UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
DEPARTAMENTO DE MEDICINA VETERINÁRIA
CLÍNICA MDICA DE CANINOS E FELINOS
DOENÇAS DO TRATO URINÁRIO INFERIOR
FELINO (DTUIF-FLUTD)
Profa. Roseana Diniz
Clínica Médica de Caninos e Felinos - DMV
ROTEIRO DE ESTUDO
[email protected] Anatomia Urinário
Etiopatogenia FLUTD
Tipos FLUTD
Roteiro Sinais Clínicos FLUTD
Plano Diagnóstico FLUTD
Planos Terapêuticos FLUTD
Profilaxia FLUTD
Anatomia
Heloisa Justen
Doença do Trato Urinário Inferior Felino
(FLUTD/DTUIF)
Não é uma doença específica, mas sim um grupo heterogêneo de
enfermidades do trato urinário inferior felino induzidas por múltiplos
fatores, como interrupção do fluxo urinário por obstrução mecânica ou
por disfunção uretral e/ou vesical de origens diversas
Morbidade 1 a 6% 2 a 6 anos
Uremia,
Mortalidade 6 a 36%
hipercalemia
Etiologia
É multifatorial, complexa e muitas vezes indeterminada
• Defeitos epigenéticos (organismo ajusta a expressão gênica
de acordo com o ambiente onde vive, sem mudanças no seu
genoma): experiências vividas pelos pais (dieta, traumas
emocionais, tratamento hormonal) podem ser transmitidas
para os descendentes através da “memória epigenética”
•
•
Urolitíase (10-20%),
Distúrbios anatômicos (10%),
CIF
• Distúrbio comportamental (10%)
• ITU (< 2%)
• Neoplasias (< 1%) Investiga como estimulos ambientais podem ativar determinados genes e silenciar outros;
experiencias operando transformacoes profundas no organismo, destacando o DNA, mas nao
(Chew et al., 2012a) mudando o genoma.
Fisiopatologia
Obstrução Uretral
Intramural
Oclusão mecânica através de debris no
sítio de obstrução (tampões, urólitos e
neoplasias)
Mural ou Extramural
Oclusão anatômica por lesão no sítio de
obstrução (estenose uretral por edema
ou fibrose, neoplasias, e lesões na
próstata e iatrogênicas)
Obstrução Uretral
Oclusão Funcional
reflexo e espasmo uretral
• Contração do músculo detrusor e não
relaxamento da uretra, impedindo o
esvaziamento vesical
• Traumatismo em coluna vertebral, em região
lombar e sacrococcígea
• Inflamação pós procedimento desobstrutivo
DTUIF Obstrutiva
Etiofisiopatogenia
• Machos (anatomia)
• Vasodilatação + extravasamento de proteínas plasmáticas + uretrite
secundária → pH aumenta à medida que o plasma é exsudado → favorece
precipitação cristais e debris no lúmen (uretral) → plugs estruvita
• Material: mucoproteico, cristalino, fibrinolítico ou mineralizado
• Obstrução parcial: fluxo urinário de pequeno diâmetro (jato fino)
• Obstrução total: ausência de fluxo e dor grave à palpação
• Bexiga distendida, inflamada e dolorida pode levar à rutura
• Retenção (toxinas, metabólitos e eletrólitos) azotemia uremia
DTUIF Não Obstrutiva
Etiologia
• Infecção bacteriana (E. coli, Staphylococcus, Proteus spp., Pasteurella,
Klebisiela, Streptococcus spp., Pseudomonas, Enterobacter) -- ITU
• *Viral (Herpesvírus, calicivírus, e o espuma vírus felino - FeFV
(retrovírus que se integra ao genoma produzindo sincicio (cel.
Multinucleadas) )
• Imunossupressão
• Alergia
• Dieta
• Idiopática
• Neoplasia (carcinoma) (pouco frequente, idosos)
• Trauma (sacral. fraturas L6 e L7)
• Cirurgia (sequelas)...
INFECÇÃO PELO VÍRUS FORMADOR DE SINCÍCIO
FELINO (CONHECENDO...)
• O Espuma vírus felino (FeFV), denominado anteriormente como vírus formador de sincício felino (FeSFV), é um vírus da família
Retroviridae que tem capacidade de se integrar ao genoma do hospedeiro, produzindo sincício (células multinucleares que
formam um conjunto de células comunicantes que levam e coordenam informações) com uma a duas semanas após a infecção.
É um agente altamente prevalente em gatos saudáveis e doentes, variando de 4 a 50% conforme a idade, localização geográfica
e ambiente nos quais o gato vive. A prevalência é de 50% para animais que têm acesso livre ao ambiente externo. Outros
mamíferos podem ser infectados pelo FesFV.
• O FeFV infecta os linfoblastos (defesa) resultando em alterações no momento da replicação, com formação de sincício e
fragmentação do DNA. Desta forma, o vírus pode causar alterações no sistema imune do felino infectado.
• Infecção por FeLV pode resultar em imunossupressão, potencializando a infecção causada pelo FeFV. Estudos demonstraram
que a taxa de isolamento do FeFV é significativamente maior em animais infectados com FIV.
• Foram evidenciados vírus da FeFV em todos os gatos diagnosticados com poliartrite crônica infecciosa (trabalho realizado em
2006). Na poliartrite crônica progressiva, são mais comumente afetados machos entre 1,5 a 5 anos de idade. Existem duas
formas da doença: osteoporose e proliferação periosteal periarticular; e erosões periarticulares, colapso do espaço articular e
deformações articulares.
• Pouco se sabe sobre a transmissão do FeFV, mas acredita-se que a via intrauterina possa ocorrer, e que o vírus pode ser isolado
no sangue e na saliva. Uma vez que existe uma alta correlação entre o vírus da FIV e da FeFV, acredita-se que a mordedura seja
uma forma importante de transmissão.
CIF (Síndrome de Pandora)
Epidemiologia
• Prevalência de 55 -73 % dentre os gatos apresentados para avaliação de DTUI, e incidência de 1,5-
6 % em relação a todos os gatos atendidos (Chew et al., 2012a; Buffington, 2017)
• Maior predisposição para gatos jovens a meia idade, com média de 1 a 10 anos (2 a 7 anos), sem
predisposição racial (Chew et al., 2012a; Crivellenti, 2015)
• Ambos os sexos e obstrução uretral mais comum em gatos machos, sem diferença relatada entre
inteiros e castrados (Hostutler et al., 2005; Westropp, 2011)
• Afecção de maior prevalência entre as doenças não obstrutivas do trato urinário inferior dos
felinos, podendo também se apresentar na forma obstrutiva
• Superpopulação em ambiente compartilhado!
CIF (Síndrome de Pandora)
Etiopatogenia
• A cistite idiopática (intersticial) felina (CIF) é uma doença álgica, geralmente crônica e recorrente,
sendo a sua fisiopatogenia ainda não elucidada
• Síndrome de Pandora é o termo mais recente usado para denominar um conjunto de distúrbios
resultantes da CIF, que não caracteriza apenas problemas no trato urinário inferior, mas também
aspectos psicológicos e endócrinos (psiconeuroendócrinos).
• Manifestações clínicas resultantes da inflamação das vias urinárias inferiores (agente causal
indefinido) + outros sistemas envolvidos (cronicidade)
• Sinais clínicos: periúria, disúria, polaquiúria, hematúria e mudanças no comportamento. Os felinos
geralmente são (e/ou) obesos, sedentários, estressados, ansiosos e vivem em um ambiente
“enfadonho” (ociosidade)
CIF (Síndrome de Pandora)
Etiopatogenia
• Cistite Intersticial Felina /Cistite Idiopática Felina (Cistite Neuropscogênica)
(S. vesical álgica, S. da bexiga dolorosa)
• 2 formas histológicas humanos – ULCERATIVA (Tipo I) e NÃO ULCERATIVA (Tipo II)
• Tipo II - mais inflamatória
• Tipo I - úlceras de Hunner, anormalidades NEUROENDÓCRINAS ...Inflamação em
resposta a danos do urotélio (aumenta número e ativação dos mastócitos)
Figura 2. A: Ilustração da bexiga de gato normal. B: gato com CIF. As camadas teciduais podem ser Figura 1. Ilustração de corte histológico da bexiga. Gatos com CIF possuem
danificadas em diferentes graus, contribuindo para aumento de permeabilidade, infiltração mastocitária, alterações na união das membranas uroteliais e nas proteínas de junções
aumento de fibras sensoriais e inflamação neurogênica (Chew et al., 2012b). estreitas das células guarda-chuvas (Rodrigues, 2017).
Lesões uroteliais podem ocorrer em animais saudáveis expostos a eventos externos estressantes → infiltração de mastócitos →
liberação de mediadores químicos → aumento do fator de crescimento neural (NGF) e subst. P (epitelial e muscular liso) → aumento
no número de fibras sensoriais nervosas na bexiga (fibras C) → sensibilização das fibras do urotélio → sensações dolorosas → ativando
o SNS.
Devido à CIF, há redução da síntese e excreção de glicosaminoglicano (GAG), redução na adesão dos GAGs às células uroepiteliais
danificadas e reabsorção (de condroitina) pelo urotélio (mais permeável). Essas alterações na barreira urotelial tb permitem que água,
ureia e substâncias nocivas passem para o tecido subjacente (camadas neurais e outras), resultando na inflamação (DTUI).
Etioisiopatogenia (H. Justen)
Etiofisiopatogenia (H. Justen)
DTUIF
Sinais Clínicos Gerais
• Periúria • Vesícula distendida ou não
• Polaciúria • Ingestão água ()
• Disúria • Hiporexia, anorexia
• Alopecia (DUA)
• Estrangúria
• Oligúria, Anúria
• Hematúria
• Desidratação
• Vocalização
• Diarréia
• Lambedura intensa • Hipotermia
• Pênis edemaciado • Êmese (náusea)
• Dor • Uremia (prostração)
• Apatia e isolamento • Choque e óbito (36 a 72h)
Sinais Clínicos DTUIF
Diagnóstico DTUIF
Clínico Exames complementares
Histórico Laboratorial
Manejo alimentar (tipo, Hemograma, urinálise, bioquímico,
frequência, água) microbiológico, antibiograma,
Manejo higiênico (liteira, hemogasometria, PCR, imunohistoquímica
ambiente, animal)
Atividade (lazer, estresse, Imagem
descanso) Radriografia simples ou contrastado, USG,
uretroscopia (cistoscopia), cistografia
Sintomas
Biópsia
Exame Físico
DTUIF
Diagnóstico
• 2/3 dos gatos com DTUIF apresentam CIF, e em 85% destes os sinais clínicos resolvem-se
em 2-3 dias sem tratamento (necessita diagnóstico para um gato jovem com seu
primeiro episódio de DTUIF?) (Westropp, 2011).
• Considerar:
• Número de episódios, gravidade dos sinais clínicos, escolha dos exames (custo tutor)
• Basear-se na exclusão de outras. (Diagnóstico CIF feito por exclusão)
DTUIF
Diagnóstico
• Urinálise
- Coletar a urina preferencialmente 4 a 6 horas após
alimentação e depois de recuperação pós obstrutiva.
- Indicativa de piúria e/ou bacteriuria = REALIZAR CULTURA
- Cálculos de estruvita
pH > 6,4
- Cálculos de oxalato
pH < 6,4
Diagnóstico
Fogle, 2001
CIF Tratamento gatos não obstruídos
• Não há cura completa (independente da terapêutica) e o objetivo é aumentar o intervalo entre
as crises e diminuir a gravidade dos sinais clínicos.
• Controle farmacológico da dor e/ou inflamação:
• Butorfanol 0,4 mg/kg VO TID,
• Tramadol 1-2 mg/kg VO BID).
• AINES (meloxicam 0,05mg/kg /TID) não são eficazes, em CIF.
• Prednisolona (0,25 a 1mg /kg /TID)
• Controle da ansiedade (feromônio, EA).
• Aumenta capacidade de retenção da bexiga, estabiliza mastócitos infiltrados na bexiga, ação
analgésica e antinflamatória, redução de resistência uretral (anti-hipertensivo, miorrelaxante):
• Amitriptilina (5-10 mg/gato VO SID à noite, iniciar com 1mg)
• Clomipramina (0,25-0,5mg/kg VO SID)
• Prazosina (0,03mg/kg VO SID)
• Fator Litovesical (homeopatia vet)
• Organnact Cyst- aid (pet gel) (fitoterapia vet)
CIF Tratamento gatos não obstruídos
• Suplementação da GAG – inibição da adesão bacteriana
• Restabelecer fluxo urinário:
• Corrigir desidratação/equilíbrio hidroeletrolítico (estimular ingestão de água) → Fluidoterapia IV, SC ou IO
• Corrigir hipotermia:
• Colchão térmico ou bolsas de água quente
• Fluidos intravenosos mornos
• Ômega 3, Astaxantina, CoQ10, Glutamina, D3, Timomodulina, Cistimicin Vet Samart, Vit c
• Higiene do ambiente, higiene do animal, desparasitações atualizadas, boa dieta
• Redução do estresse: Modificação Multimodal Ambiental (MoMA) com base nos achados da
anamnese – alimento, água, contato social, liteira, ambiente (EA), harmonia no ambiente...
Modificação Multimodal Ambiental (MoMA)
Heloisa Justen
Modificação Multimodal Ambiental (MoMA)
Heloisa Justen
Heloisa Justen
DTUIF Tratamento gatos obstruídos
• O objetivo principal é restaurar a patência uretral e corrigir as alterações sistêmicas pela
reposição de fluidos e eletrólitos
• O grau da uremia, os achados de ECG e a magnitude da distensão vesical ditam o quão
rapidamente e em que sequência o tratamento deve ser instituído
• Solução de RL corrige acidose metabólica (alcalinizante)
• Após liberação da obstrução e função renal normalizada, a concentração sérica de potássio
declina rapidamente (evitar hipocalemia)
DTUIF Tratamento gatos obstruídos
• Hipercalemia severa, NÃO sedar ou anestesiar o animal.
• Fazer gluconato de cálcio (50-100 mg/kg IV durante 2-3 minutos),
• Neutralizar o efeito da hipercalemia, ou diminuir o potássio sérico com bicarbonato (1-2 mEq/kg IV), e infusão
de insulina regular (0,5 UI/kg IV) + 4 mL de dextrose a 50% por UI de insulina (Bartges, 2011)
• GASOMETRIA, ECG...
• O cálcio é administrado por via intravenosa para proteger o coração; não reduz os níveis de
potássio!
• Medicamento antiasmático/broncodilatador (albuterol, salbutamol) associado à insulina pode
contribuir para reduz níveis plasmáticos de K, pois aumenta a entrada do K na célula
Massagem Peniana
Justen, 2008
Massagem da Bexiga Urinária
CISTOCENTESE...primeira intervenção?!
Justen, 2008
Vesícula
urinária
Meato
uretral
externo
Introduzir cateter em direção oblíqua, no
sentido ventro-dorsal. Quando o cateter
estiver entre a uretra pós-prostática e
uretra peniana, deve-se deslocar o pênis
caudo-dorsalmente para facilitar a
introdução e minimizar risco de lesão
uretral (Osborne and Finco, 1995, Anjos,
2014,).
TRATAMENTO EMERGENCIAL
OBSTRUÇÃO É URGÊNCIA VETERINÁRIA! Cateterismo, não é primeira opção!
A agulha deve ser inserida na face ventral ou
ventrolateral, no sentido craniocaudal, até a
junção do colo da bexiga com a uretra. A
posição correta permite a remoção de grande
volume de urina e descompressão do lúmen.
Material utilizado para cistocentese (Osborne
et al., 2011).
Cistocentese, geralmente agulha 22 ou 24 G
Antisepsia e Lubrificação (cuidado com a escolha!)
Justen, 2008
Figura 8. Algoritmo para obstrução urinária em gatos instáveis
com obstrução uretral avançada (Chew et al., 2012a).
Cateterismo uretral não deve ser primeira opção para possível
obstrução.
Antes, fazer uso de massagem peniana e vesical e/ou
hidropropulsão com cateter 24 (uretra peniana) e posterior
massagem vesical, e/ou cistocentese.
Figura 7. Algoritmo para obstrução urinária em animais
estáveis (Chew et al., 2012b)
• cetamina (5-10 mg/kg IV) associada ao diazepam (0,2-0,5 mg/kg
Catetererismo •
IV) ou midazolam (0,2-0,5 mg/kg IV);
butorfanol (0,2 mg/kg IV) e diazepam (0,2-0,5 mg/kg IV)
•
(última opção) midazolam (0,2-0,5 mg/kg IV) e cetamina (2 mg/kg IV),
podendo-se repetir dose de butorfanol ou benzodiazepínicos.
Justen, 2008
Propulsão Hídrica
Evitar introduzir a sonda além da uretra peniana, exceto quando não se tenha opções, precisando Justen, 2008
lavar a bexiga e em seguida aspirar o líquido da lavagem.
Uretrostomia Perineal
Deve ser a última
opção de
tratamento e,
quando necessária,
exige máxima
perícia no
procedimento!!
Complicações pós- Obstrutivas
• ESTENOSE URETRAL
- Após cateterizações frequentes e/ou sem contenção farmacológica adequada
Obstruções recorrentes crônicas Trauma iatrogênico
Complicações da Uretrostomia
• Óbito no trans ou pós-operatório
• falta de correção dos distúrbios hidroeletrolíticos
• Infecção bacteriana (19 a 23%)
• comprometimento do músculo uretralis
• mecanismos de defesa da mucosa e esfincter uretrais
• Enlarguecimento
• Contaminação fecal
• Estenose uretral (2 a 12 sem após) - por técnica cirúrgica inadequada,
cateter de espera pós-cirúrgico, lambedura.
• Hemorragia
• Deiscência de sutura
• ferida sob tensão, trauma por lambedura do orifício uretral
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
DEPARTAMENTO DE MEDICINA VETERINÁRIA
CLÍNICA MDICA DE CANINOS E FELINOS
DOENÇAS DO TRATO URINÁRIO INFERIOR FELINO
(DTUIF-FLUTD)
Profa. Roseana Diniz
[email protected] Clínica Médica de Caninos e Felinos - DMV
ROTEIRO DE ESTUDO