer novas infra-estruturas. Essa procura por vezes não obedece os parâmetros do
planeamento urbano, causando por vezes impermeabilização de grandes áreas que acarretam no
aumento e nas constâncias de inundações.
A análise multicritérios com abordagem espacial têm sido comumente utilizada para planeamento
do desenvolvimento, ocupação e uso da terra, no estudo e selecção de áreas aptas a diferentes usos,
em avaliações de impacto ambiental, além da aptidão ou não de áreas para implementação de
construções privadas e/ou públicas (Collins et al., 2001).
O uso de técnicas de Sistemas de Informação Geográficas para diagnóstico de risco, tomada de
decisão em planeamento e gestão territorial tem registado um crescimento notável no país segundo
Cumbane (2012). Para Dantas e Canil (2017) o facto de conhecer e visualizar onde as áreas
susceptíveis aos desastres ocorrem, espacialmente, na forma de mapa temático, facilita o
entendimento e aumenta a percepção do problema trabalhado.
Dessa forma, este trabalho propõe uma metodologia para identificação de áreas susceptíveis às
inundações no Distrito de Boane, como ferramenta de apoio a mitigação dos efeitos desse
fenómeno.
1.2. Definição do problema
Com base em um estudo feito por June (2013), concluiu-se que Moçambique apresentava fracos
mecanismos de comunicação e disseminação de informação, uma vez que os planos de contingência
a fenómenos hidrológicos extremos são elaborados com base em informação geral, a partir do nível
provincial e nacional, o que por vezes não reflecte a realidade ao nível dos Distritos ou abaixo
destes. O Plano Anual de Contingência (2022-2023) por exemplo, aponta apenas a Vila de Boane,
como sendo a região susceptível às inundações no Distrito de Boane, no entanto as intempéries de
fevereiro de 2023 contrariaram esse instrumento. Uma vez que outras localidades do Distrito e
distantes da Vila de Boane foram assolados por inundações. O facto de não saber quais as áreas do
distrito estão sujeitas a inundações dificulta as acções de mitigação dos efeitos desse fenómeno.
Com base nesses pressupostos, coloca-se a seguinte pergunta de pesquisa:
4
Qual é o grau de susceptibilidade às inundações no Distrito de Boane?
Hipótese Nula (H0): Não há diferença significativa no grau de susceptibilidade às inundações entre
as áreas do Distrito de Boane.
Hipótese Alternativa (H1): Existe uma diferença significativa no grau de susceptibilidade às
inundações entre as áreas do Distrito de Boane.
1.3. Justificativa
Como consequência das alterações climáticas, nos últimos 10 anos o país tem sido fustigado por
ciclones tropicais, que além de ventos fortes, são acompanhados por chuvas fortes. Essa chuva forte
aumenta o caudal dos rios, pressionam os sistemas de drenagem artificial, deixam o solo saturado
reduzindo assim a capacidade de infiltração de águas, facto este que tem causado inundações
severas, como as que foram registadas no início do ano nas cidades de Maputo, Matola e Distrito de
Boane (RM, 2023).
Em fevereiro de 2023 a barragem dos pequenos Libombos, localizada no Distrito de Boane atingiu
os níveis altos de enchimento, acima de 80% e não havendo capacidade para mais encaixe a ARA-
SUL teve de efectuar várias descargas como forma de salvaguardar a integridade física da Barragem
dos Pequenos Libombos. Essas descargas causaram inundações e condicionaram a transitabilidade
em Boane (O País, 2023).
A escolha do tema resulta da necessidade de saber de uma forma minuciosa quais os bairros e ou
povoados do Distrito de Boane são susceptíveis às inundações. O uso de mapas para a comunicação
de perigo e risco é, deste modo, uma valiosa ferramenta para a tomada de decisão. Os modelos de
susceptibilidade às inundações são ferramentas visuais para comunicar a situação de perigo numa
área.
1.4. Relevância
A previsão de inundações é uma ferramenta essencial que possibilita a antecipação dos efeitos que
possam resultar, ajudando a população a tomar decisões sobre as medidas a implementar mesmo
antes do perigo as afectar, num esforço de salvar vidas e bens (MOPHRH, 2020).
O desenvolvimento de modelos de susceptibilidades às inundações permitem fazer análises
detalhadas da situação de uma determinada área. Esses modelos quando são bem desenvolvidos
descrevem minuciosamente quais as áreas estão susceptíveis às inundações. E essa informação pode
5
ajudar as estruturas distritais e ou municipais na elaboração dos seus Planos de Contingência o que
vai contribuir na caracterização das áreas de inundações e na mitigação dos seus danos.
Espera-se que os resultados deste estudo possam ser um documento de referência importante para as
autoridades locais e outras agências relevantes, assim como a sociedade no geral para fins de
planeamento urbano e mitigação de inundações.
1.5. Objectivos
1.5.1. Objectivo Geral
Aplicar o modelo de susceptibilidade às inundações, recorrendo as técnicas de geoprocessamento,
apoiado em análise multicritério, visando fornecer subsídios para melhorar o planeamento e gestão
territorial no Distrito de Boane.
1.5.2. Objectivos específicos
• Identificar os factores antrópicos e ambientais condicionantes ao padrão de distribuição
espacial das inundações;
• Aplicar a Análise Hierárquica de Processos na ponderação de significância dos factores
condicionantes à ocorrência de inundações;
• Aplicar o modelo de susceptibilidade às inundações no Distrito de Boane; Avaliar a
aptidão do modelo aplicado recorrendo a validação cruzada.
1.6. Área de Estudo
1.6.1. Localização da área de estudo
O Distrito de Boane está localizado na região Sul de Moçambique, a Sudoeste da província de
Maputo, a 30 km da capital do país “Cidade de Maputo” (ver Figura 1). Sendo limitado pelos
paralelos de latitudes 25º 46’12” S no extremo Norte e 26º 46’12” S no extremo Sul e pelos
meridianos de longitude 32º 10’55” E no extremo Oeste e 32º 29’53” E no extremo Este. Faz
fronteira a Norte com Distrito de Moamba, a Oeste e Sudoeste com o Distrito de Namaacha, a Sul e
a Sudeste com o Distrito de Matutuíne e a Este com o município da Matola e o Distrito municipal
da Katembe (Governo da Provincia de Maputo, 2016).
6
A superfície do Distrito de Boane é de aproximadamente 778,905 Km 2. O Distrito está dividido em
dois postos administrativos, (Boane e Matola-Rio), compostos por 4 localidades. Tem uma
população estimada em cerca de 244.384 habitantes (INE, 2020) e uma densidade populacional de
298 hab/Km2.
1.6.2. Relevo e Solos
De acordo Myre (1971), o Sul de Moçambique é constituído por planícies. A cordilheira dos
Libombos é a única "zona" que se destaca em termos altimétricos.
No Distrito de Boane o terreno é constituído por extensas planícies, "zonas" aplanadas e depressões.
As "zonas" altimétricas de cotas compreendidas entre os 100 e 200 metros que constituem as
elevações máximas da área de estudo (MAE, 2005).
Com base no estudo feito a partir da carta de solos da província de Maputo a escala de 1:250 000 e
respectiva nota explicativa foi possível fazer uma análise dos tipos de solos presentes na área de
estudo e sobretudo, identificar solos que apresentam características pedológicas no que concerne a
drenagem das águas. O Distrito de Boane é constituído por 8 agrupamentos de solos: os solos
7
arenosos, solos basálticos, aluvionares, sedimentos marinhos, solos de posto de mananga, solos
rioliticos, derivados de grés vermelho (Hilário, 1996).
Os solos de sedimento marinho, solos de managa, os aluvionares apresentam uma drenagem
imperfeita. Os solos basalticos e os solos riolitos por sua vez apresentam uma drenagem moderada e
os solos arenoso e os de derivados de gres vermelho apresentam uma drenagem perfeita.
As regiões com altitudes abaixo dos 30 m estão mais sujeitas a fenómenos hidrológico extremo,
como as inundações.
8
1.6.3. Aspectos Climáticos e Hidrografia
A região de Boane encontra-se sob a acção dos ventos alísios, e o seu clima é condicionado por um
regime anticiclónico e de depressões das regiões intertropicais e sofre ainda a influência da corrente
marítima quente do Oceano Índico (Hilário, 1996).
O clima da região é sub-húmido e com deficiência de chuva na estação fria, caracterizado por
alternância entre as condições secas, induzidas pela alta pressão sub-continental e a as incursões de
9
ventos húmidos do oceano Índico. Vagas de frio podem trazer tempestades violentas e chuvas
torrenciais de curta duração (MAE, 2005)
A temperatura média anual é de 23.7ºC verificando-se que os meses mais frios são os de Junho e
Julho e os mais quentes e os mais quentes Janeiro Fevereiro. A amplitude térmica anual é de 8.8ºC.
De acordo com o MAE, (2005) a maior Bacia hidrográfica que encontramos no Distrito de Boane é
a bacia hidrográfica de Umbelúzi, que desempenha um papel preponderante no abastecimento da
água potável para as cidades de Maputo, Matola e o Distrito de Boane.
A Bacia Hidrográfica do Rio Umbelúzi fica localizada no extremo sul da província de Maputo, onde
está inserido o seu rio principal, que nasce no reino do Essuatíni (antigo reino da Suazilândia), perto
da fronteira ocidental com a África do Sul. Entra para Moçambique através de uma garganta cortada
na cordilheira dos Pequenos Libombos, no Distrito da Namaacha (Muchangos, 1999).
O principal rio da bacia hidrográfica do Umbelúzi, o rio Umbelúzi flui na direção Este e desemboca no
Oceano Índico através do estuário do Espírito Santo, no Sul de Maputo, onde também tem a sua foz, os
rios Matola e Tembe.
Segundo Droogers (2014), a bacia hidrográfica total do rio Umbelúzi é de cerca de 5400 km 2. Sendo
que cerca de 42% da área está em Moçambique, isso corresponde a cerca de 2240 Km 2, 56% no
reino de Essuatíni e apenas 2% na África do Sul. A bacia do rio Umbelúzi tem dois grandes
afluentes, o Umbelúzi Branco na Suazilândia e o Movene em Moçambique, que se juntam ao rio
principal.
Os principais afluentes do rio Umbelúzi em Moçambique são os rios Calichane e Movene,
respectivamente a montante e a jusante da barragem dos Pequenos Libombos. O rio Umbelúzi tem
um escoamento médio de cerca de 490x106 m3 na foz e de 360x106 m3 com um regime permanente.
A precipitação média anual é de 736 mm. O rio tem duas obras hidráulicas de vulto, nomeadamente
a barragem de Mnjoli na Suazilândia e a barragem dos Pequenos Libombos em Moçambique
(Droogers, 2014).
No Distrito encontramos também as bacias hidrográficas dos rios Tembe e Matola. Existem ainda
no interior do Distrito vários curso de água de menor importância Chambadejova, Xangule,
Mecaxuane, Massele, Mahube, Liaio e Xigubuta (MAE, 2005).
A bacia hidrográfica do rio Tembe, possui uma área de 2865 Km 2, dos quais 608 Km2 (21%) na
República da África do Sul (RSA) e em Moçambique com 2257 Km 2 (79%). O rio nasce na RSA e
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desagua na baía do Maputo, pelo estuário do Espírito Santo, com um regime de escoamento
permanente (ARA-SAUL, 2017).
A bacia hidrográfica do rio Matola é uma bacia nacional e possui uma área total de 2382 Km 2. O rio
nasce na planície de Vundice, Distrito de Moamba, desaguando na baía de Maputo, pelo estuário de
Espírito Santo e têm um regime de escoamento permanente (ARA-SUL, 2017)
Figura 4: Rios e bacias hidrográficas que atravessam o Distrito de Boane.
1.6.4. Precipitação
O Distrito de Boane apresenta uma pluviosidade média anual em torno de 752 mm, variando entre
os valores médios de 563.6 mm para o período húmido e os 43.6 mm no período seco. O período
húmido estende-se de Novembro a Março e o período seco de Abril a Outubro. A humidade relativa
média é de 80.5%, variando de um valor máximo 86% em Julho a um valor mínimo de 73.5% em
Novembro (MAE, 2005).
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Durante o mês de fevereiro de 2023 período que foi registado inundações no Distrito de Boane a
precipitação máxima registada nesse mês foi de 300 mm (Verdade, 2023).
1.6.5. Vegetação
A vegetação ocupa uma posição de extrema importância para um estudo geográfico, pois
condiciona as formas da vida animal, condiciona a morfogénese e a pede gênese, para além de
interferir em múltiplas formas da vida humana.
Segundo Lebrun (s/d) citado por Lolita (1996), Moçambique está incluído na região
SudanoZambezíaca e dividido em dois domínios: O Zambeziano, que inclui toda a parte norte e
grande parte do centro do país, e o das savanas e florestas Sul-africanas, que inclui toda a parte Sul
do rio Save e uma pequena parte do centro. Por conseguinte, a região de Boane está incluída no
aspecto fitogeográfico da região do Maputo que é do domínio das savanas e das florestas Sul-
africanas.
A maior parte da vegetação nativa da área desapareceu devido ao corte de árvores para combustível
lenhoso, e a conversão de terras para a prática da actividade agrícola, podendo encontrar-se áreas
onde anteriormente existiu vegetação primária, cobertas de vegetação secundária (Hatton et al.,
1993).
12
2
2. Revisão de Literatura
Este capítulo visa desenvolver uma abordagem teórica e conceptual em torno dos principais
conceitos adoptados no âmbito da elaboração deste trabalho.
2.1. Fenómenos Hidrológicos extremos
Os eventos extremos fazem parte da dinâmica climática do ambiente, e tornam-se um grande
problema quando um determinado local não tem a capacidade de reduzir ou evitar seus efeitos
negativos (Gonçalves, 2003 citado por Felizardo, 2016).
É fácil notar o crescimento no número de pessoas afectadas nos últimos anos, mesmo durante
eventos pluviais não tão extremos, devido a forma como o ambiente urbano vem crescendo, numa
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evolução sem considerar os locais mais adequados para se instalar, ficando muitas vezes próximos a
rios ocupando o fundo de vale que em outras épocas era a área de inundação (Ramos, 2011).
Segundo Chow (1956) as cheias são um fenómeno hidrológico extremo, de frequência variável,
natural ou induzido pela ação humana, que consiste no transbordo de um curso de água
relativamente ao seu leito ordinário, originando a inundação nos terrenos ribeirinhos.
Inundações e enchentes são fenómenos naturais que ocorrem com frequência nos cursos d’água,
geralmente deflagrados por chuvas fortes e rápidas ou chuvas de longa duração. Estes eventos
naturais têm sido intensificados, principalmente nas áreas urbanas, por atividades antrópicas (Reis,
2011).
Embora os termos enchentes e inundações venham sendo utilizados como sinónimos, eles
apresentam diferenças importantes.
Enchente – Aumento temporário do nível de água no curso principal do rio passando a escoar na
plenitude do seu leito menor, porém sem transbordar para a extensa planície de inundação.
Inundação – o termo inundações é um conceito mais amplo que inclui não apenas as cheias, mas
também outros tipos de eventos que resultam na inundação de áreas terrestres, independentemente
da fonte de excesso de água.
Alagamento – Acumulação de água em depressões, ruas e áreas urbanas, ou áreas de bacias
hidrográficas urbanas, também designado, no país, por Inundações na Drenagem Urbana.
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2.2. Inundações
As inundações são fenómenos hidrológicos extremos, de frequência variável, naturais ou induzidos
pela acção humana, que consistem na submersão de uma área usualmente emersa (Ramos, 2011).
Define-se Inundações o transbordo do rio do seu leito menor passando a escoar não só pela sua
planície de inundação como, por vezes, galgando o nível de barreiras físicas como diques e estradas
que cortam estas áreas das bacias hidrográficas (MOPHRH, 2020).
Para Caprario (2017) as inundações são consideradas fenómenos naturais decorrentes de
precipitações internas com curta duração ou de longos períodos de precipitação contínua. Ainda
segundo o mesmo autor salienta que este fenómeno vem sendo agravado pelo desenvolvimento
urbano descontrolado, o qual, aliado ao mau planeamento público, modifica a capacidade de
infiltração e drenagem das águas precipitadas, aumentando a frequência e magnitude de ocorrência
de desastres ambientais.
2.2.4. Inundações no Distrito de Boane
No princípio do mês de fevereiro de 2023 chuvas extremas em algumas áreas de Moçambique e nos
países vizinhos levantaram um alerta vermelho para as inundações no país. A situação foi
particularmente preocupante na província de Maputo, porque a África do Sul e o reino de Essuatíni
também vinham sofrendo chuvas extremas e os seus rios estavam acima do seu nível médio de
escoamento. As barragens de Incomáti, Corrumana e Pequenos Libombos ficaram saturadas e
viram-se obrigadas a descarregar água durante alguns dias. O efeito dessa descarga causou fortes
inundações nos Distritos de Boane e Moamba e também em Magude e Manhiça.
15
16
3. Cursos de água
A inundação constitui-se em processo de extravasamento das águas de um curso de água para áreas
marginais, ou seja, ocorre quando o fluxo de água é superior à capacidade de descargas do canal
(Infanti Jr e Fornasari Filho, 1998). A área de estudo é atravessada por 3 principais rios e estes têm
afluentes que se estende ao longo do Distrito. Destacam-se também algumas lagoas de pequena
dimensão.
Na análise dos dados de cursos de água rios foi usado um ficheiro vectorial produzido pela
CENACARTA, com a informação dos rios existentes em Moçambique.
Segundo Cury et al. (2021) ressaltam que os rios de menor ordem proporcionam suscetibilidade de
inundação relativamente baixa, quando comparados aos rios de maior ordem. Entretanto, de acordo
com Cunha et al. (2012), todos os cursos de água colaboram para a ocorrência de cheias e
inundações, pois o transbordo e consequente alagamento dos terrenos ribeirinhos compõem um
processo natural, associado a todos os cursos de água. Desta forma, foi atribuído maior valor aos
cursos de água mais próximos dos assentamentos humanos (tabela 5). Para a elaboração do mapa de
distâncias á cursos de água, considerou-se a distância mínima de 1400. Os valores de
susceptibilidades aumentam linearmente conforme se distanciam dos 1400 m.
17
Tabela 9. Classificação e valoração das classes dos Cursos de água.
Distância (m) Indicador Reclassificação segundo o Fonte
valor atribuído
0 – 1400 Muito elevada 9
1400 – 2800 Elevada 7
Cury et al. (2021) e
2800 – 4200 Moderada 5
Maziva (2015)
4200 – 5600 Baixa 3
5600 – 7000 Baixa 2
>7000 Muito baixa ou nula 1
4. Temperatura Média Anual
A avaliação para temperatura média anual em relação a suscetibilidade à inundação, indica uma
ligeira disparidade quanto ao valor das diferenças, a maior susceptibilidade a inundação é verificada
nas classes que variam de 27 a 29º C.
Os dados da temperatura média foram adquiridos na WorldClim, apresentando uma resolução
espacial de 30 segundos, no formato GeoTiff e são referentes ao período de 1970 a 2000.
É de salientar que a avaliação da temperatura média anual em relação à susceptibilidade a
inundação não apresenta uma grande disparidade quanto ao valor das diferenças e maior
susceptibilidade a inundação é verificada nos intervalos que apresentam valores maiores que 25ºC.
18
No entanto, no Distrito de Boane a temperatura média anual varia entre 20º a 25ºC, o que demonstra
que a temperatura tem um potencial baixo a inundações.
Tabela 10. Classificação e valoração das classes da temperatura.
Intervalo (ºC) Indicador Reclassificação segundo o valor Fonte
atribuído
20 – 25 Baixa 3 Cury et al. (2021) e
Maziva (2015)
>25 Moderada 5
Figura 16. Mapa temático reclassificado da temperatura média anual do Distrito de Boane.
5. Precipitação Média Anual
Tucci (1993) entende a precipitação como toda água proveniente do meio atmosférico que atinge a
superfície terrestre. Por sua capacidade de produzir escoamento, a chuva é o tipo de precipitação
19
mais para a hidrologia. É importante a determinação da intensidade da precipitação para controlar a
inundação.
A precipitação no Distrito de Boane é mais intensa na época chuvosa que vai de Novembro a
Março. A precipitação média anual para o Distrito de Boane varia 600 a 700 mm.
Os dados da Precipitação média anual foram obtidos no WorldClim e são referentes ao período de
1970 a 2000, apresentam uma resolução espacial de 30 segundos. De acordo com estes dados e
baseando-se em um estudo feito por Maziva (2015), é possível verificar que precipitação
proporciona suscetibilidade de inundação relativamente baixa.
Tabela 11. Classificação e valoração das classes da precipitação.
Intervalo (mm) Indicador Reclassificação segundo Fonte
o valor atribuído
600 – 650 Muito baixa ou nula 1 Cury et al. (2021) e
Maziva (2015)
650 – 700 Baixa 2
20
5
5. Conclusões e Recomendações
5.1. Conclusões
Neste trabalho foi aplicado um modelo de susceptibilidade às inundações baseado na análise
multicritério em ambientes de Sistemas de Informação Geográfica. Com o intuito de identificar as
áreas susceptíveis às inundações no Distrito de Boane e fornecendo subsídios para o planeamento e
gestão das áreas sujeitas a esse fenómeno.
As técnicas de geoprocessamento mostram-se ferramentas primordiais no estudo de questões sobre
suscetibilidade, pois oferecem subsídios ao planeamento e a gestão territorial no quesito de medidas
de prevenção que sejam eficazes e compatíveis com os anseios da população. Os softwares-SIG de
código aberto são comumente usados em estudos de avaliação de impacto ambiental e na seleção de
locais adequados para determinado fim.
A aplicação método de análise multicritério em ambientes dos sistemas de informação geográfica
fornece uma ferramenta poderosa para a tomada de decisões em mapeamento da susceptibilidade a
inundações, pois permitem um uso coerente e eficiente dos dados espácias. A análise Multicritério,
concretamente o método AHP usado no estudo, permitiu a produção dos resultados que mais se
aproximam da realidade.
A utilização do método AHP proposta para a determinação de pesos dos factores, considerados
influentes na delimitação de áreas susceptíveis a inundações, se mostrou eficaz, uma vez que a
razão de consistência encontrada foi de 0.0257.
O factor cursos de água revelou-se o mais significante na identificação das áreas susceptíveis às
inundações dentre todos os factores analisados, já que as regiões próximas aos cursos de água
apresentam maior susceptibilidade a inundações.
Existe uma diferença significativa no grau de susceptibilidade às inundações entre as áreas do
Distrito de Boane. Em um total da área do Distrito de Boane, cerca de 48,4% desse território
apresenta uma susceptibilidade elevada às inundações e 31,1% dessa área apresenta uma
susceptibilidade às inundações baixa. Por sua vez 20,5% da área apresenta um potencial moderado a
susceptibilidade a inundações.
21
O modelo de susceptibilidade às inundações no Distrito de Boane possibilitou definir as áreas mais
susceptíveis a este fenómeno, indicando áreas prioritárias para a realização de políticas públicas e
acções para a prevenção e mitigação dos efeitos das inundações.
O modelo aplicado poderá ser um recurso muito valioso para consultoria, agências de planeamento
e governos locais na gestão de perigos/riscos, estimativas de danos, boa governança e esforços de
remediação para mitigar riscos. A técnica aplicada neste estudo pode ser facilmente estendida a
outras áreas, onde outros factores podem ser considerados, dependendo da disponibilidade de
dados.
5.2. Recomendações
Apesar da validação do modelo ter registado uma acurácia global na ordem dos 99,2 %, uma
pesquisa de campo é fundamental para a aferir se o modelo condiz com a realidade.
O reconhecimento de que o desenvolvimento não planeado e descontrolado, concretamente as
ocupações desordenadas podem aumentar o risco de inundações. Portanto é fundamental adoptar
políticas correctas de ocupação dos espaços. A sensibilização para esta questão das inundações não
é da responsabilidade apenas das autoridades locais, mas de todos os intervenientes, abrangendo
tanto o setor público como o privado, assim como a sociedade em geral.
Com a acelerada urbanização que o Distrito de Boane vem registando, é importante que a mesma
esteja acompanhada de políticas adequadas para uma urbanização segura e responsável. A não
obstrução das drenagens naturais é uma das medidas a ser adoptada pelas autoridades na redução
dos factores de risco a inundações. O aprimoramento da infraestrutura de drenagem e criação de
áreas verdes de retenção de água pluviais são outras medidas a ter em conta.
Recomenda-se uma actualização periódica dos modelos de susceptibilidade às inundações, uma vez
que os factores que tornam uma área susceptível às inundações podem variar. A dinâmica de uso e
ocupação do solo pode variar, o que pode tornar o solo impermeável, criando assim condições
propícias para ocorrência de inundações.
E através deste trabalho realizamos uma entrevista a uma residente local de boane para abordar
acerca das inundações:
Entrevistador:Boa tarde, Sra. Carla Obrigado por aceitar falar conosco sobre sua experiência vivendo
em uma área propensa a inundações. Pode nos contar um pouco sobre como é a vida aqui durante a
temporada de chuvas?
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Carla: Boa tarde. Durante a temporada de chuvas, a vida aqui pode ser bastante difícil. As enchentes
são comuns e podem causar muitos transtornos. Muitas vezes, as ruas ficam completamente alagadas,
impedindo a passagem de veículos e pedestres. Isso afeta o nosso dia a dia, desde ir ao trabalho até levar
as crianças à escola.
Entrevistador: E quais são os principais desafios que você e sua família enfrentam durante esses
períodos?
Carla: Os principais desafios incluem o risco de perder nossos pertences por causa da água que invade
as casas, a falta de saneamento adequado, o aumento de doenças transmitidas pela água, como
leptospirose e dengue, e a interrupção dos serviços básicos, como água potável e eletricidade. Além
disso, é comum ficarmos isolados por causa das estradas inundadas, o que dificulta a chegada de ajuda.
Entrevistador: O governo ou as autoridades locais têm oferecido algum tipo de suporte ou solução para
mitigar esses problemas?
Carla: Sim, algumas medidas foram tomadas, mas ainda há muito a ser feito. As autoridades locais às
vezes distribuem kits de emergência e ajudam na evacuação de áreas mais críticas. Também houve
algumas obras para melhorar o sistema de drenagem, mas infelizmente, esses esforços ainda não são
suficientes para resolver o problema de forma definitiva.
Entrevistador: Como você e sua comunidade se preparam para a temporada de chuvas?
Carla: Nós tentamos nos preparar o melhor possível. Muitos de nós mantemos sacos de areia para
colocar nas portas e janelas, e tentamos manter nossos pertences em locais elevados. Também fazemos
estoques de alimentos não perecíveis e água potável para os casos em que ficamos isolados. Além disso,
tentamos ficar atentos às previsões meteorológicas e avisos das autoridades.
Entrevistador: Quais são suas esperanças para o futuro em relação a esse problema?
Carla: Espero que o governo invista mais em infraestrutura e em um sistema de drenagem eficiente.
Também seria importante que houvesse mais campanhas de conscientização sobre como nos preparar e
agir durante as enchentes. Acredito que, com um esforço conjunto entre governo e comunidade,
podemos reduzir os impactos das inundações e tornar nossa vida mais segura.
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6. Referências Bibliográficas
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geoespaciais de alta resolução. Tese de Mestrado, Universidade de Lisboa, Departamento de
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Uso De Planejamento Urbano - Dados De Satélite Sob Ambiente Gis. Allahabad-Índia:
Departamento de Engenharia Civil-Instituto Nacional de Tecnologia de Motilal Nehru
(MNNIT).
Boyce, M., Vernier, P., Nielsen, S., e Schmiegelow, F. (2002). Evaluating Resource Selection
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data.europa.eu - The official portal for European data:
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