RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS:
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE
MARCADOR DE DIFERENÇAS
APRESENTAÇÃO
Seja bem-vindo (a) à terceira unidade da disciplina Educação e os Cenários
da Diversidade. O desafio que se segue é conhecer e refletir, nessa unidade, a valorização da
diversidade religiosa e as questões de preconceitos que a envolve, bem como discutir o papel da
escola no processo de aquisição do conhecimento, pelo aluno, de maneira significativa buscando
construir uma educação mais ética e com qualidade.
UNIDADE 3
Vamos aprofundar nossos conhecimentos utilizando as ferramentas da tecnologia.
Seu sucesso depende do desempenho de todos, dedicação e esforço.
Bom trabalho!
OBJETIVOS
• Conhecer as raízes do preconceito em relação as religiões afro-brasileiras, assim
como a influência desta na construção da identidade;
• Compreender a importância de promover uma educação contextualizada
ancorada no respeito a diversidade religiosa, de gênero, cultural, étnico-racial
e sexual.
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE RELIGIÕES: ALGUNS APONTAMENTOS
[Link]
Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este
direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, a liberdade de manifestar essa religião
ou crença, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
(Declaração Universal dos Direitos Humanos)
Fig. 14. [Link]
A religião é uma forma de convicção, fé, tradição, cultura. Cada uma tem suas
particularidades, o que torna o assunto complexo devido a sua diversidade. Oliveira (1995) explica
em uma concepção sociológica que a religião é vista como um fato universal, se encontra em toda
parte desde os tempos mais remotos. Sendo assim, cada pessoa tem o direito de escolha de sua
crença e mesmo de não proferir nenhuma.
Mesmo com todas as diferenças que existem entre as religiões, elas teoricamente
buscam a paz mundial, ou seja, todos os povos vivendo em harmonia e sem guerra e prezam o fazer
o bem ao próximo, buscando uma religação com Deus ou um Ser superior, com o objetivo de estar
em contato com um mundo espiritual, livre das mazelas humanas.
Para Chauí (1997), em sua concepção filosófica, a religião é um vínculo entre o
mundo profano e o mundo sagrado, ou seja, a Natureza – água, fogo, ar, animais, plantas, astros,
pedras, metais, terra, humanos – e as divindades que habitam a natureza ou um lugar separado
da natureza.
Assim, em diversas culturas, essa ligação é simbolizada no momento de fundação
de uma aldeia, vila ou cidade: o guia religioso traça figuras no chão (círculo, quadrado, triângulo)
e repete o mesmo gesto no ar (na direção do céu, ou do mar, ou da floresta, ou do deserto). Esses
dois gestos delimitam um espaço novo, sagrado (no ar) e consagrado (no solo). Nesse novo espaço
ergue-se o santuário (em latim, templum, templo) e à sua volta os edifícios da nova comunidade
(CHAUÍ, 1997).
A história da civilização desde os tempos mais remotos nos aponta que por meio da
sacralização e consagração, a religião cria a ideia de espaço sagrado. Os céus, o monte Olimpo (na
Grécia), as montanhas do deserto (em Israel), templos e igrejas são santuários ou moradas dos
deuses.
O espaço da vida comum separa-se do espaço sagrado: neste, vivem os deuses,
são realizadas as cerimônias de culto, oferendas, preces com pedidos às divindades (colheita, paz,
vitória na guerra, bom parto, fim de uma peste); no espaço comum transcorre a vida profana dos
humanos. A religião organiza o espaço e lhe dá qualidades culturais, diversas das simples qualidades
naturais.
Podemos perceber que a religião é um fenômeno que integra a identidade da maioria
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UNIDADE 3
das pessoas desde os primórdios da civilização, pois desde as antigas civilizações, existia o culto ao EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE
sobrenatural como algo de extrema importância, conforme afirma Oliveira (1995, p. 117) que cada
povo tem “sua cultura própria, tem seu culto ao sobrenatural como motivo de estabilidade social e
de obediência às normas sociais. [...] O homem procura algo sobrenatural que lhe transmita paz de
espírito e segurança. A religião sempre desempenha função social indispensável”.
Porém, para que a religião possa desempenhar essa função social, é necessário
que os seres humanos possuam liberdade para o exercício e a expressão religiosa, tendo liberdade
religiosa, que compreendemos como sendo a livre escolha de uma religião, que se agregue a grupos
religiosos que mais se identificam com sua fé, para que possam propagar seus ideais religiosos.
Contudo, percebemos que a religião é um fenômeno íntimo de cada pessoa e,
portanto, também é relativo, por ser subjetiva, não é estática e faz parte da identidade da pessoa.
Neste sentido, Bastos (1989, p.48) revela que não se pode negar que sobre “a espiritualidade e
o pensamento individual, interferem fatores sociais, econômicos, históricos e culturais que podem
facilitar ou dificultar a liberdade religiosa”. Assim, a religião também ajuda a caracterizar a sociedade
ou grupo social em que as pessoas estão inseridas.
Neste aspecto
Desde as antigas civilizações, percebe-se o culto ao sobrenatural como algo
importante, mostrando que o espírito de religiosidade acompanha o homem
desde os primórdios. Cada povo tem sua cultura própria, tem o culto ao
sobrenatural como motivo de estabilidade social e de obediência às normas
sociais. As religiões, as liturgias variam, mas o aspecto religioso é bem
evidente. O homem procura algo sobrenatural que lhe transmita paz de espírito
e segurança; A religião sempre desempenha função social indispensável.
(OLIVEIRA, 1995, p.117).
Ribeiro (2002, p.35) alude que
[...] a liberdade de crença, tem como marca nítida o seu caráter interior. Vai
da liberdade primeira do homem de poder orientar a sua fé, sua perspectiva
em relação ao mundo e à vida, a sua possibilidade de eleição dos valores
que reputa essenciais, sendo, pois, inalienáveis por natureza, mesmo quando
proibida legalmente, visto que a repressão ao direito e à tirania não podem
chegar ao ponto de cercear a fé que reside no interior do indivíduo, alcançando,
no máximo, a sua manifestação exterior.
Portanto, entendemos que a religião é uma atitude espiritual e os ritos que envolvem
sua prática são a demonstração interior do sujeito em relação a sua religião, isto é, da sua crença,
tendo este o direito de vivencia-la sem represália ou discriminação.
RELIGIÃO: A CONSTRUÇÃO DA DIFERENÇA
Praticamente todas as sociedades professam uma religião e transmitem a seus
descendentes estes valores religiosos, acreditando que é o meio para se ligar à Divindade. Neste
viés a sociedade brasileira tem uma mescla de religiões advindas da herança de nossa colonização e
dos diferentes povos que para cá migraram e cada qual expressa sua fé de acordo com sua crença.
Mas nem sempre no Brasil esta liberdade religiosa existiu, houve períodos de muita represália
quanto à expressão de uma religião que não fosse a católica.
A meta última da religião é o amor. Todas as religiões e crenças são consequentemente
válidas, e sua aceitação tem de ser baseada na liberdade e numa opção consciente e espontânea.
De outra forma, a religião não teria como meta o amor. (Induísmo).
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA Na sociedade brasileira, a liberdade de culto religioso, até por volta do período
DIVERSIDADE
republicano, sofreu perseguições pelo Estado e pela Igreja, estes impediam a manifestação de outra
crença contrária ao catolicismo sob os mais diversos argumentos, temendo a contestação à ideia de
um só Estado e uma só religião (RIBEIRO, 2002).
Monteiro e Almeida (2000) elucidam que o processo de separação entre o poder
secular e poder religioso no Brasil, sagrado pela Constituição de 1891, resultou na manutenção
da centralidade da Igreja Católica em detrimento as demais religiões e, o Código Penal Brasileiro,
desde 1890, contempla as práticas associadas ao candomblé e a umbanda como crimes contra a
credulidade popular.
Cabe observar que a Igreja Católica, juntamente com o Estado, deflagrou uma
campanha contra as religiões afro-brasileiras e contra o espiritismo até mais ou menos a década de
sessenta do século XX, e que ainda hoje repercute nas representações da sociedade em relação a
essas crenças e religiões.
Para refletir: Nenhum segmento religioso pode coagir alguém pela força ou ameaça
a aceitar ou mudar de crença religiosa [...] Todos os segmentos religiosos devem promover uma
cultura de Paz e ordem, trazendo benefícios à população em geral, especialmente aos menos
favorecidos. (Igreja Petencostal).
Neste sentido, encontramos um exemplo de intolerância religiosa na relação com
o candomblé e outras religiões de matriz africana. O sacrifício animal no candomblé e em outras
religiões afro-brasileiras tem sido considerado como sinônimo de barbárie pelos praticantes de
outros credos: trata-se, contudo, simplesmente, de uma forma específica para que homens e
mulheres entrem em contato com o divino, com os deuses – neste caso, os orixás - cada qual com
a sua preferência, no que diz respeito ao sacrifício (BRASIL, 2004).
Outras religiões pregam formas diversas de contato com o divino e condenam as
práticas do candomblé como “erradas” e “bárbaras”, ou como “feitiçaria”, a partir de seus próprios
preceitos religiosos.
O espiritismo kardecista, hoje praticado nas mais diferentes partes do Brasil, foi
durante muito tempo perseguido por aqueles que, adotando um ponto de vista católico ou médico.
Se boa parte dos/as brasileiros/as se define como católica, a realidade é que nosso país é constituído
por múltiplas crenças, pois até mesmo no interior do próprio catolicismo há diferentes práticas
religiosas, pois somos um país plural (BRASIL, 2004).
Neste contexto, Ribeiro (2002) reitera que gradativamente a interpretação restritiva
e opressora sobre a liberdade religiosa, foi sendo compreendida e aceita pelo viés de liberdade de
crença, havendo uma mudança significativa no campo religioso brasileiro.
A liberdade religiosa é tão importante para todos nós que está entre os direitos
fundamentais do homem, merecendo referência específica tanto na Declaração Universal dos
Direitos Humanos (artigo XVIII), assinada em 1948, quanto na Constituição Brasileira (artigo 5º,
inciso VI), promulgada em 1988.
Curiosidade: o primeiro evento inter-religioso oficial aconteceu ainda no século XIX,
em 1893, em Chicago, com a participação de líderes de apenas 16 religiões. Em 2004, em Barcelona,
já eram centenas as religiões presentes ao encontro promovido pelo Parlamento das Religiões do
Mundo. Além do Parlamento, também a Iniciativa das Religiões Unidas (URI) se dedica ao diálogo
inter-religioso no mundo, aos Direitos Humanos e à cultura da Paz, reunindo 88 tradições espirituais.
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UNIDADE 3
No artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal, declara-se ser “inviolável a liberdade EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE
de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na
forma da lei, proteção aos locais de culto e suas liturgias”.
O artigo supra citado é considerado de alta relevância e foi um dos modos de
consagração dentro da Constituição Brasileira do respeito aos valores individuais do cidadão. Além
disso, percebe-se uma modificação de paradigmas na sociedade mundial no que toca ao respeito às
diferenças e ao reconhecimento do denominado “Outro” (SKILAR, 2003). O “outro” é compreendido
como aquele que nunca esteve presente e para nós representa o diferente, isto é o “outro” é
diferente e mostra que está fora do lugar. Ao mesmo tempo, é através do outro que também nos
vemos diferente.
Assim, se a constituição garante a liberdade religiosa e de crença, as instituições
devem promover o respeito entre os “outros” praticantes de diferentes religiões, além de preservar
o direito do “outro” que não adota qualquer prática religiosa.
O artigo 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, prevista no texto
da Constituição de 1988, determina que a educação religiosa nas escolas públicas assegure “o
respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. Ou
seja: é obrigatório respeitar a liberdade religiosa do aluno; é proibido tentar convertê-lo para esta
ou aquela religião.
Ainda se tratando de legislação, o Código Penal Brasileiro, por sua vez, considera
crime (punível com multa e até detenção) zombar publicamente de alguém por motivo de crença
religiosa, impedir ou perturbar cerimônia ou culto, e ofender publicamente imagens e outros objetos
de culto religioso.
Contudo, segundo Brasil (2004), é comum encontrarmos crianças e adolescentes
que exibem com orgulho para seus/suas educadores/as os símbolos de sua primeira comunhão,
enquanto famílias que cultuam religiões de matriz africana são pejorativamente chamadas de
“macumbeiras”, sendo discriminadas por suas identidades religiosas.
O estereótipo funciona como um gerador que alimenta os preconceitos ao definir
a priori quem são e como são as pessoas. Sendo assim, o etnocentrismo se aproxima também do
preconceito, ou seja, antes de conhecer já definimos “o lugar” daquela pessoa ou grupo.
Para saber mais: Outro significado da palavra “conceito” é “juízo” e, assim sendo,
preconceito seria um “prejuízo” para quem o sofre, mas também para quem o exerce, pois não
entra em contato com o outro e/ou a outra.
Cabe ressaltar que o preconceito relativo às práticas religiosas afro-brasileiras está
profundamente arraigado na sociedade brasileira por essas práticas estarem associadas aos negros
e às negras, grupo historicamente estigmatizado e excluído. Os cultos afro-brasileiros sempre foram
considerados contrários ao “normal e natural” cristianismo europeu (BRASIL, 2004).
Neste sentido, os negros ao aportarem no Brasil, no período colonial, não lhes era
permitido cultuar sua religião livremente, pois a religião oficial era (é) o catolicismo. A proibição
fez com que os escravos associassem suas divindades aos santos católicos para professarem sua
religião de maneira camuflada tentando preservar sua cultura e valores da própria religião.
Você sabia que expressões culturais como o samba, a capoeira e o candomblé foram,
durante décadas, proibidos e seus praticantes perseguidos pela polícia?
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA As religiões afro-brasileiras, ainda na atualidade, de acordo com Brasil (2004),
DIVERSIDADE
enfrentam um profundo preconceito por parte de amplos setores da sociedade, pois há quem
considere o candomblé como uma “dança folclórica”, negando seu conteúdo religioso, como
também quem o caracteriza como uma “prática atrasada”. Em ambos os casos, seu caráter religioso
é negado e não é considerado ao nível de igualdade com outras práticas e crenças.
Neste contexto, o candomblé e a umbanda são religiões extremamente complexas,
são práticas rituais sofisticadas e fazem parte de um sistema mítico que da mesma forma que a Bíblia
explica a origem da humanidade, suas relações com o mundo natural e com o mundo sobrenatural.
Curiosidade: Cada um dos 16 orixás, entidades cultuadas em algumas religiões
afro-brasileiras corresponde a um ou mais santo católico. Nossa Senhora da Conceição se tornou
Iemanjá e São Sebastião tornou-se Oxóssi. Atualmente, ocorre um sincretismo religioso, ou seja, a
“mistura de religiões”. Como exemplo citamos na Bahia a Lavagem da Escadaria da Igreja do Senhor
do Bonfim.
Fig.15 Igreja do Senhor do Bonfim Fig.16 Lavagem da escadaria
A Lavagem das Escadarias Bonfim é considerada a segunda maior manifestação
popular da Bahia, perdendo apenas para o Carnaval. O ritual, que se repete todos os anos desde
1754, reúne milhares de pessoas e acontece sempre na segunda quinta-feira do mês de janeiro.
As transformações atuais no campo das religiões, segundo Oliveira (1995), em
especial às religiões afro-brasileiras, ganharam visibilidade social nas últimas décadas, isto ocorreu
devido aos movimentos sociais que possibilitaram a conquista de serem reconhecidas como religião.
De acordo com Brasil (2004), os grupos que compõem as religiões afro-brasileiras
possuem o conhecimento de um código – que se expressa por intermédio da religião – desconhecido
por outros setores da população. Enquanto códigos e expressões culturais de determinados grupos,
as diferentes religiões afro-brasileiras devem ser vistas com respeito. Observem as imagens de
rituais de religiões afro-brasileiras:
Fig.17 Fig.18
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE
Esta mistura de símbolos religiosos também é levada para a arte, literatura, música,
poesia entre outros. A seguir, uma música de Martinho da Vila que destaca este tema.
Sincretismo Religioso
Saravá, rapaziada! - Saravá!
Axé pra mulherada brasileira! - Axé!
Êta, povo brasileiro! Miscigenado,
Ecumênico e religiosamente sincretizado
Ave, ó, ecumenismo! Ave!
Então vamos fazer uma saudação ecumênica
Vamos? Vamos!
Aleluia - aleluia!
Shalom - shalom!
Al Salam Alaikum! - Alaikum Al Salam!
Mucuiu nu Zambi - Mucuiu!
Ê, ô, todos os povos são filhos do senhor!
Deus está em todo lugar. Nas mãos que criam, nas bocas que cantam, nos corpos que
dançam, nas relações amorosas, no lazer sadio, no trabalho honesto.
Onde está Deus? - Em todo lugar!
Olorum, Jeová, Oxalá, Alah, N`Zambi... Jesus!
E o espírito Santo? É Deus!
Salve sincretismo religioso! - Salve!
Quem é Omulu, gente? - São Lázaro!
Iansã? - Santa Bárbara!
Ogum? - São Jorge!
Xangô? - São Jerônimo!
Oxossi? - São Sebastião!
Aioká, Inaê, Kianda - Iemanjá!
Viva a no Nossa Senhora Aparecida! - Padroeira do Brasil!
Iemanjá, Iemanjá, Iemanjá, Iemanjá
São Cosme, Damião, Doum, Crispim, Crispiniano, Radiema...
É tudo Erê - Ibeijada
Salve as crianças! - Salve!
Axé pra todo mundo, axé
Muito axé, muito axé
Muito axé, pra todo mundo axé
Muito axé, muito axé
Muito axé, pra todo mundo axé
Energia, Saravá, Aleluia, Shalom,
Amandla, caninambo! - Banzai!
Na fé de Zambi - Na paz do senhor, Amém!
Nas últimas décadas, as religiões afro-brasileiras estão na pauta dos movimentos
sociais negros como um aspecto da construção da identidade negra. Assim, as religiões afro-
brasileiras se tornam componentes para a afirmação da identidade negra e para a sociedade
inclusiva. Estes componentes se tornam relevantes na promoção das políticas da igualdade racial.
Para saber mais sobre Promoção da Igualdade Racial acesse: [Link]
De acordo com Ribeiro (2002), mesmo com o aparato legal conferido pela
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA Constituição Federal, a liberdade religiosa não é efetivada plenamente devido a postura rígida
DIVERSIDADE
que algumas pessoas possuem em relação à religião. Neste caso, podemos citar como exemplo o
fundamentalismo religioso.
Tamayo (2004) explica que o fundamentalismo religioso se aplica a pessoas de
diferentes religiões que “possuem um sistema rígido de crenças religiosas, as quais sustentam
por textos revelados, definições dogmáticas e textos infalíveis” (p.74). Como exemplo podemos
citar os conflitos religiosos no Oriente Médio em que existe cerca de 19 países envolvidos em
duas grandes religiões: judaísmo e islamismo, e que recentemente tem-se mantido em crescente
conflitos misturando questões políticas e religiosas.
Curiosidade: Além do confronto entre Israel e Palestina, o principal e o maior deles é
em relação a posição do Islã na região. Os fundamentalistas não se delimitam a um país, o objetivo
deles é transformar Estados do oriente Médio em teocracia, ou seja considera Deus como o único
soberano. Neste regime, o controle político está a cargo dos líderes religiosos, ocorrendo uma fusão
entre Igreja e Estado.
Segundo o autor, estas religiões fundamentalistas se remetem à tradição, isto é,
algo é transmitido, é dito como mito, nos costumes e nos textos, dando força e caracterização às
comunidades locais devido aos ensinamentos disseminados aos seus integrantes.
Giddens (1997) esclarece que esses ensinamentos são incorporados à vida das
pessoas, muitas vezes, sem questionamento, excluindo assim, a possibilidade de mudança de visão
a respeito desses ensinamentos. Isto dificulta o entendimento de outra religião que não a sua,
gerando preconceitos em relação não só a religião, mas a demais coisas do mundo.
Estas formas de preconceito podem gerar intolerância e preconceitos que por sua
vez também podem gerar o discurso do ódio. Compreendemos, portanto, que muitas pessoas ou
até movimentos religiosos, podem involuntariamente defender seus conceitos religiosos, por meio
do ódio. Isto dificulta o convívio social em um mundo caracterizado por diversidade de toda ordem.
MULTICULTURALIDADE: A VALORIZAÇÃO POR MEIO DA
EDUCAÇÃO
Atualmente muito se discute sobre a questão da multiculturalidade. Entretanto, as
questões de gênero, religião, etnia racial e cultural, muitas vezes, são tratadas como tabu no espaço
escolar.
Para se viver democraticamente em uma sociedade multicultural é preciso conhecer
e respeitar as diferentes culturas que a constituem. Neste aspecto, o ambiente escolar é espaço
privilegiado para promover o conhecimento e a valorização da trajetória dos diferentes grupos
sociais existentes em nossa sociedade, e desta forma buscar a superação de atitudes de intolerância
em relação ao outro e às diferenças culturais.
Você Sabia? O Estado brasileiro é laico, plural e democrático, tendo assim que tratar
todos e todas com igualdade, sem considerar sua crença religiosa, seu gênero e sua condição
econômica. A laicidade do Estado se institui como mecanismo democrático, pressuposto e garantia
da liberdade de religião, filosofias, crenças, opiniões e convicções e de que todas as religiões possam
conviver em igualdade.
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA
DIVERSIDADE
[Link]
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Reconhecer a complexidade que envolve a problemática social, cultural e étnica é o
primeiro passo que a escola precisa dar na busca do sucesso da boa convivência e do processo de
ensino e aprendizagem (BRASIL, 1997).
O espaço escolar é local de convivência entre pessoas de diferentes origens, com
costumes e crenças diferentes, com visões de mundo também diferentes que compartilham com
suas famílias. Neste contexto, é imprescindível conhecer as fontes, os fatos e as relações que
contribuem
Assim, o processo de ensino e aprendizagem chamado por Schön (2000) de coach
em que o professor não se limita à transmissão do conhecimento, mas reconhece e valoriza o
conhecimento do aluno, em geral baseado nas vivências pessoais e tradições e que determinam,
entre outros fatores, o interesse, a sensibilidade, as habilidades e sua aprendizagem escolar,
tornando assim a aprendizagem significativa para ele.
Dessa forma, o professor pode estimular a reativação dos conhecimentos prévios
dos alunos e estimular a reflexão sobre eles, buscando contribuir para que desenvolvam conceitos
mais próximos dos que eles aceitam.
Neste sentido, Ausubel (2003, p.85) conceitua conhecimento prévio como
aquele caracterizado como “declarativo, mas pressupõe um conjunto de outros conhecimentos
procedimentais, afetivos e contextuais, que igualmente configuram a estrutura cognitiva prévia do
aluno que aprende”.
Entendemos que a aprendizagem significativa requer o conhecimento prévio de que
o aluno dispõe, à predisposição para aprender, ou seja, uma prática pedagógica contextualizada
com material e as estratégias adequadas. Para Zabala (2002, p.28) a atuação pedagógica com
um enfoque significativo pressupõe que os conteúdos de aprendizagem são “sempre meios para
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UNIDADE 3
EDUCAÇÃO E OS CENÁRIOS DA conhecer ou responder a questões que uma realidade experiência dos alunos proporciona: realidade
DIVERSIDADE
que é sempre global e complexa (2002, p. 28).
Neste sentido, Moreira (2003), destaca que o significado, a interação, o conhecimento
e a linguagem que o expressa, são conceitos fundamentais para a caracterização da aprendizagem
significativa, pois a linguagem permite o desenvolvimento e a transmissão de significados
compartilhados. Portanto, cabe ao professor possibilitar a troca de informação prévia entre ele seus
alunos, assim como viabilizar a pesquisa científica na busca de agregar novos conhecimentos no
decorrer do processo de ensino e aprendizagem.
Para refletir: O multiculturalismo é um termo polissêmico que engloba desde
visões mais liberais ou folclóricas, que tratam da valorização da pluralidade cultural, até visões
mais críticas, cujo foco é o questionamento a racismos, sexismos e preconceitos de forma geral,
buscando perspectivas transformadoras nos espaços culturais, sociais e organizacionais (CANEM;
OLIVEIRA, 2002).
Neste processo, cabe, sobretudo ao professor que faz a mediação entre o conteúdo
e o currículo, estabelecer parâmetros e caracterizar conceitos, procedimentos, valores e atitudes e
o que julgar fundamental para alcançar o objetivo estabelecido para o ensino e a aprendizagem, no
que concerne a superação de tabus, preconceitos e discriminação referente à diversidade cultural.
Para tanto, se faz necessário que os professores desafiem seus alunos/as a refletir e
investigar as questões relacionadas com a vida e a cultura dos grupos mais próximos do contexto a
que pertencem, enfatizando a importância de conhecer e valorizar as diferenças.
Dessa forma, o aluno se sentirá incluído na escola, mais interessado e seguro em seu
processo de ensino e aprendizagem, o que e lhe permitirá se posicionar frente às situações do seu
cotidiano superando preconceitos e discriminação em relação à diversidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Olá, nessa unidade vocês conheceram um pouco sobre a construção do preconceito
em relação a religião, principalmente, as afro-brasileiras. Puderam refletir também sobre a
relevância da contextualização da educação na busca do sucesso do ensino e aprendizagem do
aluno. Portanto, se faz necessário que você aluno busque conhecer mais a respeito destas temáticas
e seus desdobramentos para compreender o porquê da construção preconceituosa existente
às diversidades religiosas. Lembrem-se que a abordagem destes temas na escola são de suma
importância para a construção do espaço escolar democrático e livre de preconceitos. Lembrem-se
também que por meio da aprendizagem significativa podemos entender melhor estas questões e
gradativamente vencermos a barreira do preconceito rumo ao exercício da cidadania.
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• O nome da Rosa (1986)
• O menino do pijama listrado (2008)
• Gonzales: falsos profetas (2014)
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
FFCL DE ITUVERAVA - FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE ITUVERAVA 51