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Construção DANROSSETO

O documento apresenta um roteiro de uma peça teatral inspirada nas obras de Chico Buarque, abordando a construção de Brasília e os desafios enfrentados pelos personagens Pedro e Luísa, que lidam com a separação e a expectativa de um filho. A narrativa inclui canções que refletem os sentimentos dos personagens e o contexto histórico do Brasil na época da construção da nova capital. A peça explora temas como amor, esperança e as dificuldades da vida em um momento de transformação nacional.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Construção DANROSSETO

O documento apresenta um roteiro de uma peça teatral inspirada nas obras de Chico Buarque, abordando a construção de Brasília e os desafios enfrentados pelos personagens Pedro e Luísa, que lidam com a separação e a expectativa de um filho. A narrativa inclui canções que refletem os sentimentos dos personagens e o contexto histórico do Brasil na época da construção da nova capital. A peça explora temas como amor, esperança e as dificuldades da vida em um momento de transformação nacional.
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ESCOLA DE ATORES WOLF MAYA – M5B

CONSTRUÇÃO
Inspirado em obras de Chico Buarque

“Amou daquela vez como se fosse a última...


...Por esse pão para comer, por esse chão para cuspir”.
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ATO 01
Abre o pano, todos os personagens em cena. A CANTORA assume o microfone
como cantora de rádio (com afinação).

HINO AO AMOR
CANTORA– SE O AZUL DO CÉU ESCURECER
SE A ALEGRIA NA TERRA FENECER
NÃO IMPORTA, QUERIDO
VIVEREI DO NOSSO AMOR
SE TU ÉS O SONHO DOS DIAS MEUS
SE OS MEUS BEIJOS SEMPRE FORAM TEUS
NÃO IMPORTA, QUERIDO
O AMARGOR DAS DORES DESTA VIDA

PEDRO e LUÍSA sentados um de frente para o outro junto a mesa da cozinha.


LUÍSA está com uma carta em mãos. PEDRO também segura uma outra carta.

PEDRO– O que está escrito aqui!?


LUÍSA– Dez meses em Brasília, Pedro?!
PEDRO– Um filho?!
LUÍSA– Todo esse tempo sem voltar para casa.
PEDRO– Agora mais do que nunca eu preciso desse emprego.
LUÍSA– Você não vai estar comigo quando o meu filho nascer.
PEDRO– Esse filho é meu também!
LUÍSA– Você vai fazer história na construção da nova capital.
PEDRO– Essa criança veio numa hora errada para gente.
LUÍSA– Não para mim... Não para mim!
PEDRO– Você tem sua mãe, sua irmã, seu pai para ajudar...
LUÍSA– Nós temos um ao outro!
PEDRO– É preciso mais do que amor para se viver, Luísa. Eu preciso
arrumar a mala. Eu viajo amanhã... cedinho. Mas eu estou levando comigo
um retrato seu. Eu vou fazer dinheiro e volto o mais rápido que puder.

CANTORA– SE O DESTINO
ENTÃO NOS SEPARAR
SE DISTANTE
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A MORTE TE ENCONTRAR
NÃO IMPORTA, QUERIDO
PORQUE EU
MORREREI TAMBÉM
ELENCO– QUANDO ENFIM
A VIDA TERMINAR
E DOS SONHOS
NADA MAIS RESTAR
NUM MILAGRE SUPREMO
CANTORA– DEUS FARÁ NO CÉU
TE ENCONTRAR

Um RADIALISTA narra as notícias.

RADIALISTA– Essa é para quem tem o coração forte! No começo do


seu mandato, o presidente Juscelino Kubitschek anunciou a meta
síntese de seu programa: a construção da nova capital: Brasília. O
Brasil, que acompanha os primeiros passos da bossa nova e acabou
de ser campeão do mundo de futebol, vive cheio de esperanças.
Estamos nos anos dourados, mas nem tudo serão flores nessa
crônica, meus caros ouvintes.

Durante a canção o cenário é modificado para uma rodoviária e o casal está


abraçado. A família de LUÍSA está presente. HELOÍSA (sua irmã), AMÉLIA (sua
mãe) e OSNI (seu pai) participam da despedida. A irmã fuma longe dos demais.

PEDRO– (PARA LUÍSA) Por que tão triste? Eu volto logo!


AMÉLIA– Toma cuidado viu Pedro! Eu ouvi cada barbaridade sobre
Brasília. Dizem que lá só tem índio e cangaceiro.
OSNI– Você dá ouvidos demais as notícias.
AMÉLIA– A gente tem que acreditar no que diz o jornal.
OSNI– Nosso presidente está investindo muito em Brasília. Lá estará o
futuro do país. Juscelino vai colocar o Brasil no topo do mundo.
AMÉLIA– Eu acho um desperdício construir uma cidade enfiada no meio
do nada. Para que gente? Alguém pode desanuviar a minha mente?
OSNI– Eu acho extraordinário. Já parou para pensar? Estão construindo
uma cidade no meio do cerrado.
AMÉLIA– Só quero saber quem é que vai pagar essa conta!
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PEDRO– Brasília será um símbolo: a capital de um novo país! Um país


de futuro. Eu estou muito feliz em participar desse momento.
HELOÍSA– Vê se não troca minha irmã por uma candanga.
AMÉLIA– A Heloísa sempre fazendo futrica na hora errada.

Um trabalhador da rodoviária anuncia a partida do ônibus de PEDRO.

TRABALHADOR DA RODOVIÁRIA– Quem vai embarcar no ônibus das


9h30 rumo a Brasília e já está com o bilhete em mãos, pode ficar em fila
para despachar as bagagens e entrar no ônibus.
OSNI– Vá construí o nosso futuro meu rapaz.
PEDRO– É o que eu mais quero meu sogro.

LUÍSA e PEDRO se abraçam. BYE BYE BRASIL. O número musical será feito
pelo elenco se despedindo de seus parentes e embarcando para a nova capital.

BYE BYE BRASIL


ELENCO– OI CORAÇÃO NÃO DÁ
PRA FALAR MUITO NÃO
ESPERA PASSAR O AVIÃO
ASSIM QUE O INVERNO PASSAR
EU ACHO QUE VOU TE BUSCAR
AQUI TÁ FAZENDO CALOR
DEU PANE NO VENTILADOR
JÁ TEM FLIPERAMA EM MACAU
TOMEI A COSTEIRA
EM BELÉM DO PARÁ
PUSERAM A USINA NO MAR
TALVEZ FIQUE
RUIM PRA PESCAR
MEU AMOR
NO TOCANTINS
O CHEFE DOS PARINTINTINS
VIDROU NA MINHA CALÇA LEE
EU VI UNS PATINS PRA VOCÊ
EU VI UM BRASIL NA TEVÊ
CAPAZ DE CAIR UM TORÓ
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ESTOU ME SENTINDO TÃO SÓ


OH TENHA DÓ DE MIM
PINTOU UMA CHANCE LEGAL
UM LANCE LÁ NA CAPITAL
NEM TEM QUE TER GINASIAL MEU AMOR

JUSTO– São os brasileiros que estão mostrando como serão as cidades


dos anos dois mil. Sabe o porquê? Por quê no Brasil o futuro é logo ali.
ARMANDINHO– Juscelino devia se lembrar de dar educação para o
povo.
ÁTILA– O que ele quer: governar uma nação de analfabetos?
TONICO– Juscelino não planejou tudo sozinho! Marques de Pombal já
havia pensado nisso há tempos, afinal, uma capital a mercê de invasões
marítimas não é futuro para país nenhum.
JUSTO– Antes ainda, no Brasil império, José Bonifácio já planejava a
mudança da capital para o interior.
TONICO– E agora, doutor Juscelino é quem bota fé nessa mudança.
RADIALISTA– E ainda sugeriu dois nomes: Petrópoli e Brasília.
ÁTILA– A capital do Brasil tem de continuar no Rio de Janeiro.
ARMANDINHO– Uma cidade com história, passado, que já abrigou um
imperador e foi palco de uma revolução da república.
JUSTO– O que tem de gente ganhando dinheiro com essa construção!

ELENCO– BABY BYE BYE


ABRAÇOS NA MÃE E NO PAI
MINHA HORA CHEGOU
PODES CRER
VOU VER O BRASIL NA TV

PEDRO embarca rumo a Brasília e todos saem de cena. MODESTO, MAYSA,


ARMANDINHO e ÁTILA (os rapazes seguram uma mala de viagem cada).

MODESTO– Eu espero que vocês dois não me envergonhem.


ÁTILA– A gente precisa mesmo ir para lá, pai?!
ARMANDINHO– É pai, aquele lugar é um buraco no meio do nada.
MODESTO– Sem conversinha fiada, vocês viajam ainda hoje na comitiva
do presidente, no mesmo avião.
MAYSA– Se eu pudesse, iria junto! Mas eu odeio mato, bicho, ai credo.
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MODESTO– Filha minha não foi criada para sair do Rio de Janeiro. Vai
arrumar um ótimo casamento e aumentar o nosso patrimônio.
MAYSA– É tudo o que eu mais quero: viver de brisa, sem precisar fazer
nada e mandar em todo mundo.
MODESTO– Chegando em Brasília, vocês ficam sob a batuta do seu tio.
ARMANDINHO– A gente vai ficar muito tempo naquele lugar?
ÁTILA– Eu não quero!
MAYSA– (PROVOCA) Não tem que querer, vocês vão e pronto.
MODESTO– Deixem de ser bundões e encarem como uma aventura.
MAYSA– Uma aventura selvagem. Bicho, gente, mato, morte...
MODESTO– E não me façam passar vergonha.
MAYSA– Como diz o papai: “nós temos um sobrenome a zelar”.
MODESTO– Exatamente! (TEMPO BREVE) Vocês vão ficar por lá no
máximo uns três dias. Piscou e já passou!
ARMANDINHO/ÁTILA– Três dias!?!
MODESTO– Tempo suficiente para fazer o que precisa ser feito.

Os dois se olham ressabiados. Ouvimos o instrumental de MAMBEMBE. As


pessoas desembarcam em Brasília com malas, gaiolas, galinhas e outros itens.

MAMBEMBE
ELENCO– NO PALCO NA PRAÇA NO CIRCO
NUM BANCO DE JARDIM
CORRENDO NO ESCURO
PICHADO NO MURO
VOCÊ VAI SABER DE MIM
MAMBEMBE CIGANO
DEBAIXO DA PONTE [CANTANDO]
POR BAIXO DA TERRA [CANTANDO]
NA BOCA DO POVO [CANTANDO]
MENDIGO MALANDRO MULEQUE
MULAMBO BEM OU MAL [CANTANDO]
ESCRAVO FUJIDO
UM LOUCO VARRIDO
VOU FAZER MEU FESTIVAL
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MAMBEMBE CIGANO
DEBAIXO DA PONTE [CANTANDO]
POR BAIXO DA TERRA [CANTANDO]
NA BOCA DO POVO [CANTANDO]

Todos saem. PEDRO permanece com a mala, segurando um papel. GERÚNDIO


e CELESTINA está próximo do homem e não demora para abordá-lo.

GERÚNDIO– Arrupia! Precisando de ajuda?


PEDRO– Eu procuro esse lugar...
CELESTINA– (tomando o papel) Eu sei donde fica!
GERÚNDIO– Mas vai tá custando uma boa nota.
PEDRO– Você vai me cobrar por uma informação?
CELESTINA– Aqui, nada é dado.
GERÚNDIO– Bem-vindo a Brasília.

GLÓRIA aparece em cena. Ela tem pouco menos de dezoito anos e tem os
cabelos soltos sobre um corpo que revela curvas de uma menina mulher.

GLÓRIA– Vaza daqui Celestina! E você Gerúndio, sem atormentação


com o moço
GERÚNDIO– Qual é Glorinha? Eu tô juntando grana pra te levá pra comer
pipoca depois da missa.
GLÓRIA– Que invenção é essa?
GERÚNDIO– Ocê pode alimentá os pombim da praça enquanto eu dô
pipoca na sua boquinha.
GLÓRIA– Sabe quando eu vou sair com tu? O dia que o sol molhá e a
chuva queimá. Agora some vocês dois.

GERÚNDIO e CELESTINA saem de cena. Restam GLÓRIA e PEDRO. Ela pega


o papel das mãos do homem de forma precisa e ligeira.

GLÓRIA– Tu tá no lugar certo! Qual é a tua graça?


PEDRO– Pedro.
GLÓRIA– Glória! Se tu quer falar com o Justo é melhor por sebo nas
canelas que ele tá largando o turno antes do sol se por.
PEDRO– Você é o que dele?
GLÓRIA– Sô irmã! De criação. Minha mãe e meu pai desceram do Norte
rumo a São Paulo e foram largando os fio pelo caminho. Eu fui a terceira
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dos nove. Meu irmão mais velho ficou em Belém. O segundo ficou em
Abadia de Exu... Conhece Abadia de Exu? (EMENDA) Pois é, ninguém
sabe onde fica.

GLÓRIA e PEDRO saem de cena. Estamos no departamento onde JUSTO é o


chefe. Em uma mesa VIRGÍNIA, a secretária, está pintando as unhas do pé.

GLÓRIA– Onde tá o Justo?


VIRGÍNIA– Que susto criatura. Desse jeito você me mata do coração.
GLÓRIA– Eu trouxe o... Como é mesmo o seu nome?
PEDRO– Pedro.
GLÓRIA– Pedro!
PEDRO– Eu acabei de chegar de viagem.
VIRGÍNIA– De onde?
PEDRO– Rio de Janeiro.
VIRGÍNIA– E veio fazer o que nesse fim de mundo?
PEDRO– Eu vim para trabalhar na construção da capital.
VIRGÍNIA– Você é quem sabe. Preenche essa ficha.
PEDRO– Eu já vim com o emprego arranjado.
VIRGÍNIA– Por quê não falou antes. Devolve essa ficha e fica com essa
outra. Aí tem toda a sua rotina. Mas vou logo avisando que o serviço é
pesado. Aqui se trabalha vinte e quatro horas. Não se pode parar nunca!
GLÓRIA– Quando ele começa?
VIRGÍNIA– Amanhã, as cinco! E não se atrase. Um minuto do seu
descuido pode custar caro para o país.
PEDRO– Serei pontual. Eu queria pedir licença para a senhora. Eu viajei
quase dois dias. Eu preciso de um banho e uma cama para descansar.
VIRGÍNIA– Eu tenho cara de dona de albergue?

VIRGÍNIA vai saindo sem pedir licença. GERÚNDIO e CELESTINA aparecem.

GERÚNDIO– Dona Virgínia Deus é justo, mas a roupa da senhora é mais!


PEDRO– Eu preciso encontrar um lugar para passar a noite.
CELESTINA– Tá cheio de obra inacabada pra você tá se ajeitando.
PEDRO– Eu não sou apegado a luxo.
GERÚNDIO– E se nóis leva ele na Casa Amarela?
PEDRO– Lá tem lugar para dormir?
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CELESTINA– Cama é que não farta!


GLÓRIA– Mas lá se faz tudo menos pregá os zóio. Simbora na carreira?
GERÚNDIO– Vamo mostrá para ele o caminho do bar da dona Beatriz.

Música CHEGA DE SAUDADE. O elenco transforma o cenário num bar.

CHEGA DE SAUDADE
ELENCO– CHEGA DE SAUDADE
A REALIDADE É QUE SEM ELA
NÃO HÁ PAZ NÃO HÁ BELEZA
É SÓ TRISTEZA E A MELANCOLIA
QUE NÃO SAI DE MIM
NÃO SAI DE MIM NÃO SAI
CANTORA– MAS SE ELA VOLTAR [SE ELA VOLTAR]
QUE COISA LINDA
QUE COISA LOUCA
POIS HÁ MENOS PEIXINHOS
A NADAR NO MAR
DO QUE OS BEIJINHOS
QUE EU DAREI NA SUA BOCA
AMBOS– DENTRO DOS MEUS BRAÇOS
OS ABRAÇOS HÃO DE SER
MILHÕES DE ABRAÇOS
COLADO ASSIM CALADO ASSIM
ABRAÇOS E BEIJINHO
E CARINHOS SEM TER FIM
QUE É PRA ACABAR COM ESSE
NEGÓCIO DE VOCÊ VIVER SEM MIM

Estamos na “Casa Amarela” o famoso bordel de BEATRIZ. Homens e mulheres


se misturam a JUSTO, NETO, TONICO e BENTO que conversam e bebem.
ARMANDINHO e ÁTILA comportam-se de forma desconfiada.

JUSTO– A próxima rodada de bebida é por minha conta.


TONICO– Está pagando promessa pela vitória do Brasil na copa?
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JUSTO– Que promessa que nada. Hoje é um dia para se comemorar com
quenga no colinho e trago goela abaixo.
NETO– A próxima rodada de quenga é por sua conta também?
JUSTO– Eu trouxe dois sobrinhos, filhos do meu irmão Modesto, lá da
capital, Rio de Janeiro, para conhecer as mulheres deste lugar.
TULIPA– Capital que vai deixar de ser.
BENTO– E vieram fazer o que em Brasília?
JUSTO– Meu irmão é dono de um dos maiores jornais do Rio. Ele mandou
os meninos fotografar a construção. Eu aproveitei e trouxe os dois aqui.
GARDÊNIA– Não tem mulher no Rio de Janeiro?
JUSTO– Meu irmão é muito ocupado e não tem tempo de mostrar aos
garotos o caminho do paraíso.
TULIPA– Da perdição.
NETO/BENTO– Do prazer.
TULIPA/GARDÊNIA– Da xoxota!
JUSTO– Por isso eu tratei de trazer os dois para cá!
GARDÊNIA– Eles nunca se deitaram com mulher?
TONICO– Nunca puseram aquilo naquilo?
JUSTO– Parece que não. Estão matando cachorro a grito. (chamando)
Átila! Armandinho!

Os rapazes se aproximam cheios de empolgação.

TONICO– Eu ouvi dizer que aqui a casa tem uma moça nova que nunca
foi tocada.
NETO– Dizem que ela veio de Manaus e vai ser amostrada hoje.
TULIPA– Ela já foi batizada: Petúnia!
ÁTILA– Esse é um bordel de mulheres flores?
GARDÊNIA– Nós protegermos nossos nomes verdadeiros.
ARMANDINHO– Eu preciso fazer uma reportagem sobre vocês! É genial
a ideia de esconder-se sob um nome fictício.
TULIPA– A novata mal chegou e já ganhou nome.
GARDÊNIA– Espero que ela não roube o nosso lugar na preferência.
TULIPA– O que você acha de mim? De nós dois?!
ÁTILA– Você é de fechar o comércio.
TULIPA– Mantenha sua palavra e você terá tudo comigo.
ARMANDINHO– Já vi que sobrei.
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GARDÊNIA– Deixe de lero-lero, eu tô aqui não tô?


JUSTO– Já vi que os meninos se arrumaram. É hoje!
TONICO– E cadê a tal novata... A Petúnia?!
JUSTO– Beatriz vai fazer um leilão. Quem pagar mais, ganha o direito de
se deitar com a virgem.
BENTO– E os cariocas, o que acharam de Brasília?
ÁTILA– Isso aqui está um descampado a céu aberto.
ARMANDINHO– A capital nunca devia ter saído do Rio de Janeiro.
ÁTILA– Brasília não deveria ter saído do papel.
ARMANDINHO– Isso sem falar na corrupção. Por mais bem-intencionado
que o doutor Juscelino seja, ele não vai conseguir controlar a roubalheira.
ÁTILA– Brasília será o cemitério de Juscelino!

O clima pesa na Casa Amarela. JUSTO tenta apaziguar.

JUSTO– Isso é jeito de falar... Perderam o juízo? Mais respeito!


TONICO– Aqui não é a casa de nenhum dos dois. Vocês não estão
debaixo da asa do Cristo Redentor para buscar proteção.
NETO– A lei aqui é uma só!
BENTO– Sobrevive quem fala pouco.
TONICO– Brasília é terra onde filho chora e a mãe não vê.
JUSTO– Eles falaram sem pensar. Foi um ato desajuizado. Relevem!

BEATRIZ a dona do local aparece deslumbrante.

BEATRIZ– E como hoje é um dia de festa, ninguém vai brigar com


ninguém dentro do meu estabelecimento. Tratem de gastar até o último
tostão aqui, sem dó. Vão beber e cantar, aproveitar que as meninas estão
perfumadas e cair na esbórnia.
JUSTO– Você está mais linda que nunca.
BEATRIZ– Você é amigo. E elogio de amigo não enche o bolso.
JUSTO– Quando é que você vai me levar a sério?
BEATRIZ– Eu te levo a sério. É por isso que eu não te dou trela.
JUSTO– Quando você vai me dar a honra de me deitar com você?
BEATRIZ– (PARA JUSTO) Quem sabe um dia. (PARA TODOS) Divirtam-
se, bebam até cair! Mas não se esqueçam de pagar a conta antes de sair.
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Instrumental de ELA É CARIOCA. O cenário é modificado para o quarto de


HELOÍSA na casa dos pais no Rio de Janeiro. LUÍSA observa a irmã que tira
cartas para si mesma, preocupadíssima.

RADIALISTA– Rio de Janeiro, quarenta graus na sombra. Com a


mudança da nova capital para o centro oeste, a cidade viu de perto
o aumento de novos moradores nos morros e o surgimento de novas
comunidades. O que era para ser uma moradia transitória parece
que se tornará uma moradia duradoura. Isso se chama “progresso”.

ELA É CARIOCA
CANTORA– ELA É CARIOCA, ELA É CARIOCA
BASTA O JEITINHO DELA ANDAR
NEM NINGUÉM TEM CARINHO
ASSIM PARA DAR
EU VEJO NA LUZ DOS SEUS OLHOS
AS NOITES DO RIO AO LUAR
VEJO A MESMA LUZ
VEJO O MESMO CÉU
VEJO O MESMO MAR

HELOÍSA– Se as minhas previsões não falharem, o que vem pela frente


não será nada animador. Olha só quanta porcaria o Brasil vai enfrentar.
LUÍSA– Heloísa, se eu te contar uma coisa você não fala para a mamãe?
HELOÍSA– Não posso prometer.
LUÍSA– Você é minha irmã!
HELOÍSA– Azar o seu.
LUÍSA– Nossa Heloísa, como você pode ser assim...
HELOÍSA– Eu sou direta. Desembucha logo o tal assunto proibido.

AMÉLIA entra em cena sem pedir licença. Clima.

AMÉLIA– Atrapalho? Credo gente! Fui eu quem pariu as duas. Vocês vão
guardar segredo de mim?
HELOÍSA– Não tem segredo nenhum, Amélia. A Luísa ia me contar um
troço, mas você chegou e impediu o avanço da conversa.
AMÉLIA– O que você vai contar para a Heloísa que eu não posso saber,
posso saber?
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LUÍSA– Não é nada mãe. Era um papo entre irmãs. Coisas de mulher.
AMÉLIA– Ué gente, se eu não sou mulher, eu sou o que: uma anta de
calcinha e sutiã? Eu não tinha intenção de atrapalhar não. Só vim avisar
que vosso pai está indo para o interior na saga dele de vender colchão.
Ele quer se despedir de vocês duas.
LUÍSA– Diga ao papai que a gente já vai.
AMÉLIA– As duas. Sem exceção.

AMÉLIA sai de cena. Restam LUÍSA e HELOÍSA.

LUÍSA– Eu estou grávida.


HELOÍSA– De quem?
LUÍSA– Como de quem? Do Pedro.
HELOÍSA– E você está feliz? De quanto tempo você está?
LUÍSA– Pouquinho.
HELOÍSA– Era esse o segredo? Se for, desencana que logo a barriga
aponta para frente e adeus segredo. Você contou para ele pelo menos?
LUÍSA– Claro que sim.
HELOÍSA– E qual grilo? Você é maior, casada...
LUÍSA– É o que eu andei pensando numa coisa.
HELOÍSA– Aborto?
LUÍSA– Deus me livre. Nem fala isso.
HELOÍSA– Qual o problema? Eu mesmo já abortei uma vez.
LUÍSA– Isso é pecado.
HELOÍSA– Mais um anjo no céu. Eu engravidei de um militar casado. Foi
um descuido, mas já dei meus pulos e resolvi.
LUÍSA– Eu jamais pensei que fosse viver para ouvir tal coisa.
HELOÍSA– Não nasci para ser mãe! Não tenho esse desejo.
LUÍSA– É o que eu mais quero.
HELOÍSA– Pelo menos não se pode dizer que Deus não foi justo contigo.
LUÍSA– Mas eu queria ter esse filho perto do Pedro.
HELOÍSA– Se é o que você quer, vá para junto dele.
AMÉLIA– (DE FORA) Heloísa. Luísa! O vosso pai está esperando.
HELOÍSA– Que tédio. Toda vez que o papai viaja a gente tem de posar
de filha certinha do lado da família perfeita. Que ódio.
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HELOÍSA e LUÍSA saem. Retomamos ao bar de BEATRIZ avançando algumas


horas da cena anterior. TULIPA, GARDÊNIA, ARMANDINHO e ÁTILA subiram
para o quarto e não estão na cena. PETÚNIA a moça que será rifada em cena.

JUSTO– Então essa é a virgem famosa?


NETO– É a perfeição em forma de gente.
BEATRIZ– Fale “oi” para os rapazes Petúnia!
PETÚNIA– Oi rapazes!
BENTO– Se algum de nós quiser ser o primeiro a se deitar com ela...
PETÚNIA– (CORTA SECO) Vai ser preciso desembolsar uma grana bem
alta. (TEMPO BREVE) Quanto vocês pagariam por mim?!
TONICO– Mais do que eu ganharia trabalhando dez anos seguidos.
NETO– Eu venderia meus dois dentes de ouro para pagar.
BEATRIZ– E tu Justo? O que faria por uma noite com...
JUSTO– Com você? Eu venderia a minha alma!
BEATRIZ– O diabo ronda o solo de Brasília. Ele pode escutar.

GLÓRIA, PEDRO, GERÚNDIO e CELESTINA entram. JUSTO fica surpreso.

JUSTO– O que você está fazendo aqui Glória? Esse lugar não é
apropriado para menina moça como você. E ainda mais na companhia
desse estrupício do Gerúndio e dessa piolhenta!
CELESTINA– Eu já te passei piolho por acaso?!
BEATRIZ– Aqui não é um lugar apropriado para crianças.
JUSTO– Eu não posso nem me dar ao luxo de me divertir um pouco.
GLÓRIA– Eu só vim acompanhar o moço.
GERÚNDIO– Ele vai trabalhar na tua obra.
JUSTO– Ele chegou num momento ruim. Qual o turno dele? Qual o seu
turno rapaz? Porque se não tem turno, emprego não há.
TONICO– Vai voltar a pé para casa.
PEDRO– Eu fui contratado lá no Rio, eu vim para assumir o serviço. Eu
preciso muito desse emprego. Eu começo amanhã as cinco horas.
JUSTO– E por que não me olha nos olhos? Você vai construir Brasília
olhando para o chão? Já viu o tamanho das obras?
PEDRO– Ainda não deu tempo. Eu cheguei não tem duas horas. Eu
preciso descansar uma noite.
JUSTO– E você vai construir Brasília deitado, dormindo?
BEATRIZ– O rapaz precisa descansar. Como é teu nome?
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PEDRO– Pedro.
BEATRIZ– Venha comigo Pedro.

JUSTO fica impassível. Seus olhos estão marcados pelo ódio.

TONICO– Mal chegou e já virou queridinho da Beatriz.


NETO– A sorte não escolhe morada.
BENTO– Ele não vai dar conta daquele pedaço de mau caminho.
JUSTO– Eu não gostei nenhum pouco desse sujeito. E para vocês a noite
acabou de acabar. Vá todo mundo dormir que amanhã tem muito trabalho.

Ouvimos uma música. Estamos nos quartos de TULIPA e ÁTILA, GARDÊNIA e


ARMANDINHO. Os rapazes estão sentados, muito tímidos, olhando fixamente
para as meninas que seduzem os dois de forma direta enquanto cantam.

TULIPA/GARDÊNIA– O que tu deseja?


ARMANDINHO/ÁTILA– O que eu desejo?
TULIPA– Por trinta minutos eu sou sua e de mais ninguém.
GARDÊNIA– Seu tio já acertou tudo com a Beatriz.
TULIPA– Relaxa que hoje é por conta do titio.
GARDÊNIA– Eu sempre tive vontade de provar um carioca.
TULIPA– Tu não fala? Vou ter que achar tua língua de qualquer jeito.
ARMANDINHO– Eu trouxe um chiclete. Quer?
GARDÊNIA– Só se tu mascar com eu.
ARMANDINHO– É?! Você não acha que está calor aqui?
ÁTILA– Será que eu podia abrir a janela?
GARDÊNIA– Calor? Tira a roupa que o calor desaparece!
ARMANDINHO– Não sei a senhora sabe, mas eu já tive uma namorada.
Eu a conhecia desde a infância, um doce de menina.
GARDÊNIA– E tu não fodeu ela? Nunca?
ARMANDINHO– Eu só mandava flores.
GARDÊNIA– Você é baitola ou o que?
TULIPA– Seu tio vai ficar danado da vida quando souber que você não
quis dar um trato em mim. Imagina a cara dele.
ÁTILA– Você tem namorado? Mãe?
TULIPA– Tu acha que eu sou filha de chocadeira?
ÁTILA– Bonita do jeito que você é... Claro que não!
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TULIPA– Tu é brocha?
GARDÊNIA– Eu trabalho por hora. Ou a gente começa ou a fila vai ter
que andar.
ARMANDINHO– A gente começa!
ÁTILA– Por onde eu começo?
GARDÊNIA– Por onde você quiser!
TULIPA– Você tinha a minha roupa ou eu tiro?
ARMANDINHO– A gente podia diminuir a luminosidade.
GARDÊNIA– Tu quer uma foda a meia luz?
ÁTILA– Eu trouxe um bombom para você. Está aqui! Ih, acho que
amassou. Eu guardei no bolso de traz.
TULIPA– Virgem santa! Você esconde doce no cu?
ÁTILA– Onde?
TULIPA– No fiofó! No rabicó! No toba!
GARDÊNIA– Deixe de papo fiado. Ou tu não gosta de mulher?
ARMANDINHO– Gosto! Gosto? Gosto sim, só que eu nunca provei.
GARDÊNIA– Tu é cabaço?
TULIPA– É virgem?
ÁTILA– Sou sim senhora.
ARMANDINHO– Mas ninguém pode saber.
TULIPA– Como pode, um rapaz bonito como tu, jovem, aparentemente
saudável, nunca se deitou com mulher? Nunquinha?
GARDÊNIA– Tu vive só de punheta? De pedir carona para o céu?
ARMANDINHO– Eu já tentei fazer amor com uma moça, mas eu não tive
coragem. Na hora agá apareceu gente e estragou tudo.
TULIPA– Eu não dou conta de virgem! Eu vou devolver o cascalho para
o teu tio e fica por isso mesmo.
ARMANDINHO/ÁTILA– Não!
TULIPA/GARDÊNIA– Por que não?
ÁTILA– Ninguém pode sonhar que eu nunca dormi com uma mulher.
TULIPA– Por conta de que?
ÁTILA– Eu fiquei noivo há cerca de um mês. E eu preciso aprender para
poder, enfim, para poder fazer com a minha noiva.
ARMANDINHO– Desde que isso aconteceu, eu não consigo mais ficar do
lado de uma mulher sem ficar nervoso. Está vendo as minhas mãos? Olha
só como eu estou tremendo...
GARDÊNIA– Acho melhor cair fora. Já vi que dessa braguilha não sai
cobra.
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ARMADINHO– Posso pedir um favor?


ÁTILA– Não conta para ninguém o lance que aconteceu aqui?
GARDÊNIA– Minha boca é um túmulo.
TULIPA– Será o nosso segredinho.

Os dois saem de cena rapidamente. As mulheres falam para o público.

TULIPA/GARDÊNIA– Sobrinho de Justo, virgem?


TULIPA– Isso vai dar o que falar. Vixi!
GARDÊNIA– Já estou até vendo a cara do povo quando souber.

Ouvimos uma música instrumental. O cenário é modificado para uma obra onde
JUSTO é o chefe. É hora do almoço. GLÓRIA e CELESTINA distribuem as
marmitas aos trabalhadores. GERÚNDIO está por perto segurando um tabuleiro
com pequenas garrafas de vidro cheias de areia. PEDRO e GIL estão afastados.

GERÚNDIO– Quem vai tá quereno areia da construção da nova capitá. É


a artêntica areia de Brasília. É pó do novo mundo.
TONICO– Está vendendo isso para que?
BENTO– Vai juntar dinheiro para encontrar sua família?
NETO– E desde quando jumento tem mãe?!
GERÚNDIO– Eu tô quereno ajuntá todo o dinheiro que cabe nos borso
pra mó de casá com a Glorinha na catedral.
GLÓRIA– Ele fala da boca para fora. Gerúndio é frouxo!
GERÚNDIO– Froxo nada! Só você me dá mole pra vê só.
CELESTINA– Não sei o que tu viu nessa branquela sem graça.
TONICO– Lembra da história daquela galinha de estimação?
GERÚNDIO– Ô seu Tonico, pra que lembrá disso...
TONICO– O pobre tinha uma galinha que foi a primeira namorada dele. O
safado vivia abusando dela...
BENTO– Até que de tanto nheco-nheco...
NETO– A galinha não aguentou e morreu.
VIRGÍNIA– Vai procurar o que fazer em outro lugar. Vai Gerúndio!

GERÚNDIO vai saindo de cena. Antes ele dispara com malícia.

GERÚNDIO– Dona Virgínia Deus é justo, mas a roupa da senhora...


18

O rapaz sai de cena definitivamente. VIRGÍNIA prossegue.

VIRGÍNIA– Antes que me encham de perguntas, é bom que eu avise que


a comida está um diferente. Não sei se vocês perceberam.
TONICO– Isso está melhor que hotel de luxo!
GLÓRIA– Quem está no preparo da bóia do cêis sou eu.
CELESTINA– Eu também ajudei a cortá as cebola.
GLÓRIA– Ajudou atrapalhar, isso sim.

JUSTO aparece em cena interrompendo a confusão entre as moças.

JUSTO– Pedro! Termine seu almoço e venha até a minha sala. Eu quero
ter um particular com você.
PEDRO– Eu mal dei a primeira garfada.
JUSTO– Em cinco minutos você deve estar na minha sala.

JUSTO sai de cena sem olhar para trás.

CELESTINA– Esse homi tem uma energia muito ruim, não gosto dele.
TONICO– Pelo visto a coisa está feia para você.
NETO– Ele tá dormindo desde que chegou com a pretendente do patrão.
BENTO– Seu Justo está uma fera com você.
TONICO– Mal chegou e já garfou a mulher dele.
PEDRO– Ela não é mulher dele.
VIRGÍNIA– Nem tua!
TONICO– O que tanto você faz lá no bar. Chegou faz uma semana e
desde então passa noite com a puta chefe.
PEDRO– Eu e Beatriz nós somos amigos, só isso.
TONICO– E desde quando uma mulher pode ser amiga de um homem?
VIRGÍNIA– Qual é o problema? Eu não me dou bem com vocês?!
GIL– Ninguém aqui tem nada a ver com a vida dele. Aliás, ninguém aqui
tem nada com a vida do outro.
NETO– É por isso que eu gosto do Gil.
BENTO– Fala pouco, mas é pontual.
TONICO– A gente só estava dando uns conselhos para ele.
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GIL– Se conselho fosse bom a gente vendia, não gastava à toa. Todo
mundo aqui está no mesmo barco. Cada um de nós veio de um lugar
diferente e caiu aqui, no meio do nada para construir o sonho do
presidente. Vamos aquietar o facho e ficar cada um na sua.
TONICO– Eu já terminei de comer e vou voltar para o serviço.

NETO, BENTO e TONICO se afastam. GIL e PEDRO conversam num canto.

GIL– Eles falam, falam, mas no fundo não passam disso.


PEDRO– Obrigado. Eu sei que com você eu posso contar.
GIL– Aqui ninguém é amigo de ninguém. Nós viemos para construir a
capital. Depois, adeus. Eu sinceramente não vim aqui para fazer amizade.
PEDRO– De onde você é? Você quase não fala da sua vida.
GIL– Eu faço bem o meu serviço e Justo não pega no meu pé. Isso que
interessa. Você quem devia se preocupar. Hoje você é a pedra no sapato
dele. Fica espero! Ele não dá ponto sem nó.

PEDRO tira do bolso uma foto de LUÍSA.

GIL– Essa é a sua mulher?


PEDRO– Luísa!

Os que estão espalhados se aproximam com calma.

GLÓRIA– Eu posso espiar?

PEDRO entrega a foto para a moça.

GERÚNDIO– Dona Virgínia a senhora é jeitosa, mas a muié dele...

TONICO, PEDRO e NETO se aproximam.

BENTO– A gente pensou melhor e colocamos as ideias no lugar.


NETO– Não tem sentido a gente comprar uma briga que não é nessa.
TONICO– Nem se juntasse todas as muiés daqui, daria a belezura da sua.
VIRGÍNIA– Eu eu sou mais eu.
GLÓRIA– Conta para gente da sua Luísa, eu fiquei todinha curiosa.
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PEDRO– Eu vou ter um filho com ela. Eu vim para cá com esperança de
dias melhores e ela ficou no Rio de Janeiro me esperando. Mas parece
que eu não tive sorte, nem o chefe vai com a minha fuça. Eu nem juntei
dinheiro suficiente para voltar... Rio de Janeiro é longe demais e a grana
eu nem vi o cheiro.
TONICO– O que vai ser de nós quando essa cidade ficar pronta?
GIL– Cada um vai seguir sua vida do jeito que Deus quiser.
CELESTINA– Eu só vou ter lembranças boas quando isso acabar.
TONICO– Cada um de um canto diferente, pegando cedo no serviço.
GIL– Cinco da manhã já se ouve o barulho dos tratores no cerrado.
BENTO– Tudo aqui em Brasília tem que ser rápido.
TODOS– Pra ontem.
GIL– Olha como está ficando linda a praça dos três poderes.
TONICO– Brasília vai ser a cidade mais moderna do mundo.
NETO– Como gosta de curva esse tal de Niemeyer.
GIL– Eu cheguei só com seis cruzeiros no bolso e a fé. Posei em casa de
gente estranha até chegar aqui. Mas o povo dizia que ia ter emprego para
todo mundo. Por isso eu vim.
GERÚNDIO– Eu queria me alembrá, mas num dá. Eu nem sei de que
caminhão eu caí. Quando eu dei por mim, já tava aqui.
GLÓRIA– Pió foi o que aconteceu comigo. Minha mãe e meu pai
desceram do Norte rumo a São Paulo e foram largando os fio pelo
caminho. Eu fui a terceira dos nove. Meu irmão mais velho ficou em
Belém. Outro ficou em Abadia de Exu, conhece?
GIL– Porque você não escreve uma carta para sua mulher.
TONICO– Boa ideia.
CELESTINA– Ela vai gostar de receber notícias suas.
GLÓRIA– Eu posso ajudá! Eu sei ótimos versinhos de amor. “No céu eu
escolhi uma estrela. No jardim escolhi uma flor. Na terra escolhi você para
ser o meu grande amor”.
CELESTINA– Achei ruim demais. O Gerúndio falou um pra mim outro
dia... Qual era mesmo, Gerúndio?
GERÚNDIO– “O limão é tão azedo que ninguém pode chupar. Tua boca
é tão doce que só eu posso beijar”.
GLÓRIA– Isso foi para mim Gerúndio! Se foi, eu achei ruim de doer.
CELESTINA– Foi pra mim, nem cresce os zóio. Gerúndio é meu.
GERÚNDIO– “Beijo na testa é respeito. Beijo no rosto é carinho. Beijo no
queixo é vontade, de subir mais um pouquinho”.
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Instrumental de uma música. O núcleo de Brasília está num canto do palco


escrevendo a carta para LUÍSA, sem movimentos exagerados. Do outro, entra
o núcleo do Rio de Janeiro. MAYSA entra dançando desajeitada e beijando a
própria mão como se treinasse.

RADIALISTA– O temo continua seco, mas propício para pancadas de


chuva. Nada neste país parece acontecer de forma planejada, tudo muda
a todo instante. E o destino, meus caros ouvintes, ele prega peças que
nem o próprio destino previu.

MODESTO entra e vê a filha beijando a própria mão.

MODESTO– Mas o que é isso? O que eu estou vendo é o que eu estou


pensando?
MAYSA– E o que o senhor está pensando?
MODESTO– Eu estou pensando o que eu acabei de ver.
MAYSA– O que foi que o senhor viu, meu pai?
MODESTO– Eu vi o que eu vi.
MAYSA– Então o senhor viu e pronto.
MODESTO– Maysa, minha filha... Eu vi mesmo ou foi um delírio?
MAYSA– Viu o que?
MODESTO– Coisas... Digamos, explícitas demais para um homem
conservador como eu. Se a sua mãe fosse viva, daria boa educação.
MAYSA– Eu só estava beijando a minha mão para treinar.
MODESTO– Treinar o que?
MAYSA– Quando eu for beijar um rapaz.
MODESTO– E você está pensando em beijar um rapaz!?
MAYSA– Algum dia eu irei fazer isso, oras.
MODESTO– Eu acho melhor te mandar de volta para o colégio de freiras.
MAYSA– Deus me livre!
MODESTO– Não coloque o nome de Deus em vão.

Estamos com o núcleo de Brasília.

GLÓRIA– Que mais que a gente pode por na carta?


GERÚNDIO– Põe que ocê tá gamando ni eu.
NETO– Jesus tenha pena dessa pobre alma!
GLÓRIA– Vô pô você dentro do envelope e manda pra bem longe.
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TONICO– Descreve o romance dele com a galinha.


BENTO– Pobre da penosa!
CELESTINA– Ai vocês só falam bestagem.
GIL– Deixa ele terminar a carta, não fiquem dando palpite ruim.
VIRGÍNIA– Eu ainda continuo me achando mais bonita que ela.
PEDRO– Eu estou quase terminando.
GLÓRIA– Ela vai ficá feliz demais quando receber notícias suas.

Estamos com o núcleo do Rio de Janeiro.

MODESTO– Eu vou adiantar a sua ida para lá. Antes você vai comigo
para Brasília.
MAYSA– Nem morta!
MODESTO– Morta é que não vai mesmo.
MAYSA– Fazer o que naquele fim de mundo?
MODESTO– Seu tio não mandou notícias e já era para os teus irmãos
terem voltado. Eu estou achando esse sumiço muito estranho.
MAYSA– Já eu estou achando ótimo ficar sozinha. Eu vou ficar.
MODESTO– Você vai comigo, não tem choro nem vela. Você aproveita e
olha para realidade do país, vai te fazer bem.
MAYSA– Eu odeio a realidade.
MODESTO– Mas tem muita gente vivendo nela, se você quer saber.
Arruma tuas coisas, a gente viaja amanhã cedinho. Eu odeio voar de noite,
aliás eu odeio avião. Não sei como essa peste voa lá no alto.

MODESTO e MAYSA saem de cena. Voltamos com o núcleo de Brasília.


ARMANDINHO e ÁTILA aparecem em cena.

TONICO– Os virgens resolveram dar as caras!


ARMANDINHO– Do que vocês estão falando?
GERÚNDIO– Tá todo mundo comentando a bela brochada de vocês.
CELESTINA– Vai ver eles nem gostam de mulher!
TONICO– Na hora agá saíram correndo feito maricas.
ÁTILA– Isso tudo é uma grande mentira.
VIRGÍNIA– Não é o que as meninas estão dizendo por aí.
ARMANDINHO– Elas são mulheres de vida fácil.
ÁTILA– Gostam de inventar asneiras para se promover.
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ARMANDINHO– Vocês deviam se preocupar em construir essa cidade


antes que ela vire passado.
ÁTILO– Bando de mocorongo marmiteiro.

JUSTO aparece em cena sorrateiramente.

JUSTO– Eu fico feliz em ver o quanto a minha equipe é unida. Eu ouvi as


acusações maldosas a respeito da virilidade dos meus sobrinhos. Mulher
fofoqueira vá lá. Mas um bando de homem fazendo fofoca em pleno
expediente é ridículo... Vocês não são pagos para contar anedotas. São
pagos para encher colinas de concreto e erguer paredes sólidas.

Os homens e mulheres começam a sair de cena. VIRGÍNIA fica.

JUSTO– Você fica Pedro! Esqueceu que temos assuntos a tratar.


PEDRO– Eu preciso voltar ao trabalho.
JUSTO– Se eu quiser. Eu quem dou as ordens por aqui.
PEDRO– O que foi que eu fiz?
JUSTO– Quero conversar sobre os seus atrasos. Que impressão você
espera causar? Está em Brasília há pouco mais de um mês e chega
sempre depois do horário. Você tem passado as noites em claro?

JUSTO percebe a carta na mão de PEDRO.

JUSTO– O que é isso? Deixe-me ver.


PEDRO– É uma carta que eu escrevi para a minha mulher.
JUSTO– Onde você arrumou tempo para escrever cartinhas de amor? Na
Beatriz é que não foi. Pode deixar que eu mando a Virgínia pôr no malote
do próximo caminhão que envia as correspondências até o Rio de Janeiro.
VIRGÍNIA– Pode confiar que eu farei chegar até ela.
JUSTO– Vamos rapaz, entregue essa carta e volte ao trabalho.

PEDRO entrega a carta e todos saem de cena. Voltamos ao Rio de Janeiro.


HELOÍSA e LUÍSA estão no quarto. A primeira tira cartas de tarô para a irmã.

HELOÍSA– Não precisa ter medo. As cartas não mentem jamais.


Embaralhe e depois coloque sobre a mesa.

HELOÍSA espalha as cartas como um leque.


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HELOÍSA– Escolha três cartas, sempre com a mão esquerda.

LUÍSA escolhe as cartas. HELOÍSA as coloca sobre a mesa da esquerda para


a direita sem virá-las.

HELOÍSA– A primeira carta representa a realidade que se esconde. A


segunda é um comentário sobre o que a primeira anuncia ou uma
advertência. A terceira sugere o equilíbrio entre as duas. É como uma
síntese. Ou para facilitar: presente, passado e futuro. Vejamos a primeira:
a Imperatriz. Ela segura um bastão e um ramo de trigo.
LUÍSA– Isso é bom ou ruim?
HELOÍSA– Simboliza o nascimento, dor e sangue para uma vida nova. É
a força do amor que une os opostos. Ela sugere novas situações. É uma
carta de fortes tensões interiores.
LUÍSA– Vamos parar por aqui, eu não quero saber de mais nada.

HELOÍSA pega a segunda carta.

HELOÍSA– Roda da fortuna.


LUÍSA– Já disse para parar com isso, Heloísa.
HELOÍSA– Eu vou até o fim. Essa carta simboliza o eterno movimento. A
roda da vida que faz com que depois da chuva venha o sol. O Pedro
precisou ir para longe em busca de oportunidade. É também uma carta
que traz a mudança inesperada: a sua gravidez.
LUÍSA– Você acha?
HELOÍSA– É o que as cartas querem apontar. Vamos confirmar com a
última. Bem que eu imaginava. Você vê esse casal? São os enamorados.
Eles representam o momento de decisão entre dois caminhos, a
necessidade de enfrentar provas.
LUÍSA– Você acha que eu devo ir ao encontro do Pedro?
HELOÍSA– Não é o que eu acho que realmente importa, mas sim o que
as cartas apontam.

AMÉLIA entra em cena com um envelope nas mãos.

AMÉLIA– De novo com essa mandinga Heloísa. E você ainda envolve a


sua irmã? Eu quero morrer quando eu vejo você com esse treco.
HELOÍSA– Amélia você já botou reparo numa coisa: você sempre entra
na hora errada. Você já notou o quanto isso é inconveniente.
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AMÉLIA– Eu estou na minha casa. Eu entro e saio por onde eu quiser, na


hora que eu bem entender. E se tiver achando ruim vai com a sua
macumba para outro canto. Luísa, chegou uma carta de Brasília para
você. Deve ser do Pedro. Vamos abrir? Eu estou com urticária para saber
como vão as coisas por lá.

AMÉLIA entrega a carta para LUÍSA que abre imediatamente. PEDRO aparece
em cena. Ele vai ser o porta voz da carta que LUÍSA irá ler.

PEDRO– Luísa. Escrevo esta carta para lhe dizer que as coisas por aqui
vão de vento em popa. Estou trabalhando muito e por isso não tenho
tempo de pensar em ninguém que ficou por aí. Brasília é tudo aquilo que
eu pensava. Prometi que voltaria em dez meses, mas devo ficar por mais
tempo. Até breve, Pedro.
LUÍSA– Ele não podia ter feito isso comigo.

Ouvimos o instrumental de MODINHA. A CANTORA em cena.

MODINHA
CANTORA– NÃO! NÃO PODE MAIS
MEU CORAÇÃO
VIVER ASSIM DILACERADO
ESCRAVIZADO A UMA ILUSÃO
QUE É SÓ DESILUSÃO
AH! NÃO SEJA A VIDA SEMPRE ASSIM
COMO UM LUAR DESESPERADO
A DERRAMAR MELANCOLIA EM MIM
POESIA EM MIM
VAI TRISTE CANÇÃO
SAI DO MEU PEITO
E SEMEIA EMOÇÃO
QUE CHORA DENTRO
DO MEU CORAÇÃO

LUÍSA– Suas cartas erraram Heloísa... O Pedro conheceu alguém. Ele


tem outra mulher em Brasília e não vai voltar nunca mais.

Neste clima intenso cai o pano. Final do Ato Um!


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ATO 02
MODESTO e MAYSA chegam carregando malas, a jovem carrega muitas malas.

MODESTO– Para que tantas malas?! Nós só viemos buscar seus irmãos.
MAYSA– Nunca se sabe para que tipo de evento eu posso ser convidada.
MODESTO– Evento?! A cidade nem ficou pronta, Maysa...
MAYSA– Falta muito para chegar?
MODESTO– A gente já chegou!
MAYSA– Isso aqui é: Brasília?!
MODESTO– A capital do nosso país.
MAYSA– Eu não quero ser pessimista, mas isso vai dar muito ruim.

GERÚNDIO e CELESTINA aparecem, sorrateiros, malandros.

GERÚNDIO– Arrupia! Precisando de ajuda?


MAYSA– Credo! Vocês falam a nossa língua?
CELESTINA– Não fui com a fuça dessa branquela azeda.
MODESTO– (segurando um papel) Nós estamos procurando esse lugar.
GERÚNDIO– (tomando o papel) Eu sei donde fica!
CELESTINA– Mas vai tá custando uma boa nota.
MAYSA– Vocês vão cobrar por uma informação?
CELESTINA– Aqui, nada é dado.
GERÚNDIO– Bem-vindos a Brasília.

GLÓRIA aparece em cena e espanta os dois com firmeza.

GLÓRIA– Vaza daqui os dois!

GERÚNDIO e CELESTINA saem de cena.

GLÓRIA– Tu não é o irmão do Justo?!


MODESTO– O próprio.
GLÓRIA– E o senhor não tá me reconhecendo?
MAYSA– Ele deveria?
GLÓRIA– (PARA MAYSA) Você e eu somos primas!
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GLÓRIA abraça MAYSA com força.

MAYSA– Alguém me ajuda a tirar essa “coisa” de cima de mim.


GLÓRIA– Glória! Se tu quer falar com o Justo é melhor se apressar.

Instrumental de ESTÚPIDO CUPIDO. PEDRO sentado numa cadeira enquanto


a BEATRIZ tenta seduzi-lo numa dança/canto. O homem permanece estático. A
CANTORA e o RADIALISTA em cena, BEATRIZ canta junto com eles.

ESTÚPIDO CUPIDO
CANTORA– OH, CUPIDO, VÊ SE DEIXA EM PAZ
MEU CORAÇÃO QUE JÁ NÃO PODE AMAR
EU AMEI HÁ MUITO TEMPO ATRÁS
JÁ CANSEI DE TANTO SOLUÇAR
HEI, HEI, É O FIM
OH, CUPIDO VÁ LONGE DE MIM
EU DEI MEU CORAÇÃO A UM BELO RAPAZ
QUE PROMETEU ME AMAR E ME FAZER FELIZ
PORÉM ELE ME PASSOU PRA TRÁS
MEU BEIJO RECUSOU E MEU AMOR NÃO QUIS
HEI, HEI, É O FIM
OH, CUPIDO, VÁ LONGE DE MIM

BEATRIZ– Eu adoro essa cantora!


PEDRO– A voz dela é muito bonita.

O RADIALISTA e a CANTORA lado a lado. O RADIALISTA narra radiante.

RADIALISTA– E não é só a voz, ela tem conteúdo, meus caros ouvintes.


Agora vamos as notícias. O Brasil vive o seu sonho de modernidade, as
obras de Brasília seguem a todo vapor... A nova capital tem tudo para ser
uma cidade de vanguarda, elegante.

BEATRIZ desliga o rádio e silencia o RADIALISTA que fica chateado. Ele a


CANTORA, deixam a cena. BEATRIZ e PEDRO estão sozinhos.
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BEATRIZ– Elegante sou eu... (LIGEIRA) Agora chega de notícia ruim!


Quem quer saber da construção dessa cidade?! (TEMPO BREVE) O que
achou de ser minha plateia exclusiva?
PEDRO– A senhora parece uma artista de cinema.
BEATRIZ– Cadê a senhora?! A minha vida daria um filme. Mas a nossa
história, juntas, daria uma fita cinematográfica melhor ainda.
PEDRO– Eu sou muito agradecido por tudo que você tem feito por mim,
mas a partir de amanhã eu durmo no alojamento.
BEATRIZ– Sabe quantos gostariam de estar no seu lugar? Eu só me deito
com quem escolho. E eu escolhi você.

JUSTO aparece de surpresa a tempo de ouvir BEATRIZ se revelar para PEDRO.

JUSTO– Cheguei em má hora?


BEATRIZ– O expediente aqui ainda não começou.
JUSTO– Você está criando causo comigo por um proleta que apareceu
na cidade outro dia?
BEATRIZ– Eu não quero ouvir suas lamúrias. Saia agora!
JUSTO– Eu pensei que um velho amigo tivesse liberdade de entrar na
sua casa quando bem entendesse.
BEATRIZ– Hoje você passou da conta.
MODESTO– Você hospeda um remelado e não recebe um velho amigo?

MODESTO aparece de surpresa.

MODESTO– Cheguei em má hora?


BEATRIZ– Modesto?!
JUSTO– Modesto?!
MODESTO– Beatriz! E você, meu irmão... Ficou assustado em me ver?!
JUSTO– Eu só não esperava por você em Brasília...
MODESTO– Eu vim buscar os meninos. Eles gostaram da “cidade”?
BEATRIZ– Você não imagina o quanto.
MODESTO– Ironias? Você nunca foi disso.
JUSTO– Era justamente sobre isso que eu gostaria de falar com você.
MODESTO– Seja lá o que for, você esperou que eu viesse até esse fim
de mundo para saber e não me adiantou por telefone, carta, sei lá.
BEATRIZ– Vocês podem discutir em outro lugar?!
PEDRO– Eu também já estou de saída.
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MODESTO– (PARA BEATRIZ) Esse é o novo? (PARA PEDRO) Qual é o


teu nome rapaz?!
BEATRIZ– A curiosidade matou o gato, sabia?
MODESTO– Eu não sou ciumento. Já o meu irmão, é um poço. E pelo
visto esse rapaz conseguiu o que ele tenta, tenta e nada.
BEATRIZ– Vá cuidar dos teus filhos que são uma negação.
JUSTO– Para, Beatriz?!
MODESTO– O que você está insinuando?
BEATRIZ– Eu? Nada! Corta essa.
MODESTO– Muito bem, não tem nada que eu não descubra.
BEATRIZ– Por que vocês não voltam mais tarde?! De banho tomado,
perfumados e prontos para cair na esbórnia.
MODESTO– (PARA BEATRIZ) Eu estou cheio de saudade para matar.
(PARA JUSTO) Você vem comigo.

MODESTO sai de cena. JUSTO fica com BEATRIZ e PEDRO.

JUSTO– Não esqueça rapaz que amanhã, quando der cinco horas é
comigo que você vai lidar. Aproveite bem o seu horário de descanso.

JUSTO sai de cena. BEATRIZ e PEDRO permanecem.

BEATRIZ– Ele não é homem para lhe fazer mal. Bote um sorriso nesse
rosto que hoje é dia de festa.

Ouvimos o instrumental de RETRATO EM BRANCO E PRETO. BEATRIZ deixa


a cena. MODESTO e JUSTO estão num canto da cena.

MODESTO– Engole o choro e desfaz o bico. Eu sei o quanto essa mulher


é importante para você. Para mim, ela foi só uma aventura.
JUSTO– Eu não consigo! Ela faz de propósito... O que ele tem que eu...?!
MODESTO– Você tem poder, dinheiro. É um bocado de coisa, não acha?
Eu não vou deixar você manchar um sobrenome por uma mulher da vida.
JUSTO– Só tem um jeito disso tudo ter um fim.
MODESTO– Você falando assim, até me deixa orgulhoso.

Os dois saem de cena. LUÍSA aparece sob um foco de luz oposto a PEDRO.
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LUÍSA– Eu não consigo mais viver com a dor da saudade.


PEDRO– Eu não consigo viver com a saudade que me aperta o peito.

PEDRO deixa a cena. HELOÍSA surpresa, mas LUÍSA é firme com a irmã.

HELOÍSA– Como assim, você vai para Brasília?!


LUÍSA– Eu vou ficar com o Pedro e ter meu filho do lado dele.

AMÉLIA entra cena a tempo de ouvir que a filha está grávida.

AMÉLIA– O que foi que você disse, Luísa?


HELOÍSA– Ela está grávida.
AMÉLIA– De quanto tempo?
LUÍSA– Pouquinho.
AMÉLIA– E como sempre eu sou a última a saber.
HELOÍSA– Ela não te deve satisfações.
AMÉLIA– Eu sou a mãe dela.
HELOÍSA– Ela é casada.
AMÉLIA– O marido dela está no fim do mundo, sabe-se Deus fazendo o
que. (PARA LUÍSA) Você está grávida e vai se arriscar num buraco para
ir atrás de um homem? É isso mesmo?
LUÍSA– Ele é meu marido. Pai do meu filho.
AMÉLIA– E você é minha filha. Sangue do meu sangue. E eu vou te
segurar aqui até o seu pai chegar. Nós vamos decidir isso juntos.
HELOÍSA– Em que época você acha que vive?

AMÉLIA desfere um tabefe no rosto de HELOÍSA.

AMÉLIA– Eu já tenho desgosto demais contigo. Agora a sua irmã? Eu


nunca pensei que fosse passar por isso. Não com você Luísa.
LUÍSA– Mãe, você não precisa passar por isso comigo. Eu sou adulta o
suficiente para aguentar a barra. Eu quero ir ao encontro do meu marido.
Algo me diz que as coisas por lá não estão bem.
AMÉLIA– Algo te diz? Eu sempre falei que a construção dessa cidade
maldita não iria prestar. É desgraça atrás de desgraça. Eu ouço no rádio.
LUÍSA– Ele foi com o sonho de construir o nosso futuro mãe.
AMÉLIA– Você devia ter escolhido melhor.
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LUÍSA– Eu amo o Pedro.


AMÉLIA– Eu não falo de amor, falo de estabilidade.
LUÍSA– Você não se casou por amor?
AMÉLIA– E hoje amargo o título de ser a esposa de um mísero vendedor
de colchão. Você acha que eu estou feliz? Eu não quero te ver amargar
uma vidinha mais ou menos. Eu sonhei tanta coisa para você.
LUÍSA– Eu vou atrás do meu marido.
AMÉLIA– Se você for para Brasília, esqueça que você tem mãe.
LUÍSA– Você fez a mesma coisa com a sua mãe. Você fugiu de casa e
foi atrás do papai perto do casamento dele com outra moça.
HELOÍSA– Onde foi parar essa mulher que enfrentou todo mundo para ir
atrás do seu homem? Onde foi parar a coragem para superar obstáculos?
AMÉLIA– Eu me sacrifiquei tanto para criar vocês duas e hoje eu me sinto
tão sozinha. Eu já não tenho forças para nada. Eu só quero o bem de
vocês. Sempre quis.
HELOÍSA– Eu vou cuidar de você mãe. Você é tão bonita, ainda tem uma
vida inteira pela frente... Você vai voltar a sorrir, a ser forte.
AMÉLIA– Promete que volta para ter seu filho perto de mim?

As três mulheres choram. AMÉLIA arremata, serena.

AMÉLIA– Eu te abençoo.... Saudade é a única coisa que a gente mata


em não faz pesar a consciência. Vai atrás dele, minha filha. Pensa muito
não. Corre atrás do seu marido, ele está precisando de você.

Ouvimos o instrumental de CONSTRUÇÃO / DEUS LHE PAGUE. PEDRO e


JUSTO em cena frente a frente. Eles se encaram como dois animais selvagens.

JUSTO– Já era hora de nos encontrarmos sozinhos. Eu adiei a nossa


conversa por tolice. Mas agora vamos acertar a nossas contas.

CONSTRUÇÃO / DEUS LHE PAGUE


ELENCO– AMOU DAQUELA VEZ
COMO SE FOSSE A ÚLTIMA
BEIJOU SUA MULHER
COMO SE FOSSE A ÚLTIMA
E CADA FILHO SEU COMO
SE FOSSE O ÚNICO E ATRAVESSOU
A RUA COM SEU PASSO TÍMIDO
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PEDRO– Eu quero agradecer o senhor por tudo.


JUSTO– Por tudo o que? Pelas humilhações, grosserias?

MODESTO aparece, raivoso.

MODESTO– Ninguém é tão burro, ainda mais sendo um durango como


tu, a ponto de ficar grato por tamanha falta de respeito.

ELENCO– SUBIU NA CONSTRUÇÃO


COMO SE FOSSE MÁQUINA

PEDRO– Eu amo demais a minha mulher. A gente vai ter um filho. Eu só


quero trabalhar para cuidar dos dois. Meu sonho é construir um teto para
dar uma vida melhor para minha família no Rio de Janeiro. É por eles que
eu aguento toda essa opressão.
MODESTO– Não força a barra.
JUSTO– Você não comove ninguém com esse papinho de filho e mulher
para criar.

ELENCO– SEUS OLHOS EMBOTADOS


DE CIMENTO E LÁGRIMA
SENTOU PRA DESCANSAR
COMO SE FOSSE SÁBADO
COMEU FEIJÃO ARROZ
COMO SE FOSSE UM PRÍNCIPE
BEBEU E SOLUÇOU
COMO SE FOSSE UM NÁUFRAGO
DANÇOU E GARGALHOU
COMO SE OUVISSE MÚSICA

PEDRO– Eu não espero amolecer o coração de ninguém.

ELENCO– E TROPEÇOU NO CÉU


COMO SE FOSSE UM BÊBADO
33

PEDRO– Só que fora do trabalho eu tenho direito de dizer o que eu penso.


Eu amo a minha mulher. E só quem tem amor em troca, pode andar de
cabeça erguida por aí...
MODESTO– Deixa de lero-lero. Ele tem uma proposta a lhe fazer.
JUSTO– Eu dobro o seu salário se você trabalhar dois turnos seguidos.
Funciona assim, você cumpre dois turnos e descansa um. Você terá o
trabalho dobrado e o salário.
MODESTO– Você não quer fazer um pé de meia? É um bom negócio.
JUSTO– Você vai embora daqui mais rápido do que imagina.
MODESTO– Só tem um detalhe.
JUSTO– Durante a sua folga você não põe os pés na casa da Beatriz.
MODESTO– Esqueça que ela existe de uma vez por todas.
JUSTO– Pensa no teu filho.
PEDRO– É só no que eu penso. E na minha mulher.
JUSTO– Eu não guardo rancor e vou limpar a tua barra, apesar de tudo o
que você me fez.
MODESTO– Se fosse comigo, eu nem sei o que eu faria... Vingança?!
JUSTO– As obras, com toda a pressão do presidente para a inauguração,
são como armadilhas. Toda semana pelo menos um mamado cai do alto
de um prédio em construção direto para o chão.
MODESTO– E a família nem fica sabendo. Você não quer isso para você.
JUSTO– Quer? Eu acho que não.

PEDRO respira tenso. JUSTO e MODESTO o levaram para um topo da obra.

ELENCO– POR ESSE PÃO PRA COMER


POR ESSE CHÃO PRA DORMIR
A CERTIDÃO PRA NASCER
E A CONCESSÃO PRA SORRIR
POR ME DEIXAR RESPIRAR
POR ME DEIXAR EXISTIR
DEUS LHE PAGUE
PELA CACHAÇA DE GRAÇA
QUE A GENTE TEM QUE ENGOLIR
PELA FUMAÇA E A DESGRAÇA
QUE A GENTE TEM QUE TOSSIR
PELOS ANDAIMES PINGENTES
34

QUE A GENTE TEM QUE CAIR


DEUS LHE PAGUE
PELA MULHER CARPIDEIRA
PRA NOS LOUVAR E CUSPIR
E PELAS MOSCAS BICHEIRAS
A NOS BEIJAR E COBRIR
E PELA PAZ DERRADEIRA
QUE ENFIM VAI NOS REDIMIR
DEUS LHE

JUSTO– Você aceita ou não?!

O cenário é modificado para dar lugar ao bar de BEATRIZ. Em cena NETO,


BENTO, TONICO, BEATRIZ, PETÚNIA, GARDÊNIA e TULIPA.

BEATRIZ– Eis que chegou o grande dia. Quem de vocês vai tirar o tampo
da minha menina? Não se esqueceram de trazer a bufunfa, não é?
TONICO– Juntei tudo o que eu consegui.
BENTO– Lá se foram minhas economias.
GERÚNDIO– Só não roubei pra não ir pro xilindró.
TULIPA– O que você está fazendo aqui Gerúndio?
GERÚNDIO– Oxe! Eu também tenho direito.
BEATRIZ– Trouxe a grana!?
GERÚNDIO– Tá na mão! Uma moedinha abençoada. Dez centavos!
GARDÊNIA– Isso não compra nem o branco do zóio dela.
BEATRIZ– Gerúndio fica! Eu disse que todos os homens que tivessem
dinheiro poderiam participar do leilão.
TONICO– A moça podia dizer o que está sentindo?
NETO/BENTO– Conta para gente Petúnia.
PETÚNIA– Sinto um frio na espinhela. Uma pontada subindo do dedão do
meu pé e um frio no umbigo só de imaginar um de vocês me tocando. É
como se o mundo parasse de girar para eu conhecer o céu.

PEDRO aparece em cena. BEATRIZ segue até o rapaz.

BEATRIZ– Vai participar do leilão ou veio me fazer companhia? Você tem


aparecido pouco. Eu soube que você tem trabalhado mais de um turno.
35

PEDRO– Eu quero fazer dinheiro rápido para ir embora de Brasília


BEATRIZ– Ambicioso! É preciso arrumar tempo para diversão.

Os rapazes estão em volta de PETÚNIA tal qual urubus em cima de carniça.


TULIPA e GARDÊNIA tentam conter o tesão dos homens.

TULIPA– Só pode lamber com o zóio. Nada de encostar a mão.


GARDÊNIA– Eu enfio os dedos docêis tudo nos vosso cu!
BEATRIZ– Vamos deixar de fuzuê e contabilizar o dim dim para saber
qual de vocês é o sortudo. Só tem vocês quatro?

JUSTO e MODESTO aparecem com ÁTILA e ARMANDINHO.

MODESTO– Pode incluir mais dois. Eu não perderia isso por nada.
JUSTO– Pelo visto nem os meus empregados, não é Pedro?!
BEATRIZ– Se veio para brigar a porta da rua é a mesma que entrou.
JUSTO– Eu só luto pelo que vale a pena Beatriz. Qual é o maior lance?
GERÚNDIO– Isso não é justo, seu Justo.
MODESTO– Pode dizer que eu cubro o valor.
GERÚNDIO– Seja modesto, seu Modesto.
MODESTO– Mas quem vai se deitar com a moça são meus filhos.
JUSTO– Qual dos dois quer ser o primeiro?
ARMANDINHO– Eu posso esperar.
ÁTILA– Eu vou depois dele.
BEATRIZ– Coloquem os dinheiros nos envelopes. Deposite tudo o que
tiveram, lembrando que nenhum tostão voltará para o bolso de vocês.

As duas separam os envelopes. NETO, BENTO e TONICO se unem num canto.

TONICO– É o seguinte: esses dois vieram aqui só para acabar com a


nossa diversão, mas é a gente quem vai zombar com a cara deles.
NETO/BENTO– Do que você está falando? / Eu não entendi foi nada.
TONICO– Eu vou ser rápido para que eles não percebam nossa armação.
Eles vão dobrar o valor, mas depois que a gente depositar o dinheiro no
envelope não tem como fazer isso.
NETO/BENTO– Oxe, fiquei mais confuso / Eu não entendi foi nada.
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TONICO– É certo que eles têm mais grana que nós e não vão querer
gastar demais sabendo que a gente é tudo morto de fome. Mas se a gente
juntar todo nosso dinheiro e pôr num só envelope?
NETO/BENTO– Ainda assim ele terá mais.
TONICO– A gente só vai saber se arriscar.

As meninas passam com os envelopes. NETO e BENTO fingem que depositam


o dinheiro, mas TONICO coloca toda quantia num envelope específico. PEDRO,
MODESTO e JUSTO conversam num canto da cena.

JUSTO– Você descumpriu o nosso trato. Vai ter troco.


PEDRO– Eu não tenho medo de ameaça.
MODESTO– Meu irmão não é homem de mandar recado.

MODESTO e JUSTO se aproximam dos sobrinhos.

JUSTO– Puseram todo o dinheiro no envelope?


ÁTILA– Quero ver se esses pedreiros vão ficar de fofoca para cima da
gente depois que eu quebrar a cama com essa mulher.
ARMANDINHO– Eles vão dobrar a língua para falar da gente.

As meninas terminam de recolher o dinheiro.

BEATRIZ– Vamos abrir os envelopes.


TONICO– Só quero ver a cara de merda que ele vai ficar.
BEATRIZ– Petúnia é quem escolhe qual envelope vai abrir primeiro.
PETÚNIA– Primeiro o envelope do ”zé bosta” do Gerúndio.

GARDÊNIA abre o envelope de GERÚNDIO.

GARDÊNIA– Cheinho de ar! Vazio!


BEATRIZ– Cadê aquela moedinha!? Mentiroso, vá-se embora.
GERÚNDIO– Alegria de miserável dura menos que trepada de galo.

GERÚNDIO sai de cena. PETÚNIA escolhe o próximo envelope.

PETÚNIA– É a tua vez Bento.


37

TULIPA abre o envelope de BENTO.

TULIPA– Vazio também!


BEATRIZ– Vieram brincar com a minha cara, foi?
JUSTO– Desse jeito vai ser moleza.
MODESTO– Moleza não, vai ser dureza isso sim.

GARDÊNIA abre o envelope de NETO.

GARDÊNIA– Mais um envelope cheio de nada.


JUSTO– Os construtores de Brasília não têm um tostão no bolso.
MODESTO– Pode abrir o do Átila! Dinheiro há. E de monte.

PETÚNIA abre o envelope de ÁTILA.

PETÚNIA– Está pesado! Deve estar cheio.


ÁTILA– Cheio estou eu. De excitação.
PETÚNIA– Eu não consigo nem contar.
JUSTO– Podem abrir o último envelope enquanto contam a grana.
MODESTO– Não vai fazer diferença mesmo.

GARDÊNIA abre o envelope de TONICO. BEATRIZ conta o dinheiro de ÁTILA.

MODESTO– E então?
BEATRIZ– No envelope de Átila tem trinta mil cruzeiros.
GARDÊNIA– Santa Rita das puta bagacenta! É a mesma coisa.
JUSTO– Como assim? Onde vocês arrumaram esse dinheiro?
BEATRIZ– Temos um empate financeiro.
MODESTO– Eu cubro qualquer oferta. Quanto é preciso? Só falar!
TONICO– Só vale o que tem dentro do envelope.
NETO– A regra é justa seu Justo.
BENTO– Tem a mesma quantia nos dois envelopes.
GARDÊNIA– Santa Rita das puta bagacenta! Tem não! Eu achei uma
moedinha de dez centavos socada no envelope do Tonico.
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NETO– Os dez centavos de Gerúndio.


TONICO– O danado foi mais esperto que todos nós.
BEATRIZ– Se há mais dinheiro no envelope dele, a regra é clara.
ARMANDINHO– (PARA JUSTO) Vambora daqui tio.
ÁTILA– (PARA MODESTO) Vamos, pai!

Todos saem de cena. Restam TONICO e PETÚNIA que terão sua primeira noite.

TONICO– E agora? O que a gente faz?


PETÚNIA– Me use! Não foi para isso que tu veio?
TONICO– Casa comigo?
PETÚNIA– Oxe! Eu sou é puta, não nasci para ser esposa. Se bem que
dá para ser as duas coisas.
TONICO– A gente vai embora para bem longe daqui.
PETÚNIA– Antes me faça tua mulher. Eu fiquei foi seca de vontade de
TONICO– Case comigo. A gente vai ter a vida toda para se deitar na
mesma cama e fazer amor dia e noite. Quer ser minha mulher Petúnia?

BEATRIZ volta à cena com TULIPA, GARDÊNIA, BENTO, GERÚNDIO, NETO,


CELESTINA, GIL e outros. Estamos no casamento de PETÚNIA e TONICO.

CELESTINA– Viva os noivos!


BEATRIZ– Cuida bem da minha menina.
TONICO– Eu vou tratar a Petúnia como uma rainha.
BEATRIZ– Zuleica Cleide de Faria. É esse o nome dela.
GERÚNDIO– Eu preferia Petúnia.
BEATRIZ– Você prometeu apagar o passado de Zuleica.
TONICO– E vou cumprir.
BEATRIZ– É difícil tirar uma moça dessa vida... Eu não aceito devolução.
GERÚNDIO– Será que ela não tem uma irmã pra tá apresentando?
CELESTINA– Oxe, eu tô aqui todinha para você.
GERÚNDIO– E desde quando eu quero picolé de chuchu?!
TONICO– Gerúndio, obrigado viu moleque. Aquela moedinha abençoada.

LUÍSA aparece carregando uma mala. Ela ostenta uma pequena barriga.
39

TULIPA– Petúnia casou e apareceu outra para ocupar o lugar.


GARDÊNIA– Ela não tem cara de puta não.
TULIPA– E puta tem cara?
GARDÊNIA– Olha só a tua fuça de quenga!
TULIPA– Me respeita, quenga!
BEATRIZ– (PARA LUÍSA) Precisa de ajuda?
LUÍSA– Na verdade sim...
BEATRIZ– Você me parece cansada. Eu vou lhe arranjar um copo d’agua.
LUÍSA– Obrigada! Eu acabo de chegar de viagem. Na verdade, eu pensei
que não fosse conseguir completar o trajeto. Foi tudo tão difícil. Eu vim
atrás de uma pessoa. Mas eu não achei que fosse conseguir chegar.

PEDRO e LUÍSA se encontram. Ouvimos o instrumental de LUA BRANCA.

LUÍSA– Eu pensei que nunca mais fosse te ver.


PEDRO– O que você está fazendo aqui?
LUÍSA– Eu senti tanto a sua falta.
PEDRO– Eu também!
LUÍSA– Nosso filho chutou tanto na viagem.
PEDRO– Você está linda!

GLÓRIA fará o trecho deste solo com a ajuda do coro feminino.

LUA BRANCA
GLÓRIA– E QUANTAS VEZES
LÁ NO CEU ME APARECIAS
A BRILHAR EM NOITE CALMA
E CONSTELADA
EM TUA LUZ ENTÃO
ME SURPREENDIAS
AJOELHADO JUNTO AOS PÉS
DA MINHA AMADA
E ELA CHORAR A SOLUÇAR
CHEIO DE PEJO
VINHA EM SEUS LÁBIOS
ME OFERTAR UM DOCE BEIJO
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ELA PARTIU
ME ABANDONOU ASSIM
Ó LUA BRANCA POR QUEM ÉS
TEM DÓ DE MIM

Ao término da canção a moça está feliz. GERÚNDIO aparece de súbito.

GERÚNDIO– Eu ouvi você cantando.


GLÓRIA– Tu tava me espiando?
GERÚNDIO– Você devia ser cantora.
GLÓRIA– Eu só sinto vontade de cantar quando tem alguma coisa me
doendo. E eu me doo o tempo todo. Sabe, Gerúndio, eu estava pensando
em como a gente é parecido. Nenhum de nós sabe do paradeiro da nossa
família. A gente vive solto no mundo, que nem duas aves solitária. De vez
em quando tu não sente falta de ter uma mãe?
GERÚNDIO– Sentir eu sinto. Mas onde é que eu vou achar?

GERÚNDIO e GLÓRIA se olham com ternura. Eles se olham e dão um selinho.

GLÓRIA– Gerúndio! Tu me beijou foi?


GERÚNDIO– Foi você que me beijou.
GLÓRIA– Vá-se embora! Vá! Se Justo sonhar que tu teve aqui.
GERÚNDIO– Eu vou sonhá com você a noite todinha!

GERÚNDIO sai. ÁTILA e ARMADINHO aparecem. Os jovens estão visivelmente


nervosos e com uma quantidade de álcool no sangue, embriagados.

GLÓRIA– Átila. Armandinho. O que vocês querem?


ARMANDINHO– Papear.
ÁTILA– Jogar conversa fora.
GLÓRIA– Mas está tarde. Justo não vai gostar de saber que eu fiquei...
ÁTILA– Ele quem mandou a gente até aqui.
ARMANDINHO– Ele e o nosso pai... Eles facilitaram as coisas.
ÁTILA– Deixando você sozinha.
GLÓRIA– Vocês beberam foi?
ARMANDINHO– Para afogar as mágoas.
ÁTILA– A gente só precisa de companhia.
41

ARMANDINHO– E como você é praticamente da família...


GLÓRIA– Eu considero vocês uns primos de verdade.
ÁTILA– Que bom! Não é, Armandinho?
ARMANDINHO– Nós também gostamos muito de você Glória.
ÁTILA– Gostamos tanto, que a gente te queria bem pertinho.

Os rapazes se aproximam de GLÓRIA e agarram a jovem com força.

ÁTILA– Calma! A gente só quer brincar um pouco.


ARMANDINHO– Para que tanta agressividade prima.
ÁTILA– Para que resistir?!
ARMANDINHO– No fim das contas você vai ser nossa.
GLÓRIA– Pelo amor de Deus, não façam nada comigo.
ARMANDINHO– Não adianta apelar. Ninguém vai te ouvir.
ÁTILA– A gente vai lavar a nossa honra...
ARMANDINHO– E vai ser com você priminha.

Os rapazes deitam a moça no chão. Como animais eles fazem sexo com a garota
que não tem forças para impedir. JUSTO e MODESTO aparece com VIRGÍNIA,
MAYSA, VIRGÍNIA e GIL. Mesmo sendo assistidos, ARMANDINHO e ÁTILA
não interrompem. A moça chora muito. Ao finalizar o ato eles estão animalescos!

JUSTO– Fizeram bem-feito?


GLÓRIA– Por que vocês não fizeram nada? Ficaram só olhando?!
VIRGÍNIA– Aqui cada um resolve os seus problemas.
MODESTO– Eles são homens. E homens tem necessidades fisiológicas.
JUSTO– Eles não podiam ficar com fama “virgens” para o resto da vida.
MODESTO– O povo já estava desconfiando da masculinidade deles.
JUSTO– Mas eu bem vi que os dois são machos.
GLÓRIA– Isso é que é “ser macho”? Pegar uma mulher a força?!
MAYSA– Não adianta se defender, você deve ter se oferecido para eles.
MODESTO– Você vai juntar seus panos de bunda e sumir da cidade.
JUSTO– Ou você acha que eu vou abrigar em minha casa uma vadiazinha
sem eira nem beira que fica se oferecendo para tudo quanto é homem.

Ouvimos o instrumental de SOBRE TODAS AS COISAS. GLÓRIA fará a canção


tomada pela dor moral e física, além da humilhação pela violência sofrida.
42

SOBRE TODAS AS COISAS


GLÓRIA– PELO AMOR DE DEUS
NÃO VÊ QUE ISSO É PECADO
DESPREZAR QUEM LHE QUER BEM
NÃO VÊ QUE DEUS ATÉ FICA ZANGADO
VENDO ALGUÉM ABANDONADO
PELO AMOR DE DEUS
AO NOSSO SENHOR SE ELE PRODUZIU
NAS TREVAS O ESPLENDOR
SE TUDO FOI CRIADO
O MACHO A FÊMEA O BICHO A FLOR
CRIADO PRA ADORAR O CRIADOR
E SE O CRIADOR
INVENTOU A CRIATURA POR FAVOR
SE DO BARRO FEZ ALGUÉM
COM TANTO AMOR
PARA AMAR NOSSO SENHOR
AO NOSSO SENHOR
NÃO HÁ DE TER LANÇADO
EM MOVIMENTO TERRA E CÉU
ESTRELAS PERCORRENDO
O FIRMAMENTO EM CARROSSEL
PRA CIRCULAR EM TORNO AO CRIADOR
OU SERÁ QUE O DEUS
QUE CRIOU NOSSO DESEJO
É TÃO CRUEL MOSTRA OS VALES
ONDE JORRA O LEITE O MEL
E ESSES VALES SÃO DE DEUS
PELO AMOR DE DEUS
NÃO VÊ QUE ISSO É PECADO
DESPREZAR QUEM LHE QUER BEM
NÃO VÊ QUE DEUS ATÉ FICA ZANGADO
VENDO ALGUÉM ABANDONADO
PELO AMOR DE DEUS
43

GLÓRIA sai de cena. Os que estavam, permanecem para uma conversa.

GIL– O que os senhores querem da minha pessoa?


JUSTO– Quanto você quer para dar um fim a vida do Pedro?
GIL– Eu nunca matei ninguém.
MODESTO– Para tudo existe uma primeira vez.
GIL– Eu não sou assassino não senhor.
JUSTO– Bote um preço que eu pago. Eu sei que precisa de grana.
MODESTO– Você pode montar um negócio e ficar por aqui.
JUSTO– Ou juntar suas coisas e ir de volta para sua terra.
GIL– De quanto vocês estão falando?
VIRGÍNIA– (ENTREGANDO A GRANA) Está tudo aí, pode contar.
GIL– Quanto tempo eu tenho para fazer o serviço?
JUSTO– Vinte e quatro horas.
GIL– Eu topo.
MODESTO– Fique com metade do dinheiro para você.
JUSTO– A outra parte eu entrego quando você trouxer a cabeça dele.

GIL sai de cena. JUSTO, MODESTO, VIRGÍNIA e MAYSA permanecem.

JUSTO– Esse imbecil vai resolver a minha vida sem que eu precise sujar
as mãos. O Pedro já foi longe demais.
MAYSA– Eu estou amando Brasília. Vamos ficar por aqui, pai. Por favor?!

Eles deixam a cena. GLÓRIA caminha cabisbaixa até encontrar GERÚNDIO.

GERÚNDIO– Eu soube o que te aconteceu.


GLÓRIA– Eu estou sem rumo e sem teto, Gerúndio.
GERÚNDIO– É só seguir a estrada a vida toda.
GLÓRIA– Até tu vai virar as costas para mim? Tu disse que estava
juntando dinheiro para se casa comigo na catedral. Ela está quase pronta.
GERÚNDIO– Tu não é mais moça Glorinha... Eu não quero mais te ver.

GLÓRIA chora. Olha para GERÚNDIO que não esboça reação. Ela caminha
passos lentos até sair de cena. GIL e PEDRO se encontram.
44

GIL– Eu preciso falar com você. Eu vou ver breve. O assunto é da maior
urgência, mas por favor, ouça em silêncio. Encomendaram a tua morte.
PEDRO– O que?
GIL– É isso que você ouviu. Me deram um bom dinheiro para acabar com
a tua vida. Não interessa saber quem foi?

GIL tira um bolo de dinheiro e entrega a PEDRO com cautela e descrição.

GIL– Pega metade para você. Aproveita e some no mundo. Volte com a
tua mulher para o Rio de Janeiro.
PEDRO– Você pode me falar o que está acontecendo?
GIL– Não tem nada que entender. Pega esse maldito dinheiro e caia fora
de Brasília antes do sol se por. Ou você pensou que eu ia dar cabo da sua
vida? Você é dos meus Pedro. E quem é dos meus eu sou fiel até o fim.
Mas você pode ficar para ver o que vai te acontecer. O Justo quando
souber que eu não cumpri o trato, ele vai vir atrás de mim igual a cachorro
do mato. E se você tiver no caminho dele, vai ser alvo fácil.

Eles saem de cena. Instrumental de A BANDA. O elenco entra balançando


bandeiras do Brasil. O RADIALISTA anuncia eufórico!

RADIALISTA– A menos de três meses para inauguração, Brasília já é


uma realidade. Os operários trabalham em ritmo intenso, para entregar a
cidade ao povo brasileiro na data de comemoração de Tiradentes, em 21
de abril. Aos poucos, os novos habitantes vão migrando das mais diversas
regiões do país e assumem seus postos de trabalho nos ministérios e no
congresso. Planejada para ter uma população de 600 mil habitantes até
os anos dois mil; a nova capital será: “o orgulho do país e um exemplo
para o mundo.

JUSTO, VIRGÍNIA, MODESTO e GIL se encontram. Ele abandonou as vestes


masculinas e revelou-se um segredo: era uma mulher se fazendo passar por um
homem para conseguir um trabalho na obra. JUSTO, claro, sabia do disfarce.

JUSTO– Está de viagem marcada, Gilmara?


GIL– O senhor deve estar me confundindo com outra pessoa.
JUSTO– Não! Você é o meu melhor peão. Eu saberia reconhecer um a
um olhando no olho. Eu dispensei ela Virgínia?
VIRGÍNIA– O contrato vence só depois que a cidade for inaugurada.
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JUSTO– Você me enganou duas vezes. Primeiro por mentir, dizendo ser
homem para conseguir um emprego. Sinceramente eu estou pouco me
lixando. Se tiver força física para enfrentar uma obra, por mim tanto faz.
Eu perdoo por você ter mentido sobre o disfarce. Mas e o Pedro? Pelo
visto o serviço não foi concluído. E essa mentira eu não vou perdoar.

VIRGÍNIA ergue uma pá e bate forte na cabeça de GIL. A moça cai desmaiada.
VIRGÍNIA segura a pá. O elenco volta e se depara com o corpo da mulher.

MAYSA– Ela teve um mal súbito e morreu.


MODESTO– Nós tentamos ajudar, mas foi em vão.
JUSTO– Pobre mulher, não vai ver a cidade ficar pronta.

Todos deixam o palco. Voltamos ao bar de BEATRIZ. Ela está sozinha quando
MODESTO aparece em cena segurando duas taças.

BEATRIZ– O que você quer?


MODESTO– Companhia.
BEATRIZ– Eu tenho dez minutos antes de abrir a casa.
MODESTO– Eu andei pensando nos velhos tempos, quando a gente se
conheceu lá no Rio de Janeiro. Você lembra?!
BEATRIZ– Vamos encurtar a história para isso não parecer um romance
mal resolvido. Você me largou para se casar com a burguesinha.
MODESTO– Eu nunca fui feliz, de verdade.
BEATRIZ– Mas você ficou rico... Dinheiro compra muita coisa.
MODESTO– Como eu posso te recompensar?!
BEATRIZ– Eu não preciso e mesmo que estivesse morrendo a míngua,
não ia aceitar esmola vindo de você.
MODESTO– Não é para você... É para o nosso filho... Ou seria filha?
BEATRIZ– Que papo torto é esse, Modesto!?
MODESTO– Você estava grávida de mim quando sumiu no mundo.
BEATRIZ– Ele está muito bem amparado...
MODESTO– “Ele”. É um moleque então?! E onde ele está?
BEATRIZ– Por perto... Eu nunca abandonaria a minha cria. Ele só não
sabe que eu sou a mãe dele. Melhor assim, pelo menos eu acho.

JUSTO aparece segurando uma garrafa de vinho.


46

JUSTO– Pelo visto eu cheguei atrasado.


MODESTO– Mas trouxe a bebida. Então, se junte a nós, meu irmão.
JUSTO– Só tem duas taças.
MODESTO– Eu divido com você. Eu não me importo em “dividir”.
BEATRIZ– A gente vai beber sim, mas é para apagar toda essa má
impressão que foi criada, não sei por qual motivo.
JUSTO– Antes desse operário aparecer por aqui, nós éramos amigos. Eu
acho Justo que a gente volte a ter uma boa relação.
BEATRIZ– Vocês conhecem a minha nova aquisição? Flor-de-lis!

FLOR-DE-LIS aparece em cena com TULIPA e GARDÊNIA. A nova aquisição


de BEATRIZ é GLÓRIA que sem ter para onde ir se hospedou no bar. Ela olha
para eles com vergonha. Os homens fingem que não a conhece.

BEATRIZ– Ela será leiloada esta noite. Se vocês tiverem cascalho no


bolso e quiserem participar.
JUSTO– Eu vou pensar com carinho.
MODESTO– Se ele entrar na disputa eu entro, só pra ganhar dele.

As moças saem de cena. JUSTO, MODESTO e BEATRIZ conversam.

BEATRIZ– Posso saber a que vamos brindar?


JUSTO– Eu proponho um brinde a nossa amizade.
MODESTO– Que nem o tempo, nem a história...
BEATRIZ– E ninguém jamais vai apagar.

Ouvimos o instrumental de BEATRIZ. GIL fará esta canção. JUSTO envenena


o vinho e serve nas taças de BEATRIZ e MODESTO, mas não bebe.

BEATRIZ
GIL– OLHA SERÁ QUE ELA É MOÇA
SERÁ QUE ELA É TRISTE
SERÁ QUE O CONTRÁRIO
SERÁ QUE É PINTURA
O ROSTO DA ATRIZ
SE ELA DANÇA
NO SÉTIMO CÉU
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SE ELA ACREDITA
QUE É OUTRO PAÍS
E SE ELA SÓ DECORA
O SEU PAPEL
E SE EU PUDESSE
ENTRAR NA SUA VIDA
OLHA SERÁ QUE É DE LOUÇA
SERÁ QUE É DE ÉTER
SERÁ QUE É LOUCURA
SERÁ QUE É CENÁRIO
A CASA DA ATRIZ
SE ELA MORA NUM
ARRANHA CÉU
E SE AS PAREDES
SÃO FEITAS DE GIZ
E SE ELA CHORA
NUM QUARTO DE HOTEL
E SEU EU PUDESSE
ENTRAR NA SUA VIDA
SIM ME LEVA
PARA SEMPRE BEATRIZ

O RADIALISTA entra para narrar as últimas notícias.

RADIALISTA– E assim chegamos ao final da nossa crônica. Com


desfechos felizes ou nem tão felizes assim, o importante é que o rio seguiu
o seu curso natural e a história, enfim, se fez: tanto na construção quanto
nas pessoas que colocaram seu nome neste momento importante do país.

As PERSONAGENS FEMININAS entram em cena para este número musical.

ELENCO– OLHA SERÁ QUE É UMA ESTRELA


SERÁ QUE É MENTIRA
SERÁ QUE É COMÉDIA
SERÁ QUE É DIVINA
A VIDA DA ATRIZ
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SE ELA UM DIA
DESPENCAR DO CÉU
E SE OS PAGANTES
EXIGIREM BIS
E SE UM ARCANJO
PASSAR O CHAPÉU
E SE EU PUDESSE
ENTRAR NA SUA VIDA

Rio de Janeiro. PEDRO na mesma posição da primeira cena. LUÍSA aparece.

PEDRO– Ela dormiu?


LUÍSA– Acabou de pegar no sono. Minha mãe está lá com ela. A Heloísa
tem ajudado muito. Eu pensei que ela não levava jeito com criança.
PEDRO– Eu estou feliz em voltar depois que a capital foi inaugurada.
LUÍSA– A gente prometeu não falar sobre Brasília
PEDRO– Eu fico pensando nas pessoas que eu conheci. Onde elas
vivem, o que estão fazendo. Provavelmente eu nunca mais verei ninguém.
LUÍSA– O mais importante é que você fez história.
PEDRO– É! Eu ajudei a construir um sonho para uma nação que precisa
acreditar em alguma coisa para seguir adiante.
LUÍSA– Agora é só alegria por muitos e muitos anos.

Instrumental de O QUE SERÁ (A FLOR DA PELE). O ELENCO canta!

O QUE SERÁ (A FLOR DA PELE)


ELENCO– O QUE SERÁ QUE SERÁ
QUE VIVE NAS IDEIAS DESSES AMANTES
QUE CANTAM OS POETAS
MAIS DELIRANTES
QUE JURAM OS
PROFETAS EMBRIAGADOS
QUE ESTÁ NA ROMARIA
DOS MUTILADOS
QUE ESTÁ NA FANTASIA
DOS INFELIZES
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QUE ESTÁ NO DIA-A-DIA


DAS MERETRIZES
NO PLANO DOS BANDIDOS
DOS DESVALIDOS
EM TODOS OS SENTIDOS
SERÁ QUE SERÁ
O QUE NÃO TEM DECÊNCIA
NEM NUNCA TERÁ
O QUE NÃO TEM CENSURA
NEM NUNCA TERÁ
O QUE NÃO FAZ SENTIDO
O QUE SERÁ QUE SERÁ
QUE TODOS OS AVISOS
NÃO VÃO EVITAR
PORQUE TODOS OS RISOS VÃO DESAFIAR
PORQUE TODOS OS SINOS IRÃO REPICAR
PORQUE TODOS OS HINOS IRÃO CONSAGRAR
E TODOS OS MENINOS VÃO DESEMBESTAR
E TODOS OS DESTINOS IRÃO SE ENCONTRAR
E MESMO O PADRE ETERNO
QUE NUNCA FOI LÁ
OLHANDO AQUELE INFERNO
VAI ABENÇOAR
O QUE NÃO TEM GOVERNO
NEM NUNCA TERÁ
O QUE NÃO TEM VERGONHA
NEM NUNCA TERÁ
O QUE NÃO TEM JUÍZO

Ao término da música o pano cai. Final da peça. Para os agradecimentos o


elenco canta “Água de Beber” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

SÃO PAULO, ABRIL DE 2025.

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