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Prova Constitucional

O documento analisa os modelos de constitucionalismo, incluindo o historicista, individualista e americano, destacando suas origens e características. O poder constituinte é abordado como uma força política que cria e legitima constituições, com ênfase nas diferenças entre as tradições inglesa, americana e francesa. A discussão também inclui a complexidade do poder constituinte em contextos históricos e sua relevância na criação de ordens jurídicas modernas.

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Bruno Felipe
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Prova Constitucional

O documento analisa os modelos de constitucionalismo, incluindo o historicista, individualista e americano, destacando suas origens e características. O poder constituinte é abordado como uma força política que cria e legitima constituições, com ênfase nas diferenças entre as tradições inglesa, americana e francesa. A discussão também inclui a complexidade do poder constituinte em contextos históricos e sua relevância na criação de ordens jurídicas modernas.

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Os ternas centrais do constitucionalismo são, pois, a fundação e legitimação do poder político e

a constitucionalização das liberdades. Procuraremos captar estes temas através de modelos


teóricos - o modelo historicista, o modelo individualista e o modelo estadualista.
MODELO HISTORICISTA DO CONSTITUCIONALISMO

O modelo historicista do constitucionalismo, tomando como referência a evolução do


constitucionalismo inglês e suas contribuições para a formação da “constituição ocidental”. Ele
se estrutura em duas partes principais:

1. Dimensões histórico-constitucionais do modelo inglês:

• Garantia de direitos adquiridos: Expressa na proteção do binômio liberty and property


(liberdade e propriedade).
• Estruturação corporativa dos direitos: No início, os direitos eram concedidos a indivíduos
pertencentes a determinados estamentos sociais.
• Regulação por contratos de domínio: Como a Magna Charta de 1215, que estabeleceu
acordos entre governantes e governados.

2. Cristalizações jurídico-constitucionais que influenciaram o Ocidente:

• A evolução de documentos como a Magna Charta (1215), a Petition of Rights (1628), o


Habeas Corpus Act (1679) e o Bill of Rights (1689) consolidou princípios fundamentais.
• A liberdade se afirmou como um direito subjetivo e garantido pela segurança jurídica.
• O devido processo legal (due process of law) foi estabelecido para regulamentar a
privação de liberdade e propriedade.
• O common law surgiu como um sistema dinâmico interpretado pelos juízes, e não pelo
legislador.
• A partir da Revolução Gloriosa (1688-89), consolidou-se a soberania parlamentar e a
representação política, marcando o equilíbrio entre rei e Parlamento.
• O conceito de rule of law (primazia da lei) tornou-se um princípio essencial do
constitucionalismo, garantindo que o poder supremo fosse exercido por meio das leis do
Parlamento.

MODELO INDIVIDUALISTA

O modelo individualista do constitucionalismo surgiu da Revolução Francesa, rompendo com as


tradições medievais e afirmando os direitos naturais e individuais. Diferente da evolução
britânica, o poder político passou a ser visto como uma construção racional, baseada em um
contrato social. Isso levou à necessidade de uma constituição escrita, criada pelo poder
constituinte da Nação, para garantir direitos e organizar o Estado. Enquanto o constitucionalismo
inglês evoluiu gradualmente, mantendo elementos da tradição medieval, o modelo francês surgiu
de rupturas revolucionárias, especialmente a Revolução Francesa (1789), que buscou criar uma
nova ordem baseada nos direitos naturais dos indivíduos.

Ruptura com o passado:

• Ao contrário do modelo britânico, que manteve estruturas medievais, o


constitucionalismo francês rompeu com o ancien régime (Antigo Regime),
eliminando privilégios dos estamentos sociais.
• Os direitos passaram a ser individuais, e todos os homens foram considerados
livres e iguais desde o nascimento.

2. Fundação do novo poder político:


• Diferente da Inglaterra, onde a monarquia limitada evoluiu naturalmente, a
Revolução Francesa trouxe uma questão essencial: como um povo livre pode
criar sua própria lei fundamental?
• A resposta veio das teorias contratualistas (como Hobbes, Locke e Rousseau):
a sociedade é artificial, criada por meio de um contrato social, em que os
indivíduos estabelecem um novo governo.

3. Construção racional do Estado:

• Como a nova ordem não poderia simplesmente evoluir, era necessário um plano
escrito para organizá-la: daí a importância de uma constituição escrita.
• Para criá-la, surgiu a ideia de poder constituinte, que pertence à Nação, a única
entidade legítima para formular a lei suprema.

MODELO CONSTITUCIONALISTA AMERICANO

O constitucionalismo americano se diferenciou do britânico e do francês ao criar uma


constituição escrita e superior, destinada a limitar o governo e proteger direitos
fundamentais. Inspirado na tradição britânica, mas rejeitando a soberania do
Parlamento, o modelo americano introduziu a judicial review, tornando o Judiciário o
guardião da Constituição. Esse modelo estabeleceu o princípio do governo limitado e
garantiu que nenhuma lei poderia violar os princípios fundamentais definidos pelo povo
em sua Constituição. A Constituição dos Estados Unidos (1787) foi uma resposta dos
colonos à tirania do Parlamento britânico, que impunha impostos sem representação
(taxation without representation). Diferente do historicismo britânico, os americanos
viam a constituição como um documento superior às leis ordinárias, capaz de limitar o
poder do governo e proteger os direitos dos cidadãos.

1. O uso da história no constitucionalismo americano:

• Os americanos reivindicaram os direitos tradicionais da tradição britânica, mas


rejeitaram a soberania absoluta do Parlamento.
• Inspiraram-se na ideia de poder constituinte, semelhante ao modelo francês,
mas sem a intenção de criar um Estado todo-poderoso.

2. O conceito de “Nós, o povo” (We the People):

• Diferente do Reino Unido, onde a constituição evoluiu gradualmente, os


americanos adotaram a ideia de que o povo pode tomar decisões fundamentais
em momentos constitucionais raros.
• A Constituição de 1787 foi um desses momentos, onde o povo definiu as regras
do governo por meio de um pacto social escrito.

3. A Constituição como lei superior (higher law):

• Nos EUA, a Constituição não é apenas um conjunto de normas políticas, mas


uma lei fundamental que limita o poder dos governantes (limited government).
• Diferente do modelo francês, onde o poder legislativo se tornou o centro do
Estado, nos EUA a Constituição restringe a atuação do próprio legislador.

4. O papel do poder judiciário:


• Nos EUA, a Constituição foi elevada à condição de lei suprema (paramount law),
tornando nulas as leis ordinárias que a contradizem.
• Isso justifica a criação da judicial review (controle de constitucionalidade), onde os juízes
podem anular leis contrárias à Constituição.
• Com isso, os juízes se tornaram os árbitros entre o povo e o legislador, resolvendo a
questão levantada por John Locke sobre quem deveria julgar o poder legislativo.

1. O que é o poder constituinte?

• É a força política que cria, garante ou elimina uma Constituição, entendida como a lei
fundamental de uma comunidade política.
• Está sempre relacionado ao poder, autoridade e força política.

2. Quem é o titular do poder constituinte?

• Atualmente, o povo é reconhecido como o único titular legítimo desse poder.


• O povo é visto de forma pluralista, composto por indivíduos, grupos, instituições e
valores divergentes ou convergentes.

3. Qual o procedimento para o exercício do poder constituinte?

• Pode ocorrer por meio de uma Assembleia Constituinte, eleita exclusivamente para
elaborar a Constituição.
• Pode também ocorrer por um referendo ou plebiscito, onde o povo aprova diretamente o
texto constitucional.

4. O poder constituinte tem limites?

• Apesar de ser um poder originário, ele não é exercido no vácuo, pois está inserido em um
contexto histórico-cultural.
• Princípios fundamentais como dignidade da pessoa, justiça, liberdade e igualdade servem
para avaliar a legitimidade de uma Constituição.

A pluralidade de abordagens sobre o poder constituinte, destacando sua complexidade e


relevância em diversas áreas do conhecimento, como história, filosofia e direito constitucional. O
poder constituinte é um conceito central no direito constitucional, mas sua natureza ainda é
debatida. Ele pode ser visto como uma força política extrajurídica ou como um princípio jurídico
regulado. Além disso, com a globalização e a integração europeia, surge a questão de saber se é
possível criar um poder constituinte supranacional ou se ele permanecerá dentro dos Estados
soberanos.

1. Diferentes formas de analisar o poder constituinte:

• Histórico-genética: investiga a origem e evolução histórica do poder constituinte.


• Jurídico-filosófica: questiona a validade e a legitimidade de uma constituição.
• Teorético-constitucional: estuda as forças políticas (povo, nação, Estado) que participam
da criação de uma constituição.
• Dogmático-constitucional: aborda temas como a reserva de constituição, a revisão
constitucional e a existência de princípios irrevisíveis.

2. O poder constituinte como “conceito-limite”:


• Relaciona-se com temas políticos fundamentais como soberania, contrato social,
revolução e direito de resistência.
• Alguns autores argumentam que o poder constituinte não pode ser enquadrado
juridicamente, pois seria uma força extrajurídica, um “puro fato” fora do direito.
• Outros defendem que, mesmo sem uma regulação jurídica específica, ele continua sendo
um conceito politicamente relevante.

3. A relação entre poder e legitimidade:

• O poder constituinte surge como uma “força bruta” que estabelece uma nova ordem
jurídica.
• Questiona-se como essa força pode ser convertida em um sistema legítimo de normas e
regras.

4. O impacto da integração europeia:

• O processo de unificação europeia levanta a questão de saber se é possível criar um poder


constituinte europeu supranacional.
• Ou se o poder constituinte continua pertencendo exclusivamente aos Estados soberanos.
• Surge o debate sobre a viabilidade de um poder constituinte interdependente ou pós-
soberano, baseado na cooperação entre diferentes povos.

O estudo do poder constituinte deve considerar diferentes tradições históricas. Enquanto os


ingleses veem a constituição como um processo contínuo e evolutivo, os americanos a escrevem
como um documento normativo supremo e os franceses a criam revolucionariamente, rompendo
com o passado. Essas três abordagens moldaram a forma como os Estados modernos entendem
suas constituições. Adimensão genética do poder constituinte, ou seja, a forma como uma
constituição surge e se estabelece historicamente. Ele destaca três grandes tradições
constitucionais: inglesa, americana e francesa, explicando como cada uma delas concebe o
processo de criação da lei fundamental.

1. Mudança na abordagem sobre o poder constituinte:

• Inicialmente, o estudo do poder constituinte focava no modelo francês da Revolução


Francesa.
• No entanto, esse enfoque era limitado, pois ignorava outras experiências constituintes
importantes, como o constitucionalismo inglês e americano.
• A nova abordagem amplia a análise para incluir esses modelos.

2. A constituição como fenômeno político e jurídico:

• Uma constituição não é apenas um conjunto de normas jurídicas, mas também define a
organização política de um Estado.
• A história mostra que as ideias de constituição política e constituição jurídica foram se
unindo ao longo do tempo.
• O desafio é entender como um texto constitucional consegue tanto criar uma nova ordem
política quanto estabelecer regras jurídicas que legitimam essa ordem.

3. Três tradições constitucionais:

• Inglesa: A constituição é revelada ao longo da história, ou seja, ela emerge


gradualmente através de costumes, precedentes e documentos como a Magna
Carta (1215).
• Americana: A constituição é escrita e definida como uma lei fundamental e suprema,
elaborada por um poder constituinte (exemplo: Constituição dos EUA de 1787).
• Francesa: A constituição é criada de forma revolucionária, rompendo completamente
com a ordem anterior e estabelecendo uma nova estrutura político-jurídica (exemplo:
Constituição de 1791).

1. Revelar a norma - a desconfiança perante um poder constituinte. A Magna Charta e os


contratos de domínio medievais

Na Idade Média, as leis fundamentais eram baseadas em costumes e tradições, e não havia espaço
para um poder constituinte que criasse uma nova ordem política. O objetivo dos documentos
medievais, como a Magna Carta, era preservar o equilíbrio de poder e garantir direitos e
liberdades, e não planejar um novo modelo político. Esse pensamento contrasta com as
concepções modernas de poder constituinte, que assumem a possibilidade de criar constituições
a partir da vontade do povo ou da nação. A desconfiança da Idade Média em relação à ideia de
um poder constituinte capaz de criar uma nova ordem política. Em vez disso, prevalecia a ideia
de que os direitos e liberdades eram baseados em leis antigas e costumes.

1. A rejeição da ideia de um “poder constituinte” criador de leis fundamentais:

• Na Idade Média, não havia a noção de que um poder constituinte poderia criar uma nova
ordem jurídica e política.
• As leis fundamentais não eram vistas como algo que deveria ser criado, mas sim
reconhecido e confirmado, pois se acreditava que os direitos e liberdades já existiam
naturalmente no tempo.

2. A Magna Carta e os contratos de domínio medievais:

• A Magna Carta (1215) e outros documentos similares não criavam uma nova ordem
política, apenas reafirmavam direitos e liberdades já existentes.
• O objetivo desses documentos era limitar o poder do governante e garantir o equilíbrio
entre as forças políticas da época.
• Os contratos de domínio (Herrschaftsverträge) eram acordos que regulavam relações
entre diferentes grupos sociais e não estabeleciam um poder constituinte autônomo.

3. A indisponibilidade da ordem política na Idade Média:

• A ordem política era vista como natural e imutável, não algo que poderia ser projetado
ou reconstruído do zero.
• A ideia de um “povo” ou “nação” como força criadora de uma nova constituição não
existia no pensamento medieval.
• O constitucionalismo histórico rejeitava a ideia de um poder constituinte revolucionário,
como o que surgiria mais tarde na Revolução Francesa.

2. Dizer a norma - o poder constituinte e a criação de um corpo de regras superiores e


invioláveis no exemplo americano

No modelo americano, o poder constituinte é uma ferramenta funcional para criar uma
constituição que não só define as regras políticas e jurídicas do país, mas também limita os
poderes do Estado, garantindo a liberdade e os direitos dos cidadãos. A constituição é rigorosa e
imutável, buscando estabelecer um equilíbrio entre os poderes e garantir um sistema republicano
e federalista, onde o povo tem a autoridade final e a autonomia dos Estados é respeitada.O poder
constituinte na Revolução Americana e como ele difere do modelo histórico-inglese. No contexto
americano, o poder constituinte é central para a criação de uma constituição, com o objetivo de
estabelecer um conjunto de regras superiores e invioláveis, que limitam os poderes políticos e
garantem direitos fundamentais.

1. O Poder Constituinte no Modelo Americano:

• O poder constituinte nos Estados Unidos é representado pela famosa frase do Preambulo
da Constituição: “We the People”, que sublinha a ideia de que o poder político supremo
reside no povo.
• A função principal desse poder é criar uma constituição que registre um conjunto de
regras invioláveis, estabelecendo limites claros para o poder político e garantindo direitos
fundamentais.

2. Objetivos do Poder Constituinte nos EUA:

• Afirmação do povo como autoridade suprema: A constituição estabelece o povo como a


autoridade política máxima, com o poder de criar e regular as normas do Estado.
• Limitação do legislador: O poder do legislador e das leis que ele cria está sempre
subordinado à constituição, garantindo que o poder seja limitado por regras mais amplas
e fundamentais.
• Equilíbrio entre poderes: A constituição americana introduz o sistema de “checks and
balances”, onde nenhum poder é supremo ou absoluto, estabelecendo uma distribuição
equilibrada de poderes.
• Garantia de direitos: A constituição assegura direitos que são protegidos contra a ação
arbitrária dos legisladores e outros poderes constituídos.

3. A Filosofia Garantística do Poder Constituinte:

• Ao contrário de uma visão projetista (como na Revolução Francesa, onde o poder


constituinte tem um caráter supremo), o poder constituinte americano tem uma função
garantística: ele serve para garantir direitos e estabelecer limites ao poder, criando uma
constituição que seja rigorosa e estável.
• O poder constituinte não é autônomo; ele é funcional, pois sua função é criar uma
constituição rigidamente definida.

4. O Princípio Republicano e a Descentralização do Poder:

• No modelo republicano americano, a constituição reflete a ideia de um “povo alargado”.


O povo não é apenas o corpo eleitoral ou os representantes do governo, mas toda a
população. A constituição busca garantir a participação ampla do povo e evitar a
concentração de poder.
• O federalismo nos EUA também é central. A constituição deve equilibrar o poder do povo
com a autonomia dos Estados, mantendo uma união federal que respeite os sentimentos
republicanos dos estados e de seus cidadãos.

5. A Função Central do Constitucionalismo:

• O poder constituinte americano se alinha com o objetivo central do constitucionalismo,


que é impor limites ao poder político. A constituição visa não apenas organizar o Estado,
mas também garantir que o poder não seja exercido de maneira arbitrária ou sem controle,
criando um sistema de regras que limitam os abusos de poder.

3. Criar a norma - o poder constituinte como fórmula fractal e projectante no modelo


francês
No modelo francês da Revolução, o poder constituinte é visto como um poder criador e supremo
pertencente à nação, que tem a capacidade de transformar e criar uma nova ordem política e social,
com um caráter rupturista em relação ao passado. A constituição não é apenas uma formalização
de regras existentes, mas um ato criativo que estabelece uma nova hierarquia de poderes e uma
nova solidariedade entre os cidadãos, solucionando questões de legitimação do poder,
transformação do Estado e integração social. O poder constituinte no contexto da Revolução
Francesa, destacando o papel central da nação como sujeito do poder constituinte e como a
constituição passa a ser vista como um ato criativo e rupturista em relação ao passado.

1. A Revolução Francesa e o Poder Constituinte:

• Na Revolução Francesa, surge a ideia de que o poder constituinte está centralizado na


nação. Ao contrário do modelo inglês, que via a sociedade civil como base para a
constituição, a nação passa a ser titular do poder constituinte, sendo capaz de criar uma
nova ordem política e social.
• A nação tem o direito de criar e transformar a ordem política e social, prescritivamente
voltada ao futuro, e ao mesmo tempo rompendo com o antigo regime (o “ancien régime”).

2. A Visão de Sieyès:

• O abade Sieyès, uma figura importante na Revolução, descreve o poder constituinte como
um poder originário, autónomo e omnipotente, com a nação como seu titular.
• A constituição, para ele, é um ato imperativo da nação, retirado do nada, o que implica a
criação de algo completamente novo e fundamental para o novo sistema político.
• A constituição não se limita a regular o que já existe, mas cria uma nova hierarquia de
poderes, estabelecendo uma ordem política completamente nova.

3. A Ideia de Criar do Nada (Creatio ex Nihilo):

• O conceito de “criatividade” no poder constituinte é descrito como creatio ex nihilo


(criação do nada), um poder que é divinamente atribuído à nação, com a capacidade de
criar uma nova ordem sem precedentes.
• A ideia de potestas constituem (poder de constituir) e norma normans (norma que cria as
normas) reflete a ideia de que o poder constituinte da nação tem o direito de reestruturar
completamente a ordem política e social.

4. A Transmutação de Conceitos Teológicos em Políticos:

• No contexto francês, os conceitos teológicos de divindade e criação foram transmutados


para conceitos políticos, atribuindo à nação a capacidade de exercer um poder semelhante
ao de uma entidade divina, com a capacidade de reconfigurar a ordem política e social.
• A nação passa a ser vista como um sujeito político supremo, com poder absoluto para
decidir a organização do Estado.

5. Problemas Resolvidos pela Revolução Francesa:

• A descoberta e consagração da nação como poder constituinte resolvem três problemas


políticos fundamentais:
• Legitimação do poder político: O poder político é legitimado pela soberania da nação,
que é o verdadeiro sujeito do poder constituinte.

2. Transformação do Estado moderno: A Revolução catalisa a mudança de um estado absolutista


para uma república democrática.
3. Solidariedade entre cidadãos: A nação cria uma nova solidariedade entre os cidadãos, agora
politicamente ativos, no processo de construção e integração da nova ordem social.

A Dimensão Teorético-Constitucional: As Teorias sobre o Poder Constituinte

O texto destaca a evolução do conceito de poder constituinte, começando com Locke, queDe
introduz a ideia de um poder soberano do povo para estabelecer a constituição, passando por
Sieyès, que desenvolve a teoria do poder constituinte soberano da nação, e culminando nos
debates contemporâneos sobre os limites do poder de revisão da constituição. A tensão entre o
poder constituinte originário e o poder constituído é um tema central, assim como os desafios do
constitucionalismo em lidar com a legitimação e os limites impostos à soberania do povo. O
evolução das teorias sobre o poder constituinte, desde as ideias iniciais de John Locke até a
formulação mais concreta de Sieyès e os desafios contemporâneos dessa teoria, com foco na
tensão entre o poder constituinte (capaz de criar a constituição) e o poder constituído (regido pela
constituição). A partir disso, são discutidos os conceitos de poder constituinte originário e
derivado, além das questões relacionadas à limitação do poder constituinte e à democracia.

1. John Locke e o “Supreme Power” (Poder Supremo):

• Locke propôs a ideia de que a soberania reside no povo, e que este possui o poder constituinte
para criar uma nova forma de governo. A sua teoria foi baseada na ideia de um estado de natureza
onde os indivíduos possuem direitos naturais (como a propriedade), que são anteriores à formação
de qualquer governo.

• Locke sugere que o poder constituinte não é absoluto ou arbitrário, mas limitado ao
consentimento do povo. Ele distingue entre o poder de criar a constituição (poder constituinte) e
o poder legislativo ordinário, que apenas aplica as leis. O povo, reunido como corpo político, é o
único autorizado a criar a constituição política.

2. Sieyès e o “Pouvoir Constituant” (Poder Constituinte):

• Sieyès, no contexto da luta contra a monarquia absoluta, desenvolve a teoria do poder


constituinte como poder originário e soberano da nação. Ele propõe que a nação tem plena
liberdade para criar uma nova constituição, sem estar limitada por qualquer estrutura pré-
existente.

• A teoria de Sieyès é descrita como desconstitutiva e reconstitutiva: inicialmente destrói a ordem


monárquica (desconstitui) e, em seguida, cria uma nova ordem política (reconstituí). Assim, o
poder constituinte se torna criador de uma nova ordem política, enquanto os poderes que surgem
dessa constituição são chamados de poderes constituídos.

3. Teoria do Poder Constituinte e Constitucionalismo:

• A teoria do poder constituinte tradicionalmente estabelece uma relação entre o criador (poder
constituinte) e a criatura (constituição). No entanto, surge uma tensão entre o poder constituinte
(que é incondicionado e permanente) e o poder constituído (que é limitado pela constituição).

• A teoria de Madison nos Federalist Papers esclarece a diferença entre constitutional politics
(política constitucional) e normal politics (política legislativa). A política constitucional é uma
ação extraordinária, realizada em momentos de grande mobilização popular e quando a ordem
constitucional está sendo estabelecida, enquanto a política normal segue as regras fixadas pela
constituição.
• Sieyès também explora essa tensão: o poder constituinte é livre para estabelecer uma nova
constituição, mas, uma vez criada, a constituição torna-se um conjunto de normas obrigatórias.
Essa tensão leva à criação do conceito de poder constituinte derivado, ou poder de revisão
constitucional, que permite alterar a constituição, mas dentro dos limites definidos por ela mesma.

4. O Paradoxo da Democracia e a Limitação do Poder de Revisão:

• Um dos grandes desafios teóricos do poder constituinte é o paradoxo da democracia: como pode
um poder (o poder constituinte) estabelecer limites à ação das futuras gerações? Como pode uma
constituição impor restrições à vontade popular das gerações futuras, dificultando mudanças nas
leis? Esse dilema sugere uma antidemocracia intrínseca ao constitucionalismo, onde as gerações
futuras são limitadas pela constituição, criando o que Rousseau chamou de “cadeias para o
futuro”.

O Titular do Poder Constituinte e o Conceito de Povo

1. O Problema do Titular do Poder Constituinte

O titular do poder constituinte deve ser, em uma visão democrática, o povo. No entanto, “povo”
não é um conceito unívoco, mas sim plurívoco (segundo F. Müller), ou seja, pode ter diferentes
interpretações e significados ao longo da história e em diferentes contextos políticos. O povo
deve ser entendido como um sujeito constituído por pessoas reais – homens e mulheres que
participam da vida política e podem deliberar sobre a conformação da ordem política e social.
Assim, quando falamos em poder constituinte, referimo-nos ao poder constituinte do povo.

2. O Povo como “Grandeza Pluralística”

Nas democracias atuais, o povo não é uma entidade homogênea, mas sim uma pluralidade de
forças (como partidos, grupos sociais, igrejas, associações e personalidades políticas). Essas
forças são essenciais para a formação de opiniões e vontades coletivas, influenciando os
momentos preconstituintes (antes da criação da constituição) e os procedimentos constituintes
(durante o processo de elaboração constitucional). Esse conceito pluralista do povo afasta-se de
visões mais restritas e excludentes que marcaram a história, como:

• Os jacobinos, que viam o povo como a facção revolucionária disposta a levar a


revolução até o fim.
• Os liberais conservadores, que restringiam o povo aos cidadãos proprietários
(defensores do sufrágio censitário).
• O marxismo clássico, que identificava o povo com o proletariado revolucionário,
atribuindo-lhe uma missão histórica de transformação social.

Hoje, entende-se que o povo político é formado por grupos de indivíduos que agem segundo
ideias, interesses e representações políticas, afastando-se de conceitos naturalistas, étnicos ou
raciais baseados em origem, língua ou cultura.

3. O Abandono do “Mito da Subjectividade Originária”

Historicamente, a teoria do poder constituinte esteve associada ao mito da subjetividade


originária, ou seja, a ideia de que existe um único sujeito titular do poder constituinte, como:

• O povo (nação) → Ideia típica do nacionalismo.


• O Estado → Visão centrada na soberania estatal.
No entanto, essa concepção monolítica foi abandonada. O poder constituinte não pertence a um
único sujeito homogêneo, mas sim a um conjunto plural de forças políticas (a chamada
plurisubjetividade do poder constituinte). Esse conjunto de forças políticas é responsável por
definir, propor e defender ideias, padrões de conduta e modelos organizativos, que servirão
como base para a constituição jurídico-formal.

O titular do poder constituinte não é um sujeito único e homogêneo, mas sim o povo entendido
de forma pluralista, composto por diferentes grupos sociais, culturais e políticos que interagem e
influenciam o processo constituinte. Esse conceito moderno supera as antigas visões
excludentes e limitadas do povo e reconhece a diversidade de atores que participam da
construção da ordem constitucional.

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