Advocacia Pública do Município de Porto Alegre
Procuradoria de
Pessoal
Estatutário
1º Juízo da 5ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central da Comarca de Porto Alegre
Juiz de Direito
Nº do processo 5253389-26.2024.8.21.0001. Ação Civil Coletiva
Autor Sindicato Médico do Rio Grande do Sul
Réu Município de Porto Alegre
1. A Advocacia Pública do Município de Porto Alegre, por seu Procurador Municipal, no
interesse e na defesa do referido Ente da Federação, em atenção ao despacho constante no evento 4
e à citação realizada no evento 6, venho, respeitosamente, apresentar contestação, pelos motivos de
fato e de direito que passo a expor.
I – DO PAGAMENTO DAS CUSTAS
2. O pagamento das custas ao final do processo é uma medida excepcional, que deve ser
adotada apenas quando presentes circunstâncias específicas que justifiquem tal decisão.
3. Respeitosamente, no presente caso, não se identificam elementos nos autos que justifiquem
o deferimento dessa medida excepcional.
4. O Sindicato não pleiteou a gratuidade da justiça e tampouco apresentou qualquer
comprovação documental que demonstre a sua insuficiência financeira, condição indispensável para
a concessão do benefício processual de isenção das custas, ainda que diferida.
5. Dessa forma, não havendo indícios que comprovem a hipossuficiência econômica do
Sindicato, não há justifica para deferir o pagamento das custas ao final do processo.
6. Além disso, considerando que o valor atribuído à causa é razoável (R$ 13.275,00), não se
afigura gravoso para o Sindicato arcar com o pagamento das custas processuais, sem prejuízo para
sua capacidade financeira.
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7. Portanto, diante da ausência de elementos que comprovem a fragilidade econômica do
Sindicado, bem como pela razoabilidade do valor das custas, não há que se falar em adiamento do
pagamento das custas para o final do processo.
8. Assim, requeiro que o Sindicato seja instado a realizar o pagamento das custas processuais,
conforme disposto no art. 290 do CPC.
II – DA PRESCRIÇÃO
9. Em relação à possível aplicação dos critérios de progressão funcional com prazo superior a
cinco anos, cumpre destacar que tal pretensão encontra-se sujeita à prescrição quinquenal, nos
termos do art. 1º do Decreto Federal nº 20.910, de 1932, que estabelece o prazo prescricional de
cinco anos para tais pleitos.
10. Caso o pedido seja interpretado como de natureza indenizatória, a prescrição será trienal,
conforme o inc. IV do §3º do art. 206 do Código Civil.
II – DO MÉRITO
11. No mérito, a pretensão do Sindicato deve ser rejeitada, com o julgamento de improcedência
da ação. O Sindicato alega que o Município deixou de praticar a progressão funcional, mas
desconsidera que a realização das progressões depende de uma combinação de critérios objetivos e
subjetivos, conforme estabelecido no Estatuto dos Servidores Públicos, na Lei Municipal nº 6.309,
de 1988, e no Decreto Municipal nº 12.091, de 1998, tornando a progressão funcional uma matéria
complexa, não automática.
12. A obtenção do direito à progressão funcional está condicionada a diversos fatores, como
abertura de certame, dificuldades técnicas, orçamentárias e financeiras da Administração de cada
momento, além da expressa autorização e homologação do Chefe do Executivo, conforme o que
determina a legislação.
13. Contrariamente ao alegado pelo Sindicato, a Administração atua dentro da legalidade, sendo
a decisão sobre os trâmites administrativos subordinada à autorização do Prefeito. Embora exista
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legislação que trate das concessões e vantagens decorrentes das progressões, é importante ressaltar
que a abertura de concursos para progressão é uma faculdade da Administração, e não uma
obrigação.
14. O ato da Administração é discricionário, ou seja, a Administração Pública tem liberdade
para decidir, dentro dos limites legais e orçamentários, sobre o conteúdo, o destinatário, a
conveniência, a oportunidade e o modo de sua realização. Como bem ensina Hely Lopes Meirelles
em sua obra “Direito Administrativo Brasileiro”, 33ª Edição (2007, p. 169), a Administração pode
agir com liberdade de escolha em relação a essas questões.
15. Portanto, os pedidos do Sindicato não merecem acolhimento, pois carecem de amparo legal.
O pleiteado não é automático, mas uma mera expectativa de direito, sujeita à conveniência e
oportunidade da Administração. Não se trata de uma obrigação do Município realizar
automaticamente os concursos de progressão funcional, sendo esta decisão um ato discricionário de
deliberação da própria Administração. A previsão legal configura, na verdade, uma expectativa de
direito que dependerá da atuação da Administração.
16. Vale ressaltar, ainda, que a análise dos critérios para a concessão da progressão – mesmo
que definidos em lei ou regulamento – são de natureza subjetiva. Não cabe ao Judiciário substituir-
se à Administração Pública nessa análise, conforme estabelecido pela Súmula 339 do Supremo
Tribunal Federal.
17. Nesse sentido:
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Recurso Cível, Nº 71008113607, Terceira Turma Recursal da Fazenda Pública, Turmas Recursais,
Relator: José Ricardo Coutinho Silva, Julgado em: 06-02-2020
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Recurso Cível, Nº 71006725832, Turma Recursal da Fazenda Pública, Turmas Recursais, Relator:
Thais Coutinho de Oliveira, Julgado em: 29-06-2017
Recurso Cível, Nº 71006503494, Turma Recursal da Fazenda Pública, Turmas Recursais, Relator:
Volnei dos Santos Coelho, Julgado em: 27-04-2017
III – DA RESPONSABILIDADE FISCAL
18. Para a deflagração dos concursos para progressão funcional é exigível previsão
orçamentária.
19. O Sindicato não pondera as disposições próprias do assunto, constantes no art. 165 e art, 169
da Constituição, tampouco as da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF, Lei Complementar nº 101,
de 2000).
20. É corolário de tais normas que progressões funcionais, reajustes ou aumentos de
remunerações estejam contemplados com a correspondente dotação orçamentária (ao que precede a
estimativa da despesa, o índice, a fontes de custeio, etc.), em especial na LOA, para que, aí sim,
efetivamente repercuta nas esferas patrimoniais, do Município e dos servidores.
21. Nas LDOs e de LOAs municipais não houve dotação orçamentária para a deflagração de
concursos de progressão funcional, tampouco autorização específica para tal desiderato. O que
comumente houve e há é uma mera alusão, insuficiente para cumprir os comandos constitucionais e
legais orçamentários.
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22. Friso, não houve ou há autorização ou imposição, legal ou constitucional, para concessões
automáticas de progressões, reajustes, tampouco para a fixação de indenização.
23. Com efeito, eventuais concursos de progressões estão condicionados à avaliação das
circunstâncias diversas, sobretudo financeiras e econômicas, de cada momento.
§§2º e 8º do art. 165 da constituição
24. O pleiteado pelo Sindicato afronta os §§2º e 8º do art. 165 da Constituição.
25. É sabido que a LOA fixa o orçamento com base na LDO. A natureza jurídica da LDO é de
lei apenas no aspecto formal. Ambas, por outro lado – no material –, equivalem a ato administrativo
não-criador de direito subjetivo ou obrigações automáticas (§2º do art. 165 da Constituição).
26. Também, a Constituição dispõe que (...) A lei orçamentária anual não conterá dispositivo
estranho à previsão da receita e à fixação da despesa (...) (§8º do art. 165 da Constituição) –
princípio da exclusividade orçamentária.
27. Sem dúvida, ainda que em ambas as leis possam até mesmo haver disposição dizendo
assegurar eventual concurso de progressão funcional, tal previsão, própria e concretamente, não
implica determinação de realização da despesa, uma vez que para isso, bem especificamente,
haveria que existir
a (i) fixação da despesa a ser realizada, bem assim
a (ii) indicação da dotação para atender os gastos com aumento das remunerações.
28. Nada há previsto na legislação municipal especificamente à abertura de concursos de
progressão funcional; não há indicação de orçamento; não há dotação para atender o gasto, que
sequer também foi estimado.
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29. Ademais, leis orçamentárias não criam direitos subjetivos ou obrigações automáticas. No
buscado pelo Sindicato não encontramos prévia dotação para atender os gastos com eventual
concurso de progressão; não houve qualquer indicação, estimativa ou autorização em tal sentido.
§1º do art. 169 da constituição
30. A demanda do Sindicato infringe, também, os termos do §1º do art. 169 da Constituição,
cujos comandos determinam, repito: (i) dotação orçamentária suficiente e (ii) autorização
específica.
31. As progressões funcionais vindicadas, sem amparo real de natureza orçamentária, conquanto
possa haver eventual mera alusão, não constituem legitimamente um direito subjetivo, tampouco
direito ou obrigação automáticos.
32. A previsão de abertura de concurso de progressões funcionais por biênios, por si só, não
preenche os requisitos cumulativos para a concessão de vantagens ou aumento de remuneração: (i)
autorização na LDO e (ii) dotação orçamentária na LOA específicas.
33. O demandado pelo Sindicato (i) carece de dotação orçamentária específica; (ii) carece de
autorização legal específica.
34. O fato é que, com todas as vênias, a ação do Sindicato é débil, não tem sustentação, não se
faz pertinente ao pretendido, na medida em que, bem resumidamente, a necessária e essencial
deliberação política inexiste.
lei de responsabilidade fiscal
35. A LRF, art. 21, estabelece ser nulo de pleno direito o ato que resulte aumento de despesa
com pessoal sem
(i) previsão orçamentária suficiente à cobertura de despesa estimada,
(ii) a existência de autorização específica e
(iii) que isso esteja compatível com as diretrizes, objetivos, prioridade e metas do Plano
Plurianual e na LDO.
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36. Nada disso ocorreu com as leis orçamentárias.
37. Nenhuma LDO não trouxe (i) autorização específica de abertura de concurso de progressão,
(ii) de estimativa da despesa, (iii) de fonte de receitas, etc. Tampouco a LOA tratou do assunto, da
sua perfectibilização.
38. Aliás, podemos dizer que essas leis municipais, no tópico, foram eloquentemente genéricas,
pois, LDO e LOA, ambas, *sem indicação específica, *sem estimativa e *sem qualquer rubrica
orçamentária para cobrir a despesa pretendida pelo Sindicato. Com isso, destaco, repisando, a
natureza material de tais normas: de ato administrativo, que não cria, ou criou, obrigação ou direitos
subjetivos ou automáticos.
39. A abertura de concursos para progressão funcional está condicionada à disponibilidade
orçamentário-financeira específica, conforme estabelece a legislação vigente. Tal disponibilidade
está diretamente vinculada à legalidade e à execução das previsões orçamentárias do Município.
40. Portanto, respeitosamente, sem a edição de ato formal de competência privativa do Chefe do
Executivo, não cabe ao Judiciário forçar a abertura de concurso para progressão funcional,
tampouco arbitrar, de maneira indiscriminada e sem a devida base orçamentária e financeira, as
progressões funcionais.
IV – CONCLSUÃO
41. Como leciona Adilson Abreu Dallari, (...) O plano de carreira não pode ser entendido
como um benefício ao servidor, mas, sim, como um instrumento de melhoria do serviço público,
como meio de proporcionar a melhoria da qualidade de vida da coletividade, enfim, como forma
de satisfazer o interesse público, proporcionando, também (mas não exclusivamente) vantagens
aos servidores, aos bons servidores, aos melhores servidores públicos. (...) A evolução não é mais
um favor, e sim um direito, cabendo a cada administração editar as normas que proporcionem
seu efetivo exercício (...) (Regime Constitucional dos Servidores Públicos, 2ª edição, São Paulo:
Revista dos Tribunais, pag. 53).
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V – DO PEDIDO
42. Diante do exposto, requeiro:
(i) o acolhimento da prescrição da pretensão;
(ii) no mérito, a improcedência dos pedidos formulados pelo Sindicato;
(iii) a condenação do Sindicato ao pagamento das custas processuais e dos honorários de
sucumbência.
43. Termos em que, pede deferimento.
Procurador Municipal A. Abuabara