A MALÁRIA
A malária também conhecida como paludismo, febre palustre, impaludismo, maleita ou sezão é
uma doença que acompanha a história da humanidade desde os seus primórdios, tendo vitimado
muitos personagens importantes da nossa história e muitas vezes mudado o rumo dos
acontecimentos. Reis, rainhas, líderes religiosos e militares, pensadores e até papas foram
vítimas desta doença que continua sendo uma ameaça global de saúde pública (Foye et al.,
1995; França et al., 2008). Ela foi identificada, em escritos chineses, datados de 3000 a.C., e na
medicina ocidental através de sua descrição detalhada por Hipócrates que descobriu as suas
características de ocorrência sazonal e de febre intermitente. Entretanto, foi somente no século
XIX que o termo malária teve origem. Escritores italianos defendiam a tese de que a doença era
causada por vapores nocivos exalados dos pântanos tiberianos, designando-a “mal aria” cujo
sentido literal é “mau ar” ou “ar insalubre” (Braga & Fontes, 2002; Nogueira, 2007).
Aproximadamente 99,9% dos casos de malária no Brasil ocorrem na Amazônia Legal, que
compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia,
Roraima e Tocantins (Secretaria de Vigilância Sanitária – SVS, 2009;
Aguiar, 2011).
Isso ocorre devido a Amazônia Legal ser uma região com temperatura e umidade relativamente
altas, sendo classificada segundo as zonas climáticas internacionais na zona climática IV
(Tabela 1, Zona Climática IV, clima quente, úmido, Região Brasil). Estas condições climáticas
geralmente aceleram a degradação química e podem alterar as propriedades biofarmacêuticas
dos medicamentos. Este é um dado importante, pois o uso de doses subterapêuticas de
antimaláricos pode exercer uma pressão seletiva le- Tabela 1. Zonas climáticas internacionais
(THE UNITED, 2006).
1.3 O CICLO DE VIDA DO PLASMODIUM
O ciclo biológico dos plasmódios ocorre em dois hospedeiros. O homem que é considerado, o
hospedeiro intermediário onde ocorre reprodução assexuada do tipo esquizogonia, e o mosquito,
o hospedeiro definitivo onde ocorre a reprodução sexuada do tipo esporogonia. A transmissão
ao hospedeiro vertebrado inicia-se quando o inseto vetor, durante o repasto sanguíneo, inocula o
parasito na forma evolutiva de esporozoíto na epiderme do hospedeiro (1). Krettli e Miller
(2001) Uma vez no sistema circulatório, durante alguns minutos, os esporozoítos atingem o
fígado infectando os hepatócitos (2) Os esporozoítos invadem vários hepatócitos, migrando
através deles antes de finalmente desenvolver em seu interior, um vacúolo parasitóforo. Nesse
vacúolo, os parasitos se desenvolvem assexuadamente por esquizogonia dando origem aos
esquizontes maduros (3) que se rompem (4) e liberam na corrente sanguínea os merozoítos,
através de um processo de brotamento de vesículas denominadas merosomos. s merozoítos
infectam os eritrócitos iniciando uma nova fase do ciclo de reprodução assexuada (ciclo
eritrocitário ou sanguíneo, B) (5). O P. malariae só invade hemácias velhas (0,1% do total), o P.
vivax invade preferencialmente as hemácias jovens e o P. falciparum, hemácias em qualquer
fase evolutiva (Brasil, 2009). Inicialmente, no ciclo sanguíneo, o parasito sofre uma série de
transformações morfológicas – sem divisão celular – até chegar à fase de esquizonte, quando se
divide e origina novos merozoítos que serão lançados na corrente sanguínea, após a ruptura do
eritrócito (6), Após um período de replicação assexuada, alguns merozoítos se diferenciam em
gametócitos machos e fêmeas (7) que amadurecem sem divisão celular e tornam-se infectantes
aos mosquitos, 8Ao serem ingeridos por fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles (8)
iniciarão o ciclo esporogônico (C), que ocorre no estômago do mosquito, após a diferenciação
dos gametócitos (em macrogametas e microgametas, 9) e a sua fusão, com formação do ovo
(zigoto). Este se transforma em uma forma móvel (oocineto, 10) que migra até a parede do
intestino médio do inseto, formando o oocisto (11), no interior do qual se desenvolverão os
esporozoítos. O tempo requerido para que se complete o ciclo esporogônico nos insetos varia de
acordo com a espécie de Plasmodium e com a temperatura, situando-se geralmente em torno de
10 a 12 dias. Os esporozoítos produzidos nos oocistos são liberados (12) na hemolinfa do inseto
e migram até as glândulas salivares, de onde são transferidos para o sangue do hospedeiro
humano durante o repasto sanguíneo (Brasil, 2009)
DIAGNÓSTICO
Diagnóstico clínico: Por orientação dos programas oficiais de controle, emsituações de
epidemia e em áreas de difícil acesso da população aos serviços de saúde, indivíduos com febre
são considerados portadores de malária. Entretanto, os sintomas da malária são extremamente
inespecíficos, não se prestando à distinção entre a malária e outras infecções agudas do homem,
Portanto, o fundamental no diagnóstico clínico da malária, tanto nas áreas endêmicas como nas
não endêmicas, é sempre pensar na possibilidade da doença. Como a distribuição geográfica da
malária não é homogênea nem mesmo nos países onde a transmissão é elevada, torna-se
importante, durante a elaboração do exame clínico, resgatar informações sobre a área de
residência ou relato de viagens indicativas de exposição ao parasito. Além disso, informações
sobre transfusão de sangue ou uso de agulhas contaminadas podem sugerir a possibilidade de
malária induzida (MS, 2001; Gomes et al., 2011)
Diagnóstico laboratorial: É realizado pela visualização microscópica do Plasmodium em exame
da gota espessa de sangue, corada pela técnica de Giemsa ou de Walker, e em distensão
sanguínea, que permite a identificação da espécie, mas apresenta menor sensibilidade, Desta
forma, os exames preconizados pelo Ministério da Saúde são:
1) Gota espessa - considerado o exame padrão-ouro para diagnóstico da malaria. Permite a
contagem da parasitemia – fator preditor de gravidade na infecção por P. falciparum – além de
permitir o acompanhamento da queda da mesma, após o início da terapêutica (Gomes et al.,
2011).
2) Distensão sanguínea - permite a identificação da morfologia do protozoário, e consequente
diferenciação da espécie infectante – que é importante para a adequação do tratamento (Gomes
et al., 2011)
O sangue para a realização da hematoscopia pode ser colhido em qualquer veia periférica, não
havendo obrigatoriedade na colheita por punção de polpa digital (Gomes ET al., 2011).
No diagnóstico pela observação de lâminas deve-se estar atento para as características das
diversas espécies, as quais são diagnóstico diferencial da malaria falcípara. O P. falciparum –
pela sua propriedade de citoaderência –, só permite a detecção de trofozoítos na periferia e ao se
observar a lâmina só se verifica a presença dessas estruturas (Gomes et al., 2011).
Além da hematoscopia, existem outros métodos que vem sendo desenvolvidos para o
estabelecimento do diagnóstico da malária, tais como a pesquisa do parasita pelo “método dos
capilares” – com utilização de acridina-laranja como corante – e o ParaSightR. Neste último,
empregam-se anticorpos monoclonais dirigidos aos antígenos do P. falciparum, obtendo-se em
alguns estudos sensibilidade e especificidades superiores a 95%. Não se presta, entretanto, para
controle de cura (Brasil, 2005; Gomes et al., 2011). Nos últimos anos, vários estudos tem
utilizado a reação de polimerização em cadeia (PCR) como método de detecção de DNA de
Plasmodium circulante. Contudo, devido ao elevado custo da técnica, a mesma não é utilizada
como rotina para diagnóstico de casos, permanecendo restrita a centros de pesquisa (Speers et
al., 2003; Torres et al., 2006; Andrade et al., 2010)