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Artigo Isabelle Minelle

O trabalho analisa crimes notáveis na Paraíba entre as décadas de 70 e 80, utilizando a Criminologia Crítica para discutir como o sistema penal rotula indivíduos de classes sociais desfavorecidas. Foca em casos específicos, como 'O Suplicio de Valdemarina' e 'A chacina da Praia do Poço', evidenciando a manipulação da verdade e as desigualdades no tratamento judicial. A pesquisa revela como a estrutura social influencia as decisões judiciais, favorecendo indivíduos de classes privilegiadas em detrimento dos marginalizados.
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O trabalho analisa crimes notáveis na Paraíba entre as décadas de 70 e 80, utilizando a Criminologia Crítica para discutir como o sistema penal rotula indivíduos de classes sociais desfavorecidas. Foca em casos específicos, como 'O Suplicio de Valdemarina' e 'A chacina da Praia do Poço', evidenciando a manipulação da verdade e as desigualdades no tratamento judicial. A pesquisa revela como a estrutura social influencia as decisões judiciais, favorecendo indivíduos de classes privilegiadas em detrimento dos marginalizados.
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POLÍCIA MILITAR DA PARAÍBA

CENTRO DE EDUCAÇÃO
CENTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

ISABELLE MINELLE RODRIGUES ALVES DOS SANTOS

“CRIMES QUE ABALARAM A PARAÍBA”:


Uma análise da ritualística processual penal a partir da Criminologia Crítica.

JOÃO PESSOA
2014
ISABELLE MINELLE RODRIGUES ALVES DOS SANTOS

“CRIMES QUE ABALARAM A PARAÍBA”:


Uma análise da ritualística processual penal a partir da Criminologia Crítica.

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Centro de Pós-
Graduação e Pesquisa do Centro de
Educação da PMPB como parte dos
requisitos para a conclusão do Curso de
Especialização em Segurança Pública.

Orientador: Prof. Ms. Fábio Gomes de


França

JOÃO PESSOA
2014
“CRIMES QUE ABALARAM A PARAÍBA”: Uma análise da ritualística processual
penal a partir da Criminologia Crítica.

Isabelle Minelle Rodrigues Alves dos Santos1


[email protected]

Fábio Gomes de França 2


[email protected]

RESUMO

Este trabalho visa discutir a partir da contraposição entre a Criminologia Crítica e a


Criminologia Tradicional alguns crimes ocorridos na Paraíba entre as décadas de 70
e 80 do século XX e que são relatados na obra “Os crimes que abalaram a Paraíba”,
do jornalista Biu Ramos. Para tanto, analisaremos em específico os crimes
conhecidos como: “O Suplicio de Valdemarina” e “A chacina da Praia do Poço”.
Nesse contexto, nosso olhar voltar-se-á para percebermos como estruturas sociais
distintas fundamentam-se por legitimar artifícios que favorecem, nas ações punitivas,
indivíduos em situação social favorável, em detrimento de outros que não tem tal
favorecimento por serem de classes desprivilegiadas. Portanto, a Criminologia
Crítica permite-nos observar como o próprio sistema penal rotula e cria os
estigmatizados por um tipo de punição baseada em aspectos econômicos que
delimitam a classe social de quem é considerado desviante.

Palavras-chave: Criminologia Crítica. Direito Penal. Segurança Pública.

ABSTRACT

This article discusses from the contrast between the Critical Criminology and the
Criminology Traditional some crimes occurred in Paraíba between the 70s and 80s of
last century and are reported in the book "The crimes that shook the Paraíba", the
journalist Biu Ramos. We will analyze in particular the crimes known as " The torture
of Valdemarina " and " The Slaughter Poço Beach". In this context, our eyes will be
back to realize how different social structures are based on legitimate devices that
favor, the punitive actions, individuals in a favorable social situation, to the detriment
of others who have no such favoritism because they are underprivileged classes.
Therefore, the Critical Criminology allows us to observe how the criminal justice
system itself creates labels and stigmatized by a kind of punishment based on
economic aspects that define social class who is considered deviant.

Keywords: Critical Criminology. Criminal law. Public Security.

1
A autora é Capitão da Polícia Militar do Estado da Paraíba, Aluna do Curso de Especialização em
Segurança Pública pelo Centro de Pós-Graduação e Pesquisa, Bacharel em Segurança Pública pela
Academia de Polícia Militar do Cabo Branco (APMCB), Bacharel em Direito pelo Centro Universitário
de João Pessoa.
2
Oficial da PMPB, atualmente no posto de Capitão, Bacharel em Segurança Pública pela Academia
de Polícia Militar do Cabo Branco (APMCB), Doutor e Mestre em Sociologia pela UFPB.
3

“CRIMES QUE ABALARAM A PARAÍBA”: Uma análise da ritualística processual


penal a partir da Criminologia Crítica.

INTRODUÇÃO

A Criminologia Crítica surgiu como contraposição à Criminologia Tradicional


tendo como foco demonstrar a forma como o sistema penal e, atrelado a ele, o
sistema de Segurança Pública, passam a criar o indivíduo desviante. Desse modo, a
Criminologia Crítica permite-nos observar as estruturas sociais nas quais tal
indivíduo, que passa a ser rotulado e estigmatizado, está imerso em um processo de
“criminalização”, isso configura uma pretensão punitiva por parte do sistema penal a
partir de aspectos econômicos que delimitam a classe social de quem é considerado
desviante.
Pelo exposto, este estudo apresenta a análise, à luz da Criminologia Crítica,
do desdobramento do processo judicial em épocas de ditadura militar que se
consolidou por meio da criminalização e rotulação de indivíduos socialmente
desfavorecidos. E mais especificamente, a demonstração ritualística processual de
casos ocorridos em João Pessoa, na Paraíba. Assim, debruçamo-nos, do que aqui
consideramos uma análise documental, na obra do jornalista Biu Ramos, “Crimes
que abalaram a Paraíba”, especificamente no seu segundo volume.
Desse modo, analisaremos o desenvolvimento até o seu enlace definitivo, dos
casos que envolveram o julgamento do acusado da morte da jovem Valdemarina e
de Ana Limeira e seu namorado, ambos os casos ocorridos entre as décadas de 70
e 80 do século XX.
Portanto, a partir dos casos considerados, descortina-se a interpretação do
conflito existente no processo decisório de acordo com a perspectiva crítica no
campo da Criminologia, a qual nos remete à reflexão histórica sobre a legitimidade
do Sistema Penal Brasileiro e sua ritualística processual que funciona como forma
de controle social. O que está em jogo, neste sentido, é a atuação de uma minoria
que manipula e detém o poder frente aos órgãos da justiça, condicionando o saber e
a construção da verdade.
4

1 A CRIMINOLOGIA CRÍTICA E A PERSPECTIVA DO CONFLITO.

O Sistema jurídico se assenta no dogma de que existe uma verdade real, pronta,
em que o juiz interpreta por autorização do arcabouço legal os fatos suscitados,
através de um livre convencimento na apreciação das provas inseridas no processo.
O princípio dessa “verdade real”1 retira das partes a exclusividade da produção
da verdade processual, centralizando no inquérito e no processo judicial uma forma
de saber-poder (FOUCAULT, 1987) que confere ao juiz o poder decisório sobre as
partes e de escolha do que será considerado verdade dentro dos vários elementos
inseridos no processo. Depois de convencido através desse mecanismo que o
possibilita, inclusive, lançar mão de suas concepções subjetivas para melhor avaliar
os casos, o juiz justifica sua sentença.
Segundo Baratta (2002), os processos de criminalização são fundamentados no
status social do indivíduo, de modo que a desigual distribuição de renda influencia
diretamente nas decisões judiciais que acabam por direcionar o que deve ser
considerado um comportamento e um indivíduo desviante. Tal perspectiva, que
surge no âmbito da Criminologia Crítica em meados da década de 70 do século
passado, desenvolve-se no esteio de pesquisadores como Becker (2008) e seus
estudos sobre os Outsiders, mas desdobra-se também com forte influência marxista,
no que se pode destacar, neste caso, o conflito como elemento fundamental que
norteia essa perspectiva teórica. Por esse escopo, tem-se que a Criminologia Crítica
direciona-se a,

[...] não realizar as receitas da política criminal, mas examinar de forma


cientifica a gênese do sistema, sua estrutura, seus mecanismos de seleção,
as funções que realmente exerce, seus custos econômicos e sociais e
avaliar, sem preconceitos, o tipo de resposta que está em condições de dar,
e que efetivamente dá, aos problemas sociais reais. Ela se coloca a serviço
de uma construção alternativa ou antagônica dos problemas sociais ligados
ao comportamento socialmente negativo. (BARATTA, 2002, p. 215).

Ainda segundo Baratta (2002), numa concepção em que há a existência de


uma sociedade desigual, dividida em classes, a partir da Criminologia Crítica conclui

1
Neste sentido, entenda-se a verdade real como a construção e o levantamento de provas sobre a
tutela do Direito Positivo institucionalmente formalizado, o qual se propõe à resolução de casos que
envolvem partes litigantes.
5

se que o sistema punitivo está preparado para resguardar os interesses das classes
dominantes e, desse modo, manter a sua composição e estrutura de poder na
sociedade. O que se pode deduzir dessa consideração a partir da teoria do conflito
na Criminologia Crítica é que a ritualística processual penal está eivada pela
manipulação da verdade dos fatos, levando, quando os acusados são de classes
sociais privilegiadas, à absolvição dos mesmos. O que se ressalta, pois, é o perfil
fragmentário do Direito Penal, o qual demonstra que a punição é inclinada para
indivíduos de grupos marginalizados e que a minoria detentora do poder permanece
imune ao processo de criminalização. Nessa consideração, o autor (a) de um crime,
por pertencer à alta classe da sociedade, geralmente usa de sua influência política e
econômica para manipular as regras do processo penal, através de uma longa
demanda recursal, na ritualística do processo, acabando por garantir a absolvição
daqueles que conhecem os caminhos para, informalmente, obter vantagens que as
direcionem para a absolvição.

2 “O SUPLÍCIO DE VALDEMARINA E A CHACINA DA PRAIA DO POÇO”: O


DESENROLAR DO PROCESSO.

A leitura das partes 3 e 4 do segundo volume do romance policial “Crimes que


abalaram a Paraíba”, do jornalista e escritor Biu Ramos, traz-nos além dos detalhes
presentes na descrição dos homicídios, a possibilidade de levantarmos questões
concernentes à esfera do sistema jurídico brasileiro. Neste sentido, o que está em
jogo é o intrincado caminho na construção ritualística para a produção da verdade
dos fatos.
Os relatos, mesmo sendo caracterizados na perspectiva de um romance
policial, dizem respeito ao assassinato de três pessoas, neste caso de uma jovem de
classe humilde e de um casal de classe média, na década de 70 do século passado,
na cidade de João Pessoa, na Paraíba. Tais casos nos dão o subsídio necessário
para se pensar o caminho da produção de verdades no curso de uma ação penal.

2.1 “O suplício de Valdemarina”

A estudante Valdemarina de Araújo Zominho, de 21 anos de idade, foi


supostamente violentada e assassinada por seu ex-namorado, Humberto Lacerda
6

Paredes no dia 09 de novembro de 1972. O crime aconteceu no município de Santa


Rita, sendo a jovem mutilada, seus pés e mãos foram decepados, havendo
queimaduras no tórax e sendo deixada completamente exposta sua nudez.

RITUALÍSTICA CRIMINAL:

• 09/11/1972 – Valdemarina desaparece;


• 12/11/1972 – Maria do Socorro Araújo (prima da vítima) procura Humberto
Paredes para saber notícias sobre o sumiço de Valdemarina;
• 14/11/1972 – É encontrado o corpo de Valdemarina em um canavial;
• 15/11/1972- É instaurado inquérito para apuração das circunstâncias da
morte de Valdemarina, em que são ouvidas as testemunhas de sua última
aparição: Maria Albanira e Marta Maria Menezes;
• 28/11/1972 – O delegado Tomaz Panta oficia ao secretário de Segurança
Pública, o General Nogui Villar de Aquino;
• 30/11/1972 – Humberto Paredes se apresenta para ser ouvido no caso;
• 04/12/1972 – O delegado conclui o inquérito pedindo a decretação da prisão
preventiva de Humberto Paredes e remete ao Juiz Antônio Rodrigues de
Ataíde da Comarca de Santa Rita. Este último acaba por pedir afastamento
do caso declarando suspeição2, encaminhando os autos para seu substituto,
o Juiz Inácio Machado de Souza;
• 17/05/1973 – O Jornal Correio da Paraíba publica matéria contendo relatos de
testemunhas que disseram ter tido contato com o acusado no então distrito de
Várzea Nova, cidade de Santa Rita;
• O juiz substituto da Comarca de Santa Rita, Joaquim Sérgio Madruga, ao
tomar conhecimento da notícia, designa audiência para inquirição destas
testemunhas para o dia 05/07/1973;
• Em 01/06/1973, o juiz da Comarca, Inácio Machado de Souza, retorna dos
sessenta dias de férias;
• Em 29/06/1973 o advogado de defesa, Joacil de Brito Pereira, peticiona ao
juiz solicitando a exclusão das testemunhas do Sítio Castanheiro do

2
No processo criminal, entenda-se como suspeição, qualquer circunstância de “animus” subjetivo
que possa influenciar o juiz a agir de forma parcial em detrimento de uma das partes do processo. É
causa de nulidade.
7

processo, considerando a subversão da ordem natural das provas e também


o fato de serem testemunhas arroladas por parte não pertencente ao
processo, e ainda acusa a denúncia como caluniosa, inventada por uma
“impressa marrom”.
O que se percebe nesses primeiros passos do processo, em relação ao caso que
envolve o assassinato da jovem Valdemarina, é a criação de circunstâncias
juridicamente orientadas que criam condições que acabam por protelar o andamento
ou o curso normal do rito processual. Nesse contexto, como se vê, o juiz despacha
desfavoravelmente contra a inserção de supostas testemunhas, primordiais no curso
do processo, fato que foi amplamente contestado pelo Corregedor do Tribunal de
Justiça em documento oficial ao Conselho da Magistratura (citado a posteriori)
recaindo, então, um acolhimento favorável ao Corregedor, porém, dando ao juiz o
“poder” de decidir em qual momento seria melhor ouvir as supostas testemunhas
imprescindíveis. Em sequência, tem-se que:

• O juiz Inácio Machado de Souza falta à audiência do dia 05/07/1973 e em


19/07/1973, julga procedente o pedido da defesa;
• Em 20/07/1973 o juiz corregedor, Antônio Elias de Queiroga, ao realizar
inspeção naquela Comarca, reclama da atitude do juiz Inácio ao Conselho da
Magistratura sobre como este último se posicionou em relação à exclusão das
testemunhas que supostamente teriam tido contato com o acusado, Humberto
Paredes, no Distrito de Várzea Nova, especificamente na localidade
conhecida como Castanheiro;
• 21/07/1973 - o Jornal Correio da Paraíba publica matéria intitulada “Sui
generis”, sobre a atitude do juiz Inácio e do corregedor Antônio Elias de
Queiroga;
• O juiz Inácio, magoado com a decisão do Conselho, que resolveu declarar
procedente o pedido do Corregedor, pede afastamento do caso;

A atitude do juiz Inácio, segundo nossa ótica, cria-nos a visão de que seu
comportamento diante do caso tende a se enviesar ao favorecimento do acusado. O
que começa a se tornar claro, a partir da exposição acima, é que o juiz se apodera
de sua prerrogativa de magistrado para manipular os Autos à sua maneira, o que
configura, exatamente por tratar-se de um juiz, numa “invocação decisória”, ou seja,
8

além de não aceitar as testemunhas, também não admitir ser corrigido pelo
Conselho da Magistratura, ao ponto de pedir afastamento do processo.

• Em 19/09/1973 o processo volta para as mãos do juiz Joaquim Sérgio


Madruga, titular da 9ª Vara da Capital;
• O jornal Correio da Paraíba, insatisfeito com a intitulação que recebeu do
advogado de defesa do acusado, o qual chamou tal noticiário de “imprensa
marrom”, contrata o advogado Geraldo Beltrão, que não cobra honorários
para assistir a acusação do caso;
• Em dezembro de 1973, Geraldo Beltrão pede a prisão preventiva do acusado;
• O juiz substituto da 9ª Vara, Antônio de Pádua Montenegro, recebe pedido da
defesa para que as audiências aconteçam às portas fechadas, mas indefere o
pedido baseado no princípio da publicidade dos atos processuais;
• O processo retorna para a Comarca de Santa Rita. O juiz responsável é
Sylvio da Silva Torres, que indefere o pedido de prisão preventiva, baseado
no Art. 271 do Código de Processo Penal, que fala sobre os limites do
assistente de acusação;
• 18/12/1973 - o advogado da família da vítima peticiona, reclamando da
morosidade do processo.
• É marcada a audiência para o dia 11/03/1974 e o acusado não comparece.
Então, a defesa e a acusação decidem que não deve haver audiência. Ainda
assim, a testemunha Maria Zezita dos Santos foi ouvida (umas das
testemunhas da localidade do Castanheiro);
• A audiência é remarcada para o dia 05/04/1974 e as outras duas
testemunhas do Castanheiro foram ouvidas também;
• Em 18/07/1974, Geraldo Beltrão pede mais uma vez a prisão preventiva do
acusado e reclama da lentidão do processo e dos incidentes protelatórios;
• Depois de oito meses, em 26/02/1975 o promotor Ernani Rodrigues de
Carvalho pronuncia Humberto Paredes e o pedido de pronúncia foi
encaminhado para a 9ª vara, feito ao Juiz Joaquim Sérgio Madruga, que mais
uma vez, respondia pela Comarca de Santa Rita;
• Em 11/07/1975, a defesa, mais uma vez, tenta pôr obstáculos ao andamento
do processo, pedindo vista e com isso o juiz resolve abrir vistas a acusação e
9

nesta Geraldo Beltrão cita as cartas de Humberto e também relembra a morte


do frentista, Francisco de Assis Carvalho, que guardava o carro de Humberto
em um posto de combustível perto de sua casa, sabia que seu carro estava
sujo de sangue no dia da morte da vítima e que no dia anterior foi conversar
com ele sobre seu depoimento;
• Em 21/07/1975, já com o advogado Juarez da Gama Batista, a defesa
apresenta as suas alegações finais;
• Em 20/08/1975, o juiz Joaquim Sérgio Madruga, acolhia o pedido da
denúncia, pronunciando o acusado para que vá a júri popular.
• Em 30/08/1975, a defesa recorre sustentando a tese de que não há nos autos
provas ou sequer indícios veementes da culpabilidade do acusado;
• O juiz não reconsidera sua decisão e encaminha o processo em grau de
recurso à Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, em que esta ouve a defesa
e a acusação para oferecerem as contrarrazões;
• Após 10 meses, em março de 1976, a Procuradoria Geral de Justiça, através
do assessor Pedro Leite de Morais, proferiu parecer contrário ao provimento
do recurso da defesa, acolhendo as contrarrazões da acusação;
• O acórdão da Câmara Criminal, com o presidente o Desembargador Rivaldo
Pereira e relator Miguel Levino, manteve a decisão do juiz Sérgio Madruga e
foi assinado em 08/07/1976;
• Em 08/06/1977 Humberto Paredes foi a julgamento pela 1ª vez;
• O júri foi presidido pelo juiz Joaquim Sérgio Madruga e o advogado de defesa,
substituído por Vital do Rego (genro do governador do Estado da Paraíba, na
época Pedro Gondim, que até compareceu ao júri para assistir o desempenho
do jovem advogado). Vital do Rego alegou não ter tido tempo de ler o
processo, porém o juiz indeferiu o pedido, dizendo que estava presente o
Advogado Eitel Santiago, que acompanhou o processo desde o início com o
advogado Joacil de Brito. No Ministério Público estava o promotor Antônio
Gonçalves e o assistente, o advogado Geraldo Beltrão;
• Humberto Paredes foi absolvido por 6 votos a 1.

Nesse ponto, podemos asseverar que o Direito Penal não defende todos os bens
essenciais de todos os cidadãos; a Lei não é igual para todos, sendo o status de
10

criminoso distribuído de modo desigual entre as pessoas. O Direito Penal, pois, não
se preocupa, através de seus operadores, em fazer a Lei funcionar de acordo com
suas prescrições legitimamente normatizadas, seguindo o princípio de proteção ao
acusado, talvez pela situação da classe social do mesmo. Isso significa dizer que
temos um Direito Penal através do qual “os desiguais são tratados desigualmente”
(ALVAREZ, 2003; BARATTA, 2002) restando um certo protecionismo implícito no
processo que torna igual e favorecido aqueles que fazem parte do círculo das
classes privilegiadas, o que se aplica ao acusado do caso aqui em análise.
Nessa consideração, segundo Baratta (2002), a Justiça Penal não é capaz de
combater a criminalidade e sim, utilizar métodos de controle. Funciona apenas como
divisor de classes, em que os que se encontram em desvantagem social recebem as
punições. O crime nada mais é que a soma do processo de criação e aplicação das
leis, que são constituídas pelas classes dominantes. Percebe-se a negação total do
mito do Direito Penal como igual em que a lei protege a todos, pois, no caso acima
citado, as provas eram suficientes para condenar o acusado. No entanto, a
absolvição do réu é um forte indicativo de como o processo caminhou para terminar
com este fecho. Dessa forma, o que se caracteriza é uma situação de poder que
determina relações a partir das quais “dominantes e dominados, sujeitos do poder e
sujeitos ao poder, são os dois grupos entre os quais se desenvolve o conflito, então
o conflito é, sempre, um conflito de poder” (BARATTA, 2002, p. 133). Além disso,
“com os conceitos de desvantagem e domínio são indicadas as diferenças de
acesso aos recursos e às possibilidades, ou seja, as diferenças de poder
correspondentes às diversas posições sociais” (BARATTA, 2002, p. 132), podendo
ser constatado a partir do período de início efetivo do andamento do processo, em
que o acusado Humberto Paredes foi a julgamento apenas cinco anos depois do fato
ocorrido.

• Em continuidade, o Ministério Público recorre e seis meses depois o assessor


da Procuradoria deu parecer favorável ao recurso. O parecer foi acolhido pela
Câmara e dois anos depois, em 07/08/1979, o réu iria a julgamento outra
vez;
• O advogado da defesa não compareu ao julgamento em 07/04/1980 e o
julgamento foi remarcado para o dia 14/04/1980;
11

• Em 14/04/1980, o julgamento ocorreu. O juiz que presidiu o júri foi Altamir


Milanez Pinto substituíndo o juiz de Santa Rita. Na defesa estavam Vital do
Rego e Nizi Marinheiro e, na acusação, o promotor Juarez Cesar de Carvalho
e o advogado Geraldo Beltrão;
• Durante o julgamento, muitas pessoas compareceram para assistir. No
entanto, o público presente comportou-se de forma acalorada e desrespeitosa
chegando a promover uma baderna no local. Nesse fato, ocorreu que, todas
às vezes que a acusação se pronunciava, o público gritava e vaiava, ao
contrário, o advogado do réu era aplaudido em sua fala, o que fez com que o
promotor público e o advogado assistente deixassem o recinto. Por fim,
mesmo com a ausência da acusação, o julgamento transcorreu de modo que
o réu foi novamente absolvido por 4 votos a 3;
• O promotor comunicou o fato ao seu superior, o chefe do Ministério Público
Vanildo Cabral de Vasconcelos;
• A Prefeitura do Município de Santa Rita, em 23/04/1980, através do prefeito
Marcos Odilon Ribeiro, também encaminha documento tratando da balbúrdia
em que ocorreu o júri, relatando os danos causados ao fórum e denominando
o júri de baderna;
• Em 26/04/1980, o Promotor encaminha ao Tribunal de Justiça da Paraíba a
apelação pedindo a anulação da decisão do júri que absolveu Humberto
Paredes;
• Em 15/08/1980, José Cartaxo Loureiro, assessor da Procuradoria da Justiça
ofereceu parecer favorável à anulação do júri. O parecer foi aprovado pelo
Procurador Geral Walter Porto;
• Em 11/11/1980, a Câmara Criminal, com o presidente, o juiz Aurélio de
Albuquerque e o relator Anízio Maia Neto, acolhe o pedido de apelação
criminal encaminhado pelo promotor Juarez e decreta a nulidade do
julgamento;
• Em 12/12/1980 o advogado Nizi Marinheiro interpõe recurso extraordinário
para o Supremo Tribunal Federal, visando anular a decisão da Câmara do
Tribunal de Justiça da Paraíba;
12

• Depois de ouvir a Procuradoria Geral, o presidente do Supremo Tribunal


Federal, Luiz Pereira Diniz, nega em 02/04/1981 o seguimento do recurso e
Paredes vai a novo júri em 21/06/1982, sendo absolvido por 6 votos a 1.

Destaca-se, neste último momento do caso Valdemarina, especialmente a forma


acintosa com que as pessoas se manifestaram num júri popular, o que nos
demonstra, segundo a perspectiva de Ramos (2012), que possa ter havido uma
armação estratégica por parte do acusado ao levar um grupo de pessoas para
tumultuar o julgamento. E por fim, mesmo diante das provas testemunhais, o
acusado foi absolvido pela terceira vez.

2.2 “A chacina da Praia do Poço”

Ana Limeira da Silva Filha e Pedro Alves da Silva Filho namoravam há cinco
anos. Eram noivos há dez meses e pretendiam casar-se em breve, além de serem
jovens discretos. Ela, médica recém-formada e ele, estudante de bioquímica. Foram
assassinados com requintes de crueldade e seus corpos encontrados na praia de
Ponta de Campina, próximo às margens da BR- 230, em avançado estado de
decomposição, causado por substância química que dificultava a identificação dos
mesmos. Apresentavam sinais de tortura, pois o braço de Pedro havia sido
esmagado possivelmente por porrete ou barra metálica. Seus corpos haviam sido
violentados, pois existiam sinais de tortura na morte do casal.

RITUALÍSTICA CRIMINAL:

• 10/02/1979 - Data da ocorrência conhecida como “Chacina do Poço”;


• 11/02/1979 - Contato com a polícia através do delegado de plantão, Coronel
Iran Lordão, sendo composto grupo de busca liderado por José Medeiros
(irmão mais velho da vítima, Pedro);
• 12/02/1979 - A notícia chega ao governador Dorgival Terceiro Neto, amigo da
família das vítimas;
• 13/02/1979 - José de Medeiros e sua equipe, auxiliada pelo policial reformado
Hermano de Albuquerque Melo, encontram os corpos das vítimas nas
13

imediações da praia de Ponta de Campina, a menos de 500 metros da BR


230, no trecho que liga o município de João Pessoa ao município de
Cabedelo;
• O Secretário de Segurança, Afrânio Melo, chega 40 min depois, juntamente
com o delegado Genival Queiroz;
• Em 14/02/1979, o agente Fernando Aranha tem informações sobre Evani
Ribeiro (principal testemunha do caso) e, juntamente com o comissário de
polícia, Severino Ferreira Damião seguem para a casa de Evani (que era
prostituta) e lhe fazem a seguinte pergunta: “O que você sabe sobre
Humberto Paredes”?
• 15/02/1979 - O governador eleito, Tarcísio Burity, afirmou que seria
implacável com o crime e com os criminosos, dizendo: “...ou nós os
destruímos, ou eles nos destruirão...”.

À época dos fatos, 36 crimes sem solução transbordavam pelas manchetes


paraibanas. Foi anunciado o nome do novo Secretário de Segurança, Luiz de Araújo
Bronzeado e em seu currículo uma vasta militância política na União Democrática
Nacional (UDN). Antes de assumir o cargo, Luiz Bronzeado já se empenhava
pessoalmente no caso, juntamente com uma pequena equipe de futuros auxiliares,
em paralelo com o inquérito presidido pelo delegado Genival Queiroz.

• Uma semana depois do crime, o governador Dorgival Terceiro Neto solicita o


apoio da Polícia Federal devido a suspeita de que elementos viciados em
drogas estivessem envolvidos na chacina;
• Em 17/02/1979, o agente Aranha e outros conduziram a prostituta, Evani
Ribeiro, a casa do futuro Secretário de Segurança Luiz Bronzeado, lá foi
ouvida e seu depoimento gravado. Este foi presenciado por um membro do
Serviço de Informações do Exército, lotado no Grupamento de Engenharia;
também foi gravada uma ligação telefônica entre Evani e Humberto Paredes
(que se tornou principal suspeito) e esta foi encaminhada para o governador,
bem como para o comandante do Grupamento de Engenharia, General Athos
Batista Teixeira. Após ouvir a gravação, o governador Dorgival Terceiro Neto
14

determinou que a testemunha Evani Ribeiro fosse ouvida pela Polícia Federal
e depois pelo delegado da Delegacia de Homicídios;
• Em 23/02/1979, Evani Ribeiro foi conduzida à Superintendência da Polícia
Federal pelo agente Fernando Aranha. Diante do delegado da Polícia
Federal, Antônio Carlos Monteiro, Evani repetiu seu depoimento. Nesta
mesma data, Humberto Paredes se apresenta espontaneamente e negava
qualquer ligação com Evani ou com outro acusado;
• Em 25/02/1979, foi feita uma acareação entre Evani Ribeiro e Humberto
Paredes, esta confirmou na presença do acusado tudo o que já havia falado
nas duas declarações anteriores;
• Em 01/03/1979, Evani Ribeiro desfez todas as afirmações anteriores,
declarando que foi induzida pelo agente Fernando Aranha em troca de um
emprego, discos e uma radiola e ambos se desmentem;

O superintendente de Polícia Federal, José Armando da Costa, determinou uma


sindicância para apurar a veracidade das afirmações de Evani Ribeiro e Fernando
Aranha. O superintendente chegou a inocentar publicamente Humberto Paredes e
enquadrar Evani e Aranha no art. 339 do Código Penal por “denunciação caluniosa”.
Em acréscimo, quando do depoimento da testemunha Evani, na sede da Polícia
Federal, ela recebeu a visita de Humberto Paredes, sendo permitido que o mesmo
ficasse a sós com Evani. Com o desenrolar dos fatos, o foco da acusação deslocou-
se de Humberto Paredes para a própria Evani que, até então era testemunha, pois
“isto explicaria a exposição dos estratos sociais mais débeis à ação criminalizante
das instâncias oficiais” (BARATTA, 2002, p. 136).

• Em 31/03/1979, Evani Ribeiro compareceu a Delegacia de Homicídios,


perante o Capitão João Henrique de Souza e confessou que testemunhou
como foram assassinados Ana Limeira e Pedro Alves.
• Com o fracasso da Polícia Federal que inocentou Humberto Paredes e não
apresentou nenhum acusado, o inquérito passou para a esfera da Polícia
Interestadual (POLINTER), cujo titular era o bacharel José Campos da Silva.
• Em 23/07/1979, o delegado Campos enviava ao juiz Herval Carreira, titular da
Comarca de Cabedelo, o seu relatório pedindo a prisão preventiva dos
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seguintes indiciados: Humberto Lacerda Paredes, médico psiquiatra e


protético; Vidal Teodoro de Souza, radiologista; Francisco Antônio Valões,
bancário; Francisco Soares de Lacerda, professor de desenho; Evani
Terezinha Ribeiro, indiciada por cumplicidade, isentada de coautoria, já que a
partir dos depoimentos da própria Evani, outros supostos autores foram
indicados como coautores dos crimes com Humberto Paredes.

Assim, ao ter acesso à publicação do relatório do delegado Campos, o


superintendente Armando Costa saiu em defesa de Humberto Paredes na imprensa.
As famílias das vítimas encaminharam um memorial ao Ministro da Justiça, o
Senador Petrônio Portela, denunciando o comportamento do policial José Armando
Costa. O juiz substituto de Cabedelo, Herval Carreira, decreta a prisão preventiva
dos acusados que foram denunciados pelo promotor Pedro Leite de Morais, no dia
30 de julho de 1979. Após a decretação da prisão preventiva, o juiz oficia ao ministro
Portela, solicitando a abertura do inquérito para apurar a acusação que Evani
Ribeiro fizera de que fora coagida na Polícia Federal pelo agente Sampaio para
negar a primeira acusação contra o primeiro indiciado, Humberto Paredes. Poucos
meses depois, o superintendente Armando Costa era exonerado de suas funções na
Paraíba. Embora a prisão preventiva dos acusados tenha sido decretada, nenhum
deles chegou a ser preso, pois o Tribunal de Justiça do Estado lhes concedeu
habeas corpus. Nesse foco, descortinam-se situações nas quais se “atribui
especialmente ao modo de operar da polícia o papel principal no interior dos
mecanismos que conduzem à distribuição dos status criminais e à sua concentração
em determinados grupos particularmente ‘desfavorecidos’” (BARATTA, 2002, p.
134).

• Em 09/08/1979, surge novo depoimento do economista Luiz Teixeira de


Carvalho;
• Os advogados de Humberto Paredes acusam a testemunha Evani Ribeiro,
imputando-a como louca, considerando diagnóstico feito pelo médico da
Polícia Federal;
• O Secretário de Segurança, Luiz Bronzeado, encaminhou Evani para a cidade
Maceió, na qual submetida a rigoroso exame psicológico e o Dr. Nicolau Vale
a diagnosticou como mentalmente saudável;
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• A fita em que estava a gravação do primeiro depoimento de Evani Ribeiro foi


apagada e havia a explicação dos possíveis motivos do crime; nesta fita havia
também declarações feitas pelo irmão de Ana Limeira, o professor
universitário Antônio Gomes da Silva.

O advogado de acusação defendia a tese de que depois que Humberto Paredes


mudou-se de João Pessoa, sendo apontado por Evani Ribeiro como o principal
mentor de um grupo responsável por uma série de crimes misteriosos registrados,
nunca mais ocorreu na cidade nenhum assassinato com aquelas características.

• Em 08/11/1988, o juiz substituto de Cabedelo, Otacílio Cordeiro da Silva,


pronunciou os acusados como incursos no artigo 121 do Código Penal que
dita sobre homicídio e imediatamente Nizi Marinheiro, advogado de Humberto
Paredes, entrou com recurso;
• O parecer do Procurador Geral da Justiça só saiu três anos depois, a 20 de
novembro de 1991, no qual ele rebatia as alegações dos advogados de
defesa quanto à falta de provas;
• Em 25/02/1992, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça negava provimento
ao recurso alegando que “apesar de decorridos mais de doze anos da
instauração do presente procedimento legal, continuam vivos os indícios de
autoria que apontam os réus como responsáveis pelos homicídios
praticados”.
• Depois de vários despachos e recursos, em 23/02/1995, o juiz substituto de
Cabedelo, Luiz Gonzaga Targino de Moura, renovou os mandados de prisão.

Até o fechamento do livro de Biu Ramos, em março de 1995, nenhuma prisão


havia sido efetuada.
Ao analisarmos o processo criminal instaurado para apurar a morte de
Valdemarina e Ana Limeira e seu namorado, relatado no livro de Biu Ramos, faz-se
necessário uma verificação detalhada das peças processuais, da legislação da
época e do discurso jurídico oficializado nos autos, traduzindo por explicitar o quanto
a ritualística processual dos casos expostos foi decisiva para absolvição dos
culpados. Excesso de recursos, falhas de criminalística, discurso dúbio de peritos,
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reforço na tese de que existem pessoas mais confiáveis que outras para depor, a
exemplo da prostituta Evani no caso Ana Limeira, tudo isso nos leva à leitura de que
existe uma legislação limitada quanto à persecução da verdade, pois essa última é
direcionada.
Na perspectiva jurídica que falamos, pode-se dizer que são muitas as
verdades produzidas. No trâmite da investigação policial e da justiça, a produção da
verdade se dá pretensamente pela reconstituição dos fatos através da realização de
perícias técnicas como necropsias e demais exames necessários para elucidação
dos crimes, interrogatório do acusado, testemunhas e tantos outros atos. As
verdades, através dos procedimentos constituem-se então, em matéria de discurso
formal que valida uma interpretação.
Percebemos no decorrer da leitura que os julgamentos dos casos de
Valdemarina e do casal Ana e Pedro resultaram na absolvição dos acusados.
Portanto, produziram, por si só, mais uma verdade sobre o crime, ou seja, uma
verdade que inocentou os autores dos crimes. Esta verdade não é mais possível de
ser questionada juridicamente com o trânsito em julgado. O cerne levantado em
torno do texto pretendeu expor, de maneira objetiva, o caráter de se ter o poder
decisório pelo Estado representado por suas autoridades, na formulação de
verdades que podem gerar impunidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise da obra “Crimes que Abalaram a Paraíba”, do jornalista Biu


Ramos, percebemos que o Direito possui várias faces, entre as quais se contempla
“status” social, riqueza e poder. Nesse esteio, com base na Teoria do Conflito da
Criminologia Crítica, o processo decisório dos casos reais anteriormente citados
reflete a legitimidade do Sistema Punitivo como forma de controle social por parte
dos detentores do poder em detrimento das classes subalternas. A partir de teóricos
voltados para os estudos da Criminologia Crítica por uma perspectiva do conflito,
busca-se o esclarecimento de tais comportamentos e seu “modus operandi”. Desse
modo, como resultado, o que se espera é a ampliação das discussões sobre o
modelo de atuação desse Sistema Punitivo a partir da análise da ritualística
processual penal destes crimes, mostrando como a justiça se propugna a reproduzir
um acesso aos direitos constituídos de forma desigual.
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Não queremos com o exposto desqualificar a ritualística processual, mas


repensar o quanto de diversidade ela tem, verdadeiramente, em seu escopo, através
de um processo decisório justo com vista a ser eficaz em suas possíveis
reprimendas, longe de privilegiar camadas da sociedade. Deve-se fazer assim com
que os cidadãos se sintam inseridos no contexto de uma sociedade mais justa e que
se repense enquanto palco de todos e os direitos não sejam meros detalhamentos
em frias páginas, mas plenamente vivenciados no cotidiano.
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REFERÊNCIAS

ALVAREZ, Marcos Cesar. Bacharéis, Criminologistas e Juristas: Saber jurídico e


nova escola penal no Brasil. São Paulo: Método, 2003.

BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica ao direito penal: introdução


à sociologia do direito penal. Trad. Juarez Cirino dos Santos. 3. ed. Rio de Janeiro:
Editora Revan, 2002.

BECKER, Howard S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro:


Zahar, 2008.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

RAMOS, Biu. Crimes que abalaram a Paraíba. Volume II. João Pessoa: Forma
Editora, 2012. p. 71-196.

SILVA, José Maria da; SILVEIRA, Emerson Sena. Apresentação de trabalhos


acadêmicos. 8. ed. Petropólis: Vozes, 2014.

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