Aula 2 - Competência
Aula 2 - Competência
Quando se fala em competência, lembra-se de Limite, âmbito dentro do qual cada órgão pode exercer legitimamente a jurisdição. A
jurisdição é una e exercida pelo Estado-Juiz. A competência representa a parcela do poder de exercer jurisdição atribuída a um agente estatal pela lei. Esse agente é chamado de órgão jurisdicional . O estudo da competência é, portanto, uma análise entre atribuição e limitação do poder de
exercer a atividade jurisdicional – art. 42 CPC (a competência seria a parcela da jurisdição atribuída a um órgão jurisdicional). Alguns falam em “medida/repartição da jurisdição”, o que é algo questionável, já que, como já visto, a jurisdição é indivisível, o que há é uma repartição de trabalho, de
funções entre os mais diversos órgãos, pelas regras de competência. Assim, a competência é justamente a limitação do exercício legítimo da jurisdição. O juiz incompetente estará, portanto, exercendo de forma ilegítima sua jurisdição. Importa ressaltar que as regras de competência buscam
atingir dois objetivos principais bastante nítidos: organização de tarefas e racionalização do trabalho. Assim: JURISDIÇÃO (exercida em todo território nacional); COMPETÊNCIA (definida em lei). As normas de determinação da competência são encontradas na CF, nas Constituições
Estaduais, nos Códigos, em leis especiais, normas de organização judiciária, normas regimentais (distribuição de competência interna dos tribunais, p. exp.) e, ainda, em normas negociais, como nos casos de foro de eleição – art. 44 CPC. A competência é determinada no momento do registro
ou da distribuição da petição inicial, permanecendo a mesma, até o proferimento da decisão – perpetuatio jurisdictionis (perpetuação da jurisdição) – sendo irrelevantes as modificações do estado de fato ou de direito ocorridas posteriormente . Todavia, tal regra cede em casos de supressão de
órgão ou alteração de regras de competência absoluta – art. 43 CPC. Atualização 2024: A regra do art. 43 do CPC pode ser superada, sempre em caráter excepcional, quando se constatar que o juízo perante o qual tramita a ação não é adequado ou conveniente para processá-la e
julgá-la. (STJ). Embora a mudança superveniente de competência absoluta afaste, em regra, a perpetuatio jurisdictionis, isso não ocorre quando essa modificação se dá após a sentença, como no caso concreto, em que o processo já se encontra em fase de execução (Súm. 367, STJ. A
competência estabelecida pela EC 45/2004 não alcança os processos já sentenciados) e Súmula n. 58 do STJ: Proposta a execução fiscal, a posterior mudança de domicílio do executado não desloca a competência já fixada . Há outras hipóteses de exceção à perpetuatio: como
conexão e continência, cumprimento de sentença (art. 516, p.ú.); na hipótese do art. 45 do CPC (deslocamento por intervenção de ente federal - se nele intervier a União, suas empresas públicas, entidades autárquicas e fundações, ou conselho de fiscalização de atividade profissional, na
qualidade de parte ou de terceiro interveniente. Porém, o juízo federal restituirá os autos ao juízo estadual sem suscitar conflito se o ente federal cuja presença ensejou a remessa for excluído do processo). Essa regra não se aplica, todavia, às ações de recuperação judicial, falência, insolvência
civil e acidente de trabalho, bem como aquelas afetas à justiça eleitoral e à justiça do trabalho (ou seja mesmo estando a união, o processo continuará no juízo recuperacional – art. 45 CPC) - “CF, art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: I - as causas em que a União, entidade
autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho”. Súm. 150, STJ. Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência
de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas. Logo, não cabe ao juízo estadual fazer essa análise (cabe a ele remeter os autos à JF), e sim o federal, que poderá manter ou excluir o ente. Se excluir o ente por entender que
não há interesse, ele devolve os autos à JE, que deverá acatar a decisão. Súm. 254, STJ. A decisão do Juízo Federal que exclui da relação processual ente federal não pode ser reexaminada no Juízo Estadual - sem a possibilidade da JE suscitar conflito negativo de competência
perante o STJ. Atualização 2024: A mera alegação por uma das partes da necessidade de intervenção da União, entidade autárquica ou empresa pública federal em uma demanda entre pessoas privadas em trâmite na Justiça Estadual é insuficiente para que haja o
deslocamento de competência para a Justiça Federal - STJ, Informativo 813, 1ª Turma, Edcl no AgRg no Ag 1.275.461/2024. Princípio da “competência-competência” também chamada de competência mínima/atômica ( kompetenz-kompetenz) - por esse princípio, todo juiz tem
competência para analisar a sua própria competência. Por mais incompetente que seja, ele pode decidir acerca da sua competência ou incompetência.
1. Regras de competência: existem 5 espécies de competência, sendo três absolutas (funcional, em razão da matéria e em razão da pessoa), e duas relativas (territorial e valor da causa). A competência é indisponível, o órgão jurisdicional não pode dispor dela, não pode deixar de exercer a
competência que a ondem jurídica lhe atribua, nem exercer poder que a ordem não lhe atribua (indelegabilidade de jurisdição). Um estado de direito é um estado de competências – só a norma pode autorizar situações de alteração ou mudança de competência. Sendo:
I. Absoluta (MPF – matéria, pessoa ou função): são fundadas em razão de interesse público (ordem pública), para as quais a liberdade das partes deve ser desconsiderada, em virtude da prevalência do interesse público sobre os interesses particulares, ou seja, não há flexibilização - normas
cogentes, art. 64 CPC: “A incompetência, absoluta ou relativa, será alegada como questão preliminar de contestação. § 1º A incompetência absoluta pode ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição e deve ser declarada de ofício” . Todos os sujeitos processuais são legitimados
a apontar a ofensa a uma regra dessa natureza, até mesmo porque o respeito à ordem pública é questão incompatível com a limitação de legitimados que pretendam sua concretização. Nesse sentido, podem arguir a incompetência absoluta o autor, réu, terceiros intervenientes, MP como fiscal
da lei e, até mesmo, o juiz, de ofício. O art. 64, § 2º do CPC exige que o juiz, diante da alegação de incompetência, intime a parte contrária para se manifestar sobre a matéria . Quando ao momento de arguição da incompetência absoluta, a doutrina afirma que, enquanto o processo estiver no 1º
grau, ou ainda em grau recursal, mas desde que em vias ordinárias de impugnação, será possível o reconhecimento da incompetência absoluta, ou seja, possível arguir enquanto o processo estiver pendente e também após o final do processo em sede de ação rescisória – art. 966, II
do CPC. Pode ser alegada de qualquer forma, seja em sede de preliminar de contestação – art. 337, II do CPC; ou em simples petição. As partes não podem alterar as regras de competência absoluta (art. 62), ex.: ainda que prevista em foro de eleição, não pode ser alterado. Ela se divide em...
A. EM RAZÃO DA FUNÇÃO: é analisa levando-se em consideração a divisão funções que são exercidas ao longo de um mesmo processo. Ela pode ser – (i) Definida pelo grau de jurisdição/hierarquia/competência funcional vertical (configura-se na competência por graus de
jurisdição, que poderá ser recursal ou originária, exp.: a competência do juiz de 1ª instância para decidir uma ação que não seja de competência originária de tribunal e a competência do tribunal para julgar uma apelação. Tanto a competência do juiz, quanto a competência do tribunal, nesse
caso, é absoluta em razão da função, levando-se em consideração a divisão de funções entre os órgãos ao longo do processo, aqui analisada numa perspectiva vertical - por isso mesmo alguns falam em competência em razão da hierarquia). (ii) Definida pelas fases do
procedimento/competência funcional horizontal (leva-se em consideração a competência para exercer a jurisdição em cada uma das fases do processo. Ex.: se a competência para a fase de conhecimento foi do juízo da 1ª Vara Cível, a competência para o cumprimento de sentença será
dessa mesma vara, ou juízes diversos de mesma hierarquia, exp.: juiz criminal que pronuncia diverso daquele que preside o júri ou que conduz a execução penal. Assim, o juízo que praticou determinado ato processual tornou-se absolutamente competente para praticar outro ato processual
previamente estabelecido - “Art. 516. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante: [...] II – o juízo que decidiu a causa no primeiro grau de jurisdição”). (iii) Definida pela relação entre ação principal e ações acessórias e incidentais (determina que o juízo da ação principal seja
absolutamente competente para as ações acessórias e incidentais - Art. 61. A ação acessória será proposta no juízo competente para a ação principal. Exp.: competência do juiz da execução para decidir embargos de terceiro, julgar embargos à execução; Exp.: havendo partilha posterior ao
divórcio, surge um critério de competência funcional do juízo que decretou a dissolução da sociedade conjugal, em razão da acessoriedade entre as duas ações – Info 643 STJ). (iv) Pelo objeto do juízo (verificada quando numa mesma decisão participam dois diferentes órgãos).
B. EM RAZÃO DA PESSOA: será sempre absoluta. Exemplo clássico é a Vara da Fazenda Pública, que concentra as demandas envolvendo o Estado e o Município. Na maioria das vezes, a especialização de varas é determinada pela competência absoluta em razão da matéria,
mas quando a especialização de vara é para criar vara da Fazenda Pública, o critério não é o da matéria, e sim o da pessoa, vez que essa competência é determinada levando-se em consideração a parte envolvida (e não o objeto da demanda) . Exp.: quando determinada por
prerrogativa de função (Mandado de Segurança contra ato do Presidente da República, em que a competência é do STF – é a presença do presidente na demanda que desloca a competência ao STF). Súm. 206, STJ. A existência de vara privativa, instituída por lei estadual, não altera a
competência territorial resultante das leis de processo – ou seja, a especialização somente respeita comarca onde fora instituída a vara especializada – IAC 10 do STJ.
OBS.: COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL - a competência da Justiça Federal será fixada sempre por normas determinadoras de competência absoluta. Estão previstas na Constituição Federal, arts. 108 e 109 da CF (“CF, art. 109. Aos juízes federais compete processar e
julgar: I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho” ). Art. 15 da Lei n° 5.010/66
– organiza a JF (“Quando a Comarca não for sede de Vara Federal, poderão ser processadas e julgadas na Justiça Estadual: III - as causas em que forem parte instituição de previdência social e segurado e que se referirem a benefícios de natureza pecuniária, quando a Comarca de domicílio
do segurado estiver localizada a mais de 70 km de Município sede de Vara Federal. § 2º Caberá ao respectivo Tribunal Regional Federal indicar as Comarcas que se enquadram no critério de distância previsto no inciso III do caput deste artigo”).
C. EM RAZÃO DA MATÉRIA: é aquela determinada em virtude da natureza da causa (objeto da demanda). São regras de competência absoluta, não admitindo prorrogação. Normas encontradas na CF e nas Leis de Organização Judiciária .
OBS.: DA INCOMPETÊNCIA ABSOLUTA - Fundada em normas cogentes, de ordem pública, devendo ser reconhecida de ofício pelo juiz. Por se tratar de matéria de ordem pública, a legitimidade para alegação é bem ampla. É de qualquer sujeito processual, inclusive pelo autor, podendo ser
condenado por litigância de má-fé. Embora deva ser formulada em preliminar de contestação, poderá ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição, até mesmo após o trânsito em julgado da decisão. “Art. 64. A incompetência, absoluta ou relativa, será alegada como questão preliminar de
contestação. Art. 337. Incumbe ao réu, antes de discutir o mérito, alegar: [...] II - incompetência absoluta e relativa; Art. 64. [...] § 1º A incompetência absoluta pode ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição […]” . A incompetência absoluta é improrrogável, ou seja, não se torna
competente o juízo absolutamente incompetente, ainda que a incompetência não tenha sido suscitada pela parte interessada. Não gera a extinção do processo sem resolução de mérito, mas tão somente a remessa dos autos ao juízo competente (STJ, Info 586, REsp
1.526.914/2016). A decisão que versa sobre a competência é uma decisão interlocutória, mas, no art. 1.015, não há previsão expressa de agravo de instrumento. No entanto, segundo o STJ: É cabível a interposição de agravo de instrumento contra decisão relacionada à definição de
competência, a despeito de não previsto expressamente no rol do art. 1.015 do CPC/2015 - STJ, Informativo 618, REsp 1.679.909/20. Art. 64, § 4º [...] conservar-se-ão os efeitos de decisão proferida pelo juízo incompetente até que outra seja proferida, se for o caso, pelo juízo
competente – ou seja, tanto na competência absoluta quanto na relativa é possível que os atos praticados pelo juiz incompetente sejam aproveitados ( translatio iudicis). Essa norma decorre da chamada translatio iudicii, de acordo com a qual, a despeito do reconhecimento da incompetência do
juízo, é possível preservar o processo (a litispendência) e os seus efeitos.
II. Relativas (TV – territorial ou valor): é atribuída no interesse das partes (caráter eminentemente privado – por isso não pode ser conhecida de ofício e será prorrogada se não for alegada no primeiro momento que o réu falar nos autos, sob pena de preclusão – art. 64 e 337, II – preliminar de
contestação. Se não alegada o juiz incompetente, torna-se competente – competência prorrogada) - a exceção fica por conta da tutela coletiva, que permite a reunião de demandas conexas mesmo com a determinação de competência absoluta do local do dano . O legitimado para arguir a
incompetência relativa é, via de regra, o réu. O autor não pode alegar a incompetência relativa em razão de preclusão lógica, pois tem na propositura da demanda o momento procedimental adequado para se manifestar a respeito da competência relativa - compete ao réu. O réu,
que não tem nenhuma participação na escolha do juízo para o qual a demanda foi distribuída, terá legitimidade para excepcionar o juízo (é o legitimado “tradicional”). Quanto ao MP, nas demandas que funcionar como réu, pode excepcionar o juízo, bem como quando atuar como fiscal da ordem
jurídica (art. 65, § único, CPC). Como regra, a incompetência relativa não pode ser declarada de ofício . Súmula 33, STJ: A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício . Porém, o art. 63, § 3º, do CPC contém uma exceção, pois prevê que, havendo cláusula de eleição
de foro abusiva em qualquer contrato, o juiz, antes da citação, declarará nula a cláusula de eleição de foro (reputará ineficaz), determinando a remessa do processo ao foro do domicílio do réu . Com relação ao momento para alegação da incompetência relativa, existe prazo
preclusivo para alegação de incompetência relativa, de forma que, não havendo manifestação dentro desse prazo, ocorrerá prorrogação de competência, ou seja, o juízo se tornará competente no caso concreto. O prazo para alegar a ncompetência relativa é o da contestação – art. 65 CPC.
A. EM RAZÃO DO VALOR DA CAUSA: as leis de organização judiciária utilizam o valor da causa como fator e distribuição interna, sua relevância encontra-se restrita à questão que envolve o Juizado Especial e os chamados foros regionais. (i) Juizado Especial Estadual - Lei 9.099/95 (são de
sua competência as causas que não superem 40 salários-mínimos e não estejam previstas no art. 3º, II, III e IV, da Lei, envolvendo sujeitos que não estejam elencados no art. 8º, além de não serem faticamente complexas, não versarem sobre direito coletivo lato sensu, nem seguirem
procedimento especial. Importa ressaltar que o autor pode optar pela Justiça Comum, ainda que seu processo se amolde às condições expostas – facultatividade, conforme Enunciado 1, FONAJE). (ii) Juizado Especial Federal - Lei 10.259/01 (são de sua competência causas de até 60
salários-mínimos. Segundo entendimento do STJ, havendo litisconsórcio ativo, o teto deverá ser calculado de forma autônoma. Estão excluídas de sua competência as demandas de desapropriação, divisão e demarcação de terras; populares; execuções fiscais; por improbidade administrativa;
coletivas lato sensu; que versem sobre imóvel da União, autarquia e fundações públicas federais; anulação ou cancelamento de ato administrativo federal - ressalvado o de natureza previdenciária e o de lançamento fiscal; e causas que tenham como objeto a impugnação da pena de demissão
imposta a servidor público civil ou de sanção disciplinar aplicada a servidor militar. Diferente do Juizado Especial Estadual - facultatividade em usar ela ou o procedimento comum , se houver Vara do Juizado Especial Federal, sua competência será absoluta, não havendo nenhuma
opção ao autor). (iii) Juizado Especial da Fazenda Pública Estadual - Lei 12.153/09 (é uma competência absoluta. É competente para processar, conciliar e julgar causas cíveis de interesse dos Estados, do DF, Territórios e Municípios, até o valor de 60 salários-mínimos).
***OBS.: CRITÉRIOS PARA FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA - analisar se a competência para julgamento é dos Tribunais de superposição (competência originária do STF e do STJ) ou de órgão jurisdicional atípico (Senado Federal, por exp.). Depois, verificar se o processo é de competência da
justiça especial (Justiça do Trabalho, Militar ou Eleitoral) ou da Justiça comum (Estadual ou Federal). Se de competência da Justiça Comum, definir entre a Justiça Estadual e a Federal (a competência da Justiça Estadual é residual). Após, verificar se o processo é de competência originária do
Tribunal respectivo ou do 1º grau de jurisdição. Sendo competência do 1º grau de jurisdição, determinar a competência do foro (=unidade territorial de exercício da jurisdição, se envolve a fazenda pública ou não).
B. EM RAZÃO DO TERRITÓRIO/TERRITORIAL (arts. 46 e 47): por meio dela se determina qual o foro competente para a demanda, o que significa dizer qual a circunscrição territorial judiciária competente (comarca na Justiça Estadual e seção judiciária na Justiça Federal). O foro comum
(geral ou ordinário) é o do domicílio do réu, conforme art. 46 CPC, mas essa regra somente se aplica aos processos fundados em direito pessoal e direito real sobre bens móveis. Havendo 2 ou mais réus com diferentes domicílios, serão demandados no foro de qualquer
deles, à escolha do autor. Réu sem domicílio/residência no Brasil → domicílio do autor, e se ambos residirem fora do Brasil, qualquer foro. Para as ações fundadas em direito real sobre imóveis é competente o foro de situação da coisa, podendo o autor optar pelo foro de domicílio
do réu ou pelo foro de eleição, salvo se o litígio recair sobre direito de propriedade, vizinhança, servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova, sendo, nesses últimos casos, hipótese de competência absoluta do foro da situação da coisa . Na hipótese
de o imóvel estar localizado em mais de um foro, haverá concorrência entre eles, podendo optar o autor por qualquer um, o que tornará o juízo que receber a petição inicial prevento para conhecer de qualquer outra ação conexa, ainda que em tese de competência do outro foro, não escolhido
pelo autor (art. 60 CPC). Existem outras exceções em que a competência territorial será absoluta, e não relativa: Mandado de Segurança; Ações civis públicas (foro em que ocorreu o dano); ECA (Alimentos → domicílio/residência alimentando – Súmula 1 STJ) e o Estatuto do
Idoso (residência do idoso - somente se versar sobre direito previsto no Estatuto). Ações contra PJs → lugar da sede. Ações contra sociedade ou associação sem personalidade jurídica→ onde exerce suas atividades. Reparação de dano → lugar do ato/fato (a competência
para julgamento de ação de indenização por danos morais, decorrente de ofensas proferidas em rede social, é do foro do domicílio da vítima, em razão da ampla divulgação do ato ilícito - STJ, Informativo 774, REsp 2.032.427/2023) . Reparação de dano contra serventia notarial/registro →
sede da serventia. Pode um Estado ser demandado perante outro Estado? Sim . Se, por exemplo, o Estado de Pernambuco precisar participar de uma audiência perante um órgão jurisdicional em São Paulo, é possível que tal ato seja praticado por um procurador do Estado de São Paulo,
desde que haja a celebração do referido convênio - Art. 75. [...] § 4º Os Estados e o Distrito Federal poderão ajustar compromisso recíproco para prática de ato processual por seus procuradores em favor de outro ente federado, mediante convênio firmado pelas respectivas procuradorias. Porém
lembrando que o STF já entendeu que “É inconstitucional a regra de competência que permita que os entes subnacionais sejam demandados perante qualquer comarca do país, devendo a fixação do foro restringir-se aos seus respectivos limites territoriais - STF, Informativo
1.092, Pleno, ADI 5.492 e 5.737/2023”. Isso para evitar sobremaneira que um ente tenha seu orçamento gerido por outro (precatório), com isso o STF deu interpretação conforme ao art. 52 do CPC, para restringir os limites territoriais do ente federativo. Deste modo, eventual execução fiscal
será proposta no foro de domicílio do réu, no de sua residência ou no lugar onde ele for encontrado, desde que dentro dos limites do respectivo Estado-membro. Não sendo o caso, a execução fiscal deverá ser proposta no local de ocorrência do fato gerador da obrigação tributária . No caso de
serem demandados, os Estados e o DF somente poderão se processados e julgados perante seus respectivos Tribunais de Justiça (ADI 5737 e 5492 – abril de 2023).
OBS.: DA INCOMPETÊNCIA RELATIVA – a legitimidade para arguição será do réu, que alegará a incompetência relativa daquele juízo. “art. 65, p.ú. A incompetência relativa pode ser alegada pelo MP nas causas em que atuar” . Deverá ser formulada em preliminar de contestação, sendo o
momento tão somente esse. Não se admite a declaração de ofício. Súmula 33, STJ. A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício . EXCEÇÃO: art. 63, § 3º (v. aula “modificação de competência”). Registre-se, por oportuno, a possibilidade de a alegação de incompetência ser
alegada em contestação apresentada antes mesmo da audiência de conciliação, nos termos do art. 340 do CPC. Nos termos do art. 64, § 3º, do CPC, reconhecida a incompetência, absoluta ou relativa, o processo será remetido ao juízo competente, de forma que tais matérias são
consideradas, ao menos em regra, dilatórias, ou seja, seu acolhimento somente fará com que o tempo de duração do processo seja prolongado (salvo decisão judicial em sentido contrário, conservar-se-ão os efeitos de decisão proferida pelo juízo incompetente até que outra seja proferida, se
for o caso, pelo juízo competente - art. 64, § 4º). O STJ já decidiu que a impossibilidade técnica do Judiciário em remeter os autos para o órgão competente ante as dificuldades inerentes ao processamento eletrônico não é razão suficiente para levar o processo à extinção. Nos Juizados
Especiais, no entanto, a incompetência territorial (relativa) excepciona a regra, pois no art. 51, III, da Lei 9.099/95 há previsão de que o reconhecimento da incompetência territorial é causa de extinção do processo (natureza peremptória). Se por um lado a incompetência
absoluta é improrrogável, a relativa é prorrogável. A consequência em caso de acolhimento da incompetência relativa é a remessa dos autos ao juízo competente (salvo duas situações específicas onde o reconhecimento do vício de competência implica na extinção do
processo: 1) Incompetência nos juizados especiais art. 51 da Lei n° 9.099/95; e 2) Incompetência internacional). As decisões são recorríveis por agravo de instrumento.
III. Modificação de competência (apenas se for relativa – valor da causa ou territorial) . A. MODIFICAÇÃO LEGAL: de uma forma geral, ocorre quando há um vínculo entre duas ou mais causas, decorrente da identidade parcial dos elementos da ação (partes, causa de pedir e pedido), que
leva à reunião das ações (modificação de competência), para decisão conjunta, em vista de um risco de decisões conflitantes. A competência relativa (TV – territorial ou valor) poderá modificar-se pela conexão ou pela continência...
(i) Conexão - art. 55, 58 e 59 do CPC: reputam-se conexas 2 ou mais ações quando lhes for comum o pedido OU a causa de pedir. Considerando estar-se diante do mesmo fato, haverá conexão. Há margem de discricionariedade na avaliação do julgador quanto à intensidade da conexão,
presente sempre o escopo de se evitar, pela conveniência da reunião dos processos, decisões contraditórias/conflitantes/divergentes. A reunião dos processos por conexão, como forma excepcional de modificação de competência, só tem lugar quando as causas supostamente conexas estejam
submetidas a juízos, em tese, competentes para o julgamento das duas demandas ( as demandas não são idênticas, mas semelhantes – devem ser reunidos para julgamento simultâneo, visando manter a harmonia das decisões e economia processual ). Regra -se existirem duas ou
mais ações conexas, elas serão reunidas ([de ofício ou a requerimento], no juízo prevento, qual seja, aquele em que primeiramente ocorreu o registro o a distribuição da petição inicial . Para que haja a reunião entre ações conexas, é necessário que o juízo prevento tenha competência absoluta
para receber e julgar a causa conexa (inviável a reunião de ações reputadas conexas que tramitam em juízo estadual e em juízo federal – nesses casos não haverá modificação de competência) . Súmula 235, STJ: A conexão não determina a reunião dos processos, se um deles
já foi julgado - caso contrário, restará configurada a supressão de instância (nestes casos há conexão, mas não se produzem os seus efeitos); além disso a reunião não é obrigatória, havendo uma margem de discricionariedade . STJ: Nos termos da jurisprudência desta Corte, a reunião dos
processos por conexão configura faculdade atribuída ao julgador, que possui certa margem de discricionariedade para avaliar a intensidade da conexão e o grau de risco da ocorrência de decisões contraditórias . “Art. 55. § 3º Serão reunidos para julgamento conjunto os processos que possam
gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão entre eles” . Ex.: André x Jaime = ação de despejo do imóvel Y, Bruna x André = ação de usucapião do imóvel Y. Nesse caso, não há conexão, mas poderão ser reunidas
(CONEXÃO POR PREJUDICALIDADE), pois se Bruna diz que o imóvel é dela, André não poderia ter alugado para Jaime. Isso deixa clara a adoção do CRITÉRIO MATERIALISTA da conexão, que permite a reunião mesmo sem identidade de pedido ou causa de pedir, mas a admite mediante
um vínculo entre as relações jurídicas discutidas. Considerando que a conexão pode modificar apenas a competência relativa (TV – territorial ou valor), caso se trate de competência absoluta (MPF – matéria, pessoa ou função), uma vez que eles não podem ser reunidos, uma das ações
deverá ser suspensa até que a outra seja julgada, para evitar discrepância das decisões.
(ii) Continência – art. 56 e 57 CPC: embora o CPC trate em dispositivo distinto, ela é uma hipótese específica de conexão, sendo que seu efeito é o mesmo – reunião de causas para julgamento em conjunto. Dá-se a continência entre 2 ou mais ações quando houver identidade quanto às
partes E à causa de pedir, mas o pedido de uma, por ser mais amplo, abrange o das demais . Exemplo típico de continência é encontrado no caso em que um mesmo credor ajuíza duas ações contra o mesmo devedor: na primeira cobra algumas prestações vencidas e, na posterior,
reclama o total da dívida, englobando o objeto da primeira. Há, na hipótese, continência entre as demandas, sendo a mais ampla a demanda/ação continente (se pede 100%) e a mais restrita chamada de demanda/ação contida (aquela que é abrangida pela ação continente). Ações que têm
relação de continência não necessariamente serão reunidas, vez que a consequência em caso de continência é diversa a depender da situação. “Art. 57. Quando houver continência e a ação continente tiver sido proposta anteriormente, no processo relativo à ação contida será
proferida sentença sem resolução de mérito […]”. Quando a ação contida for proposta posteriormente, ela será extinta; caso contrário, as ações serão necessariamente reunidas no juízo em que houver ocorrido a primeira distribuição .
OBS.: PREVENÇÃO/JUÍZO PREVENTO (juiz que terá sua competência prorrogada) – importa verificar qual juízo conheceu a causa primeiro, ou seja, qual julgador teve primeiro contato com a questão. Assim como a determinação de competência ocorre no momento do registro da
ação ou da distribuição – art. 43 CPC; é o registro ou a distribuição da inicial que torna prevento o juízo para o julgamento simultâneo das demandas, com exclusão de qualquer outro. Assim, a competência do juízo prevento é absoluta, devendo os demais processos serem
remetidos a ele, em razão da FUNÇÃO que ele exercerá – arts. 58 e 286, I do CPC. As regras de competência relativa das ações conexas são alteradas em face da prevenção do juízo que conheceu da primeira causa (absolutização da competência relativa) . CPC consagra mais
duas regras para determinação do juízo prevento – (i) Imóvel situado em mais de um Estado (Art. 60. Se o imóvel se achar situado em mais de um Estado, comarca, seção ou subseção judiciária, a competência territorial do juízo prevento estender-se-á sobre a totalidade do imóvel). (ii)
Ações acessórias (determina que o juízo da ação principal seja absolutamente competente para as ações acessórias e incidentais, exp.: embargos à execução e execução; ou embargos de terceiro e oposição – Art. 61. A ação acessória será proposta no juízo competente
para a ação principal). “Art. 58. A reunião das ações propostas em separado far-se-á no juízo prevento, onde serão decididas simultaneamente. Art. 59. O registro ou a distribuição da petição inicial torna prevento o juízo ”.
B. MODIFICAÇÃO VOLUNTÁRIA (modificação negociada – art. 62 a 63 CPC): seja pelo silêncio do réu (modificação tácita), ou por negócio processual escrito entre as partes elegendo o foro contratual - “Art. 63. As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território,
elegendo foro onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações. § 1º A eleição de foro somente produz efeito quando constar de instrumento escrito, aludir expressamente a determinado negócio jurídico e guardar pertinência com o domicílio ou a residência de uma
das partes ou com o local da obrigação, ressalvada a pactuação consumerista, quando favorável ao consumidor. § 2º O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes . § 3º Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de ofício
pelo juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu. § 4º Citado, incumbe ao réu alegar a abusividade da cláusula de eleição de foro na contestação, sob pena de preclusão. § 5º O ajuizamento de ação em juízo aleatório, entendido como aquele sem
vinculação com o domicílio ou a residência das partes ou com o negócio jurídico discutido na demanda, constitui prática abusiva que justifica a declinação de competência de ofício ”. Atualização 2024: o art. 63 foi alterado pela Lei n° 14.897/2024, acrescentando uma parte final ao
§ 1º e acrescentando o § 5º. A alteração veio para evitar a chamada “compra de fórum” ou escolha de “foros aleatórios”. Assim, se, p.ex., se dois sujeitos residentes e domiciliados em Goiás celebram um contrato prevendo o cumprimento de uma obrigação que por lá será cumprida. Nada
impediria, até então, que eles elegessem o foro do DF para resolver questões atinentes àquele contrato. O que a novidade legislativa nos traz é que o foro de eleição deve guardar pertinência com o domicílio ou a residência de uma das partes ou com o local da obrigação (ressalvada a
pactuação consumerista, quando favorável ao consumidor), de forma que se for eleito um foro aleatório, isso poderá ser considerado como prática abusiva, justamente pela ausência de vinculação com o domicílio ou a residência das partes ou com o negócio jurídico discutido na demanda. Em
tais casos, o juiz poderá, até mesmo de ofício, declarar a abusividade da cláusula e declinar da competência para o foro que, em sua visão, é o legalmente competente
(i) Cláusula de eleição de foro - art. 63 CPC (as partes podem, no caso concreto, afastar a aplicação da regra de competência relativa por meio de celebração de um acordo, escolhendo um foro determinado para futuras e possíveis demandas. A eleição de foro só produz efeito quando constar
de instrumento escrito e aludir expressamente a determinado negócio jurídico. O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes. Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de ofício pelo juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo
do foro de domicílio do réu, sob pena de precluir). Assim, para sua aceitação são exigidos dois requisitos: A. REQUISITO POSITIVO (instrumento escrito e guardar pertinência com a residência de uma das partes – art. 63, § 1° [alterado em 2024] ); B. REQUISITO NEGATIVO (não ser abusivo) –
tal abusividade pode ser verificada de ofício, desde que antes da citação, art. 63, § 3°.
(ii) Prorrogação por vontade unilateral do autor (haverá tal espécie de prorrogação sempre que a demanda for proposta respeitando-se a regra do foro geral [domicílio do réu], ou seja, sempre que existir uma regra especial de foro, a proteger o autor, em detrimento da regra geral, poderá o
demandante optar por afastar a norma que teria sido feita em seu favor e litigar no domicílio do réu).
***IV. Conflito de Competência: nos termos do art. 66 do CPC, ocorre conflito de competência quando duas autoridades judiciais se declaram simultaneamente competentes ou incompetentes para determinada demanda ou, ainda, quando entre 2 ou mais juízes surgir controvérsia acerca da
reunião ou separação de processos. Hipóteses: 2 ou mais juízes se declaram competentes; ou 2 ou mais juízes se consideram incompetentes, atribuindo um ao outro a competência; entre 2 ou mais juízes surge controvérsia acerca da reunião ou separação de processos. O juiz que não acolher
a competência declinada deverá suscitar o conflito, salvo se a atribuir a outro juízo. Assim, reconhecida a incompetência e remetidos os autos ao magistrado competente, ele poderá reconhecer a própria competência e seguir o processamento normal da causa; ou não acolher a
competência que foi declinada a ele, devendo neste caso suscitar o conflito negativo de competência (salvo se atribuir competência a outro juízo diverso do anterior – art. 66, § único CPC) . 1) Competência para decidir o conflito - CF, arts. 102, 105, 108 e 114 (se for STJ x
TJs/TRFs, não há conflito de competência, pois há uma vinculação hierárquica entre eles, devendo ser acatado o que o STJ decidir. Contudo, pensando em provas de concurso, conclui-se que a competência é do STF - “Compete ao STF dirimir o conflito de competência entre Juízo
Estadual de primeira instância e Tribunal Superior, nos termos do disposto no art. 102, I, "o", da CF - STF, Pleno, CC 7.242/2008”). Ex. p. ú.: o juízo A entende que é incompetente e remete ao juízo B. Haverá conflito negativo de competência se o juízo B entender que é incompetente,
sendo a competência do juízo A. É diferente se no caso de o juízo A declinar da competência para o juízo B que, por sua vez, entende que é incompetente, indicando o juízo C como competente. Aqui, não há conflito de competência (para haver o conflito, é indispensável a imputação recíproca
da competência). Ex.: Um juiz avoca e o outro nega (conflito positivo – os dois querem julgar), um remete e o outro recusa (conflito negativo). Súmula n. 59 do STJ, “Não há conflito de competência se já existe sentença com trânsito em julgado, proferida por um dos Juízos conflitantes” .
LEMBRE-SE: quando se fala de conflito de competência, refere-se a conflito entre órgãos do Poder Judiciário. No que toca ao MP, por exemplo, há conflito de atribuições . “Súmula 3, STJ. Compete ao Tribunal Regional Federal dirimir conflito de competência verificado, na respectiva
Região, entre Juiz Federal e Juiz Estadual investido de jurisdição federal. Súm. 428, STJ. Compete ao Tribunal Regional Federal decidir os conflitos de competência entre juizado especial federal e juízo federal da mesma seção judiciária” . 2) Legitimidade e procedimento do conflito de
competência - CPC, arts. 951/959 - o Conflito de competência pode ser suscitado por qualquer das partes [...] pelo MP [hipóteses do art. 178: custos iuris] [...] ou pelo juiz, em todos os casos, deverá estar acompanhado de documentos necessários à prova do conflito. Art. 952. Não pode suscitar
conflito a parte que, no processo, arguiu incompetência relativa. Isso porque, se a parte alegou a incompetência, das duas, uma: ou a alegação foi acolhida, e a parte teve seu desejo satisfeito, ou, se não o foi, cabe a ele interpor recurso. O que não pode é fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Parágrafo único. O conflito de competência não obsta, porém, a que a parte que não o arguiu suscite a incompetência. Oitiva dos juízes, se suscitado pelas partes ou pelo MP, ou apenas do suscitado, se um dos juízes for o suscitante. O relator poderá designar o juízo A ou o juízo B só para
decidir eventuais requerimentos e medidas urgentes. Não é uma antecipação do julgamento. Após: oitiva do MP (5 dias) - a ausência de manifestação não impede o julgamento. Proferida decisão sobre a competência, deverão os autos serem remetidos ao juízo declarado competente (ou
mantém no juízo originário). Decide, também, sobre a validade dos atos decisórios do incompetente. É uma certa contradição com o art. 64, § 4º, que prevê a validade dos atos decisórios, até que se manifeste o juízo competente . STJ: A jurisprudência desta Corte Superior já assentou o
entendimento de que a decisão que declara a competência no Conflito de Competência restringir-se ao feito que lhe deu origem, não podendo ser estendida a outros feitos, ainda que se caracterize a analogia da situação fático-jurídica (STJ, Rcl 5.422/2011).
V. Cooperação judiciária nacional (arts. 67 a 69 do CPC): decorre do princípio da cooperação - “Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva” . Todavia, a ideia geral desse princípio parece-nos mais
voltada à uma noção endoprocessual (endógena - dentro),uma cooperação interna entre os sujeitos de um determinado processo. Mas há um desdobramento desse princípio, que é o da cooperação JUDICIÁRIA, transprocessual (exógena - fora), entre processos, envolvendo os próprios órgãos
judiciários (inclusive de ramos diferentes), prevista a partir do art. 67: “Aos órgãos do Poder Judiciário, estadual ou federal, especializado ou comum, em todas as instâncias e graus de jurisdição, inclusive aos tribunais superiores, incumbe o dever de recíproca cooperação, por meio de seus
magistrados e servidores”. Fala-se, assim, num dever jurídico de cooperação recíproca entre os órgãos do Judiciário, um dever que deve ser cumprido pela utilização de inúmeras técnicas de diálogo, de intercâmbio, de comunicação entre órgãos, a fim de que sejam praticados atos processuais
em cooperação. A Resolução 350/2020, do CNJ estabelece diretrizes e procedimentos sobre a cooperação judiciária nacional, destacando, em seus “considerandos”: art. 6º, CPC (cooperação); art. 37, da CF c/c art. 8º, CPC (eficiência); art. 5º, LXXVIII, CF (duração razoável do processo).
A. DOS SUJEITOS DA COOPERAÇÃO JUDICIÁRIA: “Art. 69, § 3º O pedido de cooperação judiciária pode ser realizado entre órgãos jurisdicionais de diferentes ramos do Poder Judiciário” . (i) Cooperação intrajudiciária - horizontal e vertical (envolve órgãos do mesmo ramo do Poder
Judiciário. Horizontal - se os cooperantes estiverem em um mesmo nível hierárquico. Vertical - se houver hierarquia entre os cooperantes. Favorece a delegação). (ii) Cooperação interjudiciária ou transjudiciária (envolve órgãos de diferentes ramos do Poder Judiciário, juízos vinculados a
ramos distintos do PJ, favorece a solicitação e o ato concertado). (iii) Cooperação interinstitucional (envolve órgãos estranhos ao Poder Judiciário, exp.: entre o Poder Judiciário e o MP, OAB, DPE. Resolução 350/CNJ e a “Cooperação Interinstitucional”. Favorece a solicitação e o ato
concertado: “Art. 16. A cooperação interinstitucional poderá ser realizada entre quaisquer instituições, do sistema de justiça ou fora dele, que possam contribuir para a execução da estratégia nacional do Poder Judiciário, promover o aprimoramento da administração da justiça, a celeridade e a
efetividade da prestação jurisdicional, dentre as quais: I – Ministério Público; II – Ordem dos Advogados do Brasil; III – Defensoria Pública; IV – Procuradorias Públicas; e V – Administração Pública”). Forma desburocratizada de solicitar atos de cooperação judiciária entre os órgãos do Judiciário.
B. DOS ATOS DE COOPERAÇÃO JUDICIÁRIA: “Art. 68. Os juízos poderão formular entre si pedido de cooperação para prática de qualquer ato processual” . Atos de comunicação processual, instrutórios, decisórios, troca de informações, entre outros. Tudo isso buscando mais eficiência na
administração da justiça, efetividade e duração razoável do processo. O CPC/73 trazia manifestações desse dever de cooperação, de forma muito tímida, restrita, quando tratava das cartas. Agora, o NCPC amplia a tratativa do tema, criando inúmeras novas formas e técnicas de cooperação
judiciária. “Art. 69. O pedido de cooperação jurisdicional deve ser prontamente atendido, prescinde de forma específica e pode ser executado como: I - auxílio direto; [...] II - reunião ou apensamento de processos; III - prestação de informações; IV - atos concertados entre os juízes cooperantes”.
C. DA COOPERAÇÃO POR “ATOS CONCERTADOS” (cooperação interjuduciária e interinstitucional): ideia de um acordo, um concerto entre órgãos judiciários para a prática de certos atos. Alguns entendem que os atos concertados são um negócio jurídico entre juízos, disciplinando,
especialmente, uma relação permanente entre eles, para a prática de um número indeterminado de atos ou atos complexos. Exp.: a deliberação consensual entre juízo trabalhista e de falência para tratar a respeito da liquidação dos créditos da empresa. A nosso ver, o ato concertado
parece se enquadrar perfeitamente na categoria dos negócios jurídicos processuais: são convenções entre juízes a respeito do procedimento judicial ou da gestão de processos, celebradas de forma atípica, sem depender de uma específica previsão legal. Atribui-se liberdade aos magistrados
para, de forma fundamentada, objetiva e imparcial, modular o processo judicial com vistas a concretizar o princípio da eficiência . Art. 69, § 2º - Os atos concertados entre os juízes cooperantes poderão consistir, além de outros, no estabelecimento de procedimento para: a prática de citação,
intimação ou notificação de ato (exp.: atos concertados que estipulam citação/intimação única, para vários processos, de um litigante habitual. Aqui podemos, inclusive, ter uma cooperação entre juízos de esferas distintas , como no caso de uma concertação entre um juízo estadual e um juízo
trabalhista); a efetivação de tutela provisória e execução de decisão jurisdicional (Enunciado 688, FPPC. Por ato de cooperação judiciária, admite-se a definição de um juízo para a penhora, avaliação ou expropriação de bens de um mesmo devedor que figure como executado em diversos
processos, inclusive que tramitem em juízos de competências distintas); a efetivação de medidas e providências para recuperação e preservação de empresas e a facilitação de habilitação de créditos na falência e na recuperação judicial (exp.: compartilhamento de equipe de servidores para
eventual mutirão e facilitar o processamento da habilitação desses créditos); a centralização de processos repetitivos (a concertação/ato concertado permite que tenhamos a centralização em determinado juízo para, por exemplo, decidir questões de fato que sejam repetitivas em vários
processos. Nada obsta que, nesses casos, os juízos cooperantes, por ato concertado, centralizem a decisão num único juízo); a obtenção e apresentação de provas e a coleta de depoimentos (hipótese de conexão probatória entre causas [individuais ou coletivas], em que se permite pela
concertação a produção de prova única sobre fato comum, que será servível a vários processos depois de produzida, exp.: acidente entre dois ônibus, com diversos feridos. No caso, todos os prejudicados podem ajuizar demandas em face das empresas de transporte público, por exemplo. A
colheita de prova de determinada testemunha, então, poderia ser feita de forma conjunta, em vez de se exigir da testemunha o comparecimento em juízo para prestar o mesmo testemunho diversas vezes. É medida de racionalização da atividade jurisdicional, reduzindo custos da produção da
prova, favorecendo a duração razoável do processo. CUIDADO! Prova única ≠ prova emprestada. A prova única é produzida com participação dos juízos cooperantes, em conjunto. Quanto à prova emprestada, um único juízo produz a prova sem interferência de qualquer outro órgão) .
Enunciado 05, FPPC. O pedido de cooperação poderá ser realizado também entre tribunais arbitrais ou árbitros(as) e o Poder Judiciário.
VI. Limites da jurisdição nacional – art. 21 a 25 CPC: princípio da efetividade - determina que a justiça brasileira só deva se considerar competente para julgar demandas cuja decisão gere efeitos em território nacional ou em Estado estrangeiro que reconheça tal decisão, tornando assim sua
atuação sempre útil e teoricamente eficaz. As limitações dos arts. 21 a 23 do CPC traçam objetivamente os limites da jurisdição dos tribunais brasileiros, e não somente sua competência.
A. COMPETÊNCIA INTERNACIONAL CONCORRENTE: causas que podem ser julgadas tanto no Brasil quanto em outro país e, se forem julgadas em outro país, o Brasil poderá homologar a sentença proferida por intermédio do STJ. Alguns falam em “jurisdição brasileira concorrente”. Caso a
demanda tramite em país estrangeiro, a questão da competência não será obstáculo para a homologação da sentença estrangeira perante o STJ. “Art. 21. Compete à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações em que: I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver
domiciliado no Brasil; c/c Parágrafo único. Para o fim do disposto no inciso I, considera-se domiciliada no Brasil a PJ estrangeira que nele tiver agência, filial ou sucursal; II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação; III - o fundamento seja fato ocorrido ou ato praticado no Brasil. Art. 22.
Compete, ainda, à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações: I - de alimentos, quando: a) o credor tiver domicílio ou residência no Brasil; [ou] b) o réu mantiver vínculos no Brasil, tais como posse ou propriedade de bens, recebimento de renda ou obtenção de benefícios
econômicos [exp.: credor está no Brasil, devedor no exterior. Se eventualmente esta execução tiver que ser realizada no exterior, compete à autoridade judiciaria brasileira julgar a ação de alimentos]; II - decorrentes de relações de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou
residência no Brasil [a fixação da competência internacional concorrente para as ações de consumo é valiosa, em especial nas relações de consumo firmadas pela internet, pois prestigia o consumidor perante um mercado de consumo complexo e sem fronteiras
diplomáticas]; III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional [aqui, fala-se na chama “Cláusula de eleição de jurisdição”, vez que nada obsta que dois estrangeiros celebrem um determinado negócio e estipulem no contrato essa cláusula, sendo, nesse
caso, a jurisdição brasileira competente para processar e julgar aquela demanda, sem exclusão de autoridades judiciárias estrangeiras quanto ao seu julgamento]”.
OBS.: A “CLÁUSULA DE ELEIÇÃO DE FORO ESTRANGEIRO” (ART. 25) - para as hipóteses de competência concorrente, o art. 25 permite que as partes convencionem que determinada demanda será julgada em país estrangeiro. Nesses casos, a jurisdição brasileira não pode atuar, e se
uma das partes desrespeitar o pactuado, ajuizando a ação no Brasil, cabe ao réu alegar em sede de contestação o descumprimento à cláusula, gerando extinção do processo . “Art. 25. Não compete à autoridade judiciária brasileira o processamento e o julgamento da ação quando houver
cláusula de eleição de foro exclusivo estrangeiro em contrato internacional, arguida pelo réu na contestação”. STJ: Revela-se possível a eleição do foro estrangeiro, mediante cláusula prevista em "contrato de futebol" (contrato de patrocínio e cessão de uso de imagem), como competente para a
solução das controvérsias advindas do acordo - STJ, REsp 1.518.604/2016. “Art. 25. [...] § 1º Não se aplica o disposto no caput às hipóteses de competência internacional exclusiva previstas neste Capítulo. § 2º Aplica-se à hipótese do caput o art. 63, §§ 1º a 4º” . Cabe à autoridade judiciária
brasileira processar e julgar a ação de rescisão contratual em que os autores pactuaram contrato de adesão de prestação de serviços hoteleiros com sociedade empresária domiciliada em território estrangeiro e os autores domiciliados no Brasil - STJ, Info 769, REsp 1.797.109/2023.
Explicando esse Informativo, os autores celebraram um contrato com uma empresa mexicana, para hospedagem em um hotel em Cancun, elegendo o foro do México. O STJ reconheceu que o contrato era de adesão e que a cláusula era abusiva (relação de consumo).
B. COMPETÊNCIA INTERNACIONAL EXCLUSIVA: causas que somente podem ser julgadas no Brasil e, se forem julgadas em outro país, o STJ não poderá homologar a sentença estrangeira. Alguns falam em “jurisdição brasileira exclusiva”. Sentença estrangeira proferida em tais casos
não produz qualquer efeito no território brasileiro; será ato sem qualquer importância. Não há como homologá-la no país . “Art. 23. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra: I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil [qualquer ação que
tenha por causa de pedir temática relacionada a bem imóvel situado em território brasileiro, seja de caráter real ou pessoal, desde que relativamente a imóvel]; II - em matéria de sucessão hereditária, proceder à confirmação de testamento particular e ao inventário e à partilha de bens situados
no Brasil, ainda que o autor da herança seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional [o fato determinante aqui é a transmissão causa mortis de quaisquer bens situados no Brasil, ainda que o falecido seja estrangeiro ou tenha domicílio fora do Brasil]; III - em
divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha de bens situados no Brasil, ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional [esse inciso também cuida de partilha de bens situados no Brasil, mas não em virtude de
transmissão causa mortis, mas em virtude de divórcio, separação ou dissolução de união estável]”.
C. DA “LITISPENDÊNCIA INTERNACIONAL” ( art. 24): em caso de competência concorrente, o que ocorre se há 2 causas idênticas, uma tramitando no Brasil, e outra em país estrangeiro? Isso não impede o processamento da causa no Brasil: “Art. 24. A ação proposta perante tribunal
estrangeiro não induz litispendência e não obsta a que a autoridade judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas, ressalvadas as disposições em contrário de tratados internacionais e acordos bilaterais em vigor no Brasil” . O que haverá, nesse caso, é que
prevalecerá a que, em primeiro lugar, transitou em julgado. Havendo, em primeiro lugar, trânsito em julgado da decisão brasileira, não se admite a homologação da sentença estrangeira. Todavia, havendo, em primeiro lugar, trânsito em julgado da homologação da sentença estrangeira, ela
prevalecerá, devendo ser homologada no Brasil - “Art. 24. Parágrafo único. A pendência de causa perante a jurisdição brasileira não impede a homologação de sentença judicial estrangeira quando exigida para produzir efeitos no Brasil”. Caso haja notícia nos autos do processo brasileiro,
de que o STJ homologara sentença estrangeira sobre a mesma lide, o juiz deverá extinguir o processo brasileiro sem julgamento do mérito, reconhecendo a existência de coisa julgada estrangeira, caracterizada pelo acórdão do STJ que homologou a sentença estrangeira.
VII. Cooperação jurídica internacional (arts. 26 a 41 CPC): as regras e os princípios que disciplinam a cooperação jurídica internacional buscam ampliar o intercâmbio entre órgãos judiciários e administrativos, brasileiros e estrangeiros, trazendo técnicas de auxílio mútuo entre esses países,
por meio de medidas administrativas, investigativas e judiciais, colocando em prática as ideias de um chamado “Estado Constitucional Cooperativo. Vincula-se à ideia de “Estado Constitucional Cooperativo”. Tradicionalmente, quando se fala em cooperação internacional, pensa-se nos métodos
tradicionais das cartas rogatórias e homologação de sentenças estrangeiras. Eles não deixam de existir, mas o CPC/15 revisita essa concepção de cooperação internacional, estabelecendo inúmeras regras específicas e ampliando as formas de cooperação. A cooperação jurídica
internacional é baseada em tratados dos quais o Brasil seja parte ou, na sua falta, em PACTO DE RECIPROCIDADE que, podemos dizer, é um passo anterior ao da cooperação via tratado, em que outro país se compromete a atender pedidos de cooperação feitos pelo Brasil.
Esse pacto é feito pela via diplomática (no caso do Brasil, pelo Ministério das Relações Exteriores). Importante destacar a desnecessidade de pacto de reciprocidade para homologação de sentença estrangeira. Afinal, não parece fazer sentido introduzir uma discussão
político-administrativa entre países no procedimento homologatório. O que poderá haver, durante o processo de homologação, é a análise, pelo STJ, do atendimento às especificações da legislação brasileira.
A. NORMAS QUE REGEM A COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL: “Art. 26. A cooperação jurídica internacional será regida por tratado de que o Brasil faz parte e observará: I - o respeito às garantias do devido processo legal no Estado requerente [não viola a ordem pública brasileira o
compartilhamento direto de dados bancários pelos órgãos investigativos mesmo que, no Estado de origem, sejam obtidos sem prévia autorização judicial, se a reserva de jurisdição não é exigida pela legislação local - STJ, Informativo 695, AREsp 701.833/2021]; II - a igualdade de tratamento
entre nacionais e estrangeiros, residentes ou não no Brasil, em relação ao acesso à justiça e à tramitação dos processos, assegurando-se assistência judiciária aos necessitados [o art. 98 do CPC dialoga com essa norma, ao dispor que também a pessoa estrangeira, residente ou não no Brasil,
tem direito à gratuidade da justiça: art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei ]; III - a publicidade processual, exceto
nas hipóteses de sigilo previstas na legislação brasileira ou na do Estado requerente; IV - a existência de autoridade central para recepção e transmissão dos pedidos de cooperação [a autoridade central é o órgão interno responsável pela condução dos mecanismos de cooperação. Elo entre os
países, transmitindo e recebendo os pedidos de cooperação - um órgão de conexão, portanto. O Ministério da Justiça e Segurança Pública exercerá as funções de autoridade central na ausência de designação específica - podendo ser, designado, por exemplo, o MPF, a AGU, etc]; V - a
espontaneidade na transmissão de informações a autoridades estrangeiras” [a transmissão espontânea consiste na entrega de prova produzida em um Estado, a outro, ao qual se presume útil, sem que este último a tenha requerido anteriormente, por qualquer instrumento de cooperação
jurídica, via autoridade central]. Por fim, dispõe o art. 26, § 3º, que na cooperação jurídica internacional não será admitida a prática de atos que contrariem ou que produzam resultados incompatíveis com as normas fundamentais que regem o Estado brasileiro.
B. ATOS PASSÍVEIS DE COOPERAÇÃO: “Art. 27. A cooperação jurídica internacional terá por objeto: I - citação, intimação e notificação judicial e extrajudicial; II - colheita de provas e obtenção de informações; III - homologação e cumprimento de decisão; IV - concessão de medida judicial de
urgência; V - assistência jurídica internacional (que é o apoio jurídico dado a brasileiros no exterior e, no Brasil, a estrangeiros) ; VI - qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira” . Um dos pontos mais importantes dentro desse tema é a compreensão acerca do
auxílio direto (arts. 28 a 34). Segundo o art. 28 do CPC, cabe auxílio direto quando a medida não decorrer diretamente de decisão de autoridade jurisdicional estrangeira a ser submetida a juízo de delibação no Brasil. O auxílio direto é uma técnica de cooperação internacional para
situações em que não se requer o cumprimento de uma decisão no Brasil, mas, apenas, uma assistência jurídica . P. exp.: um órgão do Judiciário dos EUA solicitando ao Brasil informações sobre um processo em curso . Por não se tratar de pedido de cumprimento de decisão,
dispensa a intervenção do STJ, com o juízo de delibação, que é a análise dos aspectos formais da decisão . Juízo de delibação é um juízo superficial sobre a legalidade de um ato, sem, contudo, adentrar no exame de mérito. Os pedidos são feitos diretamente entre as autoridades
centrais dos países (a requerimento de órgãos judiciários, administrativos, MP, etc.). O atendimento, ou não, desta depende da legislação do Estado requerido. O Estado estrangeiro não se apresenta na condição de juiz, mas de administrador. Não encaminha uma decisão judicial a ser aqui
executada, mas solicita assistência para que, em território nacional, sejam tomadas as providências necessárias à satisfação do pedido. Cabe à autoridade central brasileira (MJSP - Ministério da Justiça e Segurança Pública) comunicar-se-á diretamente com suas congêneres e, se necessário,
com outros órgãos estrangeiros responsáveis pela tramitação e pela execução de pedidos de cooperação enviados e recebidos pelo Estado brasileiro, respeitadas disposições específicas constantes de tratado. No caso de auxílio direto para a prática de atos que, segundo a lei brasileira, não
necessitem de prestação jurisdicional (p. exp., pedidos feitos por outros países relacionados a prestação de informações a órgãos da administração pública, bolsa de valores, empresas privadas, etc.), a autoridade central adotará as providências necessárias para seu cumprimento. Se, por
outro lado, o pedido de cooperação jurídica internacional vindo de outro país depender de prestação jurisdicional (pedido de auxílio direto passivo, portanto), a autoridade central o encaminhará à AGU, que requererá em juízo a medida solicitada (já que a autoridade central
não tem capacidade postulatória). Se o MP porventura tiver sido designado como autoridade central, ele requererá em juízo a medida (já que tem capacidade postulatória) . O art. 34 dispõe que compete ao juízo federal do lugar em que deva ser executada a medida apreciar pedido
de auxílio direto passivo que demande prestação de atividade jurisdicional. Não confundir pedido de auxílio direto passivo com carta rogatória: (i) Auxílio direto passivo – arts. 28-34 CPC (há um pedido de assistência do Estado alienígena diretamente ao Estado rogado, para que este preste
as informações solicitadas ou provoque a Justiça Federal para julgar a providência requerida, conforme o caso concreto. Dispensa juízo de delibação – verificação dos elementos da decisão que permitem sua execução no país. É uma forma mais célere e eficiente de cooperação entre os
Estados. Tem como fonte tratado, convenção internacional ou reciprocidade). (ii) Carta rogatória passiva (há decisão judicial oriunda da Justiça rogante que precisa ser executada e cumprida no Estado rogado, cabendo ao STJ o juízo de delibação, sem, contudo, adentrar-se no mérito da
decisão oriunda do País estrangeiro. Exige juízo de delibação – para verificar se decisão estrangeira não ofende soberania e outros elementos. É procedimento contencioso que exige participação das partes em pleno contraditório., todavia a cognação é limitada ao juízo de delibação. Autoridade
brasileira poderá negar caso verifique ferimento à ordem pública – art. 39, ou as normas fundamentais que regem o Estado brasileiro – art. 26, § 3°. Tem como fonte tratado, convenção internacional ou reciprocidade – promessa de tratamento igualitário entre as nações, art. 26, §1 °). (iii)
Homologação de decisão estrangeira – arts. 960-965 CPC (visa dar eficácia de título executivo às decisões judiciais definitivas proferidas no estrangeiro. Exige juízo de delibação. Não é necessário que haja tratado, convenção ou reciprocidade prevendo o instituto – art. 26, § 2°. A
homologação de decisão estrangeira e a concessão de exequátur à carta rogatória são de competência do STJ, art. 105, I “i” CF). O procedimento da carta rogatória perante o STJ é de jurisdição contenciosa e deve assegurar às partes as garantias do devido processo legal, devendo a defesa
restringir-se-á à discussão quanto ao atendimento dos requisitos para que o pronunciamento judicial estrangeiro produza efeitos no Brasil, sendo, em qualquer hipótese, vedada a revisão do mérito do pronunciamento judicial estrangeiro pela autoridade jurisdicional do BR- art. 36
CPC.
OBS.: DISPOSIÇÕES COMUNS ÀS NORMAS ANTERIORES (ARTS. 37 A 41) – (i) Auxílio direito ativo - feito pelo Brasil para outro país (o pedido de cooperação jurídica internacional oriundo de autoridade brasileira competente será encaminhado à autoridade central [MJSP] para
posterior envio ao Estado requerido para lhe dar andamento. Nesses casos, o pedido e os documentos que o instruem serão encaminhados à autoridade central acompanhados de tradução para a língua oficial do Estado requerido). (ii) Pedido passivo de cooperação jurídica internacional (o
Brasil poderá recusá-lo se configurar manifesta ofensa à ordem pública. A cooperação jurídica internacional para execução de decisão estrangeira dar-se-á por meio de carta rogatória ou de ação de homologação de sentença estrangeira - art. 960 CPC. Considera-se autêntico o documento que
instruir pedido de cooperação jurídica internacional, inclusive tradução para a língua portuguesa, quando encaminhado ao Estado brasileiro por meio de autoridade central ou por via diplomática, dispensando-se ajuramentação, autenticação ou qualquer procedimento de legalização).