0% acharam este documento útil (0 voto)
168 visualizações14 páginas

PDF Corpo

O livro 'Corpo, sonho, palavra: ensaios psicanalíticos II' de Flávio Ferraz reúne ensaios que exploram a metapsicologia e a psicanálise, abordando temas como a psicossomática, a trajetória do corpo na psicanálise e a representação do feminino. Os textos, selecionados por sua relevância e atualidade, refletem um compromisso com a liberdade de pensamento e a evidência clínica, promovendo um diálogo com diversos autores e correntes de pensamento. A obra busca contribuir para a compreensão dos desafios contemporâneos da psicanálise, mantendo um rigor teórico e uma abordagem multifacetada.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
168 visualizações14 páginas

PDF Corpo

O livro 'Corpo, sonho, palavra: ensaios psicanalíticos II' de Flávio Ferraz reúne ensaios que exploram a metapsicologia e a psicanálise, abordando temas como a psicossomática, a trajetória do corpo na psicanálise e a representação do feminino. Os textos, selecionados por sua relevância e atualidade, refletem um compromisso com a liberdade de pensamento e a evidência clínica, promovendo um diálogo com diversos autores e correntes de pensamento. A obra busca contribuir para a compreensão dos desafios contemporâneos da psicanálise, mantendo um rigor teórico e uma abordagem multifacetada.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Capa_Ferraz_Corpo sonho palavra_P2.

pdf 1 22/02/2024 00:20:36

PSICANÁLISE
Flávio Ferraz Flávio Ferraz Na obra de Ferraz, a investigação de

Ferraz
cada um dos aspectos da
Psicanalista, professor, ensaísta metapsicologia não fica circunscrita
e editor, livre-docente pelo a um autor de referência ou a uma
Instituto de Psicologia da escola psicanalítica. Seu
Universidade de São Paulo compromisso é com a compreensão
(IPUSP) e membro dos
Departamentos de Psicanálise e Corpo, sonho, palavra do fenômeno psíquico e, para tanto,
lança mão com liberdade dos textos e
de Psicossomática Psicanalítica
Ensaios psicanalíticos II autores que o ajudem na construção
do Instituto Sedes Sapientiae.
Os ensaios deste livro reiteram a ousadia e a difícil, mas neces- de seu pensamento. Revela
É também membro da
sária, combinação entre rigor e liberdade de pensamento e o
Associação Universitária de amplitude em suas leituras da
respeito às evidências clínicas, já presentes em outros escri-
Pesquisa em Psicopatologia psicanálise, bem como da literatura,

Corpo, sonho, palavra


tos do autor. Parafraseando Laplanche, Ferraz é um daqueles
Fundamental e autor de diversos
C

psicanalistas que, sem ceder à banalização e às fórmulas fáceis,


da filosofia e das ciências humanas,
livros, entre os quais A eternidade
M

é capaz de “fazer prosear” a psicanálise. Com ele, sentimo-nos constituindo todas elas andaimes de
da maçã: Freud e a ética (Escuta,
Y

à vontade em meio à diversidade dos temas que evoca e nos sua escritura. Sua atividade de
1994) e Tempo e ato na perversão:
CM

diálogos que estabelece com autores das mais variadas origens, escrita é inseparável de sua atividade
ensaios psicanalíticos I (3. ed.,
MY

épocas e filiações institucionais. de leitura, o que o torna um autor


Blucher, 2023).
CY

CMY

– Rubens M. Volich em permanente diálogo com outros


autores, permitindo-lhe tratar os
K

objetos psicanalíticos de forma


multifacetada.

Belinda Mandelbaum
série
PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA
Coord. Flávio Ferraz

PSICANÁLISE
CORPO, SONHO, PALAVRA
Ensaios psicanalíticos II

Flávio Ferraz

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 3 28/02/2024 11:33


Corpo, sonho, palavra: ensaios psicanalíticos II
© 2024 Flávio Ferraz
Editora Edgard Blücher Ltda.

Série Psicanálise Contemporânea


Coordenador da série Flávio Ferraz
Publisher Edgard Blücher
Editor Eduardo Blücher
Coordenação editorial Rafael Fulanetti
Coordenação de produção Andressa Lira
Produção editorial Luana Negraes
Preparação de texto Maurício Katayama
Diagramação Negrito Produção Editorial
Revisão de texto Bárbara Waida
Capa Leandro Cunha
Imagem da capa iStockphoto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar Ferraz, Flávio


04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Corpo, sonho, palavra: ensaios psicanalíticos
Tel.: 55 11 3078-5366 II / Flávio Ferraz. – São Paulo: Blucher, 2024.
[email protected] 144 p. (Série Psicanálise Contemporânea /
www.blucher.com.br coord. de Flávio Ferraz)

Segundo o Novo Acordo Ortográfico,


Bibliografia
conforme 6. ed. do Vocabulário Ortográfico
ISBN 978-85-212-2001-5
da Língua Portuguesa, Academia Brasileira
de Letras, julho de 2021.
1. Psicanálise. I. Título. II, Ferraz, Flávio.
É proibida a reprodução total ou parcial III. Série.
por quaisquer meios sem autorização
escrita da editora. 24-0433 CDD 150.195

Todos os direitos reservados pela Índice para catálogo sistemático:


Editora Edgard Blücher Ltda. 1. Psicanálise

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 4 28/02/2024 11:33


Conteúdo

Apresentação 9

1. Das neuroses atuais à psicossomática 17

2. A tortuosa trajetória do corpo na psicanálise 35

3. O primado do masculino em xeque 55

4. Por uma metapsicologia dos restos diurnos 73

5. As entrevistas iniciais, o problema do diagnóstico


e a escolha da técnica 89

6. Estado de exceção e desamparo 107

7. Vida e morte da palavra 117

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 7 28/02/2024 11:33


Apresentação

Este livro reúne ensaios publicados na forma de artigos em perió-


dicos e capítulos de coletâneas, todos apresentados originalmente
em reuniões científicas.1 Selecionei-os após alguns anos de decan-
tação, usando como critério sua sobrevivência como referência em
trabalhos de outros autores ou sua adoção como leitura em cursos
e seminários psicanalíticos. Além disso, trata-se de textos que con-
tinuo a subscrever sem assombro, e que, ademais, contêm ideias
que, a meu ver, confirmaram-se válidas e mantiveram sua atuali-
dade decorridos anos de sua publicação, resistindo às expressivas
mudanças a que temos assistido no contexto cultural e sociopolíti-
co, que trazem no bojo desafios e exigências para a teoria e a clínica
psicanalíticas.
O Capítulo 1, “Das neuroses atuais à psicossomática”, publi-
cado originalmente em 1996, busca resgatar a teoria freudiana

1 Alguns destes textos já foram anteriormente reunidos no livro Ensaios psica-


nalíticos (Casa do Psicólogo, 2011); o presente livro reedita essa coletânea, mas
em versão mais enxuta, trazendo apenas quatro dos trabalhos que integraram
a edição original e acrescentando outros três, publicados posteriormente, que
entram agora como Capítulos 5, 6 e 7.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 9 28/02/2024 11:33


10 apresentação

das neuroses atuais, de 1894, que, com espantosa precocidade –


conquanto ainda incipiente em certas considerações –, já desta-
cava essa forma tão peculiar de neurose, distinguindo-a da então
chamada psiconeurose. Esse resgate teve por objetivo articular tal
achado de Freud ao que a Escola Psicossomática de Paris, capita-
neada por Pierre Marty, trouxe de revolucionário para a psicaná-
lise a partir dos anos 1950, a saber, uma teoria e uma clínica das
somatizações, encaradas como decorrentes de um funcionamento
mental empobrecido – dito operatório – bastante diferente daquele
das neuroses. No momento em que esse capítulo veio à luz, lido
num simpósio,2 essa abordagem praticamente inexistia no Brasil.
Desse modo, um texto até certo ponto didático e singelo ganhou
alguma projeção em razão de seu aspecto inaugural em nosso
meio psicanalítico, tornando-se referência para outros trabalhos
desse campo no Brasil.3
O Capítulo 2, “A tortuosa trajetória do corpo na psicanálise”,4
publicado em 2007, de certo modo dá continuidade ao anterior.
Já trazendo uma elaboração teórica pessoal mais acurada, formu-
la uma hipótese para explicar a razão pela qual a abordagem do
corpo somático pela psicanálise custou a tomar uma forma mais
consistente. Grosso modo, defende que a primazia do corpo eróge-
no, engendrada pela teoria das neuroses – mais especificamente da

2 I Simpósio de Psicossomática Psicanalítica, em 24 de novembro de 1995, pro-


movido pelo Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, em São
Paulo. Esse curso foi fundado e inicialmente coordenado por Wilson de Cam-
pos Vieira, a quem sou grato por ter me convidado, ainda jovem e recém-saído
da formação psicanalítica, para integrar o corpo docente inicial, no ano de
1993.
3 Agradeço a Decio Gurfinkel, Maria Helena Fernandes e Rubens M. V ­ olich pe-
las reiteradas referências a esse texto.
4 Apresentado originalmente no IV Simpósio de Psicossomática Psicanalítica,
promovido pelo Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, em
São Paulo, no dia 26 de outubro de 2007.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 10 28/02/2024 11:33


flávio ferraz 11

histeria –, relegou o corpo somático à condição de resto, tanto na


ontogênese quanto na teoria. Tanto é que as neuroses atuais quase
desaparecem do texto freudiano depois de sua entrada em cena
em 1894. Surgem esparsamente aqui e ali, mas não são retomadas
como tema de interesse para uma teorização eminentemente analí-
tica. Só o serão com o advento da psicossomática francesa nos anos
1950 e, ainda assim, enfrentando a resistência de boa parte da co-
munidade psicanalítica. Hoje em dia, entretanto, a psicossomática
integra harmoniosamente o espectro da transmissão da psicanálise
nas mais variadas instituições de formação. Inspira uma plêiade
de autores, fundamenta pesquisas teórico-clínicas e se faz presente
como referência em uma enormidade de publicações.
No Capítulo 3, “O primado do masculino em xeque”,5 publi-
cado em 2008, elenco uma série de pontos, em toda a extensão da
obra de Freud, em que são feitas referências curiosas, se não desai-
rosas, ao feminino. Cada um deles é discutido sob a hipótese da in-
cidência de determinantes culturais e ideológicos que, no plano da
teorização psicanalítica, levaram à construção de um argumento
pautado pela lógica fálica, definindo o masculino pela presença ou
positividade e o feminino pela ausência ou negatividade. As for-
mulações lacanianas, em muitos pontos, lograram êxito em retirar
a teoria psicanalítica da dependência de materialidades datadas
e localizadas, afirmando leis gerais universalmente válidas. Mas,
curiosamente, reafirmaram, ainda com mais vigor, o dualismo fá-
lico baseado no princípio do “zero/um”, negando enfaticamente o
significante à mulher. Lacan chegou a escrever que “a mulher não

5 Apresentado originalmente na II Jornada Temática: Interlocuções sobre o Fe-


minino na Clínica, na Teoria, na Cultura, promovida pelo Departamento de
Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, no dia 25 de maio de
2007. Agradeço a Daniela Danesi Magalhães, Maria Elisa Pessoa Labaki e So-
raia Bento pela inclusão desse trabalho entre os textos recomentados em suas
atividades didáticas no Instituto Sedes Sapientiae.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 11 28/02/2024 11:33


12 apresentação

existe”, secundado pela grande maioria dos discípulos que até hoje
militam em suas hostes, entre os quais se contam, espantosamente,
mulheres francamente feministas. Claro que se compreende que
ele não se referia à mulher concreta, de carne e osso, mas ao sig-
nificante, como seus adeptos não cessam de explicar aos incautos.
Pois bem, esse capítulo problematiza exatamente tal ponto de vista
tão reiterado, rejeitando que o feminino seja marcado essencial-
mente pela falta. Recorrendo a Robert J. Stoller – autor que, a meu
ver, revolucionou a teoria psicanalítica da sexuação, mas foi injus-
tiçado pela história –, retomo a evidência das marcas significantes,
em sua positividade, no rol das representações psíquicas desde a
tenra infância. Para Stoller, a representação do seio ocupa o lugar
que, na psicanálise neoestruturalista, reservou-se unicamente ao
falo. Uma articulação entre a tese stolleriana e a teoria da sexua-
ção de Laplanche6 – baseada na hipótese da situação antropológica
fundamental e na emissão de significantes enigmáticos pelo adul-
to – coloca a psicanálise no nível de um discurso epistemológico
mais rigoroso, apto a fazer frente aos desafios que a contempo-
raneidade lhe reserva, como o confronto da teoria psicanalítica
clássica e da neoestruturalista por concepções de gênero que des-
velam alguns seus aspectos eivados de preconceito, ainda que se
pretendam científicos.
No Capítulo 4, “Por uma metapsicologia dos restos diurnos”,7
desenvolvo, inspirado numa proposição de Christophe Dejours,
a tese de que o sonho, para além de fenômeno em que se dá a

6 Proposta formulada por Paulo de Carvalho Ribeiro no artigo “Identificação


passiva e Teoria da Sedução Generalizada de Jean Laplanche” (Percurso, ano
XXII, n. 44, pp. 79-90, 2010) e minuciosamente desenvolvida por Felippe Lat-
tanzio no livro O lugar do gênero na psicanálise: metapsicologia, identidade,
novas formas de subjetivação (Blucher, 2021).
7 Apresentado originalmente no ciclo de debates Psicanálise em trabalho, promo-
vido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São
Paulo, no dia 14 de abril de 2011. Agradeço a Mario Pablo Fuks (in memoriam)

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 12 28/02/2024 11:33


flávio ferraz 13

emergência do recalcado, tem também, ele mesmo, a função de


produzir o próprio recalcamento. Impressões vividas durante a vi-
gília, que se abrigam no aparato psíquico em estado de latência,
consumam seu processo de representação no sonho e por meio
dele. Assim, proponho que se nomeie o primeiro trajeto como via
aferente do sonho, enquanto o segundo seria sua via deferente. Os
perceptos que se prestam ao papel de restos diurnos merecem, a
meu ver, um aprofundamento em sua teorização metapsicológica,
uma vez que não são tomados aleatoriamente pelo trabalho oníri-
co. Baseado na filosofia das formas simbólicas de Susanne Langer,
proponho que os restos diurnos são “escolhidos” em razão de sua
forma, que comporta intrinsecamente características estéticas que
se associam de maneira lógica à representação inconsciente que
pede lugar na cena onírica. Esse modo de encarar a natureza do
trabalho onírico alarga o horizonte da psicopatologia, uma vez que
joga luz na relação entre a dificuldade onírica e a predominância
do acting out nas patologias não neuróticas, visto que, nesses ca-
sos, é a latência que não é tolerada. Por conseguinte, cria-se um
obstáculo à produção de representações e ao consequente enrique-
cimento do acervo simbólico dos sujeitos.
O Capítulo 5, “As entrevistas iniciais, o problema do diagnós-
tico e a escolha da técnica”,8 publicado em 2012, retoma um tema
polêmico em nosso campo, que é a relação, possível ou não, entre
o diagnóstico psíquico e a avaliação que invariavelmente se faz nas
entrevistas preliminares em psicanálise. A influência da Escola Psi-
cossomática de Paris não deixa de estar presente no raciocínio que
ali desenvolvo, uma vez que justaponho aos critérios mais clássicos

e Nayra Cesaro Penha Ganhito pela inclusão desse trabalho entre os textos re-
comentados em suas atividades didáticas no Instituto Sedes Sapientiae.
8 Apresentado, depois da publicação original, no V Simpósio de Psicossomática
Psicanalítica, promovido pelo Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sa-
pientiae, em São Paulo, no dia 8 de junho de 2013.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 13 28/02/2024 11:33


14 apresentação

de avaliação aqueles por ela aportados. A densidade na esfera das


representações e sua indisfarçável incidência na modalidade do
discurso é um ponto fundamental para a escuta analítica, parti-
cularmente nas entrevistas iniciais, que tanto se prestam a sondar
como a construir a demanda. O discurso e seu potencial revelador
do estado do contato de um sujeito com seu mundo interno são
discutidos à luz da feliz figura conceitual da singularidade idiopáti-
ca, cunhada por Maurice Dayan. A presença da expressão “escolha
da técnica” no título deixa subentendido que adoto a contribuição
inestimável de Ferenczi para a defesa da elasticidade desta, mor-
mente diante de realidades clínicas como a psicose, a perversão, os
quadros borderline e o funcionamento operatório na normopatia e
nas psicossomatoses.
No Capítulo 6, “Estado de exceção e desamparo”,9 publicado no
ano de 2014, traço um panorama da significação, para os sujeitos,
da suspensão das garantias individuais perpetradas no estado de
exceção, de acordo com sua caracterização por Giorgio Agamben.
Assimilo-as, para o contexto psicanalítico, à condição de desampa-
ro (Hilflosigkeit), postulada por Freud e bastante desenvolvida na
teoria psicanalítica contemporânea. Acabo por defender que a pro-
filaxia contra a retraumatização dos sujeitos atingidos pelo horror
das ditaturas, principalmente os que foram privados da liberdade
e, a fortiori, submetidos à barbárie da tortura, só se pode dar por
meio do reconhecimento oficial com vista à reparação do terror.
Curiosamente, esse texto foi escrito antes da eleição do governo
que trabalhou pela anulação das conquistas democráticas e teve o
desplante de fazer o elogio do estado de exceção e até mesmo da

9 Apresentado originalmente no simpósio Ditadura Civil-Militar no Brasil: o


que a Psicanálise Tem a Dizer, promovido pelo Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, no dia 12 de setembro de 2014.
Agradeço a Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes pela parceria na
organização desse evento.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 14 28/02/2024 11:33


flávio ferraz 15

tortura, gesto que só faz renovar a face do terror para os sujeitos


violentados. Isso me leva a reiterar os pontos de vista que expressei,
particularmente no que se refere à necessidade de uma reparação
assumida como política governamental como condição sine qua
non de uma terapêutica minimamente efetiva para as vítimas da
violência de Estado. Mais razão me dá a história quando postulei
que, sem uma mudança radical na formação dos oficiais militares,
manter-se-ia vivo o risco do golpismo e da presunção de tutores da
sociedade por parte das Forças Armadas.
No Capítulo 7, “Vida e morte da palavra”,10 publicado no ano
de 2015, inspirado pelo fértil pensamento de Joyce McDougall,
parto de uma teorização a respeito do processo de afetação da
palavra, que se dá, na ontogênese, como sucedâneo da paraexci-
tação proporcionada pelos cuidados maternos. Desse modo, é a
própria palavra que assume essa função protetora da integridade
do aparato psíquico. A seguir, examino situações, no espectro da
psicopatologia, em que a afetação da palavra enfrenta obstácu-
los em seu desenvolvimento ou então sofre ataques desfigurantes,
como no caso dos traumatismos graves. Por fim, procuro situar o
método psicanalítico como portador de dispositivos que permi-
tem fazer frente a essas situações clínicas, por ser ele, justamente,
aquele que, no espectro das terapêuticas, valoriza a palavra en-
quanto antídoto à recusa, por excelência mecanismo etiológico do
silenciamento patológico.
Creio que este conjunto de textos que ora apresento constitui
uma amostra fidedigna daquilo que desenvolvi como crenças e

10 Agradeço a Dora Tognolli, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo


(SBPSP), pelo convite para escrever este trabalho para a abertura de um nú-
mero temático da revista Ide; e a Cassandra Pereira França, pelo convite para
apresentá-lo e debatê-lo no II Encontro Latino-Americano do Projeto CAVAS
(Crianças e Adolescentes Vítimas de Abuso Sexual), da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, no dia 10 de abril de 2015.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 15 28/02/2024 11:33


16 apresentação

predileções teóricas em 36 anos como psicanalista. Haveria muitas


pessoas a quem agradecer, de tal modo que uma lista feita com
justiça não caberia nestas páginas. Sou grato particularmente aos
companheiros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientiae, pela troca constante, bem como a colegas de outras ins-
tituições psicanalíticas e universitárias, não apenas de São Paulo,
mas de Belém, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Campinas,
Curitiba, Porto Alegre, Buenos Aires, Paris e Nova York. Peço que
todos se sintam representados na pessoa de Decio Gurfinkel, ami-
go e parceiro de jornada com quem mantenho, desde o início da
formação psicanalítica, uma colaboração fecunda e incessante.

Miolo Corpo Sonho Palavra.indd 16 28/02/2024 11:33

Você também pode gostar