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O documento discute a relação entre verdade, fato e opinião, enfatizando que a verdade factual é frequentemente distorcida por interesses políticos, resultando em fake news. A manipulação da verdade e a adesão a crenças inválidas são facilitadas por fatores psicológicos como a necessidade de pertencimento a grupos e a imitação de comportamentos. A recusa em reconhecer a realidade pode levar à tirania, onde a verdade é substituída por narrativas enganosas, como observado na história do autoritarismo.

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O documento discute a relação entre verdade, fato e opinião, enfatizando que a verdade factual é frequentemente distorcida por interesses políticos, resultando em fake news. A manipulação da verdade e a adesão a crenças inválidas são facilitadas por fatores psicológicos como a necessidade de pertencimento a grupos e a imitação de comportamentos. A recusa em reconhecer a realidade pode levar à tirania, onde a verdade é substituída por narrativas enganosas, como observado na história do autoritarismo.

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INSTITUTO FEDERAL DO PARÁ que se tornam a matéria sobre a qual é construída a opinião, de forma

Prof. Rui Mangas que o fato antecede a opinião e dela é seu elemento constitutivo. Assim,
Teoria do Conhecimento se o fato é atacado, não existe opinião nos moldes de como deveria ser, e
sim uma versão alterada e especulativa.
A questão da verdade e do conhecimento – Fake News (Continuação)
O contraponto da verdade é a mentira, mas qual o contraponto do
1 – Verdade e Política fato? Não é a mentira, que está vinculada à verdade, mas, se formos
observar o pensamento platônico original, o contraponto do fato é a
A verdade, apesar de ser uma palavra simples, tem significados
opinião.
múltiplos e já levou a guerras. Para Hannah Arendt é necessário apontar a
qual verdade nos referimos, dentre todas, a predominante é simplesmente Isso porque o fato ocorre no mundo externo ao indivíduo, é físico,
a verdade factual. material, ao passo que a opinião é própria do pensamento introspectivo
do indivíduo, é abstrata e mental, portanto, justamente o inverso do
Verdade factual é, como o próprio nome nos diz, a verdade dos
universo fático. A opinião se forma a partir dos fatos, mas não se
fatos, entendidos estes como uma ocorrência no mundo físico,
confunde com eles.
mensurável, testemunhada, indiscutível a tal ponto que não possa ser
negada. Então, teremos sempre a questão de apontar até onde os fatos que
nos chegam como evidências de realidade correspondem ao que
Mas o fato não é autossuficiente. Apenas pela sua existência ele não
efetivamente aconteceu.
garante sua preservação, e aqui entramos em uma nova dimensão, que é
a dimensão humana. O fato pode ser distorcido, apagado (mesmo que Portanto, é necessário diferenciar opinião de fato: o fato é um dado
dele restem vestígios), modificado, sempre que houver um interesse de realidade física, a opinião é um dado de pensamento individual. A
humano. Estamos falando sobretudo de interesses ou fatos políticos, questão se coloca quando ambos são colocados em um mesmo nível ou,
entendidos aqui aqueles vinculados às necessidades do convívio humano pior, quando uma opinião é considerada como fato, quando teremos
e, sobretudo, pelo exercício do poder. então uma mentira factual, o que hoje também se conhece como fake
news, uma opinião transformada em fato por meio de uma afirmação
Assim, a verdade factual luta sempre contra os efeitos políticos que
mentirosa e que ganha o espaço como se verdadeira fosse.
buscam alterá-la conforme a necessidade do poder naquele momento. E a
relação entre o poder político ou simplesmente a política nunca foi das E havendo interesse humano, político, essa transformação opinativa
mais favoráveis, até porque existe uma condescendência com quem minta pode atingir qualquer matéria, o maior exemplo é sem dúvida o controle
em favor da coletividade ou da sociedade. Neste caso a verdade é stalinista da informação, que chegou até a apagar registros e manipular
reduzida a uma outra natureza: é tida apenas como opinião, ou seja, registros fotográficos, excluindo figuras históricas.
quando é posta em discussão se transforma em uma opinião e não em A mentira é sempre mais atrativa, mais fácil de ser assimilada, criada
uma verdade fática. A opinião é um pensamento individual que é trazido a ao gosto de quem busca convencer. Já a verdade é opaca, muitas vezes
público, já a verdade de fato não diz respeito ao pensamento de uma amarga e nem sempre conta com a boa vontade de seu espectador. Pior
pessoa, ela é sempre testemunhada e implica na participação de várias ainda: quando a verdade factual está de acordo com a opinião de outro,
pessoas. É um conjunto de elementos convergentes. É a verdade dos fatos sofrerá o mesmo desgaste e será considerada apenas como uma opinião e
nunca com um fato em si, de modo que a coincidência entre verdade Crença inválida não é entendida como errada, mas sim aquela que
factual e opinião individual faz por contaminar a primeira pela segunda. foi e continua sendo direta e inequivocadamente desmentida por boas
Seja como for, a opinião versus a verdade factual continua sendo um provas, tais como eventos reais que se contrapõem às crenças das pessoas
conflito que agora traz um novo ator: a mentira organizada. que a sustentam. A solução pode se dar de duas formas: a) rejeição à
crença em razão da evidência; b) manutenção da crença em
Quem é atingido pela mentira organizada acaba por acreditar nela e,
desconformidade com as provas, negando-as. Nesta última hipótese, isso
como veremos depois, deixa de ser apenas um enganado e passa a ser um
será possível quando a crença for difícil de mudar e existir um suficiente
convertido.
número de pessoas com idêntica dissonância.
E nesse ponto vale absolutamente qualquer meio, inclusive a
- Compromisso e coerência inválidos
fabricação de testemunhas, fatos alternativos e, sobretudo, as
proclamadas fake news. E isso porque a mentira organizada busca induzir O compromisso e a coerência possuem um lado negativo, o
à ação, o que a narração dos fatos não necessariamente acarreta. A fanatismo. A fim de manter-se coerente com um compromisso, o
mentira organizada que toma o lugar do fato é destrutiva e busca indivíduo pode ser levado a um nível socialmente destrutivo. Sem um
deliberadamente eliminar todos os registros e arquivos do que lhe for limite, que nesse caso está longe da lógica ou da cultura, já que é
desfavorável. Com o surgimento das redes sociais, as possibilidades de essencialmente emocional, o extremismo pode ser construído aos
tentar o controle da verdade factual se tornou muito mais aguda do que poucos. Ademais, como já vimos, a tendência do indivíduo é rejeitar
jamais foi. informações contrárias e valorizar informações consonantes, o que, de
resto, já mencionamos. A coerência e o compromisso abrem as portas
E foi assim que a mentira organizada se tornou a argamassa da pós-
para o radicalismo, se forem usados com esse propósito.
verdade, destruindo a possibilidade de reconhecimento dos fatos,
reduzindo-os a simples opiniões, especulando sobre seu significado e – Aprovação Social
construindo uma nova verdade passível de ser imposta no interesse e
A história primitiva do homem faz dele essencialmente um indivíduo
conveniência de quem interessar.
gregário, não porque tenha alguma habilidade especial para o convívio
A pós-verdade, ou a prevalência, na opinião pública, das emoções e que outros animais não tenham, mas porque é desse agrupamento e da
das crenças pessoais sobre os fatos objetivos, as fake news, ou, mais ação coletiva que extrai as chances de sobrevivência. Quanto maior e mais
precisamente, a disseminação de informações falsas para desorientação eficiente o grupo, tanto melhor para sua possibilidade de vida. Logo, a
ou má orientação e seu uso político, não surgiu com as redes sociais. Nos ideia de pertencimento a um grupo é um dos atalhos mais bem-
Estados Unidos, Itália, Hungria e Polônia surgiram governos estruturados na mente humana, que compele o indivíduo a participar de
ultradireitistas, assim como no Brasil. Em todas essas situações, a pós- um grupo para assegurar a existência e a continuidade da espécie. Sempre
verdade e as fake news invadiram o mundo político. que reconhecer essa opção, o cérebro irá aderir ao comportamento
automaticamente, sem que haja a necessidade de um esforço racional
2 - Alguns fatores psicológicos que facilitam a adesão irrefletida das
nesse sentido. Consequentemente, a ideia de que o comportamento
massas à Fake News, vamos ver algumas:
coletivo é o adequado nos parece evidente. Quando o conjunto se
– Manutenção de crenças inválidas comporta em um determinado sentido, supomos que assim estaremos
agindo da melhor maneira também. A possibilidade de erro estaria
diminuída na inversa proporção de que a possibilidade de acerto círculo de relacionamento causa um constrangimento que acarreta um
aumentaria. Se todos agem daquela maneira, é porque, provavelmente, é estresse psíquico, para o qual a solução mais fácil é o atendimento. Esse é
a melhor maneira de fazê-lo. o princípio da afeição, que se traduz na predisposição de atender a uma
solicitação. É claro que tal predeterminação é tão mais forte quanto mais
- Macacos de imitação
próximo for o relacionamento com o solicitante, mas, de qualquer forma,
Nosso cérebro imita. Fazemos isso porque se trata da forma mais mesmo partindo de um estranho, existe a predisposição de atender ao
eficiente de aprendizado. Foi através da imitação que aprendemos a caçar, pedido.
coletar, plantar ou simplesmente sobreviver. Somos então dotados de
Cialdini cita algumas características pessoais que podem gerar
mecanismos biológicos que nos levam a supor que, ao vermos alguém
afeição: a) atratividade – considerando aqui as condições físicas, mas
realizando uma ação, automaticamente nos colocamos na condição dessa
também uma atratividade subjetiva, simpatia, inteligência, etc.; b)
pessoa e, se possível, calculamos se podemos ou poderíamos fazer algo
semelhança – também uma tendência genética de sentir-se confortável
igual. Mais precisamente, reagimos reproduzindo o mesmo
com quem pertence ao próprio grupo, o conceito de “gente como a
comportamento. Até mesmo animais, quando se defrontam, costumam
gente”, já apontado, pode ser aplicado em caráter individual também; c)
espelhar uns as ações dos outros, para garantir uma declaração contra
contato e cooperação – qualquer tipo de situação que gere a conclusão
hostilidades. Resumindo: reproduzimos o comportamento alheio sempre
de que as partes envolvidas no processo pertençam a um mesmo grupo.
que possível. Esse é um atalho, o cérebro não precisa parar e analisar cada
ação, aplica-se um gatilho e o comportamento é repetido O processo simbólico é muito importante nesse aspecto, o uso de
automaticamente. dísticos de características bem-sucedidas é muito comum a fim de sermos
associados às qualidades e ao sucesso derivados do pertencimento ao
O aspecto negativo é evidente. Mas outros podem ser acrescidos: o
grupo simbólico representado. O uso de marcas valorizadas, ou grifes,
estímulo ao racismo é um deles, assim como todas as formas de
guarda relação com esse tipo de simbologia. Quem usa um determinado
discriminação religiosa. As agressões raciais ou preconceituosas geram
vestuário de uma marca reconhecida como socialmente atrativa, quer pela
imitação e, infelizmente, não são poucas as pessoas com ímpetos racistas
sua natureza, quer, principalmente, pelo seu valor, associar a imagem a si
ou discriminatórios que, após a notícia de um crime dessa natureza, são
próprio, beneficiando-se com o valor reconhecido do símbolo. A suástica
compelidas a cometer atos criminosos, por imitação e similaridade.
nazista, a foice e o martelo da Rússia comunista e outras dezenas de
Sociedades racistas como a Ku Klux Klan, nos Estados Unidos, tristemente
símbolos, inclusive religiosos, como a estrela de David e a cruz cristã,
famosa, é um exemplo desse comportamento. A aprovação social, então,
carregam valores aos quais o indivíduo quer se associar por um motivo ou
não se refere apenas a sentimentos positivos – além de sentimentos
outro, tornando-se atrativos para um grupo ou subgrupo determinado,
violentos, também valores negativos podem ser dispersos dessa maneira.
que lhe dedicaria a afeição. O questionamento é inútil. O vínculo pessoal
- Afeição/Associação/Pertencimento a um grupo possui efeito idêntico, a proximidade com pessoas cujo prestígio é
A realização de atividades em conjunto foi o grande diferencial que exaltado faz com que se crie a ilusão de que parte desse prestígio seja
permitiu a evolução da espécie humana, que já foi definida como gregária, transferido para a pessoa. É comum que se tirem fotos ao lado de ícones
pela tendência de se organizar dessa forma. A negação em atender um do esporte ou da política como forma de mostrar prestígio pelo
pedido feito por um amigo, parente ou pessoa que esteja dentro do relacionamento com tais personalidades. Claro que levada ao extremo a
associação pode conduzir ao fanatismo. Existem aqueles cuja projeção ou
cujo desejo de associação excede a associação e ganha contornos comícios, os gritos repetidos de “Construa esse muro” e “Ponha-a na cadeia” não
doentios; nesse caso estaremos diante de uma patologia psiquiátrica, descreviam nada que o presidente tivesse planos específicos para fazer, mas sua
envolvendo questões de personalidade ou de uma autoimagem fanfarrice criava uma conexão entre ele e seu público. O terceiro modo é o
deficiente, em que o indivíduo, que se supõe incapaz.
pensamento mágico ou a adoção aberta da contradição. Aceitar inverdades tão
radicais exige um abandono flagrante da racionalidade. As narrativas de Klemperer
3 – História e Autoritarismo (A história tem o poder de advertir) sobre como perdeu amigos na Alemanha, em 1933, devido a discussões sobre o
Abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Se nada for verdadeiro, pensamento mágico parecem hoje assustadoramente atuais. Um de seus ex-alunos
ninguém poderá criticar o poder, porque não haverá uma base para fazê-lo. Se nada fez-lhe um apelo para “confiar em seus sentimentos, e sempre se concentrar na
for verdadeiro, tudo é espetáculo. grandeza do Führer, e não no incômodo que está sentindo no momento”. Doze anos
mais tarde, após todas as atrocidades e no fim de uma guerra que a Alemanha tinha
Renunciar à diferença entre o que se quer ouvir e o que de fato é verdadeiro
claramente perdido, um soldado amputado disse a Klemperer que Hitler “nunca
é uma maneira de se submeter à tirania. Essa recusa à realidade pode parecer natural
disse uma só mentira. Eu acredito em Hitler”. O último modo é a exploração
e agradável, mas o resultado é o seu fim como indivíduo — e, assim, o colapso de
indevida da fé. Isso envolve tipos de afirmações autodivinizantes que o presidente
qualquer sistema político que dependa do individualismo. Segundo constataram os
fez ao dizer “Só eu posso resolver isso” ou “Eu sou a voz de vocês”. Quando o
estudiosos do totalitarismo, como Victor Klemperer, a verdade morre de quatro
sentimento fé se desloca dessa maneira do céu à terra, não sobra espaço para as
modos, e acabamos de ver todos eles. O primeiro modo é a hostilidade aberta à
pequenas verdades de nosso discernimento e experiências individuais. O que
realidade verificável, apresentando invenções e mentiras como se fossem fatos. O
aterrorizava Klemperer era a maneira como essa transição parecia definitiva.
atual presidente dos Estados Unidos (Donald Trump) faz isso com uma frequência
Depois que a verdade se tornava oracular, em vez de factual, as evidências eram
elevada e num ritmo intenso. Durante a campanha de 2016, uma pesquisa sobre
irrelevantes. No fim da guerra, um trabalhador declarou a Klemperer que
seus pronunciamentos detectou que 78% de suas declarações factuais eram falsas.
“compreender é inútil, é preciso ter fé. Eu acredito no Führer”. Eugène Ionesco, o
Essa proporção é tão alta que faz com que suas afirmações corretas pareçam
grande dramaturgo romeno, um dos criadores do “teatro do absurdo”, viu vários de
descuidos involuntários no caminho que leva à ficção total. Ignorar o mundo real
seus amigos, um depois do outro, se perderem na linguagem do fascismo na década
dá início à criação de um antimundo ficcional. O segundo modo de assassinar a
de 1930. Essa experiência tornou-se a base de sua peça O rinoceronte, na qual os
verdade, ao estilo fascista, baseia-se na “repetição interminável”, destinada a tornar
que são vitimados pela propaganda transformam-se em gigantescos animais com
o ficcional plausível e a conduta criminosa, desejável. O uso sistemático de
chifres. A respeito de suas próprias experiências, Ionesco escreveu: Professores
apelidos como “Hillary Fajuta” substitui certos traços de caráter que poderiam ser,
universitários, estudantes e intelectuais estavam abraçando o nazismo, tornando-se
com mais propriedade, atribuídos ao próprio presidente. Entretanto, mediante uma
Guardas de Ferro, um depois do outro. No começo, com certeza não eram nazistas.
repetição embotadora no Twitter, o presidente americano conseguiu transformar
Cerca de quinze de nós nos juntávamos para conversar e tentar encontrar
indivíduos em estereótipos, aos quais muitas pessoas aderiram em altos brados. Em
argumentos que se opusessem aos deles. Não era fácil. […] De vez em quando, um
de nossos amigos dizia: “Eu não concordo com eles, é claro, mas em relação a conhecimento necessário para uma avaliação. Esse é nosso objetivo: lembrar-nos
certos pontos, entretanto, tenho de admitir… Por exemplo, os judeus […]” etc. E de que o conhecimento é a vacina contra a ilusão, seja ela doce aos nossos
isso era um sintoma. Três semanas depois, a pessoa aderia ao nazismo. Inseria-se sentimentos ou amarga às nossas convicções. A luta está dentro de você.
no sistema, aceitava tudo, tornava-se um rinoceronte. Já perto do fim, somente três
ou quatro de nós ainda resistíamos. O objetivo de Ionesco era nos ajudar a ver o
Referências:
quanto a propaganda era bizarra, mas parecia normal àqueles que se rendiam a ela.
Ao utilizar a imagem absurda do rinoceronte, Ionesco tentava chocar o público e Sergio Christino, Marcio. Pós-verdade e fake news (Portuguese Edition) . Matrix.
Kindle Edição.
fazê-lo perceber a estranheza do que realmente estava acontecendo. Os
Snyder, Timothy. Sobre a Tirania. Companhia das Letras. Edição Kindle.
rinocerontes continuam vagando por nossas savanas neurológicas. Estamos agora
muito preocupados com o que chamamos de “pós-verdade” e tendemos a pensar
que o desprezo pelos fatos cotidianos e a construção de realidades alternativas
sejam algo novo ou pós-moderno. Contudo, há pouca coisa aqui que George Orwell
não tenha captado há sete décadas com sua ideia de “duplipensar”. Dentro dessa
filosofia, a pós-verdade restaura precisamente a postura fascista em relação à
verdade — e é por isso que nada deste mundo espantava Klemperer ou Ionesco. Os
fascistas desprezavam as pequenas verdades da experiência cotidiana, amavam
palavras de ordem que ressoavam como uma nova religião e preferiam mitos de
criação à história ou ao jornalismo. Usavam os novos meios de comunicação,
representados na época pelo rádio, para criar uma propaganda que apelasse aos
sentimentos antes que as pessoas tivessem tempo para pensar. E hoje, como
naquela época, muitas pessoas confundiram a fé num líder cheio de enormes
defeitos com a verdade sobre o mundo em que todos vivemos. A pós-verdade é o
pré-fascismo.
O que os detentores desse tipo de arma mais temem é que ela se torne visível
e conhecida, pois, a partir do momento em que é identificada como uma
propaganda manipulativa disfarçada de informação, perde completamente seu
efeito. Há, portanto, remédio para esse mal. O grande problema é que a
manipulação é muito fácil, porque não depende de nada, mas a conscientização
depende primeiro da vontade do indivíduo e, depois, da disseminação do

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