Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de filosofia e ciências humanas
Departamento de História
Brasil III, turma 2 – Ricardo Augusto
Guilherme Rocha da Silva, matrícula 202210149411
Trabalho, Escravidão e Desigualdade: A Formação da Classe
Trabalhadora no Brasil (Séculos XIX e XX).
Guilherme Rocha da
Silva
A formação da classe trabalhadora no Brasil, entre a segunda metade do
século XIX e os primeiros anos do século XX, se deu em um contexto histórico
e social muito complexo, marcado por profundas contradições. Nesse período, o
Brasil experimentava uma transição entre o antigo regime colonial e a ascensão
de novas formas de trabalho que configurariam a classe trabalhadora moderna,
com o surgimento de atividades industriais e o processo de urbanização,
impulsionado pela crescente produção de café. No entanto, essa formação de
uma nova classe trabalhadora não foi homogênea e envolveu tanto a
proletarização dos trabalhadores livres, como os imigrantes, quanto a
experiência dos escravizados e libertos, que, embora libertos legalmente,
continuavam a enfrentar condições de trabalho extremamente precárias e a
ocupar uma posição subalterna na sociedade.
A transição do Brasil para uma sociedade capitalista se deu de maneira
peculiar, e, apesar da busca de acompanhar as tendências globais de
industrialização, manteve muitas características da estrutura econômica e social
colonial, com a persistência de formas de trabalho exploratório como a
escravidão. O sistema oligárquico que dominava o país, com base na produção
agroexportadora, principalmente de café, era sustentado pelas grandes
propriedades rurais e pela centralização do poder político nas mãos de uma
minoria de grandes comerciantes. Esse sistema começava a ser desafiado com
o crescimento das cidades, especialmente no Rio de Janeiro, que se tornou o
centro político e econômico do Brasil, e o surgimento de novas classes sociais
urbanas, que começaram a pressionar por uma reconfiguração das relações de
trabalho e de produção.
No contexto urbano, especialmente nas grandes cidades como o Rio de
Janeiro, o trabalho escravo ainda desempenhava um papel central. A escravidão
de ganho, prática urbana predominante, exemplificava a continuidade do
trabalho forçado, embora com uma dinâmica diferente da escravidão rural.
Escravos de ganho eram aqueles que, embora obrigados a repassar uma parte
de seus rendimentos aos seus senhores, podiam exercer atividades
econômicas, como comércio ambulante, transporte de cargas, barbearias e
trabalhos nas oficinas e manufaturas. Esses trabalhadores possuíam uma
autonomia relativa, na medida em que podiam buscar suas ocupações, mas
sempre sob o jugo da exploração de seus senhores. Essa forma de trabalho, que
se concentrava nas cidades, foi uma característica marcante da escravidão
urbana no Brasil e, ao mesmo tempo, refletiu a adaptação do sistema escravista
às novas dinâmicas do mercado urbano (SOARES, 1988 p.109).
No entanto, a escravidão de ganho não era limitada às atividades
comerciais mais comuns. Escravos também eram forçados a trabalhar em
setores marginalizados, como a prostituição e a mendicância, onde, além da
exploração direta de seu trabalho, eram submetidos a formas de degradação
humana. As mulheres escravizadas, por exemplo, eram frequentemente
obrigadas a se prostituir para garantir a sobrevivência de suas famílias ou até
mesmo de seus senhores, em um contexto onde a prostituição era uma das
formas de "ganho" que retornava aos donos de escravos. Ainda segundo Luiz
Carlos Soares (1988, p. 110), com a abolição do tráfico negreiro em 1850, o
número de escravos de ganho diminuiu gradualmente, sendo substituídos por
trabalhadores livres, principalmente imigrantes portugueses, que passaram a
ocupar muitas das funções que antes estavam sob o domínio de trabalhadores
escravizados. No entanto, essa substituição não significou uma melhora nas
condições de trabalho, que continuaram a ser extremamente precárias para os
trabalhadores urbanos, seja em fábricas, seja em atividades informais.
A urbanização e a industrialização, especialmente no Rio de Janeiro,
tornaram-se fatores de acúmulo de riqueza para as elites, mas também de
aprofundamento das desigualdades sociais. O crescimento das cidades trouxe
consigo uma nova organização do espaço urbano e uma crescente concentração
de poder nas mãos de poucos. No Rio, o controle dos serviços essenciais como
o saneamento, o transporte e a infraestrutura urbana foram monopolizados por
empresas estrangeiras, o que gerou uma situação em que as classes populares
e os trabalhadores foram excluídos dos benefícios do crescimento urbano. O
artigo de Sydney Sérgio F. Solis e Marcus Venicio T. Ribeiro detalha como esse
processo de urbanização e industrialização no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo
que gerou acúmulo de riquezas para uma minoria, aprofundou a pobreza das
camadas populares. A segregação social foi acentuada pela desigualdade no
acesso à infraestrutura básica, como serviços de saúde, alimentação, transporte
e moradia, além da péssima qualidade dos serviços públicos, que
frequentemente eram insuficientes para atender às necessidades da população
mais pobre. A cidade foi sendo moldada de acordo com os interesses das elites,
que monopolizavam o poder político e econômico (SOLIS e RIBEIRO, 2003
p.120).
Além disso, o sistema de trabalho nas fábricas, que começava a se
consolidar em várias partes do Brasil, não era menos exploratório. Os
trabalhadores, sejam imigrantes ou libertos, eram submetidos a jornadas longas
e extenuantes, em condições insalubres, com salários baixos e sem qualquer
tipo de direito trabalhista. O Brasil, embora passasse por um processo de
modernização econômica, não conseguia mudar sua estrutura social
profundamente desigual, o que resultava em uma classe trabalhadora que,
apesar de numerosa, vivia em condições subumanas. O conceito de
"acumulação urbana", apresentado por Solis e Ribeiro, descreve exatamente
como as elites e os interesses capitalistas utilizaram a cidade e a infraestrutura
urbana como um meio para enriquecer, sem qualquer preocupação com a
melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. Enquanto isso, o capital
acumulado pelas elites servia para manter a exclusão social e a marginalização
dos trabalhadores, que continuavam a ser descartados das condições mínimas
de cidadania.
No meio dessa transformação social e econômica, o Brasil passava por
uma tentativa de inserção no capitalismo industrial global, mas de maneira ainda
muito incipiente e desigual. O Estado, ao revogar as restrições coloniais e criar
instituições como o Tribunal da Junta de Comércio e a Sociedade Auxiliadora da
Indústria Nacional, buscava fomentar a industrialização, mas sempre
preservando os interesses das elites oligárquicas. O desenvolvimento industrial
no Brasil, portanto, não foi apenas um reflexo das mudanças globais que
estavam ocorrendo, como a Revolução Industrial, mas também de uma tentativa
de adaptação do sistema econômico às novas exigências do capitalismo, sem
que houvesse uma real reconfiguração das relações sociais e de classe
(COELHO, 2023 p. 37-38).
O legado dessa formação da classe trabalhadora brasileira é, portanto,
ambíguo. Por um lado, o período abriu as portas para o desenvolvimento de uma
economia mais diversa, com o surgimento de atividades industriais e urbanas.
Por outro lado, consolidou práticas autoritárias e de exclusão que marcaram a
sociedade brasileira por muitas décadas. A marginalização dos trabalhadores, a
persistência da escravidão e, posteriormente, as condições precárias de vida e
trabalho dos imigrantes e dos libertos, mostraram que, apesar das mudanças
econômicas, a estrutura social continuava a ser marcada por profundas
desigualdades. O Brasil, com suas especificidades históricas, sociais e
econômicas, formou uma classe trabalhadora que, embora numerosa, nunca
teve acesso pleno aos direitos e condições de vida que o progresso material e
econômico prometia. Esse legado, em grande medida, influencia as dinâmicas
sociais e políticas do Brasil até os dias de hoje, com as desigualdades e a
exclusão social ainda sendo questões centrais nas grandes cidades brasileiras.
Referências:
COELHO, Matheus Sinder Nunes Herdy. O Nascimento da Industria no Brasil:
economia escravista, fabricas e capitalismo no século XIX (1808-1870).
Monografia. Niterói, 2023.
SOLIS, Sydney Sérgio F. & RIBEIRO, Marcus Venicio T. O Rio onde o sol não
brilha: acumulação e pobreza na transição para o capitalismo. Revista Rio de
Janeiro, n 9, p. 117-140. Rio de Janeiro, 2003.
SOARES, Luiz Carlos. A escravidão de ganho no Rio de Janeiro. Rev. Bras. de
Hist., São Paulo, v.8 n 16, p. 107-142, 1988.