Episódios – Lusíadas
Os Lusíadas é um poema épico do gênero narrativo, o qual está dividido
em dez cantos.
É composta de 8816 versos decassílabos (em maioria os decassílabos
heroicos: sílabas tônicas 6ª e 10ª) e 1102 estrofes de oito versos (oitavas). As rimas
utilizadas são cruzadas e emparelhadas.
A obra está dividida em 5 partes:
Proposição - Introdução da obra apresentação do tema e dos personagens (Canto
I);
Invocação – Nessa parte o poeta invoca as ninfas do Tejo (Canto I) como
inspiração;
Dedicatória - Parte em que o poeta dedica a obra ao rei Dom Sebastião (Canto I);
Narração - O autor narra a viagem de Vasco da Gama e dos feitos realizados
pelos personagens (Cantos II, III, IV, V, VI, VII, VIII e IX);
Epílogo - Conclusão da obra (Canto X).
Início
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
Já neste tempo o lúcido Planeta,
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava à desejada e lenta meta,
A luz celeste às gentes encobrindo,
E da casa marítima secreta
Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
As naus, que pouco havia que ancoraram.
Inês de Castro
O episódio de Inês de Castro aparece no Canto III e traz à tona a história de
amor entre Inês e o príncipe Pedro. Ao saber da existência de tal envolvimento,
o rei Dom Afonso manda executar a jovem, pois também estava preocupado
com a ameaça política que ela apresentava, já que tinha parentesco com a
nobreza de Castela.
Porém, percebendo que o amor entre ela e seu filho era real, decide manter a
jovem viva, mas o povo exige sua execução. Dom Pedro, ausente do reino na
ocasião, inicia depois uma vingança contra os executores e coroa o cadáver de
Inês, aquela “que depois de morta foi rainha”.
Tal episódio mostra a presença do lirismo dentro da obra épica, pois entra em
contraste com o resto da obra, já que apresenta uma figura feminina – Inês de
Castro – como personagem central. Além de que Camões, por meio das falas
que coloca na boca de Inês, leva o leitor a um universo emotivo, sentindo
compaixão e partilhando do sofrimento das personagens.
Inês de Castro – Canto III
Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.
Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxutos,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Velho do Restelo
Esse episódio encontra-se no Canto IV e nele, é vista uma certa mentalidade
feudal, oposta ao expansionismo e às navegações, já que essas demonstravam os
interesses da burguesia. O velho faz uma profecia, dizendo que tais navegações
são apenas buscas por fama e glória e que acabam sendo o motivo para o
esquecimento do próprio país, Portugal, podendo trazer um futuro sombrio para
a pátria.
Velho do Restelo – Canto IV
Mas um velho, respeitado,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, balançando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco levantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Com saber só d'experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
- «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Como aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vazio que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
«Dura inquietação d'alma e da vida
Fonte de desamparos e adultérios,
Consumidora esperta
De fazendas, de reinas e de impérios!
Amam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames insultos;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo ignorante engana!
«A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preeminente?
Que promessas de reinos e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
O Gigante Adamastor
O Gigante Adamastor aparece no Canto V, quando Vasco da Gama e sua
tripulação se dirigem ao Cabo das Tormentas, ou Cabo da Boa Esperança,
personificado pela figura de Adamastor. Esse gigante da mitologia grega foi
transformado em pedra por Peleu, marido de Tétis, ninfa pela qual Adamastor se
apaixonara mas acabou sendo rejeitado.
Adamastor chama os portugueses de ousados por navegarem nas águas nunca
conhecidas por outros, chegando aos confins do mundo.
Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando à noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurecem,
Sobre nossas cabeças aparece.
Tão temerosa vinha e carregada
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo o negro mar de longe brada
Como se desse em vão nalgum rochedo.
“Ó potestade, disse, sublimada,
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor causa parece que tormenta?
A Ilha dos Amores
O mito da Ilha dos Amores é contado por Luís de Camões, nos Cantos IX e X de
Os Lusíadas. Nestes cantos, é relatada a vontade da deusa Vênus em premiar os
heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha
paradisíaca, no meio do oceano, a Ilha dos Amores.
Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as
delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs
de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos.
Durante um banquete oferecido aos Portugueses, a ninfa Sirena canta as
profecias sobre a gente lusa que incluem as suas glórias futuras no Oriente.
Canto IX
Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Águas, doces cítaras tocavam;
Águas, harpas e sonoras flautas;
Outras, com arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.
Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.