2/25/2020 Ciência Política e Fundamentos de Direito Eleitoral
CIÊNCIA POLÍTICA E
FUNDAMENTOS DE DIREITO
ELEITORAL
CAPÍTULO 1 - DE ONDE VEM O PODER?
Marcelo Doval Mendes
INICIAR
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Introdução
Todos os dias, em atividades geralmente rotineiras (como dirigir um veículo, pagar
um tributo, frequentar um espaço público), nos deparamos com comandos que
acatamos sem muitos questionamentos. E, ainda que possamos discordar de
alguns desses comandos, tendemos a cumpri-los pela possibilidade de que nos
sejam impostos por outros meios – coerção que, igualmente, costumamos aceitar.
Contudo, você já parou para refletir sobre por que acatamos, por que aceitamos
seguir esses comandos emanados das autoridades públicas?
A primeira resposta, talvez intuitiva, é que acatamos porque tememos ou, ao
menos, nos preocupamos com as consequências do descumprimento. Caso esta
tenha sido também a sua resposta, você já parou para pensar porque aceitamos a
própria ideia de punição pelo Estado? E a resposta à segunda questão – por que
aceitamos seguir esses comandos? – leva-nos ao fenômeno do poder. Mas o que é
o poder? De onde ele vem? E como se mantém?
Neste capítulo, você encontrará elementos para responder às questões. Para
tanto, deixaremos de lado as sociedades humanas complexas, como as que
vivemos hoje, para levá-lo a pensar sobre seus momentos fundacionais, de modo
a visualizar, mais facilmente, o exercício do poder e a configuração do fenômeno
político. Dessa maneira, você refletirá sobre as razões que levam os indivíduos a
aceitar as ordens das autoridades estatais e, com isso, legitimá-las a continuar no
comando. E, ainda, estudará a específica pretensão de legitimação da sociedade
ocidental contemporânea na qual estamos inseridos.
Com os mesmos objetivos e de modo a agregar fundamentos teóricos às reflexões,
você será conduzido a percorrer a trilha do pensamento político ocidental e a
refletir sobre as questões: como os filósofos, desde a Antiguidade, pensavam e
solucionavam essas questões políticas? E como nossa sociedade política chegou à
concepção atualmente dada à lei?
Ao final do capítulo, esperamos que você tenha adquirido mais ferramentas, não
apenas para entender os fenômenos políticos que nos afetam, mas, também, para
intervir na realidade deles.
Bom estudo!
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1.1 Poder e dominação, legitimidade e
legalidade
O poder é fenômeno impresso no ânimo da sociedade humana. Elemento
essencial de todos os tipos de Estado, em particular do Estado Moderno, o poder é
tema central da Ciência Política e da Teoria Geral do Estado. Mas por que um
fenômeno típico de todos os grupos sociais desperta tamanho interesse, tanto na
ciência quanto na vida cotidiana? O desejo de entender como se reconhece a
legitimidade do poder, como se dá sua continuidade e como é exercido por
aqueles que o detêm, permite apreender sua importância.
Então, nessa tarefa de conhecimento, cabe perguntar: quais as formas de
expressão do poder? Como ele pode ser reconhecido? Quais as características do
poder que as sociedades contemporâneas conhecem e vivenciam?
Os itens a seguir buscam responder a essas perguntas, com o objetivo de
concretizar, no pensamento, o abstrato fenômeno do poder.
1.1.1 O poder como fenômeno fático e jurídico
O poder é um fenômeno que está – e sempre esteve – presente em todas as
organizações sociais. No entanto, não há uma única explicação para ele. As
diversas áreas de conhecimento (Sociologia, Ciência Política, Direito, dentre
outras) e os muitos autores que se ocuparam do tema oferecem conceitos
distintos e explicações próprias para as manifestações do poder.
Diante disso, uma boa forma de começar o estudo do poder é a definição do que
se vai entender por esse fenômeno aqui, sem a pretensão de esgotar o tema e
tampouco de excluir as demais definições que podem, inclusive, ser
complementares, sob outras perspectivas.
Para esta primeira tarefa, imagine um agrupamento de pessoas, no qual cada
integrante faz o que quiser, no momento em que desejar. Suponha, também, que
cada pessoa assim aja sem que exista resistência, oposição ou interferência dos
outros membros do grupo. Esta é uma sociedade sem poder e sem política, por
uma razão básica: neste caso, esses instrumentos seriam desnecessários.
Na prática, no entanto, isso não acontece. As pessoas e os grupos possuem
desejos e interesses que se chocam com os desejos e interesses de outros
membros e de outros grupos, também integrantes de uma dada sociedade. Esse
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“choque” gera a necessidade de alguém, ou de algo, para regular esses desejos e
interesses, decidindo sobre questões importantes para o grupo e os conflitos delas
decorrentes, o que se efetiva por meio, justamente, do que chamamos de poder.
Com base nessas hipóteses de funcionamento das sociedades humanas, e
aproveitando lição dos escritos políticos de Afonso Arinos de Melo Franco, jurista e
político brasileiro do século XX, podemos definir poder, basicamente, como “[...] a
tomada de decisões em nome da coletividade” (MELO FRANCO, 1965, p. 6-7).
Considerando a já mencionada coexistência de diversas compreensões sobre o
poder, a simplicidade desta definição parece bastante útil, especialmente porque
permite abranger duas manifestações específicas do poder, cujo reconhecimento
é bastante comum na maioria dos autores: o poder de fato e o poder de direito.
Se o poder é a tomada de decisões em nome da coletividade, ele está
intrinsecamente vinculado às ideias de força e consentimento. Assim, se a tomada
de decisões de um homem ou de um grupo de homens é exercida, exclusiva ou
precipuamente, com base na força, estamos diante de um poder de fato. Por outro
lado, se a tomada de decisões se apoia menos na força e mais no consentimento
dos membros do grupo social, estamos diante do poder de direito (BONAVIDES,
2013).
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Figura 1 - As eleições constituem uma das formas de consentimento do poder. Fonte: minorusuzuki,
Shutterstock, 2018.
Dessa maneira, enquanto o poder de fato é exercido com base na capacidade
material de coerção dos membros da coletividade às decisões do grupo
dominante, o poder de direito é exercido com base na autoridade do governante,
isto é, na capacidade de obter o consentimento dos governados para a tomada de
decisões em seu nome e, se foro caso, para impor seu cumprimento aos membros
discordantes.
Sendo assim, como os governantes obtêm a autoridade necessária para decidir
em nome da coletividade e impor suas decisões a ela? Para entender esse
processo, precisamos tratar da ideia de legitimidade.
1.1.2 Legitimidade
Quanto maior o consentimento dos governados ao poder do governante, maior
será sua legitimidade e, quanto maior sua legitimidade, maior será sua autoridade
para, então, tomar as decisões políticas e impô-las, sempre que necessário. Mas
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como o governante obtém esse consentimento? O que lhe confere legitimidade?
Diretamente ligada ao consentimento e à autoridade, a legitimidade trata da
justificação e dos valores do poder que levam a sua aceitação ou negação nas
situações da vida social (BONAVIDES, 2013). Ou seja, a legitimidade tem uma
importante perspectiva sociológica relacionada ao binômio dominação-
submissão.
Considerando que, assim como na definição de poder, múltiplos são os conceitos
de legitimidade, a depender da perspectiva e do recorte considerado, para
entendê-la, aqui, vamos nos valer das ideias de dominação e legitimidade
apresentadas por Max Weber (apud COHN, 1979).
VOCÊ O CONHECE?
Max Weber (1864-1920) nasceu na Alemanha e é considerado um dos fundadores da sociologia. Suas
obras tratam de direito, economia e história, podendo ser destacadas “A ética protestante e o espírito
do capitalismo” (1905; 2012) e “Economia e sociedade” (1922; 1999). Além da ciência, sempre foi
engajado politicamente, tendo, inclusive, tratado dos perfis das pessoas que se supõe vocacionadas
para a ciência ou para a política, bem como de suas motivações e dos efeitos que produzem na
sociedade, em “Ciência e política: duas vocações” (2008).
Vale ressaltar que, na experiência humana, os recursos (materiais e simbólicos)
não são suficientes para satisfazer todos os interesses de todos os indivíduos.
Como consequência, surgem confrontos de interesses distintos entre as pessoas
que integram um determinado grupo social. A luta para a solução desses conflitos
entre os agentes, cada qual buscando se apropriar dos recursos escassos, leva à
desigualdade na sua distribuição.
Esta situação nos coloca novamente diante da temática do poder, que pode ser de
fato (e se fundar na força) ou de direito (e se fundar no consentimento). No caso
do poder de fato, é intuitivo que a força impõe as desigualdades do modo como
for decidido por aquele que exerce o poder. No entanto, se não é pela força, como
se explica a aceitação de qualquer tipo de desigualdade que não é natural, mas
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socialmente produzida? Em outras palavras, como se dá o consentimento ao
poder que permite a alguém tomar as decisões em nome da coletividade, e
promover as desigualdades ao solucionar os conflitos?
De acordo com Weber (apud COHN, 1979), essa modalidade de poder baseada no
consentimento (probabilidade de encontrar obediência para as decisões dentro
do grupo social) é a dominação (COHN, 1979, p. 128), a qual depende da
legitimidade, isto é, da aceitação do conteúdo de sentido da decisão como se
fosse a máxima de conduta do próprio dominado. Apenas assim a ordem parecerá
legítima ao dominado, e este dará seu consentimento ao poder do qual emana a
ordem.
Em outras palavras, a legitimidade significa a aceitação da posição de mando (e as
vantagens dela decorrentes) como justa, necessária ou, ainda, inevitável aos olhos
do dominado, com base na crença dos valores vigentes na sociedade em
determinado momento.
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Figura 2 - A legitimidade depende da aceitação da posição de mando. Fonte: Paperboat,
Shutterstock, 2018.
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E é com base em três tipos puros ou ideais de “dominação legítima” que Weber
(apud COHN, 1979) explora o que confere legitimidade à dominação, ou seja, os
motivos que levam à probabilidade de obediência às decisões por parte dos
dominados.
Dentre as muitas contribuições de Weber à sociologia, uma das mais importantes
se deu no campo metodológico. Weber (apud COHN, 1979) utiliza noções abstratas
que realçam as principais e mais importantes características do seu objeto de
estudo, criando “tipos puros” ou “tipos ideais”, que facilitam a compreensão da
realidade empírica (como fizemos no item anterior ao confrontar duas sociedades,
em relação às quais ressaltamos as características importantes que mais nos
interessavam, isto é, a autossuficiência das pessoas, na primeira, e a
interdependência, na segunda).
O primeiro tipo de dominação legítima é a dominação carismática, isto é, aquela
que decorre apenas da crença nas qualidades extraordinárias do líder (seu
carisma, que pode decorrer de sua capacidade intelectual, de sua oratória, de seu
heroísmo etc.) e na consequente devoção do dominado. A submissão existe
apenas e tão somente enquanto subsistem as características especiais do líder.
Sem estas, esvai-se a legitimidade e o poder para tomar decisões em nome da
respectiva coletividade. Como exemplo, podemos pensar na Venezuela, quando
governada por Hugo Chávez (1999-2013), ou na Coreia do Norte, atualmente sob o
comando de Kim Jong-un, mas, principalmente, no período de Kim Jong-il (1994-
2011).
O segundo tipo puro é a dominação tradicional, cuja pretensão de legitimidade (o
motivo que leva à obediência) repousa na crença da santidade das ordens e
poderes tradicionais, isto é, existentes há muito tempo. Os poderes de mando e as
correspondentes oportunidades são apropriados pelo “senhor” e a obediência
dos “súditos” decorre da dignidade santificada pela tradição, na perspectiva do
senhor, e da fidelidade ou lealdade, na perspectiva do súdito. Como exemplo,
podemos citar a relação entre senhores feudais e servos na Europa medieval
(séculos V a XV).
E o terceiro tipo puro de dominação? Trata-se daquele no qual a pretensão de
legitimidade repousa na legalidade, conforme você estudará a seguir.
1.1.3 Legalidade
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O terceiro tipo puro de dominação legítima é o racional-legal, no qual a
obediência decorre não da virtude de uma pessoa, mas da existência de normas
abstratas que são criadas e modificadas com base em critérios formais
previamente estabelecidos. Ou seja, a legitimidade repousa na legalidade, na
regulamentação da autoridade pela lei. Como exemplo, podemos citar o Estado
Ocidental Moderno, incluindo as atuais democracias, com parte de sua burocracia
eleita pelo povo.
Muito embora os tipos ideais de dominação legítima apresentados por Weber
(apud COHN, 1979) não façam parte de uma cadeia evolutiva (tanto que o
sociólogo inicia sua exposição com a dominação legal), quando o Estado Moderno,
que está fundado na legitimidade racional-legal, passa a ser um Estado de Direito
(no qual o poder está rigorosamente disciplinado por regras jurídicas), a
legalidade assume o papel central em toda e qualquer discussão de poder e/ou
legitimidade.
E, nesse sentido, legalidade significa, basicamente, observância das normas
abstratas formalmente estabelecidas. É em decorrência, portanto, da legalidade
que o poder passa a ser limitado pela ordem jurídica vigente, em determinado
território, em dado momento. A legalidade é um dos elementos essenciais do
Estado de Direito e do constitucionalismo moderno como a expressão político-
jurídica de um governo de leis e não de homens, cujo principal objetivo, por meio
da modificação do fundamento de legitimidade do poder, é proteger os
governados do arbítrio do governante (FERREIRA FILHO, 2012b, p. 13).
De um lado, a obediência dos governados é buscada por meio da existência de
uma ordem impessoal, com regras abstratas, formalmente estabelecidas com base
em critérios previstos nas Constituições. De outro, garante-se, por meio da
legalidade, como específico fundamento de legitimidade, a proteção dos
indivíduos contra o exercício de poderes arbitrários.
Manoel Gonçalves Ferreira Filho, pontuando que os movimentos revolucionários
liberais do século XVIII professavam o culto à lei, apresenta uma explicação para a
adoção deste particular fundamento de legitimidade do poder e, especialmente,
para sua manutenção nas democracias pluralistas. Tratar-se-ia, atualmente, da
própria lógica interna dos regimes democráticos: como regime aberto à
competição dentre vários grupos que desejam fazer valer a sua compreensão
sobre os modos de distribuição dos recursos escassos na sociedade, a prévia
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regulamentação com base em normas abstratas, gerais e impessoais, sem
privilégios, é exigência para evitar o poder de fato baseado, pura e simplesmente
na força (FERREIRA FILHO, 2012a).
VOCÊ QUER LER?
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, é um dos primeiros documentos derivados
da Revolução Francesa, do mesmo ano, e nela está bem caracterizada a importância que os
revolucionários atribuíam à lei como medida da liberdade. Este documento histórico constituído por
apenas 17 artigos ainda possui valor constitucional na França e pode ser utilizado como parâmetro no
controle de constitucionalidade. Para ler o documento, disponível na Biblioteca Virtual de Direitos
Humanos da Universidade de São Paulo (USP), acesse o endereço:
<[Link]
cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-
[Link]
([Link]
cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-
[Link])>.
Ou seja, o poder de direito (porque baseado no consentimento) passa a ser o
poder legal (porque baseado no consentimento ao poder dos governantes que
somente pode ser exercido em conformidade com a ordem jurídica vigente). O
poder legal é não apenas um poder consentido, mas um poder em consonância
com o conjunto de normas jurídicas racionalmente produzidas e promotoras de
igualdade e segurança jurídica.
1.2 Evolução histórica do pensamento
político ocidental
A ideia de legalidade é um bom recorte para começarmos a evolução do
pensamento político ocidental. As leis exprimem concepções da política e do
direito, que variam de acordo com a civilização, o passar do tempo e os novos
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desafios enfrentados pelos grupos sociais. Cada civilização tem seus pontos e
aspectos específicos que devem ser compreendidos.
Deslize sobre a imagem para Zoom
Figura 3 - A lei e o direito
permeiam a evolução do pensamento político. Fonte: Shutterstock, 2018.
As civilizações são, fundamentalmente, marcadas pela religião e, por
consequência, a política e o direito também são. O que entendemos por política e
direito, então, está intimamente ligado à civilização ocidental (não importa a
denominação que se dê a esta civilização: ocidental, judaico-cristã-romana etc.).
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Contudo, ao longo do tempo, o pensamento político ocidental foi se distanciando
da religião, buscando autonomia própria, o que, aliás, é o marco da passagem de
uma filosofia política para uma ciência política, propriamente dita. E o pensador
que melhor simboliza essa passagem é Maquiavel.
Nesse contexto, por meio da trajetória da lei na civilização ocidental, é possível
identificar a evolução do próprio pensamento político no Ocidente. Mas, o que é a
lei? Para que ela serve? Por que sua expressão muda ao longo do tempo? E como
isso impacta na sociedade política? É o que vamos responder a seguir
considerando a ideia de lei desde a Antiguidade clássica até o advento do Estado
Moderno (século VIII a. C. ao século XV d. C.) tendo por fio condutor as teorias dos
pensadores do período.
1.2.1 A lei no pensamento político ocidental
Da Antiguidade clássica aos nossos dias, prevalecem três entendimentos sobre a
lei:
1. a expressão de um direito imanente, independentemente da vontade humana
(grosso modo, predomina esta visão da Antiguidade até o século XVIII e sua
construção mais importante talvez seja o jusnaturalismo);
2. a expressão da vontade geral, pela qual a lei é definida pela participação dos
cidadãos, sempre direcionada ao interesse geral, ao justo (concepção da
modernidade, do constitucionalismo);
3. a expressão de uma vontade política, ou seja, a lei deixa de se limitar ao
interesse geral e passa a salvaguardar interesses particulares, tornando-se um
instrumento de política (FERREIRA FILHO, 2012a).
Estes três entendimentos são predominantes em determinados períodos, mas isso
não significa que não existiram nos demais ou que desapareceram completamente
hoje. Metodologicamente, como nos ensinou Weber (apud COHN, 1979), vamos
considerá-los tipos ideais, modelos para compreender como se deu a evolução do
pensamento político ocidental.
No que diz respeito à lei como expressão de um direito imanente, a ideia é que
existe um conjunto de princípios obrigatórios exigidos independentemente da
vontade dos seres humanos. Este direito está muito próximo de uma dádiva da
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divindade: a lei é dada ao ser humano e não criada por ele (como exemplo,
podemos lembrar que os “Dez Mandamentos” foram revelados a Moisés no Monte
Sinai).
VOCÊ QUER LER?
As tragédias da literatura grega são obras muito famosas e de prazerosa leitura. Dentre elas, “Antígona”,
escrita por Sófocles, por volta do século V a. C., fornece interessante exemplo na Antiguidade clássica
da supremacia de um direito imanente. Na história, Creonte, elevado ao poder soberano, proíbe, em
seu primeiro edito, o sepultamento do corpo do irmão de Antígona. Esta, temente às leis divinas,
decide ignorar a proibição constante de lei humana, sujeitando-se às consequências. O Portal Domínio
Público do governo brasileiro disponibiliza a obra em biblioteca virtual no
endereço: <[Link]
select_action=&co_autor=176 ([Link]
select_action=&co_autor=176)>.
Assim, neste primeiro entendimento sobre a lei, é evidente sua ligação com a
religião. A laicização da lei e da política é um fenômeno da modernidade
provocado por vários fatores políticos (dentre os quais, aliás, um relacionado à
própria religião: o surgimento do protestantismo no século XVI).
Hugo Grócio é o autor que inicia esse movimento de laicização, em “Direito da
guerra e da paz”, de 1625, ao fundamentar o direito natural não na figura divina,
mas na razão. Posteriormente, com a busca pela derrubada do direito divino dos
reis, os contratualistas promovem a efetiva quebra, por meio de raciocínios que
partem da ideia de um estado de natureza (a vida do homem sem a existência de
instituições sociais e políticas) para um estado social. Assim, sem a
fundamentação ou a participação do divino, parte-se do estado de natureza à
institucionalização do Estado, atribuindo-se outra concepção à lei: a expressão de
uma vontade (GRÓCIO, 2004).
Para Hobbes, consoante se extrai de seu “Leviatã”, publicado inicialmente em
1651, o homem é intrinsecamente mau. Então, o estado de natureza é a guerra de
todos contra todos, tão gravosa aos próprios homens que estes fazem de tudo
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para sair desta situação. Por essa razão é que celebram o pacto social no qual
entregam todo poder ao governante. A lei, então, é obra do governante. Ele é o juiz
do estabelecimento da lei (HOBBES, 2000).
Locke defende, em “Dois tratados sobre o Governo”, publicado em 1681, que o ser
humano não é intrinsecamente bom ou mau. Assim,o ser humano conseguiria
viver no estado de natureza, isto é, sem as instituições sociais e políticas. Mas, o
fato é que ele vive melhor com elas, porque sente falta de leis; de juízes imparciais
que fizessem vale as leis, e de poder que dê efetividade à decisão dos juízes
(LOCKE, 1998).
Rousseau, por sua vez, em “O contrato social”, de 1762, acredita que o homem é
naturalmente bom, de forma que os seres humanos aceitam viver em conjunto
sob o governo da vontade geral, a qual é expressa, justamente, pela lei
(ROUSSEAU, 1999). É bem verdade que não foi a concepção pura de Rousseau que
passou a ser considerada o modelo de lei definido pelo art. 6.º da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, afinal, a concepção adotada pelo
documento inclui a possibilidade de que a formação da lei se dê por intermédio de
representantes dos cidadãos, o que não seria subscrito por Rousseau, que
condiciona a vontade geral à participação de todos.
De qualquer forma, é importante a referência a Rousseau (1999), na medida em
que para ele a lei não advém do divino ou do arbítrio, mas da razão. Esta também
é a conclusão de Montesquieu (1996, p. 11), para quem “[...] as leis, em seu
significado mais extenso, são as relações necessárias que derivam da natureza das
coisas”. Portanto, a lei não é mais expressão da vontade divina, mas da vontade
geral, obtida via razão humana de modo a estabelecer as regras permanentes da
vontade social. Esta concepção coincide com a expressão do liberalismo político e
econômico (“laissez faire, laissez passer, le monde va de luimême”, expressões de
origem francesa que significam algo como “deixe fazer, deixe passar, que o mundo
segue funcionando”).
O liberalismo confiava que somente as leis naturais levariam ao melhor dos
mundos, devendo abster-se das questões econômicas e sociais, a não ser
naquelas de ordem eminentemente pública, concepção que está refletida nas
Constituições liberais do período, como a norte-americana, de 1787, e a francesa,
de 1791, bem como nas teorias políticas que as lastrearam, como a já citada de
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Montesquieu (1996),ou os artigos federalistas de Alexander Hamilton, James
Madison e John Jay, publicados originalmente em 1788 (HAMILTON; MADISON;
JAY, 1984).
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Figura 4 - Reprodução da obra de Ferdinand Delacroix (1798-1863), símbolo da liberdade que guiou
as revoluções liberais do século XVIII. Fonte: Oleg Golovnev, Shutterstock, 2018.
A lei apenas como expressão de uma vontade geral e abstrata perdurou até a
virada do século XIX para o século XX, quando as consequências da Revolução
Industrial, gestadas na política liberal, encontram guarida na doutrina política do
socialismo. Com seu maior expoente em Karl Marx, ainda que não tenha chegado
a revolução socialista contra o modo de produção capitalista, houve avanços no
que diz respeito ao bem-estar social, que passou a ser incluído dentre as funções
do Estado.
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Como as medidas para a promoção de bem-estar, de cunho econômico e social,
dependem da edição de leis, a lei deixa de se limitar ao interesse geral e abstrato e
passa a salvaguardar interesses particulares, dos grupos carentes de proteção. A
lei torna-se, então, um instrumento de política, ou seja, não é mais a expressão de
uma vontade divina ou de uma vontade geral, mas, sim, de uma vontade política.
1.3 Panorama da filosofia política em
Platão
Embora os costumes (ethos) e as cidades (polis) fossem muito anteriores ao século
VI a. C., é neste período, na Grécia, que nascem a ética e a política. Como
Sócrates, ainda que tornado famoso pelos diálogos de seu discípulo, nada tenha
deixado escrito, é com este discípulo, Platão, que se inicia o que, hoje, chamamos
de filosofia política (LOPES; ESTÊVÃO, 2012, p. 19).
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Figura 5 - Selo
lançado na Grécia, em 1978, representa Platão (à esquerda) e Aristóteles (à direita) dialogando sobre
o ideal e o real. Fonte: Le eris Papaulakis, Shutterstock, 2018.
A rigor, “A República” de Platão não é, propriamente, um livro de filosofia política,
mas a exaltação da filosofia diante da política, em decorrência da morte do
filósofo Sócrates e da tensão entre filosofia e política dela decorrente (PLATÃO,
1987).
Platão, então, enfrenta esse momento de crise, o qual é refletido em sua própria
filosofia: o fenômeno real não é digno de ser considerado verdadeiro e tampouco
justo. Ou seja, Platão radicaliza a importância da filosofia em relação à política.
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Já adiantamos, então, a conclusão de Platão. Mas, você sabe por qual razão o
filósofo apresenta uma visão degenerada da política? Ou como ele justifica seu
pensamento? E como ele encara a dificuldade de implantação de sua ideia?
Poderemos conferir as respostas dessas perguntas ao estudar o pensamento
político de Platão em consideração ao modo como se deve organizar a sociedade
política (PLATÃO, 1987).
1.3.1 A influência na formação da concepção da sociedade política
organizada
Em “A República”, Platão apresenta sua teoria das ideias, que explicita essa crise
entre a filosofia e a política, ao dispor que a verdade não pode ser imediatamente
retirada das coisas sensíveis, das coisas mundanas. É necessária uma mediação
entre o mundo das ideias e o mundo real porque a verdade das coisas não diz
respeito à materialidade, ao particular, mas, sim, está relacionada ao ideal, ao
universal (PLATÃO, 1987).
E como a verdade das coisas está no mundo inteligível, a mediação que permite
alcançá-la somente pode ser feita por meio de um exercício filosófico, de
abstração do particular em direção ao geral. Desta forma, Platão separa o que é
justo do que parece justo.
Na conhecida alegoria da caverna, Platão busca demonstrar o difícil exercício de
conhecer, verdadeiramente, as coisas, e de compartilhar essa essência com os
demais integrantes da sociedade. Aliás, tão difícil que o custo é a morte.
Na alegoria formulada, no livro VII de “A República” (PLATÃO, 1987, p. 135 e ss.),
Platão considera um grupo de pessoas em uma caverna, com uma entrada aberta
para a luz, presas desde a infância e de tal forma que somente pudessem olhar em
frente para uma parede da caverna. Atrás dessas pessoas presas, há uma fogueira,
e outras pessoas transportam objetos e seres cujas imagens são projetadas nas
paredes para a qual olham os prisioneiros. Como somente podem ver as sombras,
o grupo preso considera que as projeções são a realidade.
Se alguém desses presos fosse solto e pudesse olhar par a luz e para a verdadeira
realidade (e não meras projeções), a princípio ficaria assustado e confuso,
desejando retornar para o lugar que ocupava. Mas, à medida que se habituasse
com as descobertas e as contemplasse, compreenderia a verdade das coisas e
desejaria compartilhá-la com os demais prisioneiros da caverna.
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Ocorre que, ao retornar, os prisioneiros da caverna não acreditariam naquele que
saiu. Julgá-lo-iam prejudicado por sua visita ao mundo superior, de tal forma que
rir-se-iam dele por duvidarem do que dizia, chegando ao ponto de matar quem os
quisesse levar ao mundo superior capaz de causar tais estragos.
VOCÊ QUER VER?
No filme O doador de memórias (The Giver, 2014), baseado no livro de mesmo título do escritor Lois
Lowry, é apresentada uma pequena comunidade, aparentemente ideal, onde todos são felizes. No
entanto, tal qual na alegoria da caverna de Platão, esta percepção do mundo é apenas uma projeção e
quando um dos personagens descobre o segredo da comunidade, isto é, quando conhece a verdade,
passa a questionar o mundo em que vive e a própria ideia de liberdade. Para assistir, acesse o
endereço: <[Link]
([Link]
A caverna simboliza o mundo real, onde vivem os seres humanos. As correntes
simbolizam a ignorância que prende as pessoas à visão apenas do particular e não
do universal. O prisioneiro que consegue deixar a caverna representa o filósofo,
capaz de descobrir a verdade das coisas e levá-las até os demais membros do
grupo.
Ou seja, para Platão a filosofia é superior, e a política está subordinada a ela. Se
nos afastamos do bem e da justiça pela ignorância, justamente, do que são o Bem
e a Justiça (LOPES; ESTÊVÃO, 2012, p. 28), a filosofia, o único modo de se conhecer
a verdade, é também o melhor modo de bem governar. Como apenas os filósofos
possuem o conhecimento necessário para conduzir o povo à vida virtuosa, apenas
a eles deveria ser dado o poder político (o “filósofo-rei”).
CASO
[Link] 19/31
2/25/2020 Ciência Política e Fundamentos de Direito Eleitoral
No que diz respeito à educação formal, a Constituição brasileira de 1988
dispõe apenas que os analfabetos são inelegíveis. Por consequência, não é
exigido nenhum tipo de formação (inclusive filosófica) para os
governantes, nem mesmo para o Presidente da República. O constituinte
originário optou pela prevalência do princípio democrático, privilegiando a
possibilidade de que o povo-eleitor escolha por quem quer ser governado,
podendo, a cada eleição, decidir valorizar a vivência política real, o
conhecimento ou uma proporção de ambos, de acordo com os candidatos
que se apresentem.
Há, no entanto, outras opiniões. A Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) n.º 194/2016, por exemplo, pretende modificar a Constituição para
exigir conclusão de curso de graduação de nível superior em qualquer área
como condição de elegibilidade para os cargos de Senador, Deputado
Federal, Estadual ou Distrital, Presidente, Vice-Presidente, Governador,
Vice-Governador, Prefeito, Vice-Prefeito e Vereador.
Para além de questões práticas (como a dificuldade técnica de alguns
representantes eleitos), a principal justificativa defende o argumento
platônico do exercício do poder político. , afinal, o propósito é “estabelecer
um patamar superior” dentre os representantes políticos, os quais
poderão buscar “soluções dos problemas nacionais de forma duradoura”
por meio de “uma visão mais profunda da realidade brasileira”, o que é
obtido de modo mais efetivo com “conhecimentos integrados por uma
visão acadêmica”. Para conferir, acesse o endereço:
<[Link]
idProposicao=2079587
([Link]
idProposicao=2079587)>.
Para Platão, a melhor solução seria a do filósofo-rei porque não são todos que
possuem habilidade intelectual. Mas, reconhecendo a dificuldade desta situação
ideal, o filósofo propõe, como alternativa, educar a classe governante para que se
tornem filósofos (o “rei-filósofo”), fornecendo-lhes, via educação, a capacidade de
governar com base na ideia, na essência de justiça, somente alcançável pelos
filósofos.
Para Platão (1987), há duas formas de governo boas (e que são ideais, existindo
apenas como modelos) e quatro más (que são as formas reais que se encontram
nos Estados, refletidas, mais ou menos nas formas ideais). As formas ideias e boas
seriam a monarquia e a aristocracia. As formas reais e corrompidas seriam, em
ordem crescente de corrupção, timocracia, oligarquia, democracia e tirania.
[Link] 20/31
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A timocracia é a melhor dentre as formas reais porque é a forma de transição entre
as ideais e as reais. Assim como a aristocracia e a oligarquia, a timocracia é o
governo de alguns. Mas, enquanto a aristocracia é a forma boa e ideal
correspondente o governo dos melhores, dos mais sábios, e a oligarquia é a forma
corrompida correspondente ao governo dos mais ricos, a timocracia é a forma
intermediária identificada com o governo dos guerreiros e não dos sábios. A
tirania, por sua vez, é o governo de um só, não exercido com obtido da realização
da justiça (como a monarquia), mas, apenas em benefício do tirano e de maneira
violenta. Por fim, a democracia é o governo de muitos, mas o povo se torna
tirânico ao acreditar que a liberdade é uma permissão para transgredir qualquer
lei (BOBBIO, 1980).
1.4 Panorama histórico da filosofia
política
Diferentemente de Platão, Aristóteles apresenta uma filosofia política e, ao
contrário do discípulo de Sócrates, a vida política não está subordinada à filosofia.
Para Aristóteles, não se trata apenas de conhecer a verdade, a essência da justiça
necessária para governar. É necessário também saber vivenciar a política.
E é na vivência prática da política que se pode identificar quais sãos as melhores
formas de governo para a sociedade política e quais são as formas deturpadas
decorrentes da degeneração das primeiras.
Com isso se inaugura o central debate do pensamento político ocidental relativo
às formas de governo, isto é, aos modos de organização e funcionamento do
poder estatal, com importantes contribuições de Políbio, em “Histórias” (1981),
acerca da dinâmica de sucessão das formas de governo e, especialmente, do
equilíbrio dentro do próprio governo por meio de controles recíprocos, bem como
de Jean Bodin, em “Os seis livros da República”, de 1576, no sentido oposto da
justificação do poder absoluto ilimitado como única forma de garantir a paz
(BODIN, 2011).
Nesse contexto, qual a inovação da filosofia de Aristóteles que molda sua visão
política? E como essa visão política vai influenciar em sua teoria das formas de
governo? A teoria das formas de governo da Antiguidade ainda faz sentido ou é
[Link] 21/31
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apenas uma reminiscência histórica? O sobrevoo de alguns séculos de política,
conforme o item a seguir, nos dará meios para formular respostas a estes
questionamentos.
1.4.1 A filosofia política de Aristóteles
Primeiramente, do ponto de vista metodológico, em “A Política”, Aristóteles busca
se distinguir de Platão mostrando a legitimidade do singular, do particular, desde
que não se deixe de tratar a política de modo racional. E Aristóteles realiza tal
intento por meio do recurso a critérios descritivos (descreve, por exemplo, as
formas de governo como eles são) e critérios prescritivos (avalia a correção ou a
incorreção de cada forma de governo particular).
Paralelamente, do ponto de vista filosófico, Aristóteles não apresenta uma teoria
das ideias, como fizera Platão, mas possui uma metafísica para a reflexão analítica
da política: a natureza.
VOCÊ SABIA?
Metafísica é entendida como a ciência primeira, isto é, a ciência que tem como
objeto o objeto de todas as outras ciências, sendo que, da forma como concebida
por Aristóteles, “é a ciência primeira no sentido de fornecer a todas as outras o
fundamento comum, ou seja, o objeto a que todas elas se referem e os princípios
dos quais todas dependem” (ABBAGNANO, 2007, p. 661).
De acordo com Aristóteles, tudo que se conhece na natureza (plantas, animais e,
inclusive, a cidade) possui um desenvolvimento dinâmico que lhe é próprio e que
deve ser cumprido. As coisas têm uma natureza teleológica, isto é, um
desenvolvimento que visa a um fim, o qual depende da composição de cada coisa.
Assim, juntando metodologia e a metafísica de Aristóteles, se, de um lado, a
análise deve partir do particular e se, de outro, a cidade é o local em que se dá a
plena realização do homem como ser político, para entender a política é
necessário perguntar qual o fim natural da cidade?
Para Aristóteles, a finalidade da cidade é o soberano bem. E, para atingir o
soberano bem, é necessária uma composição política que permita realizar, na
cidade, o ideal da vida perfeita e boa. Ou seja, a novidade da filosofia política
[Link] 22/31
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aristotélica é a subordinação do regime político à definição de cidade, o que
permite avaliar a correção ou a incorreção das formas de governos existentes.
Desta forma, diversamente de Platão, para Aristóteles, o bom legislador e o bom
político não são aqueles que têm apenas a visão do ideal perfeito, mas, sim,
aqueles que são capazes de entender o fim da cidade e fazer o jogo entre a forma
perfeita e a política imperfeita. Isto significa que não se trata apenas de visualizar
as formas perfeitas de governo, mas de identificar a melhor forma na prática real,
de acordo com as circunstâncias, a forma que convém.
Para Aristóteles, há uma “zona cinzenta” entre as formas perfeitas do regime
político e a política imperfeita da realidade e o papel do bom governante, do bom
político, do bom cidadão e até mesmo da filosofia política é bem transitar nessa
zona, encontrar o “justo meio” entre a forma e a matéria. Consequentemente,
político é todo aquele que faz essa mediação para promover a junção entre
princípios e vida política. E o bom político é aquele que faz isso da melhor maneira
diante do que é possível, por meio de um exercício racional.
1.4.2 A teoria aristotélica das formas de governo
No mundo real, formas de governo perfeitas não existem. Somente se pode
proceder à apreciação analítica das formas que efetivamente existem: as
imperfeitas. E, para avaliar a correção ou incorreção das formas imperfeitas,
devemos retomar a pergunta: qual o fim natural da cidade?
Se a finalidade da cidade é o soberano bem, justas são as formas de governo que
visam alcançar o interesse comum dos cidadãos. Não se trata, pois, de estabelecer,
abstratamente, apenas uma única forma ideal de governo, mas de,
concretamente, considerar que diversas podem ser as formas de governo que
contemplam aquela essência que respeita a finalidade da cidade.
VOCÊ SABIA?
O emprego das diversas expressões atinentes aos Estados e aos governos
frequentemente gera dúvida e confusão. Vale, então, recordá-las para manter
fresca sua distinção. Formas de Estado dizem respeito à (des)centralização político-
territorial dos Estados, podendo-se falar, por exemplo, em Estado Unitário e Estado
Federal. Formas de governo dizem respeito à organização e ao funcionamento do
poder estatal, distinguindo-se, por exemplo, entre a Monarquia e a República.
[Link] 23/31
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Com base neste critério (governo destinado ao bem comum) e no número dos
titulares do poder soberano é que Aristóteles apresenta sua teoria das formas de
governo.
Assim, a realeza ou monarquia é a primeira das formas de governo, na qual o
poder soberano é exercido por um só cidadão, mas visando ao interesse de todos.
Por estar de acordo com a finalidade da cidade, é uma boa forma de governo,
aliás, a melhor dentre as formas existentes e imperfeitas, na medida em que é
aquela que dá menor espaço para a deturpação no exercício do poder político.
A segunda forma de governo é a aristocracia, o governo de alguns, possivelmente
os melhores, os mais capazes da cidade, que, por isso, exercem o poder político
considerando o interesse de todos os cidadãos. Dessa forma, também é avaliada
positivamente como modelo de organização do poder estatal a ser aplicado de
acordo com as circunstâncias concretas.
A terceira forma boa e que também respeita o soberano bem da cidade
corresponde ao regime constitucional (ou politeia, ou república, ou democracia).
O critério que a distingue das outras duas boas formas de governo é o número de
titulares do poder político, uma vez que, no regime constitucional o poder é
exercido pela maioria, mas ainda se atendo ao bem comum no que diz respeito à
finalidade.
Três também são as formas deturpadas, as quais são assim consideradas por não
atenderem a finalidade da cidade: em vez de dirigirem suas ações para o bem
comum, prevalece o interesse particular dos governantes, sejam muitos, poucos
ou apenas um.
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Figura 6 - Predominância do interesse
particular versus o interesse geral. Fonte: Adrian Niederhaeuser, Shutterstock, 2018.
À realeza, contrapõe-se a tirania, como governo de um só indivíduo, no qual o
objeto corresponde aos interesses do tirano. À aristocracia, contrapõe-se a
oligarquia, forma de governo viciado que exerce o poder político considerando os
interesses de poucos, os mais ricos. E ao regime constitucional contrapõe-se a
democracia (ou demagogia), a forma deturpada de governo na qual o poder se
torna despótico porque visa aos interesses particulares da maioria, o que, não
necessariamente, corresponde ao interesse geral da cidade.
Vale, por fim, ressalvar que há grande divergência entre os autores sobre a
tradução das formas de governo (boa e deturpada) nas quais o poder político é
exercido pela maioria. O que mais causa confusão é que a expressão “democracia”
é utilizada por alguns para designar a forma adequada que considera o interesse
geral e, por outros, para designar a forma viciada que governa tendo em vista
apenas interesses particulares, ainda que da maioria. Por essa razão, citamos
acima as várias expressões utilizadas para traduzir as formas aristotélicas de
governo da maioria, explicando a repetição.
1.4.3 De Políbio a Bodin
Aristóteles é um autor central, revolucionário da filosofia política, ainda no século
IV a. C. Depois dele, a próxima grande revolução no campo da política se dará com
Maquiavel, no século XV d. C. Mas, nesse intervalo de tempo, houve outras
contribuições importantes para o tema, a começar por Políbio (“Histórias”, século
[Link] 25/31
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II a.C.), passando por Santo Agostinho (“A Cidade de Deus”, de 426) e Santo Tomás
de Aquino (“Suma teológica”, de 1485), até chegar em Jean Bodin, com “Os seis
livros da República”, de 1576 (BODIN, 2011).
Diferentemente de Platão e Aristóteles, Políbio foi um historiador grego que,
vivendo em Roma, pôde descrever a ascensão da República Romana,
contribuindo, no século II a.C. com a teoria das formas de governo. Suas principais
contribuições correspondem ao ciclo das formas de governo e ao governo misto.
Para Políbio, as seis formas de governo (três boas e três más, mais ou menos na
linha apresentada por Aristóteles) se sucedem em ciclos, nos quais há alternância
entre as formas boas e as formas más. Assim, o reino (forma boa) é sucedido pela
tirania (forma má). Depois do esgotamento, a tirania dá lugar a outra forma boa, a
aristocracia. A aristocracia (forma boa) é sucedida, então, pela oligarquia (forma
má), e o governo mau dos poucos cede à democracia, o governo bom dos muitos.
A democracia (forma boa), por fim, é sucedida pela oclocracia (forma má do
governo da maioria).
Mas, a principal contribuição de Políbio para a filosofia política é a ideia de
governo misto, de acordo com a qual a melhor forma de governo não é nenhuma
daquelas três constituições boas, consideradas isoladamente, mas, sim, uma
composição equilibrada das três. Ou seja, a melhor forma de governo seria aquela
que possui elementos do reino, da aristocracia e da democracia, antecipando a
ideia moderna da separação de poderes com uma espécie de controles recíprocos
entre monarca, senado e povo que impede os desvios e a degeneração de uma
forma boa de governo em outra má, como apontado no ciclo acima. O governo
misto de Políbio, então, é melhor porque mais estável.
Depois de Políbio, há a ascensão do cristianismo, adotado como religião oficial do
Império Romano no ano 380 e expressão filosófica do período medieval, com
influência direta na concepção do fenômeno político durante um largo período de
tempo, no qual vale destacar as contribuições de Santo Agostinho e Santo Tomás
de Aquino.
No século IV, a importância do papel de Santo Agostinho está na retomada do
platonismo em termos cristãos. Assim, de acordo com a ideia de Santo Agostinho,
Platão teria trilhado um bom caminho e acertara quase tudo, mas sua teoria das
ideias necessitava de um complemento: só se chega à verdade pela conversão;
não há outro caminho, nem a filosofia.
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Assim, na mesma lógica platônica, Santo Agostinho divide o mundo um dois: o
mundo dos homens e o mundo de Deus. E esta estrutura deve ser considerada
também para pensar a política, uma vez que a cidade dos homens é cheia de
vícios e pecados, enquanto a cidade de Deus é perfeita. Ou seja, assim como em
Platão, a política é deixada em segundo plano, mas, neste caso, subordinada à
religião, mais especificamente, ao cristianismo, uma vez que apenas pela
influência da Igreja Católica no Estado, intermediando a verdade divina, é que o
povo poderia viver sob leis justas.
Quase 10 séculos depois, no século XIII, a segunda contribuição importante do
medievo: a filosofia de Santo Tomás de Aquino que, agora, resgata a filosofia
aristotélica, também em termos cristãos.
Para Santo Tomás de Aquino, a redenção humana se dá não apenas em termos
intelectuais (o conhecimento da verdade, de Deus, como pregava Santo
Agostinho), mas também na formação de homens virtuosos. Assim, para ele,
Aristóteles apresenta uma filosofia consistente, mas erra quando aponta como
finalidade da cidade o bem comum dos cidadãos. Na verdade, o soberano bem
dependeria da conversão, da salvação cristã. A comunidade política teria, então,
por objetivo, justamente, a necessária mediação para a salvação.
No Estado Moderno que se seguiu na evolução temporal, a Igreja não mais detinha
o mesmo poder político do período medieval e a ascensão de outros postulantes
gera confrontos. Nesse contexto conflituoso, Jean Bodin sugere que apenas um
fundamento da sociedade política poderia garantir a paz e protegê-la: a soberania,
poder absoluto e perpétuo, que permite a quem o detém agir com ampla
liberdade para cumprir os objetivos do Estado (BODIN, 2011).
A desordem somente pode ser afastada pela soberania e embora seu exercício
pudesse se dar em diferentes formas de governo, atribuindo-o a um único
indivíduo (monarquia), a um grupo de notáveis (aristocracia) ou à maioria dos
cidadãos (democracia), para Bodin (2011) a melhor forma seria a monarquia. E por
quê? Em decorrência de um critério lógico-numérico: “[...] se mais de um indivíduo
é soberano, na verdade, não há um soberano” (BITTAR, 2016, p. 176).
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Figura 7 - A soberania é tida como fundamento da monarquia absoluta. Fonte: BCFC, Shutterstock,
2018.
Nestes termos é que a soberania defendida por Bodin (2011) fundamentou as
monarquias absolutistas (com o direito divino dos reis de governar extraindo sua
pretensão de legitimidade diretamente de Deus), e, em grande medida, ainda
fundamenta a ideia de que os Estados contemporâneos são soberanos em seus
domínios (ainda que a pretensão de legitimidade seja outra, a vontade do povo,
extraída da soberania popular).
Síntese
Concluímos o estudo do fenômeno do poder político, pelo qual pudemos avaliar
seu conceito, suas fontes de legitimidade, a evolução do pensamento sobre ele em
nossa sociedade e as principais ideias da filosofia política.
Neste capítulo, você teve a oportunidade de:
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identificar o poder como fenômeno presente em todas as organizações
sociais e defini-lo, basicamente, como a tomada de decisões em nome da
coletividade;
compreender que a legitimidade significa a aceitação da posição de mando
do governante como justa, necessária ou inevitável aos olhos do governado;
distinguir o fundamento da legitimidade na sociedade ocidental atual, da
qual fazemos parte, que repousa na legalidade, isto é, na regulamentação da
autoridade pela lei;
diferenciar a lei como expressão da vontade divina, da vontade geral ou da
vontade política;
observar que Platão concebe os filósofos como únicos capacitados para
conduzir o povo à vida virtuosa e, consequentemente, para exercer o poder
político;
analisar as formas aristotélicas de governo virtuosas (monarquia,
aristocracia e regime constitucional) e deturpadas (tirania, oligarquia e
democracia);
reconhecer a ideia do governo misto de Políbio, com controles recíprocos
entre os elementos que representam a realeza, a aristocracia e a
democracia;
identificar que, para Jean Bodin, apenas a soberania pode garantir a paz da
sociedade, como um poder absoluto e perpétuo.
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