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Direito Constitucional 1

O documento aborda o Direito Constitucional como um ramo do Direito Público que regula a estrutura do Estado e a proteção de direitos fundamentais. Discute a evolução histórica da Constituição, desde sua definição ampla até a moderna, e a importância da separação de poderes e da soberania. Também explora as origens do constitucionalismo, destacando as experiências britânica, norte-americana e francesa na formação de Estados constitucionais.

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Direito Constitucional 1

O documento aborda o Direito Constitucional como um ramo do Direito Público que regula a estrutura do Estado e a proteção de direitos fundamentais. Discute a evolução histórica da Constituição, desde sua definição ampla até a moderna, e a importância da separação de poderes e da soberania. Também explora as origens do constitucionalismo, destacando as experiências britânica, norte-americana e francesa na formação de Estados constitucionais.

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Direito Constitucional

NOTAS PRÉVIAS – INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL


 Direito Constitucional: ramo do direito que está integrado no Direito Público. Tal não significa que as relações
entre privados não sejam por ele reguladas
 Corpo de normas tido como lei fundamental do Estado que dá estrutura a todo o ordenamento jurídico e define
os seus princípios estruturantes
 A Constituição organiza o poder político e a separação de poderes bem como a proteção de direitos
fundamentais. Define os órgãos que vão pertencer ao Estado, as suas competências e as suas vontades

I. INTRODUÇÃO AO CONSTITUCIONALISMO
1. O QUE É UMA CONSTITUIÇÃO?
 Sentido amplo: ordem fundamental de uma comunidade política (antes do século XVIII). É material, histórica,
apreende aquilo que justifica a forma e que é o conteúdo, ou a matéria, da Constituição
 Sentido restrito: lei fundamental de um Estado (a partir do seculo XVIII). É formal, moderna
 Entre os dois termos há uma relação de generalidade e precisão sendo o termo antigo mais abrangente e menos
preciso que o moderno
 Duas ideias essenciais:
o As comunidades políticas organizam-se em forma de Estados
o A ordem fundamental desses Estados é instituída por uma lei, a Constituição
 A Constituição é o modo como se organizam as comunidades políticas
 As pessoas que integram determinada comunidade são vistas como iguais

A. Definição de comunidade política


 Definição clássica: distingue-se das outras comunidades pela globalidade dos fins que prossegue
 Definição moderna: distingue-se das outras comunidades pela natureza das relações interpessoais que no seu
seio se estabelecem. Há politica onde há fenómenos de poder organizados e que podem ser impostos
autoritariamente
 O tema do poder, do seu fundamento e legitimidade é o tema moderno por excelência: o poder é por natureza
uma situação de desigualdade e portanto torna-se necessário explicar o seu exercício e a sua necessidade
 Antes do seculo XVIII:
o Inexistência de documento escrito com autor e data identificados
o Ausência de intenção reguladora
o A Constituição/ordem resultava anteriormente de tradições e convicções religiosas. É essencialmente
descritiva, vem nos dizer como é que essa comunidade politica se organiza
 A partir do século XVIII:
o Constituição enquanto documento escrito, adotado por uma certa autoridade ou poder, num tempo e
num espaço bem identificados
o As Constituições a partir do seculo XIX passam a ter intenção reguladora (criar uma ordem)
o Constituição Americana (1787), Constituição Francesa (1791), Constituição espanhola (1812), Constituição
Portuguesa (1822), etc.

B. O que define um Estado soberano e quais são os seus elementos


 Idade Moderna: capacidade humana para conformar, por vontade própria, o futuro individual e o coletivo
 Renascimento: a política, a vida coletiva, e o modo como esta se organiza, ou seja, a Constituição passa a ficar
á disposição da racionalidade e vontade dos homens
 Paz de Vestefália (1648): emancipação do poder politico e de corporações relativamente ao poder do Papado.
Referência á origem dos Estados.
 O Estado é anterior á Constituição: a existência do Estado como pressuposto da Constituição. O que depende
da Constituição é a forma que o Estado adquire
 O Estado é toda a comunidade politicamente organizada. É constituído por três tópicos principais: povo,
território e poder politico (“Estado é o ente social que se forma quando, num determinado território, se
organiza juridicamente um povo que se submete à vontade de um governo”)
 A comunidade política necessita de uma ordem fundamental que dará resposta a três problemas essenciais:
o Quem é que na comunidade detém o poder
o Quem pertence á comunidade
o Por quais valores coletivos se rege tal comunidade
 Uma comunidade que tenha encontrado uma resposta a estas três questões é uma comunidade dotada de uma
certa ordem. É através do Estado que se dá resposta a estas três questões
 Estado: corpo coletivo que se assume face aos seus pares (outros Estados) como um ser autodeterminado
o Fundamento último da autodeterminação face ao exterior: soberano é aquele que na ordem interna do
próprio Estado detém a titularidade última do poder (o povo escolhe quem o representa)
 Dupla função do termo soberania:
o Qualificativo do Estado: não depende de ninguém ou de nenhum poder que lhe seja superior
o Enquanto critério de identificação do titular ultimo do poder que se exerce no seio do Estado: quem na
ordem interna detém o poder
 Soberania: seculo XVI
o O termo soberania é indissociável do Estado
o Nunca poderiam ter havido Constituições no sentido moderno se não tivesse havido antes este processo
de formação do Estado moderno e cuja primeira declinação é o Estado absoluto. Foi necessário o Estado
absoluto para em reação surgir o constitucionalismo moderno
 Com o surgimento das primeiras Constituições escritas o Estado moderno passa a adotar a forma de Estado
limitado pelo Direito (limitar o poder, porque houve excesso de arbitrariedade nas relações com o monarca). A
Constituição cria formas de limitação do poder
o Estado absoluto: identificação entre autoridade do rei e autoridade do Estado
o Estado Constitucional: devolução da titularidade da soberania ao povo
 Art.º3, 4 e 5 - Lei da nacionalidade: materialmente constitucional
o Direito do solo: pertence ao povo quem reside
o Direito de sangue: o que é relevante é a circunstância de ter sangue do povo
o Não há sistemas puros: combinam os dois elementos
 Um filho de um português pode ser português se manifestar vontade nesse sentido e se mantiver um
ligação efetiva e por isso se garante que não há uma transmissão ilimitada pelo sangue da
nacionalidade. Por outro lado, uma pessoa nascida em território português é português desde que os
seus progenitores sejam há 2 anos com residência legal em Portugal
 No nosso ordenamento jurídico a integração no povo pode acontecer pelo nascimento (originária),
ou adquirida posteriormente. A aquisição da nacionalidade dá-se por naturalização. Se já reside em
Portugal há 5 anos, faz prova de que não praticou nenhum crime com pena de prisão superior a 3
anos e faz teste de conhecimento da língua (art.º122: direito que pode ser titulado apenas pelos
nacionais de origem). Pode adquirir-se também por união de facto ou adoção

C. Núcleo duro de uma Constituição e a limitação do poder pelo Direito


 Artigo 16º DDHC: “Toda a sociedade na qual não esteja assegurada a garantia dos direitos nem determinada a
separação de poderes não tem Constituição.”
 A Constituição aspira ao fim da limitação do poder. O Direito fá-lo-á através da consagração de um elenco de
direitos das pessoas, garantia de liberdades fundamentais (a parte subjetiva da Constituição), e da organização
das instâncias de autoridade segundo um princípio de separação de poderes (a parte orgânica da Constituição),
conteúdos que justificam a forma da Constituição

D. Rogério Soares
 Qualifica a Constituição como um conceito ocidental pois surge de Estados ocidentais
o Surge a partir da necessidade de consolidação do Estado e da ideia da Constituição como o remédio para
todos os males (Após a Revolução Liberal; Viragem do 25 de Abril)
o Início do século XIX português tem presente esta ideia mágica de Constituição dado que vivíamos uma
crise económica grave (sentido amplo: caracteriza todas as comunidades organizadas e essa ordem pode
ter ou não expressão numa Constituição em sentido restrito)
 Qualquer comunidade política supõe uma ordenação fundamental que a constituí e lhe dá sentido:
o Identifica uma comunidade política e quem pertence a essa comunidade
o Indica onde reside o poder e quem o exerce com legitimidade
o Cria um sentido comunitário, ou seja, valores irrecusáveis para cujo serviço se constituem mecanismos de
defesa que irão guiar a comunidade
 Onde existe uma Constituição em sentido amplo existe uma comunidade ordenada
 Surgimento do Estado: separação do poder político do poder religioso. A partir desse momento surge um novo
conceito (moderno) de Constituição que se traduz num documento escrito datado, produto de uma
contingência histórica. Há países como o Reino Unido e a Nova Zelândia que resistem a compilar em leis
positivas a Constituição
 Nem tudo o que é normas constitucionais se compilam na Constituição: a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, a cargo das Nações Unidas, compila os direitos que devem ser respeitados por todas as pessoas em
todos os lugares (criação de instrumentos de defesa dos direitos humanos vinculativa)
 Duplicidade de sentido de Constituição (permanecem em tensão)
o Sentido material é anterior e mais amplo que o formal
o Os dois conceitos convivem. Pretende-se que haja uma harmonia entre eles mas a Constituição material é
sempre mais
o Uma revisão constitucional é alteração de normas que implica sempre algum confronto com a Constituição
formal vigente mas não a Constituição que une uma determinada comunidade politica (material)
 Em suma
o A ausência de uma Constituição formal não significa a ausência de uma Constituição material
o Avivam as tensões entre ambos aquando do processo do poder constituinte ou de revisão constitucional
o Funções da Constituição: responder às três questões (funções clássicas) e controlar os abusos de poder e
inclusividade como via de garantia dos direitos das minorias (funções atuais)

2. ORIGENS HISTÓRICAS DO CONSTITUCIONALISMO


 Desde o fim das guerras religiosas, no século XVII, que a soberania dos Estados passou a reger o Direito
Internacional. A paz revelou-se precária, mas a tolerância e o gozo da liberdade de consciência impuseram o
Princípio da separação de poderes e a proteção dos Direitos do Homem no princípio e no fim do próprio Estado
 A emergência do moderno Estado de Direito, a partir do seculo XVII, realiza-se como crítica do poder regido,
constatação da monarquia absoluta, denúncia da arbitrariedade, que se deseja “limitar”. O objetivo do
constitucionalismo é limitar, equilibrar ou moderar o exercício do poder político, para que este respeite a
autonomia e liberdade dos indivíduos
 Existem vários constitucionalismos, com diferentes tradições, que viveram de diferentes modos o ideal do
poder político moderado. São dadas duas experiencias basilares: a americana e francesa (inspiradas na inglesa)

2.1. CONSTITUCIONALISMO BRITÂNICO


 Estado fundador do constitucionalismo
 Reino Unido não tem uma Constituição formal, mas uma Constituição material (sedimentação progressiva de
um conjunto de normas na consciência jurídica como correspondendo á Constituição da comunidade politica)
 Há um conjunto de normas contendo disposições constitucionais (Bill of Rights: protege direitos individuais)
 Constitucionalismo assente num governo moderado e controlado pelo Parlamento: a preeminência parlamentar
é o traço mais característico do constitucionalismo britânico
 Constituição com diversas camadas: por causa do seu caracter histórico é mais dinâmico do que o
constitucionalismo formal de outros países e exige uma sedimentação histórica
 Foi pioneiro no reconhecimento de que o poder político deve ser equilibrado e moderado e respeitar regras
definidas pelo poder de outrem (Europa dos Estados Absolutos do século XVII: a Coroa deve ser moderada pelo
Parlamento)
 Sendo uma realidade histórica muito particular será importante para a experiência norte-americana

2.2. CONSTITUCIONALISMO NORTE-AMERICANO


 Teve origem numa revolta em relação ao poder da metrópole:
o Conjunto de 13 colonias inglesas resolvem organizar-se e revoltar-se perante a Grã-Bretanha por causa da
questão tributária (estar a impor tributos elevados ás colonias)
o Estas colonias declaram no final do seculo XVIII a sua independência
o Essas declarações, que precedem a Constituição, seguindo o modelo britânico, incluem o Bill of Rights e a
sua própria Constituição (como se pretendem organizar politicamente)
 Convenção de Filadélfia: criação dos Estados Unidos da América e da sua Constituição
o A Constituição surge como ato fundador dos EUA com vista a articular e agrupar os novos polos de poder
e criar uma realidade politica mais forte - criar uma federação
o Esta Constituição é incompleta porque tem apenas tratada a questão da organização do poder político -
“Frame of Government” (7 artigos). Não há um catálogo de direitos. Há um Presidente e duas Câmaras
(Senado e a Câmara dos Representantes) e só mais tarde se acrescenta o Bill of Rights - 10 aditamentos
(direitos que completam a Constituição federal com elementos comuns ás Constituições dos 13 Estados).
Possuí, desde então, 27 Emendas aprovadas
 A nova Constituição revela-se profundamente importante
 Radicalmente diferente mas germina na tradição britânica
 As declarações de direitos surgem no processo de declaração de independência. Quando são criados os EUA o
estatuto de cidadão já estava definido por cada Estado. O Presidente, o Congresso e o Supremo não estavam
vinculados á declaração de cada Estado e por isso houve necessidade de fazer uma declaração de direitos, não
para garantir as liberdades individuais, mas os limites de atuação dos poderes públicos federais
 Constituição mista: devem-se reconhecer diversos polos de poder e encontrar um equilíbrio entre eles
o Aspetos fundamentais:
1. Federalismo
o Poder constituinte de cada Estado
o Vontade política federal resulta da agregação dos poderes políticos dos Estados federados
 Senado: igual representação dos Estados (2senadores por Estado)
 Os aditamentos á Constituição têm de ser aprovados por 2/3 dos membros das duas Câmaras e
ratificados por ¾ dos Estados
2. Direitos fundamentais
o Constam dos dez primeiros aditamentos, aprovados em 1791:
 1. Liberdade de culto, de palavra e de imprensa, direitos de reunião e de petição
 2. Direito ao uso e porte de arma
 4. Inviolabilidade do domicílio
 5/6/7/8. Garantias do processo penal
o Foram posteriormente enriquecidos com outros
 13. Proíbe a escravatura
 15. Garante o direito ao voto, independentemente da raça
3. Separação de poderes:
o Poder executivo cabe ao Presidente
o Poder legislativo cabe às duas Câmaras do Congresso
o Independência reciproca dos titulares (com exceção do regime de impeachment)
o Mutua fiscalização entre o poder executivo e legislativo: o Presidente pode vetar leis e dirigir mensagens
ao Congresso. Alguns atos do Presidente dependem de autorização do Congresso (nomeações para altos
cargos, tratados, créditos orçamentais, etc.)

2.3. CONSTITUCIONALISMO FRANCÊS


 Resulta da Revolução Liberal de 1789
 Promover uma rutura histórica: o desmantelamento total de todas as instituições e formas administrativas do
Antigo Regime
o Pensamento político de Montesquieu (separação de poderes)
o Construções filosóficas de Rosseau (soberania popular)
o Discussões do constitucionalismo norte-americano
 É com a Constituição Francesa que melhor se revela a contraposição entre Estado absoluto e Estado
constitucional
 Primeiro ato formal que marca a revolução é a Declaração dos Direitos do Homem:
o Cortar com o caracter de redução do povo a súbditos do poder
o Cada um dos membros do povo é cidadão e possui um conjunto de direitos e deveres
 A Constituição é fundamentalmente lei escrita ao serviço dos direitos e das liberdades e do princípio da
separação de poderes: tem de comum com o americano a circunstância de dar importância á Constituição em
sentido formal mas radicalmente diferente por ser marcado pela sucessão vertiginosa de textos constitucionais
que reflete os consensos frágeis que marcaram o processo revolucionário francês (1781, 1793, 1795, 1799,
1802, 1804, 1814, 1830, 1848, 1852, etc.)
 Parlamento é o órgão mais importante no quadro do constitucionalismo francês: a vontade do Parlamento é a
vontade do povo, por isso a lei é a expressão máxima da vontade geral
o O poder legislativo é exercido pelas Assembleias soberanas e o poder executivo é a ele subordinado
o A lei é a fonte mais importante de direito
 A possibilidade de uma lei ser declarada inconstitucional é estranha até a segunda metade do seculo XX por
causa dessa noção da lei enquanto produto do Parlamento que é o órgão político mais importante
(hipervalorização do Parlamento): entendia-se que a liberdade consistia em fazer aquilo que a lei não proíbe.
No constitucionalismo americano não é tão típica a hipervalorização do Parlamento pois o Supremo Tribunal
tem o poder de afastar os erros
 Projeção do constitucionalismo francês
o Final do seculo XVIII e inícios do seculo XIX no continente europeu (Constituição espanhola de 1812 e
portuguesa de 1822)
o Meados do seculo XIX para a Europa central (Estados alemães e Áustria)
o Seculo XX, com a descolonização, para Estados Africanos

2.4. CONSTITUCIONALISMO PORTUGUÊS


 Início do seculo XIX: crise política e económica em consequência das invasões francesas que provocou a
insatisfação generalizada com a situação do país (surge a ideia de Constituição mágica)
 Rutura com o absolutismo monárquico
 Três períodos:
o Constitucionalismo Liberal (1820-1926)
 Constitucionalismo liberal monárquico: Constituições de 1822, 1826, e 1838
 Constitucionalismo liberal republicano: Constituição de 1911
o Constitucionalismo Autoritário (1926 – 1974): Constituição de 1933
o Constitucionalismo Democrático (desde 1976): Constituição de 1976

A. Constituição de 1822
 Revolução de 24 de agosto de 1820 a par da súplica de uma nova Constituição formal que limitasse o poder do
rei e que trouxesse o reconhecimento de direitos e deveres
 Este processo confluiu na Constituição Vintista: vigência curta, mas simbolizou as forças mais progressistas do
período pós revolução liberal
o Inspiração francesa das Constituições do seculo XVIII
o Muito próxima da Constituição espanhola de 1812 (fonte direta principal)
o Organização:
 Direitos e deveres individuais dos portugueses nos primeiros artigos
 Monarquia constitucional
 Separação de poderes com supremacia das Cortes

B. Carta Constitucional de 1826


 Obra outorgada pelo rei D. Pedro IV á nação antes de abdicar do trono português
o Monarquia constitucional, detendo o rei, além do poder executivo, o poder moderador (mais
conservadora - reforço dos poderes do rei)
o Direitos e deveres fundamentais no último artigo

C. Constituição de 1838
 Surge na sequência da Revolução de Setembro de 1836 (síntese das duas tendências)
o Vigorou entre 1838 e 1842
o Desenvolve a matéria dos direitos fundamentais
o Regressa á tripartição dos poderes
 De 1842 a 1910 vigorou a Carta Constitucional, alterada entretanto por atos adicionais:
o Ato Adicional de 1852: entre outros, aboliu a pena de morte para crimes políticos
o Ato Adicional de 1885
o Decreto de 1895
o Ato Adicional de 1907

D. Constituição de 1911 (até 1926 – golpe militar)


 Surge na sequência da implantação da República:
o Profundamente influenciada pela Constituição brasileira (influenciada pela norte americana)
o Poder legislativo cabe ao Congresso da República
o Poder executivo é exercido pelo Presidente e pelos Ministros (existindo ainda um presidente do ministério)
o Grande importância aos direitos fundamentais dos cidadãos
o Laicidade do Estado

E. Constituição de 1933
 Surge na sequência do golpe de 1926
 De 1926 a 1933, há um período de ditadura constitucional, com latência constitucional, só começando em 1931
a ser preparada a nova Constituição
 Constituição meramente semântica: a vida política não se conformava com as normas contidas no texto
constitucional, ao contrário das Constituições normativas que regulavam efetivamente a sociedade:
o Apagamento das liberdades de expressão, de imprensa (sistema de censura prévia), de associação, de
reunião, etc.
o Domínio da vida politica pelo Presidente do Conselho
o Redução do presidente a uma magistratura representativa

F. Constituição de 1976
 Surge na sequência da Revolução de 25 de abril de 1974
o O MFA propôs a eleição por sufrágio universal, direto e secreto de uma Assembleia Constituinte
o Constituição vasta e complexa
o Assenta na democracia representativa e na liberdade política
o Admite um órgão de soberania composto por militares (Conselho da Revolução)
o Direitos fundamentais muito desenvolvidos, desde as liberdades clássicas dos direitos dos trabalhadores
a amplos direitos de participação política, sociais, etc.
 1ª Revisão Constitucional (1982)
o Revisão extensa e profunda
o Redução das marcas ideológicas de referência ao socialismo
o Extinção do Conselho de Revolução
o Criação do Tribunal Constitucional
 2ª Revisão Constitucional (1989)
o Promovida pela Assembleia da República em 1987 (maioria parlamentar monopartidária)
o Centrada na organização económica
o Supressão quase completa das menções ideológicas ao socialismo
o Supressão da regra da irreversibilidade das nacionalizações posteriores a 1974
o Introdução do referendo político a nível nacional
 3ª Revisão Constitucional (1992)
o Tratado de Maastricht
o Revisão extraordinária
o Revisão cirúrgica da Constituição (possibilidade dos cidadãos europeus votarem em Portugal para o
Parlamento Europeu)
 4ª Revisão Constitucional (1997)
o Desconstitucionalização de vários aspetos da organização política
o Reforço de mecanismos de participação dos cidadãos (referendos)
 5ª Revisão Constitucional (2001)
o Processo extraordinário de revisão
o TPI e o art.º7 nº7 da CRP
o Pequenas alterações (estatuto de igualdade dos estrangeiros)
 6ª Revisão Constitucional (2004)
o Integração Europeia e autonomia regional
o Carta dos DF da EU
 7ª Revisão Constitucional (2005)
o Processo extraordinário de revisão
o Inclusão do art.º295 na CRP

3. O PROGRAMA DO CONSTITUCIONALISMO MODERNO


 Tem nove postulados que constituem uma forma de apresentar a realidade de um poder que se quer
equilibrado e limitado e que por isso necessita de um conjunto de normas que balizem o seu exercício
1. Fundamento do poder: provém da vontade dos seus membros e não de uma realidade que lhe seja
transcendente
2. Relativo à forma da Constituição: deve constar de uma Constituição escrita, resultado da decisão soberana
do povo ou da nação que a integra
3. Relativo à legitimidade dos poderes constituídos: só são legítimos quando exercidos de acordo com o título
que lhes confere essa Constituição
4. Relativo à pertença à comunidade política: o que determina a pertença ou não pertença de alguém à
comunidade política é a condição, igual para todos, de cidadão
5. Relativo aos valores fundamentais da comunidade: os direitos do Homem têm primado sobre qualquer
outro valor
6. Relativo à separação entre o poder religioso e o poder político: a esfera política é autónoma da esfera
religiosa e o Estado e a Igreja devem ser separados
7. Relativo à separação entre os poderes políticos: os poderes do Estado não devem estar concentrados num
único órgão
8. Relativo à supremacia da lei: o poder legislativo deve estar a cargo de um Parlamento ocupado por titulares
eleitos que representem a vontade soberana do povo ou nação
9. Relativo ao princípio da maioria: as decisões políticas tomadas pelos representantes em nome do soberano
devem em princípio corresponder à vontade da maioria
4. PROBLEMÁTICA DO PODER CONSTITUINTE

 Poder de criar ou modificar a Constituição


 Fenómeno Moderno: exerce-se em momentos de profunda viragem histórica (surgem contra o modelo anterior
com o objetivo de criar uma nova ordem)
 A Constituição é um conjunto de normas dotadas de vinculatividade que tem validade e se impõem numa
determinada sociedade como a lei fundamental e suprema
 Só pode fazer leis quem a Constituição habilita para o efeito, respeitando-se o procedimento legal nela previsto.
 O Poder Constituinte não tem normas prévias que o legitimem. É o poder mais inovador, não sendo circunscrito
por normas previamente estabelecidas
 De onde vem a legitimidade de criar normas constitucionais?
o Perspetiva Seiyèz (contexto da Revolução Liberal Francesa): a legitimidade reside na nação que se impõe
a todos os outros poderes constituídos (subordinados à Constituição - poderes inferiores). Poder
constituinte, mais do que criador de uma realidade nova, interpreta o sentimento da nação
 Existe algum poder que seja simultaneamente constituinte e constituído?
o Poder de revisão constitucional. É constituinte por criar normas constitucionais e constituído por estar
limitado a normas constitucionais pré existentes
o Art.º284 e 289: regulam a forma como se podem ou não introduzir alterações á Constituição
 O poder constituinte pode exercer-se destes modos:
o Poder constituinte originário: criar nova Constituição, renovar o pacto fundador da comunidade, segundo
a vontade de introduzir uma rutura constitucional
o Poder constituinte derivado (revisão constitucional): introduzir alterações a uma Constituição existente
mediante regras por ela estabelecidas (art.º288: matérias que as leis de revisão terão que respeitar)
 Duas posições acerca do art.º288:
o A imposição de limites á liberdade constituinte é um abuso de poder constituinte relativamente às
gerações seguintes. Devem deixar liberdade às gerações futuras de adequarem a Constituição às
necessidades do seu tempo. Milita no sentido de não haver limites materiais á Constituição
o Uma Constituição é sempre produto de um determinado contexto histórico e por isso tem uma identidade
que se afirma no respeito por um núcleo de princípios que não podem ser alterados sob pena de já não
estarmos no quadro da mesma Constituição, mas no de uma radicalmente diferente. A existência de limites
materiais justifica-se porque representa o núcleo identitário de princípios da Constituição

4.1. PROCEDIMENTO CONSTITUINTE


 Muito variado: pluralidade de modelos
 O Poder Constituinte é um poder supremo que pertence á sociedade. A Constituição é o “contrato social”
através do qual o povo (corpo político) consente o poder do legislador
o Procedimento constituinte representativo: há uma escolha de representantes a quem se entrega o poder
de criar uma Constituição. O povo elege uma Assembleia a quem vai caber a redação da nova Constituição.
(Exemplos: Constituições de 1822, 1838 e 1976)
o Procedimento constituinte plebiscitário: sujeita a voto popular. Hoje em dia, em Portugal, só podem
realizar-se referendos para questões relevantes mas não tão essenciais que toquem alterações á
Constituição. (Exemplo: Constituição de 1933)
o Poder constituinte monárquico: a legitimidade do rei que o autoriza a propor uma Constituição á nação.
(Exemplo: Constituição de 1826)
 Muitas vezes há simultaneamente processos mistos. O Poder Constituinte é dinâmico na forma como se
organiza
 Esta combinação de elementos aplica-se ao processo constituinte originário mas pode ser transportado para a
revisão da constitucionalidade
 As construções de Seiyèz são manifestamente exageradas á conceção atual

II. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS FUNDAMENTAIS


1. DISTINÇÃO ENTRE NORMAS-REGRAS E NORMAS-PRINCÍPIOS
 Quer as normas-regras quer as normas-princípios são normas jurídicas. As normas constitucionais estão
intimamente ligadas com os valores centrais do ordenamento jurídico
 Normas-regras: normas que traduzem comandos concretos, diretamente aplicáveis, às quais os destinatários
devem obediência. É fácil, pela sua leitura, percebermos o comportamento que devemos ou não ter e saber se
houve ou não uma transgressão. Por exemplo, os primeiros artigos da Constituição (art.º1 e art.º2) são
disposições mais difíceis de concretizar em relação às disposições do Código da Estrada. Não é claro o que
significa cada preceito e que condutas é que se traduzem na sua violação
 Normas-princípios: o art.º2 consagra um princípio constitucional. Este princípio é também uma norma, também
tem vocação de comando, cujo sentido se pode apreender quando confrontado com um caso concreto. São
normas mais abstratas. Necessitam de algo que lhes dê substrato
 As normas são impositivas (os poderes públicos estão vinculados a estes princípios, a respeita-los e garanti-los
ou incorrerão em inconstitucionalidade)
 Critérios de distinção entre regras e princípios:
1. Grau de abstração: os princípios são mais abstratos do que as regras. As normas são mais concretas
2. Grau de determinabilidade: as normas-regra possuem uma maior determinabilidade porque percebemos
da sua leitura o que se retira. As normas-princípios necessitam de ser densificadas para as percebermos
3. Carácter de fundamentalidade: as normas-regra estão menos ligadas com os valores fundamentais de um
ordenamento jurídico. As normas-princípio são dotadas desse carácter
4. Natureza normogenética: as normas-princípio podem gerar outras normas
 A Constituição é um sistema normativo que compreende regras e princípios
o Regras: art.º133, 164, 165
o Princípios: art.º1, 2, 13, 20, 266
o A fonte dos princípios fundamentais são, essencialmente, os primeiros 11 artigos

2. O PRINCIPIO DO ESTADO DE DIREITO


 A expressão Estado de Direito surge na Alemanha mas é ideia comum a todo o pensamento liberal e ao
movimento constitucionalista moderno
 Art.º2: o Estado de Direito garante as liberdades fundamentais e o princípio de separação de poderes
 O Estado, nas suas várias vertentes, está balizado na sua atuação por normas jurídicas heteronomamente
definidas. A ação dos poderes públicos está limitada pelo Direito
 O poder do Estado só pode ser exercido com base na Constituição (ou leis conformes). Os poderes públicos
necessitam de estar vinculados a determinados princípios materiais como, por exemplo, dignidade da pessoa
humana, para que verdadeiramente se possa falar em Estado de Direito, senão vivemos apenas num Estado de
Legalidade (que somente cumpre a lei)
 Um Estado de Direito implica que este se organize de modo a que não haja, por parte dos entes públicos, abusos
no exercício dos seus poderes
o Estado de arbítrio: sem limites para o poder. O constitucionalismo liberal surge como uma luta contra o
Estado arbitrário e absolutista
 Entendimento contemporâneo do princípio do Estado de Direito (Maria Lúcia Amaral):
o Elementos formais: modo como se estrutura o exercício do poder politico
 Separação de poderes
 Constitucionalidade das leis (fiscalização)
 Legalidade da administração
 Independência do poder judicial
o Elementos materiais: conteúdo
 Dignidade da pessoa humana
 Liberdade
 Justiça
 Segurança
 Todos os princípios constitucionais são normas jurídicas na medida em que estabelecem um dever-ser
 Num Estado de Direito, quem exerce autoridade está balizado pelos estritos limites das normas jurídicas
existentes e não pelas preferências pessoais. Essas normas jurídicas têm de ser definidas previamente de modo
claro, de maneira a que os cidadãos possam antever consequências jurídicas das suas ações

2.1. ELEMENTOS FORMAIS DO PRINCÍPIO DO ESTADO DE DIREITO


A. Princípio da separação de poderes
 A legislação, a administração e a justiça devem ser atribuídas, senão exclusivamente, pelo menos
principalmente a um certo tipo de instituições ou órgãos estaduais
o Poder legislativo: partilhado pelo Parlamento (Assembleia da Republica), pelo Governo (não pode legislar
em todas as matérias) e pelas Assembleias Legislativas Regionais (Regiões Autónomas)
o Poder administrativo: função executiva. É partilhado pelo Governo, pelas autarquias locais e por outras
entidades definidas por lei
o Poder judicial: cabe aos tribunais, nos termos do art.º202
 A Constituição consagra também uma interdependência de poderes, isto é, o controlo do poder não se faz
apenas separando poderes, mas também através do estabelecimento de controlos mútuos entre os diversos
órgãos de soberania (art.º111)
o O poder do Presidente da República de vetar atos legislativos quer da Assembleia da República quer do
Governo.
o Poder da Assembleia de República de demitir o Governo, aprovando uma moção de censura ou
rejeitando uma moção de confiança (art.º195 alínea d, e)
o Os tribunais tem de ser independentes mas tem função do controlo da atividade legisladora
 A separação e interdependência é um poder que se vigia e controla reciprocamente
 Constituição serve de limite último da atuação do legislador através do controlo de constitucionalidade

B. Princípio da Constitucionalidade das Leis (Fiscalização)


 Surge na segunda metade do século XX (mais cedo nos Estados Unidos com o caso Marbury vs. Madison) com
a criação dos Tribunais Constitucionais que se dedicam ao controlo da constitucionalidade
 Há um poder tido como mais soberano do que os outros: o legislativo (legitimado pelo Parlamento). Durante
muito tempo houve resistência a admitir que o poder legislativo fosse controlado por órgãos a esse efeito
destinados, os Tribunais Constitucionais (só começaram a surgir no seculo XX). A ideia de ter um tribunal com
poder de dizer ao Parlamento que desrespeitou a Constituição é contrário aos quadros mentais da Europa do
seculo XIX. Ainda que o legislador atua-se contra a Constituição daí não decorriam consequências
 A mesma realidade não existiu no constitucionalismo norte-americano:
o Marbury vs. Madison (1803): pela primeira vez um juiz decidiu que se a Constituição é a lei fundamental da
nação há que tirar consequências disso. Uma lei que não se conforma com a Constituição é nula e como tal
não deve ser aplicada ao caso concreto. Inaugurou um modelo de justiça constitucional em que qualquer
tribunal pode recusar a aplicação de uma lei com fundamento na sua inconstitucionalidade (poder de
controlo da constitucionalidade). Esta possibilidade é estranha ao quadro mental europeu do século XIX
 Art.º3: principio que submete o próprio legislador ao controlo da Constituição. As leis têm de respeitar a CRP
sob pena de serem consideradas inconstitucionais

C. Princípio da Legalidade da Administração


 Subordinação do poder administrativo (executivo) ao poder legislativo
 A prevalência ou primado da lei: os atos da administração não podem valer contra a lei
 A reserva ou precedência de lei: a atuação da administração deve estar prevista em lei que a antecede

D. Princípio da Independência do Poder Judicial


 Art.º203: os tribunais são independentes de outros poderes e apenas estão sujeitos à lei
 Duas ideias fundamentais da independência dos Tribunais:
o Submissão ao Direito
o Imparcialidade e neutralidade nomeadamente em conflitos cidadão-poder publico
 É fundamental que haja uma entidade neutra e imparcial, não vinculada a outra entidade, que nos garanta o
cumprimento dos direitos. A rede de interdependências não se aplica ao poder judicial

2.2. ELEMENTOS MATERIAIS DO PRINCÍPIO DO E STADO DE DIREITO


São colocados limites de índole substancial (conteúdo): O Estado de Direito precisa de garantir a dignidade da
pessoa humana, a liberdade, a justiça e a segurança

A. Princípio da Dignidade da Pessoa H umana


 Art.º1: Principio plural. Não pode ser interpretado tendo em consideração uma mundividência específica.
Enquanto princípio jurídico tem uma vida curta na Historia do Direito
 No pós-guerra, houve um grande impulso pela proteção dos direitos humanos, surgindo a DUDH. Como forma
de reação às atrocidades que aconteceram na 2ª guerra mundial, consagraram-se os Direitos Humanos na
Constituição alemã, sendo posteriormente seguida por várias Constituições, entre as quais a CRP. A DUDH tem
a dignidade enquanto valor central no qual se funda o direito internacional dos direitos humanos
 O Tribunal Constitucional diz tratar-se de um valor constitucional supremo e estruturante que ocupa o lugar
cimeiro no ordenamento jurídico:
o Acórdão nº16/84
o O exercício do poder faz se em função da pessoa e não o contrário.
o É o fundamento de regras ou princípios já expressamente consagrados no nosso ordenamento jurídico,
e tem função normogenética.
 Também tem servido como critério de interpretação ou enquanto ferramenta auxiliar na
concretização/densificação do âmbito de proteção das normas de direitos fundamentais. A dignidade é o
fundamento desses mesmos direitos como dos direitos económicos, sociais e culturais (Vieira de Andrade)
 No âmbito do Direito Criminal o princípio da dignidade da pessoa humana assume uma grande importância,
pois existe uma conceção do homem como ser digno e livre, que deve poder ser responsabilizado pelas suas
condutas, sendo suscetível de um juízo de censurabilidade (Acórdão nº95/01)
 Do princípio da dignidade derivam ainda direitos fundamentais não escritos:
o Direito a uma existência condigna
o Rendimento social de inserção (Acórdão nº509/02)
 A crescente importância deste princípio é dada pela disseminação da sua consagração expressa e pela sua
invocação, tanto por parte da doutrina como da jurisprudência, que pode originar uma certa “inflação da
dignidade”, ou seja, o uso excessivo do princípio
o Critica (JRN): só devemos invocar este princípio em situações extremas, ou seja, quando não possuirmos
outros direitos fundamentais que possamos invocar a nosso favor
 Este princípio é um instrumento auxiliar de delimitação de conteúdo de direitos
o Acórdão nº144/2004 (lenocínio): o TC procedeu à delimitação do âmbito de proteção normativa dos
direitos previstos nos art.º41 (liberdade de consciência) e art.º47 (liberdade de escolha de profissão) a
partir do princípio da dignidade
A.1. O princípio da dignidade enquanto instrumento metódico de resolução de conflitos
 Podem existir conflitos entre direitos fundamentais e é necessário chegar a conclusões que, na medida do
possível, os garantam a todos
o Acórdão n.º 101/09 (PMA): art.º67 nº2 alínea e: exige a regulação pelo legislador ordinário das técnicas de
PMA, em termos que respeitem a dignidade da pessoa humana
o Maria Lúcia Amaral avança com a “Formula-objeto” de Dürig: reconhece a existência de um núcleo material
mínimo de dignidade que deve constituir uma garantia irredutível num Estado de Direito e que não
depende da conceção que a própria pessoa tenha da sua dignidade. É aplicável às situações em que o
homem concreto é reduzido à condição de objeto ou de um simples meio
 O TC invocou a “fórmula-objeto” por exemplo nos acórdãos nº130/88, 426/91, 89/00, 225/18 e
144/04
 Acórdão nº144/04 (lenocínio): “Tal perspetiva não resulta de preconceitos morais mas do reconhecimento de
que uma Ordem Jurídica orientada por valores de Justiça e assente na dignidade da pessoa humana não deve
ser mobilizada para garantir, enquanto expressão de liberdade de ação, situações e atividades cujo “princípio”
seja o de que uma pessoa, numa qualquer dimensão (seja a intelectual, seja a física, seja a sexual), possa ser
utilizada como puro instrumento ou meio ao serviço de outrem. A isto nos impele, desde logo, o artigo 1º da
Constituição, ao fundamentar o Estado Português na igual dignidade da pessoa humana.”

A.2. Reservas quanto à adoção desta “fórmula” para a interpretação do conceito de dignidade
 Tribunal Constitucional Federal Alemão: esta não constituí uma “fórmula mágica” e apenas pode “apontar uma
direção para a busca de lesões da dignidade”. A fórmula pode ser interpretada como veículo para o
estabelecimento de restrições da liberdade
 “Se o sentido essencial da definição da dignidade da pessoa se centra na impossibilidade de a pessoa ser tratada
como mero objeto, então tal terá, como consequência lógica, que na sua plena assunção como sujeito é ao
indivíduo que cabe, primacialmente, a configuração e a densificação do conteúdo preciso da dignidade.”. “A
objetificação proscrita pela fórmula do objeto só revela, para efeitos de significar violação da dignidade, quando
nela está decisivamente presente um elemento de coisificação, desvalorização, desprezo, humilhação ou, em
geral, de degradação da pessoa.” (JORGE REIS NOVAIS)

A.3. “Fórmula-objeto” como tentativa de concretização do PDPH


 Aplica-se a fórmula quando existe a instrumentalização da pessoa, sendo esta tratada como meio, ao serviço
de outrem, para um fim (criação de bebés-medicamento: criar uma pessoa para salvar outra – não há atentado
da dignidade da pessoa humana, logo, não é inconstitucional)
 Temos de apurar se há uma intencionalidade específica degradante da pessoa humana. Se houver esta intenção
então há atentado à dignidade da pessoa humana. A fórmula-objeto é clara quando se tratam de lesões
manifestas da dignidade (tortura, maus tratos, etc.). Quando não é o caso, a aplicação desta fórmula pode
colocar maiores dificuldades. Há uma certa reserva em adotar esta fórmula. Isto porque, se o sentido essencial
do Princípio da dignidade da pessoa humana se centra na impossibilidade de a pessoa ser tratada como um
meio ou um mero objeto, então isso terá como consequência que caiba ao individuo definir a configuração e
densificação do conteúdo preciso da dignidade. A verificação da existência da inconstitucionalidade por
violação da dignidade deve ter em conta as circunstâncias concretas do caso
 O consentimento do próprio é evidentemente um dos fatores a considerar. Há situações que se fossem
impostas atentariam contra o princípio da dignidade humana. Mas havendo um entendimento livre por parte
da pessoa em questão tal situação já não se verifica (deve ser a própria pessoa a decidir sobre a sua dignidade
- Acórdão nº225/18)
 Em conclusão, este conceito é muito difícil de definir porque não existe consenso acerca do que torna a vida
humana “boa”, tanto para os indivíduos como para as sociedades
 Parece que poderá ajudar para a determinação do conteúdo deste princípio, a consagração do direito ao
desenvolvimento da personalidade (art.º26): não pode deixar de ser vista, em situações de dúvida, como uma
presunção a favor da liberdade de atuação

A.4. O PDPH compreende (MLA):


 Uma dimensão negativa (defensiva): proíbe ao Estado comportamentos que possam pôr em causa o princípio
da dignidade da pessoa humana
 Uma dimensão positiva (prestativa): impõe ao Estado que garanta que terceiros não violem este princípio e
exige o reconhecimento de um “direito a um mínimo para uma existência condigna”, que se traduz numa
obrigação estadual de garantir condições materiais de vida mínimas e dignas aos cidadãos

A.5. Relação entre autonomia e dignidade


 Há uma relação muito estreita entre estes dois princípios
 A dignidade traduz-se num direito a ter direitos e na qualidade de ser sujeito jurídico
 O Estado de Direto deve assegurar necessariamente a cada pessoa a possibilidade de exercício da sua
autonomia. Para tal, exige a garantia constitucional do princípio do pluralismo, no que se refere às visões do
mundo e às conceções sociais e individuais do que seja a vida boa

B. O Princípio da Segurança Jurídica


 Uma das normas que se retira do princípio do Estado de Direito (art.º2) é o princípio da segurança jurídica (não
está em nenhum artigo). O valor da segurança jurídica é essencial
 Do ponto de vista dos cidadãos, os direitos, liberdades e garantias estão melhor protegidos num Estado de
Direito. Há um conjunto de garantias que estão salvaguardadas
 O principal que tem que salvaguardar é o da segurança jurídica. A segurança é pressuposto da liberdade. Só
conseguimos planear as nossas vidas e gozar as nossas liberdades conseguindo antecipar quais serão as
consequências dos nossos atos
 Este princípio é apresentado muitas vezes sob o nome do princípio proteção da confiança. Todos os poderes
públicos estão obrigados a agir para com os cidadãos de uma forma que proteja a sua segurança jurídica e que
permita a estes confiarem na previsibilidade da atuação dos poderes públicos. Doutra maneira, não há
confiança entre os cidadãos e os poderes público

B.1. Consequências decorrentes do Estado de Direito e do Princípio da Segurança Jurídica


1. Tendencial irrevogabilidade dos atos constitutivos de direitos por parte da administração pública: necessidade
de proteger a estabilidade na vida das pessoas que obriga a que os poderes públicos se abstenham de algumas
atuações. Quando a administração pública pratica um ato constitutivo de direitos, este ato é tendencialmente
irrevogável (há exceções). Os cidadãos não ficam á mercê de uma mudança de posição por parte da
administração pública quando os direitos destes estão dependentes de um ato administrativo prévio. Sempre
que se revoga é preciso ver se foram cumpridos os pressupostos á luz do princípio do Estado de Direito
2. Tendencial intangibilidade do caso julgado:
 Em relação às decisões judiciais, enquanto estão em apreciação, mantêm-se em aberto, o litígio está a ser
discutido. Contudo, há um momento em que a decisão judicial transita em julgado (formação de caso
julgado), isto é, a decisão torna-se definitiva, deixa de ser passível de recurso ordinário e estabiliza-se na
ordem jurídica. Esta é uma exigência do Estado de Direito. Caso contrário os cidadãos estariam expostos a
insegurança jurídica e possibilidade a qualquer momento uma decisão ser alterada. O caso julgado não é
intocável, pode haver motivos extremos/excecionais que justificam a sua reabertura
 A justiça e a segurança jurídica conflituam: a justiça aconselharia a que pudesse rever uma determinada
decisão, mas por outro lado, a segurança exige que a determinado momento se estabilize a vida social. O
poder judicial fica inibido de produzir alterações sobre situações sobre as quais já se pronunciou

B.2. Poder de criar normas jurídicas: o Poder Legislativo


 O processo de criação tem de obedecer a requisitos:
1. Clareza, precisão e determinabilidade da norma: quando as normas não são claras, precisas e determinadas
há um espaço enorme para a arbitrariedade dos poderes públicos. É uma das exigências do Estado de
Direito levar tão longe quanto possível estes requisitos para que os cidadãos possam confiar na
previsibilidade das suas ações
2. A lei seja pública: exigência de que as leis sejam publicadas em “Diário da República” (art.º119), acessíveis
a todos os cidadãos
3. Proibição dos pré-efeitos das normas: nenhuma consequência pode ser extraída de uma norma que não
está em vigor. Os cidadãos não podem ser surpreendidos por efeitos não expectáveis das suas ações
4. Problema da retroatividade das leis: o Direito tem dificuldade em responder ao dinamismo da realidade.
Muitas vezes há tendência para o legislador responder através de normas retroativas (normas que se
poderiam aplicar a situações antes da sua entrada em vigor). Esta ideia repugna ao Estado de Direito. A
pessoa deve saber as consequências dos seus atos no momento em que os pratica. Tendencialmente, o
Estado de Direito preza pela irretroatividade das normas. As leis não devem ter eficácia retroativa, apenas
prospetiva (valer apenas para o futuro). Isto decorre da ideia de previsibilidade dos atos dos poderes
públicos. No entanto a realidade dinâmica cria conflitos entre o respeito do princípio de Estado de Direito
e a necessidade de tomar medidas eficazes para fazer frente a determinadas situações com que os poderes
públicos são confrontados
 Não há uma total proibição da retroatividade autentica das leis. Só está expressamente proibida em três
situações concretas:
1. Art.º18 n3: as leis restritivas de direitos, liberdades e garantias não podem ter efeito retroativo
2. Art.º29 n1,n3 e n4: um ato, para ser considerado crime, é necessário que por lei anterior assim seja
qualificado. A pena que lhe será aplicada irá encontra-se dentro da moldura penal que estava em vigor no
momento da prática do ato. Será aplicada lei posterior caso seja mais favorável ao indivíduo
3. Art.º103 n3: quando os poderes públicos fazem uso do poder de criar impostos estão proibidos de criar
impostos que se pretendam aplicar a factos passados
o Uma proibição estrita da retroatividade só vale nestes três domínios concretos o que significa que o
legislador poderá gozar de alguma maleabilidade de proceder excecionalmente á retroatividade
o A retroatividade deve limitar-se ao necessário
 Além da retroatividade pura/autêntica, há situações que não sendo de retroatividade são muito semelhantes
nos interesses que convocam às situações de retroatividade. Temos igualmente uma afetação de expectativas
dos cidadãos inesperada
o Alteração legal que afeta negativamente o salario: afeta as expectativas dos cidadãos
o Contrato de arrendamento: á data do contrato, os cidadãos confiaram na manutenção de um quadro legal.
Se o legislador altera um pressuposto fundamental do contrato, ainda que valha para o futuro, vai afetar
perspetivas jurídicas que se formaram no passado e previsivelmente perdurariam até julho
o Estatuto de aposentados: havendo uma afetação ao valor da pensão que altera os pressupostos com base
no qual decidiram passar ao estatuto de aposentadas, há uma afetação da confiança dos cidadãos que
tinham planos de vida e tomaram decisões contando com manutenção de um determinado quadro legal
 Não há retroatividade em sentido puro mas são situações de retrospetividade (retroatividade inautêntica).
Define-se como uma alteração legal que só vale para o futuro mas que afeta situações jurídicas duradouras
constituídas no passado, que perduram no presente e previsivelmente continuarão do futuro
 O TC já se confrontou com a necessidade de apreciar a constitucionalidade, a conformidade com o princípio do
Estado de Direito, de medidas de caracter retrospetivo
 Acórdão nº287/90: para que tais normas possam ser consideradas ainda conformes às exigências adequadas a
um legislador de um Estado de Direito, é necessário que cumpram determinados requisitos. É necessário
averiguar se a confiança dos cidadãos é merecedora de tutela jurídica e quão intensa deve ser essa tutela. Para
isso, impõe-se verificar:
o Se o Estado criou expectativas de continuidade do quadro legal aplicável
o Se os cidadãos fizeram planos de vida ou tomaram decisões importantes fundadas nessas expectativas
o Se as expectativas são legítimas, isto é, fundadas em boas razões
o É necessário que a mudança normativa seja exigida por um interesse público que, pela sua importância e
valor, sobreleve o valor das expectativas privadas. Se tal não acontecer, se da ponderação entre as
expectativas juridicamente tuteladas e o interesse publico se concluir que este não sobreleve a
importância daquelas, então há violação da proteção de confiança, ínsito no Principio do Estado de Direito
o Acórdão nº862/2013

B.3. Acórdão Nº287/90


 A norma em causa cuja retroatividade foi considerada inconstitucional era a norma que definia o valor da alçada
dos tribunais
 Estrutura hierárquica: Comarca – Relação – Supremo
o Antes de haver caso julgado, um caso pode passar por estas 3 instâncias, mas só se tiver especial
importância. Uma das formas de inferir essa importância é o valor da alçada: valor monetário que
determina o limite até ao qual o tribunal decide sem possibilidade de recurso. Consoante o valor da causa
seja inferior ao valor da alçada do tribunal, por exemplo, de Comarca, não é suscetível de recurso para a
Relação. Se estiver acima são suscetíveis de recurso e assim por diante
 Este acórdão definiu a jurisprudência sobre os critérios a partir dos quais o TC pode aferir a constitucionalidade
das leis com uma pretensão de eficácia retroativa
Caso em concreto:

 Ação civil relacionada com um conflito com a propriedade. Havia um litígio entre duas pessoas
o 4 de Maio de 1981: A intentou uma ação e definiu o seu valor: 80 000 escudos (400 euros)
o 14 de julho de 1981: B é chamada a contestar - apresentaram novos factos, elevaram o valor da ação: +
85.000 escudos
o 30 de setembro de 1983: o juiz pronuncia um despacho e fixa em termos definitivos o valor da ação: soma
os dois (165.000 escudos)
o 8 de janeiro de 1988: conhece a sentença e dá razão aos herdeiros de B
 Houve uma alteração da lei que define o valor da alçada dos tribunais. A lei que vigorava (e vigorou até
dezembro de 1987) dizia que o valor da alçada dos Tribunais de Comarca era até 120000 escudos. A nova lei,
38/87, definiu um novo valor de alçada em 500000 escudos. Isto significa que quando foi fixado o valor da ação,
a 30 de setembro, a sentença que viesse a ser proferida poderia ser objeto de recurso, contudo já não será
assim que for aplicada a nova lei
 Esta lei contem uma disposição (art.º106: “a matéria da admissibilidade dos recursos por efeito das alçadas é
regulada pela lei em vigor ao tempo em que foi proferida a sentença”) por força da qual a sentença não pode
ser objeto de recurso. Este artigo é problemático e injusto porque corta essa possibilidade. Ocorre a afetação
de expectativas jurídicas
 As partes estavam convencidas de que qualquer que fosse o desfecho poderiam recorrer para a Relação,
inesperadamente há uma alteração legal que lhes veda essa possibilidade, neste caso para o A que foi quem
perdeu a ação pois teve recurso não admitido devido ao art.º106 da Lei 38/87
 A sentença transita em julgado, porque o valor não ultrapassa o valor da alçada do tribunal da comarca
 Caso de retrospetividade: aplica-se a decisões futuras (pendentes). Saber se o legislador agiu bem ou mal face
ao principio do Estado de Direito. Isto só se pode aferir através dos quatro critérios
 Inconstitucionalidade do art.º106 da lei neste caso específico, ou seja, o caso passa a ser passível de recurso –
o artigo acaba por ser revogado

C. Princípio da Liberdade
 A liberdade está intimamente relacionada com o conceito de dignidade. A dignidade é fundamento da liberdade
 O Estado de Direito deve necessariamente assegurar a cada pessoa a possibilidade de exercício da sua
autonomia e exige a garantia constitucional do princípio do pluralismo, no que se refere às várias visões do
mundo e às conceções, sociais e individuais, do que seja uma vida boa
 Pressupõe que sejam consagrados direitos fundamentais que venha permitir que esta liberdade se realize:
direito á vida, à integridade pessoal, à liberdade e segurança, liberdade de consciência, de religião e culto,
liberdade de expressão

D. A Justiça: o Princípio da Igualdade e da Proporcionalidade


 O Estado de Direito visa também assegurar uma ideia de justiça
 O conceito de justo está associado ao conceito de igualdade: um determinado tratamento é justo quando se
tratam as pessoas com igualdade
 O princípio da igualdade surge nas primeiras Constituições do seculo XIX e foi sofrendo uma evolução mais
pronunciada e multifacetada no seu entendimento
 DDHC (art.º1) e Declaração de Independência dos EUA de 1776 revelam o princípio da igualdade como um
princípio fundamental
 Advento do Estado de Direito Liberal decorrente das declarações de direitos: igualdade na aplicação da lei. A lei
é igual para todos, todos são iguais perante a lei (art.º13)
 No entanto, a generalidade da lei é uma fonte de injustiças: trata da mesma forma aquilo que à partida é
substancialmente diferente.
o Liberalismo Clássico: homem como um ser abstrato, isolado face às condições concretas do seu viver em
comunidade
o Imagem do homem da CRP: ser concreto, imerso nas necessidades, urgências e contingências da sua
condição existencial
 Atualmente, o legislador do Estado social está obrigado a atender às diferenças reais entre as pessoas, a
preocupar-se não tanto com a forma, mas sobretudo com os resultados
o O princípio da igualdade jurídica esclarece-se no tratamento igual do que é essencialmente igual e no
tratamento diferente do que é essencialmente diferente, ou seja, pode exigir que trate diferentemente
pessoas em situação de maior fragilidade e vulnerabilidade
 Assim sendo, o legislador deve compensar as situações de desigualdade fáctica e repor ou criar as condições
de uma verdadeira igualdade.
 A CRP acolhe expressamente todas estas dimensões da igualdade: estabelece autorizações ou comandos de
diferenciação material em favor de categorias particulares, como as mulheres, trabalhadores, menores e
jovens, idosos, grávidas, afetados por deficiência, etc. (art.º68 e 70)

D.1. Como avaliar se há uma diferenciação de tratamento que viole o Princípio da Igualdade
 Medida da diferença entre os direitos de cada um, decidida e constituída pelo legislador: não pode não ter
razão, não pode não ser razoável
 Quando a diferenciação assenta sobre as categorias suspeitas (art.º13 nº2 – elenco exemplificativo) ou se for
infundada é atentatória do princípio da igualdade
 Proibição do arbítrio (acórdão nº186/90): para controlar as diferenciações de tratamento que não são
constitucionalmente legítimas (discriminatórias ou infundadas, sem tratamento razoável)
 JRN: mesmo que a discriminação não caia na categoria suspeita, o controlo deve ser mais apertado do que
apenas avaliar se é ou não uma discriminação arbitrária, não razoável. A diferenciação tem de passar no teste
da proibição do excesso (principio da proporcionalidade):
o Igualdade proporcional: controlar se a diferenciação que se estabelece, mesmo que não seja arbitrária,
não é desproporcional
o Acórdão nº353/12: admite que avaliação de tratamento pode ter uma justificação razoável mas ainda
assim, aplicando uma ideia de igualdade proporcional, o foço é demasiado grande e seria possível pensar
noutra solução e não uma que implicasse um tratamento desproporcional
 No âmbito da segurança jurídica, a atuação do Estado tem de ser mensurável. O Estado está obrigado a
respeitar critérios de proporcionalidade
o Art.º18: as restrições devem limitar-se ao necessário
o Art.º19: quer na declaração de Estado de Exceção quer nas medidas adotadas é fundamental que as
medidas sejam aquelas que irão afetar os direitos dos cidadãos na medida do necessário para a prossecução
do resultado pretendido
o Art.º266: princípio transversal a toda a atuação dos poderes públicos
o Art.º272: as medidas de polícia não devem ser utilizadas para além do estritamente necessário
 Imperativo de atuação proporcional do Estado: principio que se deve aplicar a qualquer atuação do Estado. Os
atos do Estado nunca devem ser excessivos, quaisquer que sejam as funções que através deles se exerçam
 Princípio da proporcionalidade em sentido lato: as decisões que o Estado toma têm que ter uma razão de ser,
uma finalidade – Prossecução do interesse público
 Ideia-chave: em Estado de Direito as relações entre os particulares e o Estado estão sujeitas a um princípio
basilar: A liberdade e a autonomia dos primeiros são a regra, enquanto a ingerência estatal na liberdade dos
cidadãos é a exceção
 Três critérios que se distinguem no seio do princípio:
o Princípio da idoneidade ou adequação: aptidão objetiva ou formal de um meio para realizar um fim
o Princípio da necessidade: medida necessária, no sentido de que não existe outra menos onerosa capaz de
assegurar o objetivo com igual grau de eficácia
o Proporcionalidade em sentido estrito: substanciais e superiores benefícios ou vantagens para o interesse
geral, quando confrontados com outros bens ou valores em conflito: desvalor do sacrifício comparado com
o valor do bem que se pretende atingir
o Acórdão nº486/03
2.3. O PRINCÍPIO REPUBLICANO
 Numa República todos os cargos são exercidos a título temporário (art.º118) ao contrário do que se sucede
numa monárquica
 Art.º 1: princípio republicano e princípio da dignidade da pessoa humana
 Princípio fundamental: princípio democrático (art.º2 e 3 nº1; 108 e ss: referencias ao princípio democrático).
Marcou a transição do 25 de abril e a eleição de uma Assembleia Constituinte. Reconhece que o último
soberano é o povo e que quem exerce o poder público o exerce em nome do povo. Para o exercer
adequadamente tem que o exercer segundo o previsto na Constituição
 Art.º10: mecanismo fundamental de um Estado democrático (sufrágio)
 O princípio democrático não se confunde com a regra da maioria. Numa democracia a vontade da maioria é
determinante para as opções que o Estado tenha que tomar. Mas não é suficiente. A democracia é a
combinação do princípio da maioria e o primado dos direitos fundamentais
 Há três conceitos básicos:
o Democracia representativa: todos elegem as pessoas que irão representar a comunidade política que o
elegeu e tomar as decisões políticas
o Democracia semidireta: o povo elege os seus representantes que podem devolver determinadas questões
ao corpo político (referendo ou iniciativa legislativa popular)
o Democracia direita: o povo é diretamente chamado a decidir o futuro de uma determinada comunidade
politica. Praticamente impossível de realizar em comunidades amplas e complexas
 Portugal optou pela democracia representativa mas não prescinde de alguns mecanismos da democracia
semidireta (art.º115 e art.º167)
 Temos uma única manifestação da democracia direta (art.º245 nº2: pode funcionar como uma democracia
direta, todos os fregueses que reúnem para tomar as decisões que se imponham: ilhas)
 Art.º4, 5 e 11: elementos identitários do Estado. Não incluem propriamente princípios fundamentais mas
incluem aspetos pré normativos, a definição do Estado Português
 Art.º6: princípio da unidade do Estado. Existe uma só Constituição que se aplica em todo o território nacional.
Temos um só TC. Tal não significa centralização do poder (referencia á realidade geográfica: arquipélagos). Em
Portugal Continental, a Constituição promove a decentralização democrática prevendo poder regional e local

2.4. PRINCÍPIO DA INTEGRAÇÃO EUROPEIA E DA ABERTURA INTERNACIONAL


 Art.º7 e 8: abertura de Portugal á comunidade internacional e integração europeia. É uma das características
do pós 25 de abril introduzir na medula do Estado a necessidade de ser um Estado aberto ao direito
internacional e integrado no espaço europeu
o Art.º7 nº1, 2, 3 e 4: vertidos os princípios básicos, objetivos e fins das Nações Unidas
o O processo de integração de Portugal na União Europeia implica a transferência de algumas competências
para a organização em causa (Portugal deixou de ter um controlo aduaneiro próprio - revisão de 1989).
o Art.º7 nº5: reforço da identidade europeia
o Art.º8: abre o ordenamento jurídico a normas de proveniência externa. As normas não são apenas criadas
pelos órgãos de soberania portugueses mas também por fontes internacionais

III. CONTROLO DA CONSTITUIÇÃO


1. A FISCALIZAÇÃO DA CONSTITUCIONALIDADE
 A justiça constitucional: comum a todos os Estados de Direito. Um dos mais relevantes instrumentos de controlo
do cumprimento e observância das normas e princípios constitucionais. Tendencialmente conduz à existência
de um tribunal ou órgão jurisdicional, distanciando-se de um controlo meramente político (exemplo: o período
do nosso constitucionalismo monárquico, a partir da Constituição de 1822, que confia ás Cortes velar pela
“guarda da Constituição”). Durante o seculo XIX, as Cortes, o próprio Parlamento, controlava a
constitucionalidade dos atos que praticava. Não se está a admitir a possibilidade de um tribunal/juiz
constitucional
o Modelo norte-americano do judicial review: controlo jurisdicional difuso (surge com a decisão do caso
Marbury vs. Madison, do Supremo Tribunal Federal). Segundo este modelo, o controlo é feito pelos
diferentes tribunais
o Modelo austríaco: fiscalização concentrada (uma única instância especializada) da constitucionalidade dos
atos normativos do poder público (desde 1920). Um único órgão, TC, com um conjunto de juízes com
legitimidade ao qual compete fiscalizar a constitucionalidade das leis
 Continente europeu: a ordem jurídica é caracterizada pelo primado da lei ordinária e não pelo primado da
Constituição. O objetivo era dar força aos Parlamentos e não fragiliza-los
 Portugal: constitucionalismo mais próximo da tradição francesa
 Depois da segunda metade do seculo XX o Estado de legalidade transforma-se em Estado constitucional
preparado para controlar a constitucionalidade das leis
 Kelsen teve um papel decisivo nesta matéria: confiar o controlo da constitucionalidade das leis ao Parlamento
é uma ingenuidade política. Afigura um tribunal especificamente criado para as questões constitucionais
independente de qualquer entidade estatal – um Tribunal Constitucional

1.1. A JUSTIÇA CONSTITUCIONAL EM PORTUGAL


 Modelo misto:
o A adoção do modelo da Judicial Review, com a Constituição de 1911, por influência indireta norte-
americana (Constituição brasileira). Aos tribunais competia apreciar a “legitimidade constitucional ou
conformidade com a Constituição e princípios nela consagrados” das normas jurídicas
o Este modelo passou para a Constituição de 1933, com uma exceção, relativamente à
(in)constitucionalidade orgânica e formal dos “diplomas emanados dos órgãos de soberania, que só
poderá ser apreciada pela Assembleia Nacional e por sua iniciativa ou do Governo”, sobrando para os
Tribunais a matéria da (in)constitucionalidade material
 Pós II Guerra Mundial:
o Aparecimento de jurisdições constitucionais nas Constituições do pós-guerra: França, Itália, Alemanha
o Portugal e Espanha também instituem o controlo judicial da constitucionalidade nas Constituições
democráticas dos anos 70
o Só depois do 25 de Abril de 1974 são criadas as condições para a instalação da uma jurisdição constitucional
autónoma
o Constituição de 1976: cria a Comissão Constitucional, junto do Conselho da Revolução
o Com a revisão de 1982 nasce, em definitivo, um órgão jurisdicional autónomo, o Tribunal Constitucional

A. Tribunal Constitucional Português : órgão que se auto-organiza


 Art.º222
 Composição: 13 juízes, dos quais 10 são escolhidos pela Assembleia de República e 3 cooptados pelos restantes
juízes (obrigatoriamente 6 têm de ser juízes dos restantes tribunais)
 Mandato: 9 anos (após a revisão constitucional de 1997) não podendo haver renovação do mandato
 O Presidente e o Vice-Presidente do TC são eleitos entre os seus pares e o Presidente tem assento no Conselho
de Estado

B. Sistema misto: difuso na base e concentrado no topo


 Fiscalização abstrata da constitucionalidade: concentrada no TC, de acordo com o modelo austríaco (art.º278
a 281 da CRP)
 Na fiscalização concreta, todos os tribunais têm acesso direto a aferir a constitucionalidade (art.º204), mas das
suas decisões há recurso para o TC, restrito à questão da constitucionalidade (art.º280)
o Art.º 204: resultado direto do judicial review. Recusar a aplicação de uma norma por ela infringir o disposto
na Constituição. Qualquer juiz é juiz constitucional, pode recusar a aplicação de uma norma pela sua
inconstitucionalidade
o As decisões dos tribunais em matéria de constitucionalidade devem ser revistas em última linha pelo TC -
Recurso de constitucionalidade (art.º280 nº1)
o Lei julgada inconstitucional: não é subtraída ao ordenamento jurídico
 Para além destas funções (art.º280) tem outras (art.º281): nas situações de fiscalização abstrata de
constitucionalidade, o TC verificará se o parlamento agiu em respeito ou não para com a Constituição. A
impugnação da constitucionalidade de uma norma é feita independentemente de qualquer litígio concreto. Um
TC é um legislador negativo. Não criam normas, apenas as podem subtrair ao ordenamento jurídico
o Controlo direto/por via principal: permite-se a determinadas entidades (Provedora de Justiça; Presidente
da República, etc.) a impugnação de uma norma inconstitucional independentemente da existência de
qualquer controvérsia
o Controlo por via de incidente: a inconstitucionalidade só pode ser invocada no decurso de uma ação
submetida à apreciação dos tribunais. A questão da inconstitucionalidade é discutida na medida em que
seja relevante para a decisão de um caso concreto
o O TC não tem direito a iniciativa oficiosa: não pode fiscalizar uma lei por iniciativa própria
 Declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral: a lei é retirada do ordenamento jurídico
 Fiscalização abstrata sucessiva: averiguar a constitucionalidade de uma lei em vigor
 Fiscalização abstrata preventiva: averiguar a constitucionalidade lei que ainda não entrou em vigor

D. Fiscalização
 Há quatro vias de fiscalização: abstrata preventiva, abstrata sucessiva, concreta, por omissão
1. Abstrata Preventiva (originalidade): o TC intervém antes mesmo de haver um processo legislativo formado.
É necessariamente abstrata e concentrada. A entidade que pode pedir fiscalização preventiva da
constitucionalidade é o PR. Pode pedir relativamente a normas emanadas da Assembleia da Republica e do
Governo ou Tratados Internacionais que é chamado a ratificar (art.º278 nº1). Antes de promulgar o ato
legislativo, envia-o para o TC num prazo de 8 dias (art.º278 nº3) que aprecia a sua constitucionalidade num
prazo de 25 dias (art.º278 nº8). Pode chegar a duas conclusões:
o Pronuncia-se pela inconstitucionalidade: o PR é obrigado a vetar (veto por inconstitucionalidade) e
devolver o diploma ao órgão que o aprovou (art.º279 nº1)
 A AR tem 4 possibilidades:
– Desistir do procedimento legislativo
– Expurgar a norma inconstitucional (art.º279 nº2): retirar-lhe a parte que está ferida de
inconstitucionalidade e deixar subsistir o resto do diploma
– Reformular o diploma (art.º279 nº3): inicia um novo procedimento legislativo
– Confirmar o diploma por maioria de dois terços dos deputados presentes (art.º279 nº2). Conflito
de legitimidades
 O Governo tem 3 possibilidades:
– Desistir
– Expurgar
– Reformular
o Pronuncia-se pela não inconstitucionalidade: esta decisão não impede que no futuro não se voltem a
colocar questões sobre a constitucionalidade da norma. O PR pode promulgar o ato em causa ou veta-
lo politicamente. Pode vir a ser objeto de nova fiscalização no futuro
2. Abstrata Sucessiva: averiguar a constitucionalidade de uma lei em vigor. Fiscalização concentrada
3. Concreta: tem base noutras decisões judiciais prévias (art.º204) e são passiveis de recurso para o TC. A
decisão do TC tem apenas efeitos no caso concreto que suscitou o problema. Não intervém o Plenário,
apenas uma parte reduzida. Se sobre uma mesma norma se produzirem três julgamentos no sentido da
inconstitucionalidade e se surgir um novo processo de fiscalização concreta sobre a mesma norma este
será convertido num processo de fiscalização abstrata sobre o qual o Plenário intervém e os efeitos serão
gerais e relativos ao ordenamento jurídico (art.º281 nº3)
4. Por omissão: situação de inercia dos órgãos constitucionais, que têm o dever de criar normas que tornem
operativa e que garantam Constituição, que põe em causa a sua eficácia. A omissão do legislador tem como
consequência o incumprimento da Constituição (art.º283)
C. Efeitos da Declaração de Inconstitucionalidade
 Quando é acolhido o pedido declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral, os efeitos são os
identificados no art.º282 nº1
1. Efeito anulatório: invalidação da norma
2. Efeito retroativo: os efeitos da inconstitucionalidade da norma vão reportar-se ao momento da sua
entrada em vigor. São destruídos os efeitos produzidos pela norma
3. Efeito repristinatório: o abalo no ordenamento jurídico causado por esta situação é mitigado pelo efeito
da repristinação, uma vez que, enquanto não é criada nova legislação, se resgata a lei revogada que,
anteriormente á entrada da norma tida, até então, como constitucional, estava em vigor
o O TC pode entender modelar os efeitos da decisão e afastar o efeito retroativo ou repristinatório
(pode não ser vantajoso recuperar normas)
 Exceção a esses efeitos (art.º282 nº3): os casos julgados, salvo decisão em contrário do TC quando a norma
respeitar a matéria penal sendo aplicada a norma que for mais favorável ao arguido
 O art.º282 nº4 define que a lei pode ser subtraída ao ordenamento mas ser-lhe retirado o efeito retroativo nos
casos em que se revela difícil proceder a tais alterações (IRS) produzindo apenas efeitos para o futuro
 O art.º282 nº2 aplica-se a uma norma cuja inconstitucionalidade não existe desde que foi criada, ou seja, a
determinada altura tornou-se. O que pode acontecer para determinar esta inconstitucionalidade é a entrada
em vigor de outras normas (inconstitucionalidade superveniente). Nestas situações, o efeito retroativo da
norma declarada inconstitucional não se reporta ao momento da sua entrada em vigor mas ao da nova norma
(por exemplo: se uma norma da década de 60 é declarada inconstitucional em 2020 á luz da Constituição de
1976, a subtração desta norma só produzirá efeitos retroativos á data de entrada em vigor desta Constituição).
 Acórdão nº486/03: não declara inconstitucionalidade da norma. O pedido do Procurador-Geral da República
não teve acolhimento

2. PODER DE REVISÃO CONSTITUCIONAL


 Conjunto de limites que a Constituição impõe ao poder de revisão constitucional
o Limites temporais: 5 anos entre revisões constitucionais ordinárias (art.º283 nº1). A Constituição, para
mitigar a rigidez desta aplicação, admite que antes de decorridos cinco anos se possa abrir um processo
de revisão constitucional extraordinário sujeito a especiais exigências procedimentais
o Limites procedimentais: maioria parlamentar de 4/5 para abertura de processos de revisão constitucional
extraordinários
o Limites formais: iniciada, discutida e aprovada pela AR, titular do poder de revisão constitucional, e votadas
por uma maioria parlamentar de 2/3 dos deputados para aprovação de alterações á Constituição (art.º286
nº3: o PR não pode vetar a promulgação de uma alteração constitucional)
o Limites circunstanciais: a Constituição não consente que se introduzam alterações á lei fundamental
acrescentando anexos (art.º286 nº2) sendo reunidas numa única lei de revisão (art.º287). Em Estado de
exceção constitucional, a normalidade constitucional encontra-se interrompida e tais períodos não são
favoráveis a alterações á Constituição. Se já se encontrar iniciado fica suspenso até ao fim do Estado de
exceção (art.º289)
o Limites materiais: as leis de revisão terão de respeitar uma série de matérias (art.º288: existem duas
posições sobre este artigo)
 Uma terceira: procedimento de dupla revisão. Para alterar algo temos que criar um consenso
constitucional com o art.º288 e depois rever as normas constitucionais
 Os limites materiais de Constituição são revisíveis. Desde que não fira o núcleo fundamental da
Constituição

IV. DIREITOS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA


1. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA
 Que direitos foram sendo reconhecidos ao longo dos tempos como direitos fundamentais?
 Como se organizam os direitos fundamentais na Constituição?
o Dois grandes tipos de direitos fundamentais:
 Direitos económicos, sociais e culturais (direitos civis, participação da vida política, prestação positiva
do Estado – saúde, segurança social)
 Direitos, Liberdades e Garantias (DLGS)
o Essa diferenciação tem consequências no que concerne aos regimes de proteção dos direitos
o Houve historicamente uma evolução na consagração de direitos fundamentais com três notas essenciais:
acumulação, abertura, variedade

A. Direitos e Deveres Fundamentais na Constituição da República Portuguesa


 A CRP dispõe de um vasto catálogo de direitos fundamentais (art.º24 a 79)
 A CRP consagra uma cláusula aberta (reconhecimento de outros direitos, fora do catálogo, que possam constar
em lei ordinária/internacional, fora dos títulos II e III da Parte I da CRP) em matéria de direitos fundamentais
(art.º16)
 Direitos que não fazem parte do catálogo: art.º20 e 268
 Dever cívico previsto no art.º49 nº2
 Deveres fundamentais conexos/associados a direitos: art.º36 nº5, 64 nº1, 66 nº1, 78 nº1
 Deveres autónomos: art.º103, 113 nº2, 276

B. Sistematização dos direitos fundamentais


 Assenta na distinção entre direitos, liberdades e garantias e direitos económicos, sociais e culturais
 Há um regime específico para os direitos, liberdades e garantias (art.º18, 165 nº1 alínea b, 288 alínea d) que
não se aplica aos direitos económicos, sociais e culturais
 Na nossa Constituição, beneficiam do regime específico para os direitos, liberdade e garantias não apenas os
direitos do Título II da Parte I da CRP, mas todos os direitos de natureza análoga a DLG

B.1. Critérios distintivos dos direitos, liberdades e garantias


1. Determinabilidade do conteúdo dos direitos, liberdades e garantias
2. Função de defesa dos direitos, liberdades e garantias (critério tendencial)

C. Regime dos D ireitos Fundamentais


1. Regime geral dos direitos fundamentais: aplicável a todos os direitos fundamentais
 Princípio da universalidade (art.º12): os direitos fundamentais são posições jurídicas universais, ou seja, todos
são titulares destes direitos. As pessoas coletivas podem ser titulares de direitos fundamentais desde que sejam
compatíveis com a sua natureza e no estrito respeito pelo princípio da especialidade
 Princípio da igualdade (art.º13): igualdade material e igual participação aos cidadãos no gozo dos direitos
fundamentais
 Princípio da equiparação entre estrangeiros e nacionais (art.º15): exceções – art.º15 nº2, exceções às exceções
– art.º15 nº3
2. Regime específico dos direitos, liberdades e garantias: aplicável aos direitos, liberdades e garantias do catálogo
e aos de sua natureza análoga
 Aplicabilidade direta: não é necessário existir legislação sobre estes direitos fundamentais para que sejam
exercidos e exigíveis nos tribunais, ou seja, para que sejam justificáveis
 Vinculação das entidades públicas: o legislador, a Administração e os tribunais estão obrigados a respeitar os
direitos fundamentais dos cidadãos
 Vinculação das entidades privadas: também nas relações horizontais se aplicam as normas de direitos
fundamentais

D. O papel do Legislador na resolução de conflitos entre Direitos F undamentais


 O problema e a inevitabilidade das leis restritivas de direitos fundamentais
 Exigências feitas pela Constituição para a restrição de direitos, liberdades e garantias
 Restrição: ação ou omissão estatal que afeta desvantajosamente o conteúdo de um direito fundamental (JRN)
 Requisitos das leis restritivas:
o Princípio da reserva de lei
o Exigência de previsão constitucional expressa da respetiva restrição
 Há muitos preceitos constitucionais que não preveem expressamente restrições legislativas (art.º24
a 26, 43, 44, 45)
 Será inconstitucional uma lei que proíba manifestações em determinados locais por razões de saúde
pública, que permita às entidades policiais impedirem reuniões ou manifestações que ponham em
causa a ordem pública?
o Salvaguarda de um outro direito ou interesse constitucionalmente protegido
o Respeito pelo princípio da proporcionalidade
o Carácter geral e abstrato das leis restritivas
o Proibição da retroatividade
o Não afetação do conteúdo essencial do direito

E. O regime orgânico dos Direitos, Liberdades e Garantias


 Os direitos liberdades e garantias: reserva relativa da Assembleia de República (art.º165 nº1 alínea b). Matérias
relativas a direitos, liberdades e garantias que estão abrangidas pela reserva absoluta de Assembleia da
República (art.º164 alínea a, b, c, e, h, i, j, l, m, o)
 Os direitos, liberdades e garantias enquanto limite material de revisão constitucional (art.º288)

E.1. A suspensão de Direitos


 A suspensão do exercício dos DLGs, caso de Estado de Sítio ou Estado de Emergência (art.º19), declarados na
forma prevista na Constituição. Esta forma é bastante complexa. A declaração de Estado de Sítio é da
competência do PR, que tem, de ouvir previamente o Governo e de ser autorizado pela AR, carecendo ainda
de posterior referenda ministerial

F. Regime específico dos Direitos Económicos, Sociais e C ulturais


 Regime material específico: os Direitos Económicos, Sociais e Culturais são direitos sob reserva do possível e
estão dependentes da lei
 Ao contrário dos DLG, os DESC não são diretamente aplicáveis. Mas em todo o caso vinculam e a sua força
jurídica manifesta-se em vários aspetos (Principio de proibição do retrocesso social?)

F.1. Regime orgânico


 Matéria concorrencial: toda aquela que não se encontre prevista nos art.º164, 165 e 198
 Integram a reserva relativa: as bases do sistema de segurança social e do serviço nacional de saúde; as bases
do sistema de proteção da natureza, do equilíbrio ecológico e do património cultural; o regime geral do
arrendamento urbano
 Integram a reserva absoluta: as bases do sistema de ensino
 Assim, são exceções o art.º164 alínea i, 165 alínea f, g e h
 Limite material de revisão: apenas os direitos dos trabalhadores que se inserem nos DESC (art.º288 alínea e)
 Os remédios como meios de reação a situações de violação de direitos fundamentais:
o Formais e informais
o Jurisdicionais
 O papel dos TC na defesa dos direitos fundamentais
 O papel dos restantes tribunais na defesa dos direitos fundamentais
o Não jurisdicionais
 Direito de resistência (art.º21)
 Direito de petição (art.º52 nº1 e 2 e art.º23)
o A quaisquer entidades
o Ao Provedor de Justiça
o Entidades administrativas independentes

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