UNINASSAU
SAÚDE COLETIVA
PROFª JULIA
MARTINS
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TRANSTORNO ALIMENTAR
Paulista 2024
INTRODUÇÃO
Os transtornos alimentares geralmente apresentam as suas primeiras
manifestações na infância e na adolescência. De maneira geral, podemos dividir as
alterações do comportamento alimentar neste período em dois grupos. Primeiramente,
aqueles transtornos que ocorrem precocemente na infância e que representam alterações
da relação da criança com a alimentação. Estas condições parecem não estar associadas
a uma preocupação excessiva com o peso e/ou a forma corporal, mas podem interferir
com o desenvolvimento infantil. Aqui encontramos o transtorno da alimentação da
primeira infância, a pica e o transtorno de ruminação. O segundo grupo de transtornos
tem o seu aparecimento mais tardio e é constituído pelos transtornos alimentares
propriamente ditos: a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. De especial interesse para
os profissionais envolvidos com o atendimento de crianças e adolescentes são as
chamadas síndromes parciais de anorexia e de bulimia nervosa e a categoria diagnóstica
recentemente descrita denominada transtorno da compulsão alimentar periódica.
O transtorno alimentar retrata o total descompasso ao ingerir alimentos ou,
então, a perturbação psicológica de não comer. Trata-se de uma condição que é
consideravelmente grave e que causa impacto grave na saúde de quem sofre da doença.
Cabe ressaltar que apresenta, inclusive, código de doença (CID 10 · F50 — transtornos
da alimentação).
O transtorno alimentar é marcado pelos comportamentos alimentares temerários.
Ou a pessoa deixa de comer, por estar complexada em relação ao seu peso, ou acaba
ingerindo muitos alimentos por conta de um descontrole emocional. Sendo assim, a
questão emocional é muito presente no distúrbio. Normalmente, essa instabilidade
decorre de traumas desenvolvidos na adolescência (porque é um momento de
descobertas). Mas é possível que se apresente em outras idades.
TRANSTORNO DA ALIMENTAÇÃO DA PRIMEIRA INFÂNCIA
É uma dificuldade em se alimentar adequadamente levando a uma perda
ponderal ou a uma falha em ganhar peso de forma apropriada, iniciando-se antes da
idade de seis anos. Os sintomas parecem não ser devidos a nenhuma condição médica
geral, a um outro transtorno psiquiátrico ou à falta de alimentos. O objetivo principal do
tratamento é a melhora do estado nutricional do paciente.
Deve-se proceder uma avaliação dos pais e de fatores psicossociais que estejam
contribuindo para o desenvolvimento e a manutenção do problema.
PICA
É a ingestão persistente de substâncias não nutritivas, inadequadas para o
desenvolvimento infantil e que não fazem parte de uma prática aceita culturalmente. As
substâncias mais frequentemente consumidas são: terra, barro, cabelo, alimentos crus,
cinzas de cigarro e fezes de animais. Atrasos no desenvolvimento, retardo mental e
história familiar de pica são condições que podem estar associadas. Várias complicações
clínicas podem ocorrer, principalmente relacionadas com o sistema digestivo e com
intoxicações ocasionais, dependendo do agente ingerido.
TRANSTORNO DE RUMINAÇÃO
Inclui episódios de regurgitação (ou "remastigação) repetidos que não podem ser
explicados por nenhuma condição médica. As principais complicações médicas podem
ser desnutrição, perda de peso, alterações do equilíbrio hidroeletrolítico, desidratação e
morte. O tratamento envolve o acompanhamento clínico das complicações e tratamento
comportamental.
ANOREXIA NERVOSA (AN)
Várias alterações do apetite e perturbações da imagem corporal podem ocorrer
nas crianças em idade escolar, embora os quadros mais típicos de transtornos
alimentares sejam mais raros. Apesar de cerca de 45% das crianças de ambos os sexos
em idade escolar quererem ser mais magras e 37% tentarem perder peso, somente uma
pequena proporção delas desenvolvem um transtorno alimentar. Vale ressaltar, no
entanto, que alguns traços presentes na idade escolar são considerados fatores de risco
para o surgimento dos transtornos alimentares na adolescência, alertando o profissional
de saúde que atende crianças para reconhecer e investigar estes traços ainda insipientes.
A AN ocorre predominantemente em mulheres jovens, com uma prevalência
pontual de 0,28%6 e taxas de prevalência ao longo da vida oscilando entre 0,3% e 3,7%.
Existem dois picos de incidência: aos 14 e aos 17 anos Evidências sugerem que fatores
psicossociais desempenham um importante papel na distribuição dos transtornos
alimentares. A influência da "cultura do corpo" e da pressão para a magreza que as
mulheres sofrem nas sociedades ocidentais (especialmente as adolescentes) parece estar
associada com o desencadeamento de comportamentos anoréticos. Determinadas
profissões que exigem leveza para melhor desempenho (como ginastas, jockeis,
patinadoras, bailarinas) ou esbeltez para "comercialização" da imagem (modelos,
atrizes) se encontram em risco aumentado para o desenvolvimento do transtorno
O modelo etiológico mais aceito atualmente para explicar a gênese e a
manutenção dos transtornos alimentares é o modelo multifatorial que se baseia na
hipótese de que vários fatores biológicos, psicológicos e sociais estejam envolvidos,
interrelacionando- se.
Na sua forma típica, a AN se inicia geralmente na infância ou na adolescência. O
início é marcado por uma restrição dietética progressiva com a eliminação de alimentos
considerados "engordantes", como os carboidratos.
As pacientes passam a apresentar certa insatisfação com os seus corpos assim
como passam a se sentir obesas apesar de muitas vezes se encontrarem até emaciadas
(alteração da imagem corporal). O medo de engordar é uma característica essencial,
servindo muitas vezes como um diferencial para outros tipos de anorexia secundárias a
doenças clínicas ou psiquiátricas. Gradativamente, as pacientes passam a viver
exclusivamente em função da dieta, da comida, do peso e da forma corporal,
restringindo seu campo de interesses e levando ao gradativo isolamento social. O curso
da doença é caracterizado por uma perda de peso progressiva e continuada. O padrão
alimentar vai se tornando cada vez mais secreto e muitas vezes até assumindo
características ritualizadas e bizarras.
Segundo o sistema classificatório da última edição do Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders (DSM-IV), existem dois tipos de apresentação clínica da
doença: no primeiro, as pacientes apenas empregam comportamentos restritivos
associados à dieta ("tipo restritivo"); no outro grupo ("tipo purgativo") ocorrem
episódios de compulsão alimentar e/ou comportamentos mais perigosos, como os
vômitos autoinduzidos, o abuso de laxativos e de diuréticos. A classificação dos
transtornos mentais e do comportamento da Classificação Internacional de Doenças ¾
10ª Edição
(CID-103) já não distingue tipos de anorexia e, portanto, pacientes anoréticas que
apresentam episódios bulímicos podem receber os dois diagnósticos: anorexia e bulimia.
A prática de exercícios físicos é frequente, sendo que as pacientes chegam a
realizar exercícios físicos extenuantes com o objetivo de queimar calorias e perder peso.
Há uma ausência completa de inquietação com sua condição física com negação dos
riscos.
Várias complicações médicas podem surgir em decorrência da desnutrição e dos
comportamentos purgativos, tais como anemia, alterações endócrinas, osteoporose e
alterações hidroeletrolíticas (especialmente hipocaliemia, que pode levar a arritmia
cardíaca e morte súbita), dentre outras. A associação dos transtornos alimentares com
outros quadros psiquiátricos é bastante frequente, especialmente com transtornos do
humor, transtornos de ansiedade e/ou transtorno de personalidade, mesclando os seus
sintomas com os da condição básica e complicando a evolução clínica.
O diagnóstico diferencial deve ser feito tanto com doenças físicas como
psiquiátricas que podem cursar com anorexia e emagrecimento. No entanto, quando a
causa da anorexia e do emagrecimento é uma doença clínica, a pessoa não apresenta as
alterações da imagem corporal e o medo de ganhar peso presentes nas pacientes com
AN.° Outro diagnóstico diferencial importante e por vezes difíceis é com a BN,
comentado mais adiante.
A AN de início precoce parece ser o transtorno alimentar mais comum na
infância. A anorexia pode ter início a partir dos 7 anos de idade e preferencialmente em
meninas, embora em crianças a prevalência entre meninos parece ser maior do que entre
adultos jovens. Formas mais precoces de transtornos alimentares apresentam uma
associação importante com comportamento obsessivo (incluindo extrema preocupação
com a escola) e com sintomas depressivos. As mais frequentes razões dadas para a
recusa alimentar, além do medo de engordar ou do desejo de emagrecer, costumam ser:
náuseas, dor abdominal, sensação de plenitude, perda de apetite ou incapacidade para
engolir.
Quando manifestam claramente sua intenção de controlar a alimentação,
meninas referem preocupações estéticas, enquanto meninos relatam mais preocupação
com saúde e condicionamento físico. Apesar das crianças se utilizarem menos de
métodos purgativos (vômitos e laxativos), elas se exercitam bastante para controlar o
peso através de esportes ou subindo escadas e fazendo abdominais?
Embora nesta faixa etária a perda de peso não seja essencial para o diagnóstico,
podendo haver apenas redução no ganho de peso esperado para o crescimento, a perda
de
peso pode ser rápida e dramática em virtude dos baixos níveis de gordura corporal total
em crianças. Nos casos de AN pode haver um importante retardo no desenvolvimento,
expondo ao risco de osteopenia, osteoporose e baixa estatura. Pode se instalar de forma
aguda (com sintomas obsessivo-compulsivos), podendo existir uma associação com
transtornos neuropsiquiátricos autoimunes desencadeados por infecções estreptocócicas
na infância.
Devido a sua etiologia multifatorial, a AN é considerada uma condição de difícil
tratamento. A integração das abordagens médica, psicológica e nutricional é a base da
terapêutica. A constituição de uma equipe multiprofissional é fundamental para o
sucesso terapêutico e os profissionais envolvidos devem trabalhar de forma integrada.
A internação hospitalar deve ser considerada para as pacientes com peso
corporal abaixo de 75% do mínimo ideal, quando estão perdendo peso rapidamente ou
quando se faz necessária uma monitorização adequada das suas condições clínicas. O
tratamento ambulatorial deve ser indicado quando a paciente tem um bom suporte
social, não está perdendo peso rapidamente, encontra-se metabolicamente estável e não
apresenta os critérios de gravidade descritos acima e que indicam a necessidade de uma
internação hospitalar.
Apesar de não existir um agente farmacológico específico para a AN, vários
medicamentos têm se mostrado úteis. O uso de antidepressivos ou ansiolíticos pode ser
adequado em pacientes que desenvolvem uma comorbidade psiquiátrica associada. O
emprego destas substâncias em pacientes com AN deve ser cauteloso, tendo em vista as
frequentes anormalidades clínicas associadas. Os agentes inibidores da recaptação da
serotonina (ISRS) parecem mais seguros.
Existem evidências de que a fluoxetina poderia auxiliar na manutenção do peso
pós-internação em alguns pacientes. A psicoterapia em suas diversas modalidades
(cognitivo-comportamental, interpessoal e a terapia de família) ainda é um dos pilares
centrais do tratamento.
BULIMIA NERVOSA
BN é extremamente rara antes dos 12 anos. O transtorno é característico das
mulheres jovens e adolescentes, com prevalência de 1,1% a 4,2% neste grupo. Fatores
de ordem biopsicossocial se encontram relacionados com sua etiologia. 19 O episódio
de compulsão alimentar é o sintoma principal e costuma surgir no decorrer de uma dieta
para emagrecer. No início, pode se achar relacionado à fome, mas posteriormente,
quando o
ciclo compulsão alimentar-purgação já está instalado, ocorre em todo tipo de situação
que gera sentimentos negativos (frustração, tristeza, ansiedade, tédio, solidão). Inclui
um aspecto comportamental objetivo que seria comer uma quantidade de comida
considerada exagerada se comparada ao que uma pessoa comeria em condições
normais; e um componente subjetivo que é a sensação de total falta de controle sobre o
seu próprio comportamento. Estes episódios ocorrem às escondidas na grande maioria
das vezes e são acompanhados de sentimentos de intensa vergonha, culpa e desejos de
autopunição. A quantidade de calorias ingerida por episódio pode variar enormemente,
muito embora em média oscile entre 2 mil e 5 mil calorias.
O vômito autoinduzido ocorre em cerca de 90% dos casos, sendo, portanto, o
principal método compensatório utilizado. O efeito imediato provocado pelo vômito é o
alívio do desconforto físico secundário à hiperalimentação e principalmente a redução
do medo de ganhar peso. A sua frequência é variável, podendo ser de um até 10 ou mais
episódios por dia, nos casos mais graves. No começo, a paciente necessita de manobras
para induzir o vômito, como a introdução do dedo ou algum objeto na garganta.
Algumas bulímicas mais graves, com vários episódios de vômitos por dia, podem
apresentar até ulcerações no dorso da mão pelo uso da mesma para induzir a emese, o
que se chama de sinal de Russell. Com a evolução do transtorno, a paciente aprende a
vomitar sem necessitar mais de estimulação mecânica.
Outros mecanismos utilizados pelas bulímicas para controle do peso após uma
ingestão exagerada são: o uso inadequado (sem prescrição médica) de medicamentos do
tipo la-ativo, de diuréticos, de hormônios tireoidianos, de agentes anorexígenos e de
enemas.
Jejuns prolongados e exercícios físicos exagerados são também formas de
controle do peso, mas geralmente geram menos complicações clínicas do que as
técnicas purgativas descritas acima. Na BN, a paciente mantém uma preocupação
excessiva com a forma e o peso corporal. A classificação do DSM-IV} distingue dois
tipos de pacientes com bulimia conforme a utilização de métodos compensatórios mais
invasivos (vômitos, laxantes, diuréticos, outras drogas) ¾ "tipo purgativo" ¾ ou não (só
dieta, jejuns e exercícios), classificado no "tipo não-purgativo".
A CID-103 apresenta critérios diagnósticos muito próximos aos do DSM-IV,2
ressaltando, entretanto, a possibilidade de negligência do tratamento insulínico em
diabéticos como uma apresentação especial do quadro, assim como a possível
ocorrência de um episódio prévio de AN que evoluiu para bulimia.
As complicações clínicas são decorrentes principalmente das manobras
compensatórias para perda de peso: erosão dos dentes, alargamento das parótidas,
esofagites, hipopotassemia e alterações cardiovasculares, dentre outras. Como na AN,
parece haver uma ocorrência aumentada de transtornos do humor e de transtornos de
ansiedade em pacientes com BN. Assim, um grande número de pacientes com BN (46%
a 89%) evidencia um transtorno depressivo associado em algum momento de sua
evolução clínica. Particular atenção deve ser dada a ocorrência de transtornos de
personalidade e de abuso de substâncias no diagnóstico das pacientes com BN. O abuso
de álcool e de psicoestimulantes são descritos, mas também podemos encontrar o abuso
múltiplo de substâncias. 19
A bulimia é um diagnóstico diferencial da AN.
Diferente da AN do tipo purgativo, na BN as pacientes conseguem manter o
peso dentro do limiar de normalidade na maioria dos casos (cerca de 70%) ou,
discretamente abaixo deste (15%), sendo que as pacientes restantes podem estar até
acima do peso (15%). Como na AN, o tratamento da BN deve ser conduzido por uma
equipe multiprofissional.
A necessidade de internação hospitalar nos casos de BN está relacionada com a
presença de complicações médico-psiquiátricas, de ciclos incoercíveis de compulsão
alimentar-vômitos, de abuso de laxativos e/ou outras drogas e de outros
comportamentos de risco. Na maioria das vezes, entretanto, o tratamento da BN é extra-
hospitalar, devendo-se tentar um período inicial de abordagens como a psicoterapia
cognitivo- comportamento-tal, o aconselhamento nutricional e o uso de psicofármacos,
o que pode conduzir a uma melhora das pacientes. Os estudos utilizando a fluoxetina no
controle dos episódios de compulsão alimentar têm gerado um grande entusiasmo em
relação à eficácia destes agentes no tratamento da BN, muito embora pareça improvável
que todos os pacientes possam permanecer totalmente livres dos episódios de
compulsão alimentar. A fluoxetina parece indicada em doses mais altas na BN (60 mg
por dia em adultos).
SÍNDROMES ATÍPICAS OU PARCIAIS DE AN E DE BN
Cerca de 1/3 dos pacientes que procuram tratamento apresentam um conjunto de
sintomas difícil de classificar como um transtorno alimentar "típico", 20,21 também
chamados de síndromes parciais, AN e BN atípicas (CID-103) ou transtorno alimentar
não especificado (DSM-IV3). Podemos dividir esta categoria em dois grupos. No
primeiro, encontram-se aqueles quadros clínicos que se assemelham a AN e a BN, mas
que não preenchem totalmente os seus critérios, ou porque lhes falta um aspecto clínico
essencial (por exemplo, pacientes que apresentam todos os outros critérios para AN,
mas ainda não apresentam peso abaixo do limiar diagnóstico, ou que não apresentam a
frequência de episódios de compulsão alimentar necessária para o diagnóstico de BN),
ou porque não são suficientemente graves para atingir o limiar diagnóstico. Estes
quadros parciais chegam a ser cinco vezes mais frequentes que as síndromes completas,
e autores como Dancyger e Garfinkel (1995), acompanhando quadros parciais,
observaram que aproximadamente 50% evoluem para quadros completos, sendo
importante portanto seu diagnóstico precoce.
O TRANSTORNO DA COMPULSÃO ALIMENTAR PERIÓDICA (TCAP)
Os pacientes com o transtorno apresentam os episódios de compulsão alimentar,
mas não utilizam as medidas extremas para evitar o ganho de peso como pessoas com
BN.24 A maioria dos pacientes com o transtorno é obesa. A sua prevalência na
população em geral é em torno de 2%. Pessoas com TCAP diferem das obesas sem
TCAP no que se refere à gravidade da psicopatologia, ao início mais precoce da
obesidade, à maior gravidade da obesidade e à má resposta aos regimes de tratamento,
podendo estar associado a obesidade em adolescentes. Berkowitz relataram que 30% de
um grupo de adolescentes obesas que procurou tratamento para emagrecer apresentava
compulsão alimentar. O tratamento do TCAP deve envolver uma orientação dietética
adequada com refeições regulares, psicoterapia cognitivo-comportamental, o uso de
inibidores seletivos da recaptação de serotonina ¾ ISRS (fluoxetina, fluvoxamina e
sertralina) ou o uso de agentes que se encontram em fase inicial de avaliação como a
sibutramina e o topiramato.
“A (des)construção do Corpo a partir dos Transtornos Alimentares”
Tomando os Transtornos Alimentares como ponto de partida dessa análise,
torna- se importante apresentar, mesmo que de forma breve, algumas definições do
termo. Nesse sentido, trata-se da aproximação de uma doença psiquiátrica que tem
capturado, predominantemente, mulheres jovens de diferentes classes sociais.
Portanto, embora classificados separadamente, apresentam uma etiologia
comum no que diz respeito à ideia de preocupação excessiva com o peso e com a forma
corporal e o medo de engordar. Além disso, Cordás (2004); Claudino e Borges (2002),
ao proporem uma discussão atualizada dos critérios diagnósticos desses transtornos
psiquiátricos, salientam que, em ambos, aparece, indiscutivelmente, uma distorção da
imagem corporal com perturbações graves na forma de vivenciar o peso.
De fato, diante do acontecimento de que muitas pessoas, hoje, sofrem com a
preocupação de controlar o peso, os dados epidemiológicos revelam que 90% dos
diagnósticos da doença atingem apenas as mulheres jovens. Algumas pesquisas
mostram que cerca de 30% das mulheres entre 12 e 29 anos controlam o peso
utilizando dietas severas, laxantes e diuréticos ou provocando vômitos.
Mas, para entender os significados dos transtornos alimentares no nosso
contexto social, procuraremos mostrar, ao longo do tempo, outros sentidos atribuídos a
situações de privação de alimentação. Se, hoje em dia, estes transtornos expressam
tentativas extremas de baixar peso associadas à norma rígida da magreza, a história
nos mostra que nem sempre foi assim.
Cordás (2004) descreve que, no séc XIII, algumas mulheres utilizavam-se da
inanição como uma forma de aproximarem-se espiritualmente de Deus, a fim de
tornarem-se santas. Eram chamadas de "santas anoréxicas". Santa Catarina de Siena,
Margareth de Cortuna, Santa Rosa de Lima são alguns dos exemplos encontrados na
literatura.
Ainda que seja possível estabelecer algumas semelhanças entre as santas
medievais e as jovens anoréticas de hoje, é discutível pensar que há uma mera
continuidade entre estes dois tipos de experiência: não há como estabelecer uma
relação linear entre ambas como encontramos em algumas explicações que tentam
fazer essa aproximação. Assim, apesar de podermos encontrar algumas relações de
continuidade, não acreditamos ser possível considerar que a anorexia do presente é
uma mera evolução de uma doença que já existia na Idade Média. O que se pode dizer
é que estas duas experiências são forjadas em contextos históricos distintos e
expressam diferentes modos de subjetivação, ou seja, diferentes modos de produção da
subjetividade: no presente, nos deparamos com mulheres jovens buscando atingir uma
imagem cultivada pela sociedade que associa beleza a magreza; no passado,
encontramos mulheres envolvidas em práticas de purificação espirituais. Assim, se
existe uma certa permanência entre a Idade Média e a atualidade, ela não reside no
fato de as jovens anoréxicas estarem substituindo as santas de outrora e, sim, na
questão de essas mulheres rechaçarem o próprio corpo para atingir os ideais de uma
época, ideais estes que expressam um determinado modo de subjetivação dominante.
Ao analisarmos os modos de subjetivação contemporâneos, percebemos que
estamos inseridos em uma lógica capitalística na qual é permitido manipular e
controlar o corpo das mais diversas formas, transformando-o em um objeto de
consumo. Assim, meninas, jovens e mulheres adultas frequentam academias de
ginástica, fazem dietas, utilizam cosméticos para afirmar-se na condição do que é
considerado como padrão estético feminino em nossa sociedade. Segundo pesquisa de
Novaes (2006) com frequentadoras de academias de ginástica e pacientes submetidas a
cirurgias plásticas e bariátricas, foi demonstrado que a preocupação com a beleza é
presente em todas as mulheres entrevistadas e, independente da classe social, todas
utilizam diversas práticas para livrar-se daquilo que entendem como feio no próprio
corpo. Para a pesquisadora, tal fenômeno é potencializado pelo fato de que a sociedade
atual faz exigências e exerce um controle maior sobre os corpos de mulheres uma vez
que, nos homens, os imperativos de beleza são bem mais sutis, tolerando-se melhor os
desvios e negligências. Assim, Novaes (2006) afirma que, enquanto no gênero
masculino podemos falar de imagens centradas em conquistas sociais e econômicas, a
construção de uma imagem feminina é necessariamente atravessada por investimentos
voltados para o próprio corpo. Desse modo, a autora destaca que uma bela imagem
feminina requer esforços, investimentos financeiros e tempo.
ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO
Os transtornos alimentares podem ser definidos por comportamentos
disfuncionais relacionados à alimentação, que prejudicam a saúde física e o
funcionamento psicossocial. A anorexia nervosa se caracteriza por baixo peso corporal,
restrição alimentar, medo de engordar, supervalorização do peso e/ou forma e distúrbio
da imagem corporal. A bulimia nervosa se caracteriza pela presença de episódios
recorrentes de compulsão alimentar, seguidos por comportamentos compensatórios
inadequados para evitar ganho de peso e uma autoavaliação indevidamente influenciada
pela forma do corpo ou peso. O papel da psicoterapia no tratamento dos transtornos
alimentares é desenvolver técnicas para promover a adesão ao tratamento, melhorar a
relação com a imagem corporal, ensinar o controle dos episódios de compulsão
alimentar, aumentar a autoestima do paciente, melhorar suas relações interpessoais,
ensiná-lo a lidar de modo funcional com emoções intensas e modificar o sistema de
crenças associadas ao desenvolvimento e manutenção dos transtornos alimentares. No
presente artigo são descritos os modelos de psicoterapia mais testados em estudos
clínicos para o tratamento
dos transtornos alimentares. A terapia cognitivo-comportamental é considerada o
padrão- ouro para o tratamento desses quadros clínicos, em decorrência da quantidade
de estudos controlados que consubstanciam as evidências dos bons resultados obtidos
com esse modelo de psicoterapia. São também descritas as técnicas implementadas pela
terapia interpessoal, terapia comportamental dialética e mindful eating.
Esses transtornos têm uma natureza complexa e multifatorial, envolvendo
fatores biológicos, psicológicos e sociais. Nesse contexto, a psicologia desempenha um
papel fundamental no tratamento, auxiliando os indivíduos a compreenderem as origens
e os padrões de comportamento associados aos transtornos alimentares. O psicólogo
atua de forma integrada com outros profissionais da saúde, como nutricionistas e
médicos, para fornecer um tratamento completo e abrangente. Ele busca entender as
questões emocionais, psicológicas e comportamentais subjacentes aos transtornos
alimentares, auxiliando os pacientes a reconhecerem e lidarem com seus padrões
disfuncionais de pensamento e comportamento em relação à alimentação.
Além disso, o psicólogo também trabalha na promoção de uma melhor
autoimagem e autoestima, ajudando os indivíduos a desenvolverem uma relação mais
saudável com seus corpos e a cultivarem uma atitude mais positiva em relação à
comida. Ele também auxilia na identificação e no enfrentamento de fatores de risco
emocionais, como traumas, estresse, ansiedade e depressão, que podem contribuir para
o desenvolvimento e a manutenção dos transtornos alimentares. Cada transtorno
alimentar requer uma abordagem personalizada, e o profissional especializado é capaz
de adaptar o tratamento de acordo com as necessidades individuais de cada paciente.
O psicólogo irá ajudá-lo a identificar e compreender os gatilhos emocionais e os
padrões de pensamento disfuncionais que contribuem para o seu transtorno alimentar.
Através de diferentes abordagens terapêuticas, como a terapia cognitivo-
comportamental, terapia familiar ou terapia de grupo, você aprenderá estratégias para
desafiar e modificar esses padrões, fortalecendo sua relação com a alimentação e com
seu próprio corpo. Além do tratamento individual, o psicólogo também pode indicar o
envolvimento em grupos de apoio, nos quais você poderá compartilhar experiências
com outras pessoas que estão passando por situações semelhantes. É importante lembrar
que o tratamento dos transtornos alimentares exige tempo, paciência e
comprometimento. Não há uma solução rápida ou milagrosa, mas com a orientação
adequada e o suporte de um profissional qualificado, é possível alcançar a recuperação e
reconstruir uma relação saudável com a comida e com o próprio corpo.
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