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Velvet Ed.17

A edição 17 da Velvet destaca trajetórias inspiradoras de personalidades como Kaká, Luciana Sagioro e Olivier Anquier, que perseguem objetivos claros em suas vidas e carreiras. O documento também celebra a arte e a cultura, com homenagens a Milton Nascimento e reflexões sobre a importância da presença e da conexão humana em um mundo dominado pela tecnologia. Além disso, oferece dicas de viagens e práticas esportivas que promovem um estilo de vida mais consciente.

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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Velvet Ed.17

A edição 17 da Velvet destaca trajetórias inspiradoras de personalidades como Kaká, Luciana Sagioro e Olivier Anquier, que perseguem objetivos claros em suas vidas e carreiras. O documento também celebra a arte e a cultura, com homenagens a Milton Nascimento e reflexões sobre a importância da presença e da conexão humana em um mundo dominado pela tecnologia. Além disso, oferece dicas de viagens e práticas esportivas que promovem um estilo de vida mais consciente.

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MAI/JUN 2025 EDIÇÃO 17

Kaká
Olivier Anquier
Luisa Strina
Milton Nascimento
Alex Hanazaki
Alcione Albanesi
Gregory Bousquet
Ornella Maggi
Pedro Barbosa
Lenny Niemeyer
Luciana Sagioro
Marcella Tranchesi
Francisco Bosco
“Suspender o céu é ampliar
os horizontes de todos,
não só dos humanos”
Ailton Krenak

17
Estamos no
Instagram
velvet.brasil Velvet é uma publicação
Carta do Christian

©BRUNO RONDINELLI

Aos 18 anos, Kaká sonhava em chegar à elite


do futebol, quando um acidente ameaçou
interromper tudo. O que poderia ter sido um
revés definitivo acabou por revelar as virtudes
que definiriam sua trajetória. Depois do susto,
ele mirou longe, traçou metas ambiciosas e, com
a disciplina que o mundo conheceu, alcançou
cada uma delas. Em 2007, foi eleito o melhor
jogador do planeta. Atualmente, como contou
na conversa que tivemos na Casa Vivo, sua
prioridade é estar com a família.
A bailarina Luciana Sagioro também olhou no
horizonte e colocou o propósito de ser a melhor
logo na infância. Para chegar aonde queria, aos
9 anos de idade convenceu a mãe a apoiar uma
mudança para o Rio de Janeiro em busca de
formação. Hoje, aos 19, é a única brasileira e uma
das principais bailarinas da Ópera de Paris.
Carta do Christian

Outras trajetórias nesta edição também


têm alvos bem definidos. Olivier Anquier quer
valorizar o centro de São Paulo e a matéria-
prima brasileira; Luisa Strina soube desde cedo
que seu chamado era a arte; Francisco Bosco
mira o futuro que deseja para os filhos e faz
disso pauta de debate público.
Lenny Niemeyer, Alex Hanazaki e Greg
Bousquet equilibram em seus trabalhos a
modernidade e a presença da natureza — seja
na mata nativa que emoldura o concreto ou nas
fibras naturais que compõem maiôs. Celebramos
também Milton Nascimento, merecedor de
tantas homenagens neste 2025. Sua entrega
quase espiritual à música e às parcerias encanta
o Brasil e o mundo.
Por fim, reforçamos o convite a uma vida
com mais presença e menos telas. Nesta edição,
mostramos como a tecnologia pode aprimorar a
prática esportiva e sugerimos quatro ilhas para
viver o verão europeu em ritmo de slow travel.
Aproveite a leitura,

Christian Gebara, CEO da Vivo


Sumário

Edição 17: Horizontes

11
Kaká conversa
com Christian
Gebara

30 40
O dom e a certa Alcione Albanesi
magia de Milton tem pressa em
Nascimento transformar

49 54
Olivier Anquier Alex Hanazaki
requalifica grandes projetos,
o centro raízes profundas
Sumário

Edição 17: Horizontes

61 68
Lenny Niemeyer A elegância do afeto
Da praia para casa de Marcella Tranchesi

77
Francisco Bosco
Refletir para melhorar o mundo

84 93
Mais tech, Luciana Sagioro
mais potência
O Jenga de determinação
no esporte
Charles Fadel na ponta
Sumário

Edição 17: Horizontes

98
A arquitetura sustentável
de Greg Bousquet

106 114
Luisa Strina Arte com conceito
meio século na arte de Pedro Barbosa

119
Para se perder e se encontrar
no verão europeu
Nesta edição

Velvet é

KAKÁ OLIVIER ANQUIER


Exemplo de bom Há décadas no Brasil,
comportamento por onde o padeiro que vive
passa, o jogador conta como fez empreendendo requalifica o
planos ainda na adolescência centro de São Paulo e garante
e realizou um por um. Hoje, que usar matéria-prima
o objetivo é ter tempo de brasileira é primordial para a
qualidade com a família. qualidade de seus produtos.

LUISA STRINA MILTON NASCIMENTO


Com uma longa trajetória no O cantor e compositor vive
mundo dos colecionadores de um 2025 de homenagens,
arte, ela conta o que mudou na com enredo na Portela e
compra e venda de obras nos lançamento de documentário.
últimos tempos, além de mostrar Sua história evidencia a
sua casa-museu para Velvet. importância dos amigos.
Nesta edição

Velvet é

GREG BOUSQUET LENNY NIEMEYER


Uma turma de amigos no A estilista símbolo da moda
Brasil ajudou Greg Bousquet a praia com DNA carioca
fazer sua rota. Ele transformou descreve como seus interesses
o jeito de desenhar os projetos mudaram nos últimos tempos.
que reintegram natureza e Saem grandes festas, fica a
modernidade com impacto mulher mais caseira, mas
visual único. cheia de projetos profissionais.

FRANCISCO BOSCO LUCIANA SAGIORO


O intelectual fala sobre a criação A bailarina decidiu ainda na
dos filhos e como entende a infância que brilharia nos
importância da paternidade lugares mais altos do ballet
para trabalhar e viver melhor, mundial. Hoje, aos 18 anos, é
e as origens de seu senso de a única brasileira que dança
urgência em transformar o na ópera de Paris — e ainda
mundo para as crianças. quer mais.
Kaká
conversa com
Christian Gebara
FOTOS LOIRO CUNHA
O jogador que é símbolo de bom comportamento
no mundo conta como estipulou objetivos ainda
na adolescência e realizou um por um. Hoje, o
objetivo é ter tempo de qualidade com a família

E
le nasceu em Brasília e veio fazer história em São Paulo
só com 7 anos. Ídolo em todos os continentes, tudo que
Kaká diz carrega o exemplo de comportamento no
futebol mundial. A vontade de ser uma pessoa melhor está no
profundo respeito pelo adversário, na maneira como vê os
triunfos e também nos períodos difíceis da carreira, além do
modo como prioriza a família neste momento de vida. Valores,
aliás, que ele aprendeu desde cedo em casa. “Nunca tive
orgulho de dizer que resolveria tudo. Dizia que ia dar meu
melhor. E fui me destacando”, ele conta com a humildade
característica.
O garoto que no começo de carreira traçou dez metas para
sua trajetória profissional — e cumpriu cada uma delas —,
continua muito fiel a seu projeto de vida. Hoje, garante que
recusa as propostas de empregos em gestão no futebol para
ficar com os quatro filhos, de 2 a 16 anos, se interessa por
educação, gosta mais de ajudar as instituições do que falar
sobre isso e reconhece a importância da religião em tudo que
aconteceu em sua vida.
Sair dos gramados, entretanto, não quer dizer sair dos
esportes. Pelo contrário: a aposentadoria abriu uma porta
para os esportes radicais que ele relata nessa conversa que
tivemos durante um almoço na Casa Vivo, em São Paulo.

“Com 17 anos, eu terminei o colégio, e aí falei para


eles: ‘me deem um ano para eu tentar ser jogador
profissional. Se eu não conseguir, no ano seguinte eu
me matriculo e vou fazer universidade’. Naquele ano,
eu acabei subindo para o profissional.”
Kaká, você carrega uma força familiar em toda a carreira.
Além de você, seu irmão Digão jogava futebol, seu primo Higor
Leite também. Dá para dizer que era um esporte de família?
Meu pai chegou a jogar um pouco de futebol, mas nunca
incentivou a sermos jogadores. Porém, vários seguiram
carreira. Eu, meu irmão, outro primo, o Eduardo, que também
foi jogador profissional, jogou no Botafogo e fora do Brasil, e o
Higor, que está jogando também. Até os 4 anos em Brasília,
não tive contato nenhum com futebol. Em Cuiabá, participei de
um jogo de crianças. Mas a aproximação real com o esporte foi
quando cheguei em São Paulo.

Foi aí que perceberam que você tinha um talento diferente?


Entrei no Colégio Batista Brasileiro, em São Paulo, e o
professor de educação física teve essa sensibilidade. Ele
chamou a minha mãe e falou: “Olha, seu filho é diferente dos
outros alunos”. Ela procurou uma escolinha de futebol perto de
casa e eu comecei a jogar.

E é diferente jogar por lazer e se dedicar


profissionalmente…
Fiquei sócio do São Paulo e treinava lá, no social. Passei por
todas as categorias. Comecei a jogar na base com uns 12 anos.
E já tinha uns 15 anos quando decidi lutar para ser um jogador
profissional. Aí já ficou um pouco mais sério.

Você já se destacava?
Mais ou menos, porque eu tinha 2 anos de atraso na idade
óssea. Era muito pequeno em relação aos outros meninos,
meu desenvolvimento foi muito tarde. Tinha muita vontade,
amava o futebol, mas acabava jogando muito pouco. O São
Paulo também começou a fazer um trabalho comigo de
desenvolvimento com endocrinologista e fisiologista. Foi só
com 15, 16 anos que entrei na fase do estirão.

E aos 18 você teve um acidente bem sério, não foi? Como foi
isso?
Eu já estava no Sub-20, que é a última categoria antes de
chegar no profissional, e era titular da equipe do São Paulo.
Mas em um final de semana, tomei o terceiro cartão amarelo e
fiquei suspenso. Nossos avós paternos moravam em Caldas
Novas e fomos passar o fim de semana com eles. Eu e meu
irmão estávamos brincando em um toboágua. Desci de frente
e bati a cabeça no fundo da piscina. Meu pescoço virou e na
radiografia apareceu que eu havia fraturado a sexta cervical.
Eu estava prestes a ser jogador profissional. Perguntei para o
médico quando poderia voltar a jogar e ele disse que não era
dia de questionar e, sim, de agradecer. Eu entendi a gravidade
da lesão: na maioria dos acidentes de piscina, a pessoa não
volta a andar. Fiquei dois meses parado. Quando voltei, fui
para o banco. Mas quem diria: foi bem isso que me deu uma
oportunidade no profissional.

Como foi essa história?


Foi muito bom, porque o time profissional estava entrando
no Torneio Rio-São Paulo. Já o Sub-20 disputava a Copa São
Paulo. Mas o treinador do profissional pediu alguns atletas
do Sub-20 para compor o elenco. Meu técnico enviou um
atacante titular, mas disse que mandaria um meia reserva.
Era eu. Fui, fiz o treino, joguei no profissional e não voltei
mais. Foi incrível!

O técnico Carlos Alberto Parreira disse que um jogador


como Kaká surge a cada 20, 30 anos. Carlo Ancelotti falou
que você demonstrava um talento excepcional e tinha um
perfil diferente dos brasileiros. Como você se descreveria?
Essa declaração do Parreira, em 2001, foi muito boa para mim.
Ele era treinador do Inter na época e o São Paulo venceu o
jogo. No fim, foi um incentivo para que depois eu pudesse ser
convocado para a Copa do Mundo de 2002. Ancelotti foi meu
treinador por seis anos no Milan. Ele realmente tem essa
habilidade de liderar, gerir e conviveu com vários brasileiros
em clubes e ambientes diferentes. Acho que eu respeitava os
horários, a hora de dormir, de me alimentar. Brasileiros talvez
gostassem um pouco mais de festa e eu sempre fui muito
regrado e disciplinado.
E foi esse jeito de ser que o fez traçar as suas famosas dez
metas? E você foi cumprindo as dez…
Dei uma entrevista para a Revista Placar em 2001 em que listei
as dez metas. Queria subir para o time profissional do São
Paulo, me firmar como titular, jogar na Seleção Brasileira… e fui
cumprindo cada uma delas. A última era jogar em um grande
clube europeu. Aconteceu em 2003, quando fui para o Milan.

Como foi viver essa transferência e mudar de país aos 21


anos? Conta um pouco dessa fase.
Foi muito legal essa transferência. Eu vivia um momento não
tão bom no São Paulo, mesmo sendo um dos protagonistas
daquele time, na época. Me destaquei na Seleção, na Copa
Ouro, no México, em 2003, e isso me abriu o mercado europeu.
Vieram algumas propostas, entre elas a do Milan. O São Paulo
não queria, achou que o valor era baixo e não estava muito
disposto a vender, mas eu pedi para o presidente para ser
vendido. Eles aceitaram e fiquei seis temporadas na Itália.

Esse tempo todo com Ancelotti. Ele foi o grande técnico da


sua carreira?
Foi o grande treinador da minha carreira, porque foi quem me fez
performar da melhor maneira possível. Extraiu o meu melhor.

Como foi o período de adaptação com os jogadores


brasileiros?
Era um momento de muitas emoções. Tinha a alegria de estar
realizando um sonho e o medo do que iria acontecer. Fiquei
seis meses sozinho antes de minha família chegar e os
brasileiros foram fundamentais. Cafu, Serginho, Dida,
Leonardo, Rivaldo, Roque Júnior. Cafu me adotou. Tudo o que
ele ia fazer, me ligava e falava: “Ó, estou saindo para jantar”. O
pessoal me ajudou muito nesse período de adaptação.

“Eu não consigo desvincular o fato de ter ganhado o


prêmio de melhor do mundo das conquistas coletivas.
O time do Milan era muito forte, o treinador era muito
bom. Foi um pacote que me empurrou para o prêmio.”
No encontro na Casa
Vivo, Kaká e o irmão,
Digão, recebidos por
Christian Gebara

Esse time era cheio de estrelas. Como você se sentiu ao


chegar lá?
Escutei isso do presidente do São Paulo. “Você sabe quem joga
lá na sua posição?” Era o Rivaldo e o Rui Costa. Os caras
tinham acabado de ganhar a Champions League. Ele falou:
“Você vai para lá para ficar no banco para esses caras. É isso
mesmo que você quer?” Era, porque, no mínimo, eu
aprenderia muito com eles. Quando eu cheguei, tive minhas
primeiras oportunidades já nos primeiros dias.

O assédio da mídia mudou muito, imagino.


Com toda visibilidade do futebol italiano…
É um outro patamar de tudo. De crítica, de pressão, de
responsabilidade. Mas eles são fanáticos por futebol,
atenciosos, gentis… Claro que dia de derrota não é dia de sair
de casa em nenhum lugar do mundo. Mas quando ganha, aí
você sai, vai jantar...
Vamos falar um pouco de Seleção. Qual a diferença entre
jogar na Seleção e jogar em um clube? Em 2006 e 2010, você
foi para a Copa, mas jogava no Milan e no Real Madrid…
É difícil o treinador da Seleção conseguir colocar uma filosofia,
uma cultura e um estilo de jogo em tão pouco tempo. Esse é o
grande desafio. A vantagem é que são os melhores,
extremamente talentosos. A afinidade vem do fato de o
jogador já saber mais ou menos como outro joga, ter sintonia e
leitura mesmo sem o falar. E a grande vontade de estar
representando seu país, isso é muito legal.

Para um jogador, realmente é o ápice da carreira ganhar


uma Copa do Mundo?
Realmente. A nata do futebol está naquele evento de quatro
em quatro anos. A Copa do Mundo é muito especial.

E por que que a gente está nessa situação em que


estamos hoje? Qual sua visão sobre esses 20 anos sem
título mundial?
Acho que tem alguns fatores. Um deles é o momento que a
gente vive. Na minha época, quando tinha jogo da Seleção, só
tinha isso. Hoje a partida compete com o mundo — sejam
eventos ou filmes. Outro ponto é que os atletas hoje no Brasil
saem cada vez mais cedo para jogar fora. Se pudéssemos
segurar um pouquinho mais os atletas aqui para criar uma
identificação com a torcida, isso favoreceria também. Outra
questão é que desde 2002 não temos os resultados que
esperam. Precisamos melhorar em muitas coisas, mas acho
que a nossa seleção vai ser sempre uma das grandes favoritas
para ganhar a Copa do Mundo.

Você acha que com essa conjunção de fatores que você


citou, os jogadores ainda se sentem orgulhosos de serem
convocados?
A sensação que eu tenho é que sim. Porque você não vê
ninguém fazendo corpo mole para não ir. Todo mundo sempre
fica muito feliz e alegre de estar sendo convocado. Um exemplo
é o Cristiano [Ronaldo], em Portugal, com 40 anos querendo ir
para mais uma.
Como foi a decisão de trocar o Milan pelo Real Madrid em
um contexto vitorioso na Itália?
O Silvio Belusconi [dono do Milan] tinha uma política no clube
de não vender jogador. Em 2009, o Manchester City fez uma
proposta para o Milan e é a primeira vez que o Milan abre a
possibilidade de vender. Como a proposta era muito boa, a
decisão final veio pro meu colo e recusei. Seis meses depois,
vieram mais propostas. Eu falei que o clube que eu gostaria de
jogar era o Real Madrid.

E por quê?
Ah, o Real Madrid tem um apelo muito grande. Desde
brasileiros que já jogaram lá, a história do clube, do estádio…
Tudo que envolve o Real Madrid é muito grande.

Como foi a mudança para o Real?


Eu já tinha o Lucas, que nasceu em 2008. E a Isabella nasceu no
Brasil, quando eu já jogava na Espanha. No Real tive uma fase
mais difícil. Era a formação desse time vencedor que ganhou
tudo: no mesmo ano eu, Cristiano Ronaldo, Benzema, Xabi
Alonso, o Marcelo já estava, Sergio Ramos também… No meu
primeiro ano, no final da temporada, me lesionei. Fui para a
Copa de 2010, voltei e fiz uma cirurgia no joelho. Parei seis
meses. Minha grande dificuldade no Real foi a continuidade.
Seja no começo por lesão, seja depois por escolha do treinador.

O fato de o elenco ser mais competitivo influenciava nisso?


Uma das coisas que eu mais acho legal no esporte de alto
rendimento é que essa competição é o jeito de melhorar. Para
mim, foi uma grande descoberta. Eu não via meu oponente
como um inimigo. Isso me fazia crescer e tentar fazer
diferente e melhor.

A mídia espanhola é muito rigorosa. Como você lidou com isso?


É tudo muito exponencial lá. Fui capa do jornal Marca várias
vezes de maneira bem hostil. Decidi não ver mais nada.
Naquela época, estavam surgindo redes sociais também. A
única forma de administrar era não vendo, porque não tinha
como não ser afetado e impactado de alguma forma.
Isso deve ir minando a confiança do atleta. A cabeça deve
ficar se questionando o tempo todo…
Foi um período emocional bem intenso para mim. Porque eu
saí de uma situação em que era o melhor do mundo, o cara,
para uma situação em que era uma das piores contratações de
um dos maiores clubes do mundo, da história. Entra a questão
de identidade. Mas quem eu sou aqui? Tive muito apoio dos
meus familiares. Eles sempre foram muito parceiros em todos
os momentos. Fiquei quatro anos lá, até 2013. Foi uma
experiência incrível. Tinha na minha cabeça que daria certo,
sabe? Eu lutava muito por aquilo ali e relutava em sair. Até
que, em 2013, eu queria muito estar apto para disputar a Copa
do Mundo no Brasil. Me disseram que ia ficar mais difícil para
mim ser titular no Real. Falei que não era isso que eu queria. E
aí decidi voltar para o Milan. Eu precisava voltar para um
lugar onde eu pudesse errar. No Real Madrid, o limite da
tolerância ao erro é muito pequeno.

No seu auge, no Milan, parecia que as coisas saíam no


automático, sem pensar muito. O corpo tem uma resposta
rápida. No Real, a sensação que dá é que tem mais
pensamento e um pouquinho de confiança a menos. Faz
sentido?
É exatamente essa diferença entre o jogador jovem e o mais
experiente. A maioria dos grandes gols da carreira é antes da
maturidade, na intuição de pegar a bola, ir embora e fazer o
que dá. Quando se tem um pouco mais de entendimento do
jogo e experiência, raciocina mais — eu dominava a bola,
levantava a cabeça e fazia a conta de quantos zagueiros
tinham lá.

Mas mesmo assim o saldo do período na Espanha foi um


sucesso. Por quê?
O sucesso que eu tive lá é institucional. Mais pelo meu
comportamento do que pela minha performance. Até hoje,

“Os gols mais bonitos que eu fiz na minha carreira, que


são as arrancadas, foram quando eu era mais jovem,
quando não calculava muito a estratégia.”
recebo convite para jogar no Real Madrid Legends, que é o jogo
dos ex-atletas do Real Madrid. Até questionei. Segundo eles,
sou considerado uma lenda do futebol, que jogou no Real
Madrid, mas sou convidado pelo meu comportamento ao
longo dos quatro anos no clube como excelente profissional.
Realmente nunca falei mal do Real ou reclamei de dor nos
treinos. O fato de ser convidado é uma grande conquista. Não
tive os resultados que eu gostaria de ter tido no Real Madrid
dentro de campo, mas ter esse reconhecimento fora vale
muito também. Fiz o meu melhor para ter os resultados em
campo, mas não foi o que eu gostaria.

Mesmo voltando para o Milan, você não foi convocado para


a Copa de 2014. Você se sentiu decepcionado?
Estava com 32 anos ainda. Em teoria, jovem. Fiz uma boa
temporada com o Milan, e achava que eu tinha condições de ir
para Copa em 2014. Mas o treinador optou por não me levar, e
não tenho sentimento nenhum de amargura. Toda vez que
encontro o Felipão, que era técnico naquele ano, eu sou muito
grato a ele por tudo o que ele fez por mim na Seleção. E eu
entendi que não era hora de ir mais. Decidi curtir a Copa no
meu país e no primeiro jogo da seleção lá em Itaquera, estava
dentro de campo fazendo uma entrada ao vivo com a Globo e
com o meu filho Luca.

O que você acha que vai ser essa Copa de 2026, com mais
seleções e mais países sede [a Copa será no México,
Estados Unidos e Canadá]?
Não vai ter nada igual à Copa do Catar para o público. Os jogos
aconteciam no mesmo lugar, em um raio de 60 km. Agora
vamos para uma Copa muito grande. Mas o Brasil vai entrar
como um dos favoritos, como sempre. E é esperar para ver um
pouco como será para o torcedor se deslocar.

Você também teve a fase em Orlando, que foi uma


mudança radical. Nos Estados Unidos daquele tempo tinha
menos fãs de futebol do que hoje em dia?
Eu vi essa transição acontecer e eu queria participar
daquilo. Foi uma escolha ver o crescimento do futebol
norte-americano. E eu gosto muito dessa parte de gestão.
Lá nos Estados Unidos, o modelo de liga é diferente de
qualquer outro lugar do mundo do futebol. Então eu queria
entender melhor como era participar desde a formação do
time, construção de estádio, montar um centro de
treinamento… a forma que eles enxergam o esporte em
geral como entretenimento, como experiência do torcedor.
O jogo é às 18h, mas às 14h eles vão para o estádio, abrem o
porta-mala no estacionamento, fazem churrasco, brincam
com a família. Viver essa cultura americana do esporte foi
muito legal.

Tanto que você continua com casa em Orlando, tem uma


conexão com a cidade...
Amo Orlando, é um lugar que sempre que eu posso, visito. É
uma das minhas cidades preferidas. Gosto dos lugares onde
morei: Madri e Milão também. Mas o latino em Orlando tieta
mais. Eu amava ir ao mercado, por exemplo, mas na Flórida eu
não conseguia por conta do assédio. Não dava para fazer
coisas mundanas como ir no pet shop escolher ração para o
cachorro, e eu gostava de fazer isso.

Você é um sucesso na Ásia, onde eu já testemunhei que


eles são fanáticos por futebol e pelos ídolos brasileiros.
Como é essa a relação?
O asiático ama futebol e consome o futebol europeu. Tem uma
base de fãs muito grande e foi uma surpresa a primeira vez em
que eu fui para lá. E hoje, na Arábia, Oriente Médio também. O
mercado abriu para o lado de lá e o contato com eles é muito
incrível, porque é totalmente diferente. Eles veem o futebol
como uma oportunidade da vida.

“No processo de lesão, você tem muita gente em seu


entorno. Mas é muito solitário. É um momento em que
só você sente seu corpo. Tem dias em que o joelho
está ótimo. No outro dia você acorda pensando: ‘não
vou conseguir jogar nunca mais, está doendo muito’.”
Kaká, você tem quatro filhos em idades diferentes [Luca
tem 16 anos, Isabella, 13, Esther, 4 e Sara, 2]. Como é a
paternidade para você?
É uma das maiores alegrias que eu tenho, sim. Eu considero
um trabalho, porque quero ter esse tempo com eles. Todas as
minhas decisões profissionais, hoje, partem dessa escolha de
estar presente na vida dos meus filhos. São desafios diferentes
para cada idade, mas é uma das coisas que eu mais gosto de
fazer. Estar com eles, conversar com outros pais, com
médicos, com as pessoas para tentar entender as fases,
ajudá-los a caminhar e a fazer boas escolhas.

E o Lucas joga futebol ainda por cima, não é? Dizem que o


estilo é muito parecido com o seu. É verdade?
É muito parecido. Não é igual. Não vou dizer que ele tem todo
talento, acho que isso já é uma grande responsabilidade. Mas
tem essa vontade e pensa muito no modelo americano de
estudar e jogar pela universidade. Torce para o São Paulo,
assiste aos jogos, está sempre falando. É um talento a ser
lapidado. A gente vai descobrir no futuro, mas o jeitinho é
igual, a corridinha e a passada.

Você tem 25 milhões de seguidores no Instagram. Como é


sua relação com o celular? Também vê isso como um
trabalho de ser ativo em redes sociais?
Eu entendi que isso pode ajudar e pode ser prejudicial. Quem
administra a maior parte disso é o meu irmão, Digão. Amo
tecnologia, ao mesmo tempo em que algumas coisas são
assustadoras, outras são bem práticas. Vejo séries, sigo pessoas,
empresas, influenciadores. Mas existe o desafio do equilíbrio.

Com as crianças também, não?


Com as crianças, muito mais. Equilibrar esse tempo não só de
tela, mas de tecnologia em geral com o tempo real, de
convívio, mais humano.

Você tem um trabalho social bem legal também e já atuou


no programa alimentar mundial da ONU. Qual sua
dedicação específica sobre causas sociais?
Com os quatro
filhos, a mulher,
Carolina, e a
mãe, Simone
Eu fui embaixador do Programa Alimentar Mundial da ONU
por muitos anos. Fiz uma opção pessoal de não criar minha
própria fundação e, sim, de ajudar as que já existiam. Mas
acabo falando pouco sobre isso porque eu prefiro atuar sem
comentar demais.

Você tem estudado gestão. Tem alguma meta relacionada


ao assunto?
No futebol, há três profissões imediatas: treinador, diretor e
empresário. Queria entender de outras áreas e ver o que gosto.
Fiz vários cursos: o da UEFA e da FIFA de gestão esportiva, um
curso de negócios no esporte em Harvard, o de treinador da
CBF. Foram 5 anos estudando. Gosto de gestão e poderia ser
dono de um clube, de uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol)
aqui no Brasil ou participar da direção esportiva. Mas acho que
não é agora. Minha grande dedicação de tempo hoje é para a
minha família, com os meus filhos e esposa. Atuo no mercado do
marketing esportivo, estou presente em eventos e, assim,
consigo não sacrificar o tempo em casa.

Chegam convites para trabalhos de gestão?


Muito. Eu tenho sempre o meu momento de oração, de
reflexão. Já recebi uns 30 convites nessa área. Para todos dei a
mesma resposta depois de pensar muito: vou recusar porque
quero dedicar o tempo à família.

Você falou agora sobre oração. A religião é algo importante


na sua vida?
Fundamental. Sempre foi, desde criança. Eu nasci num lar
cristão evangélico e meus pais fizeram essa transmissão dos
valores cristãos para os filhos. Só que chega um momento da
sua vida que você precisa ter as suas próprias experiências. E
aí aos poucos eu fui tendo as minhas experiências com Deus.
Consigo enxergar a mão de Deus na minha vida diariamente.

“É muito difícil esse momento de parar para um


atleta profissional. É muito tarde para o esporte,
mas muito cedo para a vida.”
Os esportes
de Kaká
“Eu amo esporte. Mas atuando no futebol profissional
por quase duas décadas, não podia praticar outras
modalidades. Quando me aposentei, corri para fazer
tudo o que tinha vontade.”

TÊNIS
“Comecei a jogar na
pandemia, para fazer
uma atividade que não
representasse risco de
contágio.”

BEACH TENNIS
“Foi o Digão que
me arrastou para o
beach. E a gente foi
vice-campeão de um
torneio!”.
GOLFE
“É um esporte muito incrível
por ser muito desafiador.
Vivemos um mundo hoje
tão acelerado e esse esporte
me obriga a desacelerar.
Não dá para jogar golfe
correndo. A concentração
ali é fundamental. É sentir,
parar, olhar, ver o vento, a
distância… Precisa ir devagar
para fazer bem feito.”

SKI
“Era uma coisa que eu tinha
muita vontade, mas sempre
ficava no pé da montanha,
tomando chocolate quente
e vendo o pessoal descer.
Comecei a praticar, finalmente,
e este ano foi nossa quinta
temporada de ski.”

MARATONA
“Corri por um tempo, fiz
a meia maratona do Rio
(que é uma prova linda) e a
Maratona de Berlim. Treinava
no Ibirapuera, Bruno Covas,
Parque do Povo e também
fazia musculação.”
O dom e a certa magia
MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO

de Milton Nascimento
TEXTO LUCIANA BUGNI
O cantor e compositor vem recebendo muitas e
merecidas homenagens em 2025. O segredo desse
talento parece ser deixar que a vida aponte o caminho
— como faz ao encaixar notas em melodias que seguem
encantando o mundo

P
aul Simon diz que Milton Nascimento tem a habilidade de
entender, a partir da música, seus próprios sentimentos.
Ivan Lins afirma que tudo mudou antes e depois do cantor.
Spike Lee garante que a voz dele é um instrumento único.
Esperanza Spalding revela que consegue sentir a natureza nas
letras. Steve Jordan reflete que o artista é a única pessoa que
canta assim. E é da América do Sul, como diz a canção. “Ele é o
jazz sul-americano”, dizia Quincy Jones. É o ouro, é Minas Gerais.
Esses são alguns dos depoimentos de peso no documentário
“Milton Bituca Nascimento”, da cineasta Flavia Moraes, lançado
neste 2025 e parte da onda de homenagens ao cantor desde a
turnê “A Última Sessão de Música”, que percorreu a Europa e
culminou em um grande show repleto de amigos no palco do
Mineirão, em 2022.
A trajetória do artista que nasceu no Rio e mudou-se ainda
pequeno para Três Pontas, em Minas Gerais, também foi
escolhida como tema da Portela no Carnaval de 2025. A
presença de Milton no último carro, apoteótico, subverte um
dos versos mais citados do cantor. O artista não precisa mais
ir aonde o povo está e é o povo que orbita em torno dele.
Na letra do samba, o aviso sobre a espiritualidade: “Na fé/
Que faz do artista entidade/ E sagradas as amizades”. A
concepção dos carnavalescos André Rodrigues e Antônio
Gonzaga trabalhava com o sensorial — optaram, por
exemplo, por não ter muitas imagens do cantor nas alas
porque é a música que toca as pessoas, impactando a memória
de quem já se emocionou com sua arte.

Mil tons geniais e a pausa


Tudo começou muito cedo na casa dos Nascimento. Lilia, sua
mãe adotiva, foi quem o apelidou de Bituca pela mania de
fazer bico quando contrariado. Ela amava Villa-Lobos. Seu
marido Zino, pai adotivo do futuro cantor, ficava enciumado
com a adoração ao compositor brasileiro e criticava a mulher,
dizendo que era melhor ouvir Chopin. Música sempre esteve
presente na casa toda. Aos 16 anos, Milton trabalhou como
locutor e programador na rádio da cidade — cujas primeiras
antenas foram instaladas pelo próprio Zino. De lá, foi parar
nos “bailes da vida” como multi-instrumentista e crooner.
Em 1967, a carreira musical de Milton deu um grande salto.
“Travessia”, composição dele e de Fernando Brant, inspirada
no clássico de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, ficou
em segundo lugar no Festival Internacional da Canção e o
projetou para o mundo. O lendário álbum Clube da Esquina foi
lançado por Lô Borges e Milton cinco anos depois e até hoje é
citado como um dos maiores discos da história da música.
Porém, em uma carreira repleta de sons, ele sempre soube
optar pela mais bela das ironias musicais: o silêncio.

1. 2.
DOMÍNIO PÚBLICO ACERVO/ARQUIVO NACIONAL

DOMÍNIO PÚBLICO/ARGENTINA

3. 4.
DOMÍNIO PÚBLICO ACERVO/ARQUIVO NACIONAL

DOMÍNIO PÚBLICO ACERVO/ARQUIVO NACIONAL

1. Protesto contra a ditadura militar, em junho de 1968


2. Em show em 1969, após o sucesso de “Travessia”
3. No fim da década de 70, em Buenos Aires
4. Show em 1º de maio de 1981, no Rio Centro
5. 6.

REPRODUÇÃO/ELLEN SOARES
VERA GONÇALVEZ / O TEMPO

7.
MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO

5. N a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, 1996


6. O desfile na Portela, em 2025
7. Em 2023, no programa Som Brasil, da Globo

“Quantos mistérios, Milton, carrega esse teu silêncio?”,


pergunta Fernanda Montenegro na narração do documentário.
Gilberto Gil define que, assim, ele alcança a profundidade,
“aquela encravada no solo da existência humana como se fosse
uma pedra, em caráter silencioso e quieto”. “Até o silêncio é
interessante porque as pessoas acabam projetando nisso
aquilo que elas querem que ele seja”, reflete Flavia.
Foi essa quietude, aliás, o que a diretora do documentário
escutou na primeira exibição do filme na casa do cantor.
Quando subiram os créditos, ele disse apenas um palavrão e foi
se deitar. “Não sabia o que aquilo queria dizer. Era bom?
Depois de algum tempo, disseram que ele me receberia no
quarto dele e só então soube”. Milton afirmou para a diretora,
no quarto, que se emocionou muito com a costura de histórias.
“Ele pegou a minha mão, botou no peito dele, e disse: ‘Você
mexeu com tudo aqui dentro’. Eu quase desmaiei e falei: ‘Só
quis fazer um filme do seu tamanho’, mas ele afirmou que fiz
um filme muito maior que ele”, conta emocionada.
Não é só ela quem tem os olhos marejados. No vídeo,
Esperanza Spalding ouve a voz do cantor entre lágrimas —
ela, que gravou um disco com ele em 2024 e levou adiante o
protesto no Grammy por não terem colocado um lugar para o
brasileiro ao seu lado, na primeira fila. O filho de Milton,
Augusto Nascimento, afirmou à revista GQ que, apesar do pai
já ter ganhado cinco estatuetas do prêmio ao longo dos anos, o
Grammy anda realmente em baixa por lá após o ocorrido.

Boas trocas que fazem crescer


Mais de meio século depois do lançamento do clássico “Clube
da Esquina”, essa trajetória foi retratada no musical
homônimo, dirigido por Dennis Carvalho, em 2022. Fernanda
Brandalise, responsável pelo roteiro, já convivia com o
compositor desde a infância, porque seus pais eram amigos de
Milton. “Demorei alguns anos até entender que ele era um
artista e sacar as percepções múltiplas que as pessoas tinham
em relação a ele. Milton sempre foi um referencial importante
pra mim. É uma figura introvertida e bondosa, que está
sempre escutando e atento a tudo que está acontecendo ao seu
redor”, ela diz.
Segundo ela, é impressionante o quanto o artista não tem
medo da expansão e da sua grandeza. “Ele não perde tempo
com inveja ou com sentimentos imaginários de ameaça. Sabe o
seu valor e está seguro de si. Tudo o que se reconhece como
extraordinário pode somar, as boas trocas sempre resultam na
expansão dos envolvidos”, afirma.
Cenas do documentário “Milton Bituca Nascimento”, de Flavia Moraes
Ela conta que a memória mais marcante de sua infância
cercada por Milton eram as excelentes imitações que ele fazia
do personagem Sebastião, o caranguejo de “A Pequena Sereia”.
“Ele cantava a música tema e tinha uma pelúcia do
personagem em cima de seu piano”. Na montagem para o
teatro, Fernanda tentou mostrar como a jornada que Milton
empreende para realizar seus sonhos é desafiadora e torna
imprescindível lidar com suas sombras. É daí que é retratado
o desenvolvimento emocional do cantor. “Milton enxerga além.
Em seu processo criativo, consegue ver a pessoa que consegue
tocar bem um acorde no piano, outra que tem um ritmo bom
na bateria, outra que faz letras incríveis... A junção desses
elementos pode não fazer sentido a princípio, mas Milton sabe
exatamente como esses ingredientes podem resultar em uma
obra de arte”, diz.

“Extremamente magnético, misterioso, interessante”


Nas gravações do documentário, Milton estava saindo da
pandemia e muito fragilizado, porque o isolamento foi
pesado para ele. “Ficar sozinho, num quarto, com a máscara,
é complicado para um cara que vive de visitas e de interação
com os amigos”, conta Flavia. Por esse retrospecto, tinha
medo de não ter o artista disponível e motivado para
participar do filme.
O resultado foi outro — Milton terminou as filmagens e a
turnê bem mais jovem do que quando começou e a diretora
atribui isso à frequência de fãs anônimos e famosos
entregando energia. Um exemplo é o encontro com Spike Lee,
em que o diretor aponta o ídolo brasileiro para dizer “a
genius”. “You are”, retribui educadamente o cantor, aos risos.
Mas, por muitos dias de gravação, ele não quis conversa.
“Foram meses de convívio mais calado até uma noite em Los
Angeles em que o entrevistei em seu quarto e ele contou muita
coisa, cantou e até leu Guimarães Rosa. Nós íamos seguindo o
Milton e entendendo que filme a gente estaria fazendo à
medida das coisas que aconteciam na estrada. Os amigos que
vinham abraçar, as memórias, as músicas. Era um trabalho
budista de estar presente e fazer o melhor possível com o que
tínhamos”, ela diz.
O que facilitou essa “costura” de Flavia foi perceber que o
artista é, de certa forma, predestinado. “É como se esse filme
já estivesse pronto, eu só precisava acreditar no caminho e
abrir o espaço para que as coisas acontecessem sem
ansiedade. Foi um um processo pessoal de aprendizagem
impressionante no sentido de ‘let it be’, sabe?”, revela.
De fato, não há nada muito planejado na vida do cantor.
Hoje ovacionado por tanta gente, já foi até reprovado em
aulas de canto — imagina só? Quincy Jones já disse para
Milton que os brasileiros têm um jeito de compor que
contraria a academia, colocando notas surpreendentemente
descabidas nas composições. “Acho que o Milton tem essa
liberdade do criador nato”, completa Flavia. Os parceiros do
compositor realmente afirmam que, com ele, não há regras.
Cada um pode fazer o que quer, sem se fechar em uma
partitura hermética. A experimentação do jazz é bem-vinda,
mas de um jeito brasileiro que não tem ainda classificação no
vocabulário.
Para um bom músico, isso se traduz em liberdade,
como define Quincy Jones. Flavia atesta: ele agiu assim
com ela e nunca disse que filme queria, ou pediu para
tirar ou colocar uma cena ou convidados. “Ele
simplesmente me disse: ‘Toca’. Foi uma das experiências
mais bonitas da minha carreira”, conta.
É como diz o samba da Portela: “Quem acredita na vida
não deixa de amar”. Ou o baile da vida do próprio Milton:
“Cantando me desfaço e não me canso/ De viver, nem de
cantar”. Que bom para o mundo.

“O filme é uma tentativa de entender Milton, que termina


sendo uma tentativa de entender o Brasil. Acho que por
isso que a gente se emociona tanto, né?” Flavia Moraes,
diretora do documentário “Milton Bituca Nascimento”
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Alcione Albanesi
tem pressa em
transformar vidas
TEXTO ALEXANDRE PETILLO
FOTOS ALILE DARA ONAWALE
Fundadora da Amigos do Bem, a empresária Alcione
Albanesi transforma a vida de milhares de pessoas no
Nordeste brasileiro há 30 anos

A
lcione Albanesi entra na sala cantando um forró, braços
para o alto, com o magnetismo de uma mulher que
sabe como se tornar próxima de todo tipo de gente.
Naquela manhã, antes de falar com a Velvet, já tinha ido a um
café e a duas reuniões com empresários em busca de apoio
para o projeto Amigos do Bem. E não era nem meio-dia.
Encontrá-la em São Paulo é sempre difícil: ela passa quase
metade de todos os meses do ano nas cidades nordestinas
atendidas pela Amigos.
Alcione sempre teve pressa. Nasceu aos sete meses. “Não sei
quando vou morrer porque ninguém sabe quando é o último
dia, então eu quero fazer tudo o que eu posso o mais rápido
possível. E fazer bem feito. Essa coisa de falar que é devagar que
se vai longe, eu acho que não precisa ser tão devagar assim.
Todos os meses vejo casas de barro onde não tem comida, as
pessoas andam quilômetros em busca de água... Ou seja,
precisamos correr, estamos atrasados”, pontua.

Fôlego e aceleração empreendedora


A trajetória de Alcione nos negócios é intensa, precoce e veloz.
Junto à urgência, ela já nasceu com o empreendedorismo no
sangue. Quando criança, sempre procurava brincadeiras que
poderiam remeter à venda de alguma coisa para um vizinho,
um parente. Na adolescência, começou a trabalhar como
modelo. Mas nos desfiles percebeu que quem ganhava dinheiro
mesmo era quem produzia as roupas. Aos 16 anos, abriu uma
confecção. Aos 18, já era dona de fábrica no interior de São
Paulo, liderava 80 funcionários e fornecia para grandes lojas
de departamento do país. “Na minha cabeça tudo é muito mais
fácil do que realmente é. As pessoas sofrem para me dizer
‘Alcione, não é tão fácil’. Na minha mente, as coisas sempre são
possíveis de serem feitas”, ela reconhece.
Quando abriu a confecção, confessa que não tinha
conhecimento ou alguém que tivesse vindo do ramo. Curiosa,
fazia amizades na confecção, conhecia o corte e costura, como
eram os moldes. “Eu não tinha conhecimento financeiro, não
sabia o que era duplicata, nota fiscal. Pedia ajuda para os
amigos. Muitas pessoas acabam não fazendo as coisas porque
não sabem e não se colocam na condição de pedir ajuda.
Sempre tive pessoas que me ajudaram”, destaca.
Com isso e muita determinação, a confecção ficou grande. Em
1986, com o segundo Plano Cruzado, lançado pelo Governo para
tentar conter uma inflação de 14% ao mês, Alcione recebeu uma
proposta irrecusável e vendeu a empresa. “Me arrependi. Quase
entrei em depressão, eu amava aquela confecção”, conta. Mas,
naquela altura, com filhos pequenos e apenas 20 anos, Alcione já
tinha feito muito. Mas não descansou.
Foi trabalhar com um irmão em uma imobiliária, mas o
tempo para se fechar um negócio nesse segmento não a
encantou. Percebeu que na rua Santa Ifigênia, referência
paulistana de compra e venda de eletrônicos, “todos eram
prósperos”. Abriu uma loja pequenininha, com pouco
investimento. Ainda assim, sem experiência, uma das poucas
mulheres à frente desse modelo de loja no bairro, acreditava
que seria grande. E logo essa transformação se iluminou.
Numa viagem aos Estados Unidos, descobriu as lâmpadas
fluorescentes e percebeu que eram muito baratas. Descobriu
que a razão do bom preço era a fabricação “made in China”. Em
1992, embarcou para terras chinesas em busca dessas
lâmpadas. Achou as lâmpadas, comprou quatro contêiners e
mandou para o Brasil. O material demorou cinco meses para
chegar. Só que eram incompatíveis com o sistema brasileiro.
Não funcionavam.

“Não imaginava que existiam pessoas que viviam ali


sem um registro de nascimento, em casas de barro onde
faltava tudo, com crianças assustadas que corriam para
o mato seco quando viam alguém chegar. Aquela
viagem me transformou.”
Trabalho em equipe na
Amigos: para melhorar o país,
é preciso ter pressa
A motivação maior da empresária
Voltou para a China, descobriu lâmpadas eletrônicas
econômicas. “Pensei: essas lâmpadas serão o futuro. Me
chamaram de maluca. Dessa vez fui lá, encontrei, comprei. Aí
nos anos 1990 o Brasil sofre com os apagões e todo mundo
resolve trocar as lâmpadas incandescentes pelas mais
modernas e econômicas”, conta. Foi assim que nasceu a FLC
Lâmpadas, empresa que chegou a deter quase 40% do mercado
de lâmpadas, à frente de multinacionais tradicionais. Em 2014,
trouxe a primeira fábrica de lâmpadas LED para o Brasil.
Nesse mesmo ano, uma nova reviravolta. Alcione decide se
afastar da FLC para atender com exclusividade um chamado
importante: transformar vidas. Ela percebeu que precisava se
dedicar integralmente à Amigos do Bem, porque ela achava
que os avanços estavam muito devagar — isso implicaria em
passar mais tempo no Nordeste e seria incompatível com a
rotina da empresa.
Aqui, vale um adendo para explicar as origens desse
chamado. Alcione é filha de Guiomar de Albanesi e Serafim
Albanesi, fundadores de diversas creches em comunidades de
São Paulo. Foi ajudando em uma dessas creches que Alcione
ouviu de uma moradora que, em São Paulo, quando se tem
fome e precisa de ajuda, tem tanta gente, que alguém vai
acabar ajudando. Mas, no sertão nordestino, “não tem nada
para pedir para ninguém”. Com essa frase ecoando, entre o
Natal de 1992 e a virada de ano de 1993, Alcione Albanesi pisou
pela primeira vez no sertão nordestino. Reuniu 20 amigos,
arrecadou 1.500 cestas básicas e partiu de São Paulo rumo a
Recife. De lá, o grupo seguiu para o semiárido pernambucano,
avançou caatinga adentro e se deparou com o que chama de
“um outro país dentro do nosso país” — um cenário de dor,
abandono e miséria.
Ninguém conseguia esquecer o que via nos lugares que
passaram e, assim, nasceu a Amigos do Bem, em 1993. Durante
uma década, o projeto era levar comida, roupas e remédios
para a região nordestina durante o período de Natal e Ano
Novo. “Nosso fim de ano era sempre por lá, sempre ajudando”,
conta a filha, Caroline Albanesi.
Em 2003, encontrou Dona Geralda. “Estávamos no Ceará,
ela chegou após andar seis quilômetros com elefantíase nas
pernas. Quando fui levá-la para casa, ela me ensinou a receita
da fome: coloca-se muita água no fogão e apenas um pouco de
feijão. Ela deixava os filhos comerem primeiro, porque eles
ainda tinham a vida toda pela frente. Após ouvir isso, reuni
meus amigos e disse que não poderíamos apenas ser Papais
Noéis. Iríamos transformar vidas para valer.” Alcione percebeu
que aquele novo projeto precisava ser grande.
Hoje, os números são gigantescos: 11 mil voluntários, 1.500
postos de trabalho, 1 milhão de atendimentos educacionais por
ano. A ONG também soma quatro Cidades do Bem (em
Catimbau e Inajá, em Pernambuco; São José da Tapera, em
Alagoas; e Mauriti, no Ceará) com casas de alvenaria para
substituir as de barro, 75 poços perfurados e nove caminhões-
pipa distribuindo água. Tudo é auditado, com a operação da
Amigos do Bem tocada por Alcione de São Paulo, e dez dias por
mês no Nordeste, acompanhando tudo de perto. A instituição
está presente em 300 povoados no interior profundo de
Pernambuco, Alagoas e Ceará. Criou um modelo de
desenvolvimento social sustentável que rendeu o título, pelo
Pacto Global da ONU Brasil, de liderança de impacto do ODS 1,
o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável que trata da
erradicação da pobreza.

Pessoas normais e indignadas transformam vidas


As ações sociais da Amigos do Bem são sustentadas por doações
de pessoas físicas e empresas, auditadas anualmente, e pela
venda de produtos dos projetos de geração de renda da ONG,
como castanhas, conservas, doces, brindes corporativos e
artesanato. O impacto do trabalho comandado por Alcione foi
estudado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento
Social (Idis), que analisou o retorno sobre investimento social
(SROI, na sigla em inglês) da Amigos do Bem. A metodologia
propõe uma análise comparativa entre o valor dos recursos

“Embora pudéssemos aliviar a fome com a doação


de alimentos, isso não quebrava o ciclo da miséria.
Queríamos ser mais que assistencialistas, queríamos ser
transformadores daquela realidade.”
Os produtos da ONG,
com decoração e
trabalhos manuais
investidos em um projeto social e o retorno que gera para a
sociedade, e o resultado foi surpreendente: para cada R$ 1
investido pela Amigos do Bem nas comunidades, o retorno
médio ficou em R$ 6,45. Ao longo de dez anos seus
investimentos geraram benefícios estimados em R$ 2,1 bilhões.
Hoje, ajudam o bebê que nasce naquela região, oferecendo
um enxoval completo, garantindo sua alimentação,
desenvolvimento e o auxiliando até a faculdade. “Temos
quatro escolas e já fornecemos mais de 500 bolsas de estudo
para a faculdade, temos centros de transformação com aulas
de reforço escolar, atividades extracurriculares e cursos
profissionalizantes. Chegamos a 15 unidades produtivas, com
mais de 200 mil pés de caju. Duas fábricas de beneficiamento
de castanha em Pernambuco e no Ceará, centros de saúde, oito
consultórios médicos e odontológicos e seis ambulâncias para
remoção de emergência”.
Para tudo isso acontecer, Alcione precisou, claro, do apoio
de casa. “Não daria para fazer nada sem minha família. Meu
marido, meus quatro filhos. Aliás, quando alguém se
interessava por um filho meu, antes de qualquer coisa, o que
eu perguntava era se estava disposto a ir para o Nordeste
ajudar na Amigos do Bem. Para entrar na família, tem que
ajudar. E todos ajudaram”, explica.
Com muito feito e sabendo de tudo que ainda precisa fazer
para transformar a vida das pessoas no nordeste brasileiro,
estar na presença dos netos é o que recarrega as energias de
Alcione — são sete ao todo. Formada em psicologia, costuma
dizer que tem uma missão, mas não quer ser chamada de
missionária. “Eu não sou especial. Sou só uma pessoa normal e
indignada. E, atualmente, o mundo precisa de mais pessoas
normais e indignadas, que saibam que não podem fazer tudo
que devem, mas devem fazer tudo que podem”.

“Atuamos em uma desigualdade social tão grande e


temos que fazer essa transformação social com passos
largos e urgência. Nós estamos assistindo o mesmo
filme desde Dom Pedro em 1877, quando ele falava que ia
vender até a última pedra da sua coroa para acabar com
a fome, com a miséria…”
Olivier
Anquier
requalifica
o centro
TEXTO CÍNTIA MARCUCCI
FOTOS VANS BUMBEERS
Ficar parado esperando a vida passar não é uma opção
para o padeiro e empresário, que está prestes a levar
seu nome e os sabores do Brasil para a Arábia Saudita

D
as aulas de física na escola, um dos conceitos mais
fáceis de se lembrar é o do MUV, a sigla para movimento
uniformemente variado. É o que ocorre quando
um corpo é colocado em movimento com uma aceleração
constante, como quando se dirige um carro ou uma moto.
Foi o que Olivier Anquier fez por 29 dias no início deste ano,
quando rodou 11 mil km, ida e volta entre São Paulo e a
Argentina, em uma viagem longa de moto pela primeira vez
depois do acidente que sofreu no Rally dos Sertões, em 2022, e
que parecia que deixaria seu braço esquerdo inerte. Foram dois
anos e meio de fisioterapia intensa, com as motos na garagem.
Hoje ele faz questão de mostrar que a recuperação vai muito
bem e sem necessidade de cirurgia e até planeja retomar as
aventuras na estrada.
Movimento variado, embora nem sempre de maneira
uniforme, é também um jeito de definir a trajetória de vida
desse empresário, chef, piloto de moto, padeiro, que já foi
modelo, apresentador de TV, escreveu livros, estrelou peça de
teatro: nunca parado, sempre desbravando caminhos diversos.
Nascido na França, ele chegou ao Brasil no final de 1979 e, de
certa forma, nunca mais voltou para o outro lado do Atlântico,
ao menos não com a intenção de viver por lá. Hoje, aos 65
anos, Olivier é brasileiro naturalizado e ama São Paulo mais do
que muitos paulistanos de nascença.
O chef mora com a mulher, a atriz Adriana Alves, e a filha do
casal, Olivia, no coração da cidade, em um dos prédios da
Praça da República, região que não troca por nada. Faz tudo a
pé por lá, das compras às atividades culturais, mas não deixa
de viver toda a cidade, como quando vai com a filha praticar
vela na represa de Guarapiranga, na Zona Sul da capital, ou
quando faz a ronda de sua fábrica, lojas e restaurantes a bordo
de uma lambreta.
“Eu vim para o Centro pois gosto de estar em contato com
todo o tipo de gente, com o povo, com o que é cosmopolita, não
ficar preso em uma bolha só com os iguais”, conta. Quando
chegou para morar no Edifício Esther, nem a corretora de
imóveis acreditou que ficaria por lá. Os andares, ele conta,
eram repletos de escritórios de advocacia e contabilidade e
lugares alugados por hora ou em turno.
Driblou as infiltrações e necessidades de reforma e comprou
a cobertura do prédio, que já tinha sido residência do pintor
modernista Di Cavalcanti no século passado.
Morou lá por alguns anos, fez até sua festa de casamento ali
e, quando se mudou para outro imóvel a poucos metros de
distância, abriu o Esther Rooftop no endereço. Em 2024, desfez
a sociedade nesse empreendimento, mas abriu em novembro
do ano passado o L’Entrecot D’Olivier Rooftop na outra metade
do terraço, de onde se vê centro de São Paulo. Em abril, o
espaço ganhou como vizinha a nova unidade central da Mundo
Pão do Olivier, na esquina das avenidas Ipiranga e São Luís. No
dia chuvoso da reportagem, o tempo abriu no momento das
fotos, descortinando a vista emblemática.

Tem no Brasil
Nos anos 1980, quando decidiu que sua viagem de férias para o
Brasil se estenderia por tempo indeterminado, Olivier precisou
ganhar dinheiro para se manter por aqui. Sem falar
português, mas, como ele mesmo diz, “com 20 anos e bonitão”,
fez diversos trabalhos como modelo na época. Abriu o
primeiro restaurante em Jericoacoara, no Ceará, no fim
daquela década, depois outro em Florianópolis e, em 1993, sua
primeira padaria, a Pain de France, em São Paulo.
Ele se lembra de que os conceitos de padaria ainda não
eram tão difundidos como hoje, por isso, falavam que ele não
iria dar certo. Olivier pegou a tradição de sua família — seu
tio avô foi padeiro e sua mãe, que também o inspirou a andar
de moto, comanda até hoje uma padaria na Austrália — e
começou ali uma regra de só usar ingredientes nacionais.
Aberto há 17 anos, o L’Entrecot, restaurante de prato único
inspirado em modelos franceses, mantém-se fiel a essa
determinação de não depender de importação. O contrafilé
com fritas comum no país europeu é acompanhado por um
molho que tem receita de família — a criação é da tia de
Olivier, Nicole.
CIRCUITO OLIVIER
L’Entrecot d’Olivier
(Rua Dr. Mário Ferraz, 17,
Jardim Europa)

L’Entrecot d’Olivier Rooftop


(Rua Basílio da Gama, 29, República)

Mundo Pão do Olivier


• Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, Jardins)
• Centro (Av. São Luís, 29, República)
• Morumbi Shopping
• Shopping Anália Franco
Embora os ingredientes e quantidades sejam secretos, ele
contou à Velvet que o único item que mudou um pouco para
fazer o molho funcionar no Brasil é uma erva de sabor menos
marcante que a francesa. “Acho que isso até contribuiu
positivamente. Ficou mais autêntico ao mesmo tempo em que
remete à minha família”, revela, fazendo mistério. A tarefa de
tentar adivinhar do que ele está falando enquanto se prova o
prato pode até não resultar em um veredicto, mas com
certeza é bem prazerosa.

Negócios das Arábias


Em breve, o bife com batatas e molho do Olivier deve expandir
suas fronteiras. A primeira escala será em Curitiba, no Paraná,
que receberá um projeto de complexo gastronômico comandado
pelas especialidades de Olivier (o prato único e os pães) e outras
novidades como café, sorveteria e espaço para crianças.
O projeto tem previsão de ser inaugurado ainda no segundo
semestre deste ano e é uma espécie de laboratório para a
outra parada de Olivier, dessa vez bem mais longe. Ele deve
comandar um complexo nos mesmos moldes do de Curitiba
em Riad, capital da Arábia Saudita. Será chamado de “Olivier
Anquier du Brésil” e fica pronto somente em 2026.
O chef diz que se sente orgulhoso de, entre tantas
possibilidades de bife com batata frita pelo mundo, ter sido o
seu o escolhido pelos investidores árabes, que só pediram que
o ponto da carne fosse um pouco mais bem passado, para se
adequar às preferências locais. Talvez a tal erva brasileira
tenha dado uma ajuda nesse molho, quem sabe? O que é certo
é que, definitivamente, a inércia não combina com Olivier
Anquier e ele continua variando seus movimentos.

“Nunca importei farinha de trigo e nem uma colher de


manteiga, pois o padeiro tem as receitas e seus braços e
é isso que faz bons pães. Naquela época, se dizia que a
farinha daqui era ruim e hoje somos um grande produtor
de trigo. Se eu escolhi viver aqui, é daqui que tem que vir
o que eu uso!”
ALEX HANAZAKI
GRANDES PROJETOS,
RAÍZES PROFUNDAS
TEXTO LUCAS VASCONCELLOS

Há 25 anos na profissão e
reconhecido internacionalmente,
o paisagista cultiva um sonho de
ver seu ofício difundido para o
FABIO AUDI

bem-estar da população
N
o coração da Faria Lima, conhecido centro financeiro da
cidade de São Paulo, está localizado o novo escritório de
Alex Hanazaki. Ao entrar no local, que há pouco mais de
nove meses é ocupado pelo paisagista e sua equipe, é possível
esquecer os ruídos estressantes da cidade: composto por três
andares interligados por uma escada caracol, tem em cada
pavimento um grupo numeroso e diversificado de plantas que
preenchem as paredes, criando microclimas diferentes. Ali, o
som mais audível é o canto dos pássaros.
Pelos corredores, Montanha, um cão da raça Yorkshire, de 14
anos de idade, caminha tranquilamente. Quando recebeu Velvet,
Alex estava na parte final da reforma. “É mais difícil fazer uma
obra para mim, há muitas ideias e caminhos a seguir, dá pra
ficar perdido. É o contrário de um briefing pedido por um
cliente”, conta.
Apesar do paraíso criado, Alex não sabe se esse será o destino
final do escritório. “Como um bom sagitariano, estou aberto
para o amanhã, embora eu não saiba o que vai ser. Eu comecei
na sala de um pequeno apartamento que morava e achava
aquele escritório o máximo. Eu estou aqui por agora, mas pode
ser que seja pra sempre também”. Foi assim, sem medo de
encarar o desconhecido, que construiu um nome que está
intrinsecamente ligado à popularização do paisagismo no Brasil
a partir da década de 1990 e que o levou a construir jardins
mundo afora.
Nascido em Presidente Prudente, pertence à terceira geração
de uma família japonesa que imigrou para o Brasil décadas
antes. O avô veio para o país e tinha como meta construir um
futuro melhor para os que viriam. Filho de professores —
a mãe de ciências e matemática e o pai de educação física
— credita a eles o interesse pela vida acadêmica, que sempre
foi estimulada em casa.

“Minha mãe percebeu meu lado artístico e sempre me


estimulou. Até hoje há quadros meus, de quando eu
tinha 7 ou 8 anos, na casa dos meus pais. Quando revejo,
penso: ‘uau, eu fiz isso quando criança?’ ”.
FERNANDO GUERRA/DIVULGAÇÃO

O TGU Garden, em Ilhabela, com o relevo montanhoso de fundo

Ao decidir o que cursar na graduação, a arquitetura foi uma


escolha simples. Mas o paisagismo surgiu pelo acaso. Ao longo
do curso, Alex estagiou em todos os segmentos possíveis —
de construção civil a design. Foi, inclusive, fiscal de obras da
prefeitura. “Dava multa para todo mundo que fazia coisas
erradas”, ri.
Um dia, viu em uma revista um curso de paisagismo de
quatro dias na cidade de Holambra, no interior de São Paulo.
“Deu um estalo porque era uma área desconhecida para mim.
Depois do curso, fui atrás de um estágio”. Depois de formado,
aceitava as oportunidades que surgiam, mas, novamente pelo
acaso, as ofertas de trabalho eram ligadas ao paisagismo. “Acho
que é assim com todo mundo. As coisas vão acontecendo e você
abraça as oportunidades. Eu fico imaginando se aquele primeiro
cliente tivesse me chamado para fazer um banheiro, talvez eu
fosse especialista nesta área”. O resto é história.
Jardim de projeto em
Porto Feliz, em São
Paulo, com contraste
de cores do concreto
e do verde

FERNANDO GUERRA/DIVULGAÇÃO
ANA MELLO/DIVULGAÇÃO
Hotel Fairmont, em Copacabana, destaca a paisagem carioca

YURI SERÓDIO/DIVULGAÇÃO

Fuso Hotel, em Florianópolis, fica no meio da floresta: a mata


complementa o projeto
Nessas quase três décadas de profissão, com muito estudo e
constante vontade de seguir aprendendo, como frisa, Alex
Hanazaki construiu projetos em países como Alemanha,
Emirados Árabes, EUA, México e França, tanto que foi duas
vezes premiado pela American Society of Landscape
Architecture (ASLA). É o único brasileiro com tal honraria.

Olhar atento
Tudo é inspiração para Hanazaki. Ele já projetou jardins
influenciado pelo deserto do Atacama e até por peças de roupa.
As referências vêm de livros, da moda, da internet e das
viagens que faz. “Eu tenho um olhar atento para tudo que acho
belo e para o que eu acho feio, seja feito por colegas ou por obra
da natureza. Minha visão é muito questionadora e sempre
enxergo algo que pode ser fonte de inspiração para um projeto
futuro. Por exemplo, eu adoro ficar em hotel quando viajo e
tem vezes que eu durmo cada noite em um diferente porque
aprendo muito observando”.
Apesar da extensão do currículo e dos muitos projetos em
andamento, Alex ainda tem sonhos. “Não quero ficar onde
estou, mas não sei para onde ir. Gostaria que meu trabalho
chegasse numa escala mais pública, mais democrática.
Gostaria de ver um país onde o paisagismo fosse pensado para
o bem-estar da população. Mas são desafios que não dependem
de mim”, reflete.
Seu nome é estudado nas grades curriculares dos cursos de
arquitetura e ele tem uma agenda disputada, mas se mantém
com o pé no chão. E em grande parte deve isso aos pais, que
ainda vivem na mesma residência, em Presidente Prudente, e
ensinam por atitudes o valor da simplicidade. “Não me deixam
mexer em nada, nem no jardim. Tá tudo igualzinho, meu
quarto é o mesmo. Eles gostam do que têm, da vizinhança, do
dia a dia. É bom que, dentro do que é possível, essa base
familiar não permite que meu ego me leve”.

“Seria um sonho desenvolver grandes áreas


públicas, como o Aterro do Flamengo (RJ), ou como foi
com Brasília no passado. Não sei se a minha geração
vai ver isso”.
A vista do Fuso
hotel: a paisagem
complementa o
mobiliário

YURI SERÓDIO/DIVULGAÇÃO
LENNY NIEMEYER
DA PRAIA PARA CASA
TEXTO LUCAS VASCONCELLOS

DIVULGAÇÃO
Mais tranquila do que nas festas agitadas de outrora, a
estilista que é um dos principais nomes da moda praia
brasileira está cheia de sonhos profissionais que vão
além das areias

O
burburinho chamava a atenção na calçada, em frente
à Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio de
Janeiro. Por décadas, a “festa da Lenny” era um marco
no mundo fashion carioca — todo mundo queria estar e ser
visto em seus eventos.
Essa trajetória de sucesso começou bem antes. Nome
emblemático da moda praia e pós-praia, Lenny Niemeyer está
desde o final da década de 1970 na área. Após produzir para grifes
como Fiorucci, Bee, Richards e Andrea Saletto, a estilista criou,
em 1991, sua marca homônima que ajudou a definir a identidade
do segmento no Brasil. Além da lycra em biquínis e maiôs, trouxe
outros materiais, como o couro e metal, para compor as peças. A
inovação chamou muita atenção do mercado.
Esse começo arrebatador não foi por acaso. O litoral sempre
esteve em seu DNA. Lenny nasceu em Santos (SP) e se mudou
para o Rio há quase cinco décadas. Formada em desenho
industrial, começou a carreira trabalhando com arquitetura
na área de paisagismo. Resolveu produzir as próprias peças de
praia porque não encontrava algo que lhe agradasse nas lojas.
Da experiência com botânica e do estilo de vida carioca, tirou a
essência para o trabalho que realiza desde então, sempre
muito preocupada com uma modelagem que “valorize e deixe
a mulher linda”, como diz. A inovação fez sucesso e as amigas
passaram a encomendar suas peças. Daí para a
comercialização profissional foi um pulo. Assim se consolidou
Lenny Niemeyer, a marca de beach wear que ajudou a definir o
lifestyle carioca e propagá-lo mundo afora.

“Eu sempre achei lindas as formas do Oscar porque ele


usava exatamente a topografia do Rio de Janeiro para
criar. Tenho até um quadro dele, que são as formas do
corpo de uma mulher, que lembram as montanhas do Rio”.
DIVULGAÇÃO

As coleções valorizam
a fluidez de tecidos que
DIVULGAÇÃO

serão emolduradas pelas


paisagens litorâneas
Seu trabalho mistura as curvas do relevo natural da cidade
com muitas fibras naturais e tecelagem original brasileira. A
orla é tão importante que também serve de moldura para
coleções: em 2021, quando a grife completou 30 anos, a
estilista produziu o desfile no Caminho de Niemeyer, em
Niterói (RJ), fechando a SPFW. Dali, a vista para a Baía de
Guanabara apresentava suas criações.
A escolha do local em um desfile tão marcante não foi uma
coincidência. Lenny foi casada com o neurocirurgião Paulo
Niemeyer, sobrinho de Oscar Niemeyer. Além do sobrenome,
divide com o arquiteto ícone modernista a paixão pela Cidade
Maravilhosa e por suas curvas. “Apesar de nunca termos
conversado sobre isso e nunca ter feito uma coleção inspirada
exatamente nele, as formas são bastante inspiradoras, acho
que ele é um grande gênio”, conta.
Mas mesmo com tantos anos de estrada, desfiles de moda
são sempre tensos para Lenny. Ela procura aliviar a tensão
jogando beach tennis, mas fica sem dormir na véspera e
garante que, embora não pareça, é uma pessoa tímida.

Um trabalho com visibilidade no exterior


Há duas décadas, a marca iniciou seu projeto de exportações
para a Europa. Hoje, está presente em 80 multimarcas como
Neiman Marcus, El Corte Inglés e Saks 5th Avenue e tem 150
pontos de venda no exterior. Já abriu também também pop-
up showrooms em Lisboa e Nova York — mas a confecção
ainda é toda concentrada no Rio, embora haja linhas focadas
no público de outros países, já que o gosto por moda praia da
brasileira é bem particular.
A grife se posiciona como defensora da matéria-prima
nacional: “acreditamos que é possível desenvolver produtos
que tenham longevidade com materiais obtidos de forma
sustentável”, informa o site da grife sobre as peças feitas

“Trabalhar com arquitetura tem o sabor de minha


adolescência. Eu sempre amei fazer isso e poder
trabalhar em formas, principalmente arquitetura clean.
Foi uma maneira de colocar o pé um pouco no que fiz
no passado”.
DIVULGAÇÃO

manualmente através do manejo sustentável de fibras naturais


brasileiras. Da carnaúba ao caroá, o material é escolhido por
suas características que minimizam o impacto na natureza.

Receber é uma delícia


A marca registrada de Lenny, que lhe rendeu o livro “Delícia
Receber”, posteriormente transformado em programa pelo
GNT, é a de anfitriã. As festas promovidas por ela sempre
foram disputadas. “Eu comecei a fazer festas porque eu amo
pessoas e a convivência entre diversas tribos. Acho que isso faz
parte do meu temperamento. Festa é um lugar onde você se
descontrai após um dia árduo de trabalho. Eu não faço festa
para realizar conexões profissionais e sim entre seres
humanos”, diz.
Após a pandemia, a frequência com que produz os eventos
diminuiu — o que vai ao encontro da tranquilidade que tem
buscado para seu dia a dia nesta fase da vida. “Eu amo criar e
mesmo não tendo nada pra fazer no escritório, fico rodeada de
livros, pesquisando. Fora isso, eu não gosto muito de sair de
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Acima: Lenny Niemeyer
comemora aniversário da
filha, Bel, em Trancoso, com
a cantora Bebel Gilberto.
À esq., Jan Olesen, Lenny,
Mario Testino e Chris
Pitanguy em uma
festa para o fotógrafo, em
2014, na casa da estilista

casa. Gosto de ficar com o meu marido, Lulu Lima, assistir a


bons filmes ou programas de TV, durmo cedo e faço atividade
física sempre pela manhã. Nas horas vagas, tenho paixão por
cozinhar”, detalha, contando que o carbonara é o carro chefe
de suas receitas, mas também há lugar para risotos, ovos
benedict e club sandwich.

Das areias às calçadas


Acostumada a embelezar as areias com seus modelos, Lenny
agora está trazendo sua essência para o concreto. No ano
passado, ela firmou uma parceria com a construtora Mozak,
especializada em imóveis de luxo na Zona Sul do Rio de
Janeiro. No empreendimento comercial Máris, no Leblon, a
estilista assina a curadoria artística.
E se aventurar pelos interiores parece ser o caminho para o
futuro. “Meu sonho é poder trabalhar enquanto eu aguentar,
mas eu tenho curiosidade de desbravar novos desafios. Quero
poder fazer coisas para casa, uma Lenny Home, para poder
criar em cima de formas. Eu gosto muito de receber pessoas,
então eu tenho isso na minha cabeça há muito tempo. Quero
vestir as casas de praia do Rio de Janeiro, do Brasil inteiro. Eu
vou conseguir”, ela conta. A julgar pelos triunfos de uma vida
inteira, vai mesmo.
DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

O desfile de 30 anos da
marca, na cúpula do
Caminho Niemeyer, em
Niterói, foi transmitido
ao vivo nas plataformas
digitais do SPFW
DIVULGAÇÃO
A elegância do afeto
Marcella Tranchesi
TEXTO BARBARA DEMEROV
FOTOS ALILE DARA ONAWALE
Da estética delicada da marca de bolos Doce Aquarella
a uma casa com flores e mesa do café-da-manhã posta
diariamente: um mergulho no universo de quem faz da
rotina uma arte

A
influenciadora e empreendedora Marcella Tranchesi
aprendeu desde cedo que a beleza mora nos detalhes
— seja no aroma fresco de flores em casa, na mesa
posta em dias aparentemente comuns ou na deliciosa
cobertura de um bolo feito com carinho. Fundadora da
Doce Aquarella, marca de bolos que traduz afeto em forma
de sobremesa, ela conquistou uma legião de admiradores
em apenas sete meses, unindo estética apurada e espírito
empreendedor.
O que antes era hobby virou marca. E o que eram bolos só
para as amigas passaram a abastecer prateleiras de dezenas
de pontos de venda espalhados por diferentes bairros de São
Paulo, da Zona Sul à Leste. “A Doce Aquarella nasceu sem
querer”, conta Marcella, com um sorriso de quem ainda se
surpreende com tamanho sucesso. No entanto, ela mantém
firme seu propósito original: entregar sabores com alma e
aquela lembrança afetiva capaz de deixar uma marca no dia de
seus clientes, mesmo com os produtos chegando via delivery.
Já são vários os sabores disponíveis, vendidos por pedaço
ou inteiros: laranja com calda, chocolate, iogurte, cenoura e
formigueiro, tudo com brigadeiro. “Eu fazia bolo por hobby,
em casa, para as amigas e para a minha família. Nunca tinha
vendido um.”
O empurrão veio dos seguidores, encantados com os bolos
coloridos, quase cenográficos, que ela costuma compartilhar
em suas redes sociais. A estética lúdica, as formas de assar
vintage e o tom nostálgico logo encontraram seu espaço. Tinha
tudo para virar hit — e assim foi.

“Eu gosto de experimentar. Não me acho uma super


fashion victim e não embarco em todas as tendências.”
Um dos looks bem
DIVULGAÇÃO

trabalhados
de Marcella

A marca explodiu. Em questão de meses, conquistou


distribuição em mais de 20 lojas e 80 bairros por meio da
plataforma Rappi Turbo, e hoje conta com uma equipe robusta,
operação estruturada e uma demanda crescente. Ainda assim,
cada detalhe da Doce Aquarella passa pelo olhar apurado e
exigente de Marcella. “Participo de toda a criação dos
conteúdos, acompanho a produção, o atendimento, vejo o que
vai pros Stories. O meu trabalho é 24h, sete dias por semana.”
Mas, ao contrário do que se espera de um empreendimento
que cresce tão rapidamente, a identidade da marca permanece
fiel à sua origem — no caso, a casa de Marcella. “Mantenho as
mesmas formas que usava antes, a mesma receita de
brigadeiro, os mesmos confeitos… a ideia sempre foi ser algo
caseiro e continuar parecendo assim, por mais que a produção
não seja mais homemade.”

Doçura com gestão apurada


Marcella não romantiza o empreendedorismo. “É preciso amar
o que faz, claro. Mas empreender também é cálculo,
planejamento, projeção”, explica. Ao falar do negócio, ela
transita com naturalidade entre a sensibilidade e a
objetividade. Esse equilíbrio, talvez, seja a verdadeira fórmula
de sucesso da marca: unir gestão profissional com propósito
genuíno. Atualmente, são mais de vinte pessoas na equipe da
Doce Aquarella.
“Hoje temos operação, financeiro e produção, cada área com
um responsável. Mas, querendo ou não, a marca ainda sou eu.
Ainda carrega o meu olhar.” E, claro, ainda há uma mascote
para dar sorte ao negócio. É Lella, sua cachorrinha, que já
virou personagem recorrente nos bastidores da marca e no
coração de seus mais de 850 mil seguidores no Instagram.

Talento para decorar


A mesma sensibilidade que guia a estética dos bolos de
Marcella também transparece em sua relação com o lar.
“Gosto da casa bonita, mas com funcionalidade. Nada adianta
ser lindo e não funcionar”, diz. A influenciadora de beleza,
moda e lifestyle é do tipo que coloca a mesa todos os dias,
ritual esse que também é uma forma de autocuidado à noite,
antes de dormir. “Se eu deixo para arrumar tudo no dia
seguinte, tomo café de qualquer jeito. Quando eu acordo e a
mesa já está posta por mim, a manhã muda. O dia começa
diferente”, diz. Para ela, o cuidado nos detalhes transforma a
rotina em celebração, mesmo quando não há visita ou ocasião
especial. “A primeira vez que assinei flores para receber toda
semana, meu marido perguntou: ‘Mas quem vem?’. Eu disse:
‘Ninguém. É pra gente.’”
A estética de Marcella se estende também ao vestir.
Elegante e espontânea, ela aposta em peças atemporais, cores
suaves e composições com identidade — prioriza a essência e
não necessariamente o que é tendência. Ela adora conversar
com suas seguidoras nas redes sociais, e dá dicas de moda e
até mesmo consultoria para a montagem de alguns looks.
Por trás dessa leveza, entretanto, há disciplina. “Sou a louca
da agenda”, brinca. “Acho que é um jeito de você enxergar os
compromissos com antecedência e respeitar o tempo.” Rotina,
para ela, é um ato de amor próprio. E, dentro dos
compromissos, o ato de treinar também faz parte de seu dia a
dia. “É um ritual para mim, faço exercícios logo ao acordar.”

“A mensagem que mais amo receber é: ‘Seu bolo


tem gosto de casa’. Porque no fundo é isso que todo
mundo busca — uma lembrança, um afago, um
momento de pausa.”
Paisagem na viagem
a Mendoza e Lella, sua
cachorra, em casa
DIVULGAÇÃO

Boa parte do seu olhar detalhista ela atribui à irmã,


Luciana Tranchesi, com quem tem uma relação de admiração
mútua. “Na hora de montar uma mesa, sempre penso: ‘a Lu
acharia bonito?’.” A proximidade também alcança o trabalho.
“Amamos fazer projetos juntas. É tudo mais leve. Ela sempre
esteve alguns passos na minha frente e já me ensinou muito
ao longo dos anos.”
Fora a Doce Aquarella e sua rotina regrada, a própria
Marcella confessa que não sobra muito tempo e defende que o
ponto-chave de qualquer negócio é ser apaixonado: “é amar o
que faz, acreditar e ter o brilho no olhar”.
A Doce Aquarella é, acima de tudo, um gesto. Uma memória
doce materializada. Um projeto que vai muito além da
confeitaria.
Marcella ainda lembra da primeira receita que fez quando
criança: era um “bombom de brigadeiro”. Sua mãe, a
empresária Eliana Tranchesi, que faleceu em 2012, sempre
experimentava suas criações e a apoiava, mesmo sendo um
hobby de infância. “Hoje, eu gostaria de servir um bolo e
mostrar a Doce Aquarella para ela. Seria, sem dúvida, muito
especial. Ela sempre me viu cozinhar”, conta.
Com doces que trazem o frescor de uma aquarela recém-
pintada, Marcella Tranchesi transforma a rotina em algo que
merece atenção. E nos lembra que o afeto, quando sincero,
pode morar até em um pedaço de bolo.
O QUE FAZ A CABEÇA DE
MARCELLA TRANCHESI

VIAGENS:
“Eu tenho o
sonho de TELEVISÃO:
conhecer o Japão O Dia do Chacal,
e tenho muita disponível no
vontade de ir Disney+
para Botsuana
também. Duas
viagens bastante
MODA: opostas.”
NV, Helena Bordon,
Agilità (foto),
Zara, Chloé, Celine,
Balmain e UP22

CINEMA:
LIVRO: “Estou assistindo
O Poder do aos filmes do
FOTOS: DIVULGAÇÃO

Hábito, de Oscar 2025.


Charles Duhigg, Conclave, A
que conta o Substância…
que e como Estou amando
RESTAURANTES: podemos mudar fazer o tour
Kanoe, Tuju (foto) atitudes para cinema do
e A Casa do Porco viver melhor Oscar.”
FRANCISCO BOSCO
REFLETIR PARA
MELHORAR O MUNDO
TEXTO RODRIGO CASARIN
FOTOS GUITO MORETO

O intelectual reflete, à luz da paternidade,


como o debate público está aquém do que poderia ser
para criar um mundo mais justo para os mais novos —
incluindo seus filhos
F
Francisco Bosco, homem de pensamento ágil, faz uma
pausa. Parece refletir para elaborar a melhor resposta. De
que forma os filhos — Iolanda, Lourenço e Madalena, dois
adolescentes do primeiro casamento e uma criança do segundo
— transformaram a sua caminhada como intelectual?
Aos 48 anos, ensaísta e doutor em Teoria da Literatura pela
UFRJ, Bosco é um intelectual público, alguém que busca se
envolver nas grandes questões de seu tempo.
Nos últimos anos, esteve no centro de debates importantes
para a sociedade brasileira. Livros como “A vítima tem sempre
razão?” e “O diálogo possível”, ambos publicados pela Todavia,
levantam questões para assuntos tratados de forma
dogmática por parte da população, como certas dinâmicas do
identitarismo, por exemplo. O posicionamento rende críticas,
especialmente do campo progressista, área do espectro
político onde o próprio pensador se coloca.
Ser intelectual é um dos aspectos fundamentais para definir a
identidade de Bosco. O outro, sem hierarquização entre ambos, é
ser pai. “Hoje a vida é dividida entre o tempo que tenho para mim
e o tempo que dedico aos meus filhos”, diz. E ele também carrega
suas angústias. Lembra Machado de Assis e o clássico final de
“Memórias póstumas de Brás Cubas” (“Não tive filhos, não
transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”) para
falar a respeito da criação dos pequenos, um desafio em qualquer
época. Reflete sobre o fim do mundo enquanto fala da aventura
extraordinária que é ajudar a criar três crianças e também
crescer graças a elas. Suas reflexões acerca de igualdade de
gêneros, por exemplo, ficaram mais agudas, ele garante.
Mesmo com tempo mais apertado para se dedicar às
pesquisas e à escrita, entende que seu trabalho ganhou corpo e
profundidade após o nascimento dos filhos. “Meus melhores
livros foram escritos depois que virei pai. São livros mais
longos, mais consequentes, mais responsáveis. Livros com
maior fundamentação bibliográfica e tempo de reflexão”, diz.

“Nenhum momento da humanidade foi róseo. Talvez


a grande angústia da geração dos meus filhos seja a
ambiental, a do fim do mundo. Mas na Idade Média
muitas seitas e religiões trabalhavam com essa ideia.
Nem o apocalipse é novo.”
Não deixa de ser um contraste: o livro mais recente de
Bosco marca uma espécie de regresso aos seus primeiros
trabalhos, feitos com formas breves, fragmentárias, um tanto
incendiárias. “Meia palavra basta” (Record) é uma reunião de
aforismos, forma direta e provocativa. “É um livro feito de
pequenas bombas atômicas cognitivas, que devem explodir na
cabeça do leitor”, confia.
Ele explica uma delas: “Dizem que ‘a História dirá’ como se a
história fosse um ponto, em algum lugar do futuro, capaz de
fazer um juízo objetivo e pacificar o passado — e não um
desdobrar de disputas narrativas sem trégua sobre um
passado eternamente instável”.

Quem não adere


Bosco se preocupa com a ausência de prazer no debate
público. Diz que as discussões mais acaloradas andam
agônicas, inflamadas, pouco sofisticadas, carregadas de
clichês e ortodoxias.

O mural de Francisco
Bosco prioriza as fotos
de família.
Uma das razões para isso é a lógica das redes sociais,
principal palco do que deveria ser esse diálogo. Deveria.
Afinal, essas plataformas acabaram se transformando
também em câmaras de eco ou salas de linchamentos e não
apenas espaços para argumentações, ponderações e contra-
argumentações. A exibição de virtuosismo para o próprio
grupo, a pouca disposição para o contraditório, a sacralização
de premissas e a lógica do cancelamento inibem ou interditam
o aprofundamento em muitos assuntos.
O cenário que se desenhou é desafiador para alguém que
dispensa o alinhamento a discursos prontos para abraçar a
definição do filósofo Paulo Arantes: intelectual é aquele que
não adere. “A lealdade do intelectual deve ser para e com a
realidade. Seu compromisso tem que ser com a
interpretação mais correta dessa realidade. Há intelectuais
dizendo apenas o que seu grupo quer ouvir. Às vezes, estão
tão imersos numa bolha que nem percebem que perderam a
capacidade de pensar fora de esquemas. Não ser demagogo e
criticar o próprio grupo tem um alto custo”.

Arte em tempos bicudos


Bosco é integrante do Papo de Segunda, na GNT, um dos
programas de maior audiência da TV fechada. Ao lado de seus
colegas de estúdio, discute assuntos diversos, com preferência
para as relações pessoais, especialmente familiares. Evita
carregar o discurso com marcas ideológicas. Ainda assim,
conta que basta entrar em temas sensíveis para notar a
polarização na recepção das ideias expostas na TV e depois
levadas para a internet.
Mas as mesmas redes sociais, para ele, são palco de um
intelectual que é também uma pessoa comum, pelo menos nos
hábitos de consumo de cultura pop. Entre as postagens, reflexões
sobre séries da moda, como Ruptura (Apple TV) e The White
Lotus (Max), fotos de viagens e vídeos com os colegas bem-

“O modo como se discute temas importantes


hoje impede pensamentos mais complexos, mais
ambíguos. Fica difícil considerar que lados diferentes
de um mesmo problema podem conter argumentos e
visões válidas.”
humorados do elenco — o amigo João Vicente de Castro sempre
aparece por lá. Cabe até um tipo de resenha de um corte de
cabelo em uma viagem para Cuba, por exemplo.
Um olhar mais atento também flagra Francisco tocando
piano e o texto emocionado sobre o lançamento do disco do
pai, João Bosco.
Chico, aliás, começou a compor em família em 1996, aos 19
anos. No último disco do pai, Boca Cheia de Frutas, compôs
sete das nove letras do disco. “Minhas letras são boas, ele é
um gênio”, fala sobre o artista. Antes disso, em 2016, numa
homenagem aos 70 anos de João, Francisco escreveu num
artigo publicado pelo Globo: “Como seu filho, tenho sempre
orgulho em declarar que a maior herança transmitida a mim
por meu pai é o zelo, a dedicação permanente ao Gênio”.
E o que é esse Gênio? Ele explica: “Os antigos latinos chamavam
de Gênio o deus a que todo homem é confiado sob tutela na hora do
nascimento. Qualquer pessoa tem o seu. Ele é a potência em nós, a
capacidade que temos de nos ultrapassar, de experimentar a
suprema alegria de sermos o melhor que podemos ser.”
A capacidade de compreender o que somos e buscar a melhor
versão de nós mesmos, apesar de todas as adversidades. Ao que
parece, é mesmo o que Francisco vem buscando tanto como
intelectual público quanto homem que deseja transmitir esse
apreço a seus filhos. Estes, numa retribuição involuntária,
ajudam a amadurecer o Gênio do pai.

Na mesa, diversas referências literárias


O QUE FAZ A CABEÇA
DE FRANCISCO BOSCO

MARIUSZ KUBIK/DIVULGAÇÃO
DIVULGAÇÃO

NOSTALGIAS CANIBAIS,

AMREI-MARIE/DIVULGAÇÃO
DE ODORICO LEAL (ÂYINÉ),
pela maneira como o autor
tece uma crítica social com
ironia e comicidade.
LUCAS_DESTREM/DIVULGAÇÃO
DIVULGAÇÃO

ESCRITORES
FRANCESES
THE WHITE LOTUS, como Édouard
por ser corrosiva ao tratar de Louis, Didier Eribon
temas contemporâneos sem se e Annie Ernaux, pela
preocupar em transmitir algum maneira como fazem
ponto de superioridade moral. autoficção social.
Do embarque ao desembarque,
cada instante pode ser único.
MAIS TECH
MAIS POTÊNCIA
NO ESPORTE
TEXTO MATHEUS PICHONELLI
ILUSTRAÇÕES ANDRÉ STEFANINI

De lã geneticamente modificada aos sensores adesivos


que medem o nível de sódio no corpo após corridas
de dezenas de quilômetros: o que há de novo para
melhorar sua performance esportiva
A
ntes de sair para correr, confiro pela última vez se
não estou sem “roupa”. É como me sinto quando saio
sem os fones de ouvido — de condução óssea, que
acompanham o desenho da cabeça, para não caírem mais —
ou meu relógio de monitoramento. De quê? De tudo: tempo,
distância, frequência cardíaca, calorias despendidas etc. Sem
eles, não consigo chegar à esquina.
O figurino tem também os tênis de sola EVA, que me
permitem correr uma meia maratona aos finais de semana
sem dores, a camiseta que absorve suor, as meias que não
derrapam… Tudo isso é um sinal de que não sei mais praticar
esporte sem que meu corpo esteja vestido com alguma
tecnologia. Mesmo embaixo da água: quando tento me
desconectar do mundo, meu relógio informa quantas piscinas
ou quantos quilômetros em alto mar já percorri.
E, no futebol, só entro em campo depois de confirmar
presença em um app gerenciado pelo capitão da equipe. É lá
que confiro a escalação, vejo quem se lesionou, quem se
destacou no último jogo e outras informações que mudam o
rendimento nas quatro linhas.
Embora tudo isso pareça inseparável da prática hoje,
tecnologia e esporte não andam juntos desde sempre. Se assim
fosse, o jovem soldado grego Fidípides não teria caído morto,
de estafa, ao sair de Marathon e percorrer 40 km para avisar
em Atenas que o exército local havia vencido os persas em 490
a.C. Ele foi o primeiro maratonista da história, mas talvez seu
desfecho fosse diferente se calçasse sapatilhas de
amortecimento. Elas só entraram em jogo no século 20,
quando a indústria da manufatura de materiais já avançava. A
distância da maratona também aumentou milênios depois:
hoje, são 42.195 metros que compõem o percurso da façanha.

“Quando você ajusta a potência do equipamento, tem


menos oscilações de fadiga. Dá para saber quando
está se esforçando muito, seja porque não dormiu bem
ou porque o corpo está cansado”, diz Karen Pisacane
sobre o aparelho que usa para melhorar a performance
nas corridas
Assistir esporte pela TV é conferir as mudanças do próprio
tempo. Principalmente a partir dos anos 1980, quando o
desempenho de atletas de alto rendimento passou a ser
monitorado por sensores de movimento e câmeras de alta
velocidade. Tudo isso saiu da tela e passou para nossos corpos.
Os dispositivos permitem análises detalhadas dos movimentos
e o aprimoramento das rotinas de treinamento não só de
atletas profissionais, mas de todo mundo que colocou o esporte
em uma prateleira intermediária entre o hobby e a profissão.

Sensor de potência de corrida


É o caso da arquiteta Karen Pisacane, que em 2013 incluiu as
corridas na rotina e não parou mais. Os primeiros passos
foram dados com um chip acoplado em um tênis Nike — uma
aposta da fabricante de material esportivo que enviava
informações a um relógio da mesma marca. Mas as constantes
oscilações do GPS a fizeram migrar para o relógio Garmin. Em
2022, quando Karen disputou a sua primeira maratona, o
mundo já era outro. As tecnologias também.
Ela passou a correr com um tênis de placa de carbono, mais
leve e resistente — e que garante mais propulsão em dias de
prova. Mais recentemente, conectou no cadarço um sensor de
potência chamado Stryd, que trouxe do exterior. Em vez de
pace (ou “ritmo”, em tradução livre), o aparelho em forma de
presilha mede a força em diferentes etapas da corrida, como
uma subida. As informações são monitoradas pelos técnicos
da sua equipe.
As tecnologias também estão presentes no vestuário,
adaptado para as necessidades de cada prova ou treino: como
roupas que secam rápido, shorts com bolso (para levar água e
cápsulas de sal), meias “furadinhas” para dias de calor, viseira
e fones de indução — isso nos treinos, já que música arrisca a
segurança dos atletas, pode ser considerada doping, e foi
banida de algumas maratonas. Hoje, durante as provas, há
quem use até sensor de sal, uma espécie de adesivo para
medir a reposição de sódio em cada treino. Nem a família
Jetson iria tão longe caso quisesse sair do sedentarismo.
A popularização desse tipo de equipamento acompanha o
boom de corridas no mundo atual. Neste ranking, o Brasil
ocupa a segunda posição com o maior número de atletas no
mundo: 19 milhões, de acordo com um relatório da empresa
Strava, um dos aplicativos fitness mais usados no país. Em
2024, mais do que dobraram o número de clubes de corridas
no Brasil (aumento de 109%, contra 59% da média global). O
levantamento apontou ainda crescimento de 9% no número de
maratonas, ultramaratonas e percursos de longa distância em
território nacional.

Equipamento que mede braçada debaixo d’água


Touca, óculos e sunga são tudo o que os nadadores podem
levar para a água em dias de prova. O detalhe está na

“Hoje em dia é possível saber até o comprimento


de braçada. Os óculos possuem chips que enviam
um relatório completo, um monitoramento em
tempo real”, afirma Thiago Vinhas, nadador, técnico e
professor de natação
vestimenta, com sungas e macaquinhos (para mulheres) feitos
com materiais de contração, que ajudam na flutuação, na
compressão (para evitar atritos, fadiga e ajudar na
sustentação da musculatura).
Hoje, segundo o nadador e treinador Thiago Vinhas, a
tecnologia pouco mudou no vestuário, mas se concentra nos
treinos. Ele foi um dos primeiros profissionais do país a
introduzir nas piscinas o Sonr, um rádio com o qual consegue
se comunicar com até seis atletas ao mesmo tempo — sim,
enquanto eles nadam. A mensagem chega por meio de um
receptor que funciona como uma presilha de condução óssea
acoplada nos óculos. “Você consegue dar um feedback em
tempo real. Tem uma galera que usa tampão e toda vez que
chega, tem que tirar para ouvir. Com o rádio consigo corrigir
uma braçada e passar recado na hora, do outro lado da
piscina”, conta.
Há outras opções de monitoramento, como óculos
inteligentes que medem frequência, intensidade e esforço dos
movimentos.
Vinhas cita como exemplo o Smart Goggle (com dois G,
diferente da gigante de tecnologia), que possui um visor
embutido e um rastreador de atividades com feedback em
tempo real. Entre as novidades mais recentes está também o
SwimBETTER, um equipamento pequeno acoplado no dedo
capaz de medir até o traçado da braçada. Vinhas, um dos
precursores do gadget no Brasil, compara a quantidade de
informações disponibilizadas a um relatório médico, que nem
todos conseguem compreender — daí a importância de um
tradutor, também chamado de treinador.
No quesito vestuário, geralmente vendidos em sites ou em
stands das competições, há maiôs femininos feitos de fibra
ultra suave para evitar atritos, com escudo de suporte para
abdominais e tecnologia que evita a absorção de água,
deixando o corpo mais alto na piscina.

Viagem em duas rodas traqueadas


Idealizador do projeto Giraventura, o ciclista e escritor Nestor
Freire, de 58 anos, lembra de quando viajava de bicicleta com
a ajuda dos chamados “guias de trilhas”. “Era tudo manual e
desenhado, com dicas de onde buscar água a 300 metros de
alguma ponte”, conta. Hoje, já esteve de bike em 27 países, o
que inclui lugares inóspitos como a Islândia e a Amazônia,
onde encarou temperaturas impressionantes de 63􀚐C.
Em 2012, ele incorporou tecnologia de rastreamento em
viagens. E tudo mudou. Com um ciclocomputador, ele
consegue programar rotas com orientações até sobre a altura
dos terrenos que pretende percorrer. O dispositivo monitora
parâmetros como velocidade, direção, coordenadas, potência
e gastos calóricos. Foi dessa maneira que ele atravessou
sozinho — e em segurança — todo o Japão. Na bagagem, ele
leva também um rastreador via satélite que monitora sua
localização independentemente do celular.
Viagens do tipo exigem tecnologias específicas também no
vestuário. Em lugares quentes, o segredo é cobrir todo o corpo
com tecidos de tecnologia UV. No frio, capas do tipo “gore tex”,
com membranas impermeáveis, ajudam a proteger o ciclista
da chuva. E roupas de lã merino, feitas com ovelhas
modificadas geneticamente, ajudam a transpiração e
protegem de temperaturas de -10 ºC.
Diferentemente das bikes de corrida (hoje feitas de
carbono), o aço ainda é o material ideal para as bicicletas de
viagem. Mais leve do que no passado recente, além de aço, a
liga contém cromo e molibdênio e é considerada mais
adequada para travessias longas. Se a bicicleta quebrar no
caminho, ela pode ser consertada — afinal, o aço é uma
tecnologia universal dominada há séculos e que pode ser
manejada em qualquer oficina do planeta.

“O ciclocomputador monitora índices de saúde, como


os gastos de potência e energia. E me ajuda a mapear
e escolher os melhores caminhos. Isso é fundamental
para quem viaja sozinho, como eu. Foi assim que
atravessei o Japão de norte a sul”, conta o ciclista
Nestor Freire
CORRIDAS
SENSOR DE HIDRATAÇÃO
Adesivo aplicado na pele que
mede a quantidade de reposição
de água e sódio durante o treino

SMARTWATCH GARMIN
Mede frequência cardíaca,
distância, velocidade e
calorias perdidas

FONES DE
CONDUÇÃO
ÓSSEA
Propaga o som por
meio dos ossos da
face e não corre o
risco de cair

STRYD
Acessório tem o formato
de uma gota, com 5 cm
de comprimento. Preso
no cadarço com um
clipe, possui sensores
capazes de avaliar a
potência da corrida
FOTOS: DIVULGAÇÃO
TÊNIS DE PLACAS DE CARBONO
Composto por filamentos de carbono entrelaçados, produz
o “efeito gangorra” e ajuda a economizar energia. Segundo
especialistas, porém, a tecnologia do calçado pode estar
associada a aumento de lesões pela falta de tempo para que
os ossos e tecidos se ajustem aos movimentos de propulsão do
material. Por isso, é melhor usar apenas em dias de provas

NATAÇÃO
SWIMBETTER
Acessório usado na palma
da mão calcula força,
magnitude e direção
dos movimentos na
piscina, além de mapear
o “caminho” de cada mão
através da água

MAIÔ POWERSKIN
Feitos de fibra ultra suave,
evita atritos graças a um
escudo de suporte para
abdominais e tecnologia que
impede a absorção de água
SMARTGOGGLE
Possui visor embutido
e rastreador de
atividades, com acesso
a feedback em tempo
real e acompanhamento
de distância e tempo
durante os treinos

BIKE
LÃ MERINO
Material geneticamente manipulado
para otimizar o aquecimento corporal
enquanto absorve a transpiração. Usada

SHUTTERSTOCK
debaixo de casaco, como segunda pele

CICLOCOMPUTADOR
Ajuda a mapear todo o trajeto, indicando
os melhores (ou os mais desafiadores)
caminhos em longas viagens

CASACO DE
“GORE TEX”
Possui material
impermeável que
ajuda a enfrentar
o frio em dias
chuvosos

RASTREADOR
Permite a qualquer pessoa acompanhar a
viagem por meio de satélites, mesmo sem
conexão à internet
Luciana Sagioro
determinação na ponta
TEXTO FELIPE MACHADO

Aos 18 anos, ela se tornou


a primeira bailarina
brasileira a dançar na
lendária Ópera Nacional de
Paris e conta o projeto que
traçou para si na infância
para conquistar o mundo

CAROL LANCELOTTI / DIVULGAÇÃO


Q
uando Luciana Sagioro fecha os olhos, a memória mais
antiga que vem à sua mente é a primeira vez em que
assistiu a uma aula de ballet, aos 3 anos de idade, em
Juiz de Fora, Minas Gerais. Meninas enfileiradas, saias girando
no ar, rígidas sapatilhas de ponta desfilando passos quase
perfeitos. Fascinada por aquele ambiente, pediu aos pais que a
matriculassem na escola de dança.
A precoce bailarina, porém, percebeu que aquelas poucas
sessões semanais não seriam suficientes para realizar seu
sonho. Ela desejava se tornar a melhor bailarina do mundo e
sabia que deveria buscar excelência, profissionalismo e uma
técnica perfeita.
Aos 9 anos, reuniu a família e, durante o jantar, expôs suas
ideias. Apresentou as informações que havia pesquisado na
internet sobre o método da escola de ballet Petite Danse,
localizada no bairro da Tijuca, Zona Norte carioca. Ali ela
poderia realmente se preparar para alçar voos mais altos,
inclusive no exterior. Os pais ouviram aquilo e se
surpreenderam com o planejamento e a determinação da filha.
Afinal, ela era muito nova e partiria temporariamente
deixando a família em Minas para colocar seu plano em ação
no Rio de Janeiro. “Hoje é até engraçado, porque eu vejo
meninas daquela idade e penso: ‘Como consegui convencer
meus pais de que tinha que morar no Rio de Janeiro?’. Eu tinha
a convicção e a certeza de que a dança seria minha vida. Eu
vim para esse mundo com esse propósito”, reflete.
Ana Livia Delgado, mãe de Luciana, lembra que a
personalidade da filha foi decisiva para a família aceitar seguir
em frente com a ideia. “No primeiro momento foi um susto, mas
tive um instinto materno muito forte. Minha filha sempre
demonstrou muita responsabilidade. Uma funcionária de longa
data da família se ofereceu para acompanhá-la ao Rio, onde ela
ficou dos 9 aos 15 anos. Foi um grande desafio para todos nós”,
afirma Ana Livia, que também é mãe das gêmeas Paula e Sofia.

“Desde muito nova eu tenho muita força nas palavras.


Anotei o nome da escola que eu queria estudar, quem
eram os professores, quais seriam os concursos que eu
precisaria passar para conseguir uma bolsa de estudos
na Europa, o que sempre foi o meu sonho.”
Carreira internacional
O desejo de se tornar a melhor bailarina do planeta começou a
se realizar em abril de 2017, quando, aos 11 anos, ficou entre as
12 melhores do mundo no concurso YAGP — Youth American
Grand Prix, em Nova York. Era a primeira vez que viajava ao
exterior para dançar. “Foi uma grande responsabilidade. Sou
apaixonada pelo meu país e queria representar o Brasil da
melhor maneira. A competição nos EUA foi uma oportunidade
de mostrar a nossa arte e dar o meu melhor”.
Hoje, aos 18 anos, Luciana Sagioro é a primeira bailarina
brasileira com contrato vitalício para dançar na Ópera de Paris,
uma das companhias mais tradicionais da Europa. O ballet tem
como sede o belíssimo Palais Garnier, local conhecido no mundo
inteiro como o cenário onde se passa o romance “O Fantasma da
Ópera”, publicado por Gaston Leroux em 1910.
Luciana, no entanto, nunca se intimidou com o opulento
palácio, nem com suas supostas assombrações. Seu caminho até
Paris começou na Suíça, quando chegou em terceiro lugar no
prestigiado Prix de Lausanne, concurso que é considerado a
“olimpíada da dança”. A disputa é tão grande que ser convidada
para participar da competição já é uma vitória. São mais de três
mil bailarinos disputando apenas 70 vagas, uma rígida seleção
realizada por meio de vídeos enviados pelos candidatos.

Um ballet do século 17
A elogiada performance entre as Top 3 rendeu propostas para
estudar em oito escolas europeias. Mas a brasileira não quis
ouvir os detalhes nem sequer as condições oferecidas pelas
outras instituições — sua primeira e única opção sempre foi a
Ópera Nacional de Paris. Essa obsessão surgiu não apenas
graças à centenária reputação do grupo, mas a partir de um
desafio pessoal. O ballet fundado em 1669 pelo rei Luís XIV, o
“Rei Sol”, nunca havia recebido uma bailarina brasileira.
“Eu queria a tradição da melhor companhia e do melhor
corpo de baile do mundo. Queria estar no mesmo lugar que as
grandes estrelas que marcaram época. A técnica francesa

“Quando vi que tinha ficado entre as melhores do


mundo, percebi que estava no caminho certo.”
“Acho que o mais importante da minha trajetória, o que
mais me incentivou a correr atrás dos meus sonhos, foi
minha determinação. Sempre gostei de ser a melhor.
Não escolho o caminho mais fácil. Busco os desafios,
porque acredito que assim provo para mim mesma do
que sou capaz.”

CAROL LANCELOTTI / DIVULGAÇÃO


sempre me atraiu, desde criança, quando eu assistia aos vídeos
da Ópera de Paris no computador, no meu quarto”, conta.
Não é exagero dizer que Luciana dança o dia inteiro. Das 9h
às 11h30, o grupo se aquece com aulas de ballet. Após a pausa
para o almoço, voltam ao palco às 13h, para os ensaios que vão
até 18h30. Aí começam os treinos específicos, voltados para
solistas e passos detalhados do corpo de baile. Durante a
temporada, os espetáculos começam às 19h30 e podem chegar
até meia-noite.
Ela já dançou clássicos como “Giselle” e “O Lago dos Cisnes”,
apresentados pela companhia desde o século 19, agora se
prepara para “A Bela Adormecida”, de Tchaikovsky, um tour-
de-force com duas horas e meia de duração, e “Sylvia”,
coreografia originalmente criada por Louis Mérante. Ainda no
primeiro semestre, ela contará com uma presença especial na
plateia. A mãe, Ana Livia, estará na primeira fila.
Depois de ser aceita na escola da Ópera, novos sonhos
começaram a surgir. Talento para isso não lhe faltava, como
atestavam os próprios professores. A maior prova disso é que,
em vez de ingressar no primeiro dos três anos da formação,
ela entrou direto no último período. Mesmo assim, ficaria
pouco tempo entre as alunas.
Na primeira oportunidade, inscreveu-se nas audições para
o corpo de baile principal, junto com outras 200 bailarinas, a
maioria delas muito mais experiente. A mineira ficou em
segundo lugar entre as seis selecionadas, o que lhe rendeu o
tão cobiçado contrato vitalício e o cargo de ‘coryphée’, a líder
do corpo de baile.
A posição de destaque levou Luciana a se tornar um dos
grandes nomes mundiais da dança. Não é exagero dizer que
ela virou uma celebridade. Acumula milhares de seguidores
nas redes sociais, é convidada para eventos de gala, dá
autógrafos para os fãs. E como reage a isso? “Continuo com os
pés no chão. Parece que tudo na minha vida é perfeito, mas as
pessoas não imaginam o trabalho que teve por trás disso, o
que nossa família teve de sacrificar para que eu chegasse até
aqui. Tem muita coisa que eu ainda tenho que melhorar e que
quero alcançar. Acho que não cheguei nem aos 10% da minha
carreira.”
A ARQUITETURA
SUSTENTÁVEL DE
GREG BOUSQUET
TEXTO BARBARA DEMEROV
FOTO VANS BUMBEERS
Arquiteto francês compartilha sua trajetória marcada
pela reinvenção e a busca por projetos que integrem
natureza e modernidade

G
regory Bousquet já foi um idealista, mas hoje se vê de
outra forma: é um homem pragmático. O arquiteto
francês, que mora no Brasil desde a virada do século,
considera tal mudança de visão necessária diante das diferentes
fases da vida. “Para que nossos ideais aconteçam, é necessário
um caminho definido. Do contrário, a gente se perde.”
Ele prefere ser chamado de Greg (“só minha mãe me chama
de Gregory”), e sempre teve grandes ambições. Até os 14 anos,
queria ser piloto de avião como o pai. Mas, quando soube que
isso não seria possível devido ao fato de usar óculos (na época,
ainda não havia cirurgia para correção de grau), recalculou a
rota. Uniu seus interesses por arte com o gosto por desenhar e
voilà: seria arquiteto. Foi assim, com traços do pragmatismo
que já teimava em surgir desde cedo, que decidiu a profissão
que moldaria sua vida.
De uma pequena cidade francesa chamada Fontainebleau, foi
a Paris estudar arquitetura no Escola de Belas Artes e, após
alguns anos de estudos (e dois diplomas de mestrado com
apenas 25 anos, conquistados entre 1998 e 1999), saiu da Europa
rumo aos trópicos.
Em 2000, desembarcou no Rio de Janeiro ao lado de seus
colegas de faculdade e arquitetos, Carol Bueno, Olivier Raffaelli e
Guillaume Sibaud, com sede de ver e fazer acontecer. Ele
reforça que a utopia fez parte de sua formação como arquiteto,
antes de se confrontar com a dura realidade do mercado:
“naquela época, eu e meus amigos estávamos em contato com a
vanguarda internacional, vendo movimentos novos se criarem e
ainda um pouco perdidos no que queríamos ser.”

Acolhimento do Cristo Redentor


A razão pela qual Greg partiu direto para a Cidade
Maravilhosa logo após se formar foi o encontro com a

“Quando alguém entra na arquitetura, é para revolucionar


o mundo em geral. Você quer ser o melhor.”
REPRODUÇÃO / TRIPTYQUE.COM
REPRODUÇÃO / TRIPTYQUE.COM

Projeto na rua
Harmonia, em São Paulo,
de 2008: integração do
urbano moderno com
a natureza gera visuais
impactantes nos projetos
população jovem do nosso país, mais aberta e calorosa, aliada
ao fato de a França ter um processo mais complexo para
jovens arquitetos. “Tem um percurso de sair da faculdade,
integrar uma agência de arquitetura, depois conseguir
montar o seu escritório, começar a ter projetos, enfim… é um
processo muito demorado”, explica, reforçando ainda que o
Brasil acolheu o trio de amigos como profissionais e deu o gás
necessário aos jovens. Não demorou muito para Greg, Carol,
Guillaume e Olivier fundarem a Triptyque Architecture —
empresa cuja trajetória foi marcada por muito prestígio em
seus anos subsequentes.
O que começou como uma viagem de estudos passou a
render frutos. O trio conseguiu trabalhos em lojas, bares e
boates. Uma coisa foi levando à outra enquanto Greg se sentia
em casa, em contato próximo com a natureza exuberante do
Rio. “As chuvas, o calor, a vegetação… ver a cidade e a
arquitetura tentando existir em meio à natureza foi algo
impressionante para mim”, ele diz, citando o exemplo da
Lagoa, onde os prédios foram construídos e cabem no espaço,
mas a dona do lugar é a natureza.
E onde a cidade de São Paulo, local em que Greg atua hoje,
entra na história? Dois anos após chegar no Rio, o francês quis
confrontar a si mesmo com o tão falado caos urbano
paulistano. Acabou se apaixonando também.
Carol, Gui e Olivier o acompanharam na empreitada e,
juntos, abriram a sede da Triptyque na capital. Mais
especificamente, na Vila Madalena. Greg relembra que eles
aprenderam tudo e mais um pouco juntos, desde administrar
uma sociedade até fazer arquitetura e o comercial da
empresa. Em 2008, Guillaume e Olivier partiram para a França
a fim de expandirem os negócios com um escritório na Europa,
enquanto Greg e Carol ficaram no Brasil. Diversos projetos
residenciais e comerciais saíram do papel e ganharam a
atenção do mercado arquitetônico mundial.
Um dos projetos que impulsionou a empresa foi um edifício
na Rua Harmonia, na Vila Madalena, em 2008. “Na época, era
um ateliê de artistas. Foi a primeira vez em que integramos o
pensamento sustentável de uma fachada vegetalizada, e como
ela poderia funcionar de uma forma fácil, low tech.” Deu certo,
DIVULGAÇÃO

A Casa Pedra, na
Fazenda Boa Vista,
reinterpreta a
moradia rural em
DIVULGAÇÃO

uma construção
contemporânea
DIVULGAÇÃO
O projeto é inspirado em quatro tonalidades de pedra em apenas um pavimento

pois a repercussão foi imediata e colocou os arquitetos sob os


holofotes. Greg conta que, nos anos 2000, por não se falar
muito sobre sustentabilidade, o projeto impactou o mercado.
“Com aquele prédio mostramos nosso forte posicionamento.”
Os anos seguiram com reconhecimentos dos mais diversos,
incluindo prêmios em eventos ao redor do mundo.

Um recomeço
No início de 2021, Greg e seus sócios lidaram com a morte de
Carol, que sofria de câncer cerebral. Tal perda foi a
responsável por uma mudança considerável em sua carreira.
“Decidi criar meu próprio caminho e acabou sendo um
renascimento, de certa forma. De recomeçar, criar uma nova
marca, um novo posicionamento e uma nova identidade.”
Naquele ano, Greg deixaria a Triptyque. Em seu lugar, nascia a
Architects Office (AO). Após um tempo com a sede no centro da
cidade, Greg retornou às memórias da Vila Madalena e fincou
as raízes da empresa ali.
DIVULGAÇÃO

Na Bahia,
estrutura
para
restaurantes
integrada
com áreas
abertas
e verdes:
harmonia e
proporção
DIVULGAÇÃO

focados em
bem-estar
“Architects Office é um nome plural porque são vários
arquitetos dentro de um escritório. Acredito muito nesses
processos que não são só individuais”, explica. Para Greg,
arquitetura é técnica e arte. Uma é muito rigorosa e a outra
vem dar aquele toque de ‘acidente’. Ela vem de dados
intangíveis.” Os projetos, feitos em 16 estados do Brasil e, em
sua maioria, residenciais, são assinados em conjunto. Greg
brinca que esses estados, do Norte ao Sul, representam 16
países: “são culturas, tempos, climas e povos diferentes e nós
precisamos nos adequar a eles”. Há, ainda, projetos no Peru,
Chile e em Portugal.
Na atual fase profissional, ele volta os olhares às questões
climáticas e à importância de reintegrar a natureza às
grandes construções que a AO assina. “Caso contrário, estamos
criando um monstro”, define. Reforça que a Architects Office
idealiza projetos pensando na arquitetura sustentável por
escolha, mas que daqui a algum tempo ela será obrigatória.
“Ainda estamos nesse processo de começar a ter leis,
incentivos e demanda, além de quebrar preconceitos.”
Greg aponta uma grande tendência mundial: a madeira
engenheirada, muito mais sustentável e que já vem com
crédito positivo de carbono.
Para o futuro, ainda tem sonhos. “Eu gostaria muito de
projetar um prédio público, fazer uma ópera, por exemplo, um
espaço que não seja privado. Oferecer uma experiência de boa
arquitetura para a população”, conta. O francês frisa que não é
o dinheiro que faz a diferença na arquitetura, mas sim as boas
ideias. Ele quer deixar sua marca. “É algo difícil, mas não
impossível”, diz.

“Gosto das contradições de São Paulo, da força que


a cidade tem. Ela não é tão linda assim, então é muito
mais difícil amá-la à primeira vista, mas uma vez que
você a entende…”
Luisa Strina
meio século na arte
TEXTO JOYCE PASCOWITCH
FOTOS ALILE DARA ONAWALE
Uma visita à galerista que há décadas movimenta
o mercado de arte e se tornou um dos grandes
nomes da área, no Brasil e no mundo

E
ntrar na casa de Luisa Strina em seu aristocrático
apartamento no bairro de Higienópolis, São Paulo, é entrar
na sua história, no seu mundo e na maneira como ela
enxerga a arte, universo do qual faz parte há mais de 50 anos.
Luisa é uma das maiores galeristas do Brasil, da América Latina
e talvez do mundo.
Nasceu de uma família tradicional de origem italiana,
estudou nos melhores colégios de São Paulo. Fez cursos livres
de arte e bem mais tarde virou essa potência no mercado. Tem
uma agenda supermovimentada, é muito requisitada não só
nos eventos ligados à arte, mas nas rodas mais interessantes
da cidade.
Ela se cuida, faz exercícios, se veste com apuro, usando
marcas que têm muito a ver com ela. É uma grande
colecionadora de móveis de Lina Bo Bardi. Tem humor e
sofisticação. Escolhe bem suas joias — que podem ser de
Roberto Burle Marx ou do italiano Attilio Codognato —, não
ostenta e não dá qualquer sinal que não seja o de extremo bom
senso e cuidado, tanto com ela como com as pessoas a seu redor
e seus clientes. Como uma espécie de amuleto, mantém em seu
jardim de inverno uma muda de café enorme, de 1985, cuidada
como um bebê por Lucinda, sua fiel escudeira.
Não é à toa que, ao completar 80 anos de idade e 50 de
galeria, Luisa virou uma grande reportagem no jornal The New
York Times. Confira trechos de nossa conversa:

O que você aprendeu nesses 50 anos de galeria?


Aprendi que tem que ter resiliência, ficar firme nas horas
difíceis, como nas crises econômicas e quando surgem
problemas com os artistas e clientes, que frequentemente
acontecem. Na época do Plano Collor, eu cheguei na minha
galeria e vi que tinha trabalhos importantes que não valiam
mais nada. Achei que nunca mais ia vender nada. Nesse tempo
todo, fiz grandes amigos entre os compradores. A galeria me
abriu o mundo, tive a oportunidade de me encontrar com
pessoas diferentes, que eu não conhecia. E internacionalmente,
com pessoas muito interessantes como curadores, as pessoas
das feiras pelo mundo como a de Basel e tantas outras.

O que você sentiu quando se descobriu tema de uma


grande reportagem no The New York Times?
Levei um susto enorme quando vi. Eles sempre fizeram
reportagens sobre a galeria, mas coisas menores. Quando me
procuraram, pensei que era uma a mais, mas não! De repente
você fica conhecida por todo mundo, é até um certo incômodo:
as pessoas te cumprimentam e você não sabe exatamente
o quanto a conhece, fico preocupada. Também não tenho
memória boa, o que nessas horas atrapalha bastante. Mas, na
verdade, eu já estava acostumada com clientes internacionais…

Quando você notou que a sua vida tinha a ver com arte?
Estudei no Des Oiseaux, uma escola bem tradicional, fiz
cursos livres de arte na Faap, pintura, desenho, porque não
tinha nenhuma faculdade de arte naquela época. Se tivesse,
com certeza eu faria, mas acabou que fui fazer psicologia. No
segundo ano da faculdade, tive de abrir um sapo. Fui embora
e nunca mais voltei. Nessa época, frequentei a Escola Brasil,
formada por Luiz Paulo Baravelli, Carlos Fajardo, José Rezende
e Frederico Nasser. Baravelli me pediu para ajudar a vender as
obras dele e acabei vendendo dos quatro. O estúdio de Baravelli
era na Oscar Freire com a Padre João Manuel, o aluguel estava
ficando muito caro e então ele me pediu para abrir uma galeria
para vender as obras deles: foi aí que tudo começou. Eu abri.

E como era?
Ah, antes eu era mais livre. Mas foi aí que começaram os
compromissos. Minha primeira assistente foi Doris Bicudo,
cheia de charme. Tanto que um dos playboys da época, o
polêmico Oswaldinho Vidigal, se apaixonou por ela e chegava
em um cavalo perguntando por ela. Isso na rua Padre João
Manuel! Tempos depois, chamei o arquiteto Isay Weinfeld para
uma reforma de ampliação com a parte de baixo. Fiquei lá até
2010, quando me mudei para este atual espaço, onde estou hoje.
Veio de alguém de sua família sua inspiração para as artes?
Minha mãe gostava de antiguidades. O antiquário Fernando
Milan ia muito na nossa casa, assim como o marchand Ralph
Camargo. Eu também acabava encontrando artistas como
Wiilys de Castro e Hércules Barsotti. Foi daí que eu comecei a
me interessar mais pelo mercado de arte. Quase fui trabalhar
com Ralph Camargo, muito famoso naquela época. Eu queria
muito, mas acabou não rolando.

Como você vê as bienais e as feiras de arte pelo mundo afora?


A Documenta e Bienal mostram o olhar do curador sobre o
mundo. As feiras são mais comerciais, começaram na verdade
em Basel, cidade que tem muitos colecionadores mas onde
ninguém ia, nada acontecia por lá. Essas mostras são o retrato
do que está acontecendo no mundo em termos de arte. Eu
pessoalmente reservo obras para levar para a Art Basel em
Paris, Miami e em Basel mesmo. É lá que estão os grandes
colecionadores. Em Paris, a própria cidade oferece muito.
Então, o comprador vai frequentemente. A de Miami atrai
turistas e latino-americanos em geral.

O que você aprendeu em suas viagens pelo mundo?


Viajar é a coisa mais importante na vida: conhecer pessoas,
mitos. Ver novos lugares. Tem cidades que a gente vai dez
vezes e são dez viagens diferentes: isto acontece com Paris, e
Berlim, acontece na Sicília. Conheço o Brasil, mas não conheço
o Amazonas, nem o Maranhão. Viajo muito, mas a trabalho.
Tenho vontade de ir a Israel.

Como era o mundo da arte quando você começou?


Era outra coisa: os clientes vinham, passavam a tarde
conversando, a gente ia tomar lanche ao lado da galeria, no
Frevinho. Cada dia eu ia com um homem e tinha medo que
eles achassem que eu era tipo… puta! Nessa época, as pessoas
se vestiam, se arrumavam para ir às exposições. Eu tinha

“Viajar é a coisa mais importante na vida: conhecer


pessoas, mitos. Ver novos lugares. Tem cidades que a
gente vai dez vezes e são dez viagens diferentes.”
A conversa de Joyce com
Luisa na casa que acumula
obras de artistas como Cildo
Meirelles (acima delas, na
parede, e acima, com fundo
branco) e Tunga (azul claro
sobre a mesa). À dir., as
sandálias de Hans-Peter
Feldmanm e uma das obras
de Lygia Clark
que apagar as luzes para elas irem embora. Era sempre um
acontecimento. O cliente chegava, olhava a obra e comprava.
Era mais pessoal. Não existiam os advisors, que hoje são
intermediários entre os clientes e as galerias. Cheguei a vender
uma obra de alguns milhões de dólares para um museu norte-
americano. Também cheguei a ter o Abaporu na minha mão,
quando o então proprietário Raul Forbes ligou para mim dizendo
que queria vender. Liguei para o Eduardo Constantini, eu ia
ganhar 6% de comissão. Foi uma grande lição sobre negociação.
Apesar de eu não ter concluído a venda — ele foi a leilão em Nova
York —, eu teria condição de fechar esse negócio.

E os colecionadores? Como eles eram antes e como são hoje?


Antes eles eram colecionadores. Hoje não são, são
compradores de arte. Interessados mais em fazer negócios.
Tem gente que compra para fazer parte da decoração ou para
ficar pendurado na parede. Alguns compram como se fosse
uma mesa ou uma poltrona.

O que é necessário para uma coleção ser considerada


relevante?
Tem de ter um conceito. Uma opinião, um equilíbrio das
obras entre elas. Tem de estudar muito. É bem mais fácil
chamar alguém para ajudar, um advisor sério. A pessoa
tem que aprender. Colecionador de verdade é aquele que
realmente se interessa.

Quais são os artistas contemporâneos que a gente tem que


ficar de olho?
Eu pessoalmente sugiro alguns dos meus: Marcius Galan,
Alexandre da Cunha, Fernanda Gomes, Panmela Castro.

Como era vista a arte brasileira lá atrás e como é vista nos


dias de hoje?
Lá atrás, era vista como influenciada pela arte europeia: os
modernistas brasileiros como Tarsila do Amaral, inspirada

“Quando olho para trás e vejo os últimos 50 anos, penso


que me diverti muito.”
Acima, o quadro de
Francis Alÿs, um dos
bordados da própria
Luisa — que aprendeu
o ofício na infância —
e uma das estátuas de
Conceição dos Bugres
por Fernand Léger, por exemplo. Hoje é mais espontânea,
mais autêntica, brasileira sem tanta influência norte-
americana ou europeia.

O que você tem a dizer sobre arte que usa ferramentas


digitais?
Tenho problemas com isso. Não me interesso. Pode ser até que
isso venha a se tornar uma coisa importante, mas até agora,
não vi nada que me interesse.

Quais são os artistas brasileiros que você acha que viraram


“clássicos” e são sempre valorizados?
Tunga, Cildo Meirelles e Ernesto Neto são alguns deles. Adriana
Varejão também tem mercado internacional.

Quando você pega na mão o livro que você lançou para


comemorar os 50 anos da galeria, o que você pensa?
Penso que eu me diverti muito.

Como você escolhe as obras que estão na sua casa?


Eu mudava muito minha curadoria até que, aos poucos, alguns
amigos e curadores me ajudaram. Susana Steinbruch, por
exemplo, me ajudou com o corredor que agora está todo com
obras em branco. No living, foi Adriano Pedrosa quem me
ajudou com muitas obras de Cildo Meirelles.

Você tem alguma tática especial para vender?


Quando alguém chega e quer comprar uma obra determinada,
eu vou lá e vendo. Quando ele quer minha opinião, eu dou,
mas sei que não vou mudar a cabeça do comprador. Quando
eu recomendo um artista e o cliente colecionador ainda está
indeciso, sugiro que ele compre. E se ele perguntar onde ele vai
colocar a peça, porque ele não gosta muito, eu respondo: guarde
debaixo de sua cama durante um tempo, porque depois, tenho
certeza que você vai gostar.

“Antes, o cliente passava o dia na galeria, era mais


pessoal. Hoje, há os advisors que intermediam
as compras.”
DIVULGAÇÃO

Arte com conceito


de Pedro Barbosa
TEXTO ANA BARDELLA

Dono de um dos maiores acervos de arte conceitual


da América Latina, o colecionador faz questão de
manter suas obras em contato com pesquisadores
e com o público
N
os últimos 90 dias, Pedro Barbosa passou por quatro
continentes. “Só não fui até a Oceania porque é longe,
senão teria dado um pulinho lá”, brinca. Dono da coleção
moraes-barbosa, que reúne uma curadoria extensa de obras
de arte nacionais e internacionais, ele viaja o mundo a trabalho
e passa apenas um terço do ano no Brasil. Ainda assim, sua
cidade preferida é Nova York, onde mantém uma base para se
hospedar. “Lá as coisas realmente acontecem e geram impacto.
Sou um americanófilo, apesar das críticas [ao país].”
Educado em uma família ligada à arte, ele considera a
convivência o ponto de partida de sua carreira como
colecionador. E exemplos não faltaram: acompanhado da
irmã, que mora em Washington, costumava frequentar
museus em diferentes estados norte-americanos na
juventude. Além disso, é primo de primeiro grau da galerista
Raquel Arnaud, de quem adquiriu sua primeira obra, “Petite
Ronde Olive”, do venezuelano Jesús Soto, representante da arte
cinética, em 1999.

De geração em geração
Formado em engenharia química, Pedro trabalhou com
investimentos por mais de duas décadas até mudar de
profissão. A ideia inicial ao fazer as aquisições era montar um
ambiente em casa no qual os filhos — Ana e Luiz, que têm 19 e
21 anos atualmente — pudessem ter contato com as artes.
Deu certo: hoje, os jovens conhecem diversos artistas,
participam de eventos e gostam de estudar as obras.
“Quando se inscreveu para universidade, Luiz fez uma
análise sobre ‘Merda de Artista’, do italiano Piero Manzoni. É
uma lata fechada que, teoricamente, tem as fezes dele. Só que
ninguém abre, porque, se abrir, a obra está destruída e perde
seu valor. Ele criou ensaios a partir desse conflito”, conta.
Pedro e a esposa, Patrícia Moraes, compartilham a prática de
uma educação que prioriza a consciência crítica. “E hoje estão
muito bem-preparados”, garante. Ou seja, os frutos que
plantaram estão sendo colhidos.

Colecionismo e conceito
Extrapolando a vida íntima, as obras começaram a fazer
sentido juntas. E, com o passar do tempo, se tornaram uma
coleção robusta e coerente. “Eu não compro de tudo, só coisas
que adicionam ao todo. Se vem uma nova tendência, pode ser
que não me interesse. Não procuro por isso.” Quando entra em
contato com um artista pela primeira vez, por exemplo, o que
mais faz brilhar os olhos do colecionador não é a estética. “Só
o bonito não interessa, interessa o que está por trás. Se vierem
os dois, melhor.”
O conhecimento de Pedro sobre as ciências exatas impacta
diretamente na escolha do acervo. “A relação entre tempo e
espaço é muito explorada na arte conceitual, que é o mundo
que me interessa. Nela, os números são relevantes. Números
são o veículo com o qual você expressa a quantidade de
tempo”, afirma. Mas sua atuação é bem mais ampla do que
manter um olhar apurado e embarcar no processo de compra
das obras. Até nisso existe um porquê.

Um arquivo dinâmico
Outro diferencial da coleção são as bolsas disponibilizadas
para que artistas, curadores e pesquisadores estudem temas
de seu interesse no arquivo. A ideia é que, ao final desta
imersão, que dura em média seis meses, entreguem um
conteúdo de domínio público — seja um texto, um livro, um
vídeo ou uma exposição. “O material que eu tenho, ninguém
tem no Brasil. Provavelmente nem na América Latina. É único,
com informações e conexões infinitas. Para as pessoas
engajadas com a arte conceitual, é uma oportunidade
importante de acesso.”
Além de manter o dinamismo no arquivo, a investigação
cria o que ele define como uma “bola de neve”. “Quem participa
da pesquisa deixa um conhecimento que será acessado pela
próxima pessoa que entrar. No arquivo, você sabe onde entra,
mas nunca sabe aonde vai sair.”

“Na minha casa, havia pouco preconceito e


muita liberdade para se discutir as coisas. Por isso,
sempre foi fácil para mim entender o universo em que
eu estava, tanto do ponto de vista social, quanto político
e econômico. Isso fez a coleção ter um corpo que
dialoga entre si.”
Dial-A-Poem Brasil
No final dos anos 1960, o poeta estadunidense John Giorno
idealizou o Dial-A-Poem, um projeto artístico com uma
proposta simples: ao ligar para um determinado número, você
escuta uma poesia declamada do outro lado da linha. A
coleção moraes-barbosa foi a responsável por trazer o projeto
para o Brasil.
Aqui no país, ao discar 0800-01-76362, o ouvinte se depara
aleatoriamente com um dos 54 poemas selecionados, que são
lidos por poetas e escritores. Com curadoria de Marcela Vieira
e apoio da Vivo, as poesias têm a sensibilidade como recorte
curatorial. “É diferente de abrir um livro e ler. E a capilaridade
do telefone é infinitamente maior em termos de conseguir
atingir o público”, afirma Pedro. Na sua visão, o que explica o
volume de ligações, que chega a ser dez vezes maior aqui do
que nos Estados Unidos, é a carência cultural. “No Brasil, há
uma fome por cultura. Quando você disponibiliza isso, as
pessoas são vorazes e vão atrás. Um conta para o outro e se
torna algo viral”, comenta.

DING MUSA

À esquerda, cartaz da XIV Bienal de São Paulo, de 1977, produzido pelo


carioca Wlademir Dias-Pino. Ao lado, retrato do artista alemão Timm
Ulrichs, de 1971
“Acredito que você não compra uma obra de arte.
Você recebe o direito do artista de cuidar e de mostrar
esse trabalho. O valor financeiro é para isso. Essa é a
minha relação com as obras, não é patrimonialista. Por
isso criamos o espaço na Travessa Dona Paula [em
Higienópolis, São Paulo]. Lá divulgamos as obras que
fazem parte da coleção.”
DING MUSA

Desde 2021, a coleção ocupa um espaço na Vila Operária da Travessa Dona


Paula, em Higienópolis, onde organiza mostras para o público
Para se perder e
se encontrar no
verão europeu
TEXTO MIRIAM GIMENES
JAQUELINE SOUZA/ DIVULGAÇÃO
Ornella Maggi, uma das proprietárias da Original Miles,
sugere quatro ilhas para aproveitar o verão europeu
sem pressa, em ritmo de slow travel

O
Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, escreveu
um conto em que um homem busca o autoconhecimento
e usa uma ilha como metáfora. “Quero encontrar a ilha
desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver.” Não é
preciso ser um personagem do escritor português nem usar de
figura de linguagem para conseguir o mesmo feito, como sugere
Ornella Maggi, que, junto com a irmã, Milena, é proprietária da
Original Miles, uma boutique de viagens fundada em 2015.
Com a proximidade do verão europeu, que vai de junho a
setembro, Ornella sugere destinos para quem busca tranquilidade
e imersão no estilo ‘slow travel’: Menorca (Espanha), Córsega
(França), Hvar (Croácia) e Folegandros (Grécia). “Não é só sobre
viajar, mas ter um propósito para a viagem, e para desacelerar do
ritmo frenético em que vivemos”, diz, destacando que todas essas
ilhas são de fácil acesso, por avião ou ferry, e oferecem um clima
agradável, especialmente se visitados no início ou no final da
temporada, seja maio ou setembro.

Hvar
O outro lado da ilha
Conhecida como uma das mais badaladas da Croácia, Hvar
(pronuncia-se “Ruar”), no Mar Adriático, pode surpreender
quem decidir desbravar seus predicados intangíveis. “Apesar
de famosa pela vida noturna, poucos sabem que do outro lado
da ilha ainda há praias intocadas e um hotel onde o tempo
parece parar”, ressalta a especialista. É o Maslina Resort que
promete — e entrega — privacidade e conforto absoluto.
Todos os seus 53 quartos têm vista para o mar. E que mar.
A ilha, que no passado era destino para quem tinha
problemas nos pulmões, desenvolveu um turismo baseado na
saúde e recuperação, filosofia que permanece até hoje em
razão de seu ar puro, plantas medicinais e águas no tom
azul-turquesa, em que o visitante renova o corpo e a alma. É
assim em Dubovica Beach, uma das mais famosas, tranquila e
com uma charmosa casa de pedra à beira-mar.
Para quem busca comodidade, Pokonji Dol oferece bares e
restaurantes à beira da praia, ideal para um dia de
relaxamento. Já as Ilhas Pakleni, acessíveis de barco, são um
refúgio para quem deseja explorar enseadas isoladas e praias
escondidas, como a deslumbrante Palmizana, cercada por
vegetação mediterrânea e restaurantes sofisticados.
A experiência gastronômica em Hvar é um deleite para os
sentidos, porque combina vinhos com pratos da culinária
dálmata, típica da região da Dalmácia, que prima por
ingredientes frescos. A ilha abriga vinícolas renomadas, como
a Zlatan Otok e a Tomić Winery, com degustação de vinhos
croatas premiados, inclu indo o rico Plavac Mali, um dos tintos
mais famosos da região. Para acompanhar, a gastronomia
local oferece o polvo à la peka, cozido lentamente sob uma
tampa de ferro com batatas e ervas, além de frutos do mar
frescos e pratos aromatizados com trufas.
E aqui vale a dica: restaurantes à beira-mar proporcionam
uma experiência única, pois é possível saborear essas iguarias
com vista para o Mar Adriático, tornando cada refeição em
Hvar uma experiência inesquecível.
DIVULGAÇÃO

O Maslina Resort, em Hvar, com suas águas calmas na baía


O mar hipnotizante de Menorca é o
ponto alto da experiência turística

Playlist para curtir a viagem sem pressa


Além de ser uma expert em viagens, Ornella
também é DJ, e atua em festas e eventos dentro e
fora das fronteiras brasileiras. Para dar o tom dos
PELAYO ARBUÉS / UNSPLASH

destinos que indicou, preparou uma set list para


quem quer usar todos os sentidos durante o verão
europeu. Aumente o som e desfrute:
Escute aqui
FOLEGANDROS
Retiro no paraíso
Se a ideia é fugir de aglomerações e descansar em um lugar
com ares de paraíso, a sugestão é a ilha de Folegandros, na
Grécia, banhada pelo Mar Egeu. Mais tranquila que a badalada
Mykonos, tem apenas 600 habitantes e pode ser percorrida a
pé. Guarda as características das casinhas brancas gregas,
adornadas pelas primaveras floridas, lá conhecidas como
bougainvilles. “Explorar Folegandros no ritmo do slow travel é
mergulhar na autêntica Grécia, onde ruas de pedra levam a
vilarejos brancos intocados, o mar brilha sem pressa e cada
pôr do sol vira um ritual de contemplação”, resume Ornella.
A capital, Chora, fica no topo de uma colina e é quase toda de
ruas estreitas e pedras, com cafés charmosos, tabernas e
boutiques. De lá é possível fazer uma trilha até Agali Beach, e
receber como prêmio as suas areias douradas e águas cristalinas.

A paisagem na
Grécia é revigorante

DIVULGAÇÃO
Outra opção é ir a Kastro, uma antiga fortificação
veneziana, que dá vista para a costa da ilha e falésias, ideal
para contemplar o pôr do sol. Vale a pena dedicar um
tempinho também para visitar o Museu do Folclore, que
preserva a cultura da ilha. E, para desfrutar da gastronomia
local, a pedida é subir ao vilarejo de Ano Meria, repleto de
restaurantes que servem carro-chefe, o Matsata, uma massa
artesanal com carne. Também procure experimentar o queijo
típico Souroto e o vinho local.
Para se hospedar, a sugestão é o Gundari, um resort de luxo
situado no alto de um penhasco com vista e experiências
inesquecíveis — entre elas workshops de meditação, cura
energética e ioga. E o chef com estrela Michelin Lefteris
Lazarou oferece aos hóspedes o que há de mais refinado na
culinária grega, como frutos do mar e da terra.

Gundari,
o local
ideal para
hospedagem,
localizado
sobre um
penhasco
DIVULGAÇÃO

com vista
de cinema
MENORCA
Encantamento ao ar livre
A charmosa Menorca, uma das ilhas Baleares da Espanha, é um
destino perfeito para quem quer relaxar. Diferente de Ibiza e
Maiorca, um tanto mais agitadas, ela conta com mais de 100
praias — muitas delas pouco exploradas —, com destaque para
Cala Macarella e Cala Macarelleta, que têm águas azul-turquesa e
areias brancas cercadas por falésias. Outras enseadas também
indicadas são Cala Mitjana, Cala Pregonda e Cala Turqueta, ideais
para curtir o dia ou praticar esportes aquáticos.
Para quem busca uma pitada de aventura, o Camí de Cavalls
oferece passeios off-road que revelam a história e a rica
biodiversidade da ilha. Outra atração imperdível é a Torre del
Ram, que tem uma vista deslumbrante de Ciutadella, uma
cidade histórica com charmosas ruas de pedra. Vale a pena
passar o dia por lá, absorvendo o ambiente local, explorando
lojas e mercearias de bairro e visitando pontos icônicos como
o Mercado Municipal, a imponente Catedral de Santa Maria de
Ciutadella e o Convento de Santo Agostinho.
Maó (Mahón), a capital da ilha, abriga um dos maiores
portos naturais do mundo, disputado por diversas potências
ao longo da história. Lá está o Museu de Menorca, em um
antigo convento franciscano, e a Fortaleza de La Mola, uma
construção militar do século 19 que tem uma visão panorâmica
singular da ilha. Outra indicação de visita é ao Talatí de Dalt,
um dos muitos sítios arqueológicos talayóticos da ilha, que
revelam vestígios de civilizações pré-históricas. O termo
talayótico se refere à cultura pré-histórica das Ilhas Baleares,
caracterizada pela construção de grandes monumentos de
pedra, chamados talayots, usados para defesa, rituais e outras
funções sociais.
Ornella recomenda o Son Vell, um hotel de luxo situado em
uma mansão do século 18, rodeado por 180 hectares de natureza.
A hospedagem oferece experiências como yoga, equitação e
cinema ao ar livre. A gastronomia local — que, segundo Ornella,
é toda deliciosa — tem pratos como a caldereta de langosta e o
famoso Gin Xoriguer, que complementam a experiência,
tornando Menorca ainda mais encantadora.
MOR SHANI / UNSPLASH

A natureza é a
protagonista de
ilha espanhola
CÓRSEGA
Ilha da beleza
A combinação de praias paradisíacas, montanhas perfeitamente
desenhadas e vilarejos charmosos não poderia ter dado à
Córsega, na França, outro apelido: ilha da beleza, a quarta maior
do Mediterrâneo. Mãe de um filho famoso, Napoleão Bonaparte, o
destino é formado por várias cidades e as preferidas dos
visitantes são a capital Ajaccio (onde está o Museu Casa
Bonaparte), Calvi, Bastia, Bonifacio e Porto-Vecchio.
DIVULGAÇÃO
Entre as praias mais indicadas estão Palombaggia e
Rondinara, de águas cristalinas e areias brancas, Santa Giulia,
ideal para esportes aquáticos, além das selvagens e preservadas
Saleccia e Lotu. E quem ficar entediado de apenas ficar
contemplando o mar, também pode se aventurar em trilhas entre
montanhas: lá está a GR20, uma das mais desafiadoras da
Europa, que tem 180 km de extensão pode levar 15 dias para ser
concluída, mas que tem paisagens que fazem valer o ‘sacrifício’; a
para o Monte Cinto, bem mais leve, com quase 5 horas para subir
e 3 para descer; e caminhadas pelo Vale Restonica.
Além disso, a Córsega tem um charme singular, a exemplo de
vilarejos como Bonifacio, com grutas e falésias, e Corte, onde é
possível explorar ruelas históricas, saborear a deliciosa
gastronomia local e conhecer mais sobre a fascinante cultura
corsa. “A gastronomia é maravilhosa, tudo ao estilo
Mediterrâneo, com frutos do mar, legumes, salada… No hotel
Domaine de Murtoli, um 5 estrelas com o perfil de agroturismo,
há até horta particular. É um dos poucos a ficar aberto quase o
ano todo na ilha, com cenário digno de conto de fadas. “É um
detox mental e corporal”, reitera.
DIVULGAÇÃO

O Domaine de Murtoli fica aberto o ano todo, tem horta particular e oferece
detox mental e físico
Direção Criativa Produção Executiva
Christian Gebara Geórgia Costa Araújo
Comitê Editorial Coordenação executiva
Alex Salgado, Dante Rafaela Akkari
Compagno, Marina Daineze,
Textos
Flávia Carneiro, Raphael
Alexandre Petillo, Ana
Mesquita, Sabrina Romero
Bardella, Barbara Demerov,
Edição Executiva Cíntia Marcucci, Felipe
Isaac Trabuco Machado, Joyce Pascowitch,
Lucas Vasconcellos, Luciana
Relações Públicas
Bugni, Matheus Pichonelli,
Patrícia Lisboa
Miriam Gimenes, Rodrigo
Estratégia de canais e Casarin, Rodolfo Rodrigues
distribuição
Mídias Sociais
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Maria Rosa Teles, Maria
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Antônia Lisboa, Olivia Murin,
Direção de conteúdo Emanuel Antônio
Luciana Bugni
Produção
Edição de arte Coração da Selva Transmídia
Isabella Pisaneski S/A
Identidade visual
André Stefanini e Cristiano
Gonçalo

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