EMILLYN ROSA Rev
EMILLYN ROSA Rev
EMILLYN ROSA
SÃO PAULO
2022
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
EMILLYN ROSA
SÃO PAULO
2022
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou
eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
ROSA, E. O Conselho Mirim na rede municipal de Santo André (SP): uma política pública
de participação política infantil. 2022. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de
Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.
Aprovada em:
Banca Examinadora
Profa. Dra. _____________________________________________________________
Instituição: _____________________________________________________________
Julgamento: _____________________________________________________________
A sensação de que os agradecimentos aqui escritos não são suficientes para expressar
minha gratidão a todas as pessoas que me ajudaram, estiveram presentes em todo este percurso.
Inicio agradecendo minha orientadora, Profa. Dra. Maria Letícia Nascimento, que me
auxiliou em todo o processo de elaboração, estudo e construção desta pesquisa, por meio de
orientações, reflexões e observações, que contribuíram para meu desenvolvimento enquanto
pesquisadora. Agradeço todo este percurso trilhado em conjunto.
À Profa. Dra. Emília Vilarinho, que me recebeu com muito acolhimento em Portugal
durante meu Período Sanduíche (Estágio Científico Avançado), colaborando nas reflexões,
aprofundamento teórico e estudo de campo. Obrigada pela orientação, parceria e cuidado que
me fizeram sentir segura em toda minha estadia.
Agradeço à equipe da CCInt, à Faculdade de Educação (FEUSP) e à Universidade de
São Paulo (USP), por todo o apoio e suporte durante o processo para a realização do período
sanduíche, assim como agradeço à Universidade do Minho (UMinho) Instituto de Educação,
pelo aceite e oportunidade de aprendizagem. Em especial, agradeço ao Prof. Dr. Manuel
Sarmento e à Profa. Dra. Natália Soares, que me receberam no Seminário Permanente em
Sociologia da Infância, assim como colaboraram com indicações e reflexões.
Aos colegas do Grupo de Pesquisa Sociologia da Infância e Educação Infantil (GEPSI),
que fortalecem as trocas acadêmicas, o incentivo e o estudo.
Esta pesquisa não seria possível sem a colaboração das/os colegas entrevistadas/os, no
Brasil e Portugal; portanto, agradeço a participação de todas/os que aceitaram o convite e
dispuseram de seu tempo. Em Portugal, Prof. Dr. Manuel Sarmento, Dr. Jorge Correia, Daniela
Miranda, Vereadora Adelina Mendes Pinto e Profa. Idalina Carvalho.
No Brasil, a minha imensa gratidão à Branca (Maria Auxiliadora Elias), Prof. Dr. Elie
Ghanem, Cassia Manchini, Carlos Grana, Gilmar Silvério, Wagner Sussai e Neusa Sampaio,
pela entrevista, diálogo, arquivos e reflexões; ao Nestor, Marcel e Carla, que não hesitaram em
ajudar e cederam seus arquivos pessoais. Sem vocês, não haveria a possibilidade deste estudo.
Muito obrigada! Estendo aqui meu agradecimento à Denise Castelani, que colaborou com a
pesquisa e me apoiou sempre.
Em especial, quero agradecer a Profa. Dra. Lisete Arelaro (in memoriam), que
demostrou, em toda a sua trajetória, que a teoria e a prática podem andar juntas, demonstrando
sua amorosidade desde o nosso primeiro encontro na Escola Florestan Fernandes, por aceitar o
convite para compor a Banca do Exame de Qualificação e por colaborar com valiosas
considerações. Gratidão e Lisete presente!
Às integrantes titulares e suplentes da Banca Examinadora (qualificação e defesa),
Profa. Dra. Célia Serrão, Profa. Dra. Emília Vilarinho, Profa. Dra. Ligia Maria Leão Aquino,
Profa. Dra. Vania Carvalho de Araújo, Profa. Dra. Patrícia Dias Prado, Profa. Dra. Maria Luiza
Rodrigues Flores, Profa. Dra. Bruna Breda, Profa. Dra. Maria Walburga dos Santos, Profa. Dra.
Maria Aparecida Guedes Monção e Profa. Dra. Bianca Correa.
Agradeço aos meus pais Andréia e Marcelo, que mesmo longe estiveram perto e não
mediram esforços para me auxiliar, em pequenos e grandes detalhes, principalmente na
concretização do meu sonho em realizar um período sanduíche. Agradeço ao Sonny, meu
companheiro, esposo, amigo, que é refúgio, é apoio, estrutura e incentivo, que não me deixou
desanimar e nem desacreditar nos momentos mais difíceis.
Agradeço também à minha família, e em extensão agradeço àquelas/es que muitas vezes
tornam-se famílias: as/os amigas/os, e mesmo correndo o risco do esquecimento e já peço
desculpas de antemão me atrevo a citar alguns nomes: Ana Caroline, que acreditou sempre
na minha capacidade e me apoiou em diversos momentos, sem medir esforços; Flávia, que se
empenhou em mostrar que eu era capaz; Thiago, que lutou por mim e festejamos o sucesso; Lis
e Ana Lúcia, pelas caronas de risadas e reflexões teóricas metodológicas, e empatia acadêmica;
e Michelle, por me incentivar e me auxiliar sempre.
É preciso lembrar daqueles que encontrei por meio de minha trajetória profissional e
que nos tornamos mais do que colegas de trabalho: a Equipe da Creche João de Deus e
comunidade, que vibrou e comemorou cada conquista comigo. Em especial, à Janaina, pela
parceria e amizade, que sempre me incentivou e me fez querer continuar; à Rosangela e Daniel,
que me apoiaram e compreenderam os momentos mais desafiadores de conciliação entre
pesquisar e trabalhar, principalmente em locais em que não temos incentivo e valorização,
situação que requer um certo malabarismo e persistência; e à Alexandra, que me deu todo o
auxílio e incentivo, enquanto coordenadora e amiga, demonstrando que é possível haver
coerência entre sonho e realidade.
Só foi isso que sobrou?
Daniel Melim
Desenho em nanquim sobre papel canson
Formato A4/Ano 2014
RESUMO
ROSA, E. O Conselho Mirim na rede municipal de Santo André (SP): uma política pública
de participação política infantil. 2022. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de
Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.
Crianças pequenas e bem pequenas são por vezes excluídas dos processos democráticos nas
políticas públicas de e para a participação política, o que motivou o estudo apresentado aqui,
sobre o Conselho Mirim, implementado nas creches e escolas do município de Santo André
(SP). A ampliação dos direitos das crianças efetivada pelos documentos nacionais e
internacionais, presente nos estudos da Sociologia da Infância, e a concepção de democracia e
gestão democrática são a fundamentação teórica da pesquisa, que teve como objetivo
compreender como os Conselhos Mirins se constituíram e se tornaram uma política pública de
participação política infantil. Trata-se de um estudo qualitativo, de resgate do processo histórico
de ações e políticas de gestão municipal, relacionadas aos períodos 1989-1992, 1997-2008 e
2013-2016, composto por entrevistas com representantes da administração e análise
documental do que foi divulgado ou publicado, com destaque para o terceiro mandato (2013-
2016), quando o Conselho Mirim se tornou lei municipal. Buscou-se compreender as
concepções de infância, de gestão democrática e de participação política presentes nos três
períodos, assim como trazer projetos nacionais e internacionais de inclusão das crianças na
gestão de cidades, com destaque a Guimarães, em Portugal. Em Santo André (SP), constatou-
se que as ações de participação popular iniciadas no primeiro período deram início às ações que
resultaram na participação política infantil e na construção do Conselho Mirim como uma
política pública para a infância, a partir do reconhecimento das crianças como sujeitos sociais
e de direitos.
ROSA, E. The Child Council in the municipal network of Santo André (SP): a public policy
of children's political participation. 2022. Thesis (Doctorate in Education) Faculty of
Education, University of São Paulo, São Paulo, 2022.
Small and very young children are sometimes excluded from democratic processes in public
policies from and to political participation, which motivated the study presented here, about the
Child Council, implemented in day care centers and schools in the municipality of Santo André
(SP). The expansion of children's rights carried out by national and international documents,
present in the studies of the Sociology of Childhood, and the conception of democracy and
democratic management are the theoretical foundation of the research, which aimed to
understand how the Child Councils were constituted and became a public policy of children's
political participation. This is a qualitative study, rescuing the historical process of actions and
municipal management policies, related to the periods 1989-1992, 1997-2008 and 2013-2016,
composed of interviews with representatives of the administration and documentary analysis of
what was disclosed or published, with emphasis on the third term (2013-2016), when the Child
Council became a municipal law. We sought to understand the conceptions of childhood,
democratic management and political participation present in the three periods, as well as
bringing national and international projects for the inclusion of children in the management of
cities, with emphasis on Guimarães, in Portugal. In Santo André-SP, it was found that popular
participation actions initiated in the first period started the actions that resulted in children's
political participation and in the construction of the Child Council as a public policy for
children, based on the recognition of children as social and rights subjects.
ROSA, E. El Consejo de los Niños en la red municipal de Santo André (SP): una política
pública de participación política de los niños. 2022. Tesis (Doctorado en Educación) Facultad
de Educación, Universidad de São Paulo, São Paulo, 2022.
Los niños pequeños y muy pequeños a veces son excluidos de los procesos democráticos en las
políticas públicas de y para la participación política, lo que motivó el estudio aquí presente
sobre el Consejo de los Niños, implementado en guarderías y escuelas del municipio de Santo
André (SP). La ampliación de los derechos de los niños realizada por los documentos
nacionales e internacionales, presentes en los estudios de la Sociología de la Infancia y la
concepción de democracia y gestión democrática son el sustento teórico de la investigación,
que tuvo como objetivo comprender cómo los Consejos de los Niños fueron constituidos y se
convirtieron en una política pública de participación política infantil. Se trata de un estudio
cualitativo, que rescata el proceso histórico de acciones y políticas de gestión municipal,
relacionado con los períodos 1989-1992, 1997-2008 y 2013-2016, compuesto por entrevistas
con representantes de la administración y análisis documental de lo divulgado o publicado, con
énfasis en el tercer mandato (2013-2016), cuando el Consejo de los Niños se convirtió en ley
municipal. Se buscó la comprensión de las concepciones de infancia, gestión democrática y
participación política presentes en los tres períodos, además de acercar proyectos nacionales e
internacionales para la inclusión de los niños en la gestión de las ciudades, con énfasis para
Guimarães, en Portugal. En Santo André-SP, se constató que las acciones de participación
popular iniciadas en el primer período dieron lugar a acciones que resultaron en la participación
política de los niños y en la construcción del Consejo de los Niños como política pública para
la infancia, a partir del reconocimiento de los niños como sujetos sociales y de derechos.
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 21
HISTÓRIA E MEMÓRIA .................................................................................................... 21
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ............................................................................................. 25
A TESE ................................................................................................................................. 30
1 ESTUDOS DA INFÂNCIA E DIREITOS DAS CRIANÇAS: UMA
FUNDAMENTAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO INFANTIL .................................................. 32
1.1 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA INFÂNCIA: ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES ......... 32
1.1.1 Estudos macrossociais da infância...................................................................... 34
1.2 PARTICIPAÇÃO COMO DIREITO DA INFÂNCIA ................................................... 35
1.3 ESTUDOS SOBRE A PARTICIPAÇÃO INFANTIL .................................................... 46
1.3.1 Hart ....................................................................................................................... 46
1.3.2 Shier....................................................................................................................... 49
1.3.3 Trilla e Novella ..................................................................................................... 53
1.3.4 Lansdown .............................................................................................................. 54
2 DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO: IDEIAS E ESTUDOS SOBRE A
CIDADANIA NA INFÂNCIA ........................................................................................... 58
2.1 DEMOCRACIA COMO PRINCÍPIO ............................................................................. 58
2.2 DEMOCRACIA: ENTRE REPRESENTATIVIDADE E PARTICIPAÇÃO ................ 61
2.2.1 Orçamento Participativo (OP) ............................................................................ 63
2.2.2 Fórum Social Mundial (FSM) ............................................................................. 66
2.3 CIDADANIA INFANTIL E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DAS CRIANÇAS ............ 67
2.4 POLÍTICAS PÚBLICAS DE E PARA A PARTICIPAÇÃO INFANTIL ...................... 71
2.4.1 Cidade das Crianças (Città dei Bambini)............................................................ 75
2.4.2 Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE) .............................. 77
2.4.3 Cidades Amigas das Crianças (Child Friendly Cities Iniciative) ...................... 79
2.5 GESTÃO DEMOCRÁTICA NOS AMBIENTES ESCOLARES E CRECHES ............ 81
3 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA................................................................................ 86
3.1 ESCOLHA DOS PROCEDIMENTOS: ENTREVISTAS .............................................. 87
3.2 ESCOLHA DOS PROCEDIMENTOS: LEVANTAMENTO DOCUMENTAL ........... 88
3.3 ESCOLHA DOS PROCEDIMENTOS: ANÁLISE DE CONTEÚDO ........................... 89
3.4 ESCOLHA DO MUNICÍPIO .......................................................................................... 90
3.4.1 O município de Santo André (SP) e sua rede de educação pública ................. 91
3.4.2 Em busca de documentação sobre os Conselhos Mirins de Santo André (SP) ... 93
3.4.3 As vozes dos sujeitos envolvidos com a implementação e o desenvolvimento
da política de participação infantil em Santo André (SP)................................ 95
3.4.4 Corpus da análise ............................................................................................... 101
4 PERCURSO HISTÓRICO DA PARTICIPAÇÃO INFANTIL EM SANTO
ANDRÉ (SP) ...................................................................................................................... 105
4.1 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA E DE PARTICIPAÇÃO INFANTIL EM TRÊS
PERÍODOS (1989-1992, 1997-2008 E 2013-2016): CONCEPÇÕES,
IMPLICAÇÕES E DESCONTINUIDADES .............................................................. 105
4.1.1 Dificuldade de participação: primeiro período (1989-1992) ......................... 106
4.1.2 Participação como princípio: segundo período (1997-2008) ......................... 111
[Link] A descoberta da participação: de 1997 a 2000 ........................................ 111
[Link] Participação ampliada: de 2001 a 2004 ................................................... 122
[Link] Participação formal: de 2005 a 2008 ....................................................... 133
5 CONSELHO MIRIM: AÇÕES, COMPOSIÇÃO E ABRANGÊNCIA ....................... 135
5.1 COM DIREITOS E PRINCÍPIOS: TERCEIRO PERÍODO (2013-2016) .................... 135
5.1.1 A presença das crianças escolares nas ações públicas de participação ......... 137
5.1.2 A inclusão das crianças matriculadas nas creches no Conselho Mirim ........ 140
5.1.3 Representação infantil ampliada ...................................................................... 143
5.1.4 Qualidade na educação e exercício da cidadania ............................................ 147
5.2 A LEI Nº 9.900/2016 ..................................................................................................... 152
5.2.1 Objetivos e papéis atribuídos ao Conselho Mirim .......................................... 154
5.3 DOCUMENTOS DE AVALIAÇÃO DA GESTÃO 2013-2016................................... 156
6 COMPREENDENDO POLÍTICAS PÚBLICAS DE PARTICIPAÇÃO INFANTIL .. 160
6.1 PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS, SUJEITOS DE DIREITOS .............................. 160
6.1.1 Mudanças de primeira ordem ou de estrutura prática .................................. 165
6.1.2 O Conselho Mirim na creche e a participação de crianças bem pequenas ... 167
6.2 OUTRAS ARENAS DEMOCRÁTICAS DE PARTICIPAÇÃO INFANTIL .............. 172
6.2.1 Guimarães Portugal ........................................................................................ 172
[Link] Carta da Cidadania Infantojuvenil ........................................................... 173
[Link] Orçamento Participativo das Escolas (OPE) ........................................... 177
6.2.2 A participação das crianças como política pública ......................................... 182
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 185
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 192
REFERÊNCIAS CONSULTADAS .................................................................................... 212
APÊNDICE A Quadro dos prefeitos de Santo André do período de 1989 a 2016 ...... 214
APÊNDICE B Roteiro das perguntas para entrevista no Brasil................................... 215
APÊNDICE C Quadro da organização do Núcleo de Gestão Democrática da
Educação ................................................................................................... 216
APÊNDICE D Relação dos documentos analisados por cada gestão/ano .................... 217
APÊNDICE E Modelo utilizado do termo de livre consentimento (entrevistas) ......... 219
APÊNDICE F Modelo utilizado do termo de livre consentimento (documentos) ....... 220
ANEXO A Quadro qualitativo da EMEIEF ................................................................... 221
ANEXO B Quadro qualitativo da creche ........................................................................ 222
ANEXO C Organograma da Secretaria da Educação no período de 2013 a 2016 ...... 223
21
INTRODUÇÃO
HISTÓRIA E MEMÓRIA
permeiam até hoje a minha concepção de mundo social e minhas práticas pedagógicas. Em
2004 e 2005, estagiei em escolas de Educação Infantil na rede municipal de São Bernardo do
Campo (SP), e no Fundamental I2, na rede estadual de São Paulo, e assim pude conhecer três
diferentes realidades do ensino público.
De 2007 a 2009, realizei meu curso de graduação em pedagogia, tendo como objetivo
obter a formação necessária para atuar em gestão e formação de professoras 3. Tive a
oportunidade de estagiar em uma escola pública de Ensino Médio, especificamente em gestão,
em outra escola pública de Educação Infantil e Ensino Fundamental e em uma escola maternal
particular, e pude compreender e analisar algumas diferenças entre o atendimento da rede
pública e da privada, e assim definir que seria na rede pública onde eu gostaria de atuar como
profissional.
Em meu último ano da graduação, assumi como professora substituta de Educação
Infantil por meio de concurso público na prefeitura de São Bernardo do Campo (SP), onde
exerci esta função por quatro anos (2009-2013). No primeiro ano, atuei em uma Escola
1
Práxis para Paulo Freire é a união da teoria com a prática, por meio da ação, reflexão sobre a ação, e novamente
uma ação modificada, ou seja -lo. Sem
ela, é impossível a superação da contradição opressor- .
2
Referente ao ensino do primeiro ao quarto ano.
3
Será utilizada nesta pesquisa a palavra no feminino, visto que se trata de uma classe composta majoritariamente
por mulheres, conforme pesquisa realizada com base nos dados de 2018 pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), a qual demonstra que, do total de 300.136 docentes que atuam
na Educação Infantil especificamente nas creches, 292.801 são mulheres e 7.335 homens. Disponível em:
[Link] Acesso em: 5 nov. 2019.
22
ao turno de ensino regular. Era localizada em um bairro periférico e o curso tinha como objetivo
o desenvolvimento de atividades culturais, artesanais e de promover relações sociais entre os
estudantes. Esta experiência foi enriquecedora e pude vivenciar a importância da relação afetiva
e de respeito às diferentes realidades das crianças no exercício da docência, intensificando
minhas reflexões acerca da importância de uma relação democrática que se inicia na sala de
aula. De 2010 a 2013, ainda no mesmo município, devido à minha função como professora
substituta, atuei em diferentes escolas, trabalhando principalmente com crianças de três e quatro
anos, e tive experiências que me despertaram as primeiras indagações a respeito das práticas
pedagógicas e da gestão escolar, pois havia escolas em que os projetos estavam
predeterminados pela Equipe Gestora, desconsiderando as preferências, necessidades e
vivências das crianças.
Em 2012, assumi como professora, por meio de contrato por tempo determinado no
município de Santo André (SP), desenvolvendo meu trabalho em creche4 e acumulando dois
cargos, sendo um no período matutino (SBC) e outro no período vespertino (Santo André).
Nesta creche em Santo André (SP), havia uma gestão mais democrática e formações
pedagógicas semanais com as professoras, que incentivavam práticas pedagógicas que
partissem do interesse das crianças. No ano seguinte, fui aprovada em concurso público para
professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental em Santo André (SP), e me exonerei do
cargo na prefeitura de São Bernardo do Campo (SP).
Continuei atuando na creche onde já trabalhava anteriormente e, a partir de indagações
sobre diferenças nas práticas pedagógicas, iniciei um processo mais profundo de reflexão sobre
minha prática, que resultou no desenvolvimento de algumas ferramentas democráticas de
atuação com as crianças, que se transformaram em meu objeto de pesquisa para o mestrado.
Em 2014, ingressei no mestrado na Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e realizei
uma pesquisa5 O planejamento democrático e participativo construído com crianças
4
São atendidas nas creches do município de Santo André (SP) crianças de 4 meses a 3 anos e 11 meses.
5
Apresentei a pesquisa no XI Encuentro Internacional de Educación Inicial y Preescolar (Cuba - 2014). Pude
publicar um artigo na Revista UniFreire (ano 2, edição 2, dez 2014) e cinco capítulos em diferentes livros.
Participei da organização do I Congresso Internacional de Práticas Pedagógicas da Educação Básica (CIPPEB
- 2014).
23
pode utilizar para promovê-lo. Além da pesquisa, durante o curso, pude vivenciar uma
experiência que fortaleceu meus princípios em relação às ideias de Paulo Freire, pois o
programa de mestrado do qual fiz parte era coordenado e desenvolvido por pesquisadoras/es 6
que têm uma forte relação com a concepção freireana.
Em relação ao meu desenvolvimento profissional, também em 2014, fui convidada a
assumir como Assistente Pedagógica (AP) em uma outra creche, e tive o primeiro contato com
a proposta dos Conselhos Mirins. Posteriormente, eu o elegi como tema para os estudos de
doutorado, devido ao Conselho Mirim ser um projeto que propõe a participação das crianças na
gestão democrática das creches e escolas, assim como no debate sobre os assuntos referentes
ao bairro e cidade, ao qual as crianças são eleitas por seus pares como representantes.
Como AP, desenvolvi um trabalho de formação junto às professoras nos horários de
Reunião Pedagógica Semanal (RPS)7, debatendo sobre concepções de criança e sua influência
nas práticas pedagógicas, o que tornou possível desenvolver um Conselho Mirim nesta mesma
unidade. Este se tornou um processo interessante e intenso, no qual as crianças participaram de
um encontro com o então Secretário da Educação e conheceram a Câmara Municipal,
acompanhados também por mim.
No mesmo ano, por meio do mestrado, iniciei o contato com os estudos sobre a
Sociologia da Infância, pois me deparei com a necessidade de encontrar subsídios teóricos que
afirmassem as crianças como atores sociais e de direitos. Diante do curto tempo disposto para
a realização do mestrado, e meu tardio conhecimento sobre a área, não foi possível me
aprofundar nos estudos da Sociologia da Infância, que continuei lendo e pesquisando depois da
defesa da dissertação.
Devido ao meu trabalho como Assistente Pedagógica, e minha pesquisa de mestrado,
desenvolvi uma relação mais próxima da equipe do Núcleo de Gestão Democrática do
município de Santo André (SP), que administrava todas as ações relacionadas aos Conselhos
Mirins e, que, depois de ler minha dissertação, ficou interessada na temática dos estudos
teóricos sobre a participação de crianças nas creches.
Esse diálogo com a equipe do Núcleo de Gestão Democrática, me impulsionou a
continuar a buscar elementos teóricos para estudar sobre a participação infantil, e durante esta
busca, comecei a participar do Grupo de Estudos e Pesquisa Sociologia da Infância e Educação
6
Jason Ferreira Mafra, José Eustáquio Romão, Roberta Stangherlim, Adriano Salmar Nogueira, entre outros.
7
RPS são reuniões pedagógicas que têm como função propiciar uma formação continuada em horário de
trabalho, e acontecem semanalmente de maneira regular, compondo a carga horária das professoras e Equipe
Gestora. São realizadas no período noturno, com duração de três horas.
24
Infantil8 (GEPSI) na Universidade de São Paulo (USP), sob a coordenação da Profa. Dra. Maria
Letícia Barros Pedroso Nascimento, e, por meio das leituras, pesquisas, encontros e debates,
pude compreender mais sobre a Sociologia da Infância, principalmente sobre a participação de
crianças.
Partindo desses estudos, iniciei, na creche na qual eu atuava, formações coletivas nas
Reuniões Pedagógicas Semanais (RPS) com as professoras, para constituir um diálogo sobre o
direito de participar das crianças, mas esse trabalho não pôde ser concluído porque, em 2016,
fui convidada a assumir como Diretora de Unidade Escolar (DUE) em uma outra creche.
Como Diretora de Unidade Escolar (DUE), enfrentei alguns obstáculos para
desenvolver os Conselhos Mirins, pois inicialmente apenas uma professora da creche que
dirigia se mostrou interessada. Na ocasião, ela se perguntava sobre a capacidade de participação
das crianças pequenas, da faixa etária atendida na creche, mas, ao final do primeiro semestre,
sua visão se modificou e ela demonstrou grande satisfação em realizar esse tipo de trabalho
Sociedade, tendo como orientadora a Profa. Dra. Emília Vilarinho10. Tive como objetivo, além
de cursar disciplinas, buscar referências bibliográficas em repositórios, biblioteca e revistas,
pesquisar experiências similares de participação infantil. Neste processo, foi possível encontrar
dois projetos semelhantes: a Carta da Cidadania Infantojuvenil do Concelho de Guimarães e o
Orçamento Participativo das Escolas (OPE), que serão abordados na discussão dos Conselhos
Mirins.
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Realizei uma revisão bibliográfica, em 2020, sobre trabalhos que abordam os Conselhos
Mirins e/ou a participação política das crianças bem pequenas nas creches, nas seguintes bases:
Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), Scientific Electronic Library Online (SciELO),
banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e
no periódico Zero-a-Seis, publicado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Educação na
Pequena Infância da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por se tratar de uma
publicação voltada a pesquisas sobre/com crianças pequenas.
Para a busca, foi definido um recorte temporal de cinco anos (2014-2019), a fim de
verificar as publicações mais recentes. Foi definido um descritor e seis conjuntos de descritores
para localizar estudos sobre a participação política das crianças bem pequenas, organizado
conforme descrição no quadro abaixo:
10
Professora Auxiliar do Departamento de Ciências Sociais da Educação, na Universidade do Minho.
26
Na base SciELO, foram selecionados como opções de busca: artigos escritos na língua
portuguesa, autor, resumo, período e título. Foram encontrados os seguintes resultados:
Os trabalhos apresentados como resultados por meio da busca com o conjunto número
6 dos descritores, estavam relacionados à saúde, família e assistência social; e os apresentados
27
11
Infância e Sociologia da Infância: entre a visibilidade e a voz: relatório de pesquisa. Coordenação: Maria
Letícia Barros Nascimento Pedroso, São Paulo: FEUSP, 2013.
28
Neste caso, foram utilizados, além dos descritores, outros critérios para refinamento da
busca: grande área de conhecimento, área de conhecimento, área de avaliação, área de
concentração e nome do programa. Os resultados foram organizados na tabela 4, abaixo:
incluiu a análise do currículo escolar, da estrutura física, dos espaços e do modo de gestão.
Partindo deste item, foi analisada a gestão democrática, que é composta pelo Conselho de
Escola e o Conselho Mirim.
A tese O exercício da cidadania desde a infância como inédito viável: saberes e sabores
da experiência na EMEF Presidente Campos Salles (2018), da autoria de Delma Lucia de
Mesquita, examina a participação das crianças nas decisões da unidade escolar como um
exercício da cidadania. A escola integra a rede pública de São Paulo e atende crianças de 6 a
12 anos, que participam na escola por meio do Conselho d
a autora, possibilitam o exercício de uma participação
política na construção das práticas pedagógicas e do currículo escolar.
A tese de Antonio Luiz da Silva, : Uma etnografia
interpretativa da infância sertaneja que inclui a participação política das crianças de
Catingueira PB (2018), estuda os modos de participação política de crianças a partir de 6 anos
de idade, no Alto da Catingueira, sertão do Nordeste da Paraíba. A pesquisa foi realizada por
meio de uma etnografia reflexiva e participativa, abordando a participação política das crianças
como um direito, e expondo as implicações da relação geracional entre adultos e crianças.
Rúbia Borges, autora da dissertação (Desa)fios da gestão nas instituições de Educação
Infantil: entre concepções e práticas de gestoras (2016), pesquisou sobre a gestão na Educação
Infantil na cidade de Laguna (SC). Investigou dois Centros de Educação Infantil que se
diferenciavam pela idade das crianças atendidas, um recebia crianças de 4 a 6 anos, e o outro,
de 4 meses a 6 anos incompletos. A autora explora a importância da participação das crianças,
e relaciona participação e sua ausência nos discursos narrativos das gestoras participantes do
estudo.
30
Na tese intitulada Notas para uma educação integral: participação das crianças da
região da capoeira dos Dinos (PR) na construção da experiência de mais tempo da escola em
que estudam (2017), Márcia Baiersdorf escolheu como metodologia a observação participante.
A pesquisa teve como objetivo investigar as experiências das crianças de educação integral, e
a participação de crianças e jovens de 6 a 14 anos, por meio dessas experiências, em uma escola
de Ensino Fundamental em Piraquara (PR). A pa
e a autora expõe brevemente os limites desse modo de participar.
O artigo científico Participação infantil e debate democrático: aproximações pelo
campo da Educação Infantil (2017), das autoras Fabiana Oliveira Canavieira e Maria Carmen
Silveira Barbosa, trata de uma pesquisa de doutorado, em andamento à época de sua publicação.
O artigo discute as relações da democracia com a Educação Infantil, a partir das crianças como
protagonistas e a participação como um direito.
Do total de trabalhos selecionados, somente dois trabalhos se referiam às crianças bem
pequenas atendidas nas creches, demonstrando assim que a participação política das crianças e
as políticas públicas destinadas a promover essa participação ainda são um campo a ser
explorado.
A TESE
Esta pesquisa tem como propósito a compreensão dos Conselhos Mirins, como política
pública de participação política infantil. Como objetivos específicos, realizou-se o resgate do
processo histórico de ações e políticas que colaboraram para a instituição dos Conselhos Mirins
nas creches e escolas. Foram analisados os motivos que impulsionaram a gestão de 2013-2016
à construção da Lei municipal nº 9.900, de 9 de dezembro de 2016, transformando o projeto em
uma política pública; e buscou-se verificar as concepções de infância e participação política
infantil que fundamentavam as ações desenvolvidas.
Para o debate sobre as concepções de infância e participação, o Capítulo 1 aborda os
estudos da infância e os direitos das crianças; traz os pressupostos teóricos da Sociologia da
Infância, os estudos macrossociais da infância, o direito da participação e algumas tipologias
de participação infantil.
No Capítulo 2, apresenta-se alguns conceitos de democracia, que também auxiliam na
compreensão da cidadania infantil; aponta-se alguns exemplos de arenas de participação adultas
(Orçamento Participativo OP e Fórum Social Mundial FSM) que relacionam-se com os
Conselhos Mirins, e algumas Políticas Públicas de e para a participação infantil, tais como a
31
Cidade das Crianças (Città dei Bambini), a Associação Internacional das Cidades Educadoras
(AICE) e as Cidades Amigas das Crianças (Child Friendly Cities Iniciative).
O Capítulo 3 aborda os procedimentos da pesquisa, os motivos pela escolha do
munícipio, a metodologia da pesquisa (que se modificou diante da realidade nas primeiras idas
a campo), as entrevistas, análise documental e análise de conteúdo.
No Capítulo 4, inicia-se o resgate do percurso histórico das gestões que investiram nas
ações de e para participação, especificamente de
(1989- -
inspiração para as ações de participação infantil posteriores.
O Conselho Mirim foi instituído como política pública por meio da Lei municipal nº
-
processo é abordado no Capítulo 5.
O Capítulo 6 expõe a compreensão das políticas públicas de participação infantil, a
inclusão das crianças bem pequenas atendidas nas creches no Conselho Mirim, e apresenta as
arenas de participação infantil de Guimarães (Portugal): a Carta da Cidadania InfantoJuvenil e
o Orçamento Participativo das Escolas (OPE).
Por fim, nas Considerações finais, é apresentada uma conclusão da análise do Conselho
Mirim como política pública para a infância, fundamentada na Abordagem do Ciclo de Políticas
apresentada por Mainardes (2006), assim como são apontadas algumas reflexões acerca do
percurso histórico de implementação dos Conselhos Mirins em Santo André (SP), a
participação política infantil e a relação da infância nos contextos macrossociais.
32
Em nosso país não é comum que as crianças sejam vistas como sujeitos sociais e de
direitos, e, por muitas vezes, elas não são valorizadas em seus modos de agir e estar presentes
em diferentes situações cotidianas. Estudos sobre as crianças, sob a concepção dos direitos
sociais, no Brasil, são posteriores à Constituição Federal de 1988 (CF88), à Convenção
Internacional sobre os Direitos da Criança (CDC), ratificada em setembro de 1990, ao Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), de julho de 1990, que legitimam sua participação nos
processos sócio-políticos dos quais fazem parte. O aporte das crianças como cidadãs é uma
construção social, influenciada pela pesquisa sobre a infância, a partir de campos como a
história da infância, a Sociologia da Infância e a antropologia da criança, principalmente, que
se constituíram a partir dos anos 1980 e 1990, no hemisfério norte (QVORTRUP, 1999;
JAMES; JENKS; PROUT, 1998; SARMENTO; PINTO, 1997). Neste capítulo, serão
localizadas algumas mudanças na concepção de infância, tendo como fundamento o campo dos
estudos da infância, para, em seguida, trazer a Convenção Internacional sobre os Direitos da
Criança (CDC), de 1989, e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no Brasil, de 1990,
buscando compreender o estatuto da infância como sujeito de direitos, entre eles, o de
participação. Serão apresentadas ainda as tipologias de participação infantil, de acordo com
autores clássicos.
as crianças das classes sociais mais pobres, ou um aporte teórico que dialogasse com as questões
sociais, e mesmo os aspectos metodológicos que utilizou Heywood12 (2002 apud SARMENTO,
2007). Segundo Sarmento (2007), contudo, esses fatores não anulam a importância da
colaboração dos estudos de Ariès, para uma expressiva mudança no campo dos estudos da
infância.
A Sociologia da Infância, por sua vez, traz-nos a infância como uma construção social
(QVORTRUP, 1999, 2011; JAMES; JENKS; PROUT, 1998; SARMENTO, 1997), apontando
para uma concepção de criança capaz, protagonista e produtora de cultura, e parte do fenômeno
social da infância para compreender a sociedade (SARMENTO, 2009). Essa concepção renova
a maneira como a sociologia clássica concebia a infância, como um período de socialização,
isto é, de preparação para que, no futuro, as crianças se tornassem membros da sociedade. As
crianças eram estudadas e compreendidas por meio de sua incompletude em relação ao adulto.
Essa interpretação prevê mecanismos de ensino de conteúdos, normas e
comportamentos necessários para sua convivência na sociedade. Na modernidade, com a
invenção da vida privada, a família se tornou responsável pelos cuidados com as crianças, e,
aos poucos, a escola foi sendo compreendida como instituição de disciplina e instrução, lugar
da normalização da infância (ARIÈS, 1981; NARODOWSKI, 1994). Nessa perspectiva, pode-
se dizer que, na escola, reconhece-se o surgimento de uma pedagogia essencialmente moral,
preocupada em formar o futuro adulto dentro de padrões específicos, o que caracterizou a
criança como aluno e definiu metas para sua educação (NARODOWSKI, 1998).
De acordo com Sarmento (2004), foi principalmente por meio das instituições públicas
e da ampliação do acesso à escola que ocorreu a institucionalização da infância. O autor
acrescenta um conceito que vai definir as relações entre adultos e crianças na sociedade: a
administração simbólica da infância. Ou seja, há [...] um certo número de normas, atitudes
procedimentais e prescrições nem sempre tomadas expressamente por escrito ou formalizadas,
p. 3), e que indicam o que lhes é permitido, proibido, encorajado, recompensado, punido, e
assim por diante. Cabe lembrar que a hierarquização das idades aponta para uma sociedade-
centrada-no-adulto (ROSEMBERG, 1976), com práticas sociais e pedagógicas coerentes com
esse ponto de vista.
As crianças, entretanto, são parte integrante da sociedade, de acordo com Qvortrup
(2011, p. 207), [...] às
12
HEYWOOD, C. A history of childhood. Cambridge: Polity Press, 2002.
34
sibilidade como
categoria social, contudo, tem sido limitada em razão das relações de poder estabelecidas entre
adultos e crianças, ambivalentes e contraditórias. Sarmento (2000, 2004) indica que, a partir da
segunda modernidade, houve uma reinstitucionalização da infância, a partir de três principais
mudanças: a globalização social, a crise educacional e as mutações do mundo do trabalho. Essas
novas condições alteram o lugar social das crianças no campo econômico, escolar, do mercado
e familiar. Os efeitos dessas mudanças também fazem parte dos estudos da infância.
Em síntese, a infância entendida como categoria na estrutura social e, [...] mais
apropriadamente, como uma categor
(QVORTRUP, 2010a, p. 635), significa que é definida e transformada a partir de elementos
econômicos, políticos, sociais, culturais e tecnológicos, assim como as outras categorias sociais,
com as quais estabelece relações de interdependência. A infância é categoria permanente na
estrut [...] existe enquanto um espaço social para receber qualquer criança
nascida e para incluí-la para o que der e vier
(QVORTRUP, 2010a, p. 637). As crianças vão crescendo e a infância vai sendo preenchida por
novas crianças, movimento que justifica seu caráter permanente.
13
cotidiana. Toman parte, por ejemplo, en juegos, deportes, lecciones, ceremonias religiosas y actividades
artísticas. Sin embargo, en el c
(LANSDOWN, 2005, p. 14).
14
A tradução de todos os textos utilizados na tese é de responsabilidade da pesquisadora.
15
Publicada pela Save the Children Fund International Union, em 26 de setembro de 1924.
16
adecuadas para su buen desarrollo físico y mental, el artículo segundo exige ayuda para los niños que se
37
encuentran en situaciones de vida difíciles. El artículo tres estipula que, en tiempos de emergencia, se debe
ayudar a la infancia antes que a la demás ciudadanía. En artículo cuarto, se exige que se creen las condiciones
necesarias para permitir que los niños puedan ganarse la vida y que se debe protegerlos de cualquier forma de
2006, p. 12)
18
refiere a las necesidades materiales de los niños, sino que también incluye la
necesidad de ser amados y comprendidos. Asimismo, recalca el derecho a la atención pre-y postnatal tanto para
la madre como para el hijo y el derecho a tener un nombre y una nacionalidad. Otro punto a destacar de la
Declaración de 1959 es el principio de la educación gratuita, por lo menos a nivel de la escuela primaria. La
protección de la explotación es complementada por el derecho a ser protegido de toda forma de abandono y
crueldad. De igual manera, por la primera vez, se sugiere la determinación de una edad mínima para la actividad
laboral (LIEBEL, 2006, p. 13).
38
19
Até o momento, 196 países realizaram a ratificação da Convenção sobre os Direitos da Criança. Disponível
em: [Link] Acesso em: 20 nov. 2019.
39
20
de los padres de mandarlos a la escuela, institución que el Estado había creado para la educación de la infancia
que, obviamente, les incul (LIEBEL, 2006, p. 10)
21
HAMMARBERG, T. The UN Convention on the rights of the child and how to make it work. Human Rights
Quarterly, [s. l.], n. 12, p. 97, 1990.
22
O direito a identidade, registro e nacionalidade pode ser considerado como direito à participação
(LANSDOWN, 1994; SOARES, 2005), à proteção (SARMENTO; PINTO, 1997), à provisão (LIEBEL, 2006).
Considerando que são direitos civis, fazem parte do direito de participação, posição assumida nesta pesquisa.
23
24
ARIES, P. Saint-Pierre oder die Süsse des Lebens. Versuche der Erinnerung. Berlin: Verlag Klaus
Wagenbach, 1994.
41
argumento de uma correção para sua formação futura, as crianças são alvos de agressões físicas
de diversos graus. Dessa forma,
A proteção deve manter seu sentido positivo original tendo em vista aquilo
que, de fato, se pretende; e, quando falamos da proteção de crianças, estamos
pensando que elas supostamente se beneficiarão dessa forma de intervenção
em seu nome seja enquanto são crianças e jovens, seja em termos de
oportunidades futuras. (QVORTRUP, 2015, p. 20).
Cabe ressaltar que a proteção deve ser garantida para as crianças, mas não deve anular
a prática dos demais direitos, pois [...] enquanto que é quase universalmente aceite que a
criança deva possuir direitos que promovam e assegurem a sua proteção, o reconhecimento e
aplicação dos seus direitos de participação encontram grandes obstáculos [...] (SOARES,
2005, p. 15). Ou seja, há na CDC a coexistência de duas perspectivas, uma que concebe as
crianças como não capazes, que necessitam de proteção por sua vulnerabilidade, e outra que as
concebe como sujeitos sociais e de direitos (LANSDOWN, 1994).
Nas palavras de Soares (2005), essa contradição fica evidenciada por duas categorias de
discurso: o paternalista, que defende que a criança é incapaz e que somente se tornará alguém
quando tiver uma idade mais avançada e, nesse sentido, considera que há uma
incompatibilidade entre adultos e crianças no exercício de seus poderes, o que resulta na
prevalência da vontade do primeiro grupo, inclusive do ponto de vista das decisões pelas
crianças, na perspectiva de seu melhor interesse; e o emancipador, que defende que as crianças
devem desfrutar de ações nas quais revelem suas competências, podendo participar e fazer
escolhas em situações de diferentes graus.
Liebel (2006) integra a discussão, ao afirmar que o direito à proteção não deve ser
excluído, mas também não deve reduzir as crianças a sujeitos passivos, o que significa que é
preciso despaternalizar o conceito de proteção. A possibilidade de usufruto dos direitos pelas
crianças demanda uma mudança, que vem acontecendo de modo processual e implica em
alteração na concepção tradicional de crianças e infância, visto que,
Com efeito, o que está em causa na controvérsia sobre a natureza dos direitos
das crianças é o juízo sobre a infância como categoria social constituída por
actores sociais de pleno direito, ainda que com características específicas,
considerando a sua idade, ou, ao invés, como destinatários apenas de cuidados
sociais específicos. A primeira concepção implica uma interpretação holística
dos direitos no quadro da qual ao contrário da segunda não apenas é
errôneo, como pode ser perverso, o centramento dos direitos da criança na
proteção e (mesmo) na provisão de meios essenciais de crescimento, sem que
se reconheça às crianças o estatuto de actores sociais e se lhe atribua de facto
o direito à participação social e à partilha da decisão nos seus mundos de vida.
(SARMENTO; PINTO, 1997, p. 14).
42
25
changes in law, policy and practice in both the public and priva (LANSDOWN, 1994, p. 35).
43
criança com deficiência físico e/ou mental, e sua participação social, e o artigo 31, que prevê
participação na vida cultural e artística, complementam a perspectiva da participação.
Cabe lembrar que a CDC foi discutida por representantes de diversos países entre 1981
e 1989, quando foi adotada, e que sua implementação pelos Estados Partes foi/é acompanhada
pelo Comitê dos Direitos da Criança da ONU, que recebe relatórios dos países que a ratificaram,
primeiramente após dois anos de sua efetivação, e posteriormente a cada cinco anos. Esse
Comitê, em 2005, na revisão dos relatórios dos Estados Partes, constatou que, em relação às
crianças pequenas, [...] em muitos casos, muita pouca informação era oferecida sobre a
primeira infância, com comentários limitados principalmente a mortalidade infantil, ao registro
de nascime UN, 2005, p. 1).
Foi publicado, então, o Comentário Geral nº 07, que reconhece que as crianças são
titulares de todos os direitos consagrados na CDC desde o nascimento, considerando que a
primeira infância é um período crítico para a realização desses direitos 26. Esse documento
retoma os artigos e comenta suas implicações para as crianças pequenas; ou seja, a participação
das crianças na primeira infância é reafirmada como um direito, assim como para as demais
crianças, demonstrando que os direitos da CDC deverão ser aplicados sem distinção.
Assim, as crianças devem ter a oportunidade de serem ouvidas em todos os processos
judiciais ou administrativos que a afetem, seja diretamente, seja por intermédio de um
representante ou de um órgão apropriado, em conformidade com as regras processuais da
legislação nacional. As ações e encaminhamentos relacionados à efetivação de seus direitos,
como os de participação, devem atender ao princípio estabelecido no artigo 3º - Todas as
ações relativas à criança, sejam elas levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de
assistência social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem
considerar primordialmente o melhor interesse da criança27 (UNICEF, 1989).
Entretanto, de acordo com o Unicef (2015)28, mesmo após 30 anos da CDC, há muitas
crianças que ainda não se beneficiaram dos direitos e, dentre elas, as mais prejudicadas são as
que vivem em situação de pobreza. Além disso, há novas ameaças à infância, como as mudanças
climáticas, o abuso on-line e o cyberbullying. Estas situações demonstram que, como afirma
26
t young children are holders of all rights enshrined in the
(UN, 2005, p. 1)
27
Há diferentes estudos e documentos da jurisprudência que buscam esclarecer esse princípio. Para Pereira (2000,
p. 3), trata-
realizar-se sempre uma aná
28
UNICEF: crianças pobres do mundo estão sendo deixadas para trás. Disponível em:
[Link] Acesso em: 11
ago. 2020.
44
Liebel (2006), nem todos os países signatários tinham preocupação com as crianças e a infância,
ou seja, alguns visavam investimento financeiro e outros a repercussão positiva que este ato
poderia acarretar para sua nação.
O Unicef29 mantém um monitoramento da implementação da CDC, que recomenda aos
[...] assegurar que toda a
legislação seja totalmente compatível com a Convenção [...], incorporando as disposições na
legislação interna ou assegurando que tenham precedência em casos de conflito com a
legislação nacional ou [...] tornar as crianças visíveis nos processos de desenvolvimento de
políticas em todo o governo, por meio da introdução de avaliações de impacto infantil
[...] envolver a sociedade civil incluindo as próprias
crianças no processo de implementação e conscientização sobre os direitos da criança
Estados Partes tiveram, então, que se adequar para corresponder às exigências impostas pela
ratificação da CDC.
No Brasil, houve um avanço em relação aos direitos das crianças com a CF88, que
marcou o processo de redemocratização do país. Nela, se concebe que as crianças têm direitos,
como se vê no artigo 208 [...] o dever do Estado com a educação será
efetivado mediante a garantia de [...] IV educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças
até 5 (cinco) anos de idade [...] , e no artigo 227, que estabelece que
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao
adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade,
ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão. (EC nº 65/2010). (BRASIL, 1988).
Outros avanços ocorreram no ano seguinte, pois, em 13 de julho, foi aprovado o Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA)30 e, em 24 de setembro de 1990, efetuou-se a ratificação
da CDC, modificando juridicamente as políticas anteriores de cunho corretivo, o que indica que
o país
Reconhece e reitera os dispositivos constitucionais em relação à condição de
sujeitos de direitos das crianças e dos adolescentes, a sua condição peculiar de
desenvolvimento e a necessidade de serem considerados prioridade absoluta
na agenda das políticas públicas. (ANDRADE, 2010, p. 93).
29
Implementando e monitorando a Convenção sobre os Direitos da Criança - Transformando os princípios dos
direitos da criança em ações e resultados para as crianças. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 15 ago. 2020.
30
Tiveram como referência para sua construção os conceitos da Constituição de 1988 e a Convenção sobre os
Direitos da Criança de 1989.
45
Pode-se assinalar, contudo, que o Brasil emitiu seu primeiro relatório ao Comitê dos
Direitos da Criança somente em 2003 (ROSEMBERG; MARIANO, 2010).
As conquistas para as crianças, presentes nos documentos brasileiros, foram alcançadas
por meio das lutas de diferentes movimentos sociais, principalmente a reivindicação das
mulheres pelo direito à creche31. Além do ECA, em 1993, foi sancionada a Lei Orgânica da
Assistência Social (LOAS), que reafirma as crianças como cidadãs, mas tem como preocupação
os direitos de provisão e proteção, em razão da garantia dos direitos de crianças em contextos
de risco. Este documento propõe a erradicação do trabalho infantil para crianças menores de 16
anos32 e tem como objetivo:
Capítulo I - Das Definições e dos Objetivos
Art. 1º A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de
Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada
através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade,
para garantir o atendimento às necessidades básicas. (BRASIL, 1993).
Cabe destacar que, entre a CDC e o ECA, há uma diferença a respeito dos limites da
infância. Enquanto a CDC, no seu artigo 1º, [...] como criança todo ser humano com
menos de 18 anos de idade, salvo quando, em conformidade com a lei aplicável à criança, a
(UNICEF, 1989), o ECA distingue crianças e adolescentes, em
seu artigo Considera-se criança, para todos os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade
(BRASIL, 1990a).
A delimitação da infância é arbitrária, pois a infância é uma construção social, isto é,
tre sociedades, culturas e comunidades, pode variar
no interior da fratria de uma mesma família e varia de acordo com a
estratificação social. Do mesmo modo, varia com a duração histórica e com a
definição institucional da infância dominante em cada época. (SARMENTO;
PINTO, 1997, p. 12).
O ECA estabelece que crianças e adolescentes têm direito a participar, deliberação que,
embora apareça 19 vezes33 dentre os 267 artigos que o compõem, está presente em três deles
no mesmo sentido que a ideia de participação presente na CDC: no artigo 16, sobre o direito à
liberdade; no artigo 53, sobre o direito à educação; e no artigo 100, em relação aos princípios
que fundamentam a aplicação de medidas, isto é, a condição da criança e do adolescente como
sujeitos de direitos e o interesse superior da criança e do adolescente. Como foi dito, entretanto,
[...]
31
Para maior aprofundamento, ver Rosemberg (2008).
32
De acordo com o artigo 60 do ECA, é permitido que crianças, a partir de 14 anos, exerçam o trabalho na
condição de aprendiz.
33
Sete delas referindo-se à participação de adultos e/ou entidades e sua relação com as crianças e adolescentes,
e outras à participação em atos infracionais, em espetáculos, entrada de eventos, entre outros.
46
limites determinados pelas políticas públicas e pelos riscos reais derivados de nós adultos e das
instituições que criamos, ao impingirmos à infância uma posição de subordinação
(ROSEMBERG; MARIANO, 2010, p. 721).
Além da legislação, diferentes estudos se debruçaram sobre a participação das crianças,
muitos deles realizados para esclarecer ou contestar aspectos sociais, políticos ou legais
relacionados, abordados a seguir.
1.3.1 Hart
Considerado, por muitos autores, o pioneiro sobre o tema, Roger Hart34 desenvolveu a
escada da participação, que é contestada em algumas teorias e citada e utilizada em diversas
pesquisas. Para desenvolver sua teoria, partiu de suas observações e vivências e se inspirou na
escada da participação cidadã, voltada para o estudo da participação de pessoas adultas
(ARNSTEIN, 1969).
Para Hart (1993, p. 5), e
35
,
sendo esta o princípio da democracia; ou seja, um país se faz democrático à medida que todos
participam. Afirma que os projetos36 devem oferecer diferentes modos de participação, para
34
Hart é psicólogo ambientalista e desenvolveu um trabalho junto às crianças em situação de rua e/ou crianças
trabalhadoras, por meio do Unicef, analisando projetos em quatro países: Quênia, Índia, Filipinas e Brasil.
35
No or que afectan la vida propia y la vida de la comunidad
(HART, 1993. p. 5).
36
Hart (1992, 1993) menciona o Brasil, ao se referir sobre projetos com crianças em situação de rua, e lembra do
Segundo Congresso Nacional de Crianças de Rua, realizado em 1989, com a participação de 700 crianças, no
qual foram debatidas propostas para o ECA.
47
respeitar as habilidades de todos os sujeitos envolvidos, visto que é a partir da prática que se
alcança a confiança em participar. Também menciona os artigos 12 e 13 da CDC, referindo a
sua importância na garantia da participação como um direito, porém critica a ênfase do
documento em relação à proteção das crianças.
Segundo ele, o grau de participação e as habilidades de participar variam de acordo com
a cultura, vivência familiar e idade, pois a participação infantil reflete a participação adulta da
sociedade. Situa a família como o primeiro agente de socialização da criança, mas não o único,
enfatizando a importância da escola como local de fomento da participação democrática. Diante
disto, provoca a reflexão acerca das diferenças de gênero, de classe social e circunstâncias
especialmente difíceis37, que dificultam a participação infantil.
37
Descrição da Unicef para crianças que possuem uma família que vivencia situações de desastre, pobreza,
conflito armado, ou não têm garantidas as necessidades básicas, e/ou crianças que não possuem família.
(HART, 1992, 1993).
48
A escada da participação de Hart (1992, 1993) é composta por oito degraus, separados
em duas categorias, a não participação (degraus do 1 ao 3) e a participação (degraus do 4 ao 8).
O primeiro grau refere-se à manipulação, que indica o não conhecimento das crianças em
relação aos conteúdos que as levam a participar. Nesse caso, as crianças até podem ser
consultadas, mas são manipuladas por adultos que não creem na sua habilidade e capacidade.
O segundo degrau é o da decoração, no qual as crianças participam de ações também sem
conhecimento ou envolvimento sobre o tema, sendo que esse degrau se diferencia da
manipulação pelo fato de que os adultos não buscam argumentar que as crianças estão
participando. O terceiro degrau, denominado simbolismo/tokenismo38, é normalmente o mais
praticado, e se refere a
[...] casos nos quais aparentemente se oferece às crianças a oportunidade de
expressar-se, mas em realidade têm pouca ou nenhuma incidência sobre o
tema ou sobre o estilo de comunicar e pouca oportunidade, ou nenhuma de
formular suas próprias opiniões. (HART, 1993, p. 11)39.
A partir daí, inicia-se a participação genuína, iniciada do quarto degrau, denominado
como atribuído, mas informado. Neste, o autor considera que, para ser realmente participativo,
deve atender a quatro requisitos, nos quais as crianças: a) têm conhecimento sobre as intenções
do projeto; b) têm conhecimento sobre quem efetuou as decisões e suas razões; c) desenvolvem
um papel significativo; d) participam voluntariamente. O quinto degrau consultados e
informados trata de projetos que são desenvolvidos por adultos, nos quais as crianças possuem
a certeza de que suas opiniões são consideradas com seriedade.
A partir do sexto degrau projetos iniciados por adultos/decisões compartilhadas com
as crianças , Hart (1992, 1993) considera a verdadeira participação, pois entende que neste
nível todas as crianças e demais sujeitos devem ser incluídos em todos os processos. O sétimo
degrau iniciados e dirigidos pelas crianças , segundo o autor, é o mais difícil de ser
desenvolvido, porque os adultos dificilmente respondem às iniciativas das crianças. O último
degrau iniciados por crianças/decisões compartilhadas com adultos é descrito como ações
normalmente iniciadas por jovens e adolescentes, igualmente escassas, devido à indiferença dos
adultos pelos interesses apontados pelos jovens e adolescentes.
38
39
No ori e les da a los niños la oportunidad de expresarse, pero
en realidad tienen poca o ninguna incidencia, sobre el tema o sobre el estilo de comunicarlo y poca oportunidad,
o ninguna, de formular sus propias opi
49
Em relação aos benefícios da participação, Hart (1992, 1993) propõe uma divisão em
duas classes: a que auxilia o desenvolvimento das crianças em sua competência e a segurança
de si mesmo, e a que auxilia a organização e o funcionamento das comunidades.
1.3.2 Shier
40
Originalmente em espanhol: Los caminos hacia la participación (SHIER, 2001).
41
Fonte: Baseada nos estudos de Hart (1992, 1993) e Shier (2001), elaborada pela pesquisadora.
Colocar as duas propostas lado a lado revela que Shier (2001) não utiliza em seu modelo
os degraus de não participação utilizados por Hart (1992, 1993). O próprio Shier (2001, p. 110)
argumenta que é [...] muitos profissionais têm
encontrado que isto é o mais útil do modelo de Hart: ajudar a reconhecer e trabalhar para
43
eliminar estes tipos de não participação em nossa própria prática. .
42
44
sí pueden involucrarse en un proceso de toma de decisiones, pero
45
tunidades
para tomar decisiones independientemente, esto no cabe dentro de este modelo, ya que el modelo identifica
2001, p. 116).
53
Jaume Trilla e Ana Novella (2001), a partir da escada de Hart e de reflexões acerca do
conceito de participação,
LLA; NOVELLA, 2001, p. 143)46. Para esses pesquisadores, há quatro
tipos amplos de participação, os quais possuem subdivisões ou variações internas: a participação
simples, na qual as crianças respondem apenas a estímulos e não interferem em nenhum momento
do projeto ou ação; a participação consultiva, que escuta as opiniões das crianças, que pode
ocorrer por meio do uso de questionários, sem que haja compromisso em considerar suas
respostas para a tomada de decisão, ou por um processo de participação consultiva vinculante, no
qual as opiniões terão impacto nas decisões; a participação projetiva, que requer o envolvimento
da criança como agente, ou seja, é preciso que ela se perceba como integrante do projeto e capaz
de intervir; e a metaparticipação, que envolve situações em que as crianças lutam e exigem seus
direitos de serem ouvidas e participar, sendo a participação o objetivo em si.
46
No origina
NOVELLA, 2001, p. 143).
54
Como se vê, há nesta tipologia quatro critérios ou fatores moduladores da participação, que
podem ocorrer em diferentes graus nos tipos de participação expostos acima: implicação, que
corresponde ao grau de relação das crianças com os assuntos bordados; informação/consciência,
que refere o sentido e finalidade do projeto; capacidade de decisão, condições psicológicas,
contextuais, políticas, legais, entre outras; compromisso/responsabilidade, que implica presumir as
consequências da participação. Além desses critérios, os autores definem três condições para a
efetivação da participação: a primeira, o próprio direito da infância à participação, seguida da
capacidade de participar e, ainda, ter espaços para a participação.
Em relação aos modelos anteriores, verifica-se que sua novidade está no debate sobre
os critérios e as condições para a participação e, diferentemente de Hart (1992, 1993), não há a
indicação de tipos de não participação. Entretanto, para Trilla e Novella (2001, p. 145)
qualquer um dos quatro tipos de participação pode ocorrer de forma pervertida ou fraudulenta:
47
.
1.3.4 Lansdown
47
A categoria participação consultiva é iniciada por adultos para obter informações das
crianças, a fim de levá-las em consideração para formulação de serviços, políticas, por exemplo,
tanto locais quanto internacionais. Para a autora, esse nível de participação não gera
transformações estruturais na relação entre os adultos e as crianças, mas possui relevância ao
envolver o reconhecimento das informações vindas das crianças. A participação colaborativa,
por sua vez, ainda que iniciada por adultos, propõe maior envolvimento das crianças em uma
colaboração ativa, permitindo negociações e compartilhamento de poder, que normalmente são
iniciados como processos de consulta. A participação liderada por crianças, ou
autorreivindicação, é o processo no qual as crianças iniciam as ações e definem seus objetivos,
e os adultos atuam em colaboração e como facilitadores dos processos.
Diferentemente da escada de Hart (1992, 1993), Lansdown não indica graus de não
participação, além de ressaltar a importância do adulto, seja como iniciador do processo, ou
como facilitador, o que nos remete à tipologia de Shier, reformulada em 2009. Nessa nova
versão, considera que a Participação é maior, mais ampla, mais variada e mais complexa do
226)48 e explica que seu modelo inicial
[...] e outros modelos parecidos são inadequados para conceituar a realidade
complexa e multidimensional da participação de crianças e adolescentes na
sociedade, já que devem explicar todos os diferentes âmbitos desde o lar
familiar até as instituições nacionais e internacionais, e dentro destes âmbitos,
níveis e modalidades de incidência tão únicos e diversos como as crianças e
adolescentes (SHIER, 2009 apud SHIER, 2010a, p. 25)49.
A partir dessas reflexões, o autor desenvolve uma nova versão da teoria da participação
infantil (SHIER, 2010b), que indica dois enfoques-chave: o primeiro, fundamentado nos
direitos humanos, vê a participação como um direito; o segundo é sustentado pelo
desenvolvimento humano e pela avaliação das capacidades das crianças. A teoria revista tem o
seguinte desenho:
48
Fonte: Adaptação da ,
de Shier (2010b), feita pela pesquisadora.
50
No frameworks for evaluating participation, pilot these frameworks,
57
Além disso, para que a participação das crianças seja sustentada, replicada,
com recursos e institucionalizada nas comunidades mais amplas em que as
crianças vivem, é necessário começar a construir métodos de medição do que
está sendo feito e como isso está impactando na vida das crianças.
(LANSDOWN, 2004, p. 36)51.
Sua proposta envolve três segmentos, provocados a partir de questões. Para responder o
que está sendo feito?, cabe levantar o escopo, isto é, analisar o envolvimento das crianças nos
diferentes estágios do programa, planejamento, implementação e avaliação. Em todos os
estágios, as crianças podem participar por meio dos três níveis/categorias participação
consultiva, participação colaborativa, participação liderada por crianças indicados pela autora
(LANSDOWN, 2003, 2009). A resposta à questão como está sendo feito? corresponde ao
aspecto qualidade; ou seja, analisar se as ações estão atingindo padrões de qualidade, como
abordagem ética, inclusão, ambiente adequado para as crianças, ambiente seguro para as
crianças, participação voluntária, equipe formada, comprometida e sensível, busca de vínculos
com as famílias, profissionais e comunidade. Por que está sendo feito? é uma questão que avalia
o impacto, portanto, sua resposta demanda saber como as ações estão impactando as diferentes
áreas crianças; pais e outros membros da família; a equipe do programa; a comunidade;
iniciativas do programa e outras instituições; direitos das crianças , o que significa acompanhar
a participação de todos os sujeitos envolvidos nas ações.
As diferentes tipologias, juntamente com os critérios de avaliação, auxiliam-nos na
compreensão sobre a participação infantil e nas diversas maneiras de promovê-la com
qualidade, respeitando os direitos das crianças e promovendo um ambiente democrático.
O próximo capítulo vai apresentar uma discussão sobre democracia e buscar localizar a
participação das crianças numa perspectiva democrática, que respeita a cidadania de todos e
todas.
51
ted, resourced and
institutionalized into the wider communities in which children live, it is necessary to begin to construct methods
(LANSDOWN, 2004, p. 36).
58
A democracia não se esgota em um conceito singular, mas pode ser conceituada por
meio de definições que perpassam a ciência política, sociologia, filosofia, entre outros campos,
o que resulta em um conceit [...] entendemos
Nas sociedades capitalistas, o que impera nas relações são os princípios de mercado, tais
como competitividade, lucro e acumulação, independentemente de suas consequências, como,
por exemplo, a ultraexploração do meio ambiente, de modo que as reivindicações e as
necessidades da população não estão em prioridade, impulsionando o individualismo. Outro
fator agregado ao sistema capitalista na modernidade é a globalização 52, e Wood (2003) nos
lembra que, seja no âmbito local ou global, o capitalismo continua a ter o mercado como pilar
de suas ações. O Estado possui uma grande importância nestes sistemas, pois é
conjunto de instituições que compõem ou exercem o poder político numa sociedade
, p. 1). Na compreensão clássica liberal,
estabelece-se em três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo) que, uma vez
implementados no capitalismo, podem responder aos interesses das classes economicamente
dominantes.
O Estado pode ser utilizado para promoção de direitos e bem-estar social ou para
contenção de lutas sociais, manifestações e reivindicações de diversas maneiras. Por esses e
[...] toda a crítica ao capitalismo é urgente e necessária (WOOD, 2006, p.
14). Os direitos conquistados até o momento são resultantes das diversas lutas sociais que
tiveram longos percursos até a sua aprovação, o que consiste em conquistas, ainda que não
implementadas em sua totalidade, seja em acesso ou qualidade.
Para Chauí (2012), é preciso compreender que os direitos são mais do que uma mera
regulação jurídica formal, e que diferem de uma carência ou de um interesse, particular e
específico, uma vez que devem responder às necessidades da população, gerais e universais.
Nessa linha, acrescenta que é na ampliação do sentido de todos os direitos, os econômicos, os
sociais, os culturais, que formam a cidadania, que ocorre a democracia social, opondo-se à
limitação posta nos direitos civis. No sistema capitalista, a democracia sofre com variadas
limitações, dentre as quais pode-se destacar a institucionalização dos direitos, que durante
muitos anos excluiu uma grande parcela da população, como, por exemplo, as mulheres e os
[...] uma forma de igualdade civil coexistente com a desigualdade
52
A forma política da globalização não é um Estado internacional, mas sim um sistema de vários Estados
nacionais; de fato, considero que a essência da globalização é uma crescente contradição entre o alcance global
do poder econômico capitalista e o muito mais limitado alcance dos Estados territoriais que o capitalismo
60
direitos dos grupos sociais e do monopólio de informação 53; d) autoritarismo interiorizado nas
Esta atuação política pode acontecer dentro ou fora do Estado, isto é, a participação
política ativa requer uma participação em todas as arenas sociais, fazendo-se valer das
oportunidades dispostas e provocar novas. Wood (2009, p. 10) considera:
O que significa afirmar nossa autonomia não apenas em relação ao poder do
Estado, mas também contra o poder do capital? Significa trazer a democracia
não apenas para o local de trabalho, mas também para todas as esferas da vida,
onde agora é excluída pelos imperativos do mercado. Significa desafiar o
poder do mercado.54
A participação política e democrática pode ocorrer de diversos modos, que implicam
em um grau de maior ou menor envolvimento por parte da população e do Estado, o que
possibilita o diálogo entre estes, e a própria ampliação da democracia.
53
O desenvolvimento da tecnologia acrescentou as mídias digitais sociais e os aplicativos de mensagens que
desempenham um papel importante na formação de opiniões na atualidade.
54
power of capital? It means bringing democracy not just to the workplace but also to all spheres of life where
10).
62
essencialmente participante da esfera pública e criador de novos direitos para abrir espaços de
55
Práxis, para Freire (1987), é reflexão sobre a ação para agir novamente.
64
56
Capítulo IV Dos Direitos Políticos: Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo
voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: (ECR no 4/94 e EC no 16/97)
I plebiscito; II referendo; III iniciativa popular; assim como nos artigos 29, 204 e 227 (BRASIL, 1988).
57
Conjunto de normas que disciplina as regras de funcionamento da administração pública e dos poderes
municipais.
65
O Fórum Social Mundial foi constituído em 2001, na cidade de Porto Alegre (RS) e,
devido ao seu caráter de disseminação de ideias, exerceu influência nas ações de outros
municípios. Para Santos (2010, p. 415), o FSM é um fenômeno político, e [...] constitui uma
das mais consistentes manifestações de uma sociedade civil global contra hegemônica e
subalterna em vias de surgimento
de Princípios do Fórum
Social Mundial58
O Comitê de entidades brasileiras que idealizou e organizou o primeiro Fórum
Social Mundial, realizado em Porto Alegre de 25 a 30 de janeiro de 2001,
considera necessário e legítimo, após avaliar os resultados desse Fórum e as
expectativas que criou, estabelecer uma Carta de Princípios que oriente a
continuidade dessa iniciativa. (FSM, 2001, p. 1).
A carta é composta por catorze princípios: o FSM é um espaço aberto e democrático,
que se opõe ao neoliberalismo; é um processo permanente de procura pela construção de
alte os encontros têm dimensão
internacional; contrapõe-se à globalização pelas corporações multinacionais de interesses
próprios; não é uma instância representativa da sociedade civil; não possui caráter deliberativo;
o FSM se compromete a divulgar as decisões deliberadas pelas entidades integrantes; é um
espaço plural e diversificado, não partidário, não convencional e não governamental; é um
espaço plural e diversificado para todos que respeitem a Carta de Princípios, e está vedada a
participação de militares e partidos políticos; defende os Direitos Humanos e a democracia
verdadeira e participativa, opõe-se ao uso da violência como controle social do Estado e a visão
simplista da economia, do desenvolvimento e da história; estimula a reflexão e sua divulgação;
é um espaço para a troca de conhecimento; é espaço de articulação e fortalecimento nacional e
58
Aprovada e adotada em São Paulo, em 9 de abril de 2001, pelas entidades que constituem o Comitê de
Organização do Fórum Social Mundial, aprovada com modificações pelo Conselho Internacional do Fórum
Social Mundial no dia 10 de junho de 2001. (FSM, 2001, p. 3).
67
encaminhamentos para ultrapassar os limites impostos por discursos e teorias que enquadram
as crianças como incapazes.
Em texto de 1997, Sarmento faz referência à concepção clássica de cidadania que, para
Marshall (1967), seria composta por três elementos: cidadania civil, cidadania política e
cidadania social, elementos esses que possuem uma dependência recíproca. A primeira se refere
aos direitos individuais; a segunda, ao direito de participar como integrante ou eleitor de
instituições de poder; a terceira, ao direito a um bem-estar mínimo econômico e social. Nas
palavras de Sarmento (2012, p. 1),
Em todo o caso, esta conceção clássica da cidadania não permite incluir
plenamente a criança na condição cidadã, não apenas porque não lhe são
reconhecidos direitos políticos expressos, mas também porque, no domínio
dos direitos civis e sociais, a criança é, sobretudo, tematizada não como titular
direta, mas antes como beneficiária de direitos tutelados pelos pais ou por
quem junto dela exerce o poder paternal.
O pesquisador argumenta que o conceito de cidadania infantil pode ser compreendido
pelas vias legais, isto é, a partir dos documentos que marcam uma nova concepção sobre as
crianças como sujeito de direitos e cidadãs, embora estes não alcancem as discussões mais
profundas sobre a importância da participação influente que a cidadania infantil requer. Pode
também ser fruto dos movimentos dos direitos das crianças, que consideram a voz e a
participação infantis como renovação política e social, além de poder figurar a partir de uma
concepção alargada de cidadania que inclua todos os sujeitos da sociedade. Neste último caso,
o pesquisador acrescenta que [...] salvaguarda do triplo princípio: assunção coletiva de uma
ética de respeito pela diferença individual e social; proteção adequada à inclusão social;
MENTO,
2012, p. 2).
Nota-se, nessa argumentação, tanto o debate sobre a tensão entre proteção e participação
quanto o enfoque nas crianças como cidadãs no futuro, ou seja, em processo de aprendizagem
para exercer sua cidadania quando adultas. Cabe trazer aqui uma terceira e significativa
observação, a partir da individualização dos sujeitos, presente nos Estados liberais, formulada
precisam decidir se as crianças são os sujeitos passivos da economia política, das classes e das
59
estruturas familiares ou se as crianças devem receber direitos políticos e autonomia moral .
59
-ambivalence is experienced collectively in class, race and
gender relations. Even today, liberal state and liberal moral theorists have still to decide whether children are
the passive subjects of political economy, class and family structures or whether children should be given
political rights and moral . 241).
69
A cidadania infantil tem sido objeto de defesa de diferentes estudiosos da infância, como
Gaitán e Liebel (2011), que consideram que, em relação às crianças, pode-se conceber a
cidadania como prática que ocorre por meio das experiências vividas; a cidadania desde baixo,
que acontece na prática cotidiana; e a cidadania centrada na diferença, que, pautada na crítica
ao conceito de cidadania universal pelos movimentos feministas, pode referir-se à inclusão das
crianças como cidadãs.
Retomando Sarmento (2012), uma concepção alargada de cidadania pode acontecer nas
instituições frequentadas pelas crianças, por meio da escuta das vozes das crianças e do
reconhecimento das suas culturas, incluindo seus diversos modos de manifestação e expressão.
Pode acontecer, ainda, amparada pela aceitação e respeito no âmbito familiar, como enunciada
por Plummer (2004). Nessa linha, as escolas e outros locais destinados às crianças se tornam
uma arena importante na sua vida social, ao mesmo tempo que se rompe com a descrença na
capacidade das crianças e se retoma a importância da família na colaboração do exercício de
sua cidadania e desenvolvimento. Em texto de 2014, Sarmento acrescenta que a cidadania
infantil demanda estruturas capazes de incluir todas as crianças, com a escuta de suas vozes, o
respeito a seus interesses e a oferta de diferentes modos de participação das crianças, que
contemplem seus modos de expressão, e que sua voz seja escutada no direito de participar das
decisões. Desse modo, o conceito renovado de cidadania, capaz de incluir a infância, está
pautado em cinco possibilidades: a cidadania social, a cidadania participativa, a cidadania
orgânica ou institucional, a cidadania cognitiva e a cidadania íntima (SARMENTO, 2012,
2014). Nessa perspectiva renovada, é requerida a participação das crianças, isto é,
A participação apresenta-se, então, como condição absoluta para tornar
efectivo o discurso que promove direitos para a infância e, portanto, a
promoção dos direitos de participação, nas suas várias dimensões política,
econômica e simbólica assume-se como um imperativo da cidadania da
infância (SARMENTO; SOARES; TOMÁS, 2004, p. 1).
Também Gaitán (2018) aponta a participação como condição para a cidadania. Segundo
ela, as crianças podem participar nas escolas, a partir de pedagogias participativas, nas
interações sociais intergeracionais, por meio das culturas de pares, e nas ações cotidianas e
relações sociais, inclusive na convivência familiar. Podem também exercer participação
política, por meio de práticas de cidadania, que, ainda que não consideradas oficiais, estão
presentes de fato nas vidas das crianças. Verifica-se, entretanto, que a participação política das
crianças é frequentemente prejudicada, pois requer a oferta de estruturas sociais para sua
realização, acrescida da concepção de que as crianças são capazes de participar e influenciar
nas decisões políticas da sociedade em que estão inseridas, principalmente em nível local.
70
30)60.
Um outro discurso que exclui a infância como cidadã, complementar à concepção de
infância menorizada, é o fato de que crianças não têm direito de votar nem de serem votadas
nos pleitos para a escolha de representantes políticos, uma vez que, nos moldes da democracia
[...] a atribuição do direito de ser eleito e de eleger corresponde a uma das condições
normalmente associadas à construção das sociedades democráticas na modernidade e é
fundante da própria noção ocidental de cidadania (SARMENTO, 2012, p. 45).
De maneira geral, o direito ao voto é assegurado aos jovens a partir dos 18 anos, embora
essa idade possa ser antecipada, como no Brasil. A definição de uma determinada idade para o
casamento, para o trabalho, para viajar ou para dirigir carros é arbitrária, assim como para o
voto e, nesse sentido, Qvortrup (2010c, p. 781) pondera que Não é difícil encontrar pessoas
abaixo dessa idade que têm essa competência, como é bem possível encontrar muitas outras
, questionando o uso da idade como
critério.
Bons exemplos da atuação dos menores de 18 anos na política são encontrados na
atuação de Malala Yousafzai que, desde 2009, aos doze anos de idade, luta pelos direitos das
mulheres no Paquistão, ou Greta Thunberg, da Suécia, que, desde 2018, com 15 anos de idade,
tem atuado nas questões climáticas, demonstrando preocupação com o avanço da destruição do
planeta. Recorda-se, também, a
estudantes secundaristas se transformaram em um importante ator social na sociedade chilena,
ou os movimentos estudantis de 2016, no Brasil, quando jovens de 15 a 17 anos protestaram
contra as ações do governo do estado de São Paulo e reivindicaram maiores investimentos na
Educação, assim como no Rio de Janeiro e em outros estados brasileiros. Cabe apontar ainda a
60
71
participação política das crianças em movimentos sociais na América Latina, tais como os Sem
Terrinha61 e o Movimento de Niños Trabajadores (NAT)62.
Outra dimensão da participação política infantil está relacionada à especificidade com
as crianças da primeiríssima infância, os bebês e as crianças pequenas, que exigem uma
ressignificação dos modelos de participação clássica, contemplando as múltiplas linguagens.
Nesse sentido, a escola, instituição social cada vez mais presente na vida das crianças, constitui
importante arena para promoção da participação, assim como programas e projetos na cidade,
no âmbito local, o que demanda transformações em todas as dimensões, o que significa dizer
que
Para discutirmos as relações das políticas públicas com a participação infantil, faz-se
necessário compreender o que significa política pública. Souza (2016) explica que a disciplina
surgiu vinculada aos estudos sobre o Estado e o governo, nos Estados Unidos; na Europa, estava
vinculada diretamente aos estudos de governo. Em ambas as situações, os estudos derivam das
ciências políticas, constituindo uma subárea; [...] um ramo da ciência política para
entender como e (SOUZA, 2016, p. 22).
61
Ver [Link] Acesso em: 2 out. 2021.
Consultar ROSSETO (2016), CARVALHO; SILVA (2013), e GOBBI; FINCO (2013).
62
Ver [Link] Acesso em: 2 out. 2021.
63
requiere adaptaciones institucionales en las formas de diseñar y aplicar las políticas, así como también (y quizá
primero y más urgente) cambios en las mentalidades compartidas socialmente y emanadas desde la posición
(GAITÁN, 2018, p. 33).
64
e levels of
NESS, 2013, p. 438).
72
65
overview of the issues. Journal of Curriculum Studies, London, v. 24, n. 2, p. 97-115, 1992.
73
Ainda que se trate de teoria bastante complexa66, numa proposta de síntese, pode-se
dizer que o ciclo de políticas é contínuo e composto por contextos inter-relacionados, a saber:
o contexto de influência, no qual ocorrem disputas por influências para definição social; a
atuação das redes sociais políticas, influência global e internacional; o contexto da produção de
texto, que representa a política, a ser interpretada de acordo com o tempo e local de sua
produção; o contexto da prática, que, como indica o nome, refere a apreciação dos sujeitos que
a colocam em prática. Segundo Mainardes (2006, p. 50), -
relacionados, não têm uma dimensão temporal ou sequencial e não são etapas lineares. Cada
um desses contextos apresenta arenas, lugares e grupos de interesse e cada um deles envolve
.
Em 1994, Ball67 acrescenta mais dois contextos. O primeiro deles é o contexto dos
resultados ou efeitos, que
[...] preocupa-se com questões de justiça, igualdade e liberdade individual. A
ideia de que as políticas têm efeitos, em vez de simplesmente resultados, é
considerada mais apropriada. Nesse contexto, as políticas deveriam ser
analisadas em termos do seu impacto e das interações com desigualdades
existentes (MAINARDES, 2006, p. 54).
O segundo contexto apontado por Ball (1994)68 é o de estratégia política, [...]
envolve a identificação de um conjunto de atividades sociais e políticas que seriam necessárias
66
Ver Ball e Bowe (1992), Ball (1993, 1994).
67
BALL, S. J. Educational reform: a critical and post-structural approach. Buckingham: Open University Press,
1994.
68
Ibidem.
69
Entre outras, altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente.
74
março de 2016, que apresentou o objetivo de estabelecer diretrizes e princípios para elaboração
e implementação de políticas públicas destinadas para crianças até seis anos completos, e afirma
o dever do Estado na implementação de programas, planos e políticas que assegurem seu
desenvolvimento integral.
Esta lei apresenta considerações para além do âmbito do bem-estar, em direção à
participação das crianças, nas dimensões política e cidadã, como é possível verificar no artigo
a seguir:
Art. 4º As políticas públicas voltadas ao atendimento dos direitos da criança
na primeira infância serão elaboradas e executadas de forma a:
I - atender ao interesse superior da criança e à sua condição de sujeito de
direitos e de cidadã;
II - incluir a participação da criança na definição das ações que lhe digam
respeito, em conformidade com suas características etárias e de
desenvolvimento;
III - respeitar a individualidade e os ritmos de desenvolvimento das crianças e
valorizar a diversidade da infância brasileira, assim como as diferenças entre
as crianças em seus contextos sociais e culturais;
IV - reduzir as desigualdades no acesso aos bens e serviços que atendam aos
direitos da criança na primeira infância, priorizando o investimento público
na promoção da justiça social, da equidade e da inclusão sem discriminação
da criança;
V - articular as dimensões ética, humanista e política da criança cidadã com
as evidências científicas e a prática profissional no atendimento da primeira
infância;
VI - adotar abordagem participativa, envolvendo a sociedade, por meio de
suas organizações representativas, os profissionais, os pais e as crianças, no
aprimoramento da qualidade das ações e na garantia da oferta dos serviços;
Parágrafo único. A participação da criança na formulação das políticas e das
ações que lhe dizem respeito tem o objetivo de promover sua inclusão social
como cidadã e dar-se-á de acordo com a especificidade de sua idade, devendo
ser realizada por profissionais qualificados em processos de escuta adequados
às diferentes formas de expressão infantil. (BRASIL, 2016).
A lei também propõe a construção de conselhos intersetoriais que garantam a articulação
entre setores para a proteção das crianças e garantia dos seus direitos, e determina que
Art. 9º As políticas para a primeira infância serão articuladas com as
instituições de formação profissional, visando à adequação dos cursos às
características e necessidades das crianças e à formação de profissionais
qualificados, para possibilitar a expansão com qualidade dos diversos serviços
(BRASIL, 2016).
O documento reforça a concepção de crianças como sujeitos de direitos e a expande
para o âmbito das políticas públicas, com ênfase na participação das crianças, lembrando que
suas vozes devem ser não apenas ouvidas, mas levadas em consideração. A construção de
políticas públicas e sua implementação, mesmo que não destinada diretamente às crianças,
exerce impacto em suas vidas.
75
As ideias discutidas até aqui permitem pensar as políticas públicas para a infância em
duas linhas: as políticas públicas políticas públicas
icam à garantia da participação infantil em uma arena
específica, como, por exemplo, os conselhos infantis, as assembleias de crianças, os comitês e
70
Pedagogo, pesquisador e cartunista italiano. O livro Città dei Bambini foi traduzido do original em italiano
para o português em 2019.
76
71
O município instituiu o Conselho das Crianças por meio do Decreto municipal nº 27.780, de 15 de outubro de
2018, composto por 24 crianças, designadas por meio de sorteio. Disponível em:
[Link] Acesso em: 5 jul. 2022.
77
72
A Carta baseia-se na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948); na Convenção Internacional sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965); no Pacto Internacional sobre os
Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966); na Convenção sobre os Direitos da Criança (1989); na
Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1990); na 4ª Conferência Mundial sobre a Mulher celebrada
em Pequim (1995); na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (2001); na Carta Mundial pela
Direito à Cidade (2005); na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006); no Acordo de
Paris sobre o Clima (2015) e na Agenda 2030 sobre o Desenvolvimento Sustentável (2015). Disponível em:
[Link] Acesso em: 13 jul. 2022.
73
Para se tornar uma cidade associada, a decisão deve ser aprovada pela Câmara de Vereadores do município e,
aprovada, pagar uma quota anual que tem um valor diferenciado de acordo com a número de habitantes e o
produto nacional bruto per capita. Para a submissão do pedido de associação, devem ser encaminhados
formulários e a adesão à Carta, com a ciência do Presidente da Câmara e a anuência do órgão municipal
competente. A ratificação final da solicitação compete à Assembleia Geral.
78
74
Consulta realizada no dia 31 de março de 2022. Disponível em: [Link]
associadas/. Acesso em: 13 jun. 2022.
75
Associado à AICE desde 2006 (Lei nº 8.878, de 20 de setembro de 2006).
76
Endereço do website: [Link] Acesso em: 13 jun. 2022.
79
(FEFISA), que ofereceu à população usuária dos parques municipais orientação e assistência
Projeto Música na Escola
desenvolvido, num primeiro momento, nos Centros Educacionais de Santo André (CESA)77,
destinado a crianças de seis a onze anos de idade matriculadas regularmente na rede pública
municipal. O município permanece integrando a AICE e, em 2021, comemorou o dia da Cidade
Educadora, em parceria com a equipe do CESA.
O Programa Cidades Amigas das Crianças78 é uma iniciativa liderada pelo Unicef, que
apoia os governos municipais na realização dos direitos das crianças em nível local, usando a
CDC como base, a partir de parceria entre o município e organizações da sociedade civil, setor
privado, academia, mídia e outros interessados. Foi lançado em 1996, pelo Unicef e ONU-
Habitat, para promover ações concordes à resolução aprovada na segunda Conferência das
Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Habitat II), com o objetivo de tornar as cidades
lugares habitáveis para todos. De acordo com publicação do Unicef (2018, p. 10)79, uma cidade
amiga das crianças
É uma cidade ou comunidade onde as vozes, necessidades, prioridades e
direitos das crianças são parte integrante das políticas públicas, programas
e decisões. Assim, uma cidade amiga da criança é uma cidade digna de
todos.
As cr [...] expressar suas opiniões e
influenciar as decisões que os afetam; participar da vida familiar, cultural, da
cidade/comunidade e social, encontrar amigos e ter lugares para brincar e se divertir .
(UNICEF, 2018, p. 10)80.
De acordo com a CDC, a cidade deve desenvolver suas ações com base na não
discriminação (artigo 2º), no interesse superior da criança (artigo 3º), no direito inerente à vida,
à sobrevivência e ao desenvolvimento (artigo 6º), no respeito pelas opiniões da criança (artigo
77
Complexo Educativo composto por Creche, Escolas Municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental
(EMEIEF), Biblioteca e Centro Comunitário, localizados nas regiões periféricas. Dispõe de uma estrutura
diversificada com piscinas e quadras esportivas para a oferta de cursos e vivências esportivas e artísticas.
78
Disponível em: [Link] Acesso em: 13 jun.
2022.
79
or community where the voices, needs, priorities and rights of children are an integral
part of public policies, programs and decisions. Thus, a child-
2018, p. 10).
80
ions and influence decisions that affect them; participate in family, cultural,
city/community and social li (UNICEF, 2018,
p. 10).
80
12). Cabe destacar que há uma sequência de passos, desde a submissão da proposta, que prevê
a indicação de metas e objetivos, dos processos de avaliação e acompanhamento, dos direitos e
deveres, após o reconhecimento do Unicef, e o compromisso em sair do programa caso seja
constatada negligência em relação aos direitos das crianças ou danos à reputação do Unicef.
Em seguida, deve ser elaborado um plano de ação para implementar e monitorar o andamento
da proposta, para que seja reconhecida, com duração máxima de cinco anos, renovável. A
renovação demanda resultados comprovados na ampliação dos direitos das crianças, sua
participação efetiva e políticas e ações empenhadas na extinção da discriminação contra as
crianças.
Pode-se ressaltar que a definição de metas e resultados a serem alcançados e de
estratégias devem seguir o que o Unicef denomina blocos de construção, elaborados em 2004:
participação das crianças; estrutura legal amiga das crianças; estratégia de direitos das crianças
em toda a cidade; unidade de direitos das crianças ou mecanismo de coordenação;
acompanhamento e avaliação dos impactos para as crianças; orçamento próprio; relatórios
regulares sobre a situação das crianças na cidade; divulgação dos direitos das crianças; e
advocacia independente para crianças. Documentos, recursos e ferramentas para auxiliar os
governos locais a desenvolver o programa estão na plataforma digital da iniciativa, onde podem
ser encontrados também textos de Roger Hart e Gerison Lansdown sobre participação infantil.
No Brasil, as ações estão voltadas principalmente ao combate da desigualdade social,
como indicam os dois projetos encontrados na plataforma digital internacional e nacional do
Unicef, a Plataforma para Centros Urbanos (PCU) e o Selo Municipal de Aprovação UNICEF,
que não trazem referência direta à proposta. O primeiro (PCU)81, em sua terceira edição, teve
início em 2018, nas cidades de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), e daí para outras capitais,
como Belém (PA), Fortaleza (CE), Maceió (AL), Manaus (AM), Recife (PE), Salvador (BA),
São Luís (MA), Vitória (ES). Destinado a promover os direitos das crianças e jovens em
situação de vulnerabilidade, tem como objetivos promover os direitos da primeira infância,
enfrentar a exclusão escolar, promover os direitos sexuais e os direitos reprodutivos de
adolescentes e enfrentar os homicídios de adolescentes. Tem como prioridade diminuir o
número de mortes de crianças recém-nascidas, a obesidade infantil e a transmissão de sífilis, o
que parece significar que, antes da promoção da participação das crianças nas políticas públicas,
está o desafio de combater a vulnerabilidade infantil.
81
Para mais informações, consultar: [Link] Acesso em:
13 jun. 2022.
81
82
Para verificar os nomes dos municípios, consultar: [Link] Acesso em: 13
jun. 2022.
82
importância dessas instituições, faz-se necessária uma reflexão constante acerca das práticas
realizadas nestes espaços, de modo que garantam os direitos das crianças e o seu processo de
desenvolvimento e aprendizagem como sujeito social, ou seja [...] as escolas são contextos
nos quais as crianças vivem suas infâncias, tornando-as a configuração mais próxima de uma
83
er la participación escolar está referida a
la construcción de una esfera pública como condición necesaria para el ejercicio de una cultura política en los
espacios escolares. Lo público, entendido como la posibilidad de interactuar y tomar parte en los asuntos de
interés común, de problematizar las necesidades y demandas de los diversos actores sociales, de hacerlas
(MELLIZO; BEDOYA,
2011, p. 289-290, grifo dos autores).
83
84
CAPÍTULO III Da Educação, da Cultura e do Desporto. SEÇÃO I Da Educação. Art. 206. O ensino será
ministrado com base nos seguintes princípios (EC n 19/98 e EC n 53/2006): [...] VI gestão democrática do
.
84
85
- Da Organização da Educação Nacional. Art. 14: Os sistemas de ensino definirão as normas da
gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme
os seguintes princípios: I - participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da
escola; II -
1996).
85
86
A saber: relação entre professor/a e aluna/o; construção coletiva das Normas Escolares; Conselho de Escola e
Grêmios Estudantis.
86
3 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA
instância singular. Isso significa que o objeto estudado é tratado como único, uma representação
Apontam ainda como características desse procedimento que os estudos de caso visam
completa e profunda; usam uma variedade de fontes de informação; revelam experiência vicária
e permitem generalizações naturalísticas; procuram representar os diferentes e às vezes
conflitantes pontos de vista presentes numa situação social; utilizam uma linguagem e uma
forma mais acessível do que os outros relatórios de pesquisa. Em o
caso qualitativo constitui uma investigação de uma unidade específica, situada em seu contexto,
selecionada segundo critérios predeterminados e, utilizando múltiplas fontes de dados, que se
propõe a oferecer uma visão holística -MAZZOTTI, 2006, p.
650).
87
Baseadas nos estudos de Nisbet e Watt (1978), Ludke e André (2013) indicam que esses
estudos podem ser divididos em três momentos: a fase exploratória, momento inicial quando é
possível haver modificações de acordo com os movimentos que ocorrem, como, por exemplo,
nesta pesquisa, as entrevistas e contato com os documentos levantados, e o aprofundamento
teórico; a delimitação do estudo, com o uso de técnicas e instrumentos que demandam a
necessidade do caso em questão (o recorte dos temas é necessário devido ao tempo e a
impossibilidade de retratar todas as informações); a análise sistemática e a elaboração do
relatório, estabelecendo um diálogo entre diferentes fontes.
Dessa forma, pretende-se compreender como os Conselhos Mirins, implementados no
município de Santo André (SP), constituíram uma política pública de participação política
infantil, objetivo da pesquisa. Além disso, pretende-se, como objetivos específicos:
a) Resgatar o processo histórico de ações e políticas que colaboraram para a construção
dos Conselhos Mirins instituídos nas creches e escolas;
b) Analisar os motivos que conduziram a gestão a efetivar o Conselho Mirim como
uma política pública, por meio da Lei municipal nº 9.900, de 9 de dezembro de 2016;
c) Averiguar as concepções de infância e participação política infantil imbricadas no
Conselho Mirim e seus processos.
Para o processo de recolha dos dados, foram realizadas entrevistas com questões
[...] na entrevista compreensiva, o
pesquisador se engaja formalmente, o objetivo da investigação é a compreensão do social e, de
acordo com este, o que interessa a
autora, é preciso estabelecer uma relação de confiança para obter um bom resultado nas
entrevistas e que diferentes aspectos influenciam esta relação, como, por exemplo, uma
explicação clara da entrevistadora sobre a pesquisa e seus objetivos, o acordo para o uso do
gravador, a escolha do local, a garantia do anonimato e a efetivação do termo de livre
consentimento.
Além disso, na entrevista compreensiva, não existe uma estrutura rígida na sequência
de questões, que podem ser alteradas de acordo com o processo da pesquisa e da entrevista, isto
é, [...] a flexibilidade faz parte da lógica do método qualitativo e da entrevista compreensiva,
mas é importante demonstrar, na sua condução, aonde o pesquisador quer chegar.
2003, p. 303). Para Zanten (2004), é importante elaborar um guia para a realização das
88
entrevistas, que deve estar relacionado com o tema central e com os subtemas da problemática.
Para alcançar dados que colaborassem com os objetivos deste estudo, foi construído um roteiro,
o qual permitiu uma flexibilidade em relação à ordem dos temas, que
É também uma construção estratégica cuja organização deve tomar em conta
simultaneamente a maneira de organizar as ideias e de reagir dos sujeitos do
estudo. Um planejamento rigoroso neste duplo sentido é necessário, mas é
assim mesmo importante adotar uma atitude crítica e flexível durante a
entrevista para modificar se for necessário a orientação, a formulação e a
ordem das perguntas. (ZANTEN, 2004, p. 305)87.
Foram realizadas sete entrevistas com sujeitos envolvidos na trajetória histórica das
ações democráticas do município de Santo André (SP) e na implementação dos Conselhos
Mirins, ou seja, pessoas com informações relevantes para o tema em questão. Os entrevistados
escolheram os locais em que foram realizadas, e, após o seu término, a relação não se esgotou;
isto é, foi mantido certo vínculo entre entrevistadas/os e entrevistadora, que possibilitou sanar
posteriormente algumas dúvidas, tanto sobre os temas levantados quanto sobre os dados, como
nomes citados e datas. As entrevistas foram transcritas e encaminhadas aos entrevistados, que
tiveram a opção de apontar correções ou alterações. Cabe lembrar que todos assinaram o termo
de livre consentimento e puderam escolher entre o uso do nome verdadeiro ou de um fictício,
para caracterizar seu anonimato, quando é o caso.
Por meio das entrevistas, foi possível acessar e compilar um número considerável de
documentos que colaboraram para o desenvolvimento da pesquisa, e, dessa forma, foi preciso
recorrer ao procedimento de análise documental. De acordo com Cellard (2008, p. 295), o
documento
[...] é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a
um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase
totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além
disso, muito frequentemente, ele permanece como o único testemunho de
atividades particulares ocorridas num passado recente.
Assim, complementaram as informações obtidas por meio das entrevistas, auxiliando
tanto na compreensão histórica quanto na das dimensões temáticas. Cellard (2008) categoriza
os documentos em dois grupos, arquivados e não arquivados, e, de acordo com sua natureza,
87
la manera de organizar las ideas y de reaccionar de los sujetos de estudio. Una planificación rigurosa en este
doble sentido es necesaria, pero es así mismo importante adoptar una actitud crítica y flexible durante la
(ZANTEN,
2004, p. 305).
89
aponta os documentos públicos arquivados, aqueles que são governamentais, do estado civil e
notarial ou jurídico, que podem ser de difícil acesso, e os não arquivados, que são publicações,
como jornais, revistas, boletins, etc.; e os privados arquivados, como os de instituições, igreja,
sindicatos, organizações políticas, e os documentos pessoais, não arquivados, como, por
exemplo, diários, anotações, correspondências, autobiografia, etc.
Para o autor, a primeira etapa de uma análise documental é constituída pela análise
preliminar que pode ser dividida em cinco dimensões: o contexto; os autores; a autenticidade e
a confiabilidade do texto; a natureza do texto; e os conceitos-chave e a lógica interna do texto.
Em seguida, ocorre a análise dos documentos, que requer a junção das cinco dimensões
referidas, a fim de estabelecer as possíveis ligações entre as informações obtidas.
é realizada a leitura flutuante dos documentos, para realização da escolha do que fará parte do
acervo da pesquisa e do que será excluído, para, então, definir as categorias de análise.
Em razão dos conteúdos desta pesquisa, as categorias foram criadas a priori, o que
significa que, [...] neste caso, as categorias e seus respectivos indicadores são predeterminados
; ou
seja, para selecionar e analisar os documentos e as entrevistas, as categorias estavam
previamente elaboradas pelos objetivos definidos. Assim, as categorias são:
88
Programa que tem como objetivo valorizar prefeitos/as que tenham as crianças e adolescentes como prioridade
em sua gestão.
89
Uma fundação sem fins lucrativos, que tem como objetivo impulsionar as questões sobre os direitos das
crianças e adolescentes na sociedade, por meio de diferentes programas e ações.
91
os Conselhos Mirins; c) a partir da mudança de governo em 2017, não houve mais a promoção
do Conselho Mirim por parte da Secretaria da Educação, o que o transformou em escolha e
iniciativa individual de cada creche ou escola, fato que, no período da realização da pesquisa,
ocasionou sua extinção nas creches.
90
O Grande ABC, ou Região ABCDMRR, está inserido a sudeste da Região Metropolitana de São Paulo e é composto
por sete municípios: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e
Rio Grande da Serra. Disponível em: [Link] Acesso em: 19 nov. 2019.
91
Dados da última pesquisa disponível, referente ao ano de 2021. Disponível em:
[Link] Acesso em: 19 nov. 2019.
92
92
Para mais informações, consultar: [Link] Acesso em: 7 abr. 2021.
93
Creches municipais e não conveniadas. Disponível em: [Link] Acesso
em: 7 abr. 2021.
94
Portaria MEC nº 1035/2018 regulamentou nacionalmente o corte etário para matrículas de crianças na
Educação Infantil e Ensino Fundamental (4 e 6 anos), o que levou o município a realizar uma nova organização
nas creches, de modo que haja uma continuidade correta em relação às crianças que, após frequentarem o
último ano, ingressam nas escolas de Educação Infantil de 4 e 5 anos. Disponível em:
[Link]
18&category_slug=outubro-2018-pdf-1&Itemid=30192. Acesso em: 5 nov. 2019.
95
Tendo como base a Lei Federal nº 11.788, de 25 de setembro 2008, e a Lei Municipal nº 9.175, de 07 de
dezembro de 2009.
93
Inicialmente, esta pesquisa teve como objetivo geral analisar os diferentes modos de
participação de crianças de zero a três anos de idade nos Conselhos Mirins instituídos nas
creches do município de Santo André (SP). No entanto, em dezembro de 2018, ao realizar uma
visita à Secretaria de Educação, a fim de identificar quais creches estavam desenvolvendo os
Conselhos Mirins e, em seguida, protocolar o pedido de autorização para realização da pesquisa
por meio da metodologia etnográfica, foi possível constatar que não havia Conselhos Mirins
nas creches.
Frente a este fato, foi preciso reorganizar o projeto de pesquisa e redefinir os objetivos
e metodologia para o novo contexto real. Diante deste desafio, propôs-se a realização de uma
análise documental dos Conselhos Mirins que foram desenvolvidos de 2013 a 2016. O primeiro
procedimento foi efetivar o pedido de autorização para a SE, solicitando a realização da análise
documental (11/12/2018), e, após a aprovação (14/12/2018), a Gerência de Administração de
Pessoal da Educação (GAPE) emitiu uma comunicação via e-mail (20/12/2018), indicando que
a pesquisa seria realizada junto à Gestão de Conselhos, uma vez que não há um órgão
responsável diretamente pelos Conselhos Mirins, desde o fechamento do Núcleo de Gestão
96
Para mais informações, consultar: [Link] Acesso em: 7 abr. 2021.
97
Para mais informações, consultar: [Link] Acesso em: 7 abr. 2021.
94
Democrática da Educação, no final de 2016, e que este seria o único local que continha
documentos relacionados ao tema. No mesmo dia, a responsável pelo departamento informou
que não havia muitos documentos, porém estava à disposição para auxiliar na busca.
A primeira entrada no campo de pesquisa ocorreu no dia 17/01/2019, na Gestão de
Conselhos, localizada em uma sala na SE, no segundo andar da Biblioteca Municipal98. A
Gestão de Conselhos é constituída por um grupo de quatro funcionários. A responsável pelo
departamento encontrava-se de férias, e o contato com ela foi realizado pela secretária, por meio
do telefone celular, por mensagens.
Ao ser questionada sobre os documentos referentes aos Conselhos Mirins, a responsável
informou que havia apenas a minuta do processo do projeto de Lei nº 9.900, de 9 de dezembro
de 2016 e que os demais documentos ficaram sob responsabilidade dos integrantes da gestão
anterior. Foi possível, então, ter acesso ao texto da Lei, na própria sala, onde foram realizadas
as primeiras anotações para a pesquisa. O tempo previsto, não foi suficiente para leitura e
registros do documento em sua totalidade.
A segunda ida à Gestão de Conselhos aconteceu no dia 15/03/2019, e, naquela data, fui
conduzida para a sala da Gerência de Contas da Gestão Democrática da Educação, para
continuar a leitura e os registros. O novo ambiente não favorecia a leitura e solicitei uma cópia
do documento. Fui informada pela responsável pela Gestão de Conselhos, por intermédio da
secretária, que só poderia solicitar uma cópia formalmente na Praça do Servidor, localizada
também na Prefeitura do município.
A ausência da documentação prevista na SE levou a reorganizar novamente a
metodologia, incluindo a realização de entrevistas com os sujeitos que participaram da
implementação dos Conselhos Mirins, para acesso aos documentos sobre o histórico de ações
de participação que culminaram na construção dos Conselhos Mirins, e sobre o
desenvolvimento deste projeto, pois havia cópias digitais e impressas dos arquivos. Deste
modo, foi possível compilar um volume suficiente de documentos para a realização da pesquisa.
O conjunto de arquivos e dados abrangia outras ações, para além dos Conselhos Mirins
instituídos nas creches, e, à época, diante da qualidade e riqueza das informações inéditas (como
também observado e indicado pelas professoras avaliadoras no exame de qualificação), optou-
se pela ampliação do objeto, isto é, não estudar somente as creches, pois isso ocasionaria a
exclusão de um número considerável de dados, abrangendo assim as ações realizadas também
98
O Paço Municipal da cidade é o espaço onde se localizam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O
Centro Cívico abriga a Biblioteca, o Salão de Exposições, o Teatro e o Auditório Municipal. Ver
[Link] Acesso em: 7 abr. 2021.
95
com as crianças atendidas no Ensino Fundamental. Deste modo, devido também à reduzida
quantidade de dados sobre as creches, assim como a ausência de Conselhos Mirins ativos nessas
instituições, a pesquisa assume como enfoque as questões macrossociais e suas relações com
os contextos sociais e políticos, que igualmente compõem os estudos da Sociologia da Infância
e dialogam com a tese de Qvortrup (2011) da qual afirma que as crianças são coconstrutoras da
infância e da sociedade.
As adversidades enfrentadas e as modificações necessárias demonstraram que a
pesquisa qualitativa requer flexibilidade, que o trabalho de campo pode alterar os planos
os instrumentos somente ganham significado quando articulados à
(ZAGO, 2003, p. 287).
99
O modelo utilizado do Termo de Livre Consentimento encontra-se na Apêndice E.
96
100
Ação Educativa, uma associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, da cultura e da
juventude, na perspectiva dos direitos humanos, fundada em 1994.
97
101
Para conhecimento da organização do Núcleo de Gestão Democrática, consultar Apêndice C.
102
Para consulta do roteiro principal, ver Apêndice B.
103
Maria Auxiliadora Elias tem seu trabalho e trajetória reconhecida na rede municipal de Santo André, e é
98
Mirins. Maria Auxiliadora possuía, em seu acervo pessoal, algumas revistas relacionadas ao
processo de implementação dos Conselhos Escolares, Grêmio Estudantil/Conselhos Mirins e
das ações de redemocratização da gestão do município. No encontro, foi possível receber quatro
unidades originais104 de revistas que eram publicadas anualmente sobre as ações realizadas no
município em relação à educação e à gestão democrática. Em relação aos Conselhos Mirins, ela
sugeriu que fosse entrevistada Cassia Manchini, que realizou um trabalho de acompanhamento
dos Conselhos de Escola e também dos Conselhos Mirins, em sua primeira implementação nas
Escolas Municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental (EMEIEF) na mesma gestão.
Elie George Guimarães Ghanem Junior foi convidado pela Secretária da Educação para
assessorar o processo de implementação dos Conselhos de Escola, pois estes ainda não existiam
no município. Durante a entrevista, o professor Elie disponibilizou alguns de seus arquivos
digitais pessoais, como e-mails que continham propostas de assessoria, avaliação das ações e
reuniões, Projeto de Lei para implantação dos Conselhos Escolares, entre outros que
compuseram o processo de formação e assessoria pelo qual ele foi responsável.
Cassia Aparecida Manchini Santos acompanhou o primeiro processo de
desenvolvimento dos Grêmios Estudantis e/ou Conselhos Mirins nas escolas municipais. Relata
que, na época, as integrantes da gestão, na Secretaria de Educação, participavam de muitas
formações e, por meio delas, ao participar do Fórum Social Mundial (FSM), assistiu um relato
de experiência de um trabalho desenvolvido por meio de conselhos com crianças, no qual se
inspirou para realizar a iniciativa em Santo André.
Professora da rede de Santo André desde 1992, na segunda gestão do prefeito Celso
Daniel, trabalhou como Assistente Pedagógica (AP)105, supervisionando dez escolas. Na gestão
do prefeito João Avamileno, trabalhou como coordenadora de serviço educacional e Núcleo de
Gestão Democrática, fomentando a articulação dos Conselhos de Escola e Conselhos Mirins da
rede. Na gestão do prefeito Carlos Grana, assumiu como Gerente de Ensino Fundamental no
Departamento de Educação Infantil e Ensino Fundamental (DEIEF).
Por não atuar na gestão dos Conselhos Mirins no período de 2013 a 2016, ela não pôde
fornecer informações e materiais relacionados ao Conselho Mirim dessa gestão, mas
disponibilizou materiais impressos de seu acervo pessoal sobre os períodos anteriores, que
incluem anotações com reflexões sobre o processo e as pautas das formações que coordenou
104
Revista Educação Inclusiva Plano 1997, e Revista Estação gente Educação Inclusiva Plano 1998, 1999 e
2001.
105
Atualmente, este cargo recebe o nome de Coordenadora de Serviços Educacionais (CSE). A nomenclatura de
Assistente Pedagógica (AP) ainda é utilizada, mas destina-se às pessoas cuja função é de coordenar os trabalhos
pedagógicos de uma única Unidade Escolar, desenvolvendo seu trabalho de maneira fixa.
99
sobre os Grêmios Estudantis e/ou Conselhos Mirins, realizadas com as gestoras municipais.
Também disponibilizou outros arquivos impressos, tais como o convite para as crianças
participarem das reuniões, pautas de reuniões com gestoras, anotações de encontros com as
crianças e com gestoras, folders de trabalhos realizados nas escolas, entre outros.
Durante a entrevista, Cassia referiu a importância de prestar atenção à manipulação das
crianças em relação às demandas que estas levavam para as reuniões com os gestores
municipais, isto é, a reflexão sobre a influência que a opinião e sugestão das professoras podem
exercer nas ações e reivindicações das crianças. Esse ponto foi incorporado ao roteiro para as
entrevistas seguintes.
Carlos Alberto Grana foi Prefeito do município de Santo André na gestão de 2013 a
2016. Afirmou que teve a gestão do Prefeito Celso Daniel como referência para o
desenvolvimento dos canais de participação e democratização durante o seu mandato. Citou a
importância da retomada do Orçamento Participativo (OP) e do Plano Plurianual (PPA)
participativo106 que ocorreram em 20 (vinte) regiões. Explicou que, durante as reuniões e
plenárias, era comum receber cartas e/ou cartazes escritos e confeccionados pelas crianças,
reivindicando diferentes questões, e, portanto, teve a iniciativa de promover o PPA-Criança,
OP-Criança e os encontros com os Conselhos Mirins de todas as Unidades Escolares, inclusive
as creches. Em razão das políticas de participação infantil, recebeu em Brasília o título de
edição do Prêmio Prefeito Amigo da Criança, no dia 22 de junho de
2016. Forneceu, no encontro, cinco cópias de vídeos realizados pela Prefeitura Municipal de
Santo André, sobre o OP-criança e Conselho Mirim.
Gilmar Silvério, no período de 2013 a 2016, ocupou o cargo de Secretário da Educação
e explicou que, com sua equipe, implementou a Lei nº 9.900/2016, para que o Conselho Mirim
se efetivasse como uma política pública. Reforçou a importância da participação infantil.
Enfatizou que, em sua gestão, atribuiu ao Núcleo de Gestão Democrática da Educação a mesma
importância dos demais departamentos, integrando-o em todas as reuniões e decisões
relacionadas à SE.
João Wagner Sussai, Assistente de Direção no Núcleo de Gestão Democrática no
período de 2013 a 2016, foi o responsável direto pelo desenvolvimento e acompanhamento dos
Conselhos Mirins. Acompanhava as reuniões e trabalhos desenvolvidos nas escolas, tanto de
106
De acordo -se de uma ferramenta para planejamento de ações de médio prazo
que permite orientar os gastos públicos, aperfeiçoar seu monitoramento e obter clareza nas ações e programas
Disponível em:
[Link] Acesso em: 2 out. 2019.
100
Por meio das entrevistas, foi possível compilar documentos importantes, que permitiram
o resgate e a compreensão do percurso para a implantação dos Conselhos Mirins, para realizar
uma análise documental, como se verá a seguir.
107
O Programa Escola Aberta incentivava a abertura das escolas aos finais de semana, com a oferta de atividades
educacionais, culturais, esportivas e de formação inicial para o trabalho. Disponível em:
[Link] Acesso em: 22 set. 2019.
101
108
Em razão da quantidade de documentos analisados e o prazo para o desenvolvimento da pesquisa, não foi
possível apresentá-los como apêndice, contudo, poderão integrar publicações futuras.
102
Carlos Grana, colaborou com vídeos sobre as ações com as crianças, por meio do
Orçamento Participativo Criança (OP-Criança), do Plano Plurianual Criança (PPA-Criança) e
dos Conselhos Mirins. Os vídeos foram utilizados como divulgação, no período de 2013 a 2016,
e contam com a participação e fotos de crianças participantes dos projetos.
Os 482 arquivos digitais cedidos por Nestor Guerra tornaram necessária uma pré-análise
para sua organização. Neste procedimento, primeiramente foram separados os arquivos de
acordo com o ano, após o que foram realizadas leituras flutuantes baseadas nas categorias, o
que possibilitou a exclusão de arquivos que não tinham relação com a pesquisa. Em seguida,
foram removidos os arquivos em duplicidade, e, assim, 439 arquivos foram excluídos.
103
2013 (12 arquivos) 2014 (4 arquivos) 2015 (24 arquivos) 2016 (3 arquivos)
Documentos referentes a Revista do Conselho de Artigo sobre adesão à Evento do AICE;
Audiências e Escola; AICE; Primeiras escritas para
apresentações do PPA- Documentos sobre 1º Encontro dos Conselhos a construção da Lei
Criança; Gestão Democrática da Mirins; 9.900/2016;
Documentos referentes à Educação; Posse dos Conselheiros E-mail para as escolas
Associação Internacional Artigo sobre a adesão à Mirins; e creches, sobre AICE
das Cidades Educadoras AICE. Relatório da AICE; e os Conselhos Mirins.
(AICE) histórico de Fotos do OP-Criança,
Santo André, carta de Conselho Mirim, e PPA-
candidatura etc. Criança;
Reuniões do Conselhos
Mirim com o prefeito;
Histórico do PPA-Criança;
Rede em Roda;
Formação com as gestoras.
Ao final de toda a seleção e organização, foi possível compilar 151 arquivos, 98 digitais
e 53 físicos. O livro O jeito petista de governar, de 1992, forneceu dados para os anos anteriores
(1989, 1990, 1991), e um arquivo impresso pessoal de Wagner Sussai, incluído em 2013, forneceu
dados também para 2014, porém foi contabilizado apenas uma vez. Para o ano de 2008, não foi
possível encontrar documentos físicos ou digitais, e, para sua análise, foram utilizados dados
retirados das entrevistas. A organização dos documentos compõe o quadro a seguir:
Para examinar o Conselho Mirim como política pública para a infância em Santo André
(SP), foi preciso reconstruir a trajetória histórica da participação, inclusive a das crianças
pequenas, compreendendo os marcos democráticos do município. Para esse fim, são retomados
três períodos de gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), que totalizam 20 anos, os canais e
as arenas de participação desenvolvidos para adultos e crianças. Neste capítulo, são
apresentadas as políticas de participação de dois períodos (1989-1992 e 1997-2008), num
projeto de desenvolvimento de arenas democráticas de participação popular que, no caso das
crianças, vai resultar na Lei municipal nº 9.900/2016, que instituiu o Conselho Mirim como
uma política pública, num terceiro momento de gestão (2013-2016), que terá sua descrição e
análise no próximo capítulo.
A seguir, a apresentação das políticas públicas participativas, a partir das entrevistas
realizadas e do material cedido a esta pesquisa109.
A cidade de Santo André (SP), assim como as demais cidades da região do grande ABC,
tem sido marcada pela alternância eleitoral entre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) (em azul), e o Partido dos Trabalhadores (PT)
(em vermelho), conforme a figura 8:
109
No que se refere à análise documental, foi possível compilar 598 documentos entre físicos e digitais,
principalmente fornecidos pelos sujeitos entrevistados, e entre eles estão e-mails, folders, revistas e livros.
Além destes, há a minuta de lei fornecida pela Prefeitura Municipal de Santo André.
106
A pesquisa teve como ponto de partida o governo do prefeito Celso Daniel, em 1989,
apontado como início das arenas participativas organizadas, como plano de governo e política
pública, nas entrevistas e nos documentos levantados na pesquisa de campo. Naquele período,
o Brasil havia saído recentemente de um regime militar (1985) e, em 1988, conquistado a
107
aprovação de uma nova Constituição que, mesmo com divergências e lacunas, representou um
avanço democrático no país, por pautar direitos progressistas em diversas áreas. Cabe destacar
que, em 1990, Fernando Collor de Melo, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), foi eleito
Presidente da República; Orestes Quércia, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro
(PMDB), eleito Governador do estado de São Paulo; e Luiza Erundina 110, do Partido dos
Trabalhadores (PT), eleita Prefeita do município de São Paulo, no período de 1989 a 1992.
Celso Daniel, do PT, ganhou a eleição de 1988 com 173.982 votos, o que representava
49,59% dos eleitores e demonstrava a confiança da população nas propostas de reforma de seu
plano de governo (GAIARSA, 1991). A posse de oito vereadores do mesmo partido do prefeito
eleito, causou uma modificação, que Gaiarsa (1991, p. 107
Ao mesmo tempo em que se notava uma tímida participação das mulheres na região do
de Santo André em relação à gestão de Celso Daniel (GAIARSA, 1991). Essas informações são
confirmadas por Bittar (1992)111, que analisa, de modo geral, as gestões municipais petistas no
período de 1989 a 1992, e aponta que, por proporcionarem um projeto alternativo de governo
para o Brasil, havia uma forte expectativa de bons resultados num curto período de tempo,
dentro do próprio partido e por parte da sociedade, devido ao descontentamento com as gestões
anteriores. Em 1988, muitos municípios elegeram prefeitos do PT, que tinham como objetivo
desenvolver seus programas de governo com as seguintes bases:
[...] bandeiras gerais ou reivindicações incorporadas dos movimentos sociais,
com a estatização dos transportes, democratização do acesso ao sistema de
ensino público, estatização progressiva do sistema de saúde, promoção do uso
social da terra urbana, formação de conselhos populares entre tantas outras
diretrizes gerais (BITTAR, 1992, p. 15).
Em Santo André, a partir de 1989, as ações tiveram como prioridade a participação
popular, sendo uma delas o desenvolvimento d
um diálogo direto com a população nas ruas, anotando observações, reclamações, sugestões e
interesses. De acordo com Maria Auxiliadora (2019), havia muitas dificuldades, tanto em
relação à estrutura e aos recursos quanto à cultura política que estava em transformação em
todo o país; assim como em relação à falta de informação da população sobre seus direitos,
sobre a compreensão do sistema público e seu funcionamento, que dificultavam o
110
Sua gestão teve inicialmente Paulo Freire como Secretário de Educação, o que influenciou outros municípios
com gestão do mesmo partido, por meio de suas ações democráticas na educação.
111
Livro indicado por Maria Auxiliadora Elias na entrevista cedida à pesquisadora.
108
Maria Auxiliadora (2019) explica que existia um desafio em efetivar a participação, que
se aprende na prática, pois a população não a havia experienciado:
Então, separar o clientelismo que já era uma prática, de uma participação
direta em que as pessoas, possam se ver como cidadãs e cidadãos de direito...
estar dialogando com as pessoas, e às vezes a gente tinha até bronca com os
cliente
população deveria vir direto para a prefeitura porque o direito é dela, e ela
para uma sociedade, além de conseguir a curto prazo que um produto ou programa seja mais
112
, ao refletir sobre as críticas a programas de participação
comunitária.
Para Bittar (1992), era preciso trabalhar em direção a uma nova concepção de gestão
democrática, tanto no município como nas escolas. Ou seja, no âmbito das gestões municipais,
o partido tinha como objetivo a legitimação do poder político local, o fortalecimento do
Legislativo, o resgate do respeito às instituições públicas, e o direito à participação, unindo a
democracia representativa à democracia participativa. O autor salienta que a democracia, como
base de todas as ações da gestão, elimina os riscos de um governo ser populista, totalitário,
neoliberal ou burocrático, e compreende que
[...] o efetivo exercício da soberania popular, a defesa dos direitos humanos,
privilegiando o direito à vida, o controle do Estado, combinando as formas de
democracia representativa com formas mais diretas de participação e gestão,
a pluralidade dos canais de representação social que impulsionaram o
movimento popular e gerar propostas globais para a sociedade são tarefas
políticas e sociais. (BITTAR, 1992, p. 23, grifo nosso).
Bittar (1992) aponta que, no âmbito da Assistência Social, o partido tinha como objetivo
o resgate da importância das condições sociais dos sujeitos. Para ele,
Reverter o círculo de pobreza-subalternidade-exclusão significa, no campo
institucional, romper com as práticas de tutela e favor, na perspectiva do
112
eficios adicionales y más importantes para una sociedad, más allá de lograr a corto plazo
que un producto o programa sea má (HART, 1993, p. 43).
109
aos s
um plano. De acordo com Schifino (201
responsabilidade da Secretaria da Educação no início dos anos 1990 e passaram a se denominar
UNIMEI -
na educação de Santo André, foi a elaboração do Estatuto do Magistério, processo que Maria
Auxiliadora (2019) relata ter sido muito intenso, com muitas reivindicações.
O modo diferenciado e pioneiro de gestão municipal em Santo André foi tema da
dissertação de Belchior (1999, p. 53), que afirma que, após grande dedicação, estudo da situação
e formações, foi desenvolvido um planejamento estratégico situacional, que tinha como
objetivo
[...] um método de planejamento de ações que se adequasse às particularidades
da administração local, que pudesse ser compartilhado pela equipe de governo
como um todo e que fosse compatível com os processos de participação
popular implementados pelo governo, como o Orçamento Participativo.
A fim de aproximar e estabelecer o diálogo e participação da sociedade, foi iniciado um
movimento para desenvolver o Orçamento Participativo (OP), que visava à promoção da
cidadania. Era uma inovação, porque previa a participação dos munícipes na disposição do
orçamento público. Esse processo acontecia por meio de plenárias públicas organizadas por
região e por assuntos, para que a população pudesse participar na construção do Plano
Orçamentário do município. Para Bittar (1992), havia muita disputa de interesses entre os
poderes Legislativo e Executivo e a população. Mas as plenárias oportunizavam um momento
de conhecimento de despesas e receitas e pensar a cidade, elencando as prioridad
(2005, p. 51), o direito das crianças ao espaço público, tanto em relação à vivência do presente
quanto para o desenvolvimento de futuros projetos, pois,
Ouvindo os pedidos das crianças, o administrador não garantiria apenas um
direito primário de seus cidadãos menores dotados de instrumentos de pressão
como o voto, não responderia apenas as exigências de espaços seguros das
demais categorias de cidadãos que vivem uma vida de bairro, mas responderia
às exigências de sobrevivência e de desenvolvimento sustentável da própria
cidade.
O envolvimento dos cidadãos nas discussões e ações municipais também foi objetivo
do programa de governo em Santo André e, de acordo com Maria Auxiliadora (2019), teve
como ponto de partida as ações do OP, que impulsionaram a realização de mutirões para
realização de obras, que a prefeitura não seria capaz de assumir. Segundo ela,
com essa situação. Esse espaço aqui vive cheio de ratos e lixo e a gente
precisa dar um jeito nisso, não basta só fazer a limpeza, nem que vocês deem
o material e ! (Maria Auxiliadora,
2019, trecho da entrevista, p. 2).
A entrevistada afirma que, com o processo da participação, debate e reflexão, a
população vai se educando no exercício do direito, da cidadania, vai se empoderando,
fazendo.. (Maria Auxiliadora, 2019, p. 3), e que a vivência deste projeto constituiu a base
para outras ações, na segunda gestão de Celso Daniel. O projeto também foi utilizado como
referência para outros municípios próximos, como mencionado por Ricardo Perez no seminário
O segundo período é composto por duas gestões de Celso Daniel, sendo, a primeira,
referente a seu retorno como prefeito de 1997 a 2000114, e a segunda, com início em 2001. Em
2002, contudo, Celso Daniel foi assassinado e seu vice, João Avamileno, assumiu a gestão
municipal, até 2004, tendo sido eleito para a gestão seguinte, de 2005 a 2008. Organizado em
três subitens, este período foi considerado, nas entrevistas, como um momento de fomento dos
canais participativos de modo mais estruturado que, ao final, vai sofrer uma redução, como se
verá a seguir.
Esta gestão foi considerada como um grande marco na rede municipal, principalmente
como o período de construção dos Conselhos Escolares, das formações pedagógicas e das
publicações sistematizadas das ações municipais da Secretaria da Educação. No início deste
mandato (1997), ocorreu a formação do Núcleo de Participação Popular (NPP), que era
113
e a existência de documentos
referentes ao OP e ao Conselho Mirim.
114
Após ter perdido as eleições para o candidato Newton Brandão, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
112
115
Também chamados ginásios vocacionais, foram escolas pioneiras, nos anos 1960, na rede pública de São Paulo.
Os cinco colégios vocacionais do Estado, que funcionaram de 1962 a 1969, continham uma proposta
pedagógica revolucionária e representaram um marco na história de educação paulista, por adotar a democracia
como prática pedagógica. (MENEZES, 2001).
116
Cabe salientar que, no final do ano anterior, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) (Lei nº 9.394/96) tinha sido
aprovada, estabelecendo as normas da Educação Básica Nacional e, entre outros pontos, inseriu a Educação
Infantil na Educação Básica; instituiu a gestão democrática do ensino público (Art. 3º, VIII); e democratizou a
Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as
do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: [...] II - administrar seu pessoal e seus recursos materiais e
financeiros; [...] Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público
na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: [...] II -
partici
117
O período contou com Selma Rocha como Secretária de Educação.
118
Artigo 206 - O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: (EC n.19/98 e EC n.53/2006) [...]
VI
119
Entrevista cedida à pesquisadora no dia 24 de janeiro de 2019.
113
120
À época, por meio da Ação Educativa, uma associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da
educação, da cultura e da juventude, na perspectiva dos direitos humanos, fundada em 1994.
114
121
Indica duas etapas: avaliação de títulos e prova, e eleição direta realizada pelos servidores, alunos/as,
responsáveis legais e moradores da área.
122
Entrevista cedida à pesquisadora no dia 20 de março de 2019.
115
Elie Ghanem chama a atenção para o risco do esvaziamento do objetivo dos Conselhos
Escolares, que podem se tornar meramente burocráticos, formais e utilitaristas em relação à
participação das famílias, realizando reuniões que não influenciarão de fato nas decisões da
escola, tendo apenas como objetivo pequenos afazeres de ordem material, como entrega de
uniforme ou reparação de vidros quebrados, por exemplo. Acrescenta que
[...] além da gente ter uma tradição de muito isolamento dentro da escola em
relação às suas comunidades, aos lugares em que elas estão instaladas, e isso
faz parte de uma cultura, de que grande parte das famílias, parece se adequar
a essa expectativa de que a Educação que se faz nas escolas é aquela que é
necessária, que os leigos não entendem e não tem direito de opinar sobre o
seu cerne, porque isso seriam assuntos de especialistas: o que ensinar? Como
ensinar? (Elie Ghanem, 2019, trecho da entrevista, p. 6).
Esta questão remete à reflexão acerca da participação dos sujeitos na sociedade e às
limitações impostas, estruturais ou nos discursos, mesmo em governos democráticos, que
dificultam um maior envolvimento. Freire (2020, p. 61)
nas dec
Elie Ghanem considera a representatividade outro ponto de fragilidade da Gestão
Democrática por meio dos Conselhos Escolares. Argumenta que o representante deve
estabelecer um diálogo constante com seus pares representados, para que haja uma
representação verdadeira, com uma decisão baseada nos interesses comuns. Sobre os canais de
participação, esclarece que, antes de implementá-los, faz-se necessário ofertar formação para
os sujeitos envolvidos, para que tenham condições de construir um debate público e opiniões
com fundamentos e, assim, encontrar os meios para instituir a participação, concebendo a escola
como um local apropriado para o debate e para a construção coletiva de conhecimentos.
Os processos de formação com diferentes assessores e os estudos entre as equipes foram
documentados em publicações anuais de 1999 a 2000, idealizadas pela Secretária de Educação.
[...] a Selma Rocha traz para a Educação a necessidade de sistematizar tudo
o que a gente fazia. Então todo ano a Secretaria de Educação publicava uma
revista, com a sistematização da avaliação do que fizemos e apontando para
a construção, no ano seguinte do PPP (Projeto Político-Pedagógico).
Apontando, inclusive a importância de se fazer um bom diagnóstico, uma boa
caracterização da escola, da comunidade escolar. Sinalizou-se aí a
importância de se trabalhar muito com planejamento. Importante lembrar
que tudo isso era novidade para a rede municipal. (Maria Auxiliadora, 2019,
trecho da entrevista, p. 7).
em todos os sentidos, não apenas em relação ao direito de acesso à educação, mas também por
ter como proposta uma educação que valorize e respeite o processo individual de cada criança.
116
A revista publicada em 1997 tem, em sua apresentação, um texto escrito por Celso Daniel, que
expõe os objetivos de sua gestão:
O crescimento econômico de Santo André, a transformação dos atuais
patamares de exclusão social, a mudança de qualidade de vida na cidade e o
aprofundamento da democracia são objetivos [...] alcançado por meio de 5
articulações entre elas: participação popular por intermédio de canais
democráticos de relação entre a prefeitura e a comunidade e prioridade à
educação como direito fundamental para o exercício da cidadania e como
condição indispensável para o acesso e permanência no mercado de trabalho
(DANIEL, 1997, p. 5).
Na introdução da revista, Selma Rocha declara que a gestão municipal tem como
objetivo transformar a política neoliberal imposta pelo capitalismo na educação, propondo
ações contrárias. Lembra que o processo democrático é complexo, pois requer o respeito pelas
diferenças e a gestão de conflitos, e que no Brasil temos um histórico de marcas de
autoritarismo. Explica que
Educar tendo como referência os seres humanos e não o mercado significa
contribuir para que as crianças tenham uma infância feliz e sadia sem que isso
signifique subordinar todo trabalho educativo aos objetivos futuros e não
imediatos da vida dos alunos [...] (ROCHA, 1997, p. 9).
Esta lógica exposta traz o conceito de crianças como sujeitos no presente, assim como
em outro trecho da revista, no item sobre Educação Infantil, cujo texto refere as crianças de
zero a seis anos de idade como
[...] não é um vir a ser, mas sim alguém que já é desde sempre, uma pessoa,
que mesmo dependendo durante muito tempo dos adultos para se alimentar e
locomover, deve exercer com plenitude suas capacidades afetivas e
cognitivas. (DEHEINZELIN123, 1995 apud SANTO ANDRÉ, 1997, p. 24)
Entretanto, é possível notar que ambos os discursos não citam as crianças como cidadãs
capazes de participar politicamente, pois na primeira citação utiliza-
um dos ofícios da criança (SARMENTO, 2000, 2011)
afetivas e cognitiva
Nas publicações, há uma síntese das solicitações realizadas pelas escolas como
possibilidade de melhoria na qualidade da educação, que se tornaram base para o planejamento
das ações da SEFP e, entre elas, está a formação de Conselhos Escolares, que aparece como
Conselho de
Escola aparece como importante canal de reabertura da democracia, vinculado ao exercício da
cidadania, tendo ressaltada a importância de ser um processo educativo na junção de ações de
democracia direta com democracia representativa, para o exercício de uma cidadania ativa, pois
123
DEHEINZELIN, M. A fome com a vontade de comer. Petrópolis: Vozes, 1995.
117
não apenas
como receptáculo passivo dos direitos e deveres, mas como criador,
protagonista e realizador de novos espaços de direitos, como participante ativo
no controle e na fiscalização das ações do estado, além de propositor e gestor
de políticas públicas. (SANTO ANDRÉ, 1997, p. 26).
Definem-se os seguintes canais de participação: o Conselho de Escola, composto por
educadores, educandos, pais e funcionários, que deve dialogar com o Orçamento da cidade, o
Conselho Municipal e o Fórum de Educação de Santo André. Para efetivar a descentralização
das verbas de atendimento, propõe-se a construção de Comissões Provisórias que, junto com a
...] deverão deliberar sobre as prioridades de utilização desta dotação,
contribuindo assim, para garantir o caráter gratuito da escola pública e a participação da
Maria Auxiliadora (2019), estas comissões foram importantes como vivência mínima de
funcionamento de um Conselho de Escola, para que, quando da aprovação da lei, as pessoas
estivessem apropriadas para desenvolvê-lo.
Observa-se que traz uma diferenciação entre escola e creche, assim como é possível notar que
iva freireana.
Nela, descreve-se a escola
[...] como espaço de reflexão permanente, como laboratório de criação e não
de reprodução mecânica das ideias, ações e valores. Nesta perspectiva a
participação da comunidade é vital. Para tanto, temos nos empenhado muito
na criação de espaços que ampliem a democratização e a real inserção da
sociedade nos processos decisórios e de encaminhamento da política
educacional de nossa cidade. (ROCHA124, 1998a, p. 6, grifo do autor).
Na revista está ainda indicada a criação de espaços decisórios que incluem o debate
sobre as questões pedagógicas e políticas educacionais, como os Conselhos de Escola, que
também devem debater o uso do espaço das unidades pela comunidade, as Escolas de Formação
de Pais, o Fórum Municipal de Educação e Cidadania, a reorganização do Conselho Municipal,
o Projeto Pela Vida Não à Violência, o Poder Legislativo municipal, o Poder Executivo
municipal e o incentivo à criação de grêmios escolares. O conjunto do sistema de decisões, sua
avaliação e acompanhamento, tem como objetivo a construção de um Plano de Educação
municipal e, em relação à gestão democrática, é reconhecido um progresso em sua implantação
e um maior envolvimento no Orçamento Participativo (OP). Há ainda referência ao exercício
da reflexão das ações para qualificá-
124
Destaca-se o alinhamento com a proposta de assessoria de Elie Ghanem e com suas reflexões na entrevista, o
que demonstra uma harmonia entre a publicação, o desenvolvimento do trabalho e as formações realizadas.
118
alunos pequenos, jovens e adultos estejam mais próximo do exercício da cidadania ativa, da
liberdade e de condições mais digna 1998a, p. 6, grifo nosso), afirmando
a participação como um direito de todos.
Uma outra parte da publicação é composta pelas orientações para elaboração do Plano
Escolar de 1998, o que hoje consideramos como Projeto Político-Pedagógico (PPP), e contém
a recomendação do trabalho com os Conselhos Escolares, a importância da representatividade
e da participação nas plenárias do OP. A revista apresenta também uma concepção de Educação
Básica, partindo da LDB nº 9.394/96 como referência.
Constam ainda da revista os relatos dos Congressos Municipais de Educação (COMED),
do I Congresso Municipal de Educação, de outubro de 1997, e do II Congresso Municipal de
Educação, de julho 1998, que contabilizaram noventa e três oficinas, com a participação dos
dez setores. Há menção sobre a construção coletiva do Regimento Comum das Escolas
Municipais (SANTO ANDRÉ, 1998b), que contém a natureza, os fins e objetivos de cada
modalidade de ensino, tendo como base a cidadania desde a infância, por meio de princípios
democráticos, as funções, deveres e direitos de funcionários/as, assim como todas as indicações
do trabalho desenvolvido em cada unidade escolar.
A revista de 1999 tem, na apresentação, uma crítica às ideias neoliberais para alcance
da felicidade, por meio de ações individuais e individualizantes, que difunde o receio à mudança
e a defesa da gestão movida pela vontade de transformação, sendo a escola um importante local
para auxiliar neste processo. Nesta linha, são três as diretrizes da Educação Inclusiva como
política educacional: a democratização do acesso, da gestão e a qualidade social. Refere a
construção do Plano Municipal de Educação, tendo como referência o programa de governo
[...] será necessário que nos tornemos mais íntimos da reflexão e da prática da
mudança em cada sala de aula, em cada espaço educacional, em cada espaço
de discussão democrática sobre o futuro da cidade, tendo como vetores éticos
a construção, a síntese, a cooperação e a solidariedade. (SANTO ANDRÉ,
1999a, p. 8).
educação e que, para efetivar a gestão democrática, é necessário conhecer a comunidade local
(diagnóstico) para construir o planejamento do trabalho pedagógico, tendo as crianças como
sujeitos de seu processo cognitivo. A revista promove os canais de participação, após ampla
119
crianças, jovens, idosos, deficientes, homens e mulheres de todas as etnias combatendo, neste
, 2000a, p. 8). Ressalta que o
planejamento do IV COMED teve como objetivo a construção coletiva do Plano Municipal da
Educação para estabelecer metas e ações, partindo das diretrizes existentes, pautando as
-reflexão-
O exemplar traz uma síntese de todos os anos da gestão e das revistas anteriores,
reforçando afasta da perspectiva de entendê-
la como ação compensatória de atribuir-lhe sentido instrumental, submetendo-a à lógica, às
gestão
democrática, enfatiza que esta tem como objetivo a construção de uma trajetória diferenciada
sistematicamente excluída das decisões acerca das políticas públicas, sejam elas locais ou
00a, p. 30, grifo nosso).
Alista os conselhos existentes no município: Conselho Municipal dos Direitos da
Criança e Adolescente (CMDCA); Conselho Municipal do Orçamento; Conselho do FUNDEB;
Conselho do Fundo Municipal de Apoio à Educação; Conselho de Alimentação Escolar;
125
Estação Gente Educação Inclusiva Caderno de Formação 1. Secretaria de Educação e Formação
Profissional.
120
Comissão Municipal de Emprego; Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência; Conselho
de Defesa do Patrimônio Histórico (CONDEFAPHASA); Conselho Municipal da Assistência
Social; Conselho de Gestão da Central de Trabalho e Renda; Banco do Povo; Conselho
Municipal da Saúde. Finaliza com a apresentação de metas para continuidade, sendo estas o
investimento de esforços na consolidação dos canais democráticos de decisão e a elaboração de
políticas públicas. Mesmo com a reeleição do prefeito Celso Daniel para o ano 2001, não houve
mais publicação das revistas, o que coincide com a mudança da Secretária da Educação.
Em geral, nota-se que a implementação da gestão democrática e a formação de
conselhos populares foram características deste período, assim como a inauguração da
implantação dos Conselhos de Escola126 nas unidades. Ainda no período, havia reuniões
setoriais nas quais os conselheiros podiam trocar experiências e possibilidades de atuação,
ampliando o conhecimento sobre as diferentes realidades. Maria Auxiliadora (2019) recorda
que o mesmo processo aconteceu com o OP:
Então isso é gostoso, fazer esse tour para conhecer, e isso foi exemplo também
do que acontecia com o Orçamento Participativo, que as pessoas faziam a
caravana do Orçamento Participativo pra você entender todas as
reivindicações e demandas levantadas e definir depois as prioridades. Tanto
que tinha gente que desistia, né. Quem estava no centro que começa a
conhecer a cidade e as
demanda! Eu tô junto pra votar para aquela comunidade, porque não é
Maria
Auxiliadora, 2019, trecho da entrevista, p. 18).
Tanto Maria Auxiliadora (2019) quanto Cassia Manchini (2019), em suas considerações
sobre o período, reconhecem que este foi composto por experiências ricas em formação, pela
preocupação com a qualidade social, pelo debate sobre democracia e participação e que, de fato,
havia uma interlocução entre os setores para desenvolvimento de uma política pública comum
pautada por uma concepção específica. Para Maria Auxiliadora (2019, trecho da entrevista, p.
8), o período foi intenso e auxiliou no processo de politização, salientando a diferença de uma
política partidária, mas focalizando a dimensão política da educação , afirmando que [...]
qualquer passo que você dá, você está dizendo ao que veio
uma pretensa neutralidade quando diz que Então não tem neutralidade. E alguns acreditam:
é perigoso, ele dilui muito . É possível relacionar essa fala com o fato de que os cargos de
gestão, em Santo André, não são ocupados por meio de concurso público ou de eleição, mas
126
Sobre este processo, após a aprovação da Lei nº 7.854, de 30 de junho de 1999, que instituiu os Conselhos
por indicação à função gratificada, o que causa inibição da exposição de algumas pessoas em
relação aos seus posicionamentos partidários e/ou políticos.
As características deste período tiveram repercussão na região do Grande ABC e outras
regiões e, como consequência, foram estudadas como temas de dissertação e teses, artigos,
reportagens e apresentação de seminários. Entre elas, podemos destacar a tese da própria Maria
Auxiliadora (ELIAS, 2009), que teve como inspiração o mesmo projeto, desenvolvido na gestão
de Paulo Freire, em São Paulo, e discute a importância de o projeto integrar o currículo e a
concepção do aluno como sujeito de direitos; a tese de Pedro Pontual (2000), que atuou como
coordenador do Núcleo de Participação Popular (NPP) em Santo André, e estudou sobre o
desenvolvimento do Orçamento Participativo iniciado na gestão do Celso Daniel; a publicação
de Marta Ferreira Santos Farah (2002), sobre a importância do legado de Celso Daniel para o
estudo da gestão pública; e a tese de Janaina Bilate Martins (2009), que abordou o ineditismo
do uso da metodologia do Teatro do Oprimido127, por parte da administração do município,
para o desenvolvimento da participação popular. Sobre esta ação, Maria Auxiliadora (2019,
trecho da entrevista, p. 8-9) lembra que
[...] no NPP, o Pedro Pontual se preocupava em buscar uma inovação,
buscando qual é a melhor linguagem para chegar mais próximo do público,
da população nas plenárias de bairro. Essa linguagem do técnico, do político
que vem, conversa, fala e escuta; precisaria sofrer uma mudança, tínhamos
que buscar algum ingrediente diferente, então a gente foi fazer teatro, Teatro
do Oprimido inspirado no Augusto Boal, então a gente trouxe o Augusto Boal.
Ele veio pessoalmente, mas sua equipe do CTO Centro de Teatro do
Oprimido do Rio de Janeiro é quem veio para formar o GTO Grupo de
Teatro do Oprimido de Santo André.
Para a promoção de uma cultura participativa, foi preciso investir na formação dos
sujeitos envolvidos, gestoras/es públicos, funcionárias/os e sociedade civil, a fim de
conhecerem seus direitos e adquirirem conhecimentos necessários para o desenvolvimento de
uma participação ativa com reflexão. Maria Auxiliadora (2019) e Cassia Manchini (2019)
relatam que as formações eram constantes, assim como a participação em congressos, palestras
e similares, fator que contribuiu para o sucesso e continuidade das ações, pois foi por meio
destas que se inspiraram para desencadear as discussões sobre a participação infantil, tendo
início pelos grêmios. Diz a primeira:
Então, a gente começa a trabalhar, e na educação a gente tá trabalhando
também o ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a criança com direito,
a criança como sujeito de direitos... então tudo isso foi levando à evidência de
127
Teatro do Oprimido foi uma proposta de encenação criada pelo dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), nos
anos 1970, que procurava estimular a discussão e a problematização de questões do cotidiano, fornecendo uma
maior reflexão sobre relações de poder.
122
que a criança precisaria ser ouvida, entendeu? Então começa ali aquele
embriãozinho. (Maria Auxiliadora, 2019, trecho da entrevista, p. 10).
Por sua vez, Cassia Manchini (2019, trecho da entrevista, p. 4) comenta: ntão a gente
começou com a discussão dos grêmios estudantis com a EJA. Eu não lembro como surgiu essa
ideia de verdade. A gente viu que tinha no Fundamental também, não era Conselho Mirim. Era
128
. Relata que muitas escolas de Ensino Fundamental ainda não
contavam com inspetores de alunos, devido à municipalização desta modalidade e, diante desta
O Conselho Mirim começou a organizar o recreio. A organizar atividades pra
fazer. Tinha escola que tinha, por exemplo, um canto de artes pra fazer... pra quem quisesse
fazer alguma atividade de Artes, mesa de ping-pong. Começou nesse movimento do Conselho
(Cassia Manchini, 2019, trecho da entrevista, p. 7).
Exercendo a função de Coordenador do Orçamento Participativo pela Secretaria de
Orçamento e Planejamento Participativo, Wagner Sussai (2016, trecho da entrevista, p. 5)129
mencionou que foi entre 1997 e 1998 que ocorreu a primeira participação das crianças no OP,
por meio de uma reivindicação:
[...] a gente tinha a escola Fernando Pessoa, as crianças tinham um tipo de
merenda né? E a gente já tinha na rede uma merenda que era chamada de
merenda diferenciada, que vinha arroz e essas coisas todas, as outras já eram
mais simples, era só pão, bolacha, alguma coisa assim. E as crianças então se
reuniram para ir na região pedir no Orçamento Participativo a merenda
diferenciada para a escola deles no caso do Fernando Pessoa. Então as crianças
do Conselho Mirim participaram dessa reunião do Orçamento Participativo
pedindo, reivindicando, foi aprovada na assembleia, os adultos votaram no caso,
os adultos que apresentaram, votaram também as propostas das crianças.
Deste modo, podemos verificar que, nesta gestão, por meio dos processos participativos
populares com adultos e das formações sobre os direitos das crianças, foram iniciados os
processos de reflexão sobre a participação infantil, assim como as primeiras ações em relação à
ampliação dos Grêmios Estudantis e a participação das crianças nos Orçamentos Participativos.
Como já se apresentou anteriormente, Celso Daniel, reeleito prefeito para a gestão 2001-
2004, para dar continuidade ao trabalho que vinha desenvolvendo, foi assassinado em 2002 e o
128
O grêmio foi sinalizado formalmente no Regimento Comum das Escolas Públicas Municipais: Da
Gestão Democrática Capítulo I Dos Princípios Art. 9º - Os Conselhos de Escola e os Diretores de Unidade
Escolares empenhar-se-ão na criação de condições
(SANTO ANDRÉ, 1998b) e antecede o Conselho Mirim.
129
O docu
pesquisadora em 29/08/2016, durante um diálogo inicial para a elaboração do projeto de pesquisa.
123
vice-prefeito eleito, João Avamileno, assumiu como prefeito. Este fator implicou em algumas
mudanças no quadro administrativo da SEFP, como se verá a seguir. Foi na gestão Avamileno que
ocorreu a ampliação dos grêmios estudantis para um número maior de escolas, o uso efetivo do
nome Conselho Mirim e sua realização na Educação Infantil, com crianças de quatro e cinco anos.
Foi possível compilar muitos documentos e anotações pessoais sobre este período130,
principalmente a partir da entrevista com Cassia Manchini. Em 2002, a Lei nº 8.376 foi aprovada,
transformando os Conselhos de Escola em personalidade jurídica própria, responsável pela gestão
do repasse das verbas municipais, estaduais e da união, o que acarretou uma reportagem, em
mocrática da Educação131 [...] um
130
Por exemplo, 2001), que explica sobre o desenvolvimento da
Lei 7.854/1999 que o instituiu, seus objetivos, e convida as pessoas a participarem das eleições das EMEIEFs
(16/03/2001).
131
Na publicação, há um breve histórico do processo no município, e, nas páginas finais, constam as leis que
embasaram a sua instituição e organização.
132
Este FSM foi realizado em janeiro de 2001 na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
133
A entrevistada não encontrou o documento e na busca na Internet não foi possível localizar a experiência por
ela relatada.
124
ter esse papel. Não só no Conselho Mirim. (Cassia Manchini, 2019, trecho da
entrevista, p. 3).
podendo ser a DUE, a AP ou uma professora. Essa mediadora participava das formações
regulares, mensais ou quinzenais, nas quais eram debatidos modelos de organização e formas
de incentivar as crianças a participarem do Conselho Mirim. Lembra:
E aí tinha esse movimento. Era difícil, porque, qual era a lógica? As crianças
que participavam da reunião de Conselho Mirim, tinham que voltar pra sala
e compartilhar. E a gente conversava muito isso com as crianças. Das oficinas
de jogos cooperativos, de tudo isso. Então eles começaram esse movimento
na sala de aula. Então teve que ter formação para professor... ter um
acompanhamento de tudo isso. (Cassia Manchini, trecho da entrevista, 2019,
p. 6).
Foram diversos os documentos fornecidos por Cassia, após sua entrevista, que
colaboraram para a compreensão histórica dos Conselhos Mirins, dentre os quais pode-se
destacar três documentos de 2003.
O primeiro é uma
134
A Educação Infantil não apresentou candidatos, mas participou da votação.
125
do Ensino Fundamental e Educação Infantil. Esclarece que as oficinas tiveram como objetivo
desenvolver a convivência com as diferenças, por meio da mediação de conflitos e diálogo, que
aconteceram em quatro etapas, de setembro a dezembro, em oito EMEIEFs, e que, ao final dos
encontros, um conselheiro de cada escola representava sua unidade fazendo uma avaliação
crítica do dia. Sobre a avaliação, o texto aponta que faltaram esclarecimentos para as crianças
sobre a função de um conselheiro mirim, assim como foi possível perceber que
[...] na maioria das escolas não havia um esclarecimento acerca do Projeto
desenvolvido pela Secretaria da Educação com os Conselhos Mirins. Para que
este projeto se torne vivo e presente na vida educacional dos alunos se faz
necessário uma maior conscientização e envolvimento no âmbito geral escolar
tanto com os professores, funcionários e comunidade geral. (SANTO
ANDRÉ, 2003b, n.p.).
Ao final, o relatório sugere a necessidade da formação com as professoras, para
compreenderem a importância do projeto, pois, devido à relevância para o desenvolvimento das
crianças, é preciso haver continuidade. Cabe destacar que as profissionais que assinam a
avaliação se declaram como da área da saúde.
Do ano de 2004, há 19 documentos, entre anotações pessoais, e-mails, sínteses,
relatórios e convites, que relatam algumas ações dos Grêmios Estudantis ou Conselhos Mirins.
Seguindo a ordem cronológica e tendo como parâmetros as datas indicadas nos documentos,
evidencia-
êm como objetivos a instituição dos Conselhos Mirins; a troca de
experiências entre as escolas; subsídios às mediadoras e fortalecimento da articulação entre os
Conselhos de Escola, as professoras e o Conselho Mirim. O texto informa sobre os oito
encontros planejados durante o ano, realizados mensalmente, de maio a dezembro, e contém
uma relação do histórico anual da constituição dos Conselhos Mirins nas EMEIEFs, que, então,
totalizam doze, a saber: um em 2001, dois em 2002, cinco em 2003 e cinco até maio de 2004.
Nas anotações pessoais, Cassia Manchini (2004)136 [...] as professoras estão
se envolvendo, algumas mais outras menos [...]
demonstrando que havia uma discussão da participação como um direito a partir do ECA, como
135
Documento pessoal fornecido por Cassia Manchini em sua entrevista cedida à pesquisadora em 24 de janeiro
de 2019.
136
Documentos do acervo pessoal de Cassia Manchini, fornecidos na entrevista cedida à pesquisadora em 24 de
janeiro de 2019.
126
demonstrado anteriormente nos relatos das entrevistas. Há, nas anotações dos encontros com
as/os mediadoras/es, frases sobre a discussão137 em relação à diferença entre Grêmio Estudantil
(1) e Conselho Mirim (2), que trazem diferentes características para cada uma das modalidades.
O Grêmio é visto como uma organização que tanto pode gerir as verbas para os eventos na
escola quanto participar de festivais e, nesse sentido, as crianças são mais independentes devido
à idade, além de quererem fazer parte, por considerarem ser um status entre as demais crianças.
O Conselho, por sua vez, pode ser considerado como embrião do Grêmio Estudantil,
relacionado à função de representante de sala e à representação da escola, ao aconselhamento e
decisão, ao olhar da criança para a equipe, escola e PPP, isto é, ações articuladas pelas crianças
sem intervenção dos adultos. Há registro de falas como: [...] o Grêmio assusta menos o
Conselho dá a impressão de que deve ser mais comportado [...] ou [...] as crianças não
queriam algo tão formal [...] , que parecem discutir o modelo de construção e funcionamento
dos Conselhos Mirins, e, ao final, fica como proposta futura a construção de um regimento e
planejamento de ações.
Por meio dos documentos, é possível verificar que, no dia 27 de maio de 2004, foi
137
Que contou com a participação de algumas famílias no período da manhã.
138
Escola Municipal de Educação Ambiental Parque Tangará Parque Escola. Para mais informações, consultar:
[Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
139
A SEFP enviou uma carta de agradecimento a todas as equipes que apoiaram a realização do encontro e às
crianças, pré-adolescentes e adolescentes das escolas participantes, num total de 300 participantes, de 14
EMEIEFs. Na carta, afirma-se que o encontro foi uma aula de cidadania ministrada pelas crianças e se sugere
a troca de nomes e telefones entre elas, para estreitar a comunicação por e-mail, cartas ou pessoalmente.
127
estudantes, e ações participativas, como falar para o prefeito o que pode ser mudado na escola,
fazer reuniões para discutir assuntos importantes, levar as ideias dos/as estudantes, discutir
problemas e resolvê-los. As respostas à segunda questão demonstram que ser Conselheiro ou
Gremista é algo positivo, indicando conceitos como ajudar, dar bom exemplo, ser divertido, dar
conselhos, ser uma função importante, entre outras. Em relação à participação, é possível
elencar algumas respostas principais, como ter o direito de mudar a escola, ter muita
responsabilidade, defender os direitos dos outros, ser representante dos alunos.
Ao final da síntese, a equipe da SEFP sugere que as respostas sejam discutidas com as
crianças para socializar as informações e fortalecer a atuação na Unidade Escolar. Em ordem
cronológica, ao encontro se seguiu uma formação com as mediadoras, para uma reflexão sobre a
síntese das respostas das crianças e uma avaliação do encontro dos conselheiros, que possibilitou
elencar temas para as formações seguintes e rascunhar o regimento dos Conselhos Mirins, com
elementos para a organização de reuniões; as atribuições no processo eleitoral; as esferas de decisão
e características que os conselheiros, conselheiras e gremistas deveriam ter ou desenvolver.
O último
grupo de mediadores de Conselho Mirim ou Grêmio Estudantil a partir da sistematização do 1º
encontro de Conselheiros Mirins e Grêmios Estudantis de Santo And s
dos Conselhos Mirins ou Grêmios Estudantis:
a) ajudar a escola ficar melhor: na higiene, na manutenção, no ensino, na biblioteca e
na organização da rotina;
b) ajudar a todos a se respeitarem: criança/criança, adulto/adulto, adulto/criança,
criança/adulto (construção da cidadania), valorizando o trabalho em grupo;
c) organizar o espaço de socialização de brincadeiras, coisas novas, materiais;
d) conhecer, discutir e encaminhar os problemas da escola coletivamente;
e) exercer a representatividade;
f) participar das decisões / planejamento / avaliação do Projeto Político-Pedagógico da
escola;
g) integrar ações com o Conselho de Escola;
h) multiplicar ações, conceitos, e valores vivenciados no Conselho.
Observa-se que, embora os objetivos apontem o respeito à interação entre as próprias
crianças (cultura de pares) e com os adultos (geracionais), o conceito de representatividade e a
integração com as outras arenas decisórias e participativas da escola ainda trazem ações ligadas
ao auxílio na organização da escola, como, por exemplo, a manutenção da higiene, objetivo de
todas as crianças e não somente das conselheiras e conselheiros.
128
140
Em relação a
uma plenária, em 26/08/2004, sobre como as redes de saúde, educação, assistência social atuam na prevenção
de violência contra crianças, adolescentes e mulheres. O convite indica que o encontro auxiliará a atuação dos
conselheiros de escola. Dentre os documentos cedidos por Cassia Manchin
aos
sábados de setembro daquele ano.
129
Mirins a todas as ações da escola, mas não preveem formação das professoras, como indicava
o relatório de avaliação do grupo de profissionais da saúde abordado anteriormente, no entanto
essa formação ocorreu paralelamente.
Com data de setembro de 2004, foram encontrados relatos/avaliações do Conselho
Mirim desenvolvido em três escolas. Na primeira, um e-mail informa que foram eleitos um
representante e um suplente de cada sala, que se reúnem uma vez por mês para debater assuntos
elencados pelas crianças, e que muitas sugestões estavam sendo aplicadas na prática, como a
reorganização do espaço de leitura, melhorias no recreio, confecção de cartazes para consumo
consciente de água e sugestão de atividades corporais e artísticas. Finaliza, afirmando que é um
exercício saudável de cidadania e traz frases das crianças participantes. A segunda, por meio de
relatório, indica que foram realizados vários encontros durante 2004 e que estão sendo
construídas ações para desenvolver a participação mais efetiva das crianças. Acrescenta que as
crianças demonstraram satisfação em integrar o Conselho Mirim e elenca as ações dos
monitores141: não deixar as crianças correrem no recreio, ajudar os professores na sala de aula,
organizar os livros da biblioteca e auxiliar no registro e controle do empréstimo da Biblioteca
Circulante, dentre outras. Novamente é possível identificar uma participação associada à
realização de tarefas, como ajudante, não havendo indicação da participação em processos
democráticos, como conversar com os colegas, reunir-se com o Conselho de Escola, ou dialogar
com a gestão para tomadas de decisão. O relatório da terceira escola traz uma avaliação 142
realizada com as crianças por meio de tarjetas vermelha, amarela e verde, para indicar o que foi
bom ou não num encontro realizado.
Há um documento com a programação do II Encontro de Conselheiros Mirins e Grêmio
Estudantil das EMEIEFs de Santo André143, que orienta que cada grupo de crianças deverá
contar com dois adultos acompanhantes e que as famílias deverão autorizar a saída por escrito,
e tem como pauta atividades como pintura de tecido do autorretrato, assistir um filme, teatro,
dinâmicas e relato das ações desenvolvidas pelos Conselhos Mirins. Indica que, como produto
final, os autorretratos se tornarão as bandeiras de cada escola, simbolizando o Conselho Mirim.
Em encontro ocorrido com as mediadoras, em dezembro de 2004, foi realizada uma
avaliação sobre as formações ofertadas naquele ano e sobre o II Encontro dos Conselheiros
141
antes do 2º ano do
2º ciclo, ou seja, séries iniciais do Ensino Fundamental I.
142
Em vermelho, ficaram o lanche servido no encontro e as músicas; em amarelo, as músicas e a obediência à
responsável pela organização das brincadeiras; em verde, as brincadeiras.
143
Com a previsão de 137 participantes, a realizar-se no dia 6 de dezembro de 2004, no Centro de Formação de
Professores.
130
Mirins. As mediadoras consideram que é preciso ter mais espaços para trocas e formação,
ampliar a escuta das crianças, expandir a participação do CM em diferentes fóruns, não
subestimar o potencial das crianças e levantar temas com elas. Para 2005, planejam uma única
data de eleição para todas as escolas, em conjunto com o Conselho de Escola, com mandato de
um ano, e sinalizam a reflexão sobre um material de divulgação para todas as crianças sobre o
Conselho Mirim.
Outro documento fornecido por Cassia Manchini (2019), sobre 2004, é um relatório
sobre os encontros com as crianças dos Conselhos Mirins, organizados por uma equipe do
144
Conselho Mirim histórico do projeto. Documento escrito por Wagner Sussai em 29/08/2016, exclusivamente
para a pesquisadora, para a escrita do projeto de pesquisa.
145
A Rede URB-AL 9 teve como objetivo proporcionar um processo permanente de troca e aprofundamento de
experiências entre governos locais latino-americanos e europeus pela socialização, sistematização e
implementação das melhores experiências no âmbito do financiamento local e de práticas de democracia
participativa. Ver: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
146
Esta experiência está registrada no livro Orçamento Participativo Criança, que, de acordo com os autores e
organizadores, teve como objetivo registrar as reflexões e sua história para que possa contribuir com outras
realizações futuras. Ver: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
132
147
A escolha das crianças participantes foi realizada em sorteio ou em votação; esta, a partir de características
como crianças com liderança democrática ou com acúmulo de cultura participativa.
133
Este período contou em sua gestão municipal com o prefeito João Avamileno (PT),
dando continuidade a seu mandato. Como caraterística inovadora para o momento histórico, o
município teve como vice-prefeita Ivete Garcia (PT), a primeira mulher a exercer o cargo no
município148.
Algumas alterações ocorreram na SEPF, a começar em julho de 2005, quando foi
Auxiliadora passa a atuar em
EMEIEF como AP e, em 2006, retorna para o cargo de professora na EJA. Cassia Manchini,
também em julho de 2005, passa a atuar como AP de uma EMEIEF.
Para este período, foi possível compilar os documentos149 que se seguem. O primeiro é
uma carta produzida pela SEFP, em julho de 2005, endereçada às crianças dos Conselhos
Mirins/Grêmios Estudantis, que explica que, conforme combinado, entregaram para cada escola
participante uma bandeira que foi produto do II Encontro de Conselhos Mirins e Gremistas
Estudantis (2004), confeccionada por uma mãe voluntária que realizou a costura das diversas
pinturas que a integram e, ao final, agradece a participação das crianças. Este documento é o
único que trata diretamente dos Conselhos Mirins e Grêmios Estudantis, e corresponde à data
na qual ocorreu a modificação do grupo de trabalho que geria as relações de Gestão
Democrática, como tinha apontado Cassia Manchini em entrevista.
Um segundo documento, Gestão Democrática dos Conselhos de Escola: Diretrizes
Básicas do Convênio entre a Prefeitura de Santo André e os Conselho de Escola, contém
orientações a respeito de toda organização formal do uso da verba dos Conselhos Escolares, com
explicações legais sobre o convênio para o repasse da verba, orientações de prestação de contas
e sugestões de compras, e não faz nenhuma menção aos Conselhos Mirins ou à participação das
crianças. Em sua apresentação, afirma-se que a Gestão Democrática é a orientação da gestão
municipal e indica- que os Conselhos de Escola possam gerir os recursos
150
(SANTO ANDRÉ, 2006, p. 1).
148
no PPP, mas não foi possível identificar qualquer menção à participação das crianças ou às
ações dos Conselhos Mirins. Maria Auxiliadora (2019) relata que naquele período houve uma
diminuição nas ações voltadas para a participação, articuladas com um projeto de gestão
pública, mas que os Conselhos Escolares tiveram continuidade, também devido ao vínculo com
o repasse da verba municipal. Em sua entrevista, Wagner Sussai (2019, trecho da entrevista, p.
5-6) fala sobre uma ação relacionada à participação das crianças no Orçamento Participativo:
Uma EMEIEF, por exemplo, não tinha quadra, então as crianças se
mobilizaram na época e pediram uma quadra. Então a prefeitura não
conseguiu a partilha do terreno do Estado apesar de ser da Prefeitura, e teve
que comprar um terreno particular mesmo ao lado da escola para conseguir
a quadra, e foi feito também. Se não me engano foi em 2006 ou 2007.
Pode-se considerar que houve uma diminuição nas publicações das ações municipais
em relação à gestão anterior e, com a alteração dos integrantes da Gestão Democrática, houve
uma modificação no trabalho em relação aos Conselhos Mirins. Há indícios de uma fragilidade
em relação ao fomento da participação infantil em arenas democráticas institucionalizadas,
como política pública ou objetivo da gestão, demonstrando que diferentes concepções sobre as
crianças e infância são capazes de alterar as arenas democráticas a favor ou não da participação
infantil, ainda que em um mesmo projeto político.
Sobre a participação infantil nas creches e escolas, analisaremos a constituição e as
concepções dos Conselhos Mirins no capítulo a seguir.
151
Programa desenvolvid
da América do Sul em prol da integração, do desenvolvimento e do bem-estar. Na ocasião, as crianças foram
selecionadas por meio da escrita de uma redação sobre o Mercosul. Para mais informações, acessar:
[Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
135
No Brasil, à época, havia sido reeleita Dilma Rousseff, do PT, para a presidência, sendo
a primeira mulher a ocupar o cargo. Não chegou a completar o segundo mandato em razão de
um impeachment, que pode ser lido como um golpe, pois esse acontecimento político deixou
claras as fragilidades da democracia brasileira, desde a promulgação da CF88153.
Para este período, foi possível compilar um número volumoso de documentos,
totalizando 89 arquivos que, como nos demais períodos, serão apresentados e comentados em
ordem cronológica. Diferentemente das gestões anteriores, nas quais foram incluídos os
Conselhos de Escola e Gestão Democrática, neste período, o objetivo será focalizar somente as
ações com as crianças154, à diferença do capítulo anterior, que caracterizou o plano democrático
para o conjunto de cidadãos e cidadãs.
152
2013
pessoal de Nestor Guerra.
153
Acredita-se que o Golpe de 2016 não aconteceu apenas motivado pela luta econômica ou por disputas na
institucionalidade política, mas foi produzido também por embates culturais e por uma forte reação à conquista
de direitos que determinados segmentos da sociedade vinham adquirindo durante os governos petistas,
conforme análises realizadas em diversos livros sobre a questão. Ver Miguel (2019).
154
A gestão produziu um número excessivo de documentos, tratados a partir de critérios de seleção, descritos na
metodologia, no Capítulo 3.
136
-se o objetivo de
26. Articular e fortalecer os diversos espaços de participação: conselho de
escola, conselho mirim, conselho municipal de educação, conselho de
FUNDEB, conselho de alimentação escolar, conselho tutelar, conselho
municipal das crianças e adolescentes, fórum municipal de educação e
cidadania, entre outros relacionados à rede de proteção à infância e à
adolescência. (GRANA, 2012, p. 51, grifo nosso).
O Conselho Mirim aparece, dessa forma, como proposta a ser consolidada em sua
gestão, o que Carlos Grana (2019, trecho da entrevista, p. 1) reforça na entrevista, dizendo que
[...] a experiência já vem com a referência do governo do nosso saudoso prefeito Celso Daniel,
que constituiu os Conselhos Mirins nas escolas e na rede municipal de Santo André como um
todo.
Um documento que nos auxilia na compreensão histórica do percurso é de 2013 e trata
da construção do Plano Plurianual (PPA). O relatório Santo André Utópica: Subsídios ao PPA-
Santo André Gestão Carlos Grana traz pesquisa realizada, no início de fevereiro de 2013,
com 14 grupos de discussão formados por cidadãos e cidadãs andreenses de 18 a 64 anos de
idade, de diferentes regiões do município, sobre saúde, educação, cultura e meio ambiente. Os
registros foram utilizados para a compreensão de qual projeto de sociedade se esperava que
fosse construído, qual era a leitura da realidade e suas problemáticas e quais eram as
expectativas das pessoas em relação à gestão.
155
Documento disponibilizado de acervo pessoal por Carla Oliveira.
156
157
158
O Plano Plurianual (PPA), previsto na CF88, é documento que contém o planejamento para desenvolvimento
das ações e políticas públicas para o período de quatro anos, incluindo as questões orçamentárias.
137
159
- Santo André Gestão Carlos Grana
(
160
Neste período, a SEFP passa a ser designada somente como Secretaria da Educação (SE). Para melhor
compreensão da sua estrutura, consultar o organograma no Anexo C.
138
161
Rascunho de artigo cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
139
162
Caderno do PPA Participativo Santo André 2014-2017.
163
E-mail do acervo pessoal cedido por Nestor Guerra.
164
Trecho da carta de solicitação, documento do acervo pessoal cedido por Nestor Guerra.
165
Documentos do acervo pessoal da pesquisadora.
140
168
t nas EMEIEFs, creches municipais e conveniadas, num cronograma determinado
pelas fases169 que irão compor o processo:
166
167
Consultar o modelo no Anexo A.
168
Trata-se de uma cartilha destinada a crianças sobre o Orçamento Público, lançada pelo Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão e Secretaria de Orçamento Federal em 2012. Atualmente seu acesso não
está mais disponível no site do Ministério da Economia.
169
Existe um vídeo publicitário que contém fotos de todas as fases, com a participação das crianças desde as
escolas. Nele é citado que houve a criação de um Fórum Municipal do Orçamento Participativo Criança 2015-
2016, mas não foi possível encontrar mais nenhum documento sobre este processo.
141
1ª fase
e escolhem uma demanda para a
educação, uma para o bairro/região e uma para a cidade; elegem dois representantes
para a Plenária Regional;
2ª fase Encontros ou Plenárias Regionais definem três demandas, uma para educação,
uma para bairro/região e uma para cidade, e elegem dois representantes;
3ª fase Plenária Regional do OP 2015, com diálogo com o prefeito e secretários;
4ª fase crianças eleitas, mais três crianças por escola e um representante do Conselho
de Escola, tomaram posse como Conselheiros Municipais do OP-Criança 2015, com a
presença do prefeito;
5ª fase entrega da Peça Orçamentária 2015 à Câmara Municipal, visita aos gabinetes
e conversa sobre o funcionamento da Câmara;
6ª fase reunião com o prefeito e secretários, para prestação de contas ao Conselho
Municipal do OP-Criança, com a explicação sobre quais demandas foram incorporadas
no OP municipal;
Todas as fases ênfase na cartilha para que houvesse uma reunião com todas as crianças
no retorno das ações, a fim de informá-las e escutá-las, efetivando a representação.
É interessante notar que se trata do primeiro documento com a inclusão das creches,
municipais e conveniadas. Na entrevista, Wagner Sussai (2019) explica que foi realizada uma
tentativa de parceria para a inclusão das escolas estaduais, mas não houve sucesso. Com as
escolas particulares, foi firmada parceria com uma escola de Educação Infantil e uma creche.
Sobre o processo do OP-Criança, Carlos Grana (2019) conta que, com a ampliação da
participação para a cidade, as crianças puderam opinar sobre questões para além da escola,
debatendo transporte, o bairro, serviços públicos, políticas públicas, saúde e educação. Diz ele:
E aí, a partir do segundo ano, a gente já começou a realizar e atender as
reivindicações. Então, o que chamou a atenção foi isso, a gente tem que
criar um mecanismo que as crianças também participem, não só através dos
cartazes, das mensagens, as cartas que me mandavam. Foi então, que a
gente começou a criar reuniões também, exclusivas com as crianças, foi o
que nós chamamos de OP Mirim. E aí, eram reuniões com elas, então,
normalmente elas faziam, durante um período, reuniões entre elas,
subdividiam grupos na sala de aula, cada um preparava e elegiam
representantes para levar até o gabinete do prefeito. (Carlos Grana, 2019,
trecho da entrevista, p. 1).
Acrescenta que a participação das crianças influenciou a participação das famílias e
comenta que [...] teve prioridades do OP dos adultos, que priorizaram, justamente, as
sugestões das crianças. Era fantástico, elas envolveram os pais, chegavam e diziam: Pai, você
142
tem que ir lá votar na prioridade que é da nossa escola (Carlos Grana, 2019, trecho da
entrevista, p. 2).
Em relação à origem do movimento de inclusão e destaque das crianças, Grana (2019),
Sussai (2019) e Silvério (2019) dizem que foi um movimento inédito, que teve como referência
o OP com adultos, o que parece indicar um desconhecimento sobre o OP-Criança realizado no
município de São Paulo, citado no capítulo anterior.
Sobre o conjunto de documentos, pode-se destacar um artigo sobre as Cidades
Educadoras, com os objetivos de Santo André, elaborados a partir das necessidades apontadas
pelos munícipes e seu histórico na AICE; outro apresenta dezessete desafios para Santo André
no período 2013-2017, de onde foi retirada a epígrafe deste capítulo; outro ainda consiste no
Duas outras revistas, também de 2014 (Santo André Cidade Educadora e Cidadania &
Educação: Revista da Secretaria de Educação da Prefeitura de Santo André Ano I),
participação de alunos (crianças, jovens ou adultos), das famílias, equipes gestoras, professores,
funcionários e a comunidade, para promover e incentivar práticas democráticas. Cidadania,
SANTO ANDRÉ, 2014c, p. 7).
170
Dentre os documentos de 2015 obtidos para a pesquisa estão dois e-mails de escolas que indicam o nome dos
conselheiros que irão representar o Conselho Mirim na reunião com o prefeito, assim como uma foto de uma
reunião do CM de uma EMEIEF, na qual as crianças estão discutindo junto com um adulto.
171
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
144
172
Summerhill foi uma escola fundada por Alexander Sutherland em 1921, na Inglaterra, e incentivava a
participação das crianças na escolha e condução de sua aprendizagem.
173
A Escola da Ponte foi inaugurada em 1976 por José Pacheco, em Portugal, e tem como base a participação das
crianças e comunidade nas questões pedagógicas e da rotina escolar, principalmente por meio de assembleias.
174
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
145
Ainda sobre a AICE, foi elaborado, em julho, um relatório da Oficina Rede Cidades
Educadoras, realizada com representantes das diferentes secretarias 175 que, juntas, analisaram
quais de suas ações poderiam ser consideradas para a AICE, planejando outras ações, além dos
Conselhos Mirins e OP-Criança, para ampliar a participação.
Sobre os Conselhos Mirins, há diversas referências, como um rascunho de artigo
explicativo176, que reconhece que as
[...] crianças, por terem o contato mais íntimo com a escola, têm autoridade
para propor soluções para os problemas que surgem. Quando as(os) alunas(os)
se reúnem para identificar, compreender e propor soluções para os problemas
que se apresentam na Escola, dão o primeiro passo para a criação de uma
ferramenta poderosa de melhoria de vida: o Conselho Mirim.
O Plano de Educação de Santo André Metas 2015 2016 (Lei nº 9.723, de 20 de julho
de 2015), que indica as metas e estratégias municipais para serem executadas em dez anos, traz
em sua Meta 08, Estratégia 18.13:
Assegurar, em todas as unidades escolares do município, a constituição e o
fortalecimento dos conselhos mirins, grêmios estudantis e associação de pais,
assegurando-lhes, inclusive, espaços adequados e condições de
funcionamento nas escolas e fomentando a sua articulação orgânica com os
conselhos escolares, por meio das respectivas representações. (SANTO
ANDRÉ, 2016c, p. 99).
Outras estratégias complementam a participação das crianças:
18.14 Constituir fóruns municipais de participação das organizações
estudantis e associações de pais, para fortalecimento e integração de ações,
junto aos espaços de discussão, elaboração e definição das políticas públicas.
18.24 Garantir uma gestão democrática com participação dos(as) alunos(as)
nos conselhos de escola, conselhos de ciclo, grêmios estudantis e/ou conselhos
estudantis, permitindo aos alunos avaliarem o trabalho da escola e dos
professores. (SANTO ANDRÉ, 2016c, p. 99 e 102).
A articulação dos Conselhos Mirins aos Conselhos de Escola coloca crianças e adultos
deliberando sobre questões comuns, ou seja, participação infantil e participação adulta em
diálogo. O Plano de Educação tornou-se, assim, um avanço na formalização da garantia do
direito à participação na legislação específica do município.
175
Secretaria de Segurança Urbana e Comunitária (SSUC), Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM),
Secretaria de Mobilidade Urbana, Obras e Serviços Públicos (SMUOSP), Secretaria de Educação (SE), Serviço
Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (SEMASA), Secretaria de Governo (SG), Secretaria de
Cultura e Turismo (SCT), Secretaria de Saúde (SS), Secretaria de Inclusão e Assistência Social (SIAS),
Secretaria de Esporte e Lazer (SEL).
176
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra, escrito pela equipe do NGD.
146
177
Ver mapa da região com seus municípios no Capítulo 3.
178
Entrevista cedida à pesquisadora no dia 25 de janeiro de 2019.
179
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
147
Meio Ambiente, 7% para Esporte e Lazer, 7% para Cultura e Turismo, 7% para Segurança, 7%
para Saúde, 7% para Desenvolvimento Econômico, 13% para Obras e Serviços Públicos e 40
. Após a apresentação na Comissão Municipal de Planejamento Participativo
(CMPP), houve a aprovação de 80% das diretrizes na íntegra, 13% de modo parcial, devido às
questões técnicas, e 7% não foram incorporadas, devido ao custo.
A implementação e as ações políticas e pedagógicas decorrentes dos Conselhos Mirins
permaneceram ativas, como sinônimo de democracia e qualidade na educação. Além do 1º
Encontro de Conselheiros Mirins, em Paranapiacaba (SP), alguns artigos com quantidades de
participantes ou com sugestões de procedimentos para sua organização, propostas e
reconhecimento das demandas de cada escola, foram publicados pela administração municipal,
além de textos que traziam as movimentações dos Conselheiros Mirins e informações sobre os
processos eleitorais.
180
peito às crianças como cidadãs do
presente, argumentando que
[...] enquanto na maioria dos locais, a criança é ainda tratada como na época
medieval, em Santo André é considerada mais do que um cidadão do futuro,
mais do que o futuro do homem , como prega o relatório Dellors, da
UNESCO. Aqui, ela é cidadã e dá prova disso cotidianamente.
Relata ainda que as crianças participaram da Conferência Municipal dos Direitos
Humanos da Criança e do Adolescente, que uma criança foi eleita como delegada para a
Conferência Estadual e que 14 crianças representantes tinham sido convidadas a participar de
reunião ordinária do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.
O princípio da cidadania exercida pelas crianças no presente também estava
representado nas ações do OP-Criança e no discurso do Secretário da Educação 181, ao
considerar que
Na atualidade, alguns governos mais progressistas como o da Prefeitura
Municipal de Santo André resolveram desafiar esta prática. A partir de 1991,
de forma pontual e embrionária desenvolveu-se uma experiência na qual os
alunos foram convidados a expressar-se, a falar, a identificar problemas e
propor soluções. É de admirar crianças de 3 a 10 anos de todas as regiões da
cidade em Plenária do OP (Orçamento Participativo) empunhar o microfone e
apresentar diante de representantes da população e das autoridades suas
reivindicações e suas propostas.
180
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
181
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
148
182
No vídeo, há referência de que esta ação foi exibida em um programa da Rede Globo de Televisão, mas a
matéria não foi encontrada.
149
183
Assegurar, em todas as unidades escolares do município, a constituição e o fortalecimento dos conselhos
mirins, grêmios estudantis e associação de pais, assegurando-lhes, inclusive, espaços adequados e condições
de funcionamento nas escolas e fomentando a sua articulação orgânica com os conselhos escolares, por meio
das respectivas representações. (SANTO ANDRÉ, 2016c, p. 99).
184
ação e de ação para o Conselho Mirim 2016 Emeiefs e
Creches
de Nestor Guerra.
185
A creche que utilizou o quadro com cargos atende crianças de quatro e cinco anos de idade, a mesma idade das
crianças do Ensino Fundamental atendidas na EMEIEF e que receberam o quadro qualitativo com cargos.
150
A respeito das formações, estas aconteciam tanto com as crianças como com os
adultos186. Em relação às crianças, uma delas, organizada para os/as conselheiros/as mirins que
participavam também dos Conselhos Escolares, foi objeto da pesquisa de mestrado187 de Denise
Castellani, que coordenava o Núcleo da Gestão Democrática. De acordo com Castellani (2017),
foi realizada em três encontros que abrangiam a leitura da realidade das escolas e uma reflexão
sobre o papel dos/as conselheiros/as mirins, uma reflexão sobre a escola que queriam e a
realização de propostas com prioridades e planejamento de ações, numa assessoria do
ção_Urbana188
1) fomentar o pertencimento das crianças ao meio em que habitam; 2) estimular
o exercício da democracia participativa nos alunos da rede pública; 3) ampliar
o papel das crianças como protagonistas das políticas da Secretaria de Educação
de Santo André e 4) capacitar os Conselheiros Mirins para sua participação
qualificada dentro dos conselhos escolares. (CASTELLANI, 2017, p. 92).
Fundação Abrinq189, que previa premiar gestores municipais que tinham como metas:
1. Desenvolver a política de forma planejada, participativa, intersetorial e
duradoura;
2. Criar e/ou fortalecer a atuação do Conselho Municipal dos Direitos,
Conselhos Tutelares, Setoriais e do Fundo Municipal da Criança e do
Adolescente;
3. Priorizar a destinação orçamentária para a infância e a adolescência; 4.
Estabelecer, ampliar e fortalecer a relação entre Executivo Municipal, Ministério
Público, Poder Judiciário, Legislativo e organizações sociais, articulando uma
Rede Municipal de Proteção Integral às crianças e adolescentes;
5. Estimular a participação social de crianças e adolescentes. (FUNDAÇÃO
ABRINQ; SAVE THE CHILDREN, 2012, p. 6).
186
Nas formações com os adultos, integrantes dos Conselhos de Escola, destaca-se um encontro no qual assistiram
e refletiram sobre o filme Niños incómodos186 (Crianças incomodadas), lançado por um movimento chamado
Por un México del Futuro, em 2012. Protagonizado por crianças que atuam interpretando papéis de adultos,
pretende demonstrar uma sociedade com muitos problemas, corrupção, tráfico, violência, dentre eles, e
questiona se os candidatos à eleição para a presidência concorrem para trabalhar para seus próprios partidos e
interesses ou por um futuro melhor para o país. O vídeo repercutiu porque gerou discussão sobre os verdadeiros
objetivos do grupo responsável pelo lançamento do vídeo e também sobre a questão da ética da atuação das
crianças. Para mais detalhes, consultar: [Link]
187
Para maiores informações da avaliação das crianças sobre a formação, consultar Castellani (2017).
188
Empresa especializada, coordenada por Ana Paula Lepori. Para mais informações, consultar:
[Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
189
P mente os
prefeitos e prefeitas que assumem a criança e o adolescente como prioridade na gestão municipal, desenvolvendo
políticas públicas e planos de ação voltados a defesa e efetivação de seus direitos, fortalecendo os mecanismos
preconizados pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança e pelo Estatuto da Criança e do
Para maiores informações, consultar: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
151
190
O Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP) é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos e
não partidária. Entre suas ações, descrevem que investem na participação infantil e comunitária. Para mais
informações, consultar: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
152
Em dezembro de 2016, foi publicada a Lei nº 9.900, que instituiu os Conselhos Mirins
nas unidades escolares de Santo André (SP).
[...] essa formação precisa ocorrer de forma democrática, com candidatos, campanha, votação
e eleição de seus membros, definindo quem pode ser candidato, quem pode votar e quantos
poderão se
Na Lei nº 9.900/2016, não há uma padronização de como realizar os processos eleitorais,
porém no Capítulo IV Organização e composição Art. 5º, há a recomendação de alguns
itens que devem ser considerados: o número de integrantes deve ser definido de acordo com o
número de turmas/grupos, respeitando a representatividade de ambos os períodos, matutino e
vespertino, e não há limite definido de integrantes; a equipe gestora deve escolher um/a
mediador/a; a equipe gestora organiza o processo de escolha, isto é, normas, datas e condições;
a eleição deve ocorrer no mês de março de cada ano letivo; os mandatos têm validade de um
ano, prorrogáveis por mais um, e, caso haja desistência ou transferência da criança, um suplente
assume (não havendo suplente, o grupo de crianças pode escolher um novo integrante); e a
realização de assembleia geral das crianças para a elaboração de regimento interno próprio.
153
O mesmo Capítulo IV, Art. 6º, orienta que este regimento deve conter o processo de
escolha das crianças conselheiras, ou seja, o tipo de processo de escolha, os prazos para
manifestação e escolha, as datas de divulgação e posse; o processo de escolha das funções de
presidente, vice-presidente, 1º e 2º secretários, conselheiros/as; a sistematização do registro de
ata, assinada pelos integrantes; uma periodicidade mínima das reuniões; um limite de ausências;
publicidade para os demais segmentos com informações e processos formativos; regras de
convivência; e, no parágrafo único, determina que será conditio sine qua non a participação das
crianças conselheiras em eventos no período contraturno. Os procedimentos pós-escolha
itativo191
encaminhado para o NGD, e de uma relação sobre quantidade de alunos, número de salas,
quantidade de membros e data da posse.
A propósito dos cargos/funções, as EMEIEFs poderiam organizar seus Conselhos
Mirins de modo semelhante aos Conselhos de Escola, mas nas creches o quadro qualitativo
continha apenas os membros conselheiros. Sobre este tema, Cassia Manchini (2019), em sua
entrevista, considera que o uso dos quadros burocratizou o desenvolvimento dos Conselhos
Mirins, argumentando que não garantia a participação. Para Wagner Sussai (2019, trecho da
entrevista, p. 8), a expectativa do NGD era,
[...] na questão das EMEIEF, para que as crianças fossem já acostumando
com esse escrito, eles mesmos tocassem as reuniões deles, aquela questão
toda. Já na creche não, a creche precisa ter a tutoria realmente da pessoa
responsável pelo conselho na creche, porque eles são muito pequenos ainda.
Até por estarem traduzindo o que as crianças querem para a gente, então
esses tutores eram importantes nas creches. Então essa questão do presidente,
de vice-presidente de primeiro e segundo secretário eram mais uma
imposição para as EMEIEF. Para que eles já fossem acostumando com esses
títulos aquela coisa toda, até por conta de que a partir do sexto ano, eles vão
para outras escolas e no caso de ir para uma escola estadual tem o próprio
grêmio, que eles podem estar experimentando essa questão.
O Conselho Mirim, depois de constituído, realizava encontros mensais para discussão
de questões institucionais ou do bairro, em horário regular na creche ou escola, com o/a gestor/a
responsável. Nas EMEIEFs, em sua maioria, a responsabilidade era do/a vice-diretor/a, e nas
creches, como não havia este cargo, a responsabilidade poderia ser do/a Diretor/a ou do/a
Assistente Pedagógico/a. O Capítulo IV, Art. 7º trata das funções do/a mediador/a,
especificando que deverá ser um membro da equipe gestora e, entre suas atribuições, está o
apoio ao desenvolvimento, o incentivo às discussões e a orientação à comunidade sobre a
importância da participação infantil.
191
Para consulta dos quadros qualitativos, verificar Anexos A e B.
154
A participação das crianças, garantida como um direito, está presente no Capítulo IV,
Art. 5º, onselho Mirim compreende as
política pública, com o apoio do poder público, que inclui crianças pequenas e bem pequenas,
é um diferencial, comparado a outros municípios e outras iniciativas similares.
O acesso à minuta da lei possibilitou verificar alterações realizadas no seu projeto. A
Secretaria de Assuntos Jurídicos, Departamento de Técnica Legislativa, acrescentou dois
artigos:
Art. 12 - Compete à unidade escolar a qual estiver vinculado o Conselho
Mirim, a manutenção da infraestrutura básica necessária para o seu
funcionamento, bem como dar publicidade dos seus atos e deliberações.
Art. 13 - As despesas decorrentes da execução desta lei correrão por conta de
dotação orçamentária própria, suplementadas se necessário. (SANTO
ANDRÉ, 2016a).
A minuta foi aprovada pela Secretaria de Assuntos Jurídicos, pela Secretaria da
Educação, NGD, e encaminhada para a Câmara Municipal, que a sancionou no dia 30 de
novembro de 2016.
De acordo com a Lei, em seu Capítulo II Art. 3º, os objetivos do Conselho Mirim são:
I - despertar e incentivar nas crianças o espírito de coletividade, o trabalho em
equipe e a consciência cidadã, aliados à responsabilidade com o seu meio
social e às suas comunidades, num processo contínuo de aprendizagem e de
construção de valores humanos;
II - fomentar a participação cidadã nas escolas, para que os alunos possam
analisar o contexto social em que vivem, identificar seus anseios e
necessidades e apresentar sugestões para solucionar importantes questões
coletivas da escola, do bairro e da cidade;
III - criar espaços para o protagonismo infantil, oferecendo subsídios para que
as crianças e adolescentes possam elaborar e executar projetos de interesse
coletivo, quer sejam da comunidade intraescolar ou extraescolar, como
também da cidade;
IV - contribuir para o aprimoramento dos processos de ensino e aprendizagem
com vistas à construção de um sistema de ensino de qualidade. (SANTO
ANDRÉ, 2016a).
[...] prezar
pela construção de políticas públicas e zelar pela qualidade de ensino, considerando a escola
Além das reuniões, eram realizados formações, visitas e encontros, planejados pelo
NDG, nos quais as crianças conselheiras eram convidadas por critério de representatividade
(uma ou duas representantes por CM). Nessas ações, conversavam e refletiam sobre as questões
da cidade e das diversas unidades escolares/creches do município, trocando, entre pares e com
adultos, sugestões e demandas elencadas por elas.
Destaca-se que, tanto no projeto de lei quanto na lei em sua escrita final, ainda que a
importância dos Conselhos Mirins seja apontada para o desenvolvimento da aprendizagem das
crianças, sua ênfase está na questão da participação política, da vivência democrática e da
cidadania das crianças, isto é, não se restringe ao ambiente da creche ou da escola, mas o
extrapola, para atuação nas questões do bairro e da cidade. Pode-se constatar, em documentos
oficiais, em concordância com a lei, como, por exemplo, em Santo André (2014a, p. 9), que
assevera que, [...] para a consolidação da qualidade da educação e de uma gestão democrática
é indispensável a participação de alunos: das crianças, jovens e adultos, por meio de conselhos
192
Cópia da Minuta do processo do projeto de lei e Lei 9.900/16, cedida pela Prefeitura Municipal de Santo André
(SP), por meio do processo 9738/2019.
156
Sobre os Conselhos Mirins, há um relatório final das ações para a AICE, denominado
193
, que conta a trajetória das ações, objetivos,
resultados, e aponta que
O desafio para o futuro é possibilitar que o máximo de alunos possível possa
fazer a experiência de ser conselheiro, manter a metodologia de promoção dos
conselhos tendo em vista a renovação anual dos alunos. Criar mecanismos
para que eles possam participar das decisões relativas à região do Grande
ABC, composta por sete municípios.
Em relação ao OP-Criança e ao PPA- itativa e
Quantitativa do OP-Criança 2015-
29.890 crianças de três a dez anos de idade, de 51 EMEIEFs, 31 creches, uma creche conveniada
e uma escola particular de Educação Infantil, participaram do processo, organizado em três
fases. Das 252 propostas, permaneceram 66 após a segunda fase e que
55% tratavam de Políticas Públicas e já estavam em fase de implantação - 36
propostas; 21% das proposições referiam-se à Manutenção dos equipamentos
escolares e estavam contidas nos planejamentos das Áreas - 14 propostas, das
quais 01 não faz parte da política da Secretaria de Saúde (criação de um
hospital com atendimento só para crianças, que tenha brinquedos e doces).
Informa ainda que o Conselho Municipal Orçamentário (CMO) priorizou seis propostas
indicadas pelas crianças e elaborou um projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) que passou
193
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
157
por apreciação e aprovação da Câmara Municipal de Santo André, que consolidou o Orçamento
Participativo e o OP-Criança na forma da lei. O relatório194 considera que as crianças
demonstraram maturidade e autonomia na percepção das deficiências dos serviços públicos,
[...] mostraram-se um pouco dependentes dos adultos que suscitavam as
discussões e que, de uma forma ou outra, influenciaram nas determinações das propostas dessas
194
Documento cedido do acervo pessoal de Nestor Guerra.
195
Tratava-se de solicitação para aquecer todas as piscinas das EMEIEFs.
158
uma interpretação flexível em relação ao registro da ata, para que não exclua as crianças que
estão em processo da apropriação da escrita. Ao respeitarmos as crianças, podemos
compreender a ata em outras perspectivas, que não iguais às utilizadas em reuniões com adultos,
tais como desenho, fotografias, entre outros registros. A compreensão do registro, por meio da
escrita, pode sugerir que as crianças são capazes de participar somente quando se apropriam
totalmente da leitura e escrita.
De acordo com o Capítulo VI Art. 11,
As reuniões do Conselho Mirim terão, minimamente, periodicidade mensal,
conforme um calendário próprio, elaborado pelo mediador e pela equipe
gestora, sendo que as reuniões extraordinárias poderão ser feitas em qualquer
tempo, mediante deliberação coletiva, podendo ser convocada por quaisquer
de seus membros, obedecendo a prazo de divulgação para a comunidade
escolar de, no mínimo, 03 (três) dias. (SANTO ANDRÉ, 2016a).
É possível imaginar que as crianças poderiam ter uma participação ampliada na
construção do calendário, com o compartilhamento da decisão, indicando por exemplo, o dia
da semana ou o horário de preferência coletiva.
Capítulo VII Art. 13 As despesas decorrentes da execução desta lei correrão por
conta de dotação orçamentária própria, suplementadas se necessário (SANTO ANDRÉ, 2016a),
remete à ponderação sobre a execução das demandas do CM com autonomia, pois, como não
possuem uma verba própria, as crianças negociam suas ideias com os adultos do CE para
utilização da verba única destinada ao Conselho de Escola, ou seja, não há uma verba destinada
exclusivamente para o CM, para que as crianças gerenciem de acordo com suas prioridades.
Mesmo com os itens apontados, o CM ainda se apresenta como uma oportunidade de
participação política infantil importante para a garantia dos direitos das crianças e o exercício
de sua cidadania, que possui questões que podem ser modificadas para a melhoria da lei e das
ações desenvolvidas nas creches e escolas.
Como síntese, pode-se dizer que, no período 2013-2016, há um resgate das ações
iniciadas na gestão de Celso Daniel, como, por exemplo, as publicações físicas oficiais da
Secretaria da Educação e de outras secretarias, mesmo que não com a mesma periodicidade das
gestões anteriores. Percebe-se que as concepções de participação, democracia e gestão
democrática são retomadas e apontadas não apenas como legislação ou formalização, mas
também como princípio. Na mesma linha, foi desenhada a promoção da participação popular e
a construção de arenas democráticas para o direito de participação das crianças, como o OP-
Criança, o PPA-Criança, a representação das crianças nos Conselhos de Escola e o Conselho
Mirim, reconhecidas como políticas públicas e referendadas por meio da legislação.
159
196
Santo André está entre os 10 programas selecionados no Prêmio Cidades Educadoras 2022. Segundo a atual
secretária da Educação, Cleide Bauab Eid Bochixio,"É uma grande satisfação divulgar que Santo André teve
o Projeto do Parque Escola, voltado à Educação Ambiental, desenvolvido pela Secretaria Municipal de
Educação, entre os dez projetos selecionados em concurso internacional promovido pela Associação
Internacional das Cidades Educadoras (AICE). Um feito maravilhoso! Orgulho de todos os profissionais da
Educação Andreense que participam desde o planejamento, da execução dos projetos, bem como todas as
escolas que levam seus alunos às aulas nesse espaço educacional privilegiado". Disponível em:
[Link]
concurso-internacional-162585. Acesso em: 15 jul. 2022.
160
197
dultocéntrica, está diseñada para responder a los intereses y expectativas de los
propios adultos, ya sean económicos, políticos, de partido, relativos a costumbres, visión de mundo, etc.,
imponiendo sus reglas establecidas a los bebés, niños, adolescentes, no permitiendo o limitando la voz de otros,
y los cuestionamientos sobre sus modos de vida, sus percepciones del mundo, sus valores, sus costumbres,
aunque éstos sean inadecuados o conflictivos, tendiendo a creer que los niños pueden convertirse en meras
(FLORES; SILVA, 2019, p. 54).
198
autoridad: sus demandas no siempre logran ser instaladas en las agendas de la escuela, la representación infantil
no siempre es una posición estraté
(MELLIZO; BEDOYA, 2011, p. 286).
162
A participação infantil demanda, ainda, que sua expressão seja escutada com seriedade,
e, assim,
[...] a participação em qualquer âmbito também deve justificar-se sempre pela
melhora que deveria produzir no funcionamento global de tal âmbito. Quando
esta condição não se cumpre a participação fica desacreditada e gera frustação
ou passa a ser [...] um simples artificio, um jogo, uma pura simulação.
(BERNET; CÁMARA, 2011, p. 30).199
Deste modo, um dos objetivos postos nas entrevistas realizadas foi compreender se as
solicitações das crianças foram realizadas e se houve indícios de mudanças devido à sua
participação. Os entrevistados relatam que as sugestões foram tratadas com seriedade, assim
como havia uma devolutiva para as crianças quando suas demandas não eram possíveis de
serem concretizadas. Wagner Sussai (2019, trecho da entrevista, p. 3) avalia que a maioria das
sugestões foi realizada, que geralmente eram relacionadas às questões das escolas e creches e
cita um exemplo que, para ele, destacou-se dos demais:
Eu lembro que na época também a gente não conseguia estar fazendo tudo.
Então ficou num impasse entre eles estarem fazendo o parque ou uma
acessibilidade para a biblioteca que tinha uma amiga deles que era
cadeirante, que era só uma aluna na escola que era cadeirante na época. E
aí eles chamaram também, no caso foi o Gilmar, o Secretário de Educação
numa reunião num café da tarde. E quando chegou nesse impasse de, ou faz
o parque ou faz a acessibilidade eles pediram para que a gente se retirasse
que eles iam se reunir novamente, aí conversaram. E aí a gente estava crente
que eles iam pedir parque, porque criança, aquela coisa toda e o parque
estava realmente totalmente detonado e inadequado para eles. E aí eles
pediram a acessibilidade. Eles abriram mão do parque para fazer a
acessibilidade para a criança poder estar indo na biblioteca, que essa criança
não conseguia ir na biblioteca tinha que estar carregando e aquela coisa
toda. E aí a gente depois conseguiu fazer um remanejamento de verba e além
da acessibilidade a gente fez o parque também para eles, até como uma
Esse caso remete ao que dizem Sarmento, Fernandes e Tomás (2007, p. 203), que
A acção política das crianças tanto se realiza como acção individual, de
sujeitos autónomos, dotados de opinião e capacidade própria de intervenção,
quanto como acção colectiva, enquanto sujeitos envolvidos num processo
solidário de asserção e mobilização para a transformação social.
199
[...] la participación en cualquier ámbito también debe justificarse siempre por la mejora que
debería producir en el funcionamiento global de dicho ámbito. Cuando no se cumple esta condición, la
rtificio, un juego, una pura
(BERNET; CÁMARA, 2011, p. 30).
163
Gilmar Silvério (2019, trecho da entrevista, p. 5) também relembra este caso em sua
entrevista e, ao comentar sobre a realização das solicitações, enfatiza que o Conselho Mirim
proporcionou para as crianças aprendizagem e vivência sobre a coletividade e a importância do
bem comum:
Foram realizadas e eram dialogada com elas porque que não dá pra fazer,
então na verdade havia uma própria disputa entre as próprias crianças no
sentido o que é melhor para a cidade, eu abro mão disso pra que... Era um
processo, digamos, que tinha uma riqueza pedagógica muito grande, que a
criança acabava sabendo que não tinha recurso pra tudo, que ela ia ter que
escolher uma prioridade, aí o governo dava... uma vez aprovada foi tirada do
papel. Teve muitas reformas nas escolas [...].
Neusa Sampaio (2019, trecho da entrevista, p. 8) salienta a importância de dialogar com
as crianças e explicar o que seria realizado ou não, e os motivos, argumentando que participação
não é sinônimo de ter todas as reivindicações concretizadas:
Todas as demandas foram ouvidas? Não acho. Mas esse movimento de dar
pode pedir qualquer coisa se você explicar para ela, você está dando direito
dela ser cidadão. Ela não sabe que ela não pode pedir, não é, até pode, mas
ela tem cinquenta por cento de chance de conseguir e cinquenta de não. Então
isso foi muito positivo, como política pública eu acredito que na época houve
um ganho muito grande, porque nós conseguimos inserir demandas que antes
poderiam nem ser ouvidas.
Assim,
[...] o objetivo do Conselho Mirim era realmente estar formando as crianças
um cidadão atuante no momento. Não que vão vir a ser. Então ela está lá
vivenciando, descobrindo a escola de um modo geral, do bairro, da cidade.
Então a ideia era essa de estar fazendo com que as crianças participassem e
dessem sugestões principalmente. (Wagner Sussai, 2019, trecho da entrevista,
p. 3).
Carlos Grana (2019) também indica a importância de compreender as crianças como
sujeitos de direitos e, ao citar a votação dos Conselhos Mirins, remete à discussão suscitada por
alguns autores (QVORTRUP, 2010a; SARMENTO; FERNANDES; TOMÁS, 2007), que
defendem que a participação política infantil se dá para além do voto.
O objetivo é já deixar o cidadão, que esse é o nosso público-alvo, todo
cidadão andreense, que desde criança, ele já se apropriasse de que ele tem
direitos, não só de votar, para eleger os seus representantes, mas ele também
de poder acompanhar, fiscalizar, sugerir, crescer, desde criança, que Santo
André tem como prioridade a participação popular. (Carlos Grana, 2019,
trecho da entrevista, p. 3).
É interessante perceber que, mesmo havendo em alguns momentos a ideia de que o
Conselho Mirim também é um modo de conhecer e se apropriar de saberes democráticos e do
164
exercício da cidadania para o futuro, essas características são abordadas numa perspectiva de
conhecer para reivindicar, e não de ser capaz somente quando crescer. Entretanto, é preciso
reconhecer que o processo de escolha e o sistema de representatividade, ao serem utilizados por
crianças pequenas e bem pequenas, expõem suas limitações, alertam para o cuidado em relação
ao uso mecânico de moldes democráticos adultos com crianças, e apontam para a necessidade
da criação de outros arranjos que respeitem as especificidades dessas crianças. Neste sentido,
Na participação das crianças reproduzem-se muitas vezes os modelos dos
adultos. Trata-se não de reproduzir nos mundos sociais e culturais das crianças
os modelos adultos, se bem que essas situações aconteçam, mas de promover
a imaginação metodológica e de participação das crianças, considerando que
a infância não é um grupo homogéneo e que as crianças necessitam escolher
os seus próprios fóruns e acções, de acordo com o contexto em que estão
inseridas e de acordo com as suas capacidades. (TOMÁS, 2007, p. 53).
Estratégias democráticas de participação, que respeitem as múltiplas linguagens das
crianças, flexíveis, com ações de participação direta, de observação e interação entre adultos e
crianças, com a utilização de diversas metodologias, como o desenho, a fotografia e outros
recursos que auxiliem a expressão e compreensão dos interesses das crianças precisam ser
pensadas e testadas.
Outro ponto a ser destacado é a possibilidade de manipulação das crianças por adultos,
questão já referida, mas que se coloca complementar à anterior. Neusa Sampaio (2019, trecho
da entrevista, p. 9-10) comenta que
[...] historicamente as minorias são usadas pra fins eleitoreiros, a gente não
pode fugir dessa realidade, aqui a gente não deixou acontecer no sentido de
que nós levávamos proposições sérias. Elas não eram enfeites, a gente
conseguiu fazer pressão nos bastidores como adultos que somos e tendo a
máquina na mão, para que aquilo acontecesse, mas o trabalho das crianças
não foi figurativo.
Cassia Manchini (2019) reforça a importância do cuidado com a influência dos adultos
nas demandas apontadas pelas crianças; Neusa Sampaio (2019) explica que algumas
reivindicações, como valorização das professoras ou aumento salarial, asfaltamento de ruas, ou
aumento de médicos nos postos de saúde, têm sua origem nos adultos, mas supõe que ocorram
em razão da confiança das crianças nas professoras e familiares. Complementa que a formação
ofertada para as crianças foi o modo que compreenderam ser efetivo para informar/orientar as
crianças sobre seus direitos e capacidade:
Mas quando nós fizemos as formações, foram todas no sentido de dar amplo
poder para a criança pra que ela pensasse sozinha no que era melhor para a
cidade, mesmo que ela chegasse sim à conclusão de que precisa ter uma via
pública legal, de que precisa sim ter fiscalização do trânsito, de que precisa
sim ter mais creche, de que precisa sim ter mais saúde. Ela precisava chegar
a essa conclusão, precisa ter iluminação no bairro, ela precisava chegar a
essa conclusão por ela, porque ela entende que isso é importante, não porque
165
um adulto disse pra ela. E aí nós fizemos várias, várias oficinas, as oficinas
foram muito bacanas, mas não foram muitas. (Neusa Sampaio, 2019, trecho
da entrevista, p. 5-6).
[...] a consideração do grupo social da infância como um
grupo profundamente implicado com a diversidade que decorre de indicadores económicos,
sociai (2004b, p. 353). Além disso,
Apesar de a infância e as crianças serem influenciadas por [...] complexo
sistema de compreensões, podemos afirmar que não há nenhum atributo na
infância que não se possa predicar de igual modo aos restantes seres humanos.
O paradigma da competência, defendido por alguns investigadores nesta área,
como James e Prout (1990), Waksler (1991), Mayall (1994), Qvortrup et al
(1994), Hutchby e Moran-Ellis (1998), ajuda-nos a consolidar esta ideia e a
entender a infância como uma arena dinâmica de actividade social que
envolve lutas de poder, significados contestados e relações negociadas, mas
onde as crianças são sobretudo consideradas como agentes sociais no seu
próprio direito e onde as próprias construções da infância são estruturantes e
estruturadas pela acção das crianças. (TOMÁS; SOARES, 2004a, p. 3).
Coerente com esse paradigma, a seguir, as impressões dos adultos sobre a participação
das crianças e, nesse sentido, mudanças na compreensão de sua participação.
200
Vídeo de divulgação elaborado pela equipe da prefeitura de Santo André.
166
201
Instituição Filantrópica sem fins lucrativos no município de Santo André, que tinha como objetivo desenvolver
um trabalho junto às crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade, e trabalho infantil. Ver
mais em: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
167
[...] para consolidar uma política pública, que não era apenas um programa
de governo. Então, independentemente de governo, porque os governos são
passageiros, você tem gestões, e a lei constitui para criar a obrigatoriedade,
transformar de uma política de governo em uma política de Estado. Simples
assim. Para que independentemente de um governo, as escolas mantivessem
essa relação com os alunos com a rede municipal. É isso, eles pudessem ter
mais autonomia.
Entretanto, com a mudança de governo, a partir de 2017, não houve mais ações ou
formações para o fomento do Conselho Mirim nas creches e EMEIEFs. A existência da lei não
foi o suficiente para que houvesse a continuidade do projeto e para a garantia do direito de
participação das crianças, representando uma perda no exercício da cidadania infantil das
crianças da rede municipal de Santo André (SP).
202
ía facultada y debería aportar en la implementación de
múltiples instancias de participación infantil, por cuanto es a través de la participación que niños, niñas y
jóvenes pueden llegar a conocer y des (PAVELIC; SALINAS, 2014, p.
103).
203
seres humanos en esta Tierra depende de la formación de la conciencia política de todas las generaciones y de
su participación (SÜNKER; MORAN-ELLIS, 2018, p. 184).
168
pressuposto que a criança desde a hora que ela nasce, ela é um ser e ela se
manifesta. A criança ela se manifesta, e ela se expressa, do jeito dela, mas ela
se expressa, ela sabe o que ela quer. Então porque não incentivar e estimular
a criança a pensar também o espaço que ela vive. É claro que a metodologia
que você vai utilizar para ouvir uma criança de seis meses, três meses é
diferente de uma criança de cinco, seis, quatro anos. Então pra cada faixa
etária você tem que ter uma metodologia, uma prática diferenciada né? Mas
é possível dar voz para essas crianças, ouvir o que elas pensam do espaço, da
vida. Então isso é possível. Embora haja muita resistência, mesmo alguns
professores acham que a criança é criança, e que não sabe opinar, não sabe
palpitar, não sabe... Que o professor aqui vai ter a gestão, digamos, prover
todas as necessidades, mas nós partimos do pressuposto que a criança pode
ser ouvida e pode reivindicar.
A defesa da participação de crianças muito pequenas vem ao encontro do paradigma da
infância presente nos estudos sociais da infância, e, para Lansdown (2001, p. 2),
Não existe limite inferior de idade para o exercício do direito de participação.
Estende-se, portanto, a qualquer criança que tenha uma opinião sobre um
assunto que lhes diz respeito. Crianças muito pequenas e algumas crianças
com deficiência podem ter dificuldade em articular seus pontos de vista por
204
-
strukturelle Rücksi ). Há, diz ele, em nossas sociedades, um
em relação às crianças nos diversos segmentos da vida política, que, como efeito cumulativo, tem conduzido à
(QVORTRUP, 2011, p. 203, grifo do autor).
169
meio da fala, mas podem ser incentivadas a fazê-lo por meio da arte, poesia,
jogo, escrita, computadores ou sinais.205
Esta mudança na concepção de infância, contudo, acontece de modo processual,
presente na legislação, na pesquisa, em discursos, o que pode justificar a resistência apresentada
por gestoras/es de creches, como apontada nas entrevistas. Entre os argumentos estão a
descrença na capacidade das crianças de participar politicamente, devido à idade e/ou ao
processo da aquisição da fala, a concepção da creche como espaço meramente assistencial, a
falta de sintonia com formações voltadas para esse tema, a falta de compreensão de que
aprendizados, afetos e cuidados são indissociáveis nas creches. Para Neusa Sampaio (2019), a
importância de gestoras/es terem tempo em sua rotina para se dedicar ao projeto e à formação
das professoras são recursos para tratar a resistência. Ela questiona:
[...] como formar o professor pra que ele entenda isso, se quando a gente fazia
reunião com os vice-diretores que eram responsáveis por essas demandas,
eles não acreditavam na participação infantil, pelo menos na primeira
infância. Se na EMEIEF já era difícil você fazer o professor levar a sério, que
dirá lá com o bebê. Então nós estamos numa situação que precisa ainda
avançar, por isso que eu falo para você, a gente precisa estudar mais sobre o
que é a criança pequena e suas possibilidades. Tem um autor, né? O Tonucci,
que ele fala muito a respeito disso, da participação infantil. (Neusa Sampaio,
2019, trecho da entrevista, p. 6-7).
Complementa, indicando tanto que é preciso ter um olhar sensível e atento para
compreender as diferentes expressões infantis quanto a dificuldade de realizar essa ação na
rotina da creche. Gilmar Silvério (2019) lembra da resistência na própria equipe da Secretaria
da Educação (SE) em relação à importância do envolvimento das creches e, nesse contexto,
Wagner Sussai (2019) ressalta a importância do trabalho das professoras que acreditaram no
projeto e que foram essenciais para o seu desenvolvimento, pois constata que não houve tempo
hábil para um maior investimento com formações diretas com as professoras.
De acordo com Neusa Sampaio (2019), a adesão ao projeto aumentou durante o percurso
da gestão e, ao final, havia cerca de 96% de adesão das creches. Para Gilmar Silvério (2019,
trecho da entrevista, p. 3), essa adesão foi
Muito proveitoso, eu acho muito positivo, até porque eu acho que se a gente
sonha um dia em ter um país que de fato a população participe da vida
política, da cidade, discuta as questões da cidade e do bairro, reivindique os
seus direitos, nós vamos conseguir sonhar com uma sociedade dessa, se a
gente investir na creche, porque é ali que a gente forma as pessoas.
205
No original:
to any child who has a view on a matter of concern to them. Very small children and some children with
disabilities may experience difficulties in articulating their views through speech but can be encouraged to do
(LANSDOWN, 2001, p. 2).
170
206
incidencia de niños,
(SHIER, 2010b, p. 7).
171
falou que ele queria um escorregador que fosse por toda a escola, e tal... Qual
a mensagem que ele está passando? Ele quer brincar, ele quer brincar!
Cabe trazer aqui uma breve reflexão sobre a democracia e a participação das crianças
bem pequenas. Bae (2016, p. 13) destaca que
A partir de fontes que têm analisado o que a democracia pode significar no
contexto da educação infantil (Dahlberg & Moss, 2005; Rinaldi, 2005; Moss
2007a, 2007b), ou explorado questões relacionadas com educação e
democracia num sentido mais geral (Biesta, 2006, 2007), é óbvio que a
democracia pode ser concebida de acordo com diferentes perspetivas. Isto
pode ser entendido, principalmente com referência a aspetos formais, como
escolha individual, eleições, representação, seguindo a regra da maioria etc.,
ou a ênfase pode estar no conceito de democracia como um fenómeno
processual, que é criado pelos participantes, como algo vivido (Rinaldi, 2005).
[...] Talvez um termo como "momentos democráticos" possa capturar o que
acontece quando a equipa em educação de infância deixa espaço para a
participação das crianças pequenas e liberdade de expressão.
Por outro lado, a presença de uma estrutura como o Conselho Mirim se coloca como
espaço para acolhimento das demandas e indicações das crianças bem pequenas, para combater
a ideia de que a voz política das crianças é então vista como ilegítima e desinteressante
quando toca a assuntos políticos. A acrescentar, ainda, a ausência de espaços e estruturas onde
essas vozes possam ser ouvidas e, por isso, legitimadas. (TREVISAN, 2012, p. 353).
Mesmo diante das dificuldades inerentes à participação infantil, principalmente das
crianças bem pequenas, o Conselho Mirim representou uma arena importante para a promoção
do seu direito de participação, com ineditismo. Nascimento (2019, n.p.) são
muitos os desafios, mas o principal parece ser retirar a infância da invisibilidade social. Exige
toda uma mudança de concepção contrária à que está presente no senso comum, que é divulgada
m demonstrou ser possibilidade de arena para a participação infantil
e atribuir visibilidade para as crianças.
em circulado por todo o Brasil, mas com várias diferenças
em relação à proposta e implementação. Como exemplo, em maio de 2019, a Câmara de
Vereadores do município de São Paulo, por iniciativa do vereador Celso Giannazi, do Partido
Socialismo e Liberdade (
10 anos de idade no município de São Paulo (SÃO PAULO, 2019), representantes de diferentes
escolas, que não incorpora crianças da Educação Infantil. Também em maio do mesmo ano, o
vereador Toinho Carolino, do Partido Trabalhista Nacional (PODEMOS), apresentou o projeto
(BA), com
o objetivo de promover a participação de crianças do Ensino Fundamental I, de 6 a 12 anos de
idade. Esta lei coloca como critério para participação que as crianças apresentem um
desempenho escolar acima da média (SALVADOR, 2019), o que representa a exclusão de
172
crianças que não atingem esse rendimento, que serão privadas de seu direito à participação e à
experiência democrática, participando das decisões de seu entorno. Este critério evidencia uma
discriminação pautada em uma falsa meritocracia, que transforma um direito em privilégio,
sendo, portanto, excludente.
Pode-se acrescentar que a cidade de São Bernardo do Campo possui Escolas Municipais
de Educação Básica (EMEB) que realizam um trabalho com a participação das crianças,
também chamadas de que não abrangem as creches e não possuem uma lei
que os institucionaliza. Nos exemplos citados, verifica-se que as crianças pequenas e bem
pequenas são as que sofrem uma maior exclusão devido a sua idade.
207
Que serão apresentados conforme forem compondo o texto.
208
Para mais informações sobre o ensino em Portugal, consultar: [Link] Acesso em: 15 jul.
2022.
173
209
Professor no Instituto de Educação da Universidade do Minho, pesquisador e autor de diversos livros e artigos
sobre Sociologia da Infância, Direitos das Crianças e cidadania infantil. Atuou como diretor responsável pelo
desenvolvimento do projeto da Carta da Cidadania Infantojuvenil do Concelho de Guimarães. Entrevista
concedida no dia 6 de dezembro de 2021.
210
Outro entrevistado, Jorge Correia é Secretário da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de
Guimarães, em representação do Ministério da Educação. Disponibilizou a publicação física do relatório final,
assim como guião das assembleias realizadas com as crianças, slides, regulamento das assembleias,
organização dos transportes, entre outros materiais produzidos no Projeto Tecer a Prevenção.
174
211
No Eixo 1 Participação Cívica e Política, os Orçamentos Participativos são citados como uma das medidas
de presença e inclusão de crianças e jovens até 18 anos de idade.
175
entrevista, p. 4)212, o município tem como princípio aderir a programas que colaboram com o
bem-estar de seus munícipes. Segundo ela, [...] queríamos dar resposta a muitas questões que
as próprias instituições, as próprias associações que trabalham na área da infância iam
reportando. E porque também já tínhamos aqui um projeto da Carta para a Cidadania
Infantojuvenil .
Com a adesão ao programa Cidade Amiga da Criança, foram desenvolvidas outras ações
e projetos de participação infantil no município. A coordenadora esclarece que o que
[...] notou-se foi o interesse das crianças em participar da vida, nas decisões
políticas. E tivemos, por exemplo, nesse último dia das crianças, no dia 01 de
junho de 2021, uma atividade muito interessante que também juntou todos os
agrupamentos de escolas do município, que foram as conversas com o Sr.
Presidente e os vereadores. Ou seja, promovemos um dia de conversas em
formato on-line, é claro, mas onde cada decisor político esteve com um grupo
de crianças e pôde ouvi-las, pôde responder as questões. Isto vai dando à
criança também alguma destreza, algumas competências para a participação
cívica e, ao mesmo tempo, fá-las perceber que elas fazem parte daquele que
é também o nosso plano. Elas não estão à parte, mas fazem parte. Foi também
uma iniciativa muito interessante. (Daniela Miranda, 2022, trecho da
entrevista, p. 5).
Avalia que foi possível perceber algumas alterações nas estruturas macrossociais a partir
do incentivo às ações de participação política infantil, e menciona que
[...] pelos trabalhos que já fomos fazendo e os que ainda pretendemos fazer
mais, creio que a grande mudança que se notou desde o início da
implementação do plano, foi de atrair os decisores políticos a esta inclusão
das crianças na vida e nas decisões políticas. Porque acho que agora há um
cuidado grande em, antes de tomar decisões, fazer as auscultações [...].
(Daniela Miranda, 2022, trecho da entrevista, p. 12).
Outra ação que decorreu do projeto da Carta foi o desenvolvimento de assembleias no
âmbito do proj Plano Estratégico de Promoção e Proteção dos Direitos
da Criança Guimarães que, por sua vez, integra a Rede Nacional
da Comissão de Promoção dos Direitos da Criança. O projeto Tecer a Prevenção é promovido
pela Comissão Nacional e, de acordo com Jorge Correia (2022)213, tem como objetivo conhecer
a realidade infantojuvenil e os territórios, ou seja, o universo de crianças e jovens. O secretário
acrescenta que, neste processo, o diagnóstico realizado na construção da Carta foi atualizado a
partir de assembleias com crianças representantes de seus ciclos por agrupamento, nas escolas.
Relata que
Essas assembleias tinham sempre como ponto comum o direito das crianças.
A partir daí, os direitos traduzidos em coisas concretas como o direito à
212
Coordenadora do Plano de Ação do Programa Cidade Amiga das Crianças do munícipio de Guimarães desde
2018, integrante da Divisão da Ação Social e secretária da vereadora da Ação Social do município. Entrevista
concedida à pesquisadora no dia 18 de janeiro de 2022.
213
Entrevista concedida à pesquisadora no dia 31 de janeiro de 2022.
176
O OPE é um projeto resultante do Orçamento Participativo Portugal (OPP) que, por sua
vez, foi instituído em 2017, em âmbito nacional, por meio da Lei nº 42, de 28 de dezembro de
2016. Para compreender sua dimensão, destaca-se aqui, especificamente, o Artigo 3º, do
Capítulo I Disposições Gerais:
Artigo 3.º Orçamento Participativo Portugal e Orçamento Participativo Jovem
Portugal. 1 - É criado o Orçamento Participativo Portugal (OPP) que constitui
uma forma de democracia participativa, facultando aos cidadãos o poder de
decisão direta sobre a utilização de verbas públicas. 2 - No âmbito do OPP é
ainda criado o Orçamento Participativo Jovem Portugal (OPJP) enquanto
instrumento de participação cívica e política dos jovens portugueses com
idade compreendida entre os 14 e os 30 anos. 3 - A verba destinada ao OPP
para o ano de 2017 é de (euro) 3 000 000 inscrita em dotação específica
centralizada no Ministério das Finanças, dos quais 10 /prct. deverão ser
atribuídos a projetos do OPJP, caso existam. 4 - A verba prevista no número
anterior é distribuída por grupos de projetos da seguinte forma: a) (euro) 375
000 para grupo de projetos de âmbito nacional; b) (euro) 375 000 por cada um
dos cinco grupos de projetos de âmbito territorial NUT II; c) (euro) 375 000
para cada um dos dois grupos de projetos das regiões autónomas. 5 - A
operacionalização do OPP e do OPJP é regulamentada através de resolução
do Conselho de Ministros. (PORTUGAL, 2016).
Com apenas cinco anos de implementação, o OPP tem como proposta a participação
cidadã de portugueses e estrangeiros que residem legalmente no país na discussão sobre o uso
da verba pública. De acordo com Falanga (2018), sua implementação no país teve influência
dos movimentos de Orçamentos Participativos (OP) iniciados no Brasil, no município de Porto
214
Laboratório colaborativo que tem como parte de sua missão contribuir com políticas públicas que promovam
os direitos das crianças. Ver em: [Link] Acesso em: 15 jul. 2022.
178
215
De acordo com o site da Defesa Nacional, em 2018, em sua II Edição, o governo aumentou a verba destinada
ao OPP, que passou de três para cinco milhões de euros. Falanga (2008) explica que é a Secretaria de Estado
o órgão responsável pela gerência do OPP, que determina as áreas de intervenção e atribuição para as diferentes
regiões do país. As propostas são apresentadas individualmente, por meio de assembleias ou grupo de trabalhos
presenciais e, a partir de 2018, também pela plataforma on-line. Após a submissão das propostas, é realizada
uma análise técnica para a exclusão ou inclusão, tendo como parâmetro a viabilidade, de acordo com o
orçamento. Posteriormente ao período de recurso, as propostas finalistas são encaminhadas para votação
pública, que ocorre por meio da plataforma on-line ou por mensagem de texto enviada por celular (SMS).
Disponível em: [Link] Acesso em: 19 de janeiro de 2022.
216
Esta característica também foi indicada como um dos fatores debatidos na avaliação desta política, que fará
com que os OPP sofram modificações a partir de 2022, pois, conforme relatado pela Ministra da Modernização
do Estado, Alexandra Leitão (2021), em entrevista, a não articulação tem contribuído para a dificuldade em
realizar as demandas aprovadas no OPP. Em 2018, a execução não ultrapassou 75% de sua totalidade. O
Orçamento Participativo Portugal deverá funcionar com novo modelo. Disponível em:
[Link]
modelo-1949027. Acesso em: 19 de janeiro de 2022.
217
Portugal é dividido em sete regiões: Norte, Centro, Alentejo, Lisboa, Algarve (regiões administrativas) e
Madeira e Açores (regiões autônomas).
218
Este programa não é objeto da pesquisa porque não se destina à infância. Para maiores informações, consultar:
[Link] Acesso em: 19 de janeiro de 2022.
219
Instituído em Portugal por meio do Despacho n.º 436-A/2017, publicado no dia 06 de janeiro de 2017, pelo
Ministério da Educação (ME).
179
220
Atua na Escola Base de um dos agrupamentos do município de Guimarães, e é responsável pelo projeto OPE
nesta mesma escola. A professora auxilia as crianças em suas dúvidas e demandas relacionadas ao OPE
nacional. Entrevista concedida à pesquisadora no dia 11 de março de 2022.
180
Comenta que algumas crianças demonstram desinteresse pelo projeto pois estão em seu
último ano letivo e, portanto, não irão usufruir dos projetos finalizados ao final do ano civil, o
que parece significar que as crianças mais novas têm mais interesse em submeter e desenvolver
propostas. Estas devem ser submetidas por escrito e estar de acordo com a verba disponível,
além de promover melhorias para a escola e para o ambiente escolar. Podem ser apresentadas
individualmente ou por um grupo de no máximo cinco crianças e, para que sejam aprovadas, é
preciso receber votos correspondentes ao apoio de cinco por cento do total de crianças no
processo eleitoral. A votação é entre pares, ou seja, somente as crianças do 3º ciclo do ensino
básico e/ou do ensino secundário é que podem participar.
A professora Rosária Carvalho lembra do projeto eleito sobre a construção de uma
Rádio Escola, que atualmente se encontra totalmente equipada internamente e nos espaços
externos. Relata que, em 2021, foi eleita a proposta de construir um minigolfe e, para 2022, foi
eleito um projeto de construção de um jardim aromático vertical. Para ela, o OPE oportunizou
mudanças na escola e na postura das crianças:
A nível da intervenção direta de eles sentirem que conseguem elaborar um
projeto, concretizar um projeto e usufruírem do projeto que concretizaram.
Eu acho que só isso é muito importante. É uma parte mais prática. Nós
corremos o risco de nos centrarmos muito na teoria e esta parte prática, e
esta parte da cidadania é muito importante também a explorar. (Rosária
Carvalho, 2022, trecho da entrevista, p. 7).
Em Guimarães, é desenvolvido também um Orçamento Participativo das Escolas (OPE)
municipal que, segundo a vereadora Adelina Paula Pinto (2021)221, tem como um dos objetivos
a inclusão das crianças do pré-escolar. Diz ela:
[...] então nós começamos por ter por este princípio, este vetor, que é: nós
temos 58 escolas de primeiro ciclo; nós temos milhares de crianças nas
escolas de 1º ciclo e pré-escolar, portanto em tenra idade, a partir dos três
anos, e o que nós temos é que as estimular, com muitos projetos. (Adelina
Paula Pinto, 2021, trecho da entrevista, p. 1).
Conta que o OPE municipal foi instituído há cerca de seis anos 222, tempo similar à
instituição do OPE no âmbito nacional, e que os dois programas são distintos em relação à
responsabilidade e às verbas e não exercem influência um sobre o outro.
A vereadora explica que observou que os jovens adultos apresentavam dificuldade em
participar de arenas democráticas da cidade e, então, defende a participação das crianças:
Os jovens adultos, nós sentimos que eles não sabem participar. Não sabem
participar, e, portanto, nós temos que reverter e ir para trás, fazer uma
marcha atrás e começar desde a tenra idade a fazer com que eles participem.
Saibam o que é participar. Saibam o que são direitos e deveres. Saibam
221
Vereadora da Educação. Entrevista concedida à pesquisadora no dia 9 de dezembro de 2021.
222
Não foi possível encontrar a lei ou decreto que estabeleceu o programa no âmbito municipal.
181
quando é que podem participar, quando não podem. Quando podem falar e
quando podem ouvir os outros. Isto é uma questão de educação. Entanto, é a
partir de uma má participação nomeadamente política, da abstenção política,
do desconhecimento, deste entrar em demagogias de uma forma muito fácil,
da forma como se conquistam os jovens. (Adelina Paula Pinto, 2021, trecho
da entrevista, p. 5).
O OPE223 municipal foi implementado para incluir as crianças no debate do uso da verba
pública em nível local, ou seja, na escola. Adelina Paula Pinto afirma que não foi um movimento
simples, pois se identificava que o planejamento para o uso da verba era realizado pelos adultos
e/ou elaborado pelas crianças mais velhas, do 2º e 3º ciclos, e, assim, foi preciso criar um
regulamento para que os projetos fossem elaborados pelas crianças e votados por todos. Para
incentivar a participação das crianças mais novas, foi estabelecida a possibilidade da
apresentação de múltiplos projetos, desde que não ultrapassassem o limite da verba repassada,
e determinada a obrigatoriedade da apresentação de um projeto referente ao grupo de crianças
de 4 a 5 anos de idade, do pré-escolar, e outro, das crianças de 6 a 10 anos de idade, do 1º ciclo.
A maioria das propostas tem sido realizadas, mas as crianças avaliam que o tempo para
a realização é uma fragilidade do projeto, de acordo com Adelina Paula Pinto (2021). A
vereadora explica que, como resolução, a Câmara Municipal transfere o dinheiro para que a
escola possua autonomia no uso e para que haja agilidade da execução das propostas eleitas.
Outro fator indicado pelas crianças está relacionado ao acompanhamento da execução, quando
o projeto é desenvolvido pela equipe da própria Câmara Municipal, pois, em algumas ocasiões,
como, por exemplo, na construção de um jardim, este pode não ser finalizado totalmente de
acordo com o planejado. Neste caso, Adelina Paula Pinto (2021) reforça a importância do
envolvimento das crianças também na execução e não somente na construção da proposta.
Para a vereadora, a promoção da participação infantil proporcionou melhoria nos
ambientes escolares, e as crianças demonstram maior interesse em outros projetos que
envolvem a participação política. Sobre a inclusão de crianças bem pequenas, explica que não
são incluídas, pois estão sob responsabilidade da Segurança Social, das Instituições Particulares
de Solidariedade Social (IPSS), ou em seus lares. Acrescenta que a Câmara Municipal, por meio
de uma parceria com o Laboratório Colaborativo ProChild, tem realizado algumas ações para
avançar no trabalho com crianças de zero a três anos de idade.
223
O OPE municipal é gerido pela Câmara, que repassa um montante de 12.500 euros anuais para todos os
agrupamentos e indica as áreas temáticas dos projetos, como sustentabilidade ou desporto. As crianças devem
participar em quatro momentos: 1) observar o entorno de sua escola ou mediação, para perceber o que é preciso
melhorar ou realizar; 2) elaborar um projeto e realizar um orçamento; 3) expor a proposta para as demais
crianças a fim de demonstrar a importância de seu projeto; 4) submeter a proposta para a votação.
182
Assim, os dois programas de OPE são realizados em paralelo, sem a participação das
crianças bem pequenas, embora, para Adelina Paula Pinto (2021, trecho da entrevista, p. 5),
a participação das crianças desde a tenra idade é crucial no processo educativo. Não se
faz processo educativo no século XXI sem a participação e sem o envolvimento das crianças.
Em Guimarães, ações e projetos de participação são articulados como uma política pública local
e o centro da política educativa do município.
Guimarães, assim como Santo André, faz parte do grupo reconhecido como Cidades
Educadoras, desenvolvendo ações e projetos de participação dos munícipes, incluindo as
crianças. Interessante reconhecer que estes estão na dimensão de uma retomada de princípios
democráticos, da recuperação da cidadania e da valorização da escuta, tendo sido propostos e
realizados pós-períodos de autoritarismo. Há algumas semelhanças e muitas diferenças, a
começar pelo título Cidade Amiga da Criança, atribuído somente a Guimarães. Como se viu no
capítulo 2, no Brasil, o UNICEF está voltado aos direitos das crianças, com especial atenção às
questões da vulnerabilidade, desigualdade e sustentabilidade, enquanto em Portugal há ênfase
na participação das crianças, isto é, considera-se que valoriza
e estimula a participação de todas as crianças no município e o trabalho em rede entre setores
municipais e instituições do concelho, assente numa abordagem integrada e multissectorial.
(UNICEF PORTUGAL, 2019, p. 5).
Em Guimarães, a Carta da Cidadania Infantojuvenil representou um projeto inédito,
complexo, no qual as crianças puderam participar de um diagnóstico geral, refletir sobre seus
direitos e, a partir desse exercício, propor medidas que foram planejadas como estratégias e
políticas públicas, integrando percepções de adultos, crianças, especialistas e decisores políticos
sobre a cidade. Em Santo André, o Orçamento Participativo Criança e o Plano Plurianual
Criança também tiveram essa dimensão ampla sobre a realidade da cidade, porém no âmbito da
discussão sobre a verba pública municipal, sobre a qual as crianças puderam intervir nas
decisões das ações públicas do município. Ambos os projetos evidenciam a capacidade da
participação política infantil e a possibilidade da interação entre adultos e crianças para o debate
sobre a vida na cidade. Isso, para Manuel Sarmento (2021, trecho da entrevista, p. 11),
É uma importância grande porque as crianças não deixam de ser munícipes,
não são pequenos munícipes, são munícipes como os outros, e mais e este é
um aspecto absolutamente fundamental qualquer política municipal
influencia as crianças e afeta as crianças de forma distinta.
183
, explicitada por Sarmento em entrevista, representam pistas para sua inclusão nos
processos de escolha e tomada de decisão negociadas. Essas experiências demonstram que é
preciso que haja políticas públicas de participação infantil para promoção de arenas
democráticas e inclusão de todos os sujeitos que estão inseridos nas cidades, creches e escolas.
185
CONSIDERAÇÕES FINAIS
224
r efectiva la ciudadanía y los derechos legales de los bebés y los niños como
ciudadanos y ciudadanas es de fundamental importancia, pues son poco visibles o invisibles para la sociedad,
especialmente cuando comparamos ese grupo con las demás etapas de la vida humana, sobre todo las franjas
de edad c (GAITÁN, 2018, p. 60).
189
225
Com o esclarecimento de que não se espera que as crianças fiquem sem atendimento, entretanto, se faz
necessário considerar as desigualdades sociais presentes no país, para assim refletir sobre essas crianças que
não possuem o direito à creche contemplado.
226
into social rights. This means that truly democratic forces, at local and national levels, both inside and outside
227
overview of the issues. Journal of Curriculum Studies, London, v. 24, n. 2, p. 97-115, 1992.
228
VIDOVICH, L. Expanding the toolbox for policy analysis: some conceptual and practical approaches. Hong
Kong: Comparative Education Policy Research Unit, University of Hong Kong, 2002.
190
indico como estratégia que haja outras arenas de participação infantil que dialoguem
com os Conselhos Mirins e contemplem as crianças em outros contextos sociais.
Conclui-se, deste modo, que os Conselhos Mirins, constituídos como uma política
pública de participação infantil, proporcionam a efetivação da participação política das crianças
e o exercício da cidadania infantil, possível de ser executado em outros locais; no entanto,
salienta-se que não se trata de um modelo a seguir, mas uma experiência exitosa que pode servir
como inspiração para o planejamento e concretização de outras arenas de participação infantil.
Por fim, acredito ser relevante citar a importância da formação das professoras,
educadoras/es, gestoras/es e decisores políticos para a compreensão sobre os direitos das
crianças, incluindo os de participação, assim como deve haver divulgação dos direitos das
crianças para elas próprias, a fim de informá-las. A partir deste estudo, indica-se, como
complementação, a possibilidade de desenvolver uma compreensão de como ocorrem os
Conselhos Mirins ou outros projetos de participação política infantil na prática, principalmente
com as crianças bem pequenas.
Finalizo com o ensejo de que, na próxima eleição presidencial, assim como nas demais
de ordem municipal, em 2024, tomemos em consideração analisar profunda e criticamente as
propostas das candidatas e candidatos, para que elejamos aquelas/es que sejam a favor da
democracia, da participação popular e, sobretudo, a favor da infância e da participação das
192
REFERÊNCIAS
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de Janeiro: Zahar, 1981.
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primeira infância e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do
Adolescente), o Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), a
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio
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214
01 Contador
05 Auxiliar Administrativo
Grupo político
2013 2015
3ª Gestão Celso Daniel (PT) 2001 à 2002 / João Avamileno (PT) 2002 à 2004
2001 2002 2003 2004
- Entrevista Maria - Entrevista Neusa; - Entrevista Cassia; - Entrevista Wagner;
Auxiliadora; - Entrevista Cassia; - Arquivos - Arquivos
- Entrevista com - Arquivos fornecidos pela fornecidos por
Cassia; fornecidos por Cassia; Wagner;
- Arquivos Wagner; - Reportagem sobre o - Entrevista Cassia;
fornecidos por - Lei nº 8.376/2002 Conselho Mirim no - Arquivos
Cassia; jornal Diário do fornecidos por
- Revista: Estação Grande ABC; Cassia;
gente Educação - Sumário de dados - Sumário de dados
Inclusiva Plano 2006 ano base 2006 ano base
2000. 2005; 2005.
- Jornal da Gestão
Democrática.
218
_______________________________________________________________
Conselho Mirim: a
participação d , que tem
como pesquisadora responsável Emillyn Rosa, aluna da Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo (USP), orientada por Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento. A
pesquisadora pode ser contatada pelo e-mail: [Link]@[Link] ou telefone: (11) XXXXX-
XXXX. O presente trabalho tem por objetivos: analisar a participação das crianças de 0 a 3 anos
por meio do Conselho Mirim, e sua efetivação como política pública. Minha participação
consistirá na entrega de arquivos de meu acervo pessoal. Compreendo que esse estudo possui
finalidade de pesquisa, e que os dados obtidos serão divulgados seguindo as diretrizes éticas da
pesquisa, assegurando, assim, minha privacidade. Sei que posso retirar meu consentimento
quando eu quiser, e que não receberei nenhum pagamento por essa participação. Sem mais.
(__) autorizo o uso da divulgação da minha identidade.
(__) não autorizo o uso da divulgação da minha identidade.
_______________________________________________________________
(nome do/a colaborador/a)