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Estudos Surdos

O livro 'Estudos Surdos' aborda aspectos históricos, culturais, pedagógicos e sociais que influenciam a pesquisa sobre a comunidade surda, enfatizando a importância dos surdos como agentes de pesquisa. Com três unidades, o material discute a constituição da identidade surda, a inserção social e educacional, e as perspectivas futuras de pesquisa neste campo. O objetivo é promover uma compreensão mais ampla sobre a surdez e suas implicações na sociedade.

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Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Estudos Surdos

O livro 'Estudos Surdos' aborda aspectos históricos, culturais, pedagógicos e sociais que influenciam a pesquisa sobre a comunidade surda, enfatizando a importância dos surdos como agentes de pesquisa. Com três unidades, o material discute a constituição da identidade surda, a inserção social e educacional, e as perspectivas futuras de pesquisa neste campo. O objetivo é promover uma compreensão mais ampla sobre a surdez e suas implicações na sociedade.

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Estudos Surdos

Prof. Cristian Hernando Sardo da Cunha


Prof.a Mariana Correia

Indaial – 2021
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2021

Elaboração:
Prof. Cristian Hernando Sardo da Cunha
Prof.a Mariana Correia

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

C972e

Cunha, Cristian Hernando Sardo da

Estudos surdos. / Cristian Hernando Sardo da Cunha; Mariana


Correia. – Indaial: UNIASSELVI, 2021.

240 p.; il.

ISBN 978-65-5663-443-2
ISBN Digital 978-65-5663-444-9

1. Língua de sinais. - Brasil. I. Correia, Mariana. II. Centro


Universitário Leonardo da Vinci.

CDD 371.912
Impresso por:
Apresentação
Prezado acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático de Estudos
Surdos. Neste material estudaremos alguns dos aspectos históricos,
culturais, pedagógicos e sociais que influenciaram e continuam a influenciar
o desenvolvimento do campo de pesquisa dos Estudos Surdos. Deste modo,
o objetivo deste livro didático é apresentar as bases sobre as quais se deu o
desenvolvimento e ampliação da pesquisa feita pelos surdos e não sobre os
surdos, ou seja, a pesquisa em que as pessoas que fazem parte da comunidade
surda não são apenas objetos, mas também são os agentes pesquisadores.

Na Unidade 1, nós veremos os aspectos que historicamente


participaram da constituição das compreensões da surdez e, por extensão, dos
surdos. Este estudo é necessário porque precisamos entender a partir de que
contexto social, histórico, político, educacional e laboral se deu o surgimento
e desenvolvimento dos Estudos Surdos como campo de pesquisa. Assim,
nesta unidade serão estudados os elementos que estimularam as percepções
sobre a surdez e os surdos ao longo do tempo, tais como os movimentos
históricos e sociais que influenciaram a constituição das comunidades
surdas; os modos como se deram as inserções dos surdos na sociedade
através das discussões sobre representatividade, trabalho e o uso da língua
de sinais; por fim, discutiremos os tópicos vinculados à educação dos surdos
e sua inserção como docentes nas instituições de ensino. Dessa maneira, a
Unidade 1 aborda, brevemente, aquilo que precedeu e fomentou as inserções
sociais, históricas e educacionais que resultaram no desenvolvimento dos
Estudos Surdos dentro da linha dos Estudos Culturais em Educação.

Na Unidade 2 serão examinadas as questões de formação da


identidade surda a partir dos contextos familiares e culturais, de modo a
compreender os elementos específicos da formação identitária que trouxeram
à baila as discussões sobre surdez, feitas pelas pessoas que constituem
a comunidade surda e o povo surdo. Assim, nesta unidade, veremos os
tópicos sobre a constituição da identidade em geral e da identidade surda
em específico. Retomaremos estereótipos e perspectivas sobre a surdez;
também discutiremos alguns dos processos familiares que estão envolvidos
na composição das identidades e características da comunidade e do povo
surdo; por fim, serão feitas as discussões sobre a delimitação e a perspectiva
dos Estudos Surdos dentro dos Estudos Culturais em Educação. Além disso,
veremos como o campo de pesquisa se expandiu para o desenvolvimento
de estudos e pesquisas nos mais diversos campos em que os surdos estão
inseridos como protagonistas e pesquisadores em parceria com os ouvintes
que fazem parte da comunidade surda.
Para encerrar este livro didático, na Unidade 3 serão trazidas as
perspectivas de estudos a partir do campo de pesquisa dos Estudos Surdos.
Deste modo, a unidade tem como objetivo comentar, apresentar e discutir
artigos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses inseridos nas
pesquisas em Estudos Surdos referentes às áreas de Educação e Linguística.
Desta forma, nós faremos um apanhado de temas e assuntos que são
abordados nestas áreas no campo de pesquisa dos Estudos Surdos. No final
da Unidade 3 serão discutidos temas atuais que poderão servir de objeto de
estudos futuros em surdez, tais como, a presença de intérpretes em lives,
apresentações musicais e outras expressões artísticas, televisionadas ou on-
line; notícias, máscaras e o acesso à informação durante a pandemia; inclusão,
escolas fechadas e surdez; e, ao fim, produções culturais surdas. Desta forma,
a unidade pretende apresentar, brevemente, trabalhos existentes na área e
apontar temáticas para estudos futuros.

Você vai perceber que este livro trará várias referências a diversos
materiais de pesquisa e consulta, isso porque, para poder estudar e ampliar
seu conhecimento sobre o campo de pesquisa dos Estudos Surdos, duas
coisas são necessárias: sintetizar a base de conhecimentos que fizeram com
que se chegasse a esta compreensão dos estudos culturais e a clareza quanto
às possiblidades de pesquisa dentro deles. Assim, ao longo do livro serão
colocados materiais, sugestões e exemplificações para o aprofundamento
das discussões e estudos realizados.

Bons estudos e boa leitura!

Prof.a Mariana Correia


Prof. Cristian Hernando Sardo da Cunha
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.

Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.

Bons estudos!

UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!
LEMBRETE

Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela


um novo conhecimento.

Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro


que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares,
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.

Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!


Sumário
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ.......... 1

TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE


COMUNIDADES SURDAS......................................................................................... 3
1 INTRODUÇÃO..................................................................................................................................... 3
2 HISTÓRICO DAS PERCEPÇÕES SOBRE A SURDEZ................................................................. 4
3 A COMPREENSÃO SOCIAL DE DEFICIÊNCIA E SURDEZ..................................................... 6
4 POLÍTICAS PÚBLICAS E SURDEZ............................................................................................... 10
5 A RELEVÂNCIA DAS COMUNIDADES SURDAS PARA O POVO SURDO..................... 15
5.1 AS DEFINIÇÕES DE COMUNIDADE SURDA E POVO SURDO......................................... 15
5.2 AS VIVÊNCIAS EM COMUNIDADE E O ACOLHIMENTO AO POVO SURDO.............. 17
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 21
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 23

TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE


TRABALHO E LÍNGUA.............................................................................................. 27
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 27
2 O PODER E O PAPEL DA LÍNGUA NAS COMPREENSÕES SOBRE SURDEZ................. 28
3 DIREITOS LINGUÍSTICOS E A APROPRIAÇÃO DA LÍNGUA E DA ESCRITA
PELOS SURDOS................................................................................................................................. 32
3.1 LÍNGUA COMO PROBLEMA, DIREITO E RECURSO........................................................... 34
3.2 DIREITOS LINGUÍSTICOS INDIVIDUAIS............................................................................... 34
3.3 DIREITOS LINGUÍSTICOS COLETIVOS.................................................................................. 36
3.4 DIREITOS LINGUÍSTISCOS DOS SURDOS.............................................................................. 36
3.5 DIREITOS LINGUÍSTICOS E ESCOLARIZAÇÃO DE SURDOS........................................... 38
4 REPRESENTATIVIDADE SURDA NA SOCIEDADE................................................................ 40
5 TRABALHO, CONSUMO E SURDEZ........................................................................................... 49
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 56
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 58

TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ........................................... 59


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 59
2 PROPOSTAS EDUCACIONAIS PARA ATENDIMENTO AOS SURDOS............................ 59
2.1 ESCOLAS DE MODELO ORALISTA......................................................................................... 61
2.2 MODELO BIMODALISTA........................................................................................................... 62
2.3 A INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS NAS INSTITUIÇÕES REGULARES........................ 63
2.4 MODELO BILÍNGUE.................................................................................................................... 65
3 LIBRAS NAS UNIVERSIDADES.................................................................................................... 67
4 INSERÇÃO DE PROFESSORES SURDOS NAS INSTITUIÇÕES.......................................... 70
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 72
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 75
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 77

REFERÊNCIAS....................................................................................................................................... 79
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E
ESTUDOS CULTURAIS.........................................................................................................83

TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA.................................................. 85


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 85
2 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE........................................................................................... 85
3 IDENTIDADES SURDAS................................................................................................................. 90
3.1 IDENTIDADE SURDA.................................................................................................................. 93
3.2 IDENTIDADE SURDA HÍBRIDA............................................................................................... 96
3.3 IDENTITADE SURDA FLUTUANTE......................................................................................... 97
3.4 IDENTIDADE SURDA EMBAÇADA......................................................................................... 98
3.5 IDENTIDADE SURDA DE TRANSIÇÃO.................................................................................. 98
3.6 IDENTIDADE SURDA DE DIÁSPORA..................................................................................... 99
3.7 IDENTIDADES SURDAS INTERMEDIÁRIAS....................................................................... 100
4 “DUPLA DIFERENÇA” E SURDEZ.............................................................................................. 103
RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 106
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 108

TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ................... 111


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 111
2 QUESTÕES SOBRE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM E SURDEZ........................................ 112
3 O PAPEL SOCIAL DA FAMÍLIA................................................................................................... 117
4 OS SURDOS FILHOS DE PAIS OUVINTES.............................................................................. 119
5 CODAS: OS OUVINTES FILHOS DE PAIS SURDOS............................................................. 126
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 131
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 133

TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS


CULTURAIS................................................................................................................ 135
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 135
2 AFINAL, O QUE É CULTURA?...................................................................................................... 136
3 ELEMENTOS QUE CARACTERIZAM A CULTURA SURDA............................................... 138
4 OS ESTUDOS CULTURAIS COMO LUGAR DOS ESTUDOS SURDOS........................... 143
LEITURA COMPLEMENTAR........................................................................................................... 146
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 149
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 151

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................... 154

UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS........... 159

TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS................................................................. 161


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 161
2 DESENVOLVIMENTO DO CAMPO DE PESQUISA............................................................... 162
3 PESQUISADORAS BRASILEIRAS NO CAMPO DOS ESTUDOS SURDOS.................... 165
4 COLEÇÃO ESTUDOS SURDOS................................................................................................... 174
RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 181
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 182

TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS.................................... 185


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 185
2 INTERDISCIPLINARIDADE EM ESTUDOS SURDOS.......................................................... 186
3 ESTUDOS SURDOS: PERSPECTIVAS DE PESQUISA........................................................... 191
3.1 LINGUÍSTICA.............................................................................................................................. 192
3.2 EDUCAÇÃO................................................................................................................................. 197
3.3 ESTUDOS CULTURAIS.............................................................................................................. 202
4 REVISTAS, PERIÓDICOS E FONTES DE PESQUISA............................................................. 203
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 206
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 208

TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS........... 211


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 211
2 AS LIVES EM TEMPOS DE PANDEMIA: ENTRETENIMENTO E DIVULGAÇÃO
DE TEMÁTICAS SURDAS............................................................................................................. 212
2.1 AS LIVES DE ENTRETENIMENTO E A PRESENÇA DO INTÉRPRETE........................... 213
2.2 AS LIVES PARA DIVULGAÇÃO DE TEMAS SURDOS....................................................... 218
3 NOTÍCIAS, MÁSCARAS E ACESSO À INFORMAÇÃO........................................................ 220
4 ENSINO NÃO PRESENCIAL E A SURDEZ EM TEMPOS DE PANDEMIA....................... 225
LEITURA COMPLEMENTAR........................................................................................................... 228
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 231
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 233

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................... 235
UNIDADE 1 —

HISTÓRICO DE COMPREENSÕES
SOBRE O SURDO E A SURDEZ
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• apresentar um breve histórico das percepções sociais sobre a surdez e


discutir a compreensão da sociedade sobre a surdez e o surdo;
• avaliar o papel das instituições de surdos para a constituição da
comunidade surda;
• perceber quais são os elementos definidores da comunidade surda e do
povo surdo;
• discutir o papel da língua de sinais como elemento importante nas
definições sobre surdez;
• apontar elementos referentes à aquisição da língua e da escrita pelos surdos;
• debater elementos sobre direitos linguísticos de grupos minoritários,
representatividade surda, mercado de trabalho, consumo e surdez;
• retomar aspectos educacionais referentes à surdez, bem como métodos
de ensino e inserção de professores surdos nas instituições de ensino.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE


COMUNIDADES SURDAS

TÓPICO 2 – INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO


DE TRABALHO E LÍNGUA

TÓPICO 3 – O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

1
2
TÓPICO 1 —
UNIDADE 1

MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO
ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES
SURDAS

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico! Seja bem-vindo ao início de nossa jornada.
Começaremos este tópico discutindo alguns dos aspectos que fazem parte da
história e das vivências das pessoas surdas ao longo da História da humanidade.
Depois, nós discutiremos brevemente as concepções sociais que perpassam a
visão do deficiente auditivo e do surdo dentro do contexto de pertencimento
ou não a uma sociedade que enxerga de modo distorcido as pessoas que não se
enquadram num mundo de maioria ouvinte.

Também serão debatidas algumas das políticas públicas que fizeram e


fazem referência aos surdos, de modo a compreender como o nosso país percebeu
e percebe os surdos a partir da lente das leis, institutos e modos de proteção ou
compreensão do surdo como parte do povo brasileiro, mesmo que não utilizando
a língua majoritária para comunicação. Na continuidade, nos debruçaremos sobre
o papel das associações de apoio, amparo e socialização na criação e manutenção
de comunidades surdas.

Por fim, estudaremos os conceitos de comunidade e povo surdo de maneira a


compreender que eles trazem aproximações e distanciamentos importantes para
as delimitações a seguir sobre a identidade surda.

É necessário que sejam retomadas estas questões para que, ao longo


deste livro didático, fique claro como cada um destes aspectos teve seu papel na
compreensão que se delimitou para o desenvolvimento de Estudos Surdos. Ou
seja, é preciso estudar, mesmo que brevemente, elementos que fizeram com que
os surdos ganhassem projeção em suas lutas, espaço nas instituições e papel de
protagonismo nos estudos sobre si.

3
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

NOTA

Neste livro didático foram inseridos QRcodes para facilitar o acesso aos
links externos sugeridos ao longo do texto, para acessar os conteúdos, fazer a leitura do
código com a câmera de seu smartphone através de qualquer um dos Apps leitores de
QRcode disponíveis.

2 HISTÓRICO DAS PERCEPÇÕES SOBRE A SURDEZ


A História é sempre escrita por aqueles que têm mais poder, seja econômico,
social ou até mesmo linguístico, ou seja, os registros que chegam até os tempos
atuais, normalmente são aqueles feitos pelas pessoas que detinham o poder de
fazer estes registros. Deste modo, normalmente, temos maior acesso àquilo que
as pessoas com maior domínio da escrita e das maneiras de registro escolheram
manter e passar adiante, por isso, a maioria dos registros existentes dão conta da
História vinculada à visão ouvinte sobre o mundo e os acontecimentos.

Logo, as demais pessoas que fazem parte deste mesmo mundo, porém
em menor número, acabam aparecendo apenas através da compreensão que a
maioria tem sobre as minorias. Devido a isso, a professora Karin Strobel (2008a)
coloca que o passado, o presente e o futuro do surdo são controlados pela visão dos
sujeitos ouvintes, numa relação de poder em que o colonizador ouvinte dominou
ao longo de muitos séculos as lentes sobre as quais os surdos seriam registrados,
avaliados e percebidos pela história oficial, a autora continua a compreensão de
colonização ao destacar que os surdos acabaram por suportar massacres físicos,
torturas, tormentos e o papel de cobaias para muitos experimentos médicos.

Em outras palavras, Strobel (2008) faz um paralelo entre os colonizadores


que chegam a uma terra já habitada por outro povo e dominam, massacram
e torturam para fazer com que esse povo seja regrado a partir das regras
do dominador. Assim, a professora traz à baila uma percepção de violência
e dominação ouvinte sobre a história dos surdos que faz com que haja um
apagamento dos contextos surdos ao longo da história oficial.

Apesar desse contexto, Strobel (2008a, p. 13) destaca que:

Os sujeitos surdos existem em todos os tempos, o nosso estilo


[surdo] de compartilhar os interesses semelhantes e a língua de
sinais é tão antigo quanto o mundo. Deixamos traços abundantes,
marcas diferentes, mas dispersas, pois muitas ocorrências nem foram
tomadas como objeto a serem representadas em história e, entretanto,
nossas histórias permanecem ainda adormecidas esperando para
serem despertas.

4
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

Assim, a professora chama a atenção para a existência dos sujeitos


surdos ao longo da história e como a história oficial os deixam fora da história,
mas que também podem ser encontrados vestígios, partes, ocorrências a serem
descobertas. Desta maneira, os surdos são vistos como partícipes da história que
tiveram suas histórias não destacadas, mas que estão postas ao longo do tempo
através de vestígios dentro da história oficial.

DICAS

Prezado acadêmico! Como você pôde ler acima, não entramos em detalhes
quanto a uma linha do tempo específica da história dos surdos, pois este não é objetivo
do livro de estudos, que você tem em mãos. Caso queira se aprofundar com mais detalhes
em períodos históricos e acontecimentos, a professora Karin Strobel et al. (2011, s.p.)
disponibilizou um Cronograma da História dos Surdos feito por seus alunos de graduação
da UFSC em seu blog “Vamos mudar a realidade surda”. Este material é bastante abrangente,
pois vai desde 300 a.C. até o ano de 2011, por isso, é um material interessante para acesso
rápido a informações relevantes sobre a história dos surdos. A seguir está colocado o
primeiro dos dezessete slides do cronograma para que você tenha noção de como as
informações estão colocadas no material disponibilizado pela professora. O endereço para
acesso aos demais slides é o seguinte:
[Link]

5
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

FIGURA 1 – INÍCIO DO CRONOGRAMA DA HISTÓRIA DOS SURDOS

FONTE: Strobel et al. (2011, s.p.)

3 A COMPREENSÃO SOCIAL DE DEFICIÊNCIA E SURDEZ


Mesmo que de modo minoritário e não registrado na História oficial,
os surdos são um grupo que está em constante contato dentro da sociedade em
que vivem as pessoas ouvintes. Deste modo, a percepção que os ouvintes, como
maioria dentro da mesma sociedade em que a minoria surda está inserida, tem
peso e importância na percepção que os próprios surdos têm de si.

Isso porque a nossa visão sobre nós mesmos é moldada por inúmeros
atravessamentos nos quais a percepção do outro sobre nós também é relevante. Ou
seja, a percepção que o grupo dos surdos tem sobre si é perpassada pela visão que
a sociedade, majoritariamente ouvinte, tem sobre os surdos, pois é sob o olhar do
outro que nosso olhar sobre nós mesmos também se constitui.

Em uma compreensão que relaciona a compreensão social dos ouvintes e


dos surdos dentro da história Sá (2006, p. 3) destaca que:

6
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

Em síntese, a história dos surdos, contada pelos não surdos, é mais


ou menos assim: primeiramente os surdos foram “descobertos”
pelos ouvintes, depois eles foram isolados da sociedade para serem
“educados” e afinal conseguirem ser como os ouvintes; quando
não mais se pôde isolá-los, porque eles começaram a formar grupos
que se fortaleciam, tentou-se dispersá-los, para que não criassem
guetos. A história comum dos surdos é uma história que enfatiza a
caridade, o sacrifício e a dedicação necessários para vencer “grandes
adversidades”. A história tradicional enfatiza que os resultados
apresentados geralmente são pequenos, mas são enobrecidos pelos
esforços dispendidos para consegui-los.

Neste trecho, Sá (2006) destaca um resumo da história dos surdos narrada


pelos ouvintes em que os passos são: descoberta, isolamento, dispersão, esforço
enorme e resultados pobres. Dessa maneira, Sá (2006) chama a atenção para um
outro aspecto da relação entre surdos e não surdos (ouvintes), aqueles em que os
primeiros são tidos como as pessoas que necessitam de auxílio e supervisão para
se tornarem membro da sociedade. A autora também destaca a noção de que são
necessários grandes esforços para pequenos avanços, sempre partindo da história
tradicional em que os resultados atingidos são pequenos, mas valem a pena pelo
esforço para atingi-los.

Em outras palavras, a autora nos apresenta a concepção de que para o


surdo ser parte da sociedade, na visão da história tradicionalmente narrada,
sempre é necessária a intervenção do não surdo e mesmo que os avanços em
direção a uma norma estabelecida sejam poucos são mais importantes do que ser
uma pessoa socialmente isolada, um exemplo disso, é a insistência na oralização
e na leitura labial, processos pouco eficientes e práticos para os surdos, mas
enaltecidos quando alguém consegue fazê-los com certa correção.

Nesta perspectiva, é importante trazer à discussão aquilo que Sá (2006,


p. 3) coloca sob o título de “As expectativas sociais para com os surdos” em que:

[...] a sociedade vê a surdez como uma deficiência que futuramente


há de ser abolida através dos “consertos” neurocirúrgicos prometidos
pela pesquisa médica, ou pela engenharia genética, ou pela
prevenção a doenças (principalmente as que surgem mais nas classes
desfavorecidas). O aparecimento da surdez muitas vezes é visto como
um mal, um contágio, resultante das más condições sanitárias da
classe desfavorecida ou da falta de cuidados familiares ou médicos,
ou mesmo como uma fatalidade, como “castigo, punição, ou situação
a que se estaria exposto pela purgação de culpas, da própria pessoa ou
dos que a cercam” (Sá; Ranauro, 1999, p. 59).
É mais difícil ver citado o fato de que os surdos surgem aleatoriamente
nas sociedades. É certo que cada surdez e cada surdo têm uma história
pessoal, como a tem qualquer pessoa, mas, geralmente a surdez é
encarada de maneira pejorativa, como fruto uma falha, uma culpa,
uma pobreza, uma fatalidade. Na verdade, sabe-se que a surdez
estritamente genética é bastante incomum, mas cientistas afirmam que
25% da população humana carregam o gen da surdez.

7
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Logo, a autora continua dando destaque à visão social de que a surdez


seria, para a sociedade majoritariamente ouvinte, a ausência da audição, uma
fatalidade, algo a ser evitado a todo custo cirúrgico, genético ou preventivo. Dito
de outro modo, a sociedade vê o surdo como alguém que não tem algo, a audição,
e precisa ter modo de obter este algo ou um simulacro disso para ser integrado à
sociedade. Um símbolo desta percepção sobre o surdo é, também, a denominação
generalizada de “surdo-mudo” ou “mudinho”, ainda muito utilizada e difundida
em grande parte da população que desconhece ou não compreende as diversas
formas como a surdez pode ser vivenciada.

Inserida na mesma linha de percepção apresentadas por Sá (2006), Strobel


(2008a) elabora um quadro em que compara as percepções históricas sobre os
surdos a partir de três aspectos: o historicismo, ou seja, aquilo que é referido
na História; a História camuflada, em outras palavras, o que está inserido nas
entrelinhas da percepção historicamente aceita e, por fim, a História Cultural,
isso quer dizer, a História que leva em conta a percepção cultural do povo sobre
o qual a História geral tem apenas uma visão parcial.

QUADRO 1 – COMPARATIVO ENTRE HISTORICISMO, HISTÓRIA CAMUFLADA


E HISTÓRIA CULTURAL

Historicismo História camuflada História cultural


Os surdos narrados como
Os surdos narrados como
Os surdos narrados como ‘coitadinhos’ que precisam
sujeitos com experiências
deficientes e patológicos. de ajuda para se promover,
visuais.
se integrar.
Os surdos são categorizados Os surdos têm capacidade, As identidades surdas são
em graus de surdez. mas são dependentes. múltiplas e multifacetadas.
A educação como caridade,
A educação deve ter um A educação de surdos
os surdos ‘precisam’ de ajuda
caráter clinico-terapêutico e deve ter consideração à
para apoio escolar, porque tem
de reabilitação. diferença cultural.
dificuldades de acompanhar.
A língua de sinais é a
A língua de sinais é A língua de sinais é usada manifestação da diferença
prejudicial aos surdo. como apoio ou recurso. linguística-cultural relativa
aos surdos.

FONTE: Strobel (2008a, p. 78)

Ao lermos o comparativo estabelecido no Quadro 1, fica evidente


um entendimento histórico da surdez como uma capacidade reduzida, uma
dificuldade a ser superada e um problema médico. Já na perspectiva da História
Cultural, o tratamento é de respeito às diferenças e multiplicidades de percepção
dos surdos, bem como a compreensão cultural múltipla e não excludente, dito
de outro modo, a compreensão cultural evidencia um respeito às vivências
específicas, não pretendendo o apagamento das características culturais, vendo
o surdo como um indivíduo complexo e completo em si, sem a necessidade de
se estabelecer uma norma, quase sempre inatingível para ser alcançada por eles.

8
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

Estes modos de compreender o surdo marcam todas as formas como são


pensadas as políticas públicas, a educação, a inserção e a percepção do surdo
enquanto cidadão que vive dentro de uma sociedade que o enxerga não como
alguém capaz, mas como alguém que necessita de auxílio para se tornar capaz.
Ou seja, apenas com a modificação da compreensão da história na perspectiva
cultural é que poderão ser repensados os modelos de ensino, aprendizagem,
inserção social e inserção no mercado de trabalho para o povo surdo.

Logo, a visão da história cultural dos surdos é de extrema importância para


que a sociedade modifique sua percepção histórica e social em relação aos surdos.
Por isso, os Estudos Surdos dentro da perspectiva dos Estudos Culturais são muito
necessários para as discussões em estudo e pesquisa dentro das instituições.

DICAS

A tese da professora surda Karin Strobel tem o título de “Surdos: vestígios


culturais não registrados na história”, foi defendida em 2008, e apresenta muitas reflexões,
informações, histórias e percepções importantes para as discussões que serão efetuadas
neste livro didático, vale a pena a leitura. Leia a seguir uma parte do resumo apresentado
pela autora:

RESUMO

A presente pesquisa consiste em um estudo empregando


procedimento das análises narrativas e pesquisas teóricas
etnografias que possibilitou a coleta de dados sobre a cultura do
povo surdo. Nas análises narrativas possibilitou a reflexão sobre as
práticas ouvintistas nas escolas de surdos e resistências do povo
surdo contra esta prática, procurando resgatar a cultura surda na
história. Nas pesquisas teóricas observou-se o papel fundamental da
língua de sinais, o reconhecimento da cultura surda e a construção
de sua identidade. Estas metodologias ressaltam a importância da
participação dos povos surdos para a construção da história cultural
(STROBEL,2008a, p. 10).

Você pode ter acesso à íntegra da tese no seguinte endereço:


[Link]

QRCODE 1 - LINK PARA TESE STROBEL (2018)

9
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

4 POLÍTICAS PÚBLICAS E SURDEZ


É necessário termos em mente que as políticas públicas em surdez
são permeadas pela visão histórica e social tida sobre os surdos, desta forma,
nenhuma das políticas que trouxeram direitos à comunidade e ao povo surdo
forma resultado apenas da boa vontade social ou política, mas também, e
principalmente, são frutos de muitas lutas das lideranças surdas, das associações
e instituições que têm uma percepção de inserção social do surdo como parte
da população que tem características culturais próprias, como diversos outros
grupos sociais.

Além disso, as Políticas Públicas refletem as percepções sociais sobre as


normas sobre as quais elas versam, dito de outro modo, ao se analisar as leis
é possível observar qual a ideia que está inserida nas entrelinhas das políticas
oficiais sobre a surdez, os surdos e os direitos sociais e linguísticos deles. Logo, a
compreensão das principais políticas sobre surdez em âmbito nacional é relevante
para este livro didático porque os Estudos Surdos são perpassados, também, pelos
atravessamentos propostos pelas Políticas Públicas existentes e o modo como elas
delineiam tópicos relevantes para a comunidade surda.

Nesta compreensão e com o objetivo de observar como as Políticas


Públicas tratam esses tópicos, Fernandes (2019) elenca as legislações específicas
em nível nacional, estadual e municipal entre 2002 e 2018, de modo a analisar
como as políticas públicas “[...] apresentam a surdez, como delineiam e constroem
modelos e práticas de ensino voltadas aos surdos” (FERNANDES, 2019, p. 7). A
seguir está o quadro em que são listadas as leis em âmbito federal:

QUADRO 2 – LEGISLAÇÃO RELEVANTE 2002 A 2018

LEGISLAÇÃO IDENTIFICAÇÃO DA NORMA


Lei nᵒ 10.436/2002 Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras
Decreto nᵒ 5626/2005 Regulamenta a Lei nᵒ 10.436
Política Nacional de Educação Especial
Documento norteador da educação especial na
na Perspectiva da Educação Inclusiva
perspectiva da educação inclusiva.
(BRASIL, 2008)
Institui Diretrizes Operacionais para o Atendimento
Resolução nᵒ 4/2009 Educacional Especializado na Educação Básica,
modalidade Educação Especial.
Promulga a Convenção Internacional sobre os
Decreto nᵒ 6.949/2009
Direitos das Pessoas com Deficiência.
Dispõe sobre a educação especial, o atendimento
Decreto nᵒ 7.611/2011
educacional especializado.
Lei nᵒ 13.005/2014 Plano Nacional de Educação – PNE
Lei nᵒ 13.146/ 2015 Lei Brasileira de Inclusão – LBI

FONTE: Adaptado de Fernandes (2019, p. 75)

10
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

NOTA

Em 30 de setembro de 2020 foi lançado o Decreto nᵒ 10.502, que delimita


a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, este
documento representa um sério problema ao dar como alternativa a volta das escolas
e das classes especiais. Ou seja, retira a prioridade da inclusão nas escolas regulares, o
que pode ser utilizado em grande parte para a perda dos avanços obtidos em direção ao
acolhimento dos alunos com Necessidades Educacionais Especiais nas escolas regulares.
Ainda ocorrerão inúmeras discussões sobre este material, pois o decreto acaba
indo de encontro a outros documentos e acordos oficiais.

O acesso ao documento está disponível no link: [Link]


ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/[Link]#:~:text=DECRETO%20N%C2%BA%20
10.502%2C%20DE%2030,Aprendizado%20ao%20Longo%20da%20Vida.

Além desta legislação, Fernandes (2019), também, destaca a importância


de documentos de comunidades e associações de surdos que ecoaram as Políticas
Públicas do período de 2002 a 2018:

QUADRO 3 – DOCUMENTOS DAS COMUNIDADES SURDAS E ÓRGÃSO


REPRESENTATIVOS 2002 A 2018

DOCUMENTOS DAS COMUNIDADES SURDAS E SEUS ORGÃOS REPRESENTATIVOS


Nota de esclarecimento da FENEIS (em resposta à nota técnica nᵒ 5/2011/MEC/SECADI/GABI)
Nota Oficial: Educação de Surdos na Meta 4 do PNE (FENEIS, 2013)
Relatório sobre a Política Linguística de Educação Bilíngue – Portarias nᵒ 1.060/2013 e nᵒ
91/2013 do MEC/SECADI (BRASIL, 2014).
Relatório da ASSUCAMP (CAMPINAS, 2016)

FONTE: Fernandes (2019, p. 76)

NOTA

O período de 2002 a 2018 foi escolhido pela autora devido à legislação que
regulamentou o uso da Libras ter sido disposta em 2002.

11
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Deste modo, a pesquisadora volta a sua atenção para as leis, decretos e


resoluções relevantes e faz uma análise qualitativa de como elas evidenciam aspectos
relevantes para e sobre a comunidade surda. A fim de sintetizar aquilo que a autora
traz, a seguir é apresentado um quadro com os principais tópicos abordados e a
percepção das autoras acerca do modo como as políticas públicas demonstram
compreender os seis eixos de análise relevantes destacados pela pesquisadora:

NOTA

A abreviatura LP faz referência à Língua Portuguesa em sua modalidade


escrita e oral.

QUADRO 4 – VISÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

EIXOS DE ANÁLISE PERCEPÇÃO


O surdo aparece hora como deficiente ora como minoria
linguística, o que traz problemas ao juntar as propostas
Surdos: deficientes ou
de bilinguismo com aquelas de uso da LP e superação das
minoria linguística?
deficiências. Ou seja, a legislação é ambivalente e trata o
surdo de duas formas distintas.
Confusão entre as propostas de educação bilíngue e o
modo como ela efetivamente deve ser feita, acabando
Educação: bilíngue ou por deixar sem ser repensado o ambiente em que se dá
inclusão radical (exclusão)? a aprendizagem e que o simples estar junto com um
professor de Libras ou um intérprete não é inclusão, mas
reforça a exclusão.
Confusão do conceito de língua e seu papel na constituição
Libras: língua de instrução ou do sujeito faz com que a Libras seja uma língua
língua instrumental? instrumental através da qual se chega à compreensão do
que está sendo dito em LP.
“[...] a Língua Portuguesa ainda é considerada a norma,
Português: língua majoritária a majoritária, a indispensável aos surdos e não como
ou segunda língua? uma segunda língua como os surdos reivindicam”
(FERNANDES, 2019, p. 121).
“Embora o Decreto nᵒ 5626/2005 reconheça a prioridade na
Docência: ensino ou formação do professor surdo para o ensino de Libras, no
tradução? momento da contratação essa prerrogativa ainda está distante
de se tornar uma realidade” (FERNANDES, 2019, p. 130).

FONTE: Adaptado de Fernandes (2019)

12
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

O quadro colocado acima apresenta apenas uma síntese das conclusões


de Fernandes (2019), contudo, já permite com que percebamos que, mesmo
as Políticas Públicas voltadas ao surdo apresentam não apenas divergências
de compreensão dos aspectos relevantes, mas também se confundem e
contradizem no entendimento dos conceitos e elementos importantes para
a educação de surdos. Ou seja, as leis existem, mas ainda são confusas e
não demonstram uma real aproximação ou entendimento daquilo que a
comunidade e o povo surdo necessitam.

Mandelblatt (2014, p. 6) estudou a legislação específica pelo viés das


Ciências Políticas, e chegou à seguinte conclusão: “[É] Verificada forte divergência
entre a política de educação inclusiva adotada pela maioria dos governos
estaduais e municipais e os anseios por uma educação bilíngue, defendida por
grande parte da comunidade surda brasileira”. Ou seja, não apenas as políticas
se contradizem, como elas não estão de acordo com os desejos e necessidades da
comunidade surda.

Assim, as Políticas Públicas que tratam sobre a surdez ecoam as visões


históricas e sociais sobre os surdos, pois trazem em seu cerne ainda aquelas
percepções do surdo enquanto deficiente a ser “consertado”, ou apresentam
políticas que não levam em conta as diferentes realidades ou não explicitam como
devem ser feitas as adequações e garantias de direito sobre as quais versam.

DICAS

O trabalho de Fernandes (2019) tem um viés bem ligado à Educação, até por
ser exatamente esta a linha de pesquisa em que foi apresentado. Caso você tenha interesse
em um ponto de vista mais ligado diretamente à compreensão política, recomendamos a
tese de Mendelblatt (2014, p.6):

RESUMO

Este trabalho objetiva avaliar a relação entre as metas expressas


nos textos das políticas públicas que, no Brasil do século
XXI, incidem sobre os alunos surdos e as implicações da
implementação dessas políticas nas nossas escolas. Com esse
escopo, procura-se apurar até que ponto o Estado brasileiro
está sendo capaz de garantir e respeitar os direitos de cidadania
dessa parcela da população, assegurando aos estudantes
surdos educação que atenda às suas especificidades e
propicie acesso e apropriação do conhecimento escolar em
condições de equidade face aos alunos ouvintes. Para tanto,
analisam-se documentos relativos à questão, contextualiza-
se sua construção, focalizam-se os discursos neles contidos
e em que se constituíram, examinam-se dados censitários
e busca-se, na observação das práticas escolares, verificar

13
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

como, por que e com quais derivações e consequências as


ações propostas estão, atualmente, traduzidas no cotidiano
que caracteriza o ensino desses aprendizes. Ancorada
na dimensão política e socioantropológica da surdez
como diferença, na perspectiva sócio-histórico-cultural
do desenvolvimento humano e nos estudos, por parte da
Sociologia da Educação, da relação do sistema escolar com
as desigualdades sociais, a moldura teórica, de base política,
interage e se complementa com aportes da Educação de
Surdos. Na teia construída com esses elementos, e trabalhando-
se a partir da Abordagem do Ciclo de Políticas, investigam-
se os processos macro e micropolíticos, observando-se a
trajetória das políticas elaboradas, destacando se progressos
e conquistas alcançadas e apresentando-se sugestões para
lidar com eventuais desigualdades reproduzidas, criadas ou
desencadeadas pelas ações desenvolvidas. Verificada forte
divergência entre a política de educação inclusiva adotada
pela maioria dos governos estaduais e municipais e os anseios
por uma educação bilíngue, defendida por grande parte da
comunidade surda brasileira, delineiam-se algumas diretrizes
para melhor enfrentamento dos temas aqui pesquisados e
recomenda-se a coexistência de escolas bilíngues ao lado das
escolas inclusivas, ensejando à parcela surda da população
brasileira a experiência democrática da opção entre uma e
outra modalidade de ensino.
Palavras-chave: Políticas Públicas Educacionais; Cidadania;
Desigualdade de Oportunidades; Educação de Surdos.

MANDELBLATT, Janete. Políticas Públicas, (Des)igualdade de Oportunidades e Ampliação da


Cidadania no Brasil: o caso da educação de surdos (1990-2014). 2014. Tese (Doutorado em Ciências
Políticas) Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Universidade Federal Fluminense. Niterói.
Disponível em: [Link]
Janete%202014%20%28tese%29%[Link]?sequence=1&isAllowed=y Acesso em: 23 set. 2020.

QRCODE 2 - LINK PARA TESE MANDELBLATT

14
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

5 A RELEVÂNCIA DAS COMUNIDADES SURDAS PARA O


POVO SURDO
Até esta parte do livro didático, discutimos como a História percebe os
surdos, como a sociedade os enxerga, e partindo destes aspectos, de que maneira
as Políticas Públicas acabam por ecoar as visões sobre os surdos. Ou seja, até aqui
vimos como o olhar do não surdo atravessa a História, a Sociedade e as Políticas
Públicas acabando por direcionar, em certa medida, o jeito que o próprio surdo se
percebe dentro desta sociedade majoritariamente ouvinte.

Nesta parte das discussões, começaremos a estudar as formas como os


surdos conseguiram manter sua identidade, cultura e união, apesar do ponto de
vista Histórico, da Sociedade e das visões, por vezes conflitantes, das Políticas
Públicas. Além disso, os espaços de socialização, agrupamento e as instituições de
acolhimento para as pessoas surdas também são necessárias para que as Leis sejam
modificadas, pois são as ações coletivas que criam a pressão necessária para isso.

Inicialmente serão apresentadas as definições de comunidade surda


e povo surdo, depois, discutiremos, brevemente, o papel que as instituições e
grupos que fazem comunidade surda têm para o povo surdo; por fim, serão
elencadas algumas das entidades de apoio e agrupamento de surdos.

5.1 AS DEFINIÇÕES DE COMUNIDADE SURDA E


POVO SURDO
Muitas vezes nos referimos às pessoas surdas de modo geral, fazendo
referência apenas àquelas que não fazem parte do grupo dos ouvintes, desta
maneira, separamos de modo simplista as pessoas apenas através da característica
da audição ser presente ou não. Este modo de pensar reproduz aquela ideia
histórica e social em que os surdos seriam apenas um grupo de pessoas separado
dentro da sociedade em que a audição inexiste.

Logo, este raciocínio é reducionista e deixa de fora uma infinidade de


possibilidades para compreender tanto as pessoas surdas quando os indivíduos
que se relacionam com os surdos e têm, em vários graus e diferentes configurações,
uma ligação com os traços que caracterizam culturalmente as peculiaridades
ligadas aos surdos. Dito de outro modo, separar a sociedade em surdos e não
surdos ou surdos e ouvintes ou ainda não ouvintes e ouvintes, deixa de fora
muitas pessoas que têm diversos tipos de relações e compreensões culturais para
com os surdos.

15
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Para delimitar melhor as relações culturais, pessoais e sociais existentes


entre as pessoas que compõem a sociedade, Strobel (2009, p. 6, grifos da autora)
conceitua os seguintes termos:

CONCEITO
Povo Surdo e a Comunidade Surda
O povo surdo é grupo de sujeitos surdos que tem costumes, história,
tradições em comuns e pertencentes às mesmas peculiaridades, ou
seja, constrói sua concepção de mundo através da visão.
A comunidade surda, na verdade não é só de surdos, já que tem
sujeitos ouvintes junto, que são família, intérpretes, professores,
amigos e outros que participam e compartilham os mesmos interesses
em comuns em um determinado localização que podem ser as
associações de surdos, federações de surdos, igrejas e outros.

A partir deste modo de delimitar as relações, percebe-se que as pessoas


surdas ou ouvintes fazem parte das discussões e das vivências surdas que estão
dentro da comunidade surda. Já povo surdo são aqueles “[...] sujeitos surdos
que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem,
por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução
linguística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros
laços” (STROBEL, 2008, p. 13).

Logo, o que caracteriza o povo surdo não é o nascimento em determinado


território, mas a maneira como se dá a organização através das experiências
visuais, linguísticas e culturais, ou seja, uma visão de mundo compartilhada
que está além das fronteiras físicas. Dito de outro modo, o povo surdo não tem
uma nação ou um lugar de origem, por isso, um surdo americano, canadense ou
brasileiro será parte do povo surdo independente da língua e da cultura, pois a
sua formação de vivência se dá pela interpretação visual da realidade.

Também, Strobel (2008a, p. 29) coloca que “O povo surdo não tem um
país, mas metaforicamente, ele tem uma história, seu mundo diferente ao de
ouvinte. Respeitando a língua de sinais e os seus valores culturais é uma porta
aberta para o mundo dos surdos”. Ao mesmo tempo, os surdos estão inseridos
dentro do seu povo de nascimento delimitado pelas fronteiras, origens e
experiências culturalmente compartilhadas pelos demais habitantes do seu local
de nascimento ou criação. Pode-se afirmar que este duplo pertencimento é uma
das peculiaridades que explica e justifica a complexidade e dificuldade de uma
real inserção dos surdos dentro da sociedade ouvinte, porque ele é ao mesmo
tempo parte de dois povos diferentes, vivendo sempre nas fronteiras intangíveis
das características compartilhadas pelos demais integrantes do povo surdo
global, do povo surdo local, da comunidade surda e do povo ao qual pertence
por nascimento.

16
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

5.2 AS VIVÊNCIAS EM COMUNIDADE E O ACOLHIMENTO


AO POVO SURDO
As comunidades surdas formam e são de grande importância para o
acolhimento, desenvolvimento e a inclusão social do povo surdo, de acordo com
Pagnussat (2008, p. 1):

A inclusão social do surdo é um desafio que a sociedade enfrenta em


tempos de mudança, e provoca muitos questionamentos, pois para
que sujeitos, com e sem deficiência, possam exercer o direito pleno à
cidadania, é indispensável que a escola e a sociedade aprimorem suas
práticas, a fim de atender as individualidades. É ainda imprescindível
destacarmos que, [...], as associações inserem o sujeito surdo na
comunidade/sociedade que até então não o via como capaz e útil,
como todo ser humano é.

Dessa forma, a autora destaca o papel de inserção social feito pelas


associações de surdos, tornando possível o acolhimento e inserção na sociedade
de um modo que acolhe e valoriza as diferenças. Strobel (2008a, p. 17) apresenta
um relato em primeira pessoa sobre a importância de se sentir acolhido, respeitado
e participante de uma comunidade em que suas características são não apenas
aceitas como valorizadas:

Eu era revoltada com a minha condição de surdez, não aceitava a surdez


achando que era castigo de Deus e me isolava, isto ocorria porque a
escola oralista não me permitia ter identidade surda, procurando fazer
com que eu aprendesse e fosse igual às pessoas ouvintes - minha mãe
ficou preocupada com a minha revolta e isolação e ao se informar a
respeito do povo surdo descobriu a existência de uma associação de
surdos e me levou lá quando eu tinha 15 anos. [...] Ao ter contato com
a comunidade surda, o meu mundo abriu as portas e eu pude explorar
e expandir para fora tudo o que estava insuportavelmente sufocado
dentro de mim.

Ou seja, a autora encontrou um modo de se abrir para o mundo, as vivências


e as experiências que permitiram à autora “fazer as pazes” com a sua surdez e
desenvolver seu potencial em direção a explorar as potencialidades sufocadas até
então pela sociedade. Em relação à sua existência no Brasil, Strobel (2009b, s.p.)
coloca que:

As Comunidades surdas no Brasil têm uma história longa. O


povo surdo brasileiro deixou muitas tradições e histórias em suas
organizações das comunidades surdas. As associações de surdos
ao longo da história forneceram muitas atividades de lazer,
esportivos e sociais. Associação iniciou diante de uma necessidade
de povos surdos terem um espaço ao se unirem e resistirem contra
as práticas ouvintistas que não respeitavam a cultura deles. No
início as associações de surdos tinham exclusivamente o objetivo
de natureza social devido ao baixo padrão de vida no século XVIII,

17
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

os sujeitos surdos tinham o propósito de ajudar uns aos outros em


caso de doença, morte e desemprego e, além disso, as associações
se propunham a fornecer informações e incentivos através de
conferências e entretenimentos relevantes. Hoje as associações de
surdos fornecem muitas atividades de lazer, cultural, esportivos,
sociais e outros.

Assim, o nascimento das associações de surdos foi devido a uma


necessidade básica de sobrevivência, divulgação e lutas do povo surdo,
logo, tinham um caráter assistencial básico para a organização de aspectos
extremamente relevantes para a vivência em sociedade. Além disso, surgiram
como um espaço de resistência às políticas que forçavam a oralidade e as práticas
vinculadas à visão do surdo como o sujeito que tem uma falta ou deficiência.
Isso porque é muito mais difícil ser sufocado quando muitas mãos dialogam,
participam e lutam pelo espaço social compartilhado coletivamente. “Visto que
uma associação é qualquer empreendimento formal ou informal que reúne
pessoas ou sociedades com práticas comuns, visando ultrapassar dificuldades e
gerar benefícios para seus associados” (PAGNUSSAT, 2018, p. 1):

Esses movimentos [as associações] se dão a partir dos espaços


articulados pelos surdos, como as associações, as cooperativas, os
clubes, onde “jovens e adultos surdos estabelecem o intercâmbio
cultural e linguístico e fazem o uso oficial da Língua de Sinais”
(FENEIS, 1995a:10). Um dos principais fatores de reunião das
pessoas surdas é a Língua de Sinais, através da qual eles encontram
oportunidades de compartilhar suas experiências e seus sonhos, e
também um espaço de reafirmação da luta pelo direito ao uso dessa
língua. Mas as questões discutidas pelos movimentos surdos se
ampliam e diversificam, segundo suas realidades locais e nacionais.
Algumas lutas são compartilhadas pelos grupos de surdos em
diferentes regiões do mundo, sendo que sua articulação ao nível
mundial está sob a coordenação da Federação Mundial de Surdos
(Word Federation of the Deaf – WFD), com sede na Finlândia. A sua
criação, em 1951, significou uma importante conquista de espaço
político para as discussões e articulações das lutas das comunidades
surdas (Souza, 1998) (PAGNUSSAT, 2018, p. 1).

Neste trecho, a autora destaca um aspecto extremamente importante para


a compreensão do papel das associações de surdos como parte da comunidade
surda e para o povo surdo, o de ser o espaço em que a língua de sinais é o modo
de comunicação, a língua materna, a língua de uso, ou seja, o espaço de resistência
e luta linguística.

Tendo em vista que a língua de sinais é um dos principais, se não o


principal, alicerce das lutas surdas por respeito e inclusão, a existências de locais
e grupos de pessoas em que esta realidade linguística é respeitada e utilizada se
torna de extrema importância para o povo surdo e as pessoas que fazem parte da
comunidade surda.

18
TÓPICO 1 — MOVIMENTOS HISTÓRICOS DO ESTABELECIMENTO DE COMUNIDADES SURDAS

DICAS

O canal VISURDO é um canal do YouTube criado por dois irmãos surdos que
apresentam, desde 2010, diversos conteúdos sobre suas experiências e vivências como
surdos de modo leve e engraçado sobre assuntos importantes sobre os surdos, a surdez
e a comunidade surda. Um dos vídeos deles explica qual é o papel das associações de
surdos, o QRcode colocado junto da imagem levará você diretamente para o vídeo: O que
é associação de surdos?

QRCODE 3 VÍDEO – O QUE É ASSOCIAÇÃO DE SURDOS?

FONTE: Visurdo (2019)

Strobel (2009b, s.p.) lista as principais comunidades surdas brasileiras:

1- Associações de Surdos: Uma associação de surdos surge em função


de reunir sujeitos surdos que participam e compartilham os mesmos
interesses em comuns, assim como costumes, história, tradições em
comuns, em uma determinada localidade, geralmente em uma sede
própria ou alugada, ou cedida pelo governo e outros espaços físicos.
A Associação de Surdos representa importante espaço de articulação
e encontro da comunidade surda. Importantes movimentos se
originaram e ainda se resultam das reuniões e assembleias que
ocorrem por todo o Brasil.
2- Federação Nacional de Educação de Surdos / FENEIS: é uma entidade
filantrópica, sem fins lucrativos com finalidade sociocultural,
assistencial e educacional que tem por objetivo a defesa e a luta
dos direitos da Comunidade Surda Brasileira. É filiada à Federação
Mundial dos Surdos.
3- Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos / CBDS. Esta
confederação organiza e regulamenta muitas práticas de muitas
modalidades de esportes de povo surdos, também promove
competições entre as associações de surdos e outros.

19
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

4- Federação Estaduais Esportivas de Surdos promove intercâmbios


de esportes dentre as várias associações de surdos do Estado.
5- Outras Instituições: associações de pais e amigos de surdos,
Associações de intérpretes de Libras, escolas de surdos e outros.
6- Representantes religiosas: pastorais de surdos, Ministério de
Keiraihaguiai, grupos de jovens de igrejas etc.

Desta forma, o papel das instituições que compõe a comunidade surda


é de extrema importância para o estabelecimento, manutenção, socialização,
participação política, resistência linguística, organização civil e, por extensão, a
inserção do surdo como cidadão pertencente ao povo surdo e ao povo brasileiro.
Elas trabalham para o acolhimento e desenvolvimento das potencialidades dos
surdos dentro da sociedade e são redes de apoio mútuo e participação política
extremamente importantes para as garantias de direitos, preservação e evolução
da Libras e participação cidadã.

20
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• A História é sempre escrita por aqueles que têm mais poder, seja econômico,
social ou até mesmo linguístico.

• Os surdos são vistos como partícipes da história que tiveram suas histórias
não destacadas, mas que estão postas ao longo do tempo através de vestígios
dentro da história oficial.

• Mesmo que de modo minoritário e não registrado na História oficial, os surdos


são um grupo que está em constante contato dentro da sociedade em que
vivem as pessoas ouvintes.

• A percepção que o grupo dos surdos tem sobre si é perpassada pela visão que
a sociedade, majoritariamente ouvinte, tem sobre os surdos.

• A sociedade vê o surdo como alguém que não tem algo, a audição, e precisa ter
modo de obter este algo ou um simulacro disso para ser integrado à sociedade.

• A visão da história cultural dos surdos é de extrema importância para que a


sociedade modifique sua percepção histórica e social em relação aos surdos.

• Os Estudos Surdos dentro da perspectiva dos Estudos Culturais são muito


necessários para as discussões em estudo e pesquisa dentro das instituições.

• As políticas públicas em surdez são permeadas pela visão histórica e social tida
sobre os surdos.

• As Políticas Públicas que tratam sobre a surdez ecoam as visões históricas e


sociais sobre os surdos, pois trazem em seu cerne ainda aquelas percepções do
surdo enquanto deficiente a ser “consertado”.

• Os espaços de socialização, agrupamento e as instituições de acolhimento para


as pessoas surdas também são necessárias para que as Leis sejam modificadas.

• Muitas vezes nos referimos às pessoas surdas de modo geral, fazendo referência
apenas àquelas que não fazem parte do grupo dos ouvintes.

• Este raciocínio é reducionista e deixa de fora uma infinidade de possibilidades


para compreender tanto as pessoas surdas quando os indivíduos que se
relacionam com os surdos.

21
• Separar a sociedade em surdos e não surdos ou surdos e ouvintes ou ainda não
ouvintes e ouvintes, deixa de fora muitas pessoas que têm diversos tipos de
relações e compreensões culturais para com os surdos.

• O povo surdo é grupo de sujeitos surdos que tem costumes, história, tradições
em comuns e pertencentes às mesmas peculiaridades, ou seja, constrói sua
concepção de mundo através da visão.

• A comunidade surda, na verdade não é só de surdos, já que tem sujeitos


ouvintes juntos, que são família, intérpretes, professores, amigos e outros
que participam e compartilham os mesmos interesses em comum em uma
determinada localização, que podem ser as associações de surdos, federações
de surdos, igrejas e outros.

• O que caracteriza o povo surdo não é o nascimento em determinado território,


mas a maneira como se dá a organização através das experiências visuais,
linguísticas e culturais.

• As comunidades surdas formam e são de grande importância para o


acolhimento, desenvolvimento e a inclusão social do povo surdo.

• A inclusão social do surdo é um desafio que a sociedade enfrenta em


tempos de mudança, e provoca muitos questionamentos, pois para que
sujeitos, com e sem deficiência, possam exercer o direito pleno à cidadania,
é indispensável que a escola e a sociedade aprimorem suas práticas, a fim
de atender às individualidades.

• O nascimento das associações de surdos foi devido a uma necessidade básica


de sobrevivência, divulgação e lutas do povo surdo.

• Um dos principais fatores de reunião das pessoas surdas é a Língua de


Sinais, através da qual eles encontram oportunidades de compartilhar suas
experiências e seus sonhos.

• O papel das instituições que compõem a comunidade surda é de extrema


importância para o estabelecimento, manutenção, socialização, participação
política, resistência linguística, organização civil e, por extensão, a inserção do
surdo como cidadão pertencente ao povo surdo e ao povo brasileiro.

22
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com o quadro adaptado de Fernandes (2019), sobre visão das


Políticas Públicas.

Relacione, de forma correta, Coluna I, Eixos de Análise, à Coluna II, Percepção:

Coluna I Coluna II

(1) Surdos: deficientes ou minoria ( ) “[...] a Língua Portuguesa ainda é


linguística? considerada a norma, a majoritária,
a indispensável aos surdos e
(2) Educação: bilíngue ou inclusão não como uma segunda língua
radical (exclusão)? como os surdos reivindicam”
(FERNANDES, 2019, p. 121).
(3) Libras: língua de instrução ou ( ) “Embora o Decreto nᵒ 5626/2005
língua instrumental? reconheça a prioridade na formação
do professor surdo para o ensino de
(4) Português: língua majoritária ou Libras, no momento da contratação
segunda língua? essa prerrogativa ainda está distante
de se tornar uma realidade”
(5) Docência: ensino ou tradução? (FERNANDES, 2019, p. 130).
( ) Confusão do conceito de língua e
seu papel na constituição do sujeito
faz com que Libras seja uma língua
instrumental através da qual se
chega à compreensão do que está
sendo dito em LP.
( ) O surdo aparece hora como
deficiente ora como minoria
linguística o que traz problemas ao
juntar as propostas de bilinguismo
com aquelas de uso da LP e
superação das deficiências. Ou seja,
a legislação é ambivalente e trata o
surdo de duas formas distintas.
( ) Confusão entre as propostas de
educação bilíngue e o modo como
ela efetivamente deve ser feita,
acabando por deixar sem ser
repensado o ambiente em que se dá a
aprendizagem e que o simples estar
junto com um professor de Libras
ou um intérprete não é inclusão, mas
reforça a exclusão.

23
Marque a alternativa que apresenta a CORRETA numeração da Coluna II:
a) ( ) 4, 5, 3, 2 e 1.
b) ( ) 3, 2, 5, 1 e 4.
c) ( ) 3, 1, 4, 2 e 5.
d) ( ) 3, 1, 5, 2 e 4.
e) ( ) 4, 5, 3, 1 e 2.

2 Diante do quadro de percepções sobre o surdo apresentado por


Strobel (2008a), podemos concluir, sobre a História Cultural, que:

I- Os surdos narrados como sujeitos com experiências visuais.


II- As identidades surdas são múltiplas e multifacetadas.
III- A educação de surdos deve ter consideração à diferença cultural.
IV- A educação deve ter um caráter clínico-terapêutico e de reabilitação.
V- A língua de sinais é a manifestação da diferença linguística-cultural
relativa aos surdos.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

3 De acordo com o estudo sobre os movimentos históricos do


estabelecimento de comunidades surdas, do tópico um, analise as
sentenças, classificando V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) A História nem sempre é escrita por aqueles que têm mais poder, seja
econômico, social ou até mesmo linguístico.
( ) Mesmo que de modo minoritário e não registrado na História oficial, os
surdos são um grupo que está em constante contato dentro da sociedade
em que vivem as pessoas ouvintes.
( ) Os Estudos Surdos dentro da perspectiva dos Estudos Culturais são muito
necessários para as discussões em estudo e pesquisa dentro das instituições.
( ) A inclusão social do surdo não é um desafio que a sociedade enfrenta,
pois para que sujeitos, com e sem deficiência, possam exercer o direito
pleno à cidadania, é irrelevante que a escola e a sociedade aprimorem
suas práticas, a fim de atender as individualidades.
( ) O papel das instituições que compõem a comunidade surda é de
extrema importância para o estabelecimento, manutenção, socialização,
participação política, resistência linguística, organização civil e, por
extensão, a inserção do surdo como cidadão pertencente ao povo surdo e
ao povo brasileiro.

24
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – V – V – F – F.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) F – V – V – F – V.
d) ( ) V – F – F – V – V.
e) ( ) V – F – V – F – V.

4 Segundo Strobel (2009, p. 6), descreva os conceitos de Povo Surdo e


Comunidade Surda.

25
26
TÓPICO 2 —
UNIDADE 1

INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE,


MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior, nós estudamos como a História retrata o surdo, vimos
de que modo a sociedade o enxerga, debatemos as contradições e a importâncias
das Políticas Públicas e estudamos o conceito de comunidade surda e povo
surdo, bem como discutimos de que modo as instituições que fazem parte da
comunidade surda têm um papel de extrema importância para a união do povo
surdo através dos espaços de conexão e resistência formados a partir da junção de
pessoas vinculadas à comunidade surda. Também comentamos sobre a grande
importância da língua de sinais como elemento definidor de uma nação surda
que se organiza através das experiências e vivências visualmente constituídas.

Neste tópico, nós estudaremos o poder e o papel da língua nas compreensões


sobre a surdez, logo, como o embate entre a língua ouvinte majoritária e a língua
de sinais se entrecruzam para forjar as experiências linguísticas das comunidades e
do povo surdo brasileiro, ou seja, como a LP e a Libras são percebidas dentro do
contexto da surdez. Depois serão vistos alguns pontos sobre os direitos linguísticos
dos povos que vivem em zonas de tensão linguística, como a existente entre os
surdos e não surdos dentro da sociedade brasileira. Ainda dentro deste viés de
compreensão da importância linguística, social e identitária da Libras, serão
apontados elementos relevantes nas discussões sobre o aprendizado da língua e
da escrita pelos surdos, de modo a perceber qual é a relação entre a LP oralizada
e escrita e da Libras sinalizada e escrita, assim sendo, neste espaço discutiremos
elementos de aquisição, expressão e compreensão linguística.

Por fim, neste tópico, também debateremos sobre a representatividade


surda na sociedade, suas lideranças, lugares de fala e exercício de direitos como
cidadãos brasileiros. Dentro desta perspectiva de participação ativa na sociedade,
encerraremos o tópico com a análise de aspectos relacionados ao mercado de
trabalho, consumo e surdez. Assim, este tópico tem como objetivo discutir aspectos
linguísticos e sociais que perpassam o exercício da cidadania e o pertencimento
à sociedade.

27
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

2 O PODER E O PAPEL DA LÍNGUA NAS COMPREENSÕES


SOBRE SURDEZ
A língua tem o poder de fundar e estabelecer parâmetros de cidadania
nas diferentes sociedades, isso porque a organização daquilo que constitui as
diferentes estruturas sociais, como documentos, garantia de direitos, vivências
estruturadas de escolarização e trabalho são perpassadas pelo modo como as
pessoas interagem pela e através da língua. Isso porque a língua e a linguagem
são códigos estruturados socialmente que, ao mesmo tempo em que são
combinados socialmente, estruturam a própria língua e são arbitrários, ou seja,
é este combinado social que atribui sentido à língua sentido que só existe por e
através da língua. Estas características aparecem em todos os contextos.

Esta perspectiva é apresentada pela teoria de Saussure (2012), em que


é apresentada a dicotomia entre a linguagem e a língua, em que a língua está
inserida dentro do campo da linguagem, sendo a parte estruturada e socialmente
organizada dela. Dito de outro modo, a linguagem é qualquer modo de
interpretação, percepção e observação das coisas de uma forma que pode ser
extremamente pessoal e difícil de explicar, por exemplo, um quadro pode ser
interpretado de inúmeros modos, pois a linguagem artística se presta a diferentes
compreensões que são estruturadas de maneira extremamente pessoal e baseada
nas vivências pessoais de cada um. Já a língua é uma parte da linguagem que
é socialmente estruturada, convencionada e organizada de forma que todas
as pessoas que utilizam aquela língua possam se comunicar e compreender as
intervenções no mundo feitas através dela de modo a diminuir as possibilidades
de confusão entre seus usuários.

Para exemplificar melhor estas características das línguas, vamos observar


as seguintes palavras em LP e Libras:

livro

Para que a palavra livro fosse escrita, foi necessário colocar as letras
numa ordem definida para que todo o grupo de usuários da LP possa ler esta
sequência e a relacionar tanto ao som da palavra livro quanto ao objeto livro.
Ao mesmo tempo, para que o usuário da Libras possa reconhecer a palavra
livro em Escrita de Sinais, é necessário que este leitor conheça os elementos que
compõem o sinal e consiga decodificar de modo a relacionar a palavra escrita
ao sinal e ao objeto livro.

Desse modo, é este conhecimento anterior da língua escrita e da relação


entre os fonemas e grafemas que permite a leitura do que está escrito, ou seja,
é este conhecimento que se convencionou socialmente a chamar de livro, e é o
modo de falar/sinalizar escrever esta palavra que faz com que estes conjuntos

28
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

de grafemas remetam ao objeto livro. Dito de outra maneira, nada na palavra


livro falada ou sinalizada ou na palavra livro escrita é diretamente relacionada
ao objeto livro, pois a sequência de sons, logo, de grafemas escritos é apenas
combinada socialmente e não vinculada ao objeto livro.

Você pode pensar que o sinal de livro até tem uma relação com abrir
um livro, mas isso também não é bem assim, pois apenas a observação de ser
algo que é aberto pode remeter a um sem fim de objetos que pode ser aberto
em duas partes. Então, para que este sinal escrito realmente possa ser lido com
livro é necessário que tanto quem escreveu quanto quem lê esta palavra escrita
sabia o código utilizado, ou seja, é socialmente compartilhado pelas pessoas que
comungam desta língua.

Assim, é através da língua compartilhada entre os usuários que as


sociedades se estruturam e, por isso, a inserção linguística na modalidade falada
e escrita tem um peso extremamente importante para que as pessoas possam
exercer plenamente seus direitos, trabalhar, estudar e viver em sociedade.

NOTA

No Livro Didático de Estudo de Sintaxe da Libras, esta discussão sobre


língua e linguagem é encontrada de forma mais detalhada.

Então, assim, quando a sociedade brasileira, por exemplo, se estrutura


majoritariamente em Língua Portuguesa na sua modalidade oral e escrita, os
documentos, as vagas de emprego, as entrevistas, a televisão, o atendimento em
bancos, repartições públicas e lojas, as formas de acesso à informação e à escola
são estruturadas também em LP.

Logo, as pessoas que não compartilham com proficiência desta língua


majoritária acabam por ter muito mais dificuldade de acesso a tudo que é
oferecido no interior desta organização linguística social. Ou seja, é muito mais
complexo ter acesso aos bens e serviços quando estes são oferecidos em uma
língua sobre a qual a pessoa não tem domínio pleno.

Neste contexto complexo estão todas as pessoas que são pertencentes às


minorias que utilizam outras línguas que não a língua majoritária do país, como os
surdos, imigrantes e usuários de variedades linguísticas minoritárias (pomerano,
línguas indígenas etc.), além disso, os analfabetos e analfabetos funcionais
também têm dificuldade de viver nesta sociedade em que a língua permeia todas

29
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

as relações. Assim, para que todas as pessoas tenham direito de viver plenamente
dentro de uma sociedade é necessário que a realidade linguística dos grupos
sociais, que utilizam uma língua diferente da língua majoritária não apenas seja
inserida, mas também respeitada como a língua de comunicação daquela parcela
da comunidade.

É importante ressaltar que, para os surdos é ainda mais complicado o


contexto linguístico social em que uma língua oral-auditiva tem prevalência,
pois se torna muito mais complexo adquirir as habilidades linguísticas da língua
majoritária. Dito de outro modo, a diferença entre a modalidade oral-auditiva e
visuoespacial torna muito mais difícil a aquisição da língua majoritária por parte
do povo surdo que vive dentro da sociedade.

Logo, exatamente por ser compartilhada socialmente, para que seja


efetivamente um instrumento de inserção social é que a Língua de Sinais, no caso
do Brasil, a Libras é um dos aspectos mais importantes para a garantia dos direitos
dos surdos e inserção na sociedade de modo pleno. Assim, as Políticas Públicas,
que garantem o reconhecimento da Libras como meio legal de comunicação e
expressão, além dos demais direitos linguísticos associados ao uso dela, são de
grande importância para a comunidade e o povo surdo.

TUROS
ESTUDOS FU

Na próxima parte deste Tópico 2 serão discutidos alguns aspectos relevantes


quanto aos direitos linguísticos, por enquanto, é importante saber que estes são os direitos
relacionados ao uso da língua por um determinado povo. Desse modo, em relação aos
surdos são aqueles direitos relacionados ao uso da língua de sinais.

Devido à importância da conquista da legislação específica para a garantia


de direitos linguísticos e inserção social, é colocada a seguir a Lei nᵒ 10.436/2002:

Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos
LEI Nᵒ 10.436, DE 24 DE ABRIL DE 2002.
Regulamento
Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras
providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso
Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a
Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a
ela associados.

30
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras


a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de
natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem
um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de
comunidades de pessoas surdas do Brasil.
Art. 2o Deve ser garantido, por parte do poder público em
geral e empresas concessionárias de serviços públicos, formas
institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de
Sinais - Libras como meio de comunicação objetiva e de utilização
corrente das comunidades surdas do Brasil.
Art. 3o As instituições públicas e empresas concessionárias de
serviços públicos de assistência à saúde devem garantir atendimento
e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de
acordo com as normas legais em vigor.
Art. 4o O sistema educacional federal e os sistemas educacionais
estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão
nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e
de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua
Brasileira de Sinais – Libras, como parte integrante dos Parâmetros
Curriculares Nacionais - PCNs, conforme legislação vigente.
Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais – Libras não poderá
substituir a modalidade escrita da língua portuguesa.
Art. 5o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 24 de abril de 2002; 181o da Independência e 114o da República.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Paulo Renato Souza
Fonte: BRASIL (2002)

NOTA

Esta Lei é regulamentada pelo Decreto nᵒ 5626/2005, que também dispõe


de elementos muito importantes sobre o uso e fomento à Libras em território nacional.
Disponível em: <[Link]
htm>. Acesso em: 26 set. 2020.

Pode-se perceber que esta Lei abriu caminho para que a Libras fosse
inserida nas discussões oficiais, nas instituições e nas repartições públicas de
modo a validar um processo de inserção linguística dos surdos na sociedade
majoritariamente ouvinte e cuja modalidade oral-auditiva norteia as relações.

A importância desta compreensão da Libras como língua reconhecida


para o povo surdo traz à tona muitas das histórias e vivências em que os surdos
eram obrigados a tentar aprender a língua oral através de muitos exercícios
fonoaudiológicos e aquelas violências sobre as quais Strobel (2008a, p. 15) falou
em sua tese que estudamos no Tópico 1 quando falamos em História e percepções
sobre a surdez. Neste mesmo trabalho, a autora faz o seguinte relato pessoal sobre
o seu uso de LP Strobel (2008a, p. 15):

31
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Consequentemente, aprendi a falar, mas não sabia me comunicar


adequadamente, só ficava repetindo as palavras, igual a um papagaio,
sem entender seus significados, tudo muito mecânico e sem emoções.
[...] Ideias minhas, que afloravam cada vez mais em maior número
diante da vida ao meu redor, ficavam sufocadas em algumas dezenas
de palavras aprendidas e repetidas, tudo muito frio. Eu estava
expandindo o meu mundo e necessitava de uma língua em que
pudesse me identificar e isto era reprimido pelos professores que
deveriam me encorajar. [...] Com a minha linguagem limitada eu não
compreendia o que acontecia ao meu redor no dia a dia, mas eu era
muito curiosa e queria saber o ‘porque’ de tudo e não recebia respostas
e reprimia tudo dentro de mim e ficava muito agitada e ansiosa.

Ou seja, a autora relata como o estudo apenas da LP sufocava sua


comunicação e, por consequência, dificultava a expressão das ideias, pensamentos e
até mesmo a experimentação de suas emoções. Então, este relato demonstra que a
língua não é apenas um modo de organização social, mas que é através da língua
que estruturamos a nossa própria forma de pensar e agir no mundo.

Logo, o poder e o papel da língua nas compreensões sobre a surdez nada


mais é do que a função de modo pelo qual se estruturam os entendimentos
sobre a própria sociedade, a cidadania e a garantia de direitos sociais e, por
consequência, uma das formas através das quais se fundamenta a identidade
do povo surdo, pois é a língua de sinais que permite ao surdo estruturar a sua
percepção visual sobre o mundo e, quando utilizada em sociedade, garante a
inserção cidadã na sociedade.

NOTA

Caro acadêmico! Talvez você esteja se perguntando o motivo de retomarmos


tantos assuntos nesta unidade, tendo em vista que os Estudos Surdos se desenvolvem a
partir da perspectiva do indivíduo surdo, logo, é importante que estudemos alguns dos
principais atravessamentos que compõem este sujeito.

3 DIREITOS LINGUÍSTICOS E A APROPRIAÇÃO DA LÍNGUA


E DA ESCRITA PELOS SURDOS
Na seção anterior, nós discutimos alguns dos aspectos vinculados ao
poder e o papel que a língua tem nas percepções sobre a surdez, ou seja, vimos
o que é língua e como ela está relacionada à participação social das pessoas,
principalmente, as que fazem parte das minorias linguísticas inseridas no interior
da sociedade. Também afirmamos que as políticas linguísticas são de extrema
importância para que sejam garantidos os direitos linguísticos.

32
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Pois bem, nesta parte do Tópico 2, vão ser estudados alguns pontos
importantes sobre a definição de direitos linguísticos e a delimitação e
alinhamentos dos aspectos relevantes sobre os direitos linguísticos específicos do
povo surdo, bem como a relação entre a garantia dos direitos linguísticos surdos
e a apropriação da língua e da escrita pelo surdo.

Ainda da seção anterior revisamos algumas características da língua de


acordo com a perspectiva da linguística geral, já neste momento das discussões,
nós estudaremos uma visão da língua a partir da sociolinguística. Isso quer dizer
que nesta percepção a língua é observada a partir das interações sociais feitas
através dela, assim, a língua é observada desde sua conexão com os fenômenos
linguísticos observáveis no âmbito social.

É nesta concepção de língua e sociedade que a Declaração Universal dos


direitos linguísticos da Unesco define que:

A situação de cada língua, tendo em conta as considerações


prévias, é o resultado da confluência e da interação de uma
multiplicidade de fatores: político-jurídicos; ideológicos e
históricos; demográficos e territoriais; econômicos e sociais;
culturais; linguísticos e sociolinguísticos; interlinguísticos;
e, finalmente, subjetivos (DECLARAÇÂO UNIVERSAL DOS
DIREITOS LINGUÌSTICOS, 1996, p. 3).

Logo, para compreender como cada língua se posiciona no mundo é


preciso analisar uma quantidade extensa de atravessamentos que influenciam o
modo como a língua se apresenta socialmente, ou seja, seu valor social dentro da
comunidade em que está inserida.

Dessa maneira, estes aspectos todos se entrecruzam nas esferas das leis,
das ideologias, da história do povo que a usa, a quantidade de usuários da língua
em questão e das demais línguas em um referido espaço físico; do espaço físico
em que ela é utilizada, da posição econômica das pessoas que utilizam esta língua,
a forma como ela está socialmente inserida dentre possíveis outras no território
de uso, as manifestações culturais feitas através desta língua, das relações que
a própria língua tem em seu interior, tais como os usos formais, informais, as
gírias e a forma como se dão as alterações de uso do léxico e dos demais aspectos
linguísticos. Por fim, a definição da Unesco também destaca a interação subjetiva,
ou seja, dos sujeitos sobre, com e a partir da língua.

Dito de outro modo, tudo que influencia o indivíduo falante/sinalizante


de uma língua, todas as coisas que perpassam as relações humanas, também
influenciam as questões linguísticas, pois a língua é parte constituinte de todas
as relações humanas, de forma que nenhuma pessoa vivendo em sociedade pode
ser afastar completamente dos usos e dos atravessamentos da situação de língua
em que está inserida, seja a língua percebida como um problema, um direito ou
um recurso (QUADROS, 2020).

33
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

3.1 LÍNGUA COMO PROBLEMA, DIREITO E RECURSO


Desenvolvendo esta ideia, pensemos o seguinte: a língua pode ser um
problema quando o indivíduo não tem acesso a serviços de educação, saúde,
emprego, atendimento ou outros vinculados às demais situações da vida em
sociedade, por exemplo, a língua pode ter uma posição de problema quando
o surdo não tem acesso aos serviços em Libras, então, o uso de LP torna-se
uma dificuldade, pois torna mais complexas as interações necessárias para as
interações sociais.

Em relação a ser um direito, a língua é entendida assim quando se pensa


na perspectiva das pessoas pertencentes às minorias linguísticas inseridas em
locais em que a língua majoritária é diferente da sua língua materna (L1), pois
estas pessoas tem o direito de serem inseridas de modo adequado para a sua
realidade linguística dentro da sociedade da qual fazem parte. Por exemplo,
o povo surdo brasileiro tem como língua materna (L1) a Libras e a Língua
Portuguesa é a segunda língua para esta comunidade (L2), logo, o povo surdo
que faz parte da sociedade brasileira tem o direito linguístico de utilizar a Libras
como a língua na qual devem ser realizadas a escolarização, o atendimento de
saúde, os atendimentos em locais públicos, as oportunidades de emprego e
as demais interações necessárias à vida plena em sociedade. Assim, quando a
língua é vista como um direito, ela é perpassada pela noção de respeito à língua
materna do povo que está envolvido no processo de inserção social de forma a ter
respeitados seus direitos de cidadania através da língua.

Quanto à visão da língua como recurso, neste contexto a língua é um


meio para um fim, uma ferramenta ou instrumento que servirá como estratégia
para a facilitação da aprendizagem de algo ou para o uso de algum serviço. Por
exemplo, para o povo surdo, a Libras é um direito linguístico, mas a Língua
Portuguesa em sua modalidade escrita pode ser um recurso para o registro
daquilo que for necessário.

3.2 DIREITOS LINGUÍSTICOS INDIVIDUAIS


Em seu artigo 3ᵒ a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (1996, p. 5)
detalha quais os aspectos referentes aos direitos linguísticos individuais e dos grupos
linguísticos, primeiro observaremos àqueles que dizem respeito ao indivíduo:

Esta Declaração considera como direitos individuais inalienáveis que


devem ser exercidos em todas as situações os seguintes:
• o direito a ser reconhecido como membro de uma comunidade
linguística;
• o direito ao uso da língua em privado e em público;
• o direito ao uso do próprio nome;
• o direito a relacionar-se e associar-se com outros membros da
comunidade linguística de origem;
• o direito a manter e desenvolver a própria cultura.

34
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Pode-se observar que os direitos linguísticos individuais, de acordo com


a Unesco, dão conta de que os sujeitos usuários de todas as línguas deverão
ter respeitados: seu pertencimento a uma comunidade que compartilha as
mesmas experiências linguísticas; o uso da sua língua materna tanto no espaço
privado quanto no espaço público, quer dizer, no interior de suas relações
afetivas e familiares e nos lugares em que se dá a vivência pública em sociedade;
o reconhecimento de seu nome; também deve ser assegurado o direito da
convivência com os demais indivíduos pertencentes a sua comunidade linguística
e, por fim, os indivíduos têm o direito de criar modos de manter e desenvolver
seus processos culturais particulares.

Em relação ao povo surdo, podemos entender que, de acordo com


este artigo da Declaração que estes têm o direito de serem reconhecidos como
pertencentes à comunidade e ao povo surdo, além disso, deve ser assegurado o
contato com as línguas de sinais desde a mais tenra idade tanto em família quanto
nos espaços públicos. Em outras palavras, são necessárias políticas públicas de
apoio às famílias para que a exposição à língua de sinais seja feita desde bebê,
pois a aquisição da linguagem se dá, principalmente, pela interação com a língua
materna, logo, quanto mais demorar para ter contato com a língua adequada
de expressão mais demorará para que língua seja desenvolvida pelo indivíduo.
Além disso, é direito do surdo ter atendimento em Libras nos espaços públicos
para que possa exercer seus direitos, ter acesso à educação, saúde etc.

Este é um tópico muito importante e necessário para as discussões sobre


surdez, pois quando este direito é desrespeitado, existe todo um atraso na
aquisição da linguagem que vai atrapalhar muito a comunicação e expressão do
indivíduo. Devido ao desrespeito pela inserção e exposição à língua de sinais
desde bebê, tanto por resistência da família quanto pela ideia médica de que
serão procuradas soluções e a criança não permanecerá surda, é que vemos tantos
surdos com aquisições variadas de linguagem, alguns apenas com sinais caseiros,
outros com leitura labial e alguma oralização, ainda alguns apenas com apontação,
dentre infinitas possibilidades de aquisições ineficientes por não serem a língua
adequada para a expressão deste povo.

Sobre o direito de relacionar-se com os membros de sua comunidade


linguística, Quadros (2020) chama a atenção para o fato de que, no processo de
escolarização, o projeto de governo atual tem sido o de incluir os estudantes
surdos em turmas regulares com o apoio de um intérprete, o que faz com que
os indivíduos surdos fiquem isolados da comunidade surda e espalhados em
diferentes escolas. Desta maneira, não desenvolvem a língua na interação, a
língua viva, a língua que tem gírias, modificações e neologismos, coisas que só
acontecem nas conversas com grupos de mesma língua, faixa etária e interesses.
Ou seja, não vai acontecer apenas com o intérprete, por mais dedicado que seja.

Por fim, o direito a sua própria cultura e manifestações culturais também


é perpassado pela necessidade de políticas públicas, espaços e fomento para que
a cultura surda possa se desenvolver dentro da sociedade ouvinte.

35
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

3.3 DIREITOS LINGUÍSTICOS COLETIVOS


Ainda no artigo 3ᵒ da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos
(1996, p. 6), é colocado que, em acréscimo aos direitos individuais, existem
aqueles referentes aos grupos linguísticos, são eles:

• o direito ao ensino da própria língua e da própria cultura;


• o direito a dispor de serviços culturais;
• o direito a uma presença equitativa da língua e da cultura do grupo
nos meios de comunicação;
• o direito a serem atendidos na sua língua nos organismos oficiais e nas
relações socioeconômicas.

Assim, os direitos das comunidades linguísticas ampliam os direitos


individuais elencando para os sujeitos linguísticos individualmente, destacando
o ensino da língua e da cultura; a oportunização de serviços vinculados aos
bens culturais como teatro, shows, exposições e a apoio ao desenvolvimento
cultural na língua materna do grupo linguístico específico; ainda destaca a
representatividade nos meios de comunicação e o atendimento na sua língua nas
repartições públicas e nas situações das relações sociais e econômicas.

Pensado nestes aspectos e em relação ao povo surdo brasileiro, percebemos


que ainda são necessárias muitas lutas para que, pelo menos em partes, estes
direitos sejam assegurados, pois socialmente ainda temos muito a inserir na
sociedade de modo a garantir ao povo surdo uma escolarização bilíngue e
bicultural, o espaço para as manifestações culturais, a representatividade na
mídia e o atendimento em Libras.

3.4 DIREITOS LINGUÍSTISCOS DOS SURDOS


Especificamente em relação aos surdos, Rodrigues e Beer (2016, p.
673) retomam o que Lucinda Ferreira Brito (1985) enumerou como os direitos
linguísticos dos surdos propostos a partir dos direitos linguísticos individuais:

(1) à igualdade linguística;


(2) à aquisição de linguagem;
(3) à aprendizagem da língua materna (língua de sinais);
(4) ao uso da língua materna;
(5) a fazer opções linguísticas;
(6) à preservação e à defesa da língua materna;
(7) ao enriquecimento e à valorização da língua materna;
(8) à aquisição-aprendizagem de uma segunda língua;
(9) à compreensão e à produção plenas; [...]

Assim, os direitos linguísticos para o povo surdo fazem referência aos


aspectos específicos do povo surdo dentre as minorias linguísticas e fazem
referências às mesmas situações e necessidades apontadas pela Declaração
Universal dos Direitos Linguísticos.

36
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Desta maneira, percebe-se que as características linguísticas do povo


surdo precisam não apenas ser respeitadas, mas necessitam da compreensão de
que não é um favor ou uma característica de um governo ou de outro o respeito à
língua de sinais, mas uma obrigação da garantia dos direitos dos cidadãos surdos
que vivem dentro do território nacional.

Assim, é de extrema importância a igualdade entre a Libras e a LP; a


exposição à língua de sinais para a aquisição da Libras desde a mais tenra idade;
o uso da Libras em todos os contextos de interação; uso da Libras para as interações
formais e informais; a valorização, preservação, desenvolvimento da Libras e a
aquisição da LP como L2 para as interações escritas. Logo, podemos perceber
que são apontados como direitos linguísticos surdos as questões que preveem
a aprendizagem, uso, preservação e da língua de sinais como forma de estar e
interagir no mundo.

Também Quadros (2020, p. 40) destaca que as crianças surdas têm o


direito de aprenderem tanto a Libras quanto a partir da língua de sinais, tendo
em vista que:

Linguagem é uma necessidade humana


As crianças surdas têm o direito de terem acesso à educação, à saúde e
à vida em sociedade, na sua língua de sinais
O direito à língua de sinais faz parte de vários documentos
internacionais
As pesquisas sustentam a importância e o impacto da língua de sinais
na vida das crianças surda.

Desse modo, a necessidade da linguagem para as pessoas surdas


perpassa a vida em sociedade e traz em si o direito às demais situações que
caracterizam o direito a ser cidadão dentro de sua sociedade.

DICAS

Nestes tempos de pandemia em que as Tecnologias de Informação e


Comunicação garantem o acesso a um sem fim de materiais interessantes, várias
transmissões ao vivo, as famosas lives, se destacaram para a discussão de diferentes
aspectos sobre a surdez, neste momento de nosso estudo, é interessante assistir à live
“Direitos linguísticos com Dra. Ronice Quadros”, pois a pesquisadora apresenta uma
interessante discussão sobre língua, direitos linguísticos dos surdos e o uso da Libras e a
LP na educação de surdos.

Vale a pena assistir!

O vídeo na íntegra está disponível em:


[Link]

37
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

VÍDEO DIREITOS LINGUÍSTICOS DA DRA. RONICE QUADROS

FONTE: Setembro Azul Caxias do Sul (2020, s.p.)

3.5 DIREITOS LINGUÍSTICOS E ESCOLARIZAÇÃO DE SURDOS


A escolarização e o processo de inserção social e garantia de direitos
perpassam todas as discussões sobre a participação social dos surdos, pois
a língua é o modo de interação principal que está em jogo quando se fala em
participação social.

A aprendizagem da língua se dá desde o nascimento, pois as estruturas


sintáticas, vocabulário, formas de uso e demais elementos que fazem parte do
uso de cada língua são apreendidos através do contato com usuários proficientes
na língua materna da comunidade em que a criança nasceu. Isso é tranquilo,
até certo ponto, quando o bebê ouvinte nasce numa família ouvinte ou quando
um bebê surdo nasce numa família surda em que a língua de sinais é utilizada.
Quando a criança nasce ouvinte numa família surda existem inúmeras formas
de acesso à língua oral: outros familiares; um dos cônjuges caso não seja surdo;
materiais diversos de áudio e vídeo, televisão, rádio, música e internet, inclusive
o próprio mundo em que a criança está inserida é voltado para o som, para o
uso da LP, no caso do Brasil. Assim, o contato necessário para o aprendizado da
língua oral-auditiva está tão presente nas interações que esta criança terá que seu
desenvolvimento linguístico não encontrará grandes obstáculos para acontecer
no momento mais sensível da aquisição.

38
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Contudo, no caso das crianças surdas filhas de pais ouvintes, a situação


é absurdamente diferente, pois elas estarão envolvidas apenas na realidade
linguística ouvinte, muitas vezes terão uma demora para o diagnóstico de perda
auditiva ou surdez faz com que a criança perca um importante input (exposição
e inserção de dados linguísticos) necessário para o desenvolvimento pleno da
linguagem. Mesmo que o teste da orelhinha já tenha identificado algum grau
de perda auditiva, a visão médica acaba por influenciar as famílias para que
dirijam seus esforços à recuperação desta perda e não para uma inserção precoce
num ambiente linguístico da língua de sinais. Por isso, muitas vezes as famílias
acabam por manter apenas o foco na oralização, fonoterapia e intervenções
médicas sem a inserção da língua de sinais no cotidiano da criança. Isso acaba
por causar diferentes situações em que ela adquire apenas algum vocabulário e
parcos recurso linguísticos.

Nesta perspectiva a visão histórica e social em conjunto com o


desconhecimento dos processos linguísticos de aquisição da língua por parte dos
responsáveis, pela e da maioria dos profissionais com quem a família tem contato,
faz com que a criança não seja exposta à língua alguma em sua completude o que
atrapalha seu desenvolvimento linguístico para a vida toda. Isso acontece porque,
de acordo com as pesquisas em aquisição feitas na área da linguística, existe
um período em que a mente está mais sensível para o aprendizado da língua e
este aprendizado precoce servirá de base para aquele feito sobre qualquer outra
língua. Ou seja, aprender Libras não faz com que a criança não possa seguir com
os atendimentos médicos que procuram melhorar sua audição ou priorizam a
oralização, não apenas o estudo da língua de sinais não atrapalha a aprendizagem
da língua oral-auditiva como a existência de parâmetros linguísticos faz com que
seja possível aprender outras línguas de modo mais fácil do que quando se é
exposto apenas com mais idade a uma língua.

NOTA

De acordo com o site do Ministério da Saúde (2012) O teste da orelhinha foi


implantado como obrigatório em todas as maternidades a partir de 2010, mas já é rotina no
Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro desde 2006. Este teste tem o objetivo de detectar
precocemente problemas de audição em recém-nascidos e bebês de até dois anos.

Tendo em vista isso, Quadros (2020) afirma que são necessários berçários
e programas de escolarização precoce para que sejam garantidos os direitos de
aquisição da língua de sinais desde cedo para as crianças surdas, pois apenas
assim elas terão uma exposição à língua materna adequada à sua forma de

39
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

compreensão visual do mundo. Além disso, a palestrante destaca que é necessário


o investimento em escolas bilíngues em que os surdos possam ter contato com
todos os aspectos de uso real da Libras a partir da convivência com professores/
funcionários surdos usuários proficientes da língua de sinais e com professores/
funcionários ouvintes também proficientes em Libras.

Na mesma palestra, a professora Ronice também enfatiza que a escola


bilíngue é a melhor opção para as crianças surdas porque elas têm o direito serem
educadas não apenas por profissionais habilitados, mas por pessoas pertencentes à
comunidade surda de modo que os bens culturais do povo surdo sejam também
trabalhados não apenas como conteúdo, mas como vivência comunitária, algo
que pode funcionar apenas uma escola em que todos compartilham do mesmo
ambiente linguístico.

Dito de outro modo, a escola bilíngue pode proporcionar as trocas


linguísticas e culturais que não são possíveis dentro de uma escola regular,
por mais que o corpo docente se esforce e exista um intérprete para o aluno,
o ambiente linguístico continua sendo inserido num contexto ouvinte, ou seja,
inadequado para as trocas linguísticas necessárias.

Contudo, para a existência de mais escolas bilíngues existem problemas


políticos que envolvem verbas e a vontade política dos governos em relação a
fomentar a inclusão dos alunos escola regular. Desta maneira, ainda são necessárias
muitas lutas e reivindicações para a garantia de direitos linguísticos para o povo
surdo dentro da perspectiva de valorização da língua de sinais como L1.

4 REPRESENTATIVIDADE SURDA NA SOCIEDADE


Quando pensamos em uma pessoa surda, qual a imagem que nos vem
à mente? Como esta pessoa está representada em nosso imaginário? Quais são
as características e peculiaridades que estão arraigadas em nossa mente sobre
as pessoas surdas? Como as próprias pessoas surdas se percebem dentro dos
contextos sociais? Existem modelos, apresentadores, atores, séries, filmes e
materiais da cultura surda em circulação na sociedade? Todas estas perguntas
estão relacionadas ao contexto da representatividade, ou seja, do modo como
as representações, as imagens, os estereótipos e os padrões sociais presentes na
mídia que expressam um determinado grupo de pessoas.

Ou seja, a forma como as pessoas surdas são apresentadas nas mídias


em geral moldam e delimitam as maneiras como elas mesmas se veem e como a
sociedade às vê. Um exemplo bem claro de como a representatividade nas mídias
influenciam a visão da sociedade sobre a pessoa surda, é a ideia de que todo
surdo é mudo e se comunica apenas por apontação numa linguagem de sinais
ou por sons guturais, o conhecido “mudinho” dos diferentes filmes, desenhos e
histórias em quadrinhos.

40
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Neste momento, é interessante compreendermos alguns aspectos


relevantes sobre o conceito e o contexto de representatividade de modo geral
(DIAS, s.d., s.p., grifo nosso).

Hoje em dia escuta-se falar muito sobre representatividade e sua


importância dentro do contexto social em prol da formação de
caracteres de indivíduos, sendo este contexto, o ato de ser representado
ou de se sentir identificado dentro da sociedade, utilizando-se de
exemplos de pessoas exibidas pela mídia como inspiração dentro do
âmbito social, profissional e pessoal.
Historicamente diversos grupos sofreram e ainda sofrem medidas
associados a fatos opressores, seja social, econômico, político ou
cultural. Grupos estes que não se associam a padrões preestabelecidos
pela sociedade [...].
Estes grupos qualificados como dominantes acabam sendo seguidos
como "padrões de seres humano", ficando em maior evidência
dentro da sociedade normativa [...] Este estereótipo é altamente
representados em campanhas publicitarias, filmes, novelas ou até
mesmo em desenhos infantis e literatura, sendo vendidos como um
padrão a ser atingido, fortalecendo a ideia do representante máximo
da humanidade, implicando sutilmente no descarte de grupos que não
pertencem a este contexto, os classificando como menos importantes.
Com uma grande ausência de seres representantes destes grupos taxados
como minoria na mídia, os indivíduos pertencentes a eles não conseguem
desenvolver uma construção de autoestima e empoderamento.

Desse modo, a representatividade é um dos modos pelos quais os


indivíduos se sentem pertencentes à sociedade através da compreensão e aceitação
das diferenças entre as pessoas e dos diversos grupos que também fazem parte
da sociedade. Quando os grupos minoritários não têm representação na mídia,
acaba-se por se estruturar um padrão irreal de normalidade que causa dificuldade
para a construção identitária das pessoas que não fazem parte do grupo tido como
padrão. Ademais, como discutimos anteriormente, as inserções preconceituosas,
estereotipadas ou pouco fiéis à realidade das minorias acabam por distorcer a
perspectiva que a sociedade tem sobre as pessoas que compõem o grupo.

Embora a representatividade dos deficientes auditivos e dos surdos tenha


sido ampliada nos últimos anos, podemos perceber que ainda existe subjacente
a ideia de que os deficientes precisam que alguém que fale por ele e não,
necessariamente, são oportunizados lugares de fala para que o próprio surdo
se manifeste. Isso fica evidente pela maior inserção da língua de sinais, o que é
muito importante, mas não necessariamente da cultura surda partindo do surdo
em si e para o surdo, nem do surdo como personagem ou personalidade. Ou seja,
a inclusão de intérpretes e da língua de sinais, embora chame a atenção para a
surdez e para o surdo não é um elemento, necessariamente, de representatividade.

A maioria das produções acaba por (re)apresentar o surdo para os


ouvintes baseando-se apenas na língua de sinais e manter uma ideia meio
excludente, porém, independentemente disso, a representatividade surda
importa sobremaneira para a inserção social do povo surdo.

41
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Para exemplificar a presença de personagens surdos em diferentes


materiais, serão colocadas alguns exemplos e links para acesso:

• DESENHOS

Min e as mãozinhas: desenho todo em Libras em que Min e seus amigos


interagem e ensinam sinais, voltado ao público infantil e disponibilizado
na íntegra no YouTube. Disponível em: <[Link]
UCJtOTvG4EvBGkvtTVVv8Lpg>. Acesso em: 2 out. 2020.

O blog Cultura surda apresenta uma lista de animações e curtas com


personagens surdos, cada uma das obras listadas tem uma breve descrição e,
na maioria das vezes, o vídeo anexado. Disponível em: <[Link]
curtas-animacoes/>. Acesso em: 2 out. 2020.

• HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Uma das turminhas mais conhecidas do Brasil, a Turma da Mônica tem


o personagem Humberto que tem seu nome baseado na única frase que oraliza
“-Hum, hum”, ele foi criado em 1960, começou apenas como o mudinho da
história e, depois:

A partir dos anos 1980 começou a ganhar histórias solo e, em meados


dos anos 2000, passou a se inteirar mais com a comunicação gestual de
LIBRAS (A língua brasileira de sinais), usada pela maioria dos surdos
e mudos, como foi mostrado numa história de 2006, "Aprendendo a
falar com as mãos" (EDITORA SALVAT, s.d., s.p.).

Além disso, a frase de Humberto sempre ganhava um balão explicando


o que ele queria dizer em português, porém, a partir da historinha a que se
refere a citação colocada acima, ele sinaliza em Libras e seu balão ganhou o
formato de mão. Assim, a evolução da personagem retrata o modo que, mesmo
que aos poucos, a visão de que todo surdo é mudo está sendo modificada no
imaginário social. A seguir serão colocados apenas alguns quadrinhos da história
“Aprendendo a falar com as mãos”, o material completo está disponível em:
<[Link]
[Link]>. Acesso em: 2 out. 2020.

42
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

FIGURA 2 – PÁGINA DA HISTÓRIA EM QUADRINHOS "APRENDENDO A FALAR COM AS MÃOS"

FONTE: Souza (2014, s.p.)

43
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Observe os quadrinhos em formato de mãos e a felicidade da personagem


quando os amigos da turminha demonstram terem estudado o livro que ele
deixou para poderem se comunicar com ele. Na história completa pode ser lida
uma parte da história em que Cascão chama a atenção de Magali quando às
dificuldades de comunicação de Humberto enfrenta, mesmo assim, ainda aparece
a confusão que chama de linguagem a língua de sinais.

No site Legião dos Heróis é apresentada uma lista de heróis da ficção


de possuem deficiência auditiva ou são surdos, disponível em: <[Link]
[Link]/lista/10-herois-da-ficcao-que-possuem-deficiencia-
[Link]#list-item-10>. Acesso em: 2 out. 2020. Dentre os citados pelo site,
cabe destaque ao Esquadrão Surdo em que os sinais da ASL são utilizados junto
com os balões clássicos das histórias em quadrinhos para retratar uma ficção de
fantasia em que as personagens são majoritariamente surdas, segundo Johnston
(2013, s.p.) um dos autores do projeto:

Signs and Voices [Esquadrão Surdo] é uma história em quadrinhos que


atrai tanto as comunidades surdas quanto ouvintes. É único e preciso
em termos do mundo surdo, além de ser acessível para a comunidade
de ouvintes. Focalizando um tema central que afeta a todos nós, os
efeitos de ser diferente e a que isso pode levar, algo que cada um
de nós já sentiu pelo menos uma vez, senão várias vezes em nossas
vidas. A história ecoa eventos históricos, mas também enquadra a
possibilidade do que poderia ser e do que estar ciente.

FIGURA 3 – PÁGINA DA HISTÓRIA DE ESQUADRÃO SURDO

Amor.

Lembrem do que o rei


Waardenburg disse.

Nossos poderes
Vibe está certo, um dia o
não são para
sempre. poder irá nos destruir.

FONTE: Johnston (2013, s.p.)

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TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

• SÉRIES

Crisálidas é uma série brasileira criada por Alessandra Rosa Pinho, uma
aluna de Letras Libras da UFSC, a série ficcional tem quatro episódios na primeira
temporada. Ela é licenciada da TV Cultura e foi liberada para acesso na Netflix
em maio de 2020 (UFSC, 2020).

FIGURA 4 – CARTAZ DA SÉRIE CRISÁLIDAS

Fonte: UFSC (2020, s.p.)

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UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

O reality show “Além do som” mostra jovens estudantes da Universidade


Gallaudet, compartilhando suas histórias, vivências e experiências. Netflix Brasil
(2020, s.p.):

Além do Som é um reality show sobre um grupo de alunos da


Universidade Gallaudet, um renomado centro de estudos para
pessoas com deficiência auditiva. As histórias desses amigos – seus
altos e baixos, os relacionamentos e a vida universitária – apresentam
uma perspectiva inédita, sem filtros e surpreendente da comunidade
de deficientes auditivos. Produção executiva de Nyle DiMarco.

FIGURA 5 – REALITY SHOW ALÉM DO SOM

FONTE: Netflix Brasil (2020, s.p.)

• FILMES

No filme “Um lugar silencioso” o mundo foi infestado de criaturas que


atacam ao menor sinal sonoro, assim, se comunicar em língua de sinais passa a
ser uma necessidade para a sobrevivência nesta nova realidade. O filme conta
com a participação da atriz surda Millicent Simmonds, que também participará
da Parte 2 da história, prevista para o ano de 2021.

Também com a mesma atriz, o filme “Sem fôlego”, conta a história de duas
crianças surdas separadas pelo tempo, mas que fazem uma mesma jornada para
Nova York, este filme é baseado no livro de Brian Selznick (CANHISARES, 2018).

No filme “Sequestro” um menino deficiente auditivo acaba envolvido


numa trama muito perigosa por causa de suas mentiras e dos esquemas em que
sua mãe advogada está envolvida, o filme está disponível no serviço de streaming
da Netflix.

46
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Além destes, o site Librasol faz uma lista de dezoito filmes sobre surdos e
língua de sinais. Disponível em: <[Link]
sobre-surdos-e-lingua-de-sinais-para-assistir-em-casa/>. Acesso em: 2 out. 2020.

• PROPAGANDAS

O site Cultura Surda traz muitas propagandas de todo o mundo em que


aparecem os surdos como protagonistas ou que são feitas para eles através do
uso de intérprete de sinais. Disponível em: <[Link]
propaganda/>. Acesso em: 2 out. 2020. Dentre elas, é interessante destacar a feita
pelo grupo Unicesumar para um curso gratuito de Libras oferecido no final de
2018, em que um Papai Noel de shopping estuda Libras para poder atender a uma
menininha surda que fica superemocionada por poder se comunicar em língua
de sinais. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 2 out. 2020.

• LIVROS INFANTIS

Além dos livros já conhecidos com personagens surdos que são


adaptações de histórias clássicas como o Patinho surdo e Rapunzel surda, dentre
outros, com histórias em que personagens surdos aparecem, listados no blog Dia a
dia da educação, disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 2 out. 2020.

Existem ainda outros livros infantis que abordam a diversidade existente


dentro da própria surdez, como os livros escritos por Lak Lobato baseados nas
experiências de em um dia da infância acordar surda e, após 23 anos colocar o
implante coclear, ela narra as aventuras de Lalá uma menina que sai à procura
do som mais belo mesmo vivendo numa bolha de silêncio no primeiro livro “E
não é que eu ouvi?” (2017) e vem contar suas descobertas sobre a vida com o
implante no livro “Lalá é assim: diferente igual a mim” (2020). A autora chama a
atenção para a questão de que os surdos são um povo diverso em que diferentes
realidades e vivências se entrecruzam e defende a representatividade do máximo
de realidades surdas possíveis.

47
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

FIGURA 6 – LIVROS DE LAC LOBATO

FONTE: Lobato (2017, s.p.); Lobato (2019, s.p.)

• EMOJIS

Em 17 de julho de 2019 foram lançados emojis, os famosos desenhos para


os aplicativos de mensagens com símbolos específicos para surdos e deficientes
auditivos, ter representação em diferentes segmentos é muito importante para a
representatividade surda.

FIGURA 7 – EMOJIS SURDOS E DEFICIENTES AUDITIVOS

FONTE: App de troca de mensagens dos autores

• POLÍTICAS

O governo federal, desde 2019, tem dado mais visibilidade à Libras e


apresentando diferentes modos de proporcionar acesso a discursos, campanhas e
conteúdos para o público surdo através da sinalização e da realização de discursos
em língua de sinais realizados pela primeira dama Michele Bolsonaro, bem como

48
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

vídeos em que os demais partícipes do governo federal fazem uma homenagem


ao dia do surdo em setembro de 2020. Além disso, a secretaria nacional dos
Direitos da Pessoa com Deficiência, do Ministério da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos do Brasil tem como líder a surda Priscilla Gaspar, o que ainda
não havia acontecido nos altos escalões do governo brasileiro.

5 TRABALHO, CONSUMO E SURDEZ


As questões de trabalho e consumo no âmbito da surdez estão
relacionadas de modo intrínseco às oportunidades de escolarização, estudo,
disponibilidade de vagas, acessibilidade e legislação. Para ilustrar esta relação
e proporcionar material para a discussão, vamos conhecer a história de Maria e
Josy contada a seguir:

Em 2007, dentro de uma organização grande e com diversos setores


de atendimento ao público de um setor específico de empresas, foi colocada
em prática a lei que obrigava as empresas à contratação de um percentual de
deficientes em relação ao número de postos de trabalho. Pois bem, na maior
parte das vezes, eram contratadas pessoas com mínimas deficiências físicas, o
que exigia uma pequena adaptação do espaço físico e apenas isso.

Contudo, em uma das contratações acabaram selecionando para o


atendimento no setor de odontologia, uma moça surda usuária fluente da língua
de sinais e que tinha o Ensino Médio completo. Pois bem, no setor de Educação,
trabalhava Maria, professora de português que estudava Libras desde 2005 e
que tinha começado a atender alunos surdos matriculados na instituição. Até
aí, as duas não se conheciam, um dia, a coordenadora pedagógica apresentou
Josy, a jovem surda que estava na odontologia, dizendo que ela passaria a ser
uma das atendentes da secretaria.

No momento em que as duas se conheceram puderam conversar em


Libras e Josy contou que ficava o tempo todo do trabalho no setor anterior
dormindo no depósito, pois ninguém sabia Libras e nem queria interagir com
ela, então, a deixavam quieta e ela dormia todas as tardes, pois ninguém dizia
o que fazer, conversava ou tentava conversar com ela. Josy também disse que
estava muito feliz por ser recebida num setor em que as pessoas queriam
interagir com ela.

Deste dia em diante, passou a receber funções que pudesse executar e


foi acolhida pelo grupo de modo que muitos foram fazer cursos de Libras e
ela era convidada e participava de todas as reuniões, festas, amigos secretos
e demais atividades realizadas pelos funcionários do setor de Educação,

49
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

quando necessário, chamava Maria para servir de intérprete, no dia do amigo


secreto, foi uma diversão. Claro que nem sempre tudo era maravilhoso, muitas
dificuldades de comunicação, principalmente na hora dos “puxões de orelha”,
Josy fingia não entender, fechava os olhos e se negava a facilitar a comunicação.
Por ter ficado tanto tempo sem fazer nada no outro setor, ao ser exigida, às
vezes, ela emburrava e se negava a trabalhar fazendo o que era pedido.

Também apareciam alguns pontos de adaptação dos ouvintes e dela


para a convivência, como não ouvia, ela não percebia o barulho ao comer e
mastigar, o que incomodava os ouvintes; assim como os ouvintes alunos da
escola não compreendiam o porquê de aquela funcionária sempre pedir ajuda
ou permanecer virada de costas quando eles chamavam a plenos pulmões. Ou
seja, era um trabalho e uma convivência realmente inclusiva, tanto é que Josy
e Maria, até chegaram a ministrar uma oficina de Libras em conjunto para os
demais colegas do setor.

Mesmo hoje, 12 anos depois, Maria ainda lembra com carinho da ex-
colega e desta experiência verdadeiramente de inclusão em que a colega era
respeitada a ponto de levar bronca, arranjar brigas e, depois, fazer as pazes.

FONTE: Os autores

A história de Maria e Josy toca em vários aspectos interessantes sobre


o mercado de trabalho para o povo surdo, observe que Josy tinha o Ensino
Médio completo, algo que nem sempre é tão comum para as pessoas surdas,
além disso, ela tinha uma vivência franca e aberta para se comunicar com os
ouvintes, aceitando escrever, fazer mímicas e tentar de todo jeito estabelecer
uma comunicação.

Além disso, Josy sabia e era fluente em Libras o que também nem
sempre é uma realidade para os surdos, alguns anos antes ela sequer teria tido
contato com pessoas fora da sua família e poderia nunca ter aprendido Libras
ou sido alfabetizada. Isso porque, anteriormente, os deficientes ficavam em
casa ou eram acolhidos apenas nas escolas especiais, o que fazia com que não
tivessem desenvolvido estratégias para estabelecer a comunicação de diferentes
modos. Também chama a atenção a presença de alunos surdos e colegas surdos
no ambiente do setor de Educação, o que trazia o surdo em diferentes papéis,
mas incluído.

50
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Nos aspectos negativos, podemos perceber que a legislação que


obriga as empresas com mais de 100 funcionários a terem em seus quadros
um percentual de 3% a 5% de deficientes nem sempre é garantia de inclusão,
tendo em vista que, mesmo contratada, Josy estava largada em um canto sem
estar realmente trabalhando, apenas cumpria sua carga-horária dormindo,
ou seja, não era inclusão coisa alguma. Também são interessantes os aspectos
de como Josy tentava se eximir da responsabilidade no momento das broncas,
se recusando a utilizar as estratégias aprendidas para a conversa com a sua
chefe ouvinte.

Esta história nos mostra um momento de ruptura de padrões no


ambiente de trabalho em que a entrada de um funcionário surdo, é contratado,
primeiro vai para um setor em que não tem o mínimo acolhimento e, depois, é
inserido em um lugar em que vivencia junto com seus colegas as dificuldades
de desacomodar os padrões subjacentes àquele ambiente de trabalho, sendo
exatamente esta uma das dificuldades encontradas para a sua inserção no
mercado de trabalho, pois não bastam leis, são necessárias readequações de
padrões interpessoais e intrapessoais, bem como normas implícitas de conduta,
de interação, de comunicação, de hierarquia e, também, de padrões linguísticos.

O que foi exposto acima traz um exemplo daquilo que Marin e Goés
(2006, p. 236 apud Carneiro e Soares 2017, p. 15) destacam sobre a dificuldade
de as pessoas surdas serem contratadas:

Um dos problemas é relativo à resistência dos empregadores em


contratar pessoas surdas. Elas sofrem o preconceito e, muitas vezes,
veem negadas as oportunidades de mostrar suas capacidades e
talentos. Quando conseguem um emprego, sentem dificuldades para
construir relações interpessoais e compreender a própria dinâmica do
espaço laboral [...].

Assim, os autores chamam a atenção não apenas para a dificuldade


de os surdos serem contratados, mas os empecilhos para que permaneçam
no trabalho devido às dificuldades não apenas de comunicação como das
relações interpessoais.

Ainda sobre mercado de trabalho e inserção dos surdos, Carneiro e Soares


(2017, p. 14 e 15) trazem a discussão sobre as possibilidades de emprego para as
pessoas surdas e a necessidade de certa reserva de vagas para os cargos como
professor de Libras, intérprete e demais cargos vinculados à língua de sinais.

Para os surdos, as opções são de auxiliares de várias funções,


professor de Libras, instrutor, promotor de vendas, entregador, linha
de produção, pedreiros, marceneiros, serventes, zeladores e outras
vagas que não utilize telefone ou tenha atendimento ao público. Pode-
se ver que, dentre as opções possíveis, a carreira universitária, como
professor de Libras é a mais atraente, mais bem remunerada e a que
oferece melhor status social.

51
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Dessa maneira, as autoras destacam que as oportunidades de emprego para


o povo surdo são apenas as que pressupõem menor escolaridade e especialização
e defendem que seja permitida a reserva de vagas para os surdos dentre as vagas
de maior status e maiores salários. Esta discussão toca em aspectos complexos de
inclusão, inserção e como a escolarização dos surdos, acaba por ficar vinculada às
faculdades de pedagogia e às licenciaturas no ensino superior. Obviamente, ainda
existe todo o público que acaba por não ser atendido pelos processos de inclusão
escolar, logo, também existe todo um contingente de pessoas que também estão
à procura de vagas no mercado de trabalho que não têm formação específica e
concorrem, nunca em igualdade de condições, com os ouvintes.

Algumas empresas criaram programas para inserção de deficientes e


trabalham de modo a inserir e incluir pessoas surdas ou deficientes auditivas em
seus quadros de funcionários. Dentre as citadas pelo site Freedom (2020, s.p.),
chamam a atenção os projetos de duas grandes empresas nacionais, a Natura e o
Magazine Luiza:

Natura
[...] Dentro desse projeto, se destaca o trabalho realizado com a inclusão
de surdos: os colaboradores ouvintes da empresa são convidados a
participar de cursos de Libras e se tornarem padrinhos dos colegas com
deficiência que entram na organização. Esses padrinhos acompanham
os novos companheiros nas atividades diárias, auxiliando no processo
de inclusão ao quebrar as barreiras de comunicação.
Além disso, a organização utiliza um intérprete virtual que, por
meio de um aplicativo e um tradutor de sites, leva a acessibilidade e
informações para surdos de todo o país. Com essas ações, a empresa
estimula o debate sobre a inclusão além do ambiente de trabalho. [...]

Magazine Luiza
O Magazine Luiza também possui uma cultura organizacional que
busca investimentos na inclusão e acessibilidade. Desde 2013, a
empresa oferece um programa com treinamentos e incentiva seus
colaboradores, de lojas e escritórios, a compartilharem experiências e
a se sensibilizar pela inclusão da pessoa com deficiência no ambiente
de trabalho.
Durante a implantação do programa, a empresa percebeu que muitos
de seus funcionários tinham receios de como lidar corretamente
com um colega com deficiência. Isso fez com que a organização
desenvolvesse estratégias de comunicação interna com o objetivo
de engajar toda a equipe, esclarecendo dúvidas e proporcionando
conhecimento.
[...]
No caso do Magazine Luiza, a inclusão vai além dos funcionários e
se estende também para seus clientes. O site da empresa pode ser
acessado por meio de Libras e disponibiliza um aplicativo que auxilia
a navegação de pessoas com dificuldades para digitar, mover o mouse
ou com dificuldades na leitura. Esse tipo de iniciativa permite aos
usuários com deficiência uma experiência intuitiva e sem barreiras.

52
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

Observe que as duas empresas investiram não apenas na contratação


dos funcionários surdos e deficientes, mas que também desenvolveu estratégias
para descobrir e sanar as dificuldades dos demais colaboradores em relação à
convivência com os colegas surdos e deficientes. Desta forma, as empresas citadas
apresentam um viés que procura verdadeiramente ser inclusivo não apenas para
a entrada das pessoas, mas também para permanência e acolhimento dos surdos
e deficientes pelos seus pares.

Já, em relação ao mercado como modo de consumo, as empresas


descobriram recentemente que se ater aos padrões e ao estereótipo majoritário da
sociedade (neste contexto de discussão, homem/mulher, branco, heterossexual
e ouvinte) não era mais suficiente frente às ideias de representatividade e a
necessidade de atingir um público que não quer mais comprar de empresas
que não o identifiquem como consumidor e que está cada vez mais conectado
e exigente. Pois quanto maior o acesso à escolarização, ao emprego, à língua
sinalizada/escrita e ao conhecimento de seus direitos, mais exigente fica o
consumidor para com as empresas que podem ou não o representar.

Além disso, as TICs (tecnologias de informação e comunicação), o uso


da inteligência artificial, os diversos aplicativos de tradução simultânea para a
Libras, o acesso aos smartphones e a ampliação da rede de banda larga, wi-fi e
tecnologia 3G, 4G e até 5G fizeram com que cada vez mais pessoas começassem a
procurar o comércio virtual para realizar as suas compras. Assim, com o auxílio
de apps como o Hand Talk e seu simpático intérprete Hugo, as lojas começaram a
investir em propagandas, apps, softwares de acessibilidade e modos de garantir
que as pessoas surdas ou com outras dificuldades de acesso possam também
comprar em seus e-commerces.

Como citado acima, um exemplo é o Magazine Luiza, que é uma empresa


que investiu tanto na contratação de colaboradores quando no acesso aos clientes
e no site da empresa é possível habilitar o botão de acessibilidade em Libras,
em que Hugo irá auxiliar o cliente surdo, ao acionar o botão o intérprete virtual
aparece no canto direito da tela e o cursor ganha o símbolo de acessibilidade em
Libras bastando selecionar o texto para a tradução automática pelo Hugo.

53
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

FIGURA 8 – BOTÃO DE ACESSIBILIDADE EM LIBRAS COM O USO DO HAND TALK

FONTE: Magazine Luiza (s.d., s.p.)

UNI

Imagine uma empresa apenas para surdos trabalharem e em que tudo está
em língua de sinais, pois bem, esta é a ideia do Gato Sordo Cafeteria.

54
TÓPICO 2 — INSERÇÕES SOCIAIS: REPRESENTATIVIDADE, MERCADO DE TRABALHO E LÍNGUA

GatoSordo Cafeteria

POR [Link] POSTADO EM: 22 ago. 2020.

Em novembro de 2016, na esquina das ruas Padre Lloreda Manuel de la Torre e


Sánchez de Tagle, nos arredores do centro histórico da cidade de Morelia (Michoacán, México),
uma nova cafeteria surda passou a chamar a atenção da população local: a GatoSordo.

Na fachada, o nome GatoSordo é também estampado com letras do alfabeto


manual e a frase “Tu espacio de inclusión” (“Seu espaço de inclusão”) indica que, por ali,
todos e todas são muito bem-vindos(as).

Fundada e gerida por Magdalena Vargas (ouvinte), a GatoSordo – um negócio de


impacto social – busca não só empregar e capacitar profissionais surdos, como promover
para quem o frequenta um pouco das culturas surdas e da Lengua de Señas Mexicanas (LSM)
– que se espalha por cartazetes, quadros, livros e ilustrações em todo o pequeno salão.

Como em outras várias cafeterias surdas espalhadas pelo mundo, o


estabelecimento conta com menus ilustrativos (bilíngues) e dispositivos vibratórios para
acionar os atendentes surdos. E se a divulgação da LSM é um dos principais objetivos da
cafeteria, não poderiam deixar de acontecer ali os cursos regulares de língua de sinais,
oferecidos em pequenas turmas a crianças, jovens e adultos.

Para assistir ás reportagens sobre esta cafeteria acesse:


[Link]
[Link]

55
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A língua tem o poder de fundar e estabelecer parâmetros de cidadania nas


diferentes sociedades.

• A linguagem é qualquer modo de interpretação, percepção e observação das


coisas de uma forma que pode ser extremamente pessoal e difícil de explicar.

• Já a língua é uma parte da linguagem que é socialmente estruturada,


convencionada e organizada de forma que todas as pessoas que utilizam
aquela língua possam se comunicar e compreender as intervenções no mundo
feitas através dela de modo a diminuir as possibilidades de confusão entre
seus usuários.

• É através da língua compartilhada entre os usuários que as sociedades se


estruturam e, por isso, a inserção linguística na modalidade falada e escrita
tem um peso extremamente importante para que as pessoas possam exercer
plenamente seus direitos, trabalhar, estudar e viver em sociedade.

• É muito mais complexo ter acesso aos bens e serviços quando estes são
oferecidos em uma língua sobre a qual a pessoa não tem domínio pleno.

• As Políticas Públicas que garantem o reconhecimento da Libras como meio


legal de comunicação e expressão, além dos demais direitos linguísticos
associados ao uso dela, são de extrema importância para a comunidade e o
povo surdo.

• A língua não é apenas um modo de organização social, mas que é através da


língua que estruturamos a nossa própria forma de pensar e agir no mundo.

• Para compreender como cada língua se posiciona no mundo é preciso analisar


uma quantidade extensa de atravessamentos que influenciam o modo como a
língua se apresenta socialmente.

• A língua é parte constituinte de todas as relações humanas, de forma que


nenhuma pessoa vivendo em sociedade pode ser afastar completamente
dos usos e dos atravessamentos da situação de língua em que está inserida
(QUADROS, 2020).

• Os direitos linguísticos individuais, de acordo com a Unesco, dão conta de que


os sujeitos usuários de todas as línguas deverão ter respeitados.

56
• O direito a sua própria cultura e manifestações culturais também é perpassado
pela necessidade de políticas públicas, espaços e fomento para que a cultura
surda possa se desenvolver dentro da sociedade ouvinte.

• Os direitos linguísticos para o povo surdo, fazem referência aos aspectos


específicos do povo surdo dentre as minorias linguísticas e fazem referências
às mesmas situações e necessidades apontadas pela Declaração Universal dos
Direitos Linguísticos.

• São apontados como direitos linguísticos surdos as questões que preveem a


aprendizagem, uso, preservação e da língua de sinais como forma de estar e
interagir no mundo.

• A necessidade da linguagem para as pessoas surdas perpassa a vida em


sociedade e traz em si o direito às demais situações que caracterizam o direito
a ser cidadão dentro de sua sociedade.

• A escolarização e o processo de inserção social e garantia de direitos


perpassam todas as discussões sobre a participação social dos surdos, pois a
língua é o modo de interação principal que está em jogo quando se fala em
participação social.

• A escola bilíngue pode proporcionar as trocas linguísticas e culturais que não


são possíveis dentro de uma escola regular.

• A forma como as pessoas surdas são apresentadas nas mídias em geral moldam
e delimitam as maneiras como elas mesmas se veem e como a sociedade às vê.

• Historicamente diversos grupos sofreram e ainda sofrem medidas associados a


fatos opressores, seja social, econômico, político ou cultural. Grupos estes que
não se associam a padrões preestabelecidos pela sociedade.

• As questões de trabalho e consumo no âmbito da surdez estão relacionadas de


modo intrínseco às oportunidades de escolarização, estudo, disponibilidade
de vagas, acessibilidade e legislação.

• Existe todo um contingente de pessoas que também estão à procura de vagas


no mercado de trabalho que não têm formação específica e concorrem, nunca
em igualdade de condições, com os ouvintes.

• Quanto maior o acesso à escolarização, ao emprego, à língua sinalizada/escrita


e ao conhecimento de seus direitos, mais exigente fica o consumidor para com
as empresas que podem ou não o representar.

57
AUTOATIVIDADE

1 Em seu artigo 3ᵒ, a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos


(1996, p. 5) detalha quais os aspectos referentes aos direitos
linguísticos individuais e dos grupos linguísticos, primeiro
observaremos àqueles que dizem respeito ao indivíduo:

I- O direito a ser reconhecido como membro de uma comunidade linguística.


II-O direito ao uso da língua em privado e em público.
III-
O direito ao uso do próprio nome.
IV-O direito a relacionar-se e associar-se com outros membros da comunidade
linguística de origem.
V- O direito a omitir e renegar a própria cultura.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

2 De acordo com o estudo sobre inserções sociais: representatividade,


mercado de trabalho e língua, do Tópico 2, analise as sentenças,
classificando V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) A linguagem é qualquer modo de interpretação, percepção e observação das


coisas de uma forma que pode ser extremamente pessoal e difícil de explicar.
( ) É muito simples ter acesso aos bens e serviços quando estes são oferecidos
em uma língua sobre a qual a pessoa não tem domínio pleno.
( ) A necessidade da linguagem para as pessoas surdas perpassa a vida em
sociedade e traz em si o direito às demais situações que caracterizam o
direito a ser cidadão dentro de sua sociedade.
( ) Historicamente diversos grupos sofreram e ainda sofrem medidas
associados a fatos opressores, seja social, econômico, político ou cultural.
( ) Quanto maior o acesso à escolarização, ao emprego, à língua sinalizada/
escrita e ao conhecimento de seus direitos, menos exigente fica o
consumidor para com as empresas que podem ou não o representar.

Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) V – V – V – F – F.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) F – V – V – F – V.
d) ( ) V – F – V – V – F.
e) ( ) V – F – V – F – V.

3 Com relação ao trabalho e ao consumo, no âmbito da surdez, descreva o


perfil do consumidor atual.
58
TÓPICO 3 —
UNIDADE 1

O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A
SURDEZ

1 INTRODUÇÃO
Até este momento dos estudos presentes neste livro didático foram
debatidos processos, históricos, sociais, políticos, comunitários, linguísticos,
de representatividade e laborais em relação aos surdos. Deste modo, vimos
os estereótipos que a história perpetuou, a sociedade acreditou e as políticas
públicas, às vezes, tentaram modificar, às vezes, reforçaram. Além disso, foram
estudados aspectos dos conceitos de comunidade e povo surdo e como têm direitos
linguísticos que precisam, com urgência, serem respeitados e valorizados, foram
apontados elementos e obras que trouxeram e deram visibilidade aos surdos e a
elementos da cultura surda. Por fim, foram trazidas algumas reflexões acerca da
relação entre surdez, trabalho e mercado de consumo.

Dito de outra forma foram estudadas até este momento algumas


noções que discutem a surdez em relação ao todo da sociedade e das relações
estabelecidas através da língua. Já neste tópico, que encerra a Unidade 1, serão
abordados alguns elementos referentes aos processos de escolarização em relação
às pessoas surdas. Inicialmente serão retomados os principais movimentos
metodológicos para o ensino de surdos, depois, serão discutidos alguns aspectos
do estudo de surdos nas escolas regulares através do processo de inclusão. Ainda
serão trazidas algumas reflexões sobre a inserção da Libras nas universidades
e, por fim, algumas ponderações sobre a presença de professores surdos nas
instituições de ensino.

2 PROPOSTAS EDUCACIONAIS PARA ATENDIMENTO


AOS SURDOS
Aqueles aspectos históricos e sociológicos vistos anteriormente sobre a
surdez e a visão sobre os surdos influenciaram e permanecem subjacentes às
propostas educacionais para atendimento aos alunos surdos.

De acordo com Strobel (2009, p. 12, grifo nosso), a história educacional


dos surdos pode ser dividida em três grandes fases, são elas:

59
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

1- Revelação cultural: Nesta fase os povos surdos não tinham


problemas com a educação. A maioria dos sujeitos surdos dominava
a arte da escrita e há evidência de que antes do congresso do Milão
havia muitos escritores surdos, artistas surdos, professores surdos
e outros sujeitos surdos bem-sucedidos.
2- Isolamento cultural: Ocorre uma fase de isolamento da
comunidade surda em consequência do congresso de Milão de
1880 que proíbe o acesso da língua de sinais na educação dos
surdos, nesta fase as comunidades surdas resistem à imposição da
língua oral.
3- O despertar cultural: A partir dos anos 60 inicia uma nova fase para
o renascimento na aceitação da língua de sinais e cultura surda após
muitos anos de opressão ouvintista para com os povos surdos.

Nesta perspectiva apresentada pela autora, o isolamento cultural imposto


pelo Congresso de Milão em 1880 foi um grande retrocesso que trouxe inúmeros
problemas para o povo surdo, pois, ao proibir o uso das línguas de sinais, trouxe
a invalidação de toda uma carga cultural, social e identitária que ainda levará
muito tempo para ser retomada. Mesmo após o período chamado pela autora
de Renascimento Cultural, as ideias de proibição e invalidação das línguas de
sinais permanecem implícitas em muitas propostas educacionais e na visão da
sociedade sobre os surdos.

Em relação aos processos educacionais recentes no Brasil, Lira (2009,


p. 8), coloca que: “Com poucas exceções, a educação de surdos, no Brasil, foi
sempre definida a partir da pedagogia dos ouvintes. O modelo de ensinar tem
como prioridade o modelo de aprender dos ouvintes”. Assim, a autora opina que
as propostas pedagógicas pensadas para o povo surdo levam em consideração
o modo de aprender dos ouvintes para delinear as políticas e propostas
educacionais que foram colocadas em pauta para que as crianças e jovens surdos
aprendam. Isso tornou inviável o aprendizado tanto das línguas envolvidas no
processo (LP e Libras) quanto dos demais conteúdos que são ensinados através,
principalmente, da LP.

Dentro das propostas adotadas, Quadros (1997) identifica que tivemos no


Brasil a fase em que a proposta de Educação Oralista era a mais utilizada, após,
tivemos aquela que priorizava o bimodalismo e, atualmente, se delineia uma
proposta bilíngue para a educação de surdos. Porém, Lira (2009) coloca também,
entre as propostas, a escola de educação inclusiva e traz em sua pesquisa aspectos
interessantes sobre a perspectiva de uma aluna surda neste processo de inclusão
dos surdos nas escolas regulares. Além disso, Quadros (2020) também traz reflexões
sobre o processo de escolarização nas escolas inclusivas e defende, mais uma vez e
sempre, a escola bilíngue e bicultural como a melhor para o público surdo.

60
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

Agora serão discutidas brevemente as características de cada uma das


propostas e o que está implícito sobre a compreensão da surdez em cada uma das
propostas apresentadas.

2.1 ESCOLAS DE MODELO ORALISTA


O modelo de educação oralista se baseia na premissa de que é
imprescindível ao aluno surdo que ele aprenda a língua ouvinte majoritária nas
modalidades oral e escrita, deste modo se baseia na visão do surdo como a aquela
pessoa em que falta a audição, mas que com esforço e investimento dos pais, do
surdo, dos médicos, dos fonoterapeutas e dos professores será possível suprir a
falta da audição através de técnicas que priorizam a repetição de sons e a leitura
labial. Na proposta oralista a língua de sinais é de uso proibido em todos os
contextos, sendo necessário que o surdo seja constantemente forçado a se utilizar
de técnicas baseadas no esforço e na repetição, mesmo que sem compreensão,
muito demorado e difícil.

Segundo Quadros (1997), Lira (2009) e Strobel (2009), os estudos com


estudantes surdos alunos de escolas oralistas demonstram que existem inúmeras
defasagens linguísticas decorrentes desta metodologia de ensino para os surdos.
De acordo com pesquisas trazidas pelas autoras, existem grandes problemas na
proposta oralista para a educação, pois mesmo com um enorme investimento de
tempo e treino:

• pouquíssimos adultos surdos são alfabetizados através desta proposta;


• atraso escolar, de desenvolvimento da linguagem e problemas de autoestima;
• muitas reprovações e permanências nas mesmas séries, às vezes, até retrocessos;
• apenas 20% da mensagem é compreendida com a leitura labial; mesmo com
muito tempo de vida escolar, a maioria dos surdos não consegue nem ler e
escrever com um mínimo de proficiência;
• os surdos formados por este tipo de escola não têm condições de competir no
mercado de trabalho por não entenderem completamente o que é dito, por
necessitarem de condições muito específicas de interlocução (pessoa virada
para ele, articulação correta das palavras e pausas entre elas);
• os surdos provenientes deste tipo de escola, por mais que treinem a
articulação das palavras conseguem uma pronúncia que será compreendida
apenas por quem convive com eles e tem experiência na compreensão dos
sons articulados artificialmente;
• ocorre uma grande defasagem em relação não apenas à língua mas a todos
os demais conteúdos curriculares, posto que o aluno surdo não consegue
acompanhar as discussões em sala de aula e copiar do quadro, sendo que
mesmo a cópia do quadro é complexa porque exige um conhecimento da
palavra como um todo e não como partes articuláveis fonologicamente, o que é
inviável para a maioria dos surdos;

61
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

• a enorme quantidade de esforço depreendido para um pequeno avanço em


direção à leitura e à escrita faz com que os alunos acabam por se enjoar destes
processos, o que causa efeitos ao longo de toda a vida numa sociedade em que
as relações se dão, principalmente, através da escrita;
• na maioria das vezes, o surdo que vem das escolas oralistas, acaba por ser um
repetidor pouco eficiente das palavras na fala e analfabeto funcional na escrita.

Dessa forma, a proposta de escolarização oralista, não apenas pouco


contribuí para a relação saudável do surdo com a língua oral do país, como
também atrasa o desenvolvimento linguístico por não permitir o uso da língua
de sinais. O surdo acaba por ficar sem uma estrutura de língua bem delimitada
e bem definida, pois a insistência na língua oral e na oralização não permite que
ele estruture seu conhecimento linguístico. Assim, na visão de Quadros (1997),
Lira (2009), Strobel (2009), entre outras pesquisadoras em língua de sinais, a
proposta oralista não é a mais adequada para o ensino de surdos e traz inúmeros
problemas para o processo de escolarização e para a aquisição da língua e da
escrita pelos surdos.

2.2 MODELO BIMODALISTA


O modelo bimodalista para o ensino de surdos, segundo Quadros
(1997), é uma proposta em que o surdo tem a permissão de utilizar a língua
de sinais, porém ela é utilizada apenas como um meio para aprender a língua
portuguesa. Ou seja, a língua de sinais não é tema de aprendizagem, ela
apenas deve servir ao estudo da língua oral.

Além disso, dentro da perspectiva desta proposta não são respeitadas


as estruturas, as peculiaridades e as necessidade de sinalização da língua de
sinais, pois a estrutura utilizada é a do português numa versão sinalizada. A
consequência deste tipo de uso é que nem uma nem outra língua é utilizada
de modo pleno e a língua de sinais acaba, na verdade, não sendo utilizada
porque a Libras não se sustenta apenas nos sinais, mas em todos os parâmetros
fonológicos, semânticos e sintáticos que são a base estrutural de qualquer língua
e que são peculiares e específicos de cada língua.

Dito de outra forma, cada língua tem características estruturação dos


fonemas para formas palavras/sinais; peculiaridades de sentido e modos de
organizar as palavras/sinais dentro das frases de forma que aquilo que está sendo
dito/escrito esteja de acordo com o que o falante/sinalizante quer transmitir.
Assim, quando uma língua é forçada dentro dos parâmetros de outra ela deixa
de ter os atributos que a permitem ser chamada de língua, a Libras acaba sendo
colocada numa situação em que perde o status de língua e vira uma ferramenta
de sinais meio capenga para mais ou menos fazer a conversão de sinais para LP
e LP para sinais.

62
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

Assim, acaba criado um sistema artificial que não abarca as características


da Libras e nem da língua portuguesa, pois ao tentar sinalizar e falar acaba-se
não fazendo nenhuma das duas coisas direito e nem respeitando a estrutura das
duas línguas, porque, diferentemente do trabalho do intérprete que, ou traduz
dos sinais para o oral ou do oral para os sinais, no uso de sinais numa estrutura de
LP, acaba-se perdendo o ritmo da enunciação da língua oral (ao ter que sinalizar
junto) e destruindo o que caracteriza a língua de sinais como língua.

De acordo ainda com Quadros (1997, p. 26), o sistema bimodal se


demonstrou ineficiente para o ensino de surdos e da LP, pois “[...] tem-se
verificado que as crianças surdas continuam com defasagem tanto na leitura
quanto na escrita, como nos conhecimentos dos conteúdos escolares”.

2.3 A INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS NAS INSTITUIÇÕES


REGULARES
Com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva de janeiro de 2008, as escolas de educação especial perderam espaço
nas políticas do Governo Federal e priorizou-se a matrícula nas escolas regulares
para os alunos com Necessidades Educacionais Especiais, classificação em que os
alunos surdos foram inseridos pelas políticas públicas. Assim, a escola regular foi
entendida como direito de todos e, para auxiliar nos processos de inclusão, Salas
de Atendimento Educacional Especializado (AEE) começaram a ser criadas nas
escolas regulares.

Como resultado desta política as escolas e classes especiais saem de


cena e os alunos surdos passam a ter sua matrícula priorizada nas instituições e
classes regulares contando, em alguns casos, com a presença de intérprete ou da
professora do AEE que soubesse Libras ou tivesse a boa vontade de tentar dar
conta do atendimento para este aluno.

A ideia da inclusão de surdos nas escolas regulares é bastante sedutora,


porém a peculiaridade linguística do povo surdo acarreta o seguinte, as reflexões
a seguir se baseiam em Lira (2009), Lima (2012), Quadros (2020) e na experiência
pessoal dos autores como professores de AEE em escolas regulares:

• Aparentemente, apenas a presença de um intérprete resolveria a situação, porém


as vivências surdas são tão complexas e multifacetadas que nem todos os
surdos têm proficiência em língua de sinais; nem todo surdo se identifica
como surdo; nem todo DA se entende como surdo; nem toda pessoa surda
adquiriu alguma forma de comunicação estruturada reconhecível; dentre uma
infinidade de combinações que vão desde oralização precária até a completa
negação da surdez. Logo, a simples presença de um intérprete atenderá apenas
a uma parcela dos alunos surdos.

63
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

• A didática e pedagogia da maioria dos professores não é adaptada para o público


surdo, pois a inclusão numa classe regular com intérprete (quando tem este
profissional) dá a falsa ideia de que ele vai dar conta de traduzir a aula e
que apenas isso basta para que o aluno surdo compreenda os conteúdos,
atividades e seja capaz de realizar as avaliações; isso ignora completamente os
aspectos específicos que a diferença de modalidade acarreta para a diferença
de formas de raciocínio, elementos culturais e diferenças entre os níveis de
aquisição linguística de cada aluno surdo.
• O demais funcionamento da escola se organiza em torno da experiência e da
percepção ouvinte da realidade, assim, o aluno surdo acaba ficando de fora de
várias das atividades pensadas para o corpo discente, tendo em vista que elas
foram pensadas numa lógica linguística e cultural ouvinte que pouco conversa
com o modo de estruturação das comunidades e do povo surdo.
• Os conteúdos estudados em todas as matérias são na perspectiva majoritária,
ou seja, a história, a geografia, o ensino de Língua Estrangeira Moderna e todos
os demais conhecimentos são na perspectiva ouvinte.
• Nem sempre são contratados profissionais para a interpretação. As pessoas
que farão a interpretação não têm o conhecimento específico de todas as matérias
e, às vezes, nem mesmo da Libras; ou seja, sem que se junte o conhecimento
da língua ao conhecimento do conteúdo específico, não é possível que o aluno
surdo acompanhe o desenvolvimento dos Componentes Curriculares.
• Ausência da Libras como Componente Curricular, ou seja, ou o aluno sabe
Libras antes de entrar na escola de inclusão ou ele também não vai aprender
a sua L1 de modo estruturado, sendo que os alunos ouvintes têm a LP não
apenas no currículo regular, mas como forma de acesso a todas as demais
matérias escolares.
• Poucos recursos para, quando existe a vontade e o empenho dos professores
ouvintes, impressão e utilização de imagens de boa qualidade para as aulas.
• Na visão de Lira (2009), a inclusão é mais uma proposta ouvinte, apenas
mascarada de certo respeito através da presença (às vezes) de intérpretes.
• Dificuldade da criação e manutenção de uma comunidade surda, pois os
surdos ficam espalhados em diferentes escolas de inclusão, tendo o contato,
muitas vezes, apenas com o intérprete e um ou outro professor ou colega
bem-intencionado que tenta estabelecer alguma forma de comunicação (nem
sempre bem aceita).

O relato que Darlene Lira (2009) sobre seu processo de escolarização nas
diferentes propostas pedagógicas para os surdos é extremamente contundente
e proporciona uma reflexão muito interessante para a discussão desta seção do
Tópico 3, recomendamos a leitura na íntegra, e citaremos o trecho final em que
a autora faz uma retomada e uma conclusão sobre o modo como ela se sentia na
escola de inclusão e nos provoca a (re)pensar algumas questões levantadas acima:

64
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

A minha experiência como Surda na escola, há muitos anos, é quase


igual a das outras crianças e jovens Surdos. Acostumei-me na escola de
Surdos, bilíngue, da 2a série até a 8a série; depois, no 2ᵒ grau, na escola
de inclusão, senti mudar a vida, era difícil porque os professores não
atendiam os alunos surdos, somente os alunos ouvintes, porque o
grande número é de ouvintes. Parecia que, nós, Surdos e intérpretes,
éramos iguais a almas (LIRA, 2009, p. 12, grifo nosso).

Dessa forma, o ensino de surdos em escolas regulares através do processo


de inclusão também não é o ideal, pois não contempla as especificidades do povo
surdo em relação às peculiaridades decorrentes da modalidade visuoespacial da
língua de sinais e as necessidades culturais, sociais e didáticas dos surdos.

2.4 MODELO BILÍNGUE


Sobre o bilinguismo como proposta didática para o ensino de crianças e
jovens surdos, Quadros (1997, p. 27) coloca que:

O bilinguismo é uma proposta de ensino usada por escolas que


propõem a tornar acessível à criança duas línguas no contexto
escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo
mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista
que considera a língua de sinais como língua natural e parte deste
pressuposto para o ensino da língua escrita. Skliar et al. (1995) defende
que o reconhecimento dos surdos enquanto pessoas surdas e da sua
comunidade linguística assegura o reconhecimento das línguas de
sinais dentro de um conceito mais geral de bilinguismo.

Desse modo, a proposta didática bilíngue pressupõe que duas línguas de


igual status linguístico estão em contato constante dentro da instituição de ensino
em todas as suas instâncias, sendo bastante conhecida no contexto de escolas em
que, por exemplo, a Língua Portuguesa e o Inglês convivem no mesmo ambiente
escolar. Nestas escolas, todas as comunicações e interações são feitas nas duas
línguas, desde os comunicados da secretaria e do refeitório até a interação com os
funcionários são possíveis de serem realizadas nas duas línguas.

Neste contexto, a ideia de Skliar et al. (1995), citada no trecho retirado de


Quadros (1997), está se referindo ao conceito de bilinguismo como a interação de
igual para igual entre duas ou mais línguas em situações de interação linguística,
na qual os indivíduos são capazes de se movimentar plenamente nas duas ou
mais línguas envolvidas na interação. No caso dos surdos brasileiros, isso se
daria entre a Libras como língua materna para todos os momentos de interação
de toda a comunidade escolar, inclusive como base para o aprendizado da escrita
em LP a segunda língua do povo surdo para a inserção e garantia de direitos na
comunidade ouvinte em que está inserido.

65
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

Ainda Quadros (1997, p. 27) faz o seguinte raciocínio sobre o direito do


ensino na língua materna das pessoas surdas, a língua de sinais: “Se a língua
de sinais é uma língua natural adquirida de forma espontânea pela pessoa
surda em contato com pessoas que usam esta língua [L1] e se a língua oral é a
adquirida de forma sistematizada [L2], então as pessoas surdas têm o direito de
ser ensinadas na língua de sinais”. Ou seja, as pessoas surdas têm o direito de ter
suas especificidades linguísticas e culturais respeitadas bem como de aprenderem
os conteúdos escolares sistematizados a partir de sua realidade linguística.

Lima (2012, s.p.) elenca algumas das características que fazem da escola
bilíngue aquela com melhores condições de atender ao público surdo de modo a
proporcionar um ensino de maior qualidade:

• Comunicação: torna-se mais fácil compreender e se fazer


compreendido, tanto pela família como pela sociedade em geral;
• Cultural: os surdos bilíngues têm acesso a duas culturas diferentes;
• Conhecimento: quanto mais conhecimento, mais desenvolvido será
o raciocínio de uma criança bilíngue;
• Oportunidade de trabalho: pessoas bilíngues têm mais chances de
conseguirem um bom emprego.
• [Autoestima] O bilinguismo não robotiza o surdo, não o obriga a
ser o que não é ou não deseja e reconhece que é nas diferenças que
somos todos iguais.

Na visão apresentada, a escola bilíngue traz vantagens para comunicação,


cultura, conhecimento, oportunidade no mercado de trabalho e autoestima para
as pessoas surdas. Dessa maneira, concorda com os elementos trazidos por
Quadros (1997).

Contudo, podemos pensar o seguinte, se é tão vantajosa para os surdos


por que a escola bilíngue não é uma realidade? De acordo com Quadros
(2020), inexiste a vontade política para a organização das escolas voltadas
especificamente ao povo surdo, pois isto necessitaria de investimentos públicos
em espaço físico, contratação de pessoal especializado, reestruturação curricular
e, principalmente, vontade política. Assim, a autora destaca a necessidade de
posicionamento da comunidade e do povo surdo em direção à exigência de
direitos e à mobilização para que o direito linguístico de ser escolarizado em
sua língua materna seja garantido.

66
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

3 LIBRAS NAS UNIVERSIDADES


Para que os processos de inserção escolar e social dos surdos possam
acontecer na perspectiva de incluir e garantir o acesso aos estudantes surdos é
necessário levar em consideração aquilo que Rossi (2010, p. 71) pontua da seguinte
forma: “O processo de inclusão escolar requer uma mudança significativa no
processo educacional, no pensamento segregador incutido em nossos costumes e
crenças, e para que se tornem uma realidade é preciso abandonar tais costumes e
crenças, por práticas renovadoras”.

Em outras palavras, para que velhas práticas sejam modificadas é preciso


que haja uma mudança das formas de pensar segregando as pessoas diferentes,
da repetição daquilo que já se tornou costume, ou seja, o famoso sempre foi
assim e funcionou, bem como das convicções arraigadas nos diferentes níveis de
percepção da realidade. E este tipo de alteração não se dá de modo fácil, rápido
ou simples, por isso, são necessárias estratégias, inserções, mudanças estruturais
e muito investimento em diferentes níveis políticos, didáticos e pessoais. Isso se
dá com o investimento em diversos níveis sociais.

Dentro desta perspectiva, a Lei nᵒ 10.436/2002 e o Decreto nᵒ 5.626/2005


delimitam várias inserções da Língua Brasileira de Sinais nas propostas didáticas
e pedagógicas das instituições, e é a partir daí que a Libras passa a integrar o
currículo dos cursos de formação de professores. Esta inclusão da disciplina é de
extrema importância para aquelas modificações sobre as quais falávamos acima,
pois é através da experimentação como aluno que o futuro professor formará a
suas bases didáticas para sua atuação em sala de aula.

Desde a publicação desta legislação específica, mais de uma década


passou, diferentes propostas educacionais aconteceram, as inclusões nas escolas
regulares se tornaram uma realidade (e estão prestes a serem modificadas
novamente). Desde o primeiro curso de Letras-Libras da Universidade Federal de
Santa Catarina, muitas instituições abriram cursos para formação de professores
e bacharéis em língua de sinais.

Assim, neste momento histórico é possível de ser feita uma avaliação


de como se deu este processo de inserção da Libras nas Instituições de Ensino
Superior, para sintetizar as reflexões apresentadas por Aquino (2017) e Iachinski
et al. (2019) sobre a inserção da disciplina de Libras nos cursos de licenciatura,
serão pontuados aspectos relevantes destacados nos estudos apresentados das
autoras citadas.

A pesquisa de Aquino (2017) aponta os seguintes aspectos sobre a inserção


da disciplina de Libras no currículo das universidades:

• A disciplina de Libras nos cursos de licenciatura é resultado de uma intensa


luta da comunidade surda.

67
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

• A presença desta disciplina auxilia na eliminação de mitos e preconceitos


vinculados à Língua de sinais e aos surdos, bem como fazer com que o
futuro professor seja mais receptivo à presença de alunos surdos nas turmas
de inclusão.
• O contato com a Libras fez com que (pré)conceitos dos futuros professores
fossem modificados em relação a diferentes aspectos relacionados não apenas
à Libras, mas à surdez, aos surdos e a elementos da cultura surda de modo a
proporcionar uma ressignificação de conceitos errôneos sobre os surdos e a
Libras (AQUINO, 2017).
• Aquino (2017) faz uma pesquisa em que compara as repostas dadas no início e
no final do semestre de Libras por alunos do curso de licenciatura em Geografia
sobre aspectos referentes aos surdos e à Libras. O quadro a seguir apresenta
um dos dados obtidos pela pesquisadora, nele é possível observar claramente
a mudança de perspectiva, a apropriação de conceitos específicos e uma
compreensão muito mais aprofundada sobre o ser surdo quando respondeu
à mesma pergunta no final do semestre, bem como uma compreensão
substancialmente mais aprofundada sobre a Libras:

QUADRO 5 – COMPARATIVO DE RESPOSTAS NO INÍCIO E FINAL DO SEMESTRE DE LIBRAS


DADA PELO MESMO SUJEITO DA PESQUISA

O QUE VOCÊ ENTENDE POR SURDO?


Início do semestre Término do semestre
A6- “Pode-se definir o surdo como sujeito que possui
dificuldade auditiva, seja ela leve, moderada, severa
e profunda. O surdo usa uma forma linguística
A6- “Pessoa que tem dificuldade ou
diferenciada para se comunicar e interage com o
perda auditiva parcial ou total de ouvir,
mundo por meio da visão. Os profissionais da área da
é uma pessoa deficiente que não escuta,
saúde, ao utilizar o termo deficiente auditivo acabam
deficiente auditivo”.
por desconsiderando aspectos psicossociais e culturais
da pessoa surda, uma vez que esta não se considera
deficiente, mas diferente”.
O QUE VOCÊ ENTENDE POR LIBRAS?
Início do semestre Término do semestre
A6- “A Língua Brasileira de Sinais é a língua brasileira
natural de sinais usada pela maioria dos surdos
brasileiros e ouvintes, reconhecida pela Lei nᵒ 10.436,
de 24 de abril de 2002. Libras é a primeira língua dos
surdos, a segunda é a língua portuguesa. Não é artificial,
é natural, é brasileira e não é universal. As línguas de
A6- “É o meio de comunicação da sinais possuem estrutura própria de país para país,
linguagem de sinais que as pessoas dependendo da cultura daquele determinado local para
com deficiência auditiva se comunicam construir suas expressões e regionalismos. A conquista
gesticulando”. deste direito traz impacto significativo na vida social
e política da nação brasileira. Com a utilização de sua
língua natural, a língua de sinais, os surdos conseguiram
mostrar que são capazes de pensar, aprender, interagir
com o meio, exercer sua cidadania, porém, ainda falta
uma parcela da comunidade ouvinte que necessita
mudar seu olhar com relação ao ser surdo”.

FONTE: Adaptado de Aquino (2017, p. 15)

68
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

A pesquisa gerou dados a partir das repostas de treze alunos da cadeira


de Libras e, em todos os dados coletados, fica em evidência uma compreensão
muito mais aprofundada das características linguísticas e sociais dos indivíduos
surdos, dos direitos linguísticos surdos e das particularidades que fazem com
que a Libras seja uma língua e não uma linguagem. Além disso, ganha destaque
a ampliação do tamanho das repostas com a percepção de elementos presentes no
contexto de estudos sobre a surdez, o surdo e a Libras.

Já na pesquisa apresentada por Iachinsli et al. (2019), os autores realizaram


um estudo em que aplicaram questionários para alunos de duas universidades
diferentes que já haviam cursado a disciplina de Libras. Alguns dos resultados
relevantes encontrados pelos autores foram os seguintes:

• A maioria dos estudantes não teve contato prévio com surdos ou com a língua
de sinais antes da disciplina cursada na universidade.
• Na percepção dos alunos a disciplina aumentou seu entendimento em relação
à Libras e aos surdos e impactou positivamente seus conhecimentos sobre
comunicação e interação com os surdos; proporcionou a aprendizagem de
conhecimentos básicos, permitiu a compreensão da necessidade de inclusão
dos surdos.
• Os participantes chamam a atenção para a pouca carga horária da disciplina e a
necessidade de ampliação das relações daquilo que foi aprendido com a prática
docente, pois a maioria dos entrevistados achou insuficientes os conteúdos
estudados para se sentirem capazes de atender a alunos surdos. Assim, a
maioria dos entrevistados sente a necessidade de procurar mais formação para
que se sinta confortavelmente preparado para atender a estudantes surdos.
• Também apareceu, na pesquisa, a necessidade de tratamento da Libras como
uma língua plena e não como um apanhado de vocabulários descontextualizados
inseridos em uma apostila, ou seja, os estudantes relataram terem sido expostos ao
ensino pouco fluente da Libras, ou seja, é necessário um planejamento específico
para professores que não seja estruturado como um curso básico de Libras.
• A maioria dos entrevistados compreende a importância do estudo da Libras e
diz que esta foi a primeira oportunidade de contato com a língua de sinais e
com surdos.

A partir das pesquisas apresentadas, podemos perceber que a disciplina


de Libras nas universidades cumpre o papel de sensibilizar os futuros professores
quanto à aspectos específicos vinculados ao ensino de surdos, ao entendimento de
características para o ensino deste público e a aspectos da Libras. Assim, a disciplina
de Libras nas Universidades auxilia na desmistificação e na ressignificação de
preconceitos existentes, algo de extrema importância para a inclusão de alunos
surdos nas classes regulares. Contudo, apenas ela não basta para garantir um
atendimento de qualidade, pois a Libras é uma língua e, como tal, exige um estudo
muito mais aprofundado do que apenas uma cadeira ao longo da graduação. Logo,
a inserção das discussões sobre surdez e Libras é de extrema importância, mas
ela, por si só, não prepara o futuro professor para o atendimento qualificado ao
estudante surdo nas escolas regulares através da inclusão.

69
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

4 INSERÇÃO DE PROFESSORES SURDOS NAS INSTITUIÇÕES


As mesmas políticas públicas que delimitaram as inserções da Libras nos
contextos educacionais também destacaram a necessidade de profissionais surdos
para o ensino de crianças e jovens surdos. De acordo com Martins (2010, p. 52 apud
FERNANDES, 2019, p. 68), a presença do professor surdo é importante porque:

O professor surdo conhece a surdez e tem experiências e práticas a


partir deste ponto de vista o que pode favorecer o uso de estratégias
pedagógicas mais adequadas aos alunos surdos. A sua atuação em
sala de aula será marcada pela sua singularidade linguística, pelas
identidades que marcam a surdez, pelas estratégias peculiares
mediadas através das experiências visuais, pela presença da língua
portuguesa como uma língua que não será estranha e sim convidada,
pois ela será entendida como uma segunda língua e pelas situações
vivenciadas entre o professor surdo e alunos surdos, que poderão
melhor acompanhar o que será dito ou produzido durante a dialogia
com o professor em língua de sinais.

Dito de outro modo, o professor surdo faz parte do povo surdo, ou seja,
ele carrega em sua identidade surda as possibilidades de ensino e aprendizagem
para as pessoas que também são surdas. Assim, o que o autor argumenta é que
a vivência e o pertencimento ao povo surdo fazem com que o professor advindo
deste mesmo grupo tenha condições de adequar didática e linguisticamente as
aulas para as pessoas que pertencem ao mesmo grupo social e linguístico que ele.
Deste modo, “Os professores, instrutores e educadores surdos possuem muitos
saberes que não fazem parte dos conhecimentos dos professores e educadores
ouvintes” (STUMPF, 2009, p. 434).

Também Silva e Klein (2009, p. 3), a partir de sua pesquisa feita com
dois professores universitários surdos trazem a conclusão de que professores
surdos: “[...] atuando em espaços de ensino superior, faz com que esses sujeitos,
na medida que interagem nesses locais, quebrem com as formas de preconceito
que ainda se lançam sobre esses grupos, oportunizando a promoção da cultura e
identidade dessa comunidade”.

Além disso, Stumpf (2009) também chama a atenção para a necessidade de


contato dos professores surdos e ouvintes em igualdade de condições e de posição
hierárquica nas escolas, apenas assim, será possível a construção de uma proposta
inclusiva minimamente adequada ao atendimento dos estudantes surdos.

Contudo, a autora destaca que os professores surdos até estão sendo


requisitados para auxiliar no ensino e aprendizagem dos estudantes surdos, “[...]
desde que sejam só professores de Libras e de que se subentenda que a Língua
de Sinais deve ser “só para ajudar” aquele aluno deficiente a compreender “um
pouco” daquilo que os outros estão construindo e aprendendo”.

70
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

Dito de outro modo, assim como o preconceito existente faz com que
muitas pessoas enxerguem a língua de sinais apenas como ferramenta para se
aprender LP ou outras matérias, em algumas instituições os próprios professores
surdos também estão sendo vistos como um instrumento para o ensino apenas da
Libras sem o espaço para outros Componentes Curriculares dentro da instituição.

Além deste aspecto, Fernandes (2019) também comenta a diferença


existente entre instrutor e professor de Libras, sendo que o instrutor é aquele
profissional que não tem os conhecimentos teóricos, didáticos e metodológicos
que são apendidos durante a graduação. Porém, ela também traz uma pesquisa
em que o autor “[...] verificou em sua investigação que mesmo nos casos em que
o profissional surdo possui a formação compatível com a docência, na educação
básica, na maioria dos casos acabam por serem contratados como instrutores, o
que demonstra uma desvalorização desse profissional”.

NOTA

Nesta unidade estudamos vários aspectos sobre a inserção de pessoas surdas


nas instituições de ensino, para demonstrar o relato de uma pessoa que viveu esta inserção
em primeira pessoa. O texto da Leitura Complementar foi retirado do livro “Despertar do
silêncio”, da professora Shirley Vilhalva, pedagoga e mestre em linguística que se dedica ao
estudo dos índios surdos brasileiros.

Nesta obra autobiográfica, a autora traz textos escritos ao longo de sua vida sobre
as experiências pessoais vivenciadas ao longo de sua vida pessoal e acadêmica. Ela relata
lutas e experiências que trazem uma importante visão das relações e das lutas pela inserção
dos surdos em diferentes espaços:

Sobre a relevância do livro da professora Vilhalva Miranda (s.d., p. 1) destaca que:

A obra explana experiências que contribuem de forma significativa


para um novo olhar sobre a educação de surdos visando à inclusão
e interação destes com a comunidade ouvinte. O livro Despertar do
Silêncio está dividido em 71 capítulos em que cada um deles relata suas
dificuldades e conquistas tanto no âmbito escolar quanto social. Em
seus relatos, a escritora expõe como a instituição escolar ainda está
engessada ao pensamento de que os alunos possuem uma realidade
homogênea ao que se refere à diversidade cultural linguística.

Desta forma, o capítulo sobre a faculdade foi escolhido dentre os demais que
preenchem o livro recheado de relatos fundamentais para que compreendamos como se
dá a inserção de surdos nas instituições de ensino pela perspectiva em primeira pessoa da
autora. Caso você queira conhecer mais sobre ela, recomendamos os seguintes sites:

• Entrevista com a Professora Shirley Vilhalva, no blog Vendo Vozes: [Link]


[Link]/2008/01/[Link].
• Página sobre a professora Vilhalva com destaque para suas pesquisas e textos
recomendados: [Link]

71
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

LEITURA COMPLEMENTAR

FACULDADE

Shirley Vilhalva

Durante meus primeiros vestibulares eu não passei devido a minha


redação e também pelas dificuldades linguísticas que apresentava em relação
à Língua Portuguesa. Quando consegui entrar, lembro que coloquei uma
observação na prova, “Sou pessoa com deficiência auditiva”, não sei se isso
ajudou, com várias tentativas fracassadas lá estava eu no meu primeiro ano do
Curso de Pedagogia.

Ao entrar na sala procurei melhor local para sentar, em silêncio e


constrangida não olhava muito para o lado com medo que alguém pudesse
chegar para conversar e eu nada entender.

Os dias foram passando e eu conheci algumas colegas de sala, em cada


pessoa eu apenas fazia leitura de expressão. De cada professor que entrava na
sala eu procurava conhecer suas expressões porque sabia que iria precisar para
que quando ele fosse falar comigo eu conseguisse entender melhor. Muitos
professores davam as aulas e nem olhavam para os alunos e logo saíam, outros
eram mais persistentes, os poucos minutos que estavam na sala pareciam uma
eternidade, conseguiam prender a atenção dos alunos e até mesmo conhecer cada
um com um pequeno diálogo.

Recordo muito de duas professoras, Professora Magaly Silva Caldas


Coelho, de Psicologia, e Nelly Luzio, que me incentivaram muito. A Professora
Magaly começava suas aulas e sempre fazia os alunos refletir sobre os porquês
que ela soltava na sala, todos tinham que participar não importava como. Numa
de suas aulas, lembro-me de que ela pediu para cada aluno fazer sua apresentação
pessoal, não sei como, pulei de onde estava sentada e contei minha história e me
apresentando que sou surda e trabalho em uma escola de surdos, pareceu que
depois deste dia as coisas ficaram mais leves, eu até conseguia olhar melhor para
as pessoas com menos medo de não entender quando elas me procuravam para
se comunicar.

Ao participar de grupos de pesquisa eu pouco me oferecia, às vezes


procurava fazer sozinha o que era necessário e a Professora Magaly persistiu e fez
um jogo com o grupo, dizendo se algum grupo me convidasse não ia se arrepender,
reforçou que eu era inteligente e sabia como fazer as atividades, pois os grupos
queriam sempre os melhores e eu particularmente me sentia excluída. No final das
escolhas de grupo, acabei participando o semestre juntamente com um grupo de
colegas que tivemos muitas afinidades ao decorrer da faculdade, Dina como era
conhecida tem deficiência física, cadeirante, Ácacia Milhomem, que trabalhava
com Deficiência Mental, Cibelle Rabelo, que eu considerava superdotada, Neuza

72
TÓPICO 3 — O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO E A SURDEZ

e Margareth, que equilibravam o grupo com suas atitudes calmas e eu surda. Esse
grupo foi maravilhoso. Cibelle sempre preocupada copiava tudo que o professor
mandava, pois eu não conseguia copiar e acompanhar o que o professor falava
ao mesmo tempo. Quando eu arriscava em fazer isso ao abaixar a cabeça já tinha
perdido todo o assunto.

Por ser Faculdade particular precisei de apoio para continuar, me inscrevi


para concorrer a meia bolsa de estudo, ao solicitar ofereci em troca palestras as quais
professora Magaly Coelho solicitava para os demais cursos e Curso de Língua de
Sinais para os acadêmicos da FUCMAT, hoje atual UCDB – Universidade Católica
Dom Bosco. Em uma dessas palestras tive oportunidade de conhecer na época a
acadêmica Maria Arlete Rocha Poletto, uma pessoa que tinha muito interesse na
Língua de Sinais e juntas montamos os primeiros cursos no Dom Bosco e fizemos
projetos que a Língua de Sinais fosse divulgada.

Neste período de faculdade eu viajava muito em busca de melhoria


para comunidade surda, tanto social como educacional. Na oportunidade para
melhorar o trabalho conheci a Federação Nacional de Educação e Integração
dos Surdos, realizando o primeiro Encontro Sul-Mato-Grossense de Surdos,
trazendo para nosso Estado pessoas surdas influentes na luta e também tivemos
oportunidade de ter a conhecida Maria Francisca, cega-surda e suas experiências.

Meus anos como acadêmica foram muito bons, conheci pessoas que eram
prestativas me colocando a par das informações que ocorriam na faculdade ou
dentro da sala de aula.

Padre Morales, uma pessoa de muita garra e sempre disponível para


atender aos alunos, eu ficava surpresa quando ele me chamava e me informava
que eu precisava conhecer melhor os benefícios para a comunidade surda, sempre
tentava comparar quanto o Brasil estava atrasado em relação à Espanha e ao
México, ele me contava quando voltava de suas viagens como estava acontecendo
lá fora. E eu ainda estava lutando para que a Língua de Sinais fosse um direito
dos surdos, que ela fosse reconhecida e me dava força explicando que em sua
terra já era reconhecida e também os Jornais já contavam com intérpretes, vários
boletins informativos já existiam e como era atuação dos intérpretes de Língua de
Sinais, tudo com muito dinamismo.

Não vi o passar do tempo, foi tudo muito rápido, entre sala de aula,
palestras, cursos, CEADA, viagens para outros Estados, ASSUMS, FENEIS,
voluntária nas Igrejas que pediam que eu desse curso de Língua de Sinais e
atuação como intérprete para os surdos sinalizadores quando me pediam nos
médicos, justiça, enfim em tudo que precisasse, chegou a hora da formatura.

Foi emocionante, eu não acreditava que cheguei em mais uma reta final,
depois do culto e da missa, veio a cerimônia e em momento de entrega do
“canudo”... o famoso canudo, os professores radiantes entregando um a um, tudo
parecendo um sonho de beleza, som e cores.

73
UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

De repente, vi que algo mudou, Padre Morales começou a discursar


um pouquinho mais longo que o normal, o qual tive oportunidade de “ouvir”
através da interpretação da Professora Maria Ampessan em Língua de Sinais.
Eu já peguei na metade, quando ele estava dizendo que: “ao chamar uma pessoa
que adentrou nesta faculdade como ouvinte, fez sua estada uma atuação em salas
de aulas esclarecendo o que é surdez para os demais acadêmicos, aprendeu e
ensinou durante estes três anos...”.

Eu fiquei muito nervosa porque não estava entendendo porque tinham


parado de chamar os formandos, pois estava fora da sequência, pensei por que
será que ninguém me chama e de repente... eu estava em silêncio eu não liguei
o fato que era para minha pessoa, só conseguir entender quando todos meus
colegas em vez de bater palmas como na cultura dos ouvintes eles ficaram em pé
e aplaudiram com suas mãos para o ar como os aplausos na cultura surda.

A emoção foi tão forte que as lágrimas não me permitiam ver mais nada.

FONTE: VILHALVA, S. Despertar do silêncio. Petrópolis: Editora Arara Azul, 2004. p. 39-43. Disponível
em: [Link] Acesso em: 19 set. 2020.

74
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• O isolamento cultural imposto pelo Congresso de Milão em 1880 foi um grande


retrocesso que trouxe inúmeros problemas para o povo surdo.

• As ideias de proibição e invalidação das línguas de sinais permanecem implícitas


em muitas propostas educacionais e na visão da sociedade sobre os surdos.

• Com poucas exceções, a educação de surdos, no Brasil, foi sempre definida a


partir da pedagogia dos ouvintes. O modelo de ensinar tem como prioridade o
modelo de aprender dos ouvintes.

• O modelo de educação oralista se baseia na premissa de que é imprescindível


ao aluno surdo que este aprenda a língua ouvinte majoritária nas modalidades
oral e escrita.

• Na proposta oralista a língua de sinais é de uso proibido em todos os contextos,


sendo necessário que o surdo seja constantemente forçado a se utilizar de
técnicas baseadas no esforço e na repetição, mesmo que sem compreensão.

• A proposta de escolarização oralista, não apenas pouco contribuí para a


relação saudável do surdo com a língua oral do país, como também atrasa o
desenvolvimento linguístico por não permitir o uso da língua de sinais.

• O modelo bimodalista para o ensino de surdos, é uma proposta em que o surdo


tem a permissão de utilizar a língua de sinais, porém ela é utilizada apenas
como um meio para aprender a língua portuguesa.

• O sistema bimodal se demonstrou ineficiente para o ensino de surdos e da LP.

A escola regular foi entendida como direito de todos e, para auxiliar nos
processos de inclusão, Salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE)
começaram a ser criadas nas escolas regulares.

• O ensino de surdos em escolas regulares através do processo de inclusão


também não é o ideal, pois não contempla as especificidades do povo surdo em
relação às peculiaridades decorrentes da modalidade visuoespacial da língua
de sinais e as necessidades culturais, sociais e didáticas dos surdos.

• O bilinguismo é uma proposta de ensino usada por escolas que propõem a


tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar.

75
• A proposta didática bilíngue pressupõe que duas línguas de igual status
linguístico estão em contato constante dentro da instituição de ensino em todas
as suas instâncias.

• A escola bilíngue traz vantagens para comunicação, cultura, conhecimento,


oportunidade no mercado de trabalho e auto estima para as pessoas surdas.

• Para que velhas práticas sejam modificadas é preciso que haja uma mudança
das formas de pensar segregando as pessoas diferentes, da repetição daquilo
que já se tornou costume.

• A Lei nᵒ 10.436/2002 e o Decreto nᵒ 5.626/2005 delimitam várias inserções da


Língua Brasileira de Sinais nas propostas didáticas e pedagógicas das instituições.

• A disciplina de Libras nos cursos de licenciatura é resultado de uma intensa


luta da comunidade surda.

• A disciplina de Libras nas Universidades cumpre o papel de sensibilizar os


futuros professores quanto a aspectos específicos vinculados ao ensino de
surdos, ao entendimento de características para o ensino deste público e a
aspectos da Libras.

• As mesmas políticas públicas que delimitaram as inserções da Libras nos


contextos educacionais também destacaram a necessidade de profissionais
surdos para o ensino de crianças e jovens surdos.

• A vivência e o pertencimento ao povo surdo fazem com que o professor advindo


deste mesmo grupo tenha condições de adequar didática e linguisticamente as aulas
para as pessoas que pertencem ao mesmo grupo social e linguístico que ele.

• Mesmo nos casos em que o profissional surdo possui a formação compatível com a
docência, na educação básica, na maioria dos casos acabam por serem contratados
como instrutores, o que demonstra uma desvalorização desse profissional.

CHAMADA

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76
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com pesquisas trazidas por Quadros (1997), Lira


(2009) e Strobel (2009), existem grandes problemas na proposta
oralista para a educação de surdos, pois mesmo com um
enorme investimento de tempo e treino:

I- Pouquíssimos adultos surdos são alfabetizados através desta proposta.


II- Muitas reprovações e permanências nas mesmas séries, às vezes, até
retrocessos.
III- A mensagem é compreendida com a leitura labial; mesmo com pouco
tempo de vida escolar, a maioria dos surdos consegue ler e escrever com
máxima de proficiência.
IV- Os surdos provenientes deste tipo de escola, por mais que treinem
a articulação das palavras conseguem uma pronúncia que será
compreendida apenas por quem convive com eles e tem experiência na
compreensão dos sons articulados artificialmente.
V- Na maioria das vezes, o surdo que vem das escolas oralistas, acaba por ser um
repetidor pouco eficiente das palavras na fala e analfabeto funcional na escrita.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

2 De acordo com o estudo sobre inclusão de surdos nas escolas regulares


do Tópico 3, analise as sentenças, classificando V para as verdadeiras e F
para as falsas.

( ) A didática e pedagogia da maioria dos professores não é adaptada para


o público surdo, pois a inclusão numa classe regular com intérprete dá a
falsa ideia de que ele vai dar conta de traduzir a aula e que apenas isso
basta para que o aluno surdo compreenda os conteúdos, atividades e seja
capaz de realizar as avaliações.
( ) Os conteúdos estudados em todas as matérias, a história, a geografia, o
ensino de Língua Estrangeira Moderna e todos os demais conhecimentos
são na perspectiva surda.
( ) Nem sempre são contratados profissionais para a interpretação, as
pessoas que farão a interpretação não têm o conhecimento específico de
todas as matérias e, às vezes, nem mesmo da Libras.
( ) Na visão de Lira (2009), a inclusão é mais uma proposta ouvinte, apenas
mascarada de certo respeito através da presença (às vezes) de intérpretes.
( ) Facilidade da criação e manutenção de uma comunidade surda, pois
os surdos ficam reunidos em escolas de inclusão, tendo o contato, com
diversos membros da comunidade surda.

77
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – V – V – F – F.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) V – F – V – V – F.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – F – V.

3 De acordo com Lima (2012, s.p.) sobre as características que fazem da escola
bilíngue aquela com melhores condições de atender ao público surdo de
modo a proporcionar um ensino de maior qualidade, relacione, de forma
correta, Coluna I, Característica, à Coluna II, Justificativa:

Coluna I Coluna II

(1) Comunicação ( ) Pessoas bilíngues têm mais chances


de conseguirem um bom emprego.
(2) Cultural ( ) O bilinguismo não robotiza o surdo,
não o obriga a ser o que não é ou
(3) Conhecimento não deseja e reconhece que é nas
diferenças que somos todos iguais.
(4) Oportunidade de trabalho ( ) Quanto mais conhecimento, mais
desenvolvido será o raciocínio de
(5) Autoestima uma criança bilíngue.
( ) Torna-se mais fácil compreender
e se fazer compreendido, tanto
pela família como pela sociedade
em geral.
( ) Os surdos bilíngues têm acesso a
duas culturas diferentes.

Marque a alternativa que apresenta a CORRETA numeração da Coluna II:


a) ( ) 4, 5, 3, 2 e 1.
b) ( ) 3, 2, 5, 1 e 4.
c) ( ) 3, 1, 4, 2 e 5.
d) ( ) 3, 1, 5, 2 e 4.
e) ( ) 4, 5, 3, 1 e 2.

4 Baseado nos estudos do Tópico 3, desta unidade, descreva a importância da


inserção de professores surdos nas instituições.

78


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UNIDADE 1 — HISTÓRICO DE COMPREENSÕES SOBRE O SURDO E A SURDEZ

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82
UNIDADE 2 —

A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA,


CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• estudar o conceito de identidade em relação à constituição das


identidades surdas;
• perceber as relações entre a constituição das identidades surdas e as
intervenções médicas disponibilizadas aos surdos;
• compreender o papel da língua de sinais na construção das identidades
surdas;
• discutir o papel dos processos familiares para a delimitação de uma
identidade surda;
• apresentar e refletir sobre relatos familiares de pessoas surdas;
• estabelecer as bases para a compreensão do conceito de cultura surda e
dos Estudos Culturais;
• delimitar o campo de pesquisa dos Estudos Surdos;
• compreender o papel da inserção de surdos na universidade para o
desenvolvimento do campo de pesquisa dos Estudos Surdos;
• debater o papel dos ouvintes dentro da perspectiva de desenvolvimento
dos Estudos Surdos.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA


TÓPICO 2 – PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA
SURDEZ
TÓPICO 3 – OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS
CULTURAIS

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

83
84
TÓPICO 1 —
UNIDADE 2

A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior foram estudos alguns elementos que caracterizam
perspectivas externas da surdez e dos surdos, de modo que foram discutidos
aspectos históricos, sociais, linguísticos e educacionais que envolvem a
comunidade e o povo surdo.

Neste tópico serão debatidos os elementos vinculados à constituição da


identidade surda, para isso, iniciaremos as discussões levantando alguns pontos
relevantes sobre o conceito de identidade. Em seguida serão estudados aspectos
que relacionam à contribuição e ao papel da língua de sinais na formação
identitária do povo surdo.

A seguir serão estudados os aspectos referentes às características


próprias que perpassam a constituição da identidade surda na perspectiva
cultural e de como ela se fragmenta em cinco identidades devido à
complexidade e à diversidade da constituição identitária do povo surdo.
Além disso, discutiremos brevemente noções sobre identidades surdas e a
dupla diferença, desse modo, veremos como o entrecruzamento de diferenças
influencia na formação da identidade surda quando inserida em mais contextos
de diferenciação, tais como, surdez e negritude.

Por fim serão debatidos entendimentos sobre as intervenções médicas


em relação às identidades surdas e às dificuldades de estabelecer-se como
indivíduo quando existem forças sociais que colocam uma dupla tensão sobre
seu processo de desenvolvimento identitário.

2 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
Em nosso cotidiano, nós utilizamos várias palavras que parecem simples,
mas remetem a conceitos muitos complexos de serem definidos, pois existe
em nossa mente um apanhado de características sobre as quais não refletimos
especificamente, mas que são compostas por inúmeros atravessamentos,
peculiaridades e compreensões diferentes sobre um vocábulo enganosamente
simples. Por exemplo, ao nos referirmos à identidade de alguém ou de algum
grupo específico, existe uma gama enorme de possibilidades para o entendimento
deste termo.

85
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Dito de outra forma, alguns conceitos abrem tantas possiblidades de


compreensão que ganham uma interpretação ao mesmo tempo complexa e simplista
devido à enormidade de possibilidades que o entendimento dele oportuniza.

No caso do termo identidade, existem inúmeras áreas que estudam a


constituição da identidade a partir de diferentes olhares teóricos. Isso porque
“A discussão de processos identitários [...] implica, primeiramente, a concepção
da identidade, enquanto categoria de análise, como uma construção social,
marcada por polissemias que devem ser entendidas circunscritas ao contexto
que lhe conferem sentido” (LAURENTI; BARROS, 2000, s.p., grifo nosso).

Assim, as autoras destacam que a formação da identidade está relacionada


àquilo que se compreende como identidade a partir dos diferentes contextos,
por isso, o termo pode ter vários significados e fazer referência a diferentes
compreensões sobre um mesmo objeto de análise, no caso, os seres. Além disso,
elas afirmam que o entendimento da identidade é um modo de se perceber e
classificar a realidade observável, por isso, pode se caracterizar a identidade
desde a perspectiva de cada contexto em que o processo da constituição dela
for estudado.

Dito de outro modo será o contexto do ser observado que irá delimitar a
compreensão sobre a qual se observa a constituição da identidade. A partir dos
contextos possíveis de observação da constituição da identidade do ser, cada área
poderá perceber elementos que delimitam a concepção de identidade dentro
daquele determinado campo de estudos.

Ainda segundo as autoras, até bem pouco tempo a noção de identidade


estava vinculada apenas à visão de personalidade, e isso fazia com que se tivesse
uma divisão entre aquilo que era considerado normal e o que era patológico, ou seja,
fugia de uma norma estabelecida como aceitável. Nesta visão, “A história social e
singular do indivíduo participava apenas como pano de fundo para a expressão
dos comportamentos “sabidamente” conhecidos” (LAURENTI; BARROS, 2000,
s.p.), ou seja, o contexto do sujeito era completamente descartado como parte de
sua individualidade, pois apenas o que era considerado normal tinha valor como
personalidade aceitável, os demais elementos sociais e característicos dos seres
humanos eram descartados como pouco importantes.

Com o surgimento da psicologia social, os estudiosos da área adotaram


o termo identidade para fazer referência a todo um conjunto de situações
contextuais e sócio-históricas que perpassavam a formação do ser humano
como um sujeito social, ou seja, inserido em determinadas circunstâncias
sociais e históricas (LAURENTO; BARROS, 2000). Sobre isso, Miranda (2012,
p. 14) coloca que “[...] a identidade é formada dialeticamente entre indivíduo e
sociedade [social e historicamente delimitada] sendo mutável em boa medida
inconscientemente, num processo que inclui a identificação própria e a
identificação reconhecida por outros”.

86
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Logo, o processo de construção da identidade se estrutura no embate


entre o que é individual e o que é social e histórico, de modo que os seres, ao
mesmo tempo que se constituem através das suas experiências pessoais dentro
da sociedade em um determinado período histórico, também fazem parte como
agentes de transformação das experiências pessoais, da sociedade e do período
histórico vivenciado. Para ficar mais claro, pensemos no seguinte exemplo, Pedro
é um jovem surdo sem acesso à língua de sinais, morador de periferia e que faz
uso de uma mistura de sinais caseiros, mímica e apontação para se comunicar.
Estes elementos caracterizam Pedro e fazem parte da identidade dele e da forma
como as demais pessoas com as quais ele tem contato o percebem e como ele
mesmo se vê dentro de uma comunidade em que não existem outros surdos. Pois,
imaginemos que Pedro é levado a uma associação de surdos da sua cidade, lá
não apenas conhece outros surdos, como começa a aprender Libras e participar
de projetos para inserção no mercado de trabalho. Desta forma, o entorno sócio-
histórico de Pedro mudou, a partir disso, o próprio rapaz teve suas características
alteradas, com isso, acabará mudando a forma como ele mesmo se percebe e
como entende a sociedade em torno de si, bem como o jeito como as pessoas que
convivem com o jovem também começarão a ter outra percepção identitária dele.

Assim, a construção da identidade na visão filosófica e cultural


apresentada por Miranda (2012) está relacionada à tensão entre o indivíduo e a
sociedade, de modo que:

A construção de identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela


história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas,
pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de
poder e revelações de cunho religioso. Porém, todos esses materiais
são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades, que
organizam seu significado em função de tendências sociais e projetos
culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão
tempo/espaço (CASTELLS, p. 23 apud MIRANDA, 2012, p. 15).

Isto posto, pode-se afirmar que a identidade individual é construída e


reconstruída a partir dos inúmeros contextos aos quais o indivíduo é exposto, mas
ela não se estrutura diretamente através deles, pois os sujeitos as ressignificam a
partir de suas vivências individuais que se dão num tempo e espaço coletivo e, ao
mesmo tempo, pessoal; fixado no espaço-tempo, mas também móvel, tendo em
vista a possibilidade de construção e reconstrução do sujeito através das coisas à
que é exposto. Assim, a identidade tem aspectos tanto estáticos quanto dinâmicos,
que podem perdurar nos grupos, mas ser constantemente reelaboradas na
perspectiva da individualidade.

Para compreender melhor, voltemos ao exemplo de Pedro, ao mesmo


tempo em que ele continua sendo parte de sua família, comunidade e tempo
histórico; ele também sofreu uma mudança pessoal, que afetou o modo como
ele se vê e como a sociedade em sua volta o vê. Assim, é na tensão existente entre
estas duas forças que se situa a construção da identidade de Pedro.

87
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Nesta compreensão, o processo de construção da identidade está vinculado


aos elementos culturais que estão ligados à cultura de um povo, de acordo com
Porfírio (2020, s.p., grifo nosso):

A identidade cultural é um conjunto híbrido e maleável de elementos


que formam a cultura identitária de um povo, ou seja, que fazem
com que um povo se reconheça enquanto agrupamento cultural
que se distingue dos outros. [...] É difícil definir uma identidade
cultural específica, pois ela é maleável e depende do momento e das
peculiaridades culturais de uma determinada sociedade.

Desta forma, a identidade cultural está relacionada aos elementos que


fazem parte da cultura específica de cada povo e faz com que este povo se reconheça
e seja reconhecido por outros povos, por exemplo, quando é feita afirmação de
que o aluno surdo é visual, a pessoa está pegando um traço cultural e apontando
como possibilidade de apoio em imagens para o ensino de estudantes surdos
porque este traço cultural está vinculado à identidade de ser surdo.

O mapa mental a seguir demonstra alguns dos elementos culturais que


contribuem para a formação da identidade cultural:

FIGURA 1 – MAPA MENTAL – ELEMENTOS QUE CONTRIBUEM PARA A FORMAÇÃO DA


IDENTIDADE CULTURAL

FONTE: Os autores

88
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Como podemos perceber ao observar o mapa acima, existem inúmeros


elementos que estão envolvidos no processo de construção da identidade cultural
de cada povo e de cada sujeito. Além disso, muitos dos elementos colocados são
extremamente mutáveis e podem contribuir de diferentes formas em diversos
tempos ou lugares. Ou seja, o cruzamento entre os diferentes elementos culturais
faz com que eles se alterem entre si e em relação à contrução identitária. Por isso,
não se compreende mais a identidade como algo fixo, mas como algo fluído que
pode sofrer atravessamentos e alteração infinitamente.

Sobre esta alteração da compreensão da constituição da identidade, Perlin


(1998) cita os estudos de Hall (1997) em que o autor apresenta três concepções
sobre identidade:

• Sujeito do iluminismo: ideia de identidade centrada, unificada, racional,


consciente e ativa em que o centro dela nascia junto com o sujeito e se
desenvolvia continuando o mesmo ao longo da existência do indivíduo.
• Sujeito sociológico: a pessoa continuava tendo uma essência inalterada que
era melhorada pelo mundo durante as interações sociais.
• Sujeito pós-moderno: o indivíduo pós-moderno tem sua identidade fixada em
bases móveis que são alteradas, transformadas e reestruturadas a partir das
representações, vivências e diálogos, que estabelece com os elementos culturais
que o rodeiam. “Trata-se de dizer que o sujeito descentrado assume múltiplas
dinâmicas e múltiplas culturas na formação de sua identidade. O desafio que
existe é o de como examinar essas identidades ou quais relações de poder estão
envolvidas na sua constituição” (PERLIN, 19998, s.p.).

Deste modo, o processo de constituição da identidade cultural está


vinculado à compreensão do sujeito pós-moderno, em que uma multiplicidade
de fatores está envolvida em sua construção de forma a existirem forças
contraditórias envolvidas em uma relação de poder na constituição do sujeito. A
autora apresenta como exemplo deste embate a constituição da identidade surda
dentro de uma sociedade ouvinte em que a relação entre a surdez e a sociedade
ouvinte estão em constante conflito.

TUROS
ESTUDOS FU

No Tópico 3 desta unidade será discutido o conceito de cultura. Neste


momento, utilizaremos esta palavra para fazer referência às diferentes manifestações que
caracterizam um povo.

89
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

DICAS

No vídeo O que é identidade cultural? Do Canal Brasil Escola está


disponibilizada uma explicação bem interessante sobre o assunto, o link para acessá-lo é o
seguinte: [Link]

3 IDENTIDADES SURDAS
De acordo com Perlin (1998), os surdos foram vistos apenas através da
falta da audição, ou seja, apenas como não ouvintes, como não pertencentes à
normalidade das pessoas, de modo que sua identidade era vista apenas na
presença da ausência. Deste modo, quando esta identidade surda era percebida
apenas com “[...] base na representação de surdez como anormalidade, doença,
inferioridade, incapacidade fez com que as crianças surdas se construíssem
frustradas, em constante ameaça psíquica, excluídas, discriminadas, culpadas
como se estivessem sempre em débito” (AGRELLA, 2010, p. 53).

Assim, a compreensão da surdez como algo fora da normalidade acabava


por causar sequelas aos indivíduos pertencentes ao povo surdo, tanto na percepção
sobre si como na visão que a sociedade, a escola, os médicos e os pais/responsáveis
tinham sobre eles.

De acordo com Perlin (1998), a compreensão de surdez como


anormalidade acabava por universalizar os sujeitos surdos, de modo a negar
aos surdos a formação individual da identidade dentro do processo social,
histórico e cultural. Ainda de acordo com a autora, foi a partir da compreensão
de identidade cultural e do entendimento que ela se dá no contraste entre aquilo
que é diferente que foi possível analisar as histórias e vivências dos indivíduos
que compõem o povo surdo a fim de observar como se dá a construção da
identidade como povo e como grupos que integram este povo.

Dito de outro modo, com o entendimento que cada sujeito é diverso apenas
na oposição ao outro, não existindo apenas uma norma correta, foi possível olhar os
surdos de modo a perceber o que Strobel (2008, p. 70) coloca do seguinte modo:

Um corpo surdo não é apenas um corpo, é muito mais que esqueletos,


músculos, peles, é muito mais que vestuário e acessórios que o
enfeitam, não são as expressões biológicas que o definem e sim as
representações culturais que a ele se atribuem, relatar corpo surdo é
relatar, também, sua identidade, cultura, subjetividade e outros.

90
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Assim, as representações e vivências pelas quais este corpo surdo passa


são parte da identidade, cultura e subjetividade de forma que as representações
culturais ganham enorme relevância para a compreensão da identidade cultural
surda que se molda neste emaranhado de elementos que se entrecruzam.

Nesta mesma perspectiva, Perlin e Miranda (2003, p. 217) colocam que o


ser surdo expressa: “[...] olhar a identidade surda dentro dos componentes que
constituem as identidades essenciais com as quais se agenciam as dinâmicas
de poder. É uma experiência na convivência do ser na diferença”. Observe que,
na perspectiva cultural, a diferença não mais é critério excludente de desvio da
norma, de experiência da falta da audição.

A diferença pressupõe a percepção do outro, pois só se pode ser diferente


quando na comparação com outro grupo de pessoas, assim, o ouvinte e o surdo
estão em uma relação em que são diversos e se percebem diversos no contato
entre si, de modo horizontal, ou seja, na comparação, mas não na valorização de
um ou de outro.

Contudo, é importante termos em mente que o processo histórico, social


e pedagógico vivido pela comunidade surda até então, bem como a inserção
do povo surdo dentro de uma sociedade majoritariamente ouvinte trouxe
experiências bastante diversas para cada uma das pessoas que faz parte do povo
surdo e da comunidade surda. Assim, segundo Cromak (2004, p. 77),

[...] uma vez que é a partir do outro que o autoconceito se produz,


ou seja, é a partir das relações sociais que cada um se reconhece
como um sujeito singular e, nesse caso, a diferença é aquilo que
o outro é que eu não sou, já que, à medida que afirmamos ser
surdos, estamos, automaticamente, negando a condição ouvinte,
por exemplo. Com isso, a constituição de identidade não pode ser
compreendida como um processo natural, mas, sim, um processo
cultural em constante movimento.

Neste constante ir e vir, a identidade como processo cultural se monstra


dentro de infinitas possibilidades mutáveis, que permitem a compreensão de que
não existe apenas uma identidade surda, no singular, mas identidades surdas,
pois “[...] convivendo com seus iguais e com ouvintes, os surdos criam e recriam
suas culturas – locais ou regionais e não universais – e se deixam afetar pelas
culturas ouvintes; [...] seria absurdo apostar na existência de uma única e fixa
identidade surda [...]” (AGRELLA, 2010, p. 80).

Para procurar entender o surgimento e categorizar as possíveis identidades


surdas, Perlin (1998, s.p.) narra que em sua tese realizou entrevistas não
estruturadas previamente para tentar responder aos seguintes questionamentos
(dentre outros que surgiram ao longo da pesquisa), que surgiram a partir da
perspectiva dos estudos culturais em surdez:

91
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Existe uma identidade surda?


Que é ser sujeito surdo?
Como se constituem as identidades culturais dos surdos?
Quais são os fatores que colaboram com o surgimento de múltiplas
identidades surdas?
Como se constituem as identidades surdas dentro da comunidade
surda e como elas se organizam em relações de poder?
Qual o discurso ouvintista sobre os sujeitos surdos na história?

A partir da análise das entrevistas a pesquisadora troçou o perfil de sete


categorias de identidades surdas: a surda propriamente, a híbrida, a flutuante,
a embaçada, a de transição, a de diáspora e as intermediárias. Nas próximas seções
serão apresentadas, brevemente, as sete identidades categorizadas pela autora.

DICAS

Caro acadêmico! Antes de começar a discutir sobre identidades, que tal nos
divertirmos imaginando um mundo invertido em que as situações seriam adaptadas
perfeitamente para o surdo, mas deixariam os ouvintes completamente consternados
pela dificuldade de comuncação! Muito legal! Disponível em: [Link]
watch?v=Asul1XViUY4.

CAPA DO VÍDEO MUNDO INVERTIDO

FONTE: Viturinno (2019)

92
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

3.1 IDENTIDADE SURDA


A identidade surda política é aquela em que o indivíduo experiencia
todos os elementos culturais vinculados à surdez, de modo que se reconhece
surdo, participa das lutas surdas e pauta as suas vivências através da experiência
visual que o caracteriza.

Perlin (2002) delimita aquelas que são as características da identidade


surdas como identidade política, ou seja, esta identidade é baseada na perspectiva
dos elementos culturais da comunidade e do povo surdo que a compõe. A autora
aponta diversos elementos culturais que caracterizam a identidade surda como
identidade política que se reconhece como surda, a seguir, estão listados os
aspectos apontados pela autora:

• Experiência visual: todas as experiências perpassam pela compreensão visual


das situações a compreensão se dará através da compreensão visual dos
elementos envolvidos na interlocução.
• Língua de sinais: utilizam os sinais e a língua de sinais em todas as interações,
suas mensagens são decodificadas a partir da enunciação feita com as mãos,
isso acarreta toda uma forma característica de observação e interação com a
realidade, por exemplo, não é possível abraçar e sinalizar, então, para poder
conversar com os surdos não estarão se abraçando (exemplo retirado do reality
show Além do som, da Netflix). Além disso, a língua de sinais é de grande
importância como modo de afirmação da realidade, pois será através dela que
as lutas, as informações e as participações sociais se darão.
• Aceitar-se como surdo: se entendem como parte do povo surdo, assumem-
se como surdos, utilizam-se das políticas surdas para inclusão e vêm-se na
diferença, inclusive no uso da língua de sinais e na exigência de políticas
públicas específicas.
• Cultura surda compartilhada: fomentam e participam de situações em que a
cultura surda é partilhada com seus pares de modo a aumentar o alcance as
expressões e dos elementos culturais que caracterizam o povo surdo.
• Resistência e luta surdas: são indivíduos que participam de movimentos para
investimento em políticas surdas, são engajados, de alguma forma, das lutas
por políticas públicas que acolham, valorizem e deem destaque aos surdos.
• Busca de identidade cultural surda: procuram modos de estruturar a
identidade surda.
• Dificuldade com a estrutura da língua oral: apresentam dificuldades de
estruturação na língua oral devido à diferença estrutural na construção das
sentenças que existe entre as línguas de sinais e as línguas orais, tais como, o
uso de artigos e preposições, as organizações em classificadores, o que existe
em Libras, mas não em LP, a forma como fazer retomadas pronominais, dentre
outras diferenças de organização sintáticas entre as línguas de sinais e as
línguas orais.

93
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

• Decodificação em língua de sinais: percebem a realidade e decodificam aquilo


a que são expostos através da língua de sinais, de modo que a estruturação
mental se dá em sinais, dessa forma, a percepção da realidade é perpassada
pela língua de sinais e pelo modo como ela se estrutura e não pela língua oral
majoritária do país.
• Participação na comunidade surda: os sujeitos que são categorizados como
tendo identidade surda política são aqueles que participam das associações,
grupos e eventos voltados ao povo surdo de modo que compartilham com
outros surdos suas dúvidas, angústias, sonhos e lutas.
• Escrita com estrutura da língua de sinais: quando alfabetizados na língua
oral, estes surdos utilizam a estrutura da língua de sinais para a escrita,
mesmo aqueles que alcançam um bom nível de escrita na língua oral, ainda
carregam traços de sua língua materna, tais como frases curtas, menor uso de
referências pronominais, dentre outros. Este é um fenômeno bastante comum
em aprendizes de uma segunda língua diferente de sua língua materna.
• Uso de tecnologias específicas: são usuários das diferentes formas que a
tecnologia pode ser utilizada para facilitar as necessidades da vida prática, tais
como, telefone e campainhas luminosos, legendas, apps para comunicação,
dentre outras coisas.
• Forma peculiar de relacionamentos interpessoais: o modo como os
surdos vivenciam a realidade faz com que eles também estabeleçam seus
relacionamentos interpessoais através das experiências visuais, a autora chama
a atenção para o fato de que todos os relacionamentos são influenciados pela
vivência da surdez como identidade, tanto entre pessoas quanto entre pessoas
e animais de estimação. Inclusive existe um vídeo que viralizou há alguns
anos em que o gato de um homem surdo demonstra saber pedir comida de
modo que seu dono compreenda o que ele quer (caso você queira ver este
vídeo ele está disponibilizado no seguinte link [Link]
watch?v=G8VHnXn6JVA.
• Identidade surda geracional: Perlin (2002) chama a atenção para os sinais
estruturados ao longo de gerações de uma mesma família surda.

Sobre o identificar-se como surdo, Emanuelle Laborit (In: Vaniele, 2012,


s.p.) destaca este reconhecimento identitário a partir da seguinte afirmação:

FIGURA 2 – CITAÇÃO DO LIVRO "O GRITO DA GAIVOTA", DE EMANUELLE LABORIT

FONTE: Vaniele (2012, s.p.)

94
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Assim, percebemos que o surdo cuja identidade categorizada como


surda política, por Perlin (1998), é aquele que se percebe surdo e que vivencia
a surdez como parte de si, de modo que a língua, os costumes, as tecnologias,
as estruturações, as relações e as percepções de si, sobre si e por si são dadas
através dos elementos que constituem a cultura surda de modo amplo e
irrestrito. A partir disso, a autora delimita as demais identidades surdas através
de subjetividades que abarcam partes destes elementos culturais apontados por
ela como constituintes da identidade surda por excelência, a seguir, veremos
brevemente as características culturais apontadas pela autora para as demais
identidades surdas categorizadas.

A autora também chama a atenção para o fato de que poderiam


ser delimitadas muitas outras identidades surdas, tendo em vista que esta
categorização feita por ela não é estanque ou procura esgotar o assunto, pois cada
indivíduo ou grupo de indivíduos tem suas características e suas particularidades
que poderiam, também, ser compreendidas dentro do contexto de estudo das
diferentes identidades surdas. Ainda, segundo ela, os surdos são um grupo
extremamente diverso e com experiências, vivências e criações culturais que
influenciam de modo diferente a percepção de si e do outro dentro do contexto
de compreensão das identidades.

Outro aspecto importante é a noção de que nenhuma das identidades


surdas é mais importante, o seja, ninguém é mais surdo ou menos surdo por
estar mais ou menos identificado com as características da identidade surda
política. Cada indivíduo se apresenta e é percebido no mundo a partir de suas
características formadas através de suas experiências pessoais dentro de uma
determinada sociedade, em um determinado tempo histórico pessoal, assim, as
identidades são fluídas e podem ocorrer modificações ao longo da vida de cada
sujeito através das modificações que acontecerem em suas experiências pessoais
ou dentro de seu determinado grupo social.

Por isso, não cabe entender esta categorização em identidades como


modo de separação das pessoas que compõem o povo surdo, mas como um
jeito de compreender melhor como são os indivíduos ou grupos de indivíduos
que o compõem.

Nesta mesma compreensão, Strobel (2008, p. 24, grifo nosso) coloca


que: “Os sujeitos surdos não diferenciam um do outro de acordo com o grau
de surdez, e sim o importante para eles é o pertencimento ao grupo usando
língua de sinais e cultura surda que ajudam a definir suas identidades surdas”.
Assim, as demais identidades apresentadas a seguir são delimitadas a partir da
presença, parcialidade ou ausência dos elementos culturais colocados acima.

95
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

3.2 IDENTIDADE SURDA HÍBRIDA


A palavra “híbrido” tem o significado de algo composto por dois
elementos diferentes. A identidade surda híbrida é aquela em que o indivíduo
nasceu ouvinte e ficou surdo após ter adquirido a estrutura mental da língua oral.
Assim, de acordo com Perlin (2002), eles podem ter o conhecimento da estrutura
da Língua Portuguesa e utilizarem a língua oral ou a língua de sinais para
comunicação e captação das mensagens. Ainda de acordo com a autora, dentre
os surdos que se encaixam nesta categoria, existe também uma variação grande,
pois alguns indivíduos fazem uso conjunto da língua oral, outros utilizam a
apenas língua de sinais.

A assimilação da língua oral estará vinculada ao momento em que se


tornaram surdos, podendo ter sido antes ou depois do processo de estruturação
mental da língua oral falada e/ou escrita. Logo, haverá uma variação entre a
assimilação e utilização da estrutura da língua oral. De acordo com Martins (2004,
p. 29), “Essas identidades [ouvinte e surda] experimentam a circunstância de ter
que se valer sempre de duas línguas, mas, segundo a experiência da própria
autora [Perlin, 1998], a sua identidade vai ao encontro das identidades surdas”.

Assim, a identidade surda híbrida é aquela em que as identidades ouvinte


e surda existem no mesmo indivíduo, mas em que as características identitária
referente à vivência surda se sobrepõe às ouvintes. Perlin (1998) destaca os
seguintes elementos culturais presentes nas identidades híbridas:

Assumem um comportamento de pessoas Surdas, ex: política da


identidade Surda usa tecnologia para Surdos...;
Convivem pacificamente com as comunidades Surdas;
Assimilam um pouco mais que os outros Surdos, ou não conseguem
assimilar a ordem da língua falada, tem dificuldade de entendê-la;
A escrita obedece à estrutura da Língua de Sinais, pode igualar-se a
língua escrita, com reservas;
Participam das comunidades, associações, e/ou órgãos representativos
e compartilham com as identidades surdas suas dificuldades, políticas,
aspirações e utopias;
Aceitam-se como Surdos, sabem que são Surdos, exigem intérpretes,
legenda e Sinais na TV, telefone especial, campainha luminosa;
Também tem uma diferente forma de relacionar-se com as pessoas e
mesmo com animais (PERLIN, 2002, p. 15).

Logo, a identidade híbrida converge em alguns pontos com a identidade


surda propriamente dita, pois experienciam a surdez através dos diferentes
aparatos, legilações e elementos disponíveis bem como se reconhecem surdos,
participam de associações, comunidades e eventos surdos. Bem como, se
relacionam de modo peculiar com pessoas e animais.

96
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

3.3 IDENTITADE SURDA FLUTUANTE


Os surdos que têm a identidade surda flutuante são aqueles que não
tiveram e não têm contato com a comunidade surda, sua experiência da surdez foi
mediada pelo olhar ouvinte num contexto de preconceito, desconhecimento social
ou negação da identidade cultural surda. Visto que não tiveram a possibilidade de
serem acolhidos nas vivências da cultura surda, assim, apresentam características
identitárias que os vinculam ao mundo ouvinte, mesmo que de maneira não
efetiva. Desta forma, estes surdos são aqueles que, segundo Martins (2004, s.p.),
“[...] querem ser ouvintizados a todo custo, desprezando a cultura surda e não
assumindo compromisso algum com a comunidade surda”.

Assim, a identidade flutuante é aquela em que o surdo não se identifica


como surdo e segue uma representação, inatingível, ouvinte; assim acabam por
não se envolverem na comunidade surda e nas lutas surdas. Perlin (2002, p. 15-
16), coloca as seguintes características para as identidades surdas flutuantes:

Seguem a representação da identidade ouvinte;


Estão em dependência no mundo dos ouvintes, seguem os seus
princípios, respeitam-nos, colocam-nos acima dos princípios da
comunidade Surda, às vezes competem com os ouvintes, pois que são
induzidos no modelo da identidade ouvinte;
Não participam da comunidade Surda, associações e lutas políticas;
Desconhecem ou rejeitam a presença do intérprete de Língua de Sinais;
Orgulham-se de saber falar “corretamente”;
Demonstram resistências a Língua de Sinais e a cultura Surda visto
que isto, para eles, representa estereotipo;
Não conseguiram identificarem-se como Surdos, sentem-se inferiores
aos ouvintes; isto pode causar muitas vezes depressão, fuga, suicídio,
acusação aos outros Surdos, competição com os ouvintes, há alguns
que vivem na angústia no desejo contínuo de serem ouvintes;
São vítimas da ideologia oralista, da inclusão, da educação clínica, do
preconceito e do preconceito da surdez;
São Surdos. Quer ouçam algum som, quer não ouçam, persistem em
usar aparelhos auriculares, não usam tecnologia dos Surdos;
Estas identidades Surdas flutuantes também apresentam divisões;
por exemplo, aqueles que têm contato com a comunidade Surda, mas
rejeitam-na, os que jamais tiveram contato, etc.

Logo, os surdos categorizados por Perlin (2002) como de identidade


flutuante, não estabelecem ligações com a comunidade surda e nem com a
cultura surda ou com os elementos culturais que compõem as características
identitárias surdas.

97
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

3.4 IDENTIDADE SURDA EMBAÇADA

Segundo Perlin (2002), os indivíduos que fazem parte do grupo das


identidades surdas embaçadas são aqueles que vivenciam uma percepção da
surdez como estereótipo, como falta da audição, sem terem conhecimento
da questão cultural em relação à compreensão da surdez. Diferentemente da
identidade surda flutuante, estes sujeitos não estão representados nem na
identidade ouvinte nem na identidade surda propriamente dita.

Perlin (2002, p. 16) lista as seguintes características das identidades


embaçadas:

Sua comunicação é por alguns Sinais incompreensíveis às vezes;


Não tem condição de dizer onde moram, seu nome, sua idade, etc...
Não tem condições de usar Língua de Sinais, não lhe foi ensinada, nem
teve contato com a mesma;
São pessoas vistas como incapacitadas;
Neste ponto, ouvintes determinam seus comportamentos, vida e
aprendizados;
É uma situação de deficiência, de incapacidade, de inércia, de revolta;
Existem casos de aprisionamento de Surdos na família, seja pelo
estereotipo ou pelo preconceito, fazendo com que alguns Surdos se
tornem embaraçados (PERLIN, 2002, p. 16).

Desta maneira, aos indivíduos pertencentes ao grupo de identidade surda


embaçada não foi possibilitada a alternativa de existirem enquanto surdos, são
aqueles aos quais foi negada a existência como seres independentes, de modo que
dependem dos ouvintes para todas as movimentações a serem vividas.

3.5 IDENTIDADE SURDA DE TRANSIÇÃO


De acordo com Perlin (2002), todos os surdos que não tiveram contato
com a cultura surda precisam passar por este momento em que é feita a transição
de uma identidade ouvinte para uma identidade surda, deste modo, a autora
chama a atenção para a característica de que estes surdos são aqueles que não
tiveram contato com a comunidade surda e, no momento em que começam
a ter contato com ela, os surdos passam por um processo de transição, é uma
identidade sempre em trânsito entre a identidade ouvinte e a identidade surda.

Ainda sobre esta identidade, Perlin (2002, p. 16) coloca que os indivíduos
surdos que estão neste momento de transição e apresentam as seguintes
características:

98
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

No momento em que esses Surdos conseguem contato com


a comunidade Surda, a situação muda e eles passam pela
desouvintização, ou seja, rejeição da representação da identidade
ouvinte;
Embora passando por essa desouvintização, os Surdos ficam com
sequelas da representação, o que fica evidenciado em sua identidade
em construção;
Há uma passagem da comunicação visual/oral para a comunicação
visual/sinalizada.

Logo, a identidade surda de transição é aquela que representa o trânsito


entre a identidade ouvinte e a identidade surda, desse modo que o surdo
categorizado neste processo está sendo inserido nas percepções da cultura
surda e da vivência como surdo. Contudo, a autora afirma que permanecem
características que demonstram este trânsito entre a identidade surda e a
ouvinte como um traço do indivíduo.

Como exemplo desta identidade, podemos lembrar de Pedro, aquela


nossa personagem lá da seção em que falamos sobre construção da identidade,
ele havia sido criado longe da comunidade e da cultura surda, mas no momento
em que passou a conviver e ter contato com ela, sua identidade surda começou
a emergir, mesmo assim, a parte de sua história pessoal em que ele não teve
acesso aos elementos culturais surdos deixará marcas.

3.6 IDENTIDADE SURDA DE DIÁSPORA


A diáspora é o movimento de deixar o território, de se dispersar por
outros lugares, Perlin (2002, p. 16) coloca que:

As Identidades de Diáspora divergem das identidades de transição.


Estão presentes entre os Surdos que passam de um país a outro ou,
inclusive passam de um Estado brasileiro a outro, ou ainda de um
grupo Surdo a outro. Ela pode ser identificada como o Surdo carioca,
o Surdo brasileiro, o Surdo norte-americano. É uma identidade muito
presente e marcada.

Nesta movimentação entre lugares diferentes acabam por aparecer


também as diferenças culturais, vivenciais e linguísticas, pois os traços culturais
também são relativos aos espaços ocupados pelas pessoas surdas. Desta
maneira, a identidade de diáspora está relacionada aos surdos que vivem em
lugar diferente daqueles de nascimento e que vivenciam as diferenças culturais
existentes dentre os dois lugares de modo que participam de diversos modos de
espaços de negociação, tensão e interferência.

Para exemplificar esta tensão, podemos pensar nas variações linguísticas


entre os dialetos da Libras existentes no Brasil, um exemplo aparece na
comparação entre os sinais de mãe utilizados no RS e em outros estados:

99
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

FIGURA 3 – SINAL DE MÃE EM LIBRAS DIALETO DO RS EM COMPARAÇÃO COM OUTROS ESTADOS

FONTE: Os autores

O sinal do RS é feito com apenas um sinal, mão na configuração em D


toca a lateral do nariz duas vezes, já em outros estados do Brasil, o sinal de mãe é
composto pelos sinais de MULHER (mão em A desliza pela bochecha)+ BÊNÇÃO
(mão fechada em S encosta na boca). Assim, o mesmo sinal tem duas formas de
sinalização que divergem pelo uso regional feito, sendo este apenas um exemplo
vocabular de modificação de acordo com o lugar. Contudo, a variação linguística
pode acontecer em todos os níveis da língua seja vocabular, sintático ou semântico,
isso quer dizer, o nível das palavras, da estruturação dentro das frases e entre as
frases ou de significado dos sinais ou expressões.

3.7 IDENTIDADES SURDAS INTERMEDIÁRIAS


Os indivíduos que apresentam uma identidade surda intermediária
são aqueles em que a captação das mensagens não se dá totalmente de modo
visual, porque apresentam apenas algum grau de surdez e procuram modos
para conseguir compensar a falta de audição, seja através de aparelhos auditivos,
amplificadores, treinamento oral, resgate auditivos, dentre outras possibilidades
que os tratamentos e a tecnologia possibilitem para que consigam vivenciar o
máximo da identidade ouvinte possível. Dessa maneira, levam o máximo possível
uma vida como ouvintes. Por isso, não valorizam a língua de sinais, não solicitam
a presença de intérpretes e, de acordo com Perlin (2002):

Quando presente na comunidade Surda, geralmente se posiciona


contra o uso de intérpretes ou considera o Surdo como menos dotado
e não entende a necessidade de Língua de Sinais de intérpretes;
Tem dificuldade de encontrar sua identidade visto que não é Surdo
nem ouvinte. Ele vive como pêndulo, ora entre Surdos, ora entre
ouvintes, daí seu conflito com esta diferença (PERLIN, 2002, p. 16).

100
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Assim, estas pessoas não se identificam nem como surdos nem como
ouvintes, ficando num lugar intermediário entre a identidade surda e a ouvinte,
o que difere da identidade de transição porque não estão em movimento, ou
modificação, mas se encontram fixamente no entrelugar. São diferentes das
identidades flutuantes porque apresentam um grau de surdez que permite a
participação, mesmo que não proficiente de todo, na comunidade ouvinte.

UNI

Prezado acadêmico! Observe que nesta perspectiva apresentada por


Perlin (2008) não são utilizados os graus de surdez para a classificação dos surdos, ou
seja, a autora abandona a fórmula clássica de compreender a surdez como dentro do
espectro de o quanto a pessoa ouve. Assim, perceba que nesta última identidade não
são utilizadas expressões como “resto auditivo” ou “grau de audição”, mas sim a expressão
“grau de surdez”, e como toda a escolha de palavras é um ato político, isso demonstra um
claro posicionamento de que todas as identidades surdas são válidas e importantes para
a constituição do povo surdo. Logo, a divisão por graus de audição não contempla as
necessidades e o respeito que o entendimento da surdez como identidade merece, assim
como a divisão entre surdos e deficientes auditivos também traz em si uma noção de
que a surdez é uma deficiência e não uma diferença, por isso, não é utilizada também na
compreensão apresentada.

O quadro a seguir apresenta uma síntese das ideias apresentadas por


Perlin (2002) sobre as diferentes identidades surdas:

QUADRO 1 – SÍNTESE IDENTIDADES SURDAS

Identidade surda Característica principal


Identifica-se e é reconhecido como surdo; utiliza os aparatos legais,
tecnológicos de acessibilidade; participa da comunidade surda;
SURDA
estabelece relações de sentido através da experiência visual e se
relaciona através da língua de sinais e de sua identidade surda.
Adquiriu a surdez tardiamente, por isso, teve acesso à estrutura da
língua oral e à identidade ouvinte, mas se identifica e se reconhece
HÍBRIDA como surdo; participa da comunidade surda; utiliza os aparatos
legais e tecnológico de acessibilidade e se relaciona através da língua
de sinais e de sua identidade surda.
Surdo que teve sua identidade negada, se identifica com a identidade
ouvinte mesmo que de modo não efetivo, nega-se a ter intérprete
e a utilizar aparatos legais e tecnológicos de acessibilidade; não
FLUTUANTE
participa da comunidade surda; negam-se ao uso da língua de
sinais e ao acesso à cultura surda; dependem dos ouvintes e querem
desenvolver estratégias para se enquadrarem na identidade ouvinte.

101
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Surdo que foi escondido pela família e não consegue se movimentar


no mundo, nem dar as informações mais básicas sobre si; não tem
EMBAÇADA relação nem com a identidade surda nem com a identidade ouvinte;
são vistos como incapazes; sua sinalização é confusa ou inexistente;
vítimas da ideia de incapacidade.
Surdos que tem uma identidade em trânsito entre ouvinte e surdo,
pois ao ter acesso à cultura surda passam a se incluir nas características
DE TRANSIÇÃO
da identidade surda propriamente dita, porém sempre terão como
característica este processo de trânsito entre identidades.
Surdo que se muda de lugar (país, estado, cidade) e precisa lidar com
DE DIÁSPORA as tensões que ocorrem no embate cultural entre o seu referencial e
o dos surdos do lugar para onde se mudou.
Surdo que tem graus de surdez que permitem a audição de alguns
sons, não se identificam como surdos, procuram o máximo possível
serem oralizados e terem acesso a tecnologias que permitam a
INTERMEDIÁRIA
compensação da audição; não se enquadram totalmente nem na
identidade ouvinte nem na surda, mas são diferentes dos flutuantes
porque possuem surdez parcial.

FONTE: Os autores

DICAS

França et al. (2018) fizeram uma apresentação em que retomam partes das
discussões feitas nestas últimas seções, nela apresentam questões relacionadas à percepção
do surdo sobre si e da possibilidade do olhar do outro sobre o ser surdo.

APRESENTAÇÃO SOBRE IDENTIDADE SURDA

FONTE: França et al. (2018)

102
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

4 “DUPLA DIFERENÇA” E SURDEZ


O termo “dupla diferença” é trazido por Furtado (2012) para fazer
referência às pessoas que têm as suas identidades marcadas por traços identitários
reconhecidos dentro de grupos reconhecidos socialmente como diferentes, no
caso do estudo da autora, ela traça o perfil das narrativas vividas por surdos
negros. Segundo a autora (FURTADO, 2012, p. 11),

Compreendo como “dupla diferença” a existência em um único


sujeito, de dois traços identitários que o diferencie significativamente
da “norma”, representada na sociedade por sujeitos brancos,
magros, altos, ouvintes, que enxerguem, sejam usuários de uma
língua de modalidade visual-gestual e que não possuam nenhum
comprometimento físico ou intelectual. Assim, nesta pesquisa me
sinto instigada a “olhar” para os surdos negros considerando-os
sujeitos “duplamente diferentes”.

Assim, o termo “dupla diferença” está relacionado a um único indivíduo


que tem em si mais de um traço que foge ao que é considerado como pertencente
comum ou normal. Assim, a pesquisa da autora trabalha com indivíduos que são
surdos e negros, por isso vivenciam duas identidades que são discriminadas por
motivos diversos e podem contribuir para o entendimento de como se constroem
estas identidades em que ocorrem os cruzamentos de diferenças, de discursos, de
preconceitos e de dificuldades.

Esta discussão de “dupla diferença” está pautada no entendimento do


que é compreendido como a normalidade, na perspectiva em que as pessoas que
apresentam alguma característica que a torne diferente disso são categorizadas
como grupos minoritários e tratadas a partir da visão de que necessitam de
intervenções para que se aproximem do que é entendido como o padrão da
sociedade. De acordo com Furtado (2012, p. 13):

Vivemos em uma sociedade onde é recorrente o discurso do normal,


ou seja, daquilo que está dentro da norma considerada ideal,
adequada. Nesta perspectiva, os sujeitos que não se enquadram
nessa norma, são marginalizados, passando a fazer parte dos grupos
denominados minoritários. Nestes grupos estão inseridos os negros,
os deficientes físicos [autistas, deficientes mentais], os cegos, os
obesos, os homossexuais, os índios, os surdos e todos aqueles que
possuem algo que os caracterize como diferentes.

Logo, todas as pessoas que têm algum traço identitário que as caracterize
como diferentes acabam sendo conhecidas e reconhecidas a partir de suas
diferenças e não de suas potencialidades individuais ou da diversidade existente
entre os seres humanos. Nesta visão, os chamados grupos minoritários, não
necessariamente representam um grupo menor quantitativamente de pessoas,
mas são minoritários nos sentidos de menor representatividade e menor poder
social. “Assim, podemos compreender que os grupos minoritários são produzidos
nas relações de poder e que quando grupos são nomeados como minoritários,
estão automaticamente sendo concebidos como os ‘outros’, os atores coadjuvantes
da história” (FURTADO, 2012, p. 12).
103
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Desta maneira, a noção de grupo minoritário tem relação com as


relações de poder, vinculadas ao tempo de exposição midiática, aos acessos
à informação e ao conhecimento; aos elementos culturais que perpassam a
construção de cada identidade.

A autora ainda traz à discussão de que existem diferenças aceitas


socialmente (como o corte de cabelo, time, gosto musical) e outras que acabam
sendo percebidas como significativas, pois fazem referência às características que
fogem ou desviam do que é entendido como normalidade. Para exemplificar estes
atravessamentos identitários que existem, vejamos o exemplo de Léo Viturinno,
professor universitário de Libras, que se apresenta como surdo, gay e drag queen.

FIGURA 4 – LÉO VITURINNO APRESENTAÇÃO COMO SURDO, GAY E DRAG QUEEN

FONTE: Viturinno (2020, s.p.)

104
TÓPICO 1 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA

Observe que Léo afirma suas identidades surda, gay e drag; todas elas
fogem daquele estereótipo de normalidade sobre o qual estávamos discutindo
anteriormente. Em suas redes sociais, o professor faz sempre reflexões bem-
humoradas sobre aspectos relevantes sobre as suas vivências surdas, gays e, mais
recentemente, drags. Um dos vídeos interessantes é aquele em que ele, como
surdo, comenta o uso de músicas adaptadas em Libras para o ensino de surdos.
Vale a pena dar uma olhada nas redes sociais dele para conhecer, em primeira
mão alguns aspectos que merecem destaques neste lugar de entrecruzamento de
identidades em que Léo Viturinno vive. No caso dele, fica em evidência que é
partindo da experiência visual que se caracteriza a identidade surda na qual ele
se reconhece, que ele percebe a realidade e experiencia as demais identidades
com as quais se identifica e se insere.

Outro aspecto que se relaciona às discussões de “dupla identidade”


neste contexto são aqueles surdos que apresentam outras particularidades,
tais como os surdocegos, surdos deficientes físicos, surdos com deficiência
intelectual ou quaisquer outras combinações identitárias nas quais duas
ou mais diferenças significativas estejam envolvidas. Ou seja, existe uma
infinidade de possibilidades identitárias a partir destes grupos de indivíduos
que se relacionam culturalmente e todas se inserem nas discussões sobre
“dupla identidade”.

Em relação às vivências da dupla identidade e dos preconceitos


envolvidos, no estudo feito por Furtado (2012) sobre as narrativas de surdos
negros, a autora chega à conclusão de que a experiência destas identidades e
o peso do olhar da sociedade sobre elas varia de acordo com a percepção do
indivíduo entrevistado. Assim, ela conta que em alguns casos, o preconceito
maior percebido era por serem negros, outras vezes, por serem surdos, contudo,
o que chamou atenção da pesquisadora foi o fato de que todos os participantes
se identificarem como surdos, ou seja, reforçando a ideia de que a identidade
surda é aquela através da qual os sujeitos se colocam no mundo.

105
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Ao nos referirmos à identidade de alguém ou de algum grupo específico, existe


uma gama enorme de possibilidades para o entendimento deste termo.

• Existem inúmeras áreas que estudam a constituição da identidade a partir de


diferentes olhares teóricos.

• A formação da identidade está relacionada àquilo que se compreende como


identidade a partir dos diferentes contextos.

• Com o surgimento da psicologia social, os estudiosos da área adotaram


o termo identidade para fazer referência a todo um conjunto de situações
contextuais e sócio-históricas que perpassavam a formação do ser humano
como um sujeito social.

• O processo de construção da identidade se estrutura no embate entre o que é


individual e o que é social e histórico.

• A identidade individual é construída e reconstruída a partir dos inúmeros


contextos aos quais o indivíduo é exposto.

• O cruzamento entre os diferentes elementos culturais faz com que eles se


alterem entre si e em relação à contrução identitária.

• De acordo com Perlin (1998), os surdos foram vistos apenas através da falta
da audição, ou seja, apenas como não ouvintes, como não pertencentes à
normalidade das pessoas.

• A diferença pressupõe a percepção do outro, pois só se pode ser diferente


quando na comparação com outro grupo de pessoas.

• A identidade surda política é aquela em que o indivíduo experiencia todos


os elementos culturais vinculados à surdez, de modo que se reconhece surdo,
participa das lutas surdas e pauta as suas vivências através da experiência
visual que o caracteriza.

• O surdo cuja identidade categorizada como surda política por Perlin (1998) é
aquele que se percebe surdo e que vivencia a surdez como parte de si.

• Os surdos são um grupo extremamente diverso e com experiências, vivências


e criações culturais que influenciam de modo diferente a percepção de si e do
outro dentro do contexto de compreensão das identidades.

106
• Cada indivíduo se apresenta e é percebido no mundo a partir de suas
características formadas através de suas experiências pessoais dentro de uma
determinada sociedade.

• Os sujeitos surdos não diferenciam um do outro de acordo com o grau de


surdez, e sim o importante para eles é o pertencimento ao grupo usando língua
de sinais e cultura surda que ajudam a definir suas identidades surdas.

• A identidade surda híbrida é aquela em que o indivíduo nasceu ouvinte e ficou


surdo após ter adquirido a estrutura mental da língua oral.

• Os surdos que têm a identidade surda flutuante são aqueles que não tiveram e
não têm contato com a comunidade surda.

• Os indivíduos que fazem parte do grupo das identidades surdas embaçadas


são aqueles que vivenciam uma percepção da surdez como estereótipo, como
falta da audição, sem terem conhecimento da questão cultural em relação à
compreensão da surdez.

• A identidade surda de transição é aquela que representa o trânsito entre a


identidade ouvinte e a identidade surda.

• A identidade de diáspora está relacionada aos surdos que vivem em lugar


diferente daqueles de nascimento e que vivenciam as diferenças culturais
existentes dentre os dois lugares.

• Os indivíduos que apresentam uma identidade surda intermediária são aqueles


em que a captação das mensagens não se dá totalmente de modo visual.

• O termo “dupla diferença” está relacionado a um único indivíduo que tem em


si mais de um traço que foge ao que é considerado como pertencente comum
ou normal.

• Existe uma infinidade de possibilidades identitárias a partir destes grupos de


indivíduos que se relacionam culturalmente e todas se inserem nas discussões
sobre “dupla identidade”.

107
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com os estudos sobre a constituição das identidades


surdas do Tópico 1:

I- Ao nos referirmos à identidade de alguém ou de algum


grupo específico, existe uma gama enorme de possibilidades para o
entendimento deste termo.
II- Existem inúmeras áreas que estudam a constituição da identidade a partir
de diferentes olhares teóricos.
III- A formação da identidade jamais estará relacionada àquilo que se
compreende como identidade a partir dos diferentes contextos.
IV- O processo de construção da identidade se estrutura no embate entre o
que é individual e o que é social e histórico.
V- A identidade individual é construída e reconstruída a partir dos inúmeros
contextos aos quais o indivíduo é exposto.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

2 De acordo com o estudo sobre as diversas identidades surdas,


estudadas no Tópico 1, analise as sentenças, classificando V
para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) A identidade surda política é aquela em que o indivíduo experiencia todos


os elementos culturais vinculados à surdez de modo que se reconhece
surdo, participa das lutas surdas e pauta as suas vivências através da
experiência visual que o caracteriza.
( ) Os surdos são um grupo extremamente diverso e com experiências, vivências
e criações culturais que influenciam de modo diferente a percepção de si e do
outro dentro do contexto de compreensão das identidades.
( ) Os sujeitos surdos não diferenciam um do outro de acordo com o grau de
surdez, e sim o importante para eles é o pertencimento ao grupo usando
língua de sinais e cultura surda que ajudam a definir suas identidades surdas.
( ) Os surdos que têm a identidade surda flutuante são aqueles que tiveram
contato com a comunidade surda, porém, não aceitam participar da mesma.
( ) Os indivíduos que apresentam uma identidade surda intermediária são aqueles
em que a captação das mensagens não se dá totalmente de modo visual.

108
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:

a) ( ) V – V – V – F – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) F – V – V – V – F.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.

3 De acordo com a síntese das ideias apresentadas por Perlin (2002) sobre as
diferentes identidades surdas:

Relacione, de forma CORRETA, Coluna I, Identidade Surda, à Coluna II,


Característica Principal:

Coluna I Coluna II

( 1 ) Híbrida ( ) Surdo que foi escondido pela


família e não consegue se
( 2 ) Flutuante movimentar no mundo, nem dar
as informações mais básicas sobre
( 3 ) Embaçada si; não tem relação nem com a
identidade surda nem com a
( 4 ) De Transição identidade ouvinte.
( ) Adquiriu a surdez tardiamente,
( 5 ) De Diáspora por isso, teve acesso à estrutura
da língua oral e à identidade
ouvinte, mas se identifica e se
reconhece como surdo; participa
da comunidade surda.
( ) Surdos que têm uma identidade
em trânsito entre ouvinte e
surdo, pois ao ter acesso à cultura
surda passam a se incluir nas
características da identidade surda
propriamente dita.
( ) Surdo que teve sua identidade
negada, se identifica com a
identidade ouvinte mesmo que de
modo não efetivo.
( ) Surdo que se muda de lugar
(país, estado, cidade) e precisa
lidar com as tensões que ocorrem
no embate cultural entre o seu
referencial e o dos surdos do
lugar para onde se mudou.

109
Marque a alternativa que apresenta a CORRETA numeração da Coluna II:
a) ( ) 4, 5, 3, 2 e 1.
b) ( ) 3, 2, 5, 1 e 4.
c) ( ) 3, 1, 4, 2 e 5.
d) ( ) 3, 1, 5, 2 e 4.
e) ( ) 4, 5, 3, 1 e 2.

4 Baseado nas ideias apresentadas por Perlin (2002) sobre as diferentes


identidades surdas, desta unidade, descreva seu entendimento sobre a
Identidade Surda Intermediária.

5 Qual é o seu entendimento sobre o termo “dupla diferença”, trazido por


Furtado (2012) para fazer referência às pessoas que têm as suas identidades
marcadas por traços identitários reconhecidos dentro de grupos
reconhecidos socialmente como diferentes.

110
TÓPICO 2 —
UNIDADE 2

PROCESSOS FAMILIARES NA
CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior foram estudadas questões referentes ao
desenvolvimento da identidade cultural e como as discussões sobre cultura
permitiram a compreensão das diferentes identidades surdas, se afastando do
entendimento de normalidade e anormalidade, bem como permitindo que o povo
surdo seja compreendido na heterogeneidade dos indivíduos que o compõem.
Dito de outro modo, foi a noção de identidade como traços culturais que permitiu
o descolamento dos sujeitos surdos das definições identitárias que partiam da
falta de audição.

Também no tópico anterior, foram discutidos alguns aspectos quanto à


“dupla identidade”, conceito em que se observa o pertencimento identitário a
mais de uma identidade cuja diferença seja percebida como significativa dentro
do contexto social. Sejam estas diferenças vinculadas a escolhas afetivas, de
representação de gênero, de raça ou da combinação entre surdez e outro grupo
identitário que apresente características tais como cegueira, deficiência intelectual,
TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Embora já tenhamos discutido brevemente alguns aspectos relacionados


ao papel da família para o desenvolvimento da criança surda, neste tópico,
serão discutidas questões sobre os processos familiares na constituição das
identidades surdas. Inicialmente serão retomadas algumas das noções quanto
à aquisição da linguagem e a importância da exposição precoce à língua para a
estruturação do pensamento.

A seguir serão estudadas algumas características sobre o papel social das


famílias, ou seja, como a família, sendo o primeiro grupo social dos indivíduos
influencia nas interações futuras das pessoas e como as decisões, elementos
culturais, eventos compartilhados e, inclusive, línguas utilizadas influenciam na
construção da identidade das pessoas.

Por fim serão estudadas as consequências das diferentes abordagens


sobre a surdez na ocasião do nascimento/surgimento por alguma causa posterior
de uma criança surda numa família ouvinte e como serão apontados traços
relevantes sobre as crianças ouvintes que nascem em famílias surdas, CoDA
(Children of Deaf Adults).

111
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Ao longo deste tópico serão colocados vários relatos de pessoas surdas


sobre a sua percepção pessoal do modo como se deu a aquisição da linguagem
ou como foi a sua vivência em família. Estes relatos são importantes porque darão
voz aos principais atores deste processo familiar surdo, ou seja, o próprio surdo!
Pois, por mais que sejam feitas pesquisas; criadas teorias e pensados estudos de
caso, com certeza aqueles que viveram na própria pele os processos familiares
que envolvem o nascimento de alguém que tem uma modalidade de input
completamente diferente dos pais terão muito mais propriedade para narrar as
suas histórias.

Assim, na medida em que o texto deste tópico for se desenvolvendo,


aparecerão histórias, memórias e vivências que pretendem dar voz aos membros
da comunidade surda, já se inserindo então aquilo que os estudos surdos
pretendem, fomentar a palavra tomada pelas próprias mãos da comunidade e do
povo surdo.

2 QUESTÕES SOBRE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM E SURDEZ


De acordo com a teoria gerativista, a faculdade da linguagem é a
capacidade que a mente humana tem de organizar os diferentes elementos
linguísticos para a formação de sentenças, sendo que estas são estruturadas
de uma maneira específica através dos princípios universais e parâmetros
específicos de cada língua. Ainda de acordo com esta teoria, o estágio inicial da
Faculdade da Linguagem é a Gramática Universal, ou seja, a parte do cérebro
que armazena a capacidade de aprender uma língua.

Assim, todos nós nascemos com a mente preparada para aprender uma
língua, porém, são necessários que os estímulos linguísticos sejam recebidos para
que esta Gramática Universal se desenvolva e se torne a Faculdade da Linguagem,
ou seja, se desenvolva a ponto de que sejamos capazes de selecionar, estruturar
e combinar as palavras em sentenças que estejam de acordo com os princípios
universais e os parâmetros específicos da(s) língua(s) a que fomos expostos desde
o nascimento.

UNI

A teoria gerativista foi assunto da disciplina de Sintaxe da Libras, então,


caso você queira relembrá-lo com mais detalhes, recomendamos que retorne a esse
livro didático.

112
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

Nesta teoria, os princípios são aquilo que se repete em todas as línguas


sejam elas oral-auditivas ou de sinais; já os parâmetros são usos específicos de
cada língua. Um princípio que existe em todas as línguas é que as orações devem
ter sujeito; um parâmetro é que algumas línguas aceitam que o lugar do sujeito
seja nulo, porque ele pode ser reconhecido através de outra parte das sentenças
sem a necessidade de expressão direta.

Na frase a seguir, não é necessário dizer quem foi a pessoa quem encontrou
Maria, ou seja o sujeito da sentença não precisa estar expresso nela porque fica
evidente pelo contexto de sinalização o sinalizante encontrou Maria, como você
pode ler ou ver no vídeo disponibilizado via QR Code:

FIGURA 5 – SENTENÇA 1 – SENTENÇA EM SIGN WRITING: ENCONTREI MARIA ONTEM

FONTE: Os autores

Em Libras e Português é perfeitamente possível produzir sentenças


estruturalmente corretas em que o lugar do sujeito não está preenchido, ou seja,
é nulo. Já em línguas como o Inglês, o parâmetro de produção de frases exige que
o lugar do sujeito esteja preenchido, então, a sentença acima obrigatoriamente
teria que ser escrita com o pronome (Eu=I) no papel do sujeito. Deste modo:

I met Maria yesterday.

Caso fosse escrita sem o pronome no lugar de sujeito, esta sentença seria
agramatical, ou seja, não estaria de acordo com os parâmetros da língua inglesa,
não seria uma frase possível em inglês.

*Met Maria yesterday.

113
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

NOTA

Em linguística existe a convenção de que o asterisco ao lado de palavras,


expressões ou sentenças indica a agramaticalidade, ou seja, impossibilidade de a frase estar
estruturada de acordo com os parâmetros da língua em questão.

Dito de outro modo, nosso cérebro nasce com a capacidade de aprender


qualquer língua (Gramática Geral), então, a partir das interações linguísticas a
que somos expostos desde o nascimento, nossa mente vai aprendendo e fixando o
modo como a língua a que somos expostos se comporta em relação aos princípios
existentes em todas as línguas. E vai fixando as características vocabulares,
semânticas e sintáticas específicas da língua com qual interagimos desde a mais
tenra idade. Assim, com o tempo e a exposição contínua, nossa mente adquire os
parâmetros desta língua e nos tornamos capazes de utilizá-la de modo proficiente
nas interações feitas através dela.

Desta maneira, a língua é muito mais do que um instrumento de


comunicação, ela é a forma como nossa mente/cérebro se estrutura na realidade,
sendo através dela que nossos pensamentos se estruturam. Nesta perspectiva,
a língua ganha extrema relevância para o desenvolvimento mental, linguístico,
identitário e global dos indivíduos.

Para a nossa discussão, esta capacidade da língua é de extrema importância,


porque nem sempre o input linguístico em língua de sinais é proporcionado
durante a infância para os indivíduos surdos, o que vai acarretar complicações
muito mais severas do que “apenas” para a comunicação.

NOTA

Input é o termo utilizado para fazer referência ao conjunto de dados a que


uma pessoa é exposta quando uma língua é usada perto dela.

A importância da inserção precoce no ambiente linguístico adequado


é muito importante para que o indivíduo possa desenvolver os parâmetros de
uma língua, de acordo com Lima Júnior (2013), diversos autores defendem a
existência de um período crítico para a aquisição da língua materna, após o
qual a aprendizagem da língua se daria de modo muito mais difícil e deixaria
sequelas perceptíveis através de dificuldade para a utilização plenamente
proficiente da língua.
114
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

De acordo com Lima Júnior (2013), o período crítico na biologia é um


espaço de tempo determinado para a aquisição de alguma habilidade que,
depois de certo período, deixa de existir. O mesmo autor afirma que, em relação
à língua, existem inúmeras discussões sobre a existência ou não de um período
delimitado biologicamente para a aquisição da habilidade linguística. Inclusive
existem pesquisadores que delimitam o período crítico de aquisição da L1 numa
faixa etária entre os dois e os dez ou doze anos. Assim, após esta faixa etária a
aprendizagem da língua materna, ou seja, da primeira língua com a qual a pessoa
terá contato, a pessoa enfrentará severas dificuldades para a aquisição da língua,
inclusive com a alternativa da impossibilidade de desenvolver plenamente o
raciocínio linguístico e a estruturação mental que se dá através da língua.

Para sintetizar os estudos sobre o período crítico, Lima Júnior (2013)


apresenta vários estudos com crianças expostas a situações extremas em que
qualquer contato com uma língua materna foi negado e apresenta os resultados
pouco eficientes das intervenções médicas e pedagógicas.

Um dos estudos citados por Lima Júnior (2013) é o de Newport (1990),


neste estudo, a autora analisa três grupos de participantes surdos e observa a sua
proficiência em ASL (American Sign Language). Neste estudo, todos os entrevistados
tinham contato diário com a língua de sinais há, pelo menos, trinta anos. O “[...]
primeiro grupo consistiu de pessoas expostas à língua de sinais desde o início da
infância, o segundo grupo de pessoas expostas à língua de sinais pela primeira
vez entre quatro e seis anos de idade, e o último das expostas à língua de sinais
apenas após os 12 anos de idade” (LIMA JÚNIOR, 2013, p. 236, grifo nosso). Com
isso a pesquisa procurava gerar dados quanto à existência ou não de um período
crítico para aquisição da L1, ao final do estudo:

Os resultados mostraram que a diferença entre os dois primeiros


grupos foi bem pequena, com o primeiro grupo tendo nível de
falante nativo e segundo apresentando pequenas falhas. Entretanto,
o desempenho do terceiro grupo ficou significativamente abaixo
do dos outros dois, com problemas parecidos com os de Genie
[fala permaneceu agramatical, mesmo com muito investimento].
Para a autora, esses resultados reforçam a existência de um PC para
aquisição de L1 (LIMA JÚNIOR, 2013, p. 236, grifo nosso).

Assim, os sinalizantes apresentaram diferenças significativas quanto


mais velhos tiveram contato com a ASL, língua materna dos surdos norte-
americanos. Por isso, a pesquisa trouxe um resultado que reforça a ideia da
existência de um período crítico para a aquisição da L1, após o qual o indivíduo
terá enorme dificuldades para aquisição das estruturas básicas linguísticas.
Contudo, Lima Júnior (2013, p. 236) destaca que este estudo demonstra que “[...]
apesar da maior dificuldade de aquisição para aprendizes mais velhos, esses
dados não indicam que o desenvolvimento linguístico falha completamente a
partir de certo ponto maturacional”.

115
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Dito de outro modo, o período crítico para a aquisição da primeira língua


é de extrema importância para que o indivíduo possa organizar as estruturas
mentais que serão a base do seu pensamento não apenas linguístico, mas todo
aquele que se estabeleça por e através da língua. Assim, na visão da linguística
gerativa e dos estudos sobre período crítico, não importa qual é a língua do input,
mas sim que o sujeito seja exposto a uma língua, seja oral-auditiva ou visuo-
espacial a partir do nascimento, ou o mais cedo possível, preferencialmente, antes
dos dois anos e idade.

Inclusive, a possibilidade de aprendizagem de outras línguas, a segunda


língua ou L2, também depende da exposição precoce à L1, pois é sobre as bases
linguísticas desta última que a segunda língua será apreendida através da
comparação entre os diferentes parâmetros. Assim, a exposição precoce à língua
materna ganha muita importância no contexto da surdez, porque as orientações
médicas, a dificuldade de aceitação pela família e o preconceito social fazem
com que as crianças surdas percam um tempo precioso de um aprendizado que
deixará uma grande lacuna em seu desenvolvimento linguístico. Logo, partindo
deste pressuposto, Grosjean (s.d., p. 2) destaca que:

Toda criança surda, qualquer que seja o nível da sua perda auditiva,
deve ter o direito de crescer bilíngue. Conhecendo e usando a
língua de sinais e a língua oral (na sua modalidade escrita e,
quando for possível, na sua modalidade falada) a criança alcançará
um completo desenvolvimento das suas capacidades cognitivas,
linguísticas e sociais.

Assim, a autora demonstra compreender a surdez como a condição em


que, independemente do grau de perda de audição, pressupõe que a criança será
bilíngue. Dito de outro modo, todas as crianças surdas, seja qual for o tanto de
surdez que ela tenha, tem o direito de ter a língua de sinais e a língua oral em
seu cotidiano para que possa se desenvolver de acordo com sua potencialidade
linguística. A figura a seguir ilustra esta compreensão:

FIGURA 6 – DIREITOS DA CRIANÇA SURDA

FONTE: Pereira (2015, s.p.)

116
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

Na imagem acima, podemos ver que o bebezinho não compreende o


referente quando é falada a palavra gato, porém, compreende quando o sinal
referente a ela é utilizado, logo, pretende demonstrar que a criança surda tem
o direito de desenvolver plenamente a sua faculdade da linguagem a partir da
utilização da língua adequada ao seu modo de percepção linguística.

Contudo, mesmo sendo tão importante para o desenvolvimento pleno


das crianças, a língua de sinais, quando língua materna, ainda não é uma
realidade para todas as crianças, pois aquelas surdas que nascem em famílias
ouvintes ainda encontram várias barreiras antes de terem acesso à exposição à
língua de sinais.

A seguir, discutiremos alguns pontos sobre o papel social das famílias e,


após, retomaremos a questão quanto aos surdos que nascem em famílias ouvintes
e aos ouvintes que nascem em famílias surdas. Na citação a seguir, está inserido
um relato de Shirley Vilhalva em que a autora destaca a sua condição de surda,
filha de pais ouvintes e nos conta que ela não tinha conhecimento de sua condição
como surda parcial porque o contato com a língua lhe foi negado, tendo crescido
apenas com o uso da apontação.

Sou filha de pais ouvintes, sendo que do lado paterno tenho primos
surdos, o que me leva acreditar que minha surdez é hereditária. [...]
Quando criança eu não sabia que era surda (parcial) por que [sic]
era difícil alguém conversar comigo, se conversavam eu não ouvia
mesmo, ninguém nunca me chamou atenção para eu saber se eu
deveria ouvir ou não. Em casa, meus familiares pouco conversavam,
mas quando eles falavam de frente apontando o que eles queriam [sic]
eu os entendia (VILHALVA, 2004, p. 16).

Observe que o reconhecimento da identidade surda da autora lhe foi


negado, sendo dado apenas o silêncio como companhia, talvez por isso, o livro
em que a autora conta sua via se chame “O despertar do silêncio”, porque narra o
modo como ela se reconheceu surda e suas experiências através desta identidade.

3 O PAPEL SOCIAL DA FAMÍLIA


A família é o primeiro microcosmos social a que o ser humano é exposto,
pois é dentro das relações interpessoais, linguísticas e sociais que se estabelecem
dentro desta unidade que ele construirá a sua própria estrutura para as futuras
relações entre as pessoas, sua aquisição e uso linguístico, bem como aprenderá
os modos como se desenvolvem as situações sociais. Sobre estas experiências,
Oliveira (2011, p. 10) destaca que a família:

É o primeiro grupo a que pertence um indivíduo e onde ele tem a


oportunidade de aprender através de experiências positivas (afeto,
estímulo, apoio, respeito, sentir-se útil) e negativas (frustrações,
limites, tristezas, perdas), todas elas, fatores de grande importância
para a formação de sua personalidade (OLIVEIRA, 2011, p. 10).

117
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Assim, a família é o primeiro local em que a pessoa terá contato com as


experiências culturais e sociais que irão moldar muitas das características que os
indivíduos terão na idade adulta, pois “A família é um pequeno sistema social
interdependente que contém sistemas ainda menores. O que somos quando
adultos é em função da família e da sociedade cultural das quais viemos. Sabemos
que cada família é única. Com estilo próprio de vida e aprendizado” (OLIVEIRA,
2011, p. 11).

Desta maneira, este primeiro grupo social é de extrema importância para


o desenvolvimento da criança em todos os níveis, pois será através das bases
estabelecidas dentro das relações familiares que ela estruturará suas experiências
ao longo da vida.

Anteriormente, vimos como a exposição precoce ao input linguístico é


importante para toda a organização mental dos seres humanos, e é exatamente
neste primeiro grupo social familiar que a exposição ao uso proficiente da língua
materna fará com que a faculdade da linguagem estabeleça os parâmetros
específicos da língua que permitirão a estruturação do pensamento por parte do
indivíduo. Além disso, os demais elementos culturais a que a criança é exposta
no grupo familiar também comporão o alicerce sobre o qual as demais vivências
identitárias individuais serão construídas a partir das demais interações da
pessoa ao longo da vida.

É importante compreendermos que os grupos familiares podem ser


diversos e terem inúmeras configurações, segundo Oliveira (2011, p. 11):

[...] a família é concebida, atualmente, de uma forma mais ampla


do que tradicionalmente era vista. Esse novo conceito baseia-se na
intimidade entre seus membros, na relação entre as gerações e nas
variáveis externas incorporadas à família, o que implica apreender
características do relacionamento entre o homem e a mulher e entre
as crianças e os genitores, bem como do relacionamento de outras
pessoas que também convivem com a família.

Assim, a compreensão do termo família apresentado pela autora inclui


mais do que apenas o casal de genitores, mas toda uma gama de pessoas que
convivem com a criança e influenciam em sua criação. Contudo, é necessário
chamar a atenção para o fato de que a autora ainda se refere a um modelo de
família formado por um casal com filhos, o que nem sempre corresponde às
configurações familiares reconhecidas, tais como, avós que criam os netos,
madrinha/padrinho, casais de mesmo gênero, família monoparentais; todas estas
são possíveis de serem delimitadas como primeiro grupo de interação social,
microcosmos de experiências e lugar de exposição à língua e à cultura deste
núcleo familiar.

118
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

Em relação ao papel de cada membro da família em sua constituição,


Nunes (2010, p. 10) coloca que “O papel que cada membro da família assume
e a forma como deve desempenhá-lo diante das situações compartilhadas do
cotidiano, compõem a estrutura familiar”. Como exemplo, a pesquisadora coloca
que nas famílias investigadas em sua pesquisa o papel de responsável financeiro
pela casa é assumido por pessoas diferentes, ou seja, a função existe, mas é
exercida de acordo com cada estruturação familiar. Além disso, a autora também
destaca que estes papéis podem ser modificados ao longo da história da família
através de situações como perda de emprego, morte, nascimento de outros filhos,
dentre outras coisas, mas que a família sempre se reestrutura.

Assim, a família é de grande importância para a estruturação da


identidade dos indivíduos e como base através da qual as pessoas estruturam
suas experiências. Contudo, quando se pensa na aquisição da língua, o papel da
família ganha ainda mais relevância, pois será através dela e das decisões tomadas
pelos ocupantes dos papéis de adultos responsáveis que a surdez será percebida,
compreendida e organizada, assim, será a partir da família que a criança surda
terá ou não uma vivência linguística/social que permitirá o desenvolvimento
pleno da língua materna.

Nas próximas seções serão debatidos aspectos específicos quanto ao


nascimento de uma criança surda numa família ouvinte e de uma criança
ouvinte numa família surda, pois ambas as situações trazem em si desafios para
a aceitação, inclusão e interação familiar adequada.

4 OS SURDOS FILHOS DE PAIS OUVINTES


Neste espaço de vivências compartilhadas familiares, alguns traços
identitários são estabelecidos como pertencentes àquele grupo familiar, sejam eles
referentes à ascendência, aos valores, às relações de gênero, dentre muitos outros
elementos culturais que são relativos ao grupo familiar. Ou seja, a forma de ver,
ouvir e (com)viver em sociedade é passada através do convívio em família. Assim,
quando uma pessoa que apresenta características muito diferentes daquelas que
são comuns ao grupo familiar nasce, ocorre uma ruptura de expectativas, que
ocasiona uma verdadeira revolução neste microcosmos familiar.

119
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

NOTA

Acadêmico! Por certo que nenhum de nós (estudantes e pesquisadores) em


surdez a entendemos como uma deficiência. Isso, como vimos acima, é uma visão médica
e oralista que a percebe apenas como a falta de audição. Contudo, muitos estudiosos e
teóricos que não são especificamente da área da surdez, muitos materiais sobre o assunto
e, inclusive, a legislação existente coloca os surdos juntamente com as demais deficiências.
Logo, o uso do termo deficiente em alguns lugares deve-se a estes fatores e não a uma
confusão teórica ou incoerente dos autores deste livro didático.

Sobre o nascimento de uma criança surda ou com outro tipo de


característica especial, Buscaglia (1997, p. 20) coloca que:

Dar à luz a uma criança deficiente é um acontecimento repentino.


Não há aviso prévio, não há tempo para se preparar. Praticamente
inexiste um aconselhamento educacional ou psicológico aos confusos
pais, nesse momento crucial [...] Grande parte do que farão por seus
filhos se baseará no instinto ou no método do ensaio e erro. Quanto
aos seus sentimentos, medos, ansiedades, confusão e desespero, terão
de controlá-los da melhor maneira possível (BUSCAGLIA, 1997, p. 20).

Assim, o autor chama a atenção para a surpresa que o nascimento, ou do


desenvolvimento de alguma condição de saúde. Deste modo, os pais ouvintes de
uma criança surda estavam esperando um bebê com as mesmas características
familiares e de percepção do mundo que eles, ou seja, um recém-nascido ouvinte.
Mesmo nas orientações durante o pré-natal o casal é orientado a conversar, colocar
música e interagir através dos sons com aquele bebê que ainda não nasceu.

Assim, ao nascer uma criança que desafiará as certezas identitárias dos


pais, os fará ter que lidar com escolhas para as quais não estão preparados e
nem serão preparados pelos profissionais que os atenderem, pois a maioria dos
médicos, enfermeiros, assistentes sociais e pedagogos que, por ventura, cruzem
o caminho desta família têm a visão da surdez como deficiência e desconhecem
os aspectos relativos à aquisição da linguagem e ao desenvolvimento das línguas
para a estruturação do pensamento.

120
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

DICAS

O documentário “Para um filho surdo” foi produzido por Rob Tranchin para
seu filho Tommy, neste filme são narradas as dificuldades de escolhas que os pais ouvintes
precisam fazer em relação ao desenvolvimento do filho: investir em oralização? Em língua
de sinais? Qual comunidade envolver, surda ou ouvinte? Quais profissionais envolver no
processo? Assim, o documentário é o desabafo de uma família ouvinte que se encontrou
perdida e ansiosa no processo de compreensão do filho surdo. Acesse: [Link]
[Link]/watch?v=eJuvYd33B6Q.

DOCUMENTÁRIO "PARA UM FILHO SURDO"

FONTE: Verbo em movimento Libras (2015, s.p.)

Ou seja, nenhuma das orientações dadas durante a gravidez pressupõe


qualquer tipo de necessidade especial, ao contrário, os exames feitos durante
a gestão procuram sempre descartar esta possibilidade, isso ocorre porque, de
acordo com Oliveira (2011, p. 8):

Como a sociedade e as famílias não estão preparadas para enfrentar as


diferenças. A presença de um filho deficiente na família exige de cada
membro redefinições de papéis e mudanças. Os pais que possuem
uma expectativa em relação ao filho, de repente encontram se em
situação diferente daquilo que haviam imaginado, planejado e, nesse
momento, surge o fato de terem que se tornar pais especiais. Os seres
humanos em geral não estão preparados para exercerem o papel de
pais de um filho portador de necessidades especiais.

121
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Assim, tanto a sociedade em geral como o microcosmos social familiar,


pressupõe que não existirão diferenças significativas, logo, as pessoas não
se encontram preparadas para acolher o que é diferente de si. Além disso,
muitas vezes, o senso comum ainda percebe a surdez dentro do contexto das
deficiências, logo, o foco é deslocado das potencialidades e vinculado à falta
de audição e à premência de sanar/resolver o “problema” auditivo, numa
compreensão de que a surdez é algo ruim a ser resolvido e não um modo
diferente de percepção da realidade.

DICAS

Recomendamos a leitura na íntegra do texto de Renata Garcia em que a autora


apresenta uma pesquisa/relato sobre a sua experiência surda na família e apresenta as
situações a partir das suas lembranças e das lembranças de sua mãe.

SURDEZ, FAMÍLIA E SAÚDE: RELATO DE VIVÊNCIA – Renata Rodrigues de Oliveira Garcia

RESUMO: Esse artigo é um relato de vivência, com objetivo de apresentar as marcas que
a surdez imprimiu na minha vida, enquanto surda, nos diferentes contextos sociais e
consiste de relatos reais no contexto da surdez, em especial com relação a minha família
e à saúde. Os fatos descritos aconteceram antes do reconhecimento oficial da Língua
Brasileira de Sinais (Libras) como meio de comunicação e expressão das pessoas surdas,
que reconhecem esta língua como natural das pessoas surdas. Os resultados mostram que
antes da promulgação da Lei da Libras, as famílias, inclusive a minha, tinham dificuldades em
aceitar a Língua de Sinais, gerando entraves na comunicação, sentimentos de inferioridade,
dificultando as relações do surdo no ambiente familiar e social. Concluo que a inclusão
da pessoa surda está vinculada ao reconhecimento e aceitação dos valores linguísticos
e culturais da comunidade surda. Palavras-chave: Surdez; Barreiras de Comunicação;
Relações Familiares. Disponível em: <[Link]
userfiles/files/6%C2%AA%20Artigo%20Renata%20Rodrigues%20de%20Oliveira%20Garcia.
pdf>. Acesso em: 26 out. 2020.

Além disso, existe também a ideia equivocada de que as crianças que


aprenderem Libras não quererão mais serem oralizadas, ou que o aprendizado
da língua de sinais poderá atrapalhar o desenvolvimento da língua oral, caso
as intervenções médicas em direção à audição se mostrem efetivas. Nada
mais equivocado do ponto de vista linguístico, pois o que atrapalha mesmo o
aprendizado de qualquer língua é a falta do input linguístico precoce.

No relato de Emanuelle Laborit (1993 apud Vaniele, 2012, s.p.), fica


evidente como a falta de uma língua estruturada na infância acarretou
dificuldades para a compreensão daquilo que aconteceu, pela existência
de “[...] um caos na minha cabeça, uma sequência de imagens sem relação
entre si, como sequências de um filme, montadas umas atrás das outras, com

122
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

longas tiras negras, grandes espaços vazios”. Assim, a inexistência de uma


estrutura linguística que desse sentido ao que Emanuelle presenciava e que
proporcionassem a evocação da imagem, fizeram com que Laborit tenha a sua
infância como um tempo sem nexo, lógica ou possibilidade de compreensão.

Este relato reforça aquilo que já estudamos anteriormente, será a


exposição à língua (seja de sinais ou oral), que criará os caminhos linguísticos
mentais que possibilitarão a estruturação do pensamento e, inclusive, darão
às crianças a possibilidade de terem a base organizacional que permitirá, caso
os tratamentos e intervenções médicas possibilitem a recuperação da audição,
a aquisição mais efetiva dos parâmetros da língua oral, pois as bases do
desenvolvimento linguístico permitirão isso.

Observe o relato, de Garcia (2017, p. 4) em que a autora fala sobre o modo


como a Língua de Sinais modificou a sua percepção sobre a comunicação:

Antes do meu aprendizado da LS ficava como expectadora dentro de


casa, observava como eles se comunicavam e tentava fazer a leitura
labial para entender alguma coisa. Depois da aquisição da LS, sinto
uma mudança radical na minha vida, a LS me possibilitou entender as
pessoas e ter uma comunicação mais clara que me satisfaz plenamente
em todos os sentidos.

Assim, a alternativa de poder se comunicar e ser compreendida


pelas pessoas, foi uma experiência transformadora para a autora e mudou
completamente a sua percepção da realidade em que estava inserida. Ainda sobre
a aquisição da língua de sinais e a aceitação familiar, Quevedo, Dambrós e Sassi
(2017, s.p.) colocam que:

Ocorre [filhos surdos nascidos em famílias surdas] também maior


aceitação da surdez, quando os pais visualizam expectativas realistas
em seu filho. Por outro lado, crianças surdas de pais ouvintes
constituem um ambiente familiar distinto, onde há a incorporação
da língua de sinais não somente da criança surda, mas de todo o seu
contexto de relações, provocando modificações na rotina e dinâmica
da família.

Assim, a dinâmica familiar se torna diferente, a inserção da Libras traz


alterações nestas relações e provoca discussões entre os diferentes agentes
envolvidos na dinâmica da família. Logo, quando uma criança surda nasce, ou surge
a partir de alguma situação de saúde, nasce uma família surda, uma família que
tem duas possibilidades negar ou aceitar esta nova realidade. “Em outras palavras,
o aprendizado da Libras pelos pais ouvintes pode ser fator de maior interação com
a criança surda bem como sua lacuna pode ser limitante à comunicação familiar,
criando limitações no desenvolvimento da criança” (QUEVEDO; DAMBRÓS;
SASSI, 2017, s.p.). Deste modo, será a reação da família à surdez que poderá
proporcionar a comunicação ou limitá-la, e ao fazer isso, acabar por restringir a
comunicação da criança à fragmentos pinçados do cotidiano.

123
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Em relação à aprendizagem posterior e sua relação com a compreensão da


surdez como diferença identitária e cultural, de acordo com Nunes (2010, p. 12-13):

Sendo assim, conforme a pesquisa, os pais que estão preparados e


conscientes de seu papel, que aceitaram a surdez do filho como uma
diferença linguística e cultural e propiciaram os estímulos necessários
para o seu pleno desenvolvimento, por consequência, facilitaram o
seu processo de aprendizagem. Porém se os pais e demais familiares
desconhecem e/ou rejeitam o diferencial desta criança e sua forma
comunicativa, estarão prejudicando as interações familiares e sociais
e, possivelmente impedindo o seu crescimento cognitivo.

Assim, o entendimento da surdez como deficiência na percepção


da sociedade, por consequência, no âmbito familiar também, ocasiona uma
dificuldade de aceitação da surdez como diferença linguística e cultural e faz com
que os pais ouvintes de filhos surdos acabem por prejudicar a aprendizagem, as
inter-relações e o desenvolvimento cognitivo da criança. Por isso, é necessário
que os profissionais envolvidos no atendimento às famílias de crianças surdas
sejam orientados para a compreensão de surdez como diferença; da língua de
sinais como mais uma língua válida e completa, assim como qualquer língua oral-
auditiva; bem como da necessidade da exposição precoce ao input linguístico.

É importante termos em mente que, como esta posição não se está


dizendo que os responsáveis não possam ou não devam procurar atendimento,
apoio médico ou intervenções médicas que acreditem serem necessários para
a qualidade de vida dos seus filhos. Porque cabe a cada grupo familiar decidir
quanto de investimento em direção à audição estão dispostos a fazer, a ideia
desta reflexão não é determinar nenhuma atitude ou julgar os responsáveis que
queiram se dedicar a sanar ou diminuir o grau de surdez de sua criança.

Entretanto, é de extrema importância a inserção precoce a um ambiente


linguístico em que a crianças seja exposta a uma língua estruturada para que seu
pensamento e sua comunicação não sofram atrasos, dificuldades de comunicação
ou déficits cognitivos. Assim, a proposta é que a compreensão da surdez como
diferença linguística e cultural que pode se agregada à identidade familiar
existente de modo que seja garantido o direito a uma língua materna adequada
às especificidades da criança.

124
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

DICAS

No filme “Nada que eu ouça”, a separação de um casal formado por um ouvinte


e uma surda e o processo judicial para a guarda do filho surdo deles proporciona momentos
para a discussão sobre implante coclear, identidade surda, orgulho surdo e comunidades
surdas (CULTURA SURDA, 2017).

Categoria: Filmes
País: Estados Unidos
Ano: 2008
Título: “Nada que eu ouça” (“Sweet nothing in my ear”)
Línguas: Inglês e American Sign Language (ASL), legendas em Português

CARTAZ DO FILME "NADA QUE EU OUÇA

FONTE: Cultura surda (2017, s.p.)

125
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

5 CODAS: OS OUVINTES FILHOS DE PAIS SURDOS


A sigla COdA é utilizada para delimitar a identidade dos filhos ouvintes de
pais surdos e, da mesma forma que os pais ouvintes encontram uma dificuldade
identitária com a chegada de um filho surdo, os pais surdos também enfrentam o
mesmo dilema, pois, mais uma vez, temos o confronto entre o que é estabelecido
com parte da identidade do grupo familiar e o nascimento de uma criança.

Segundo nos relata Vilhalva (2004, p. 48-49), o próprio parto de uma


surda é espaço de luta e resistência surdas, pois existe toda uma dificuldade para
a inclusão da intérprete na sala de parto, por isso, ela gravou o momento do
nascimento de sua filha para mostrar às mães surdas como era o parto e destacar
a necessidade da presença da intérprete neste momento:

Tive oportunidades de conseguir um espaço para intérprete de língua


de sinais no hospital na hora do meu parto. A psicóloga e intérprete
Maria Arlete acompanhou a gravidez, o parto e pós-parto.
Fizemos uma fita com objetivo de mostrar para a comunidade surda
mostrando o que ocorreria na hora do parto, como o bebê nascia
pelo parto cesariano e o que acontecia logo após do nascimento tudo
em imagens e quando podia em língua de sinais, pois a Arlete que
estava filmando, houve momentos que ela precisava perguntar algo
para mim em língua de sinais e outro médico continuava filmando.
Assim a gravidez foi incluída para beneficiar e conquistar espaço para
a comunidade surda, principalmente para as jovens futuras mães
surdas terem intérprete no momento do parto.

Após este relato sobre o parto, Vilhalva (2004) conta que a bebezinha pega
uma infecção hospitalar na mão, Shyrlei, ainda se recuperando da cesariana não
consegue ficar com a bebê no hospital e nem pagar o tratamento necessário, a
comunidade surda se une, faz pedágio e vaquinhas e consegue o dinheiro para
que a menina tivesse o atendimento que precisava. Desta forma, a narrativa
mostra que as necessidades específicas das famílias surdas, começam ainda
antes de se saber se o bebezinho nasceu surdo ou ouvinte. Isso sem contarmos as
dificuldades de comunicação encontradas durante o pré-natal.

Ainda a partir de Vilhalva (2004), temos o acesso à experiência de uma


mãe surda que tenta se entender com sua filha ouvinte, num cruzamento de
mundos e de experiências que desafia ainda mais a jovem mãe. De acordo com
a autora, “Ser mãe surda e ter uma filha ouvinte é como ser mãe ouvinte e tem
filha surda. Enquanto não precisa usar a fala tudo bem, a partir do momento que
a fala entra no meio da comunicação, tudo começa a ficar diferente, dando outro
sentido para a vida no dia-a-dia [sic]” (VILHALVA, 2004, p. 53).

Assim, para ela, as dificuldades que uma mãe surda de um filho ouvinte
enfrenta são semelhantes àquelas que uma mãe ouvinte terá para se adaptar ao
filho surdo, pois os primeiros tempos de adaptação à vida com a bebê são sempre
meio caóticos e em meio a uma luta de adaptação para compreender o que o bebê
necessita ou quer naquele momento. A autora relata ainda que:

126
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

Minha adaptação com Natany Rebeca foi incrível, com um alarme de


choro com luz, doado por um amigo surdo, eu acompanhava quando
ela estava acordando e ou chorando. Ao passar do tempo percebi que
estava acontecendo algo diferente, ela começou a sair do berço-cama
e segurando chegava até minha cama e me acordava, sinalizava leite
ou água, fui percebendo que sozinha eu não conseguia saber o que ela
queria se não sinalizasse (VILHALVA, 2004, p. 53).

Deste modo, com o passar do tempo, o simples alarme choro com luz
não foi mais suficiente, inicialmente, a vida com um bebê é meio que um jogo
de adivinhação para os pais, pelo tom do choro ou pelo modo como a criança
se expressa, é possível saber qual a necessidade naquele momento. Porém,
para Vilhalva (2004), não era possível este tipo de entendimento, posto que as
mensagens auditivas pouco sentido fariam para ela. Então, a partir da necessidade
de comunicar quais os seus desejos e necessidades a menininha aprende que é
preciso ir até a cama da mãe, a acordar e sinalizar, pois sem isso não era possível
que sua mãe soubesse o que ela queria.

A autora também traz uma situação muito complicada, em que relata como
o preconceito fazia com que famílias surdas abrissem mão de seus filhos para que
fossem criados junto aos parentes ouvintes, segundo Vilhalva (2004, p. 54):

Lembro que algumas pessoas me perguntavam o por que [sic] eu não


entregaria Natany Rebeca para minha família criar, pois ela vai sofrer
muito morando com você.
Eu sempre respondia que eu queria criar a minha filha e não queria
repetir algo que meus amigos surdos fazem que é entregar os filhos
para seus familiares criarem por que [sic] eles falam.
Admiro os surdos que conseguiram criar seus filhos e educaram
da maneira que acreditavam que seria certo sem influência de seus
familiares ouvintes.

Neste trecho fica evidente o preconceito e, mais uma vez, a resistência e


a luta pelas quais os pais surdos passam para poder criar seus filhos dentro de
uma identidade cultural bilíngue, em que as crianças tenham o direito de ser
criadas dentro das referências identitárias pertencentes ao seu grupo familiar,
mesmo sendo ouvintes. Tendo em vista que o pertencimento à comunidade
surda ou ouvinte perpassa a questão da audição, mas, ao mesmo tempo é muito
maior do que apenas a capacidade ou não de ouvir sons, pois envolve questões
sobre referências culturais e compreensões identitárias de grupo familiar que
ultrapassam a presença ou ausência de surdez.

Em relação às dificuldades, Vilhalva (2004) relata a dificuldade dela,


como mãe surda de uma criança ouvinte, para que ela percebesse como estava
o desenvolvimento da menina em sua parte ouvinte. Isso porque Vilhalva (2004)
compreendia que sua filha teria a vivência de Coda, ou seja, de filha ouvinte
de pais surdos e, por isso, faria parte da língua e da cultura surdas, mas, que
também teria parte de sua identidade como ouvinte e, como mãe, a autora queria
saber como se dava o desenvolvimento deste segmento identitário a que ela tinha
acesso apenas através do olhar de outros ouvintes que conviviam com a menina:

127
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Eu não sabia brincar em momentos oportunos e sempre fazia


comparação de quando ela estava com ouvinte agia de uma forma
e quando estava comigo agia de modo diferente. Quando surgiam
oportunidades eu perguntava para minha mãe, irmãos e amigos
para me dizer o que ela falava, se ela respondia os que as pessoas
perguntavam, se ela cantava, eu perguntava tudo que dependia da
audição (VILHALVA, 2004, p. 54).

Assim, Vilhalva (2004) procurava formas de compreender o modo como


a identidade ouvinte/surda de sua filha se desenvolvia dentro do campo de
tensões acumuladas em que vivem as pessoas que fazem parte de duas formações
linguísticas e culturais tão distintas como surda e ouvinte.

Para compreender de que modo esta tensão bilíngue e bicultural se


processa para a criança ouvinte filha de pais surdos, Quadros e Massuti (2007)
apresentam um estudo feito a partir do relato de experiências linguísticas de uma
pessoa ouvinte filha de pais surdos, assim como a própria Ronice Quadros, que
também é Coda. As autoras destacam que as relações de poder entre as línguas
de sinais e as línguas orais são assimétricas, pois a língua oral é majoritariamente
utilizada e muitas famílias surdas recebem com alegria a chegada de um novo
membro ouvinte, pois ele poderá servir como conexão entre a família surda e
o mundo ouvinte em que ela está, forçosamente inserida. A Coda entrevistada
pelas autoras, relembra momentos de sua infância, antes mesmo da alfabetização,
em que já auxiliava a mãe no preenchimento de documentos como cadastros em
lojas para obtenção de cartão de crédito. Assim, de acordo com Quadros e Massuti
(2007, p. 246):

Codas estão, permanentemente, vivendo entre fronteiras da língua,


do idioma e da cultura. Suas sensações e experiências com o corpo
das línguas orais e visuais remetem para o caráter tenso de ter
que suportar o peso da idiomaticidade de duas línguas que são
irredutíveis uma à outra e de dois mundos culturais que apresentam
uma forte assimetria em suas relações de poder.

Logo, os Codas vivenciam a tensão que existe entre duas línguas e


duas culturas que são extremamente diferentes, possuem referências diversas
e se relacionam de modo que a língua de sinais não tem o mesmo status e
reconhecimento da língua oral, devido ao preconceito e ao desconhecimento e o
descumprimento dos direitos linguísticos do povo surdo, esta situação é relatada
pela entrevistada da pesquisa feita sobre Codas brasileiros por Quadros e Massuti
(2007, p. 258):

A escola era a porta de entrada para o mundo ouvinte, completamente


desconectado [sic] do mundo surdo. Eu tive que aprender isso e não foi
fácil. Minha família não falava sobre isso; eles simplesmente queriam
que eu fosse para a escola, porque estudar era muito importante
para a minha vida. Eu não falava Português quando cheguei na
escola, mas lembro que eu entendia as pessoas, apesar de não falar
essa língua. Eu só usava a língua de sinais, mas eu sabia que eu não
podia usar essa língua com aquelas pessoas. Elas simplesmente não
sabiam nada da língua de sinais! Era muito difícil para mim, uma vez

128
TÓPICO 2 — PROCESSOS FAMILIARES NA CONSTITUIÇÃO DA SURDEZ

que minha vida era na língua de sinais, a língua que eu me sentia à


vontade em usar. Na escola, eu não tinha alternativa e minha família
ainda ficava muito triste comigo, uma vez que eles esperavam que eu
ficasse feliz em ir para escola para aprender. O meu maior problema
foi que a escola não sabia nada sobre a minha língua de sinais e a
minha família surda. Meus colegas tiravam sarro dos meus pais
todo o tempo. Eu tive que conviver com uma perspectiva ouvinte da
surdez que eu não compartilhava. Para mim, era normal ser surdo,
mas para eles era algo ruim.

Observe pelo relato de como se deu a entrada na vida escolar desta pessoa
que existe o choque de quando as duas realidades entram em conflito, pois,
mesmo ouvinte, a vivência dela era dentro da cultura e da comunidade surdas,
suas experiências linguísticas, sociais e afetivas passavam pela vivência do corpo,
das mãos que falam da observação, da visão e do respeito aos indivíduos que
faziam parte de sua vida, porém, ao ir para a escola, ela se depara com uma visão
preconceituosa e distorcida daquela que era a sua realidade posta e aceita até
então. Assim, esta tensão, este conflito, esta invalidação de toda a sua experiência
família faz com que a entrada na escola seja dificultada, deixando pouco à vontade
a entrevistada para a convivência com os colegas e professores. Em outra parte do
relato, as autoras destacam a invalidação do papel de responsáveis para os pais
surdos, tendo em vista que a escola simplesmente não fazia esforço algum para
os atender ou ajudar para que acompanhassem o desenvolvimento da criança,
fazendo com que ela se se torna responsável por si e pela sua vida escolar.

Ainda sobre a diferença entre uma língua de sinais e uma língua oral
auditiva, Quadros e Massuti (2007, p. 256) colocam que:

Quando duas línguas são desenvolvidas a fim de estabelecer as


competências gramaticais e pragmáticas, elas não apresentam uma
relação simétrica. Um sistema pode ser mais apropriado do que outro
em algumas circunstâncias, dependendo do contexto, dos fatores
sociais, temporais e da forma do input. Além disso, a predominância de
uma língua também depende da “estrutura de sentimento” envolvida
que abarca uma série de fatores subjetivos que entram em relação.

Deste modo, as duas línguas envolvidas no processo de bilinguismo e


biculturalismo das pessoas ouvintes que nascem e crescem em famílias surdas
progridem em direção ao conhecimento da estruturação das palavras nas frases
e do uso das expressões, das situações e dos diferentes significados possíveis a
partir do uso. De modo que cada língua tem o seu lugar de uso de acordo com
diferentes situações comunicativas e afetivas.

Desta forma, a vivência dos ouvintes nascidos em estruturas familiares


surdas apresenta dilemas e desafios que são peculiares da zona de conflito em
tensão em que elas vivem por fazerem parte de processos identitários culturais e
linguísticos tão diverso. Contudo, Quadros e Manssuti (2007), chamam a atenção
para a fato de que, exatamente por saberem se movimentar entre as culturas surda e
ouvinte, ou seja, serem bilíngues, os Codas têm a capacidade de, realmente, auxiliar
na transição menos tensa entre estes dois grupos, pois vivem nas duas realidades.

129
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

DICAS

Caso você tenha interesse em conhecer o relato apresentado por Quadros


e Massuti (2007), recomendamos a leitura na íntegra do texto “Codas brasileiros: Libras e
Português em zonas de contato”, o texto está disponibilizado na íntegra dentro do livro
Estudos Surdos II, nas páginas 238 a 266. Disponível em: <[Link]
site/ebook/detalhes/16>. Acesso em: 26 out. 2020.

NTE
INTERESSA

Olhe que interessante a possibilidade de registro através de uma das notações em


escrita de sinais que foi autorizada no Reino Unido!

Bebê registrado em língua de sinais

POR [Link]. POSTADO EM: 26 JAN. 2015

Pela primeira vez, no Reino Unido, um bebê surdo foi registrado com seu sinal
pessoal (nome gestual). Na certidão de nascimento da pequenina Hazel Lichy, um nome
bastante improvável consta entre os outros: Hazel UbOtDDstarL Holly Eileen Garfield Lichy.
UbOtDDstarL? No sistema de notação escolhido, a letra [U] indica a região do queixo, onde
se articula o sinal (ponto de articulação); [bO], ou “baby O”, faz menção a uma configuração
de mão composta por polegar e indicador, a formar um “pequeno o”; [tD] refere-se à
orientação do sinal: palma da mão virada para o sinalizador; [Dstar] indica o movimento de
abertura das mãos; [L] ilustra a configuração final, em formato de “L”.

O nome gestual dado à Hazel por seus pais, Tomato Lichy e Paula Garfield
(também surdos), evidencia mais uma conquista das comunidades surdas britânicas: se
familiares ouvintes podem registrar seus filhos em suas línguas nativas (no caso, o inglês),
não poderão pais surdos fazer o mesmo? “O nome gestual de minha filha foi escolhido
porque sua primeira expressão foi um sorriso […] e não há como traduzir isto, perfeitamente,
para o inglês” (FONTE: DailyMail), diz Paula, justificando a escolha do sinal com que batizou
seu bebê (bastante similar a “sorriso”, em Libras).

No entanto, o processo não foi simples: em uma primeira tentativa, o registro foi
negado, o que fez com que o casal acionasse um advogado para recorrer a seus direitos
legais, efetivados ao fim. A insistência valeu um feito inédito, talvez o primeiro de muitos,
que devolve à língua de sinais o seu valor linguístico, histórico, cultural e, claro, afetivo –
basta olhar para o simpático sorriso da pequena Hazel UbOtDDstarL para logo compreender
seu nome.

FONTE: Eiji (2015, s.p.)

130
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A faculdade da linguagem é a capacidade que a mente humana tem de


organizar os diferentes elementos linguísticos para a formação de sentenças.

• Todos nós nascemos com a mente preparada para aprender uma língua,
porém, são necessários que os estímulos linguísticos sejam recebidos para que
esta Gramática Universal se desenvolva e se torne a Faculdade da Linguagem.

• A importância da inserção precoce no ambiente linguístico adequado é muito


importante para que o indivíduo possa desenvolver os parâmetros de uma língua.

• O período crítico para a aquisição da primeira língua é de extrema importância


para que o indivíduo possa organizar as estruturas mentais que serão a base do
seu pensamento não apenas linguístico, mas todo aquele que se estabeleça por
e através da língua.

• A criança surda tem o direito de desenvolver plenamente a sua faculdade


da linguagem a partir da utilização da língua adequada ao seu modo de
percepção linguística.

• A família é o primeiro microcosmos social a que o ser humano é exposto, pois


é dentro das relações interpessoais, linguísticas e sociais que se estabelecem
dentro desta unidade que ele construirá a sua própria estrutura para as futuras
relações entre as pessoas.

• O papel que cada membro da família assume e a forma como deve


desempenhá-lo diante das situações compartilhadas do cotidiano, compõem a
estrutura familiar.

• Será a partir da família que a criança surda terá ou não uma vivência linguística/
social que permitirá o desenvolvimento pleno da língua materna.

• Quando uma pessoa que apresenta características muito diferentes daquelas


que são comuns ao grupo familiar nasce, ocorre uma ruptura de expectativas
que ocasiona uma verdadeira revolução neste microcosmos familiar.

• O que atrapalha o aprendizado de qualquer língua é a falta do input


linguístico precoce.

• Será a exposição à língua (seja de sinais ou oral) que criará os caminhos


linguísticos mentais que possibilitarão a estruturação do pensamento.

131
• Quando uma criança surda nasce, ou surge a partir de alguma situação de
saúde, nasce uma família surda, uma família que tem duas possibilidades
negar ou aceitar esta nova realidade.

• Será a reação da família à surdez que poderá proporcionar a comunicação


ou limitá-la, e ao fazer isso, acabar por restringir a comunicação da criança à
fragmentos pinçados do cotidiano.

• O entendimento da surdez como deficiência na percepção da sociedade,


ocasiona uma dificuldade de aceitação da surdez como diferença linguística e
cultural e faz com que os pais ouvintes de filhos surdos acabem por prejudicar
a aprendizagem.

• A compreensão da surdez como diferença linguística e cultural que pode se


agregada à identidade familiar existente de modo que seja garantido o direito
à uma língua materna adequada às especificidades da criança.

• A sigla COdA é utilizada para delimitar a identidade dos filhos ouvintes de


pais surdos.

• Da mesma forma que os pais ouvintes encontram uma dificuldade identitária


com a chegada de um filho surdo, os pais surdos também enfrentam o
mesmo dilema.

• É evidente o preconceito, a resistência e a luta pelas quais os pais surdos passam


para poder criar seus filhos dentro de uma identidade cultural bilíngue.

• As relações de poder entre as línguas de sinais e as línguas orais são assimétricas.

• Codas estão, permanentemente, vivendo entre fronteiras da língua, do idioma e


da cultura.

• Cada língua tem o seu lugar de uso de acordo com diferentes situações
comunicativas e afetivas.

• Por serem bilíngues, os Codas têm a capacidade de, realmente, auxiliar na


transição menos tensa entre estes dois grupos, pois vivem nas duas realidades.

132
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com o estudo sobre os processos familiares na


constituição da surdez, estudadas no Tópico 2, analise as
sentenças, classificando V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) A faculdade da linguagem é a capacidade que a mente humana tem de


organizar os diferentes elementos linguísticos para a formação de sentenças.
( ) A importância da inserção precoce no ambiente linguístico adequado é
indiferente para que o indivíduo possa desenvolver os parâmetros de
uma língua.
( ) A criança surda tem o direito de desenvolver plenamente a sua faculdade
da linguagem a partir da utilização da língua adequada ao seu modo de
percepção linguística.
( ) O papel que cada membro da família assume e a forma como deve
desempenhá-lo diante das situações compartilhadas do cotidiano,
compõem a estrutura familiar.
( ) Será a partir da sociedade que a criança surda terá ou não uma
vivência linguística/social que permitirá o desenvolvimento pleno da
língua materna.

Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) V – V – V – F – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) V – V – F – V – F.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.

2 De acordo com as questões sobre aquisição da linguagem e surdez,


estudadas no Tópico 2, desta unidade:

I- De acordo com a teoria gerativista, o estágio inicial da Faculdade da


Linguagem é a Gramática Universal, ou seja, a parte do cérebro que
armazena a capacidade de aprender uma língua.
II- Todos nós nascemos com a mente preparada para aprender uma língua,
porém, são necessários que os estímulos linguísticos sejam recebidos
para que esta Gramática Universal se desenvolva e se torne a Faculdade
da Linguagem.
III- Um princípio que existe em todas as línguas é que as orações devem ter
sujeito.
IV- Um parâmetro é que nenhuma língua aceita que o lugar do sujeito seja nulo.
V- A língua é muito mais do que um instrumento de comunicação, ela é a
forma como nossa mente/cérebro se estrutura na realidade.

133
Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?
a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

3 Com base nos estudos apresentados nesta unidade, discorra sobre a


importância do período crítico para a aquisição da primeira língua:

4 Baseado nos estudos sobre surdos filhos de pais ouvintes, apresentados


nesta unidade. Qual necessidade da exposição precoce ao input linguístico.

134
TÓPICO 3 —
UNIDADE 2

OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA


DOS ESTUDOS CULTURAIS

1 INTRODUÇÃO
Acadêmico! Até este momento, no Livro Didático de Estudos Surdos,
nós estudamos diferentes aspectos para compreender qual o lugar que foi
atribuído aos surdos na história, na sociedade e na escola. Além disso, estudamos
as questões sobre as identidades surdas e as percepções linguísticas sobre as
famílias ouvintes que recebem uma criança surda e das famílias surdas em que
nascem crianças ouvintes. Além disso, vimos como a aquisição da língua materna
de modo precoce é de extrema importância para a estruturação do pensamento,
discutimos sobre o mercado de trabalho, a inclusão escolar, as políticas públicas,
os elementos culturais e a presença de professores e alunos surdos. Ou seja, foram
estudados vários assuntos que visavam localizar e refletir sobre o lugar que o
surdo ocupa e como a sociedade o enxerga e o acolhe.

Todos estes assuntos estão relacionados aos estudos culturais e aos


estudos surdos, pois se desenvolvem na perspectiva em que procuramos
dar destaque às pesquisas e assuntos relevantes para a comunidade e o povo.
Contudo é necessário que compreendamos como os estudos surdos se inserem na
perspectiva dos estudos culturais e, para isso, precisamos delimitar, inicialmente,
o que é cultura num geral e quais as características específicas quando falamos
em cultura surda.

Em seguida serão estudados os elementos que caracterizam o campo dos


estudos culturais e, por fim, veremos as características, os aspectos históricos e as
delimitações dos estudos surdos dentro do campo dos estudos culturais. Além
disso, veremos como a presença de surdos nas instituições de ensino superior
influenciou nas pesquisas sobre surdez ao trazer para a liderança da pesquisa
aquelas pessoas que normalmente eram apenas participantes da pesquisa.

Bons estudos!

135
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

2 AFINAL, O QUE É CULTURA?


O conceito de cultura parece ser simples, mas não é, pois, depende do
ponto de vista adotado e da área de estudos que irá tentar a definir. Além disso,
podem ser feitos cruzamentos interdisciplinares que ampliam ainda mais a
possibilidade de resposta para esta pergunta: afinal, o que é cultura?

De acordo com Cuche (2002, p. 203 apud Canedo 2009, p. 1): “Tal realidade
concerne ao próprio caráter transversal da cultura, que perpassa diferentes
campos da vida cotidiana. Além disso, a palavra ‘cultura’ também tem sido
utilizada em diferentes campos semânticos em substituição a outros termos
como ‘mentalidade’, ‘espírito’, ‘tradição’ e ‘ideologia’”. Deste modo, a palavra
cultura tem sido utilizada em diferentes contextos e com diversos significados
ao longo do tempo.

De acordo com a pesquisa de Canedo (2009), inicialmente, a palavra


cultivar era utilizada no sentido a ideia de cuidar de animais ou plantações,
ou seja, a partir da ideia de cultivo, cuidado e ter atenção a algo concreto, mas
com o tempo, isso mudou. A partir dos séculos XVIII e XIX o termo começou
a ser utilizado para fazer referência ao cuidado e atenção a elementos menos
concretos, ganhando um significado que atribuía ao verbo a ideia do cultivo de
algo imaterial, como a cultura científica, da moda, das artes, dentre outros usos.

O uso do termo “cultura” passa então, dentro da ótica das ciências sociais,
a ser utilizada dentro de um sentido figurado em que, “[...] a palavra [cultura] passa
a designar também o esforço despendido para o desenvolvimento das faculdades
humanas. Em consequência, as obras artísticas e as práticas que sustentam este
desenvolvimento passam a representar a própria cultura” (CANEDO, 2009, p. 2,
grifo nosso) Assim, a palavra cultura teve seu sentido ampliado para identificar os
próprios elementos que alicerçavam o desenvolvimento do pensamento humano,
ou seja, o campo semântico de uso da palavra deixou de ser uma ação para se
referir à concretude das manifestações culturais, não sendo mais apenas o cuidado
com algo, mas os próprios elementos que demonstram este algo passaram a ser
chamados de cultura.

Ainda de acordo com Canedo (2009), após esta modificação de sentido


do termo cultura, duas vertentes de pensamento se organizaram dentro da Área
das Ciências sociais a:

• Perspectiva universalista: a cultura é o conhecimento e a instrução intelectual


que o homem adquire através do estudo e dos elementos culturais clássicos,
ou seja, valoriza apenas o saber formal e dá origem, até nos dias de hoje, à ideia
de que somente aquilo que é estudado em ambientes institucionais é válido
como cultura. Assim, é esta compreensão universalista que invalida todos os
elementos que não forem reconhecidos, aprendidos e valorizados dentro dos
estudos formais, assim, tudo aquilo que não for aprendido formalmente não é
entendido como cultura.

136
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

• Perspectiva particularista: a cultura é “[...] um conjunto de características


artísticas, intelectuais e morais que constituem o patrimônio de uma nação
[povo], considerado como adquirido definitivamente e fundador de sua
unidade” (CUCHE, 2002, p. 28 apud CANEDO, 2009, p. 3, grifo nosso). Logo,
nesta visão, a cultura é entendida como particular de cada povo, sendo a
expressão desse povo e fazendo com que, através de seus elementos, esse
mesmo povo tenha seu pertencimento estabelecido através dessa mesma
cultura que pertence e particulariza esse povo.

Refletindo sobre estas duas formas de compreender a cultura, podemos


entender que o conceito universalista deixa de fora toda uma gama enorme de
manifestações culturais que não são reconhecidas pelo saber formal, ou que, como
as próprias línguas de sinais, foram proibidas de uso em algum momento da
história. Assim, esta compreensão está na base dos entendimentos que classificam
a cultura como certa ou errada, ou quando alguém afirma que o saber informal
não é válido, por exemplo, a afirmação de que algum tipo de expressão musical
(como o funk, sertanejo ou outro que não está de acordo com o gosto do pessoal
de quem emite esta opinião) não é cultura, está relacionada a esta percepção de
que cultura tem que ser reconhecida academicamente como tal. Deste modo,
a validação apenas da cultura formal, acaba por diminuir as demais culturas
não institucionalizadas, assim sendo, aqueles indivíduos cujas diferenças são
significativas (como os surdos) acabam por serem alijados do que é conhecido
como cultura. Assim, nesta perspectiva, bárbaros, logo, não são merecedores de
espaço social, status e reconhecimento.

NOTA

Acadêmico! Percebe como tudo está conectado ao modo como o


pensamento humano foi se desenrolando ao longo da história? Pois cada período
histórico apresenta uma concepção da realidade que vai se infiltrando em todas as
áreas da vida naquele período e ecoa ao longo de muito tempo; como no caso desta
perspectiva cultural, ela faz eco ao que estudamos lá na Unidade 1 e ressoa muitas das
formas como o senso comum percebe a comunidade e o povo surdo.

Por falar em “tudo está conectado”, você já viu a série Dark? Ela tem uma visão
muito peculiar e inovadora sobre a viagem no tempo, além disso, existe uma personagem
surda (Elisabeth Doppler), que está bem interessante, pois sem fazer muito alarde a série
acaba por demonstrar várias características particulares do uso da língua de sinais e das
características específicas de comunicação e interação entre surdos e ouvintes. Além disso,
a história é superintrigante e bem elaborada. Vale a pena, mas reserve um tempo para
prestar atenção porque você vai precisar pensar muito!

137
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Deste modo, a perspectiva particularista acaba por ser muito mais


adequada para uma percepção ampla e inclusiva das manifestações dos povos,
pois compreende a cultura como as peculiaridades dele e os elementos culturais
que caracterizam este povo são entendidos como formas de os indivíduos
demonstrarem aquilo que pertence à visão de mundo de um grupo de pessoas
que compartilham a realidade através de uma mesma ótica. Por exemplo, o povo
surdo tem a sua forma particular de percepção da realidade que permeia todas as
expressões formais ou informais possíveis para manifestação, pois não existe um
saber apenas, mas múltiplos saberes e múltiplos olhares que emergem dentro e a
partir dos elementos culturais que caracterizam cada povo.

3 ELEMENTOS QUE CARACTERIZAM A CULTURA SURDA


Acadêmico! Anteriormente vimos os elementos culturais que
caracterizavam a identidade surda política, pois bem, nesta seção veremos como
estas manifestações culturais são compreendidas e categorizadas a partir do
conceito de cultura na perspectiva particularista, ou seja, na compreensão de que
existem tantas culturas quanto existem povos no mundo.

Deste modo, ao povo surdo é dado também o direito de ter sua cultura e
suas manifestações culturais reconhecidas, valorizadas e validadas socialmente.
De acordo com Skliar (1999, p. 12, apud MIORANDO 2006):

Os contatos que os surdos estabelecem entre si proporcionam uma


troca de representações da identidade surda. Através de um conjunto
de significados, informações intelectuais, artísticas, éticas, estéticas,
sociais, técnicas, etc. podem caracterizar-se as identidades surdas
presentes num grupo social com uma cultura determinada. Esta
autoprodução de significados parece ser o fundamento da identidade
surda: uma estratégia para o nascimento cultural.

Assim, é no contato entre as pessoas que compõem a comunidade e o


povo surdo que a identidade surda se forma, pois a elaboração compartilhada de
sentidos, arte, literatura, moral, ética, ou seja, da partilha das experiências trocadas
é que emergirá a cultura surda como propriedade e característica do povo surdo.
Isso porque a cultura é formadora e, ao mesmo tempo, é formada e modificada
na interação entre as pessoas que constituem um povo. Por exemplo, ao mesmo
tempo em que a Libras é um elemento (artefato) cultural, que é passado para
cada nova geração de surdos com estruturas fixas, referências e características
que a organizam, ou seja, ela é formadora da visão linguística do povo surdo; ela
também é formada pelo povo surdo, pois a língua só é viva quando é utilizada
por seus falantes/sinalizantes, e durante a utilização, ela sofrerá mudanças,
ajustes e trocas que passarão a fazer parte deste elemento cultural linguístico.

138
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

Um dos exemplos mais notórios de que a língua é uma entidade viva


está presente na linguagem informal, pois este é um uso menos monitorado e,
por isso, mais livre da língua, logo é nelas que o falante/sinalizante tem maior
liberdade de criação de sinais e expressões. A seguir, dois exemplos de gírias em
Libras retirados da reportagem de Giselle Hirata (2019) para a Revista Mundo
Estranho em que a autora destaca que algumas expressões são semelhantes em
LP e Libras:

DICAS

A reportagem apresenta várias gírias, vale a pena dar uma olhada! Ah, outra
coisa, os xingamentos e palavrões também são exemplos de deslocamentos de uso e de
significado em qualquer língua, porém, por motivo de decoro, vamos exemplificar apenas
as gírias, mas garanto, acadêmico, que você já teve acesso a exemplos ofensivos ou
chulos (normalmente essa é uma curiosidade de todos os estudantes de uma língua. A
reportagem de Hirata (2019) está disponível pelo QRcode na imagem a seguir ou através
do link disponiblizado nas referências.

FIGURA 7 – GESTOS/GÍRIAS COMUNS EM LIBRAS E LP

FONTE: Hirata (2019, s.p.)

139
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Observe que as gíras acima apresentam movimentos e expressões também


utilizadas em LP, tais como o DOIDO, um sinal que faz sentido em Libras e LP.
Obviamente, não são todas as gírias que têm esta característica, pois as gírias
precisam fazer sentido dentro da leitura que seu povo irá fazer, ou seja, as gírias
em Libras têm as caracteísticas específicas do povo surdo do Brasil.

Assim, os elementos culturais são partes vivas da cultura de um povo,


logo, ao mesmo tempo em que carregam as noções, visões e percepções anteriores
de determinado povo, eles também sofrem alterações através das modificações
pelas quais a perspectiva deste povo passa. Assim como qualquer elemento vivo,
a cultura e seus elementos ou artefatos, sofrem mudanças de acordo com as
modificações pelas quais o povo passa.

Um exemplo, desta vez das relações familiares, é que antigamente os


surdos filhos de famílias ouvintes eram escondidos em suas casas, vistos como
totalmente dependentes de seus pais e mal tinham os sinais caseiros, apontação
e algumas palavas decorentes de processos de oralização e ou alfabetização capenga
(Quem se lembra dos “mudinhos” das representações em filmes e novelas?). Hoje
em dia, embora ainda seja uma questão complicada para uma família ouvinte,
as politicas públicas de inclusão fomentaram a presença de todas as crianças
na escola e, por consequência, o convívio escolar fez com que os professores,
estudantes e as famílias acabassem por, pelo menos, conhecer a existência da
Libras como forma de comunicação dos surdos, assim, as famílias passaram a
ter mais acesso à informação e, por consequência, os surdos nascidos em famílias
ouvintes começaram a ser tratados como pessoas que podem e devem aprender e
se desenvolver em direção à sua independência.

Sobre os elementos culturais que caracterizam a cultura surda, Strobel


(2016, p. 30), apresenta a concepção de artefatos culturais, pois entende que
do mesmo modo que um vaso grego, por exemplo, é percebido como uma
materialização de uma cultura, os elementos não materias e também as “[...]
produções do sujeito que tem [sic] seu próprio modo de ser, ver, entender e
transformar o mundo. Traço comum em todos os sujeitos humanos seria o fato de
que somos todos artefatos culturais e, assim, os artefatos ilustram uma cultura”.

Logo, aquilo que chamávamos de elementos ou manifestações culturais


ganham a perspectiva de serem mais do que isso, pois a palavra artefato carrega
em si a importância histórica e social a qual os povos que tiveram a sua existência
minimizada ao longo da história (como o povo surdo) possam agregar a si o
valor atribuído às obras que são reconhecidas como importantes vestígios das
civilizações e povos.

A autora delimita que existem várias categorias de artefatos culturais e


aponta oito tipos diferentes que caracterizam o povo surdo. A tirinha a seguir,
demonstra dois dos artefatos elencados por Strobel (2016), o linguístico e o familiar:

140
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

FIGURA 8 – TIRINHA SOBRE ARTEFATO LINGUÍSTICO E FAMILIAR SURDO

FONTE: Teccurso (2018, s.p.)

Observe que o menino que fala na tirinha é ouvinte e destaca em sua fala
para o outro menino, ouvinte filho de pais surdos, uma das características da
língua de sinais (o uso das mãos e não da boca para falar) e faz um juízo de
valor evidenciando que esta é uma vantagem de ter pais que usam a língua de
sinais. Assim, a história em quadrinhos destaca a língua de sinais e o modo como
ela estabelece formas específicas de relacionamento familiar num momento tão
comum como a alimentação em família. A seguir será apresentado um quadro
contendo os tipos de artefatos apontados por Strobel (2016).

QUADRO 2 – ARTEFATOS CULTURAIS SURDOS

Artefato Característica
As experiências dos indivíduos surdos são através da visão, isso acarreta
toda uma forma particular de perceber a vida e as situações, por exemplo,
um surdo junta uma faca porque viu que ela não está mais no lugar onde
Experiência visual
estava, não porque ouviu o som que ela fez ao cair. Ou então, ele vê que o
cachorro está brabo, através da abertura da boca, da expressão do rosto e
da postura do bicho.
A língua de sinais é um dos principais artefatos do povo surdo, pois é
através dela que a experiência visual do povo surdo se manifesta e se
sustenta, bem como é ela que proporciona o acesso ao conhecimento e
permite a comunicação e aprendizagem. Relacionado ao desenvolvimento
Desenvolvimento
linguístico aparece a importância do desenvolvimento e uso de sistema
linguístico
de escrita para as línguas de sinais, o Sign Writing, sendo este um marco
importante para o povo surdo porque acaba com a noção de povo ágrafo
e permite o registro do pensamento dos indivíduos surdos através de sua
própria experiência visual.
Nascimento de filhos surdos em famílias ouvintes, de filhos surdos em
famílias surdas e de filhos ouvintes em famílias surdas e as diferentes formas
Família
que os pais destas configurações familiares são orientados para lidar com a
situação e as escolhas e possibilidades para criação de seus filhos.
Histórias que são narradas a partir da perspectiva surda em que a
identidade surda se manifesta, fazem parte dela os livros, piadas, livros
Literatura Surda infantis, bem como as diferentes formas de registro das atuações do
cotidiano e de tudo mais que o povo surdo queira perpetuar e compartilhar
com as demais pessoas.

141
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Neste artefato estão os eventos sociais e desportivos presentes na vida dos


surdos, bem como as situações sociais em que eles conseguem se colocar
como nas situações sociais, por exemplo, casamentos, festas, atividades nas
associações de surdos, eventos esportivos, dentre outros. Outras situações
trazidas pela autora contemplam interações em que o surdo conseguiu se
fazer entender e resolver problemas surgidos da adaptação necessária ao
mundo ouvinte, tais como do menininho que desenhou uma mamadeira
que queria comprar para o irmãozinho ou dela mesma quando precisava
Vida social e
sair muito cedo, pediu para a irmã combinar com o taxista e, ao entrar no
esportiva
veículo, ela escreveu que gostaria de ir ao aeroporto e foi sem problemas.
Além disso, este artefato faz referência às adaptações visuais necessárias
para que os surdos possam realizar jogos, desfiles, jantares, bailes etc.
Um exemplo dos esportes é a luz que acende no momento da largada
das competições de natação. Também aqui, está o costume de batizar aos
membros da comunidade surda com um sinal, as adaptações luminosas e de
vibração dos sons para shows e bailes, bem como a adaptação das palmas
para o ar nos aplausos ao final de palestras e demais situações.
“No artefato cultural artes visuais, os povos surdos fazem muitas criações
artísticas que sintetizam suas emoções, suas histórias, suas subjetividades e
Artes visuais a sua cultura. [...] O artista surdo cria a arte para que o mundo saiba o que
pensa, para divulgar as crenças do povo surdo, para explorar novas formas
de "olhar" e interpretar a cultura surda” (STROBEL, 2016, p. 60).
Diversos movimentos políticos e lutas da comunidade surda e do povo
surdo para que seus direitos sejam respeitados, bem como, para que a sua
presença em sociedade seja acolhida e respeita na perspectiva da identidade
surda e não da ouvinte. Neste artefato estão a pedagogia, a educação, a
Política aprendizagem, o direito ao voto, aos intérpretes de sinais, ao direito de usar
sua língua materna e ao direito de que suas crianças sejam expostas à língua
de sinais precocemente, com a melhoria do atendimento pelos profissionais
de saúde para a orientação não apenas ouvintista e o reconhecimento de
que a língua de sinais é uma língua de fato e de direito.
Aqui estão os artefatos tecnológicos criados para que os surdos possam
se movimentar melhor e suprir suas necessidades, tais como, telefones
com espaço para digitação, aplicativos de celular, sinais luminosos
Materiais para campainha e atendimento ao bebê, acessibilidade a eventos com a
transmissão da sinalização em telões, uso da janela de interpretação em
vídeos, legendas automaticamente colocadas em todo e qualquer vídeo
do YouTube.

FONTE: Adaptado de Strobel (2016)

DICAS

Caso você tenha interesse, recomendamos a leitura do livro da pesquisadora


na íntegra, o link está disponibilizado nas referências.

142
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

Nesta seção, nós vimos brevemente o que é a cultura surda e quais seus
artefatos, a seguir, estudaremos algumas das características dos Estudos Culturais
como campo de estudos e encerraremos este tópico com as discussões sobre os
Estudos Surdos como campo de pesquisa.

4 OS ESTUDOS CULTURAIS COMO LUGAR DOS


ESTUDOS SURDOS
Ao chegarmos neste ponto das discussões já foram relacionados vários
aspectos que identificam a compreensão de surdez como identidade e de cultura
como os artefatos que caracterizam as manifestações significativas de um povo.
Assim, para que os estudos sobre estas identidades surdas e os artefatos surdos
pudessem ser feitos de acordo com estas perspectivas, foi necessário que as
pesquisas fossem desenvolvidas em uma área de estudos em que a identidade e a
cultura surdas tivessem o respeito e o espaço para se desenvolver.

A área em que os estudos surdos foram acolhidos foi a dos Estudos


Culturais, isso porque, de acordo com Culler (1999, p. 49 apud STROBEL, 2016,
p. 12), “[...] o projeto dos Estudos Culturais é compreender o funcionamento
da cultura, particularmente no mundo moderno: como as produções culturais
operam e como as identidades culturais são construídas e organizadas, para
indivíduos e grupos, num mundo de comunidades diversas e misturadas [...]”.
Assim, os Estudos culturais envolvem a pesquisa sobre aquilo que é diverso e
misturado, entendendo a cultura através de seus artefatos e respeitando as
diferentes identidades constituídas a partir deles.

Isso acontece porque, segundo Strobel (2016, p. 13):

[...] nesse campo de Estudos Culturais, a cultura é uma ferramenta


de transformação, de percepção, da forma de ver diferente, não mais
de homogeneidade, mas de vida social constitutiva de jeitos de ser,
de fazer, de compreender e de explicar. Essa nova marca cultural
transporta para uma sensação a cultura grupal, ou seja, como ela
diferencia os grupos, no que faz emergir a "diferença".

Logo, o campo dos Estudos Culturais abraça a diferença como parte da


cultura, ou seja, a diferença é peculiaridade e matéria de pesquisa e não forma de
exclusão ou invalidação. Esta mesma visão sobre este campo de pesquisa aparece
em Patrocínio (2017, p. 139) quando o autor afirma que “Creio que não seria
um engano afirmar que Estudos Culturais e discursos da diferença são quase
que expressões análogas, tamanha a proximidade deste campo disciplinar às
pesquisas que têm como foco e objetivo o entendimento e a análise da diferença
cultural no mundo contemporâneo”. E é exatamente onde mora a diferença, como
vimos anteriormente neste livro didático, que habitam as questões sobre surdez,
identidade surda e os artefatos culturais surdos. Por isso, a Área dos Estudos
Culturais foi aquela em que os estudos sobre surdez feitos pelos integrantes da
comunidade surda e do povo surdo encontraram espaço para florescer.

143
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Também é necessário destacar que a interdisciplinaridade que permeia


os Estudos Culturais, permite que os pesquisadores que se debruçam sobre
questões vinculadas aos artefatos surdos encontrem nesta área as possibilidades
de fazer pesquisa, pois não existe como, por exemplo, desvincular um estudo
sobre as línguas de sinais de uma perspectiva cultural, mas também linguística
e identitária, logo, é necessário que os Estudos Surdos estejam relacionados ao
campo de pesquisa que comporta e fomenta discussões que envolvem diversos
outros campos de pesquisa.

Assim, a presença e o fomento aos Estudos Surdos acontecem a partir de


todas as discussões apresentadas até este momento, pois cada elemento estudado
anteriormente trouxe características e peculiaridades da compreensão de surdez
como identidade formada a partir da cultura. Deste modo, os Estudos Surdos se
estabelecem como o campo de estudo em que a cultura surda e o indivíduo surdo
estão no centro da discussão, momento em que as pesquisas deixam de ter foco
em fala sobre o surdo e passam a trazer o próprio surdo falando, pesquisando e
tentando entender a si mesmo. De acordo com Strobel (2008), os Estudos Surdos
são as teorias pesquisadas no ‘Ser Surdo’, representação como sujeitos linguísticos
e culturais diferentes, pertencimento ao povo surdo.

Assim, os Estudos Surdos apresentam a perspectiva da pesquisa a


partir das experiências, vivências e características do povo surdo, e para que se
desenvolvessem foi necessário romper com os paradigmas históricos anteriores
e com a visão que a sociedade tem do surdo. Além disso, a existência de políticas
públicas voltadas à inclusão através de decretos que garantem a inclusão
em escolares regulares, a presença de intérprete e as demais possibilidades e
garantias de direitos fizeram com que, cada vez mais, os indivíduos do povo
surdo pudessem utilizar de sua própria voz para narrar, estudar e refletir sobre as
suas experiências, deixando de serem participantes ou público-alvo das pesquisas
e passando à posição de pesquisadores.

Dito de outro modo, para que os Estudos Surdos ganhassem força foi
necessário que a comunidade surda e o povo surdo tivessem cada vez mais
acesso ao conhecimento, à educação superior e aos direitos linguísticos e pessoais.
Observe na citação a seguir, retirada de Quadros (2006, p. 8), que a autora chama
a atenção para a inovação que os olhar surdo traz às pesquisas:

A Série Pesquisas em Estudos Surdos é uma ideia que surgiu no


sentido de tornar públicas as investigações que estão sendo realizadas
na perspectiva dos surdos. As investigações que estão sendo
realizadas no Brasil começam a apresentar outras possibilidades que
vão além, ou seja, rompem com a mesmidade. Os surdos começam
a ser autores, embora, ainda neste primeiro volume, as pesquisas
tenham sido produzidas na sua grande maioria por ouvintes. Mesmo
assim, esses ouvintes estão sensíveis aos olhares surdos e chamam a
atenção para as perspectivas do outro surdo, buscando abrir espaços
na academia para os surdos participarem efetivamente do processo
de produção de conhecimento.

144
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

Assim, mesmo com a participação ainda grande de ouvintes sensíveis


às questões surdas, Quadros (2006) destaca que o olhar surdo sobre si é
importante para a renovação e a inovação nas pesquisas a serem feitas, por
isso, aponta a necessidade do aumento da presença de pesquisadores surdos
na produção do conhecimento.

Na próxima unidade serão apresentados alguns dos temas de pesquisa


recorrentes nas pesquisas em Estudos Surdos, bem como aparecerão indicações
para estudos futuros. Até lá!

NOTA

Nada melhor do que uma pessoa pertencente ao povo surdo para nos
contar quem são os surdos, por isso, colocamos a seguir o prefácio do livro Estudos
Surdos II, em que Gládis Perlin nos conta o que são os surdos em sua perspectiva
identitária como surda política.

145
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

LEITURA COMPLEMENTAR

NÓS SURDOS SOMOS...

Gládis Perlin

I
... aquele grupo que Bauman denomina de párias da sociedade. O que nos levou a
ser classificados como isto, se estamos bem vestidos, comemos em restaurantes de
classe e transitamos em qualquer ambiente como qualquer grupo, simplesmente a
chamada normalidade? Ser normal é tão importante, mas tão importante mesmo,
que não se consegue entender até que ponto vai seu significado.

Hoje os párias, os não normais não irão para quaisquer países como nos
tempos da colonialidade em que o rei determinava a criação de novas cidades e
os deficientes eram jogados pelos despenhadeiros, por representarem um peso
para a sociedade. A temporalidade daqueles feitos incautos mudou. Ficamos
entre os homens e mulheres, pois assim a vida é possível. Acontece que “estamos
integrados”, como querem alguns e “não integrados”, como falam outros.

A identidade dos surdos sobrevive a uma forma de incerteza constante.


Uma narrativa captada ao acaso nos corredores de uma estudos surdos
universidade [sic], das mais importantes de nosso país, que não esconde nas
vozes de uns e de outros o que a “maioria social” pensa sobre o surdo: “Em
primeiro lugar, para mim que até o presente momento não havia tido contato com
ninguém que tivesse deficiência auditiva, é difícil pensar no surdo, a primeira vez,
como um grupo cultural à parte”. Isto assombra! Nesse sentido, representamos
nossa identidade mesmo na contradição do que ela representa. Somos um grupo
cultural à parte.

Notadamente, não existem trilhas óbvias para retornarmos ao quadro


das identidades daqueles que se consideram normais. A nossa trilha perfaz nos
identificarmos enquanto surdos, enquanto aqueles com marcas de diferença
cultural. Não nos importa que nos marquem como refugos, como excluídos, como
anormais. Importa-nos quem somos, o que somos e como somos. A diferença
será sempre diferença. Não tentem colocar todos os capitais do mundo para
declarar-nos diversos porque não é isso que estamos significando. Continuamos
a ser diferentes em nossas formas. Continuamos a nos identificar como surdos.
Continuamos a dizer que somos normais com nossa língua de sinais, com o nosso
jeito de ser surdos.

Nossas posições de resistência, como referem nossas nostalgias, têm de


reivindicar isenção à regra universal das identidades. Temos de seguir resistindo
ou nos encontraremos em campos que nos obrigam a perecer. Daí então,
simplesmente surdos, com os direitos que nossas representações estão exigindo.

146
TÓPICO 3 — OS ESTUDOS SURDOS NA PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS

II
..... então um grupo cultural à parte. Um grupo que realmente investe na decisão
de ser diferente. De transformar o anormal em normal no cotidiano da vida. É
um jogo perverso que se instaura. Jogo entre o que é nossa invenção e o que
inventaram sobre nós. Por que jogo inventado? É próprio do modernismo criar
uma alteridade para o outro e obrigá-lo a segui-la. Neste ponto, a universalização
e a historicização se confrontam num afrontamento em que riscos estão presentes
num movimento sinuoso que envolve.

Grupo cultural que hoje prossegue e atinge novos ápices passa a carecer
novos escalões onde se arquitetam os artefatos da cultura e se fortalecem e unem
as raízes culturais que a história sepultou.

Hoje, saídos dos esconderijos, das sepulturas, liberados para a cidadania


do nós, estamos em movimento. Certas facetas do mundo contemporâneo nos
remetem a olhares diferentes em diferentes sentidos.

III
.... cultura. Deixamos à margem o princípio universal e colocamos a enfatização
de nossa cultura como necessária à nossa sobrevivência. É nosso princípio, a nossa
nostalgia mais imensa e obstinada: a qualidade de vida, de comunicação, da
diferença, que nos considerem sujeitos culturais e não nos considerem deficientes.
Surgem aí os pontos de referências culturais, diferença de ser diante dos não-
surdos que se propaga pelos artefatos culturais: nossos líderes surdos, a língua de
sinais, a escrita de sinais, história, pedagogia, didática, literatura, artes, etc.

Então, se aludimos ao desenvolvimento sustentável enquanto cultura


surda, estamos nos referindo a um paradigma que atualmente visa pontos de
busca de esforço crescente da presença pedagógica em todos aspectos culturais
que trazemos presente. Por que nossa acirrada enfatização cultural na diferença?
Terry Eagleton4 analisa a cultura como uma questão de autossuperação e ao
mesmo tempo de autorrealização. O autor cita que “se a cultura celebra o eu na
diferença, também o disciplina [sic] estética e essencialmente”. A cultura, nesse
sentido, une nossas moldagens como povo surdo. Assim, a teoria cultural deveria
estar se voltando para questões tão importantes do povo surdo, sobre os contornos
éticos, morais sustentados e politicamente dominados por uma “administração”
arbitrária de alguns não surdos envolvendo questões de direitos humanos.

IV
.... os diferentes dos não surdos, dos surdos implantados ou dos deficientes
auditivos. A estes grupos não interessa nossas lutas, elas lhes dizem de outras
paragens sem interesse, sem encanto. A nós isto é importante. Compreendemos
os choques culturais. Conhecemos de norte a sul as necessidades destes
outros grupos, nós as recomendamos e damos a eles os exemplos de nossas
resistências para que prossigam nas suas conquistas. E os informamos de
nossas lutas não acabadas....

147
UNIDADE 2 — A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE SURDA, CULTURA, FAMÍLIA E ESTUDOS CULTURAIS

Os estilos de nossos escritores afirmam certas verdades e as defendem


de possíveis ataques. O que importa nestes escritos é que eles têm muito a dizer
sobre nossas identidades diferentes em diferentes momentos e que aludem nossos
interesses sem se importarem com a “tutorização” da linguagem e a falsidade de
alguns discursos que nos mantém na deficiência.

Esta informação delineia ainda mais a preocupação da pesquisa nos


Estudos Surdos. O que toma conhecimento de uma porção da realidade da
diferença tem acesso direto pela experiência. Diferem os problemas vivenciados
e registrados por estes grupos e são sofridos e enfrentados de maneira diferente.
Tivemos nossos naufrágios na história, dificilmente alguns de nós viemos à tona.
A história nos colocou todos como párias sociais, como deserdados e toda sorte de
estereótipos, menos valias nos colocaram todos com os mesmos caracteres, todos
não constantes dos espaços de desenvolvimento do país, apesar da visibilidade
de nossas diferenças.

O triste espaço da deficiência foi o álibi para nos manterem “baixas do


progresso”. Usurparam nossa diferença e disso sequer poderíamos sair pelos
cadeados colocados aqui e ali.

V
..... mártires destas jornadas pela diferença, poucos de nós conseguimos pular para
dentro do veículo do progresso e com afinco trazer para as páginas de espaços
acadêmicos novas posições, novos achados científicos longe daquelas palavras
que sustentam a farsa sobre nós e que impõem a dita anormalidade.

FONTE: <[Link]
Acesso em: 3 dez. 2020.

148
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• O conceito de cultura depende do ponto de vista adotado e da área de estudos


que irá tentar definir.

• A palavra cultura teve seu sentido ampliado para identificar os próprios


elementos que alicerçavam o desenvolvimento do pensamento humano.

• Na perspectiva universalista: a cultura é o conhecimento e a instrução intelectual


que o homem adquire através do estudo e dos elementos culturais clássicos.

• Na perspectiva particularista: a cultura é um conjunto de características artísticas,


intelectuais e morais que constituem o patrimônio de uma nação [povo],
considerado como adquirido definitivamente e fundador de sua unidade.

• O conceito universalista deixa de fora toda uma gama enorme de manifestações


culturais que não são reconhecidas pelo saber formal.

• A validação apenas da cultura formal, acaba por diminuir as demais culturas


não institucionalizadas.

• A perspectiva particularista acaba por ser muito mais adequada para uma
percepção ampla e inclusiva das manifestações dos povos.

• Não existe um saber apenas, mas múltiplos saberes e múltiplos olhares que
emergem dentro e a partir dos elementos culturais que caracterizam cada povo.

• E no contato dentre as pessoas que compõem a comunidade e o povo surdo


que a identidade surda se forma, pois da partilha das experiências trocadas é
que emergirá a cultura surda como propriedade e característica do povo surdo.

• A cultura é formadora e, ao mesmo tempo, é formada e modificada na interação


entre as pessoas que constituem um povo.

• A língua só é viva quando é utilizada por seus falantes/sinalizantes, e durante


a utilização, ela sofrerá mudanças, ajustes e trocas que passarão a fazer parte
deste elemento cultural linguístico.

• Como qualquer elemento vivo, a cultura e seus elementos ou artefatos, sofrem


mudanças de acordo com as modificações pelas quais o povo passa.

149
• Os estudos culturais envolvem a pesquisa sobre aquilo que é diverso e
misturado, entendendo a cultura através de seus artefatos e respeitando as
diferentes identidades constituídas a partir deles.

• O campo dos Estudos Culturais abraça a diferença como parte da cultura, ou


seja, a diferença é peculiaridade e matéria de pesquisa e não forma de exclusão
ou invalidação.

• É necessário que os Estudos Surdos estejam relacionados ao campo de


pesquisa que comporta e fomenta discussões que envolvem diversos outros
campos de pesquisa.

• Os Estudos Surdos se estabelecem como o campo de estudo em que a cultura


surda e o indivíduo surdo estão no centro da discussão, momento em que as
pesquisas deixam de ter foco em fala sobre o surdo e passam a trazer o próprio
surdo falando, pesquisando e tentando entender a si mesmo.

• Os Estudos Surdos apresentam a perspectiva da pesquisa a partir das


experiências, vivências e características do povo surdo.

• Para que os Estudos Surdos ganhassem força foi necessário que a comunidade
surda e o povo surdo tivessem cada vez mais acesso ao conhecimento, à
educação superior e aos direitos linguísticos e pessoais.

• O olhar surdo sobre si é importante para a renovação e a inovação nas pesquisas


a serem feitas, por isso, aponta a necessidade do aumento da presença de
pesquisadores surdos na produção do conhecimento.

CHAMADA

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pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao
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150
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com o quadro contendo os tipos de artefatos culturais surdos


apontados por Strobel (2016) relacione, de forma correta, Coluna I, Artefato,
à Coluna II, Característica:

Coluna I Coluna II

(1) Experiência ( ) Nascimento de filhos e as diferentes


Visual formas que os pais destas configurações
familiares são orientados para lidar com
(2) Desenvolvimento a situação e as escolhas e possibilidades
Linguístico para criação de seus filhos.
( ) Os povos surdos fazem muitas criações
(3) Família artísticas que sintetizam suas emoções,
suas histórias, suas subjetividades e a
(4) Literatura Surda sua cultura.
( ) A língua de sinais é um dos principais
(5) Vida Social e artefatos do povo surdo, pois é através
Esportiva dela que a experiência visual do povo
surdo se manifesta e se sustenta.
(6) Artes Visuais ( ) Neste artefato estão os eventos sociais
e desportivos presentes na vida
(7) Política dos surdos, bem como as situações
sociais em que eles conseguem se
(8) Materiais colocar como nas situações sociais.
( ) Neste artefato estão a pedagogia, a
educação, a aprendizagem, o direito ao
voto, aos intérpretes de sinais, ao direito
de usar sua língua materna e ao direito
de que suas crianças sejam expostas à
língua de sinais precocemente.
( ) As experiências dos indivíduos
surdos são através da visão, isso
acarreta toda uma forma particular
de perceber a vida e as situações.
( ) Histórias que são narradas a partir da
perspectiva surda em que a identidade
surda se manifesta.
( ) Aqui estão os artefatos tecnológicos
criados para que os surdos possam
se movimentar melhor e suprir suas
necessidades.

151
Marque a alternativa que apresenta a CORRETA numeração da Coluna II:

a) ( ) 4, 5, 3, 8, 6, 2, 7 e 1.
b) ( ) 3, 6, 2, 5, 7, 1, 4 e 8.
c) ( ) 6, 3, 1, 4, 2, 8, 5 e 7.
d) ( ) 8, 3, 7, 1, 5, 2, 4 e 6.
e) ( ) 6, 4, 8, 5, 7, 1, 2 e 3.

2 De acordo com as questões sobre os estudos surdos na perspectiva


dos estudos culturais, estudadas no Tópico 3, desta unidade:

I- O conceito de cultura depende do ponto de vista adotado e


da área de estudos que irá tentar a definir;
II- Na perspectiva universalista: a cultura invalida o conhecimento e a
instrução intelectual que o homem adquire através do estudo e dos
elementos culturais clássicos;
III- Na perspectiva particularista: a cultura é um conjunto de características
artísticas, intelectuais e morais que constituem o patrimônio de uma
nação [povo], considerado como adquirido definitivamente e fundador
de sua unidade;
IV- O conceito universalista deixa de fora toda uma gama enorme de
manifestações culturais que não são reconhecidas pelo saber formal.
V- A perspectiva particularista acaba por ser muito mais adequada para
uma percepção ampla e inclusiva das manifestações dos povos.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

3 De acordo com o estudo sobre os elementos que caracterizam


a cultura surda, estudadas no Tópico 3, analise as sentenças,
classificando V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) A cultura é formadora e, ao mesmo tempo, é formada e modificada na


interação entre as pessoas que constituem um povo.
( ) Como qualquer elemento vivo, a cultura e seus elementos ou artefatos, jamais
sofrem mudanças de acordo com as modificações pelas quais o povo passa.
( ) O campo dos Estudos Culturais abraça a diferença como parte da cultura,
ou seja, a diferença é peculiaridade e matéria de pesquisa e não forma de
exclusão ou invalidação.

152
( ) É necessário que os Estudos Surdos estejam relacionados ao campo de
pesquisa que comporta e fomenta discussões que envolvem diversos
outros campos de pesquisa.
( ) OsEstudosSurdosapresentamaperspectivadapesquisaindependentemente
das experiências, vivências e características do povo surdo.

Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) V – V – V – F – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) V – V – F – V – F.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.

4 Disserte sobre a concepção de artefatos culturais apresentada por Strobel


(2016, p. 30):

5 A partir do que estudamos por que os Estudos Surdos se desenvolveram


dentro do campo de pesquisa dos Estudos Culturais?

153
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157
158
UNIDADE 3 —

PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO


DOS ESTUDOS SURDOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• apresentar o desenvolvimento do campo de pesquisa dos Estudos Surdos;


• caracterizar os trabalhos que se inscrevem na perspectiva dos Estudos
Surdos;
• listar alguns dos principais pesquisadores brasileiros no campo dos
Estudo Surdos;
• descrever as pesquisas apresentadas na coleção Estudos Surdos;
• observar quais foram as pesquisas recentes apresentadas no campo dos
Estudos Surdos em relação à Linguística, Educação e Cultura;
• apontar caminhos para pesquisas em Estudos Surdos a partir das
vivências contemporâneas da pandemia causada pelo novo Corona
vírus: as lives e a presença de intérpretes de sinais, o acesso à notícia,
informações de prevenção e as consequências do uso de máscara para a
comunicação surda;
• observar exemplos de produções culturais surdas e seu potencial como
matéria de pesquisa em Estudos Surdos.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

TÓPICO 2 – PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

TÓPICO 3 – ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS


DE SINAIS

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

159
160
TÓPICO 1 —
UNIDADE 3

A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

1 INTRODUÇÃO
Acadêmico! Chegamos ao Tópico 1 da Unidade 3, após o estudo
de diversos aspectos sobre a surdez, a comunidade surda e o povo surdo.
Estudamos como a História, a sociedade, as leis, a escola e o mercado de
trabalho compreende a surdez e de que modo esta visão permeia as relações e as
inserções das pessoas surdas na sociedade. Também estudamos as formas como
as pessoas constroem as suas percepções sobre si através deste olhar do outro
e de como o descolamento da cultura ouvinte influencia na constituição das
diferentes identidades surdas, bem como estudamos os artefatos culturais que
caracterizam a compreensão de mundo do povo surdo. Por fim, entendemos o
porquê de o campo dos Estudos Culturais ter sido a área de pesquisa em que os
Estudos Surdos puderam nascer e se desenvolver.

Pois bem, neste tópico, que se inicia agora, serão feitas considerações
acerca de como o campo de pesquisa dos Estudos Surdos estão se desenvolvendo
em direção a ter mais espaço nas instituições de ensino superior, também serão
descritas as características e as relações interdisciplinares estabelecidas através
das pesquisas feitas neste campo e conheceremos algumas pessoas que fazem
pesquisa em Estudos Surdos no Brasil.

Ao final deste tópico, analisaremos a Coleção Estudos Surdos da Editora


Arara Azul, um marco na história dos Estudos Surdos por ter contribuído para
o estabelecimento e desenvolvimento desta linha de pesquisa, bem como serão
citadas outras fontes interessantes para acesso a matérias dentro desta perspectiva.

Assim, o objetivo deste tópico é apresentar modos pelos quais você poderá
reconhecer e acessar trabalhos da Área dos Estudos Surdos com propriedade,
pois é importante sabermos identificar quais os trabalhos que se inscrevem na
compreensão da surdez como diferença cultural e linguística.

Bons estudos!

161
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

2 DESENVOLVIMENTO DO CAMPO DE PESQUISA


O campo de pesquisa dos Estudos Surdos se desenvolveu a partir dos
Estudos Culturais em Educação, a partir da perspectiva de que estes permitiam
o entendimento da surdez enquanto diferença e não deficiência. De acordo com
Lopes (2017, p. 25), a expressão Estudos Surdos tem origem em DeafStudies,
delimitação utilizada em diversos países, principalmente nos Estados Unidos, a
partir da década de 1970 “[...] quando o então diretor executivo da Associação
Nacional para Surdos (National Association for the Deaf – NAD) fez referência à
ideia de que, se as pessoas surdas fossem compreendidas em seu tempo, elas
teriam melhor imagem delas mesmas e de suas capacidades”.

Assim, o campo de pesquisa começou a se estruturar através de estudos


que pretendiam expressar as vivências surdas para os próprios surdos, de modo
que as pessoas surdas tivessem exemplos concretos para referência identitária,
cultural, pessoal, entre outras possibilidades.

Durante a pesquisa feita por Lopes (2017) sobre como se deu a


emergência dos Estudos Surdos, a autora entrevista vários pesquisadores que
acompanharam o desenvolvimento do campo de estudos na Faculdade de
Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul a partir dos anos 1990,
para demonstrar graficamente a partir de que articulações os Estudos Surdos
emergiram, a autora apresenta o seguinte esquema:

FIGURA 1 – ESQUEMA DE INFLUÊNCIAS NA EMERGÊNCIA DOS ESTUDOS SURDOS

FONTE: Lopes (2017, p. 61)

Deste modo, mesmo que tendo achado lugar para se desenvolver no


campo de pesquisa dos Estudos Culturais, os Estudos Surdos tiveram também o
suporte e o referencial das discussões sobre os Movimentos Sociais, a Filosofia da
Diferença e a Educação Especial. Ou seja, as discussões sobre surdez, nos diferentes
espaços, encontraram lugar nos estudos acadêmicos a partir de atravessamentos
entre diversas perspectivas.
162
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Ou seja, a emergência do campo de pesquisa dos Estudos Surdos espelha a


visão de surdez como um aspecto que perpassa a vida das pessoas como um todo,
passando pelas lutas surdas nos movimentos sociais, pelas discussões filosóficas de
identidade e diferença, pelas compreensões de que a educação para o povo surdo
precisa ser pensada dentro de uma pedagogia visual e pelos atravessamentos
culturais que irão delimitar as características específicas desta comunidade.

Até este momento, destacada por Lopes (2017), as discussões sobre a


aprendizagem da língua de sinais eram vinculadas às questões específicas pela
ótica da Educação, porém, ao longo do tempo, os cursos de Letras também
começaram a ter estudos na área da surdez. Mas foi em 2006, a partir do primeiro
curso de Letras Libras, numa parceria da Universidade Federal de Santa Catarina
e mais nove instituições de ensino superior públicas, que os Estudos Surdos
passaram a ser realizados também sob a ótica da linguística.

Isso porque os cursos passaram a fomentar a discussão sobre aspectos


específicos das línguas de sinais sob os mais diferentes ramos dos conhecimentos
da linguística, delimitando a compreensão da Libras como língua e não como
linguagem através dos estudos linguísticos, bem como estruturando as pesquisas
de modo a organizar e estabelecer teoricamente os conhecimentos gramaticas das
línguas de sinais e da Libras especificamente. Além disso, ganhou-se espaço para
o estudo da literatura surda dentro a perspectiva dos estudos literários.

Na pesquisa feita por Lopes (2017) fica claro que o desenvolvimento do


campo de pesquisa sobre surdez evoluiu ao longo do tempo de modo a deixar de
se apresentar Estudos sobre a surdez e os surdos em direção aos Estudos surdos.
Dito de outro modo, as pesquisas sobre surdez passaram a abarcar uma perspectiva
surda, descolando-se da percepção do ouvinte sobre o surdo, mas procurando
entender o surdo na perspectiva do próprio surdo, com questionamentos que
fazem sentido e têm relevância para a comunidade e o povo surdo, bem como
deixando de lado a noção de “solucionar” a surdez e tentando entender a surdez
e as características surdas.

É interessante observar como a inserção das questões relativas à surdez


dentro do campo dos estudos universitários modificou concepções estabelecidas
e a utilização de conceitos e termos linguísticos específicos para as línguas de
sinais terem caído em desuso, sendo utilizados os mesmos que os pesquisadores
utilizam para qualquer língua, seja qual for sua modalidade, por exemplo, a
adoção uso do termo fonema para a unidade mínima de significação da língua e
não o uso de quirema, como foi feito até certo ponto.

Isso denota o descolamento do sentido específico de fono = a som (o que


seria inutilizável para uma língua de sinais), pois com a adoção de fonema para
fazer referência à unidade mínima de significação dentro de qualquer língua,
promove-se a inclusão das línguas de sinais como iguais a qualquer língua que
possa ser estudada a partir das teorias fonológicas e se demonstra a percepção

163
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

das línguas de sinais como igualmente passíveis de análise linguística teórica,


sem a necessidade do desenvolvimento de um sistema específico de conceitos.
Pode parecer que este tipo de situação acaba por atribuir uma lógica ouvinte às
línguas de sinais, mas não é isso que ocorre, pois a ideia ao se adotar a mesma
nomenclatura é reforçar o status delas dentro dos estudos linguísticos e adequar
a teoria às percepções específicas das línguas de sinais.

Deste modo, os Estudos Surdos também se fazem presentes dentro dos


Estudos Culturais em Educação e dos Estudos Linguísticos, além disso, vários
outros pesquisadores de áreas de pesquisa diversas começaram a se interessar
pela perspectiva específica da comunidade e do povo surdo para fazer pesquisa,
bem como os próprios surdos foram inseridos de modo mais natural no contexto
universitário e começaram a desenvolver suas próprias pesquisas dentro de seus
ramos de interesse.

A partir da visão proposta por Sá (2005), por outros autores consultados


e pelas leituras feitas ao longo deste material, podem ser apontadas como
características de pesquisas que se inserem na perspectiva dos Estudos Surdos os
seguintes aspectos:

• Trata-se de pesquisas e assuntos relevantes ao povo e à comunidade surda;


• Procuram trazer perspectiva surda na pesquisa, seja através de si mesmo ou da
participação efetiva de pessoas pertencentes ao povo e à comunidade surda;
• Compreendem a surdez como diferença e não como deficiência;
• Compreendem os surdos dentro da perspectiva linguística e cultural;
• Não utilizam a expressão deficiente auditivo para fazer referência aos surdos;
• Reconhecem a heterogeneidade do povo surdo;
• Tratam a surdez como uma característica e não como a experiência da falta
da audição;
• Ênfase na diferença e não da deficiência;
• Veem a surdez como um traço cultural e identitário;
• Apresentam a visão do surdo como um sujeito político com direitos sociais,
lutas e cultura específicas;
• Caracterizam as diferentes manifestações culturais dentro da perspectiva da
surdez, como literatura surda, teatro surdo etc.

Esta lista de características não pretende esgotar as características que


uma pesquisa que se insere no campo do Estudos Surdos pode apresentar, mas
tem como objetivo enfatizar particularidades que são importantes de serem
observadas quando se procuram materias que estejam neste campo de pesquisa.
Assim, é importante termos em mente que os trabalhos nesta área de pesquisa
enfatizarão a surdez como característica identidatária, cultural e linguística.

164
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

3 PESQUISADORAS BRASILEIRAS NO CAMPO DOS


ESTUDOS SURDOS
Atualmente, existem inúmeras instituições que formam cada vez mais
profissionais que trabalharão como professores de Libras, tradutores intérpretes e
pesquisadores na área da surdez. Contudo, existem pesquisadoras brasileiras em
atividade que estão envolvidas em grande parte dos eventos, grupos de pesquisa,
formação de profissionais, formação de professores e cursos de graduação e pós-
graduação sobre surdez e na área dos Estudos Surdos. Por isso, é importante
conhecer seus nomes e áreas de atuação para que você tenha uma base referencial
para futuras pesquisas. Com certeza, você reconhecerá os nomes de várias delas,
pois estas professoras são referência nas pesquisas estudadas ao longo deste e de
outros materiais.

DICAS

No canal do YouTube do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) existe


um programa chamado Manuário em que são apresentadas personalidades marcantes para
a pesquisa acadêmica e pretende ser um dicionário acadêmico bilíngue, lá você encontrará
a informação sobre outras pessoas que se dedicam aos Estudos surdos.
Disponível em: [Link]

A seguir serão apresentadas brevemente seis destas pesquisadoras


brasileiras no campo dos Estudos Surdos. Estas pesquisadoras foram escolhidas
porque são aquelas mais citadas ao longo deste material de estudos e estão
apresentadas em ordem alfabética:

• Gládis Teresinha Taschetto Perlin – Professora da UFSC – Letras Libras

FIGURA 2 – GLADIS PERLIN: FOTO E SINAL EM SIGN WRITING

FONTE: Dias (s.d., s.p.)

165
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

A professora Gládis Perlin foi a primeira surda a terminar o doutorado no


Brasil, ela tem graduação em Teologia pela PUCRS, além disso, possui Mestrado,
Doutorado e Pós-Doutorado em Educação pela UFRGS. Suas pesquisas se
concentram nas áreas de Estudos Surdos, Identidade, Alteridade, Diferença,
Cultura e Educação.

Currículo Lattes: <[Link]

Referências: dentre seus inúmeros trabalhos, destacam-se a organização da


coleção Estudos Surdos (em parceria com Ronice Müller de Quadros) e sua tese
intitulada “O ser e o estar sendo surdos: alteridade, diferença e identidade”,
defendida em 2003, em que:

[...] A tese introduz a meta e aos reflexos que adentram questões de


alteridade diferença e identidade. Introduz nos campos da experiência
do ser e do estar sendo surdos, introduz inclusive nos campos do
povo surdo, sua história, sua cultura. No momento perpassa os
espaços cruciais da diminuição vivida nos terraplenos da educação,
da inclusão, dos meios sociais, das produções decorrentes que vêm a
abundar no campo colonial subjacente. E revela que não se pode sugerir
passivamente a linha de argumentação que passa pela lógica da ideologia
opositora ou insistentemente denominada lógica do colonialismo ou
lógica do ouvintismo. É esse o vaivém que introduz a uma política de
representação da diferença do ser e do estar sendo surdos contrapondo a
proposta ambivalente da perigosa presença de suas estratégias bem como
do historicismo e do periodismo (PERLIN, 2003, p. 9).

Deste modo, sua tese desenvolve as questões relevantes para as


discussões sobre identidades surdas, cultura e história do povo surdo, passando
pelas questões sobre a cultura ouvintista e pelas questões de dominação cultural
pós-colonial.

Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal


pessoal em vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 24 julho de 2018,
disponível no Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível
em: [Link]

166
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

• Karin Lilian Strobel – Professora da UFSC – Letras Libras

FIGURA 3 – FOTO E SINAL EM SIGN WRITING DA PROFESSORA KARIN STROBEL

FONTE: Tem ouvinte na comunidade surda (2018, s.p.)

A professora Karin Strobel é uma pesquisadora que ficou surda na


infância devido a uma medicação muito forte, é formada em Pedagogia pela
Universidade Tuiuti do Paraná, tem especialização em surdez pelo Instituto de
Educação do Paraná e Doutorado em Educação pela Universidade Federal de
Santa Catarina. As pesquisas da autora se relacionam às temáticas de língua
de sinais, educação, surdos, linguística e metodologia de língua de sinais. Tem
uma história bastante consistente na gestão pública na Secretaria de Educação
do Paraná e atuou como Diretora de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos
Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação do Ministério da
Educação (SEMESP) entre fevereiro de 2019 e janeiro de 2020.

Currículo Lattes: <[Link]

Referências: dentre seus trabalhos se destacam o livro “As imagens do outro


sobre a cultura surda” e sua tese, defendida em 2008, intitulada “Surdos: vestígios
culturais não registrados na história”.

A presente pesquisa consiste em um estudo empregando


procedimento das análises narrativas e pesquisas teóricas
etnografias que possibilitou a coleta de dados sobre a cultura do
povo surdo. Nas análises narrativas possibilitou a reflexão sobre
as práticas ouvintistas nas escolas de surdos e resistências do povo
surdo contra esta prática, procurando resgatar a cultura surda na
história. Nas pesquisas teóricas observou-se o papel fundamental da
língua de sinais, o reconhecimento da cultura surda e a construção
de sua identidade. Estas metodologias ressaltam a importância da
participação dos povos surdos para a construção da história cultural
[...] (STROBEL, 2008, p. 10).

167
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Desta maneira, sua tese trata de questões culturais e das lutas do povo
surdo para manter sua cultura mesmo sob pressão das metodologias ouvintistas.
Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal pessoal em
vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 25 junho de 2018, disponível no
Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível em: <https://
[Link]/watch?v=DE6-SaKuy_s>.

• Lodenir Becker Karnopp – Professora da Faculdade de Educação – UFRGS

FIGURA 4 – FOTO E SINAL EM SIGN WRITING DA PROFESSORA LODENIR KARNOPP

FONTE: Currículo Lattes da professora 2020

Lodenir Karnopp é ouvinte e professora da Faculdade de Educação da


Universidade Federal do Rio Grande do Sul, seu interesse pelos estudos sobre
a surdez começou durante a graduação em Letras, Mestrado e Doutorado em
Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
além disso, fez Pós-Doutorado na Gallaudet University (EUA) e, atualmente, faz
parte do Colegiado Setorial de Diversidade Linguística da Secretaria de Educação
do Estado do Rio Grande do Sul. Suas áreas de estudo são esquisas no campo dos
Estudos Culturais em Educação, com ênfase em Línguas de Sinais e Educação
de Surdos. Seus estudos linguísicos sobre a Libras são muito importantes e,
juntamente com Ronice Quadros, escreveu o livro “Língua de sinais brasileira:
estudos linguísticos”, uma obra de extrema importância para os estudos dos
aspectos gramaticais em Libras e uma obra de referência obrigatória na área.
Além disso, ela também escreveu vários livros infantis para o público surdo,
como o “Patinho surdo” e “Cinderala Surda”.

Currículo Lattes: <[Link]


id=K4763325A6>.

Referências: dentre as pesquisas da professora, destacamos a sua tese intitulada


“Aquisição fonológica na língua brasileira de sinais: estudo longitudinal de uma
criança surda” devido à importância deste trabalho para a compreensão de como
se dá aquisição fonológica da Libras:
168
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

A presente tese aborda a produção dos primeiros sinais na LIBRAS


e focaliza a aquisição fonológica de configurações de mão, locações
e movimentos em uma criança surda, filha de pais surdos, durante
o período de 8 aos 30 meses de idade. Com base no levantamento
da ordem de aquisição, da frequência e da precisão na produção
das unidades formacionais do sinal, foram estabelecidas etapas no
desenvolvimento fonológico da informante desta pesquisa. A partir
do estabelecimento de etapas de desenvolvimento, foram descritas
longitudinalmente as características de cada um dos parâmetros
fonológicos, conforme recente abordagem de representação fonológica
para as línguas de sinais, que se utiliza de princípios da Fonologia da
Dependência (Dependency Phonology). No decorrer da descrição de
dados foram mencionados universais compartilhados entre línguas de
sinais (KARNOPP, 1999, p. 6).

Assim, esta pesquisa se inscreve tanto no campo da Educação quanto no


campo da linguística, pois aborda a aquisição de parâmetros da língua de sinais
por uma criança surda filha de pais surdos e traz importantes contribuições para
o entendimento das línguas de sinais.

Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal


pessoal em vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 20 abril de 2018,
disponível no Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível
em: [Link]

• Mariane Rossi Stumpf – Professora da UFSC – Letras Libras

FIGURA 5 – FOTO E ESCRITA EM SIGN WRITING DO SINAL DA PROFESSORA MARIANNE STUMPF

FONTE: Currículo Lattes da professora (2020)

A professora Marianne Stumpf ficou surda aos nove meses devido aos
remédios tomados para a cura de uma febre persistente, ela tem graduação em
Tecnologia da Informação pela Universidade Luterana do Brasil, graduação em
Educação de Surdos pela Universidade de Santa Cruz do Sul, doutorado em

169
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

informática pela UFRGS e Pós-Doutorado na Universidade Católica Portuguesa.


Os temas de pesquisa dela são formação de professores de libras, escrita de sinais
pelo sistema SignWriting, traduções, terminologia de libras, sinais internacionais
e formação de intérpretes de libras.

Currículo Lattes: <[Link]

Referências: Dentre sua produção acadêmica podemos destacar a sua tese,


defendida em 2005, “Aprendizagem de escrita de língua de sinais pelo sistema
SignWriting: línguas de sinais no papel e no computador”:

Esta tese trata de como o sistema SignWriting pode servir de suporte a


uma nova proposta pedagógica ao ensino da escrita de língua de sinais
e letramento para crianças surdas usuárias da Língua Brasileira de
Sinais – Libras e da Língua de Sinais Francesa – LSF. Escrever deve ser
uma atividade significativa para a criança. No caso da criança surda,
a escrita fundamenta-se em sua competência na língua de sinais, sem
precisar da intermediação da língua oral. A criança surda, quando em
um ambiente onde ela e seus colegas se comunicam em língua de sinais,
efetivamente tenta escrever sinais, quando é incentivada a fazê-lo. Em
nossos experimentos, usamos o sistema SignWriting para mostrar ás
crianças surdas (e a seus pais e professores) como escrever textos em
línguas de sinais de ambas as formas: manuscrita e impressa, usando
o programa Sign Writer para editar textos em línguas de sinais. A base
teórica que apoia a tese é a abordagem bilíngue para a educação de
surdos, a língua de sinais, a teoria de Piaget, e de Ferreiro quando trata
das etapas da alfabetização em língua oral. [...]

Observe que, em sua tese, a autora faz a conexão entre o uso de tecnologias,
a aquisição de língua e o processo de alfabetização, o bilinguismo e as discussões
sobre inclusão e surdez. Deste modo, a tese apresenta um ponto de encontro
entre diferentes áreas para poder compreender como se dá a aquisição da escrita
de sinais pelas crianças surdas.

Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal


pessoal em vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 1 setembro 2017,
disponível no Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível
em: [Link]

170
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

• Ronice Müller de Quadros – Professora da UFSC – Letras Libras

FIGURA 6 – FOTO E SINAL EM SIGN WRITING DA PROFESSORA RONICE QUADROS

FONTE: Revista D+ (2017, s.p.)

A professora Ronice Müller de Quadros é uma pesquisadora muito


reconhecida sobre questões relacionadas à surdez devido ao grande número de
trabalhos, às lutas surdas às quais está engajada e à importância de suas pesquisas
para a comunidade surda. Ela é Coda, ou seja, uma ouvinte filha de pais surdos
e tem a Libras como sua língua materna, bem como cresceu em contato com a
comunidade surda. A sua formação acadêmica foi realizada na PUCRS, com a
graduação em pedagogia e o mestrado e doutorado em Linguística, também fez
dois Pós-Doutorados, um na Gallaudet University e University of Connecticut e
outra em Harvard, suas pesquisas versavam sobre a aquisição de língua bimodal
por crianças surdas em Libras-LP e ASL-Inglês. De acordo com seu Currículo
Lattes, as áreas de atuação são língua de sinais brasileira, aquisição da língua de
sinais, bilinguismo bimodal, línguas de herança, educação de surdos e tradução
e interpretação de língua de sinais. Atualmente, ela coordena quatro projetos de
pesquisa e apresenta uma produção bibliográfica bastante abundante em LP e
Inglês, com diversas parcerias e coautorias.

Lattes: <[Link]

Referências: juntamente com Lodenir Karnopp, escreveu o livro “Língua de sinais


brasileira: aspectos linguísticos”, um marco no estudo gramatical da Libras, além
disso, é a pesquisadora que encabeçou a publicação da Coleção Estudos Surdos.
Para termos uma ideia dos estudos atuais da autora, segue a descrição de um
de seus projetos atuais de pesquisa, retirado do Currículo Lattes da Professora
Ronice Quadros (atualização em 28 set 2020, s.p.):

A documentação da Libras compreendida na presente proposta inclui


quatro frentes de trabalho: (1) aspectos linguísticos da Libras; (2)
Literatura em Libras; (3) glossários especializados; e, (4) ensino de Libras.
Os aspectos linguísticos analisados objetivam subsidiar a elaboração de
uma gramática da Libras a partir de dados com produções em Libras
coletados e transcritos em quatro estados brasileiros: Ceará, Alagoas,
Rio de Janeiro e Santa Catarina. As produções literárias em Libras serão
selecionadas e catalogadas para compor uma Antologia da Literatura

171
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

em Libras no país. Os glossários especializados compreenderão as


áreas de Química, Literatura, Física, Biologia e Matemática, no sentido
de subsidiar a educação básica. Este material servirá de referência
permanente para professores, tradutores e intérpretes de Libras e
Língua Portuguesa. O material para o ensino de Libras envolverá
produções em Libras para o uso no ensino de Libras, bem como a coleta
de produções de alunos de Libras como segunda língua, no sentido de
subsidiar as pesquisas e práticas dos professores de Libras em diferentes
níveis da educação. Este material estará organizado por meio de um
Portal de Libras que contará com diferentes interfaces multilíngues
estruturadas a partir de produções em Libras. O desafio tecnológico
envolverá o desenvolvimento destas interfaces que permitirão aos
usuários acessarem os textos em Libras de forma interativa. Além disso,
o desenvolvimento de ferramentas que favoreçam a leiturabilidade de
vídeos em Libras associado ao design visual será o grande desafio das
interfaces a serem disponibilizadas publicamente a todos os surdos e
demais interessados nas produções em Libras.
Objetivo geral: Consolidar a documentação da Libras no Brasil
para se integrar ao Arquivo das línguas ([Link] em
quatro grandes áreas da educação: Aspectos Linguísticos da Libras;
Literatura em Libras; Ensino de Libras, disponibilizando interfaces
para pesquisadores, professores e intérpretes de Libras por meio do
Portal de Libras.
Alunos envolvidos: Graduação: (10) / Mestrado acadêmico: (6) /
Doutorado: (6).

Deste modo, este projeto tem grande importância para o ensino e


aprendizagem da Libras por pretender criar um banco de dados acessível e
disponível para os diferentes públicos através de um portal. Além disso, este
projeto pretende estruturar muitos materiais em Libras, o que é muito importante
para registro, ensino e pesquisa em língua de sinais.

Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal


pessoal em vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 7 setembro 2017,
disponível no Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível
em: [Link]

• Shirley Vilhalva – Professora na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

FIGURA 7 – FOTO E SINAL EM SIGN WRITING DA PROFESSORA SHIRLEY VILHALVA

FONTE: III Sempre Libras (2018, s.p.)

172
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

A professora Shirley Vilhalva é pedagoga, mestre em Linguística pela


UFSC e doutoranda, também na mesma área, na UNICAMP. Um de seus trabalhos
mais conhecidos é o livro autobiográfico “O despertar do silêncio”, em que conta
sua biografia de forma que nos apresenta o seu desenvolvimento como surda e
os diferentes aspectos de suas lutas e vivências pessoais. Atualmente, se dedica
ao estudo das línguas de sinais indígenas, estudos surdos das línguas de sinais
indígenas e educação de surdos: um olhar à identidade, cultura e língua.

Lattes: <[Link]

Referências: dentre suas pesquisas, se destaca a dissertação, orientada por Ronice


Quadros, em que a autora procurou mapear as línguas de sinais nas comunidades
indígenas do Mato Grosso do Sul, a seguir, o resumo presente em Vilhalva (2009, p. 11):

A presente pesquisa denominada "Mapeamento das línguas de sinais


emergentes: um estudo sobre as comunidades linguísticas indígenas
de Mato Grosso do Sul", foi realizada numa perspectiva de mapear
e registrar, através do olhar de como as línguas de sinais familiares
está emergindo no contexto plurilíngue, especificamente nas aldeias
Jaguapiru e Bororo das comunidades indígenas do município de
Dourados no estado de Mato Grosso do Sul. Enquanto pesquisadora
surda e sinalizadora adentrei no espaço de regras que vem de uma
cultura e língua oral de uma etnia, pois o guarani: kaiowa, ñandeva e
mbya sempre tiveram a oralidade como "poder" dentro da comunidade
e das Escolas Indígenas. Os estudos sobre sinais familiares trazem uma
gama de informações a respeito da comunicação que a família, quando
tem um filho surdo, em que os pais são em sua maioria ouvintes e
começam a criar um meio de comunicação visual, usando todas as
formas naturais possíveis, como o apontamento e gestos naturais. O
procedimento usado foi os depoimentos espontâneos pelos familiares
ao ir acompanhada com a equipe da Semed, intérprete da Libras e
do representante da liderança indígena local nas residências dos
indígenas surdos, elaborando diário, fotos e filmagens dentro da escola
indígena quando me era permitido. Os processos de análise neste
estudo consistiram, em uma de sua análise de natureza linguística com
enfoque lexical (vocabulário) e buscando o mapeamento no sentido de
abrir este caminho investigando que dará elementos concretos para a
proposição de política linguística nesta área.

Desta forma, a professora fez um levantamento não apenas sobre as línguas,


mas como o poder da oralidade e a relação deste com as línguas de sinais que
emergem do cotidiano e da convivência do surdo com sua família dentro da tribo.

Para conhecer mais sobre a professora e ver a sinalização de seu sinal


pessoal em vídeo, recomendamos o programa Manuário, de 7 setembro 2017,
disponível no Canal do Ines e inserido na foto da autora via QRcode. Disponível
em: [Link]

173
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

A partir destas breves informações sobre cada uma das pesquisadoras


acima, você já tem um panorama bem interessante de possibilidades para pesquisa,
pois cada uma delas apresenta inúmeras outras obras escritas sozinhas ou em
parcerias entre elas ou com outros pesquisadores e pesquisadoras em Estudos
Surdos. Além disso, todas coordenam ou coordenaram grupos de pesquisa e
orientam trabalhos de graduação e pós-graduação. Logo, a partir das pesquisas
feitas e orientadas por elas é possível ter acesso a muitos outros materiais de
qualidade sobre surdez, cultura surda, aquisição de línguas de sinais e demais
artigos, TCCs, dissertações e teses que envolvam o contexto dos Estudos Surdos.
Além disso, suas entrevistas e relatos muito contribuem para o conhecimento da
emergência e desenvolvimento do campo de estudos.

4 COLEÇÃO ESTUDOS SURDOS


Um dos marcos editoriais das publicações da área dos Estudos Surdos
é a coleção de mesmo nome da Editora Arara Azul, este conjunto de livros foi
publicado no site da editora entre os anos de 2006 e 2009, compreendendo um
total de quatro volumes. As pesquisas, relatos, ensaios e ensaios escritos por
pesquisadores surdos, pesquisadores bilíngues e tradutores intérpretes de Libras
apresentadas nas obras tiveram origem em um projeto de pesquisa coordenado
pela professora Ronice Müller de Quadros que coloca o seguinte no Prefácio do
primeiro livro da série (QUADROS, 2006, p. 10):

O projeto “Educação de Surdos: professores surdos, professores


bilíngues e intérpretes de língua de sinais”, que está sendo financiado
pela CAPES/PROESP (2003-2008), executado na Universidade Federal
de Santa Catarina, garante o início da publicação dessa Série como
resultado das pesquisas que estão sendo financiadas nesse projeto. A
Série Pesquisas em Estudos Surdos concretiza a democratização da
produção do conhecimento.

Desde modo, a publicação desta Coleção marca a divulgação e


democratização do conhecimento através da distribuição gratuita por e-books
das pesquisas que estavam sendo feitas na área do Estudos Surdos. Além disso,
esta série de livros também têm grande importância não apenas para dar a
conhecer os estudos no campo de pesquisa dos estudos surdos, mas também de,
ao mesmo tempo em que divulga, estabelece, organiza e estrutura pesquisa feita
na perspectiva surda de vivências e realidade.

Sobre a maneira como os surdos foram inseridos na produção destas


pesquisas apresentadas através da perspectiva de inserção dos surdos como
parte imprescindível para que a pesquisa fosse estruturada. De acordo com
Quadros (2006, p. 10):

Os autores que colaboraram nesta edição estão participando de um


processo de formação e produção de conhecimento junto com os
surdos. Todos os trabalhos foram produzidos por meio de reflexão
que teve os surdos enquanto alunos, enquanto entrevistados,
enquanto informantes... Nesse processo, esses autores desconstruíram

174
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

mitos, saberes e pensares. Vários deles passaram a olhar o outro surdo


noutra dimensão, a partir da diferença, tendo a própria pesquisa
como provocadora das desconstruções e construções de outros
saberes. Foram pesquisadores que começaram a refletir sobre muitas
das questões que estão sendo debatidas e trazidas para a sociedade
no contexto das políticas educacionais e linguísticas no campo dos
Estudos Surdos.

Deste modo, a própria pesquisa que deu origem à coleção Estudos Surdos
foi responsável por formar pesquisadores que se dedicariam, a partir daí, ao
estudo da surdez a partir da visão da diferença e não da deficiência, de modo
que foram desconstruídos conceitos, refeitos caminhos e revistas as lentes sob as
quais a realidade era percebida. Deste modo, os pesquisadores autores dos textos
publicados também foram sendo alterados pelos estudos realizados ao longo do
tempo de duração do projeto de pesquisa.

Em relação aos assuntos dos trabalhos apresentado nos quatro livros da


coleção, foi elaborada uma nuvem de palavras com os títulos das pesquisas, a
ferramenta permite que as palavras sejam escritas com tamanhos que representam
graficamente a quantidade de vezes em que as palavras foram utilizadas. Assim,
podemos ver, na figura a seguir, quais os assuntos e temáticas abordados e quais
aqueles que foram mais utilizados:

FIGURA 8 – NUVEM DE PALAVRAS COM AS PALAVRAS-CHAVE DOS TEXTOS DA COLEÇÃO


ESTUDOS SURDOS

FONTE: Os autores

175
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Observe que as palavras mais utilizadas são: surdo, língua de sinais,


educação e Libras, o que nos permite perceber que estes são assuntos-chave para
a compreensão do campo de pesquisa dos Estudos Surdos e, por consequência,
da coleção de livros de mesmo nome.

A característica de construção do conhecimento e especialização das


temáticas abordadas fica claramente aparente ao longo dos quarenta e três
trabalhos publicados nos quatro volumes. Porque quando comparamos os artigos
inseridos nos livros, vemos que aconteceu uma maior especialização dos temas
e aprofundamento das pesquisas. Para destacar este contexto apontado, iremos
comentar brevemente cada uma das edições:

• Estudos Surdos I, organização de Ronice Müller de Quadros: 324 páginas e


nove capítulos, publicação em 2006. Quadros (2006) ainda chama a atenção
para o fato de que no volume I da coleção ainda existe uma maioria de autores
ouvintes, mas que se pretendia ampliar a participação de autores surdos ao
longo das edições. Outro aspecto interessante é que a série de livros foi sendo
construída ao longo dos anos em que durou o projeto de pesquisa e a publicação
dos livros.

Percebemos que este volume apresenta trabalhos, inseridos nas áreas da


Educação, Linguística, Estudos Culturais e Psicanálise. Também notamos que
as pesquisas apresentadas tratam de assuntos bastante clássicos na área, como
o Congresso de Milão, a inclusão de alunos surdos em escolas regulares e os
mitos que permeiam o ensino da leitura para os surdos. Além disso, aparecem
estudos mais especializados apresentados pelas professoras pesquisadoras
importantes na área.

QUADRO 1 – ESTUDOS SURDOS I – TRABALHOS PUBLICADOS

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Educação de surdos: uma
releitura da primeira escola
ES1 Vilmar Silva Educação
pública para surdos em paris e
do congresso de Milão em 1880
Integração/ inclusão na escola
ES1 regular: um olhar do egresso Paulo César Machado Educação
surdo
Formação de professores surdos:
ES1 mais professores para a escola Tania Micheline Miorando Educação
sonhada
Poesia em língua de sinais: Ronice Müller de Quadros Linguística
ES1
traços da identidade surda Rachel Sutton-Spence Estudos Culturais
Gladis Perlin
ES1 Ouvinte: o outro do ser surdo Estudos Culturais
Ronice Müller de Quadros

176
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Um estranho no ninho: um
estudo psicanalítico sobre a Psicanálise
ES1 Gladis Dalcin
constituição da subjetividade do Estudos Culturais
sujeito surdo
Estudos Culturais
Possíveis encontros entre cultura
ES1 Rossana Finau Educação
surda, ensino e linguística
Linguística
Ao pé da letra, não! Mitos que
ES1 permeiam o ensino da leitura Sandra Patrícia de Faria Linguística
para surdos
A apropriação da escrita por
ES1 Sônia Brocharo Linguística
crianças surdas

FONTE: Os autores

• Estudos Surdos II, organização de Ronice Müller de Quadros e Gládis


Perlin: 267 páginas e nove capítulos, publicação em 2007. Neste volume,
conforme anunciado no volume anterior, aparece uma maior participação
de pesquisadores surdos, inclusive com a organização compartilhada por
Quadros com a professora Gládis Perlin. Neste volume, os assuntos estudados
são vinculados também às áreas dos Estudos Culturais, Linguística e Educação;
porém, com a análise dos títulos, pode-se perceber que os temas já se distanciam
daqueles mais clássicos sobre surdez, como um nível de especialização e
aprofundamento mais evidente do que aquele do Volume I.

QUADRO 2 – ESTUDOS SURDOS II – TRABALHOS PUBLICADOS


Área(s)
Volume Título Autor(es)
relacionadas
História dos surdos:
ES2 representações “mascaradas” das Karin Lilian Ströbel Estudos Culturais
identidades surdas
Cenas do atendimento especial
numa escola bilíngue: os discursos Patrícia Marcondes Educação
ES2
sobre a surdez e a produção de Amaral da Cunha Linguística
redes de saber-poder
Professores surdos: identificação Educação
ES2 Flaviane Reis
ou modelo? Estudos Culturais
Pedagogia visual / sinal na Ana Regina
ES2 Educação
educação dos surdos Souza Campello
Educação de jovens e adultos:
ES2 um diálogo sobre a educação e o Rodrigo Rosso Marques Educação
aluno surdo
O currículo de Língua de Sinais Educação
ES2 e os professores surdos: poder, Carolina Hessel Silveira Estudos Culturais
identidade e cultura surda Linguística
Franklin Ferreira
Os surdos nos rastros da sua Rezende Junior
ES2 Estudos Culturais
intelectualidade específica Patrícia Luiza Ferreira
Pinto

177
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

ES2 Escrita das línguas de sinais Mariângela Estelita Linguística


Ronice Müller de
Codas brasileiros: libras e
ES2 Quadros Linguística
português em zonas de contato
Mara Massutti

FONTE: Os autores

• Estudos Surdos III, organização de Ronice Müller de Quadros: 300 páginas


e dez capítulos, publicação em 2008. Nesta edição, as áreas interdisciplinares
seguem sendo a Educação, a Linguística e os Estudos Culturais, porém
começam a aparecer assuntos vinculados ao uso das tecnologias digitais de
comunicação informação, bem como as perspectivas apresentadas se mostram
mais especializadas no sentido de investigar discursos, representações,
espaços de conforto linguístico, práticas tradutórias e análises que procuram
perceber como se dá a presença dos surdos em ambientes acadêmicos. Assim
sendo, percebe-se que aqueles assuntos mais clássicos de revisão histórica
e noções de inclusão foram deixados em segundo plano, pois aparece
uma especificação maior em relação aos estudos linguísticos, educacionais
e identitários, mas não mais como estabelecimento de bases, mas como
percepção de usos mais detalhados.

QUADRO 3 – ESTUDOS SURDOS III – TRABALHOS PUBLICADOS

Volume Título Autor(es) Área(s) relacionadas


Mudanças estruturais
ES3 Marianne Rossi Stumpf Educação
para uma inclusão ética
Inclusão de surdos no Ronice Quadros Müller
Educação
ES3 ensino superior por meio Roseli Zen Cern
TDICs
do uso da tecnologia Alice Theresinha Cybis Pereira
Os discursos sobre a
Carolina Hessel Silveira
ES3 educação de surdos na Linguística
Patrícia Luiza Ferreira Rezende
revista Nova Escola
As representações em Estudos Culturais
ES3 ser surdo no contexto da Vilmar Silva Educação
educação bilíngue Linguística
Espaço de conforto
Linguística
ES3 linguístico/cultural dos Dionisio Schmitt
Estudos Culturais
surdos na UFSC
Pensando em tradução
ES3 cultural a partir do sujeito Gisele Iandra Pessini Anater Estudos Culturais
não surdo
Intérpretes de língua de
Mara Lúcia Masutti Linguística
ES3 sinais: uma política em
Silvana Aguiar dos Santos Política
construção

178
TÓPICO 1 — A PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Aspectos da tradução/
encenação na Língua de
Sinais Brasileira para Ronice Müller de Quadros
Linguística
ES3 um ambiente virtual Saulo Xavier Souza
TDICs
de ensino: práticas
tradutórias do curso de
Letras Libras
Narrar e pensar as
narrativas surdas
Lucyenne Matos da C. Vieira- Educação
ES3 capixabas: o outro surdo
Machado Linguística
no processo de pensar
uma pedagogia
As marcas linguísticas
ES3 para as categorias tempo Rossana Finau Linguística
e aspecto na Libras
FONTE: Os autores

• Estudos Surdos IV, organização de Ronice Müller de Quadros e Marianne


Rossi Stumpf: 452 páginas e quinze capítulos, publicação em 2009. Neste
volume, mais uma vez Quadros faz parceria com uma pesquisadora surda,
a professora Marianne Stumpf e são apresentados quinze trabalhos que se
relacionam com Educação, Estudos Culturais e, em sua maioria, na área da
Linguística. Dentre os trabalhos pode-se perceber que os assuntos linguísticos
apresentam compreensões bastante especializadas em direção à compreensão
de mecanismos específicos da língua de sinais, com artigos sobre coesão
e coerência, categorias de análise, sujeito nas sinalizações, ordenamento
alfabético, aquisição de língua estrangeira por alunos surdos e aspectos
tradutórios específicos da língua de sinais.

QUADRO 4 – ESTUDOS SURDOS IV – TRABALHOS PUBLICADOS

Área(s)
Volume Título Autor(es)
relacionadas
A perspectiva social na emergência
Rimar Romano Segala
das Línguas de Sinais: a noção de
ES4 Rosemeri Bernieri Linguística
“Comunidade de fala” e idioleto
segundo o modelo teórico laboviano
Mecanismos de coesão textual visual
Gisele Anate
ES4 em uma narrativa sinalizada: língua Linguística
Gabriela Passos
de sinais brasileira em foco
Lendo sinalizações em Libras: onde Silvana Nicoloso
ES4 Linguística
está o sujeito? Soélge Mendes da Silva
A narrativa em língua de sinais: um
ES4 Zilda Gesueli Linguística
olhar sobre classificadores
Por uma ordem “alfabética” nos
ES4 Mariângela Estelita Linguística
dicionários de línguas de sinais
Ronice Müller de
ES4 Aquisição das Línguas de Sinais Linguística
Quadros

179
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

A aquisição da ordem das palavras


Aline Lemos Pizzio
ES4 na Língua de Sinais Brasileira: um Linguística
estudo de caso
The book is not on the table: o
ES4 desenvolvimento da escrita de surdos Aline Souza Linguística
em Língua Inglesa (LE)
Estudo em diário: Fatores
complicadores e facilitadores no
Tarcísio de Arantes Leite
ES4 processo de aprendizagem da Linguística
Leland mccleary
Língua de Sinais Brasileira por um
adulto ouvinte
Do patológico ao cultural na surdez:
Estudos
ES4 para além de um e de outro ou para Audrei Gesser
Culturais
uma reflexão crítica dos paradigmas
Traduzibilidade poética na interface
Libras – português: aspectos
Saulo Xavier Souza
ES4 linguísticos e tradutórios com base Linguística
em “Bandeira Brasileira” de Pimenta
(1999)
Entrevista com tradutores surdos
do curso de Letras Libras da UFSC:
ES4 discussões teóricas e práticas sobre a Thaís Fleury Avelar Linguística
padronização linguística na tradução
de Língua de Sinais
Rodrigo Rosso Marques
ES4 O fenômeno de ser intérprete Linguística
Janine Soares de Oliveira
O desenvolvimento cognitivo Educação
da criança surda focalizado nas Desenvolvimento
ES4 Heloiza Barbosa
habilidades visual, espacial, jogo cognitivo
simbólico e matemática Matemática
Relato de experiências: a educação
ES4 bilíngue para surdos: relatos de Marianne Rossi Stumpf Linguística
experiências e a realidade brasileira

FONTE: Os autores

Assim, podemos ver que a coleção Estudos Surdos reflete não apenas a
pesquisa a partir da qual se organizou, mas espelha as movimentações e conquistas
das lutas surdas, pois apresenta uma especialização de assuntos e tópicos, bem
como da presença de pesquisadores surdos. Além disso, os assuntos têm um
aprofundamento em relação a deixar de tratar temas clássicos dos estudos sobre
surdez para discutirem as diferenças das línguas de sinais.

Como Quadros (2009) destaca em seu trabalho publicado no Volume


IV, antes era necessário que os pesquisadores em línguas de sinais provassem
a validade delas como língua, porém após isto posto e aceito, já podem ser
enfatizadas as peculiaridades e diferenças, pois não precisam mais ficar se
justificando e validando academicamente e, as pesquisas e pesquisadores,
podem se debruçar sobre temáticas que evidenciam as diferenças das línguas de
sinais, das percepções surdas, das identidades surdas, ou seja, do modo surdo de
vivenciar a realidade.
180
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O campo da pesquisa dos Estudos Surdos se desenvolveu a partir dos Estudos


Culturais em Educação.

• O campo de pesquisa começou a se estruturar através de estudos que


pretendiam expressar as vivências surdas para os próprios surdos.

• Mesmo que tendo achado lugar para se desenvolver no campo de pesquisa dos
Estudos Culturais, os Estudos Surdos tiveram também o suporte e o referencial
das discussões sobre os Movimentos Sociais, a Filosofia da Diferença e a
Educação Especial.

• A emergência do campo de pesquisa dos Estudos Surdos espelha a visão de


surdez como um aspecto que perpassa a vida das pessoas como um todo.

• A partir do primeiro curso de Libras Letras, que os Estudos Surdos passaram a


ser realizados também sob a ótica da linguística.

• As pesquisas sobre surdez passaram a abarcar uma perspectiva surda,


descolando-se da percepção do ouvinte sobre o surdo, mas procurando
entender o surdo na perspectiva do próprio surdo.

• Os trabalhos nesta área de pesquisa enfatizarão a surdez como característica


identitária cultural e linguística.

• A pesquisa que deu origem à coleção Estudos Surdos foi responsável por
formar pesquisadores que se dedicaram, a partir daí, aos estudos da surdez a
partir da visão da diferença e não da deficiência.

181
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com os estudos a respeito das influências na


emergência dos Estudos Surdos em educação do Tópico 1:

I- A emergência do campo de pesquisa dos Estudos Surdos


espelha a visão de surdez como um aspecto que perpassa a vida das pessoas
como um todo.
II- As discussões sobre surdez não encontraram lugar nos estudos acadêmicos.
III- A emergência do campo de pesquisa dos Estudos Surdos passa pelas lutas
surdas nos movimentos sociais.
IV- As discussões filosóficas de identidade e diferença passam pela
compreensão de que a educação para o povo surdo precisa ser pensada
dentro de uma pedagogia visual e pelos atravessamentos culturais.
V- O campo de pesquisa dos Estudos Surdos teve também o suporte e o
referencial da Educação Especial.

Dentre estas afirmações, quais estão CORRETAS?


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

2 De acordo com o estudo das pesquisas sobre o campo de surdez estudado no


Tópico 1, analise as sentenças, classificando V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) Na pesquisa feita por Lopes (2017) fica claro que o desenvolvimento do


campo de pesquisas evoluiu ao longo do tempo de modo a deixar de ser
apresentado como Estudos sobre a surdez e os surdos em direção aos
Estudos Surdos.
( ) As pesquisas sobre surdez passaram a abarcar uma perspectiva surda,
procurando entender o surdo na perspectiva do próprio surdo.
( ) Os pesquisadores utilizam a adoção do termo quirema para a unidade
mínima de significação da língua de sinais.
( ) A adoção do termo fonema faz referência a unidade mínima de significação
dentro de qualquer língua.
( ) Os Estudos Surdos também se fazem presentes dentro dos Estudos
Culturais em Educação e dos Estudos Linguísticos.

Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) V – V – V – F – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) V – V – F – V – V.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.
182
3 A partir da visão de Sá (2005) e de acordo com outros autores
consultados, assinale a alternativa INCORRETA dentre as
características de pesquisas na perspectiva dos Estudos Surdos:

( ) Trata-se de pesquisas e assuntos relevantes ao povo e à comunidade surda.


( ) Compreendem a surdez como deficiência e não como diferença.
( ) Não utilizam a expressão deficiente auditivo para fazer referência aos surdos.
( ) Reconhecem a heterogeneidade do povo surdo.
( ) Veem a surdez como um traço cultural e identitário.

4 A professora Ronice Müller de Quadros é uma pesquisadora muito


reconhecida sobre questões relacionadas à surdez devido ao grande número
de trabalhos, às lutas surdas aos quais está engajada e à importância de
suas pesquisas para a comunidade surda. Descreva a importância da sua
área de atuação:

5 A coleção Estudos Surdos da Editora Arara Azul é um dos marcos editoriais


das publicações da área. Disserte sobre a relevância desta coleção.

183
184
TÓPICO 2 —
UNIDADE 3

PANORAMA DE PESQUISA EM
ESTUDOS SURDOS

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior, nos dedicamos a estudar alguns dos aspectos sobre o
desenvolvimento do campo dos Estudos Surdos, para compreender a forma como
estes estudos emergiram e a partir de que outras áreas de pesquisa este campo de
pesquisa se constituiu. Além disso, foram apontadas algumas das características
mais relevantes dos trabalhos que se inserem na área de pesquisa, bem como
estudamos o perfil de algumas das pesquisadoras que se dedicam aos assuntos
de pesquisa vinculados à surdez na perspectiva de diferença e diversidade. Por
fim, analisamos, brevemente a Coleção Estudos Surdos da Editora Arara Azul.

Neste Tópico 2, a ideia é estudarmos de modo amplo, como a pesquisa


em Estudos Surdos é feita nas universidades brasileiras, bem como analisaremos
as áreas em que este campo de pesquisa transita, a partir da compreensão dos
conceitos dos modos como as disciplinas podem se relacionar. Deste modo,
observaremos como a área dos Estudos Surdos, que emergiu da junção de outras
áreas de pesquisa, segue tendo a característica de fomentar seus trabalhos a partir
da conexão entre saberes, priorizando uma compreensão que evidencia o diálogo
e o entendimento do indivíduo a partir dos diversos atravessamentos que o
constituem em uma sociedade multifacetada.

A seguir, veremos quais algumas das principais temáticas de estudo


dentro do campo de pesquisa dos Estudos Surdo no interior de três das principais
áreas de pesquisa em que eles acontecem: a Linguística, a Educação e os Estudos
Culturais. Neste tópico, serão apontados alguns dos assuntos de pesquisa em
Estudos Surdos que estão no interior das áreas com as quais o campo de trabalho
se relaciona. Assim, dentro da Linguística, por exemplo, veremos que os estudos
gramaticais sobre as línguas de sinais são parte dos Estudos Surdos feitos em
parceria com a área da linguística. Para ilustrar estas relações serão indicados
trabalhos que representam a relação.

Ao final do tópico, explicaremos como foi feita a análise dos trabalhos


apresentados e, também, serão indicados alguns sites para buscas de referências
em Estudos Surdos. Deste modo, este tópico pretende apontar as áreas com as
quais as pesquisas surdas se relacionam, quais os tópicos e assuntos de pesquisa
dentro de cada uma delas e quais trabalhos se inscrevem nestes assuntos, bem
como, apontar sites de referências confiáveis para busca de matérias que se
inscrevam na área dos Estudos Surdos.

Acadêmico! Bons estudos!

185
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

2 INTERDISCIPLINARIDADE EM ESTUDOS SURDOS


É importante termos em mente que os Estudos Surdos já “nasceram”
dentro de uma perspectiva que entende a surdez numa visão global, ou seja,
procura abarcar os vários aspectos que fazem parte da realidade e do universo
surdo compreendido como característica linguística, cultural e social do povo
surdo. Deste modo, esse campo de pesquisa tem como traço predominante
envolver outras áreas a fim de realizar seus estudos.

Assim, os Estudos Surdos têm a interdisciplinaridade como elemento de


estruturação das pesquisas, dentro das teorias que explicam os níveis de interação
entre as disciplinas, entende-se que, de acordo com Castro (2010, p. 1, caixa alta
do autor): “Cada DISCIPLINA tem seus conteúdos próprios, suas metodologias,
suas abordagens, sua linguagem, que lhe são peculiares, em conformidade com os
seus objetivos e com os conhecimentos sob sua responsabilidade ou abrangência”.

Dito de outro modo, cada área do conhecimento estabelece sua forma


específica de se relacionar com o conhecimento que pretende estudar. Assim,
quando o campo dos Estudos Surdos relaciona diferentes áreas, ele também está
levando em consideração o modo como as determinadas áreas estruturam os
caminhos de pesquisa e as metodologias utilizadas em cada uma das áreas com
as quais estabelece uma relação interdisciplinar.

Numa relação interdisciplinar entre as áreas de saber acontece uma


organização em estágios que norteiam como os saberes serão estruturados, pois,
de acordo com Castro (2010, p. 4):

A interdisciplinaridade pressupõe a existência de um nível


hierárquico superior de onde procede a coordenação das ações
empreendidas pelas diversas disciplinas. [...] Portanto, há
organização, articulação, cooperação e diálogo entre as disciplinas
do conhecimento. Os saberes, de maneira hierarquizada, organizada
e coordenada, dialogam entre si.

Ou seja, quando dizemos que o campo dos Estudos Surdos é um


interdisciplinar, estamos afirmando que ele organiza a cooperação entre saberes
de modo estruturado em estágios que se complementam na realização da pesquisa.
Graficamente, a compreensão da interdisciplinaridade se dá do seguinte modo:

186
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

FIGURA 9 – REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DA ESTRUTURA INTERDISCIPLINAR

FONTE: Castro (2010, p. 4)

Assim, no entendimento interdisciplinar para a relação entre os saberes,


uma área de pesquisa coordena o relacionamento entre os conhecimentos,
metodologias e compreensões das demais áreas envolvidas na pesquisa, ao
mesmo tempo em que a área principal estrutura as demais, elas também se
relacionam entre si e com a área principal. Assim, o conhecimento é construído
nas relações descendentes, horizontais e descendentes criando possibilidades de
diálogo entre todos os campos de pesquisa envolvido.

Para ficar mais clara esta explicação, que tal fazer a análise de um trabalho
específico, afinal de contas, sempre fica mais fácil compreender uma explicação
quando existe um exemplo de aplicação. Com este objetivo, a seguir será colocado
o primeiro parágrafo do artigo “Possíveis encontros entre cultura surda, ensino
e linguística”, de autoria de Rossana Finau (2006, p. 217, grifo nosso) e publicado
no volume I da coleção Estudos Surdos:

Os estudos realizados na área da Linguística têm se tornado


ferramentas importantes para a comunidade surda garantir o direito
a uma abordagem bilíngue na condução de seu processo educacional.
Isso se deve muito ao fato de, cada vez mais, as investigações
linguísticas apresentarem argumentos definitivos que comprovam ser
um equívoco pensar na existência de primazia da modalidade oral de
linguagem sobre a de sinais. Esse é um dogma que não se sustenta
cientificamente, pois há muitas evidências (algumas serão avaliadas
aqui) de que os sistemas linguísticos das línguas de sinais são o único
caminho para as pessoas surdas terem linguagem. Isso significa, em
última instância, dar a elas a oportunidade de se constituir humano
ao se descobrir como diferente e único, a partir da sua interação social,
primeiro dentro de uma família e, posteriormente, em diferentes
grupos socioculturais.

Observe que já no título a autora destaca que sua pesquisa tem o viés
da surdez como norteador, pois, ao colocar a expressão “cultura surda” antes
das demais áreas de ensino e linguística ela demonstra que a vivência surda será
aquela que via organizar as demais áreas em seu trabalho. Além disso, no trecho
acima, podemos perceber que a linguística, a educação e a constituição social
do sujeito, ou seja, a identidade surda será compreendida dentro da perspectiva

187
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

de constituição social do indivíduo surdo através da aprendizagem da língua


de sinais. Assim, a linguística, a educação e os estudos culturais serão as áreas
que se relacionarão dentro da perspectiva de pesquisa dos estudos surdos para,
nas palavras da autora “[...] discutir sobre a natureza dessa relação entre surdez,
linguagem e o processo de ensino de língua para pessoas surdas que este capítulo
está organizado” (FINAU, 2006, p. 217).

NOTA

A partir deste ponto, adotaremos também a sigla ES para fazer referência à


expressão Estudos Surdos.

Dito de outro modo, este artigo da área dos Estudos Surdos procura
compreender a essência do vínculo entre surdez, linguagem e ensino de língua,
assim, utiliza os métodos e saberes da linguística, da educação e dos estudos
culturais para entender como os surdos estabelecem, através da língua, sua
identidade. Graficamente, a representação do estudo apresentado por Finau
(2006) se estrutura do seguinte modo:

FIGURA 10 – MAPA MENTAL DAS RELAÇÕES INTERDISCIPINARES APRESENTADAS NO ARTIGO


“POSSÍVEIS ENCONTROS ENTRE CULTURA SURDA, ENSINO E LINGUÍSTICA”, DE ROSSANA FINAU

FONTE: Os autores

188
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Observe que a área dos Estudos Surdos está no topo do mapa mental,
pois é ela que organiza o estudo apresentado por Finau (2006), num segundo
nível estão as demais áreas que são convocadas a darem as suas contribuições
para que o objetivo do artigo seja alcançado, para que seja percebida a
relação entre surdez, aprendizagem da língua de sinais e desenvolvimento da
linguagem. Num terceiro nível estão as subáreas específicas de cada uma das
áreas envolvidas no trabalho da autora e que estas também se relacionam entre
si em com as áreas a que pertencem, ao mesmo tempo, tudo isso retorna ao
topo para reforçar e organizar o campo de pesquisa dos Estudos Surdos. Isso
acontece porque todas as relações estabelecidas são tanto de cima para baixo,
quanto de baixo para cima e em linha horizontal, pois o estudo apresentado se
sustenta exatamente neste tecido feito através das contribuições das diferentes
áreas para a realização deste estudo e o atingimento do objetivo pretendido.

Observe que, a área da Educação está no meio do mapa propositalmente,


pois é através dela que a tessitura desta malha interdisciplinar e intertextual
se organiza, assim como diz Quadros (2006, p. 13), no prefácio do volume I da
Coleção Estudos Surdos, sobre as pesquisas que inauguram a série de livros:
“[...] estudos que se voltam para a educação com contribuições interdisciplinares,
construindo caminhos que reveem outras trilhas e abrem novas trilhas num
campo que está se constituindo no Brasil em diferentes áreas de investigação”.
Ou seja, a constituição do campo de pesquisa dos Estudos Surdos se dá nesta
urdidura complexa entre saberes, metodologias de pesquisa e percepções, mas
sempre sendo norteada através do olhar surdo, da realidade composta através da
visão e das mãos que inscrevem e escrevem a realidade.

NTE
INTERESSA

Ainda pensando em representatividade surda, você sabia que existe uma


personagem surda na série The Walking Dead, uma produção superconhecida e que traz
destaque para a comunidade surda através das cenas em que a personagem surda ganha
protagonismo, inclusive em uma das cenas, o expectador acompanha o salvamento de um
bebê pelo ponto de vista surdo.

Ah, no texto, o autor utiliza o conceito de deaf gain, que “[...] é literalmente “Ganho
surdo”, ou seja, algo a mais que os surdos têm e os ouvintes não, algo de que os ouvintes
podem se beneficiar na experiência da maneira surda de perceber o mundo” (PÊGO;
REICHERT; DINARTE, 2016, p. 314). Isso porque, na trama, a surdez da personagem é vista
como uma vantagem para o grupo de ouvintes que a acolhe.

Fica aí uma ótima dica para você que curte uma história de zumbis! No link https://
[Link]/watch?v=-kzFVXVvynI, você pode acompanhar esta cena completa!

189
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Lauren Ridloff – The Walking Dead

POR [Link] POSTADO EM: 20/08/2020

Na trama pós-apocalíptica protagonizada por um pequeno grupo de sobreviventes,


uma surpresa: a partir da 9ª temporada, uma personagem de destaque – surda usuária da
American Sign Language – se juntará ao elenco central. Eis Connie, interpretada pela atriz
surda Lauren Ridloff.

ATRIZ SURDA LAUREL HIDLOFF INTERPRETA CONNIE EM THE WALKING DEAD

FONTE: Eiji (2020, s.p.)

Resgatada pela pequena Judith Grimes (filha de Rick Grimes), ao lado de seus
amigos Magna, Yumiko e Luke e de sua irmã Kelly, Connie passa a morar na comunidade de
Hilltop e a participar de várias incursões contra os “vilões” da série, ganhando espaço entre
os personagens principais.

Por meio de Connie, a surdez é positivada em TWD [The Walking Dead], não
sendo assumida como um impeditivo para a sobrevivência em um mundo tão hostil. Se
sua audição não está disponível para lidar com as ameaças de uma realidade sanguinolenta,
sua acuidade visual e sua sagacidade a tornam extremamente hábil para se safar e salvar
seu grupo, combatendo corajosamente com o seu bodoque (atiradeira) os mortos e os
vivos. Como diz a personagem: a surdez é um superpoder.

Para além do deaf gain, a língua de sinais, mesmo que em diálogos específicos,
é posta em cena, chamando a atenção de milhões de fãs e espectadores para esse tipo
de comunicação. Ao seu redor, muitos personagens passam a aprender um vocabulário
simples para interagir com ela, arriscando-se na American Sign Language (em uma cena,
Daryl – um dos principais protagonistas de TWD – aparece com uma gramática de ASL
no bolso). Quando os sinais não são compreendidos, Connie escreve em um pequeno
caderno para se fazer entendida.

190
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

O que acontecerá com a sobrevivente/guerreira surda durante a décima temporada


(spoiler!) tem deixado muitos fãs apreensivos, à espera de qualquer nova notícia. [...]
Em tempo: a irmã de Connie em TWD, Kelly, que atua como sua intérprete em tempo
integral, é representada pela atriz Angel Theory. Após um acidente de carro, Angel começou
a perder a audição, e essa condição (atenção, mais spoiler!) também foi transportada para
a série: em The Walking Dead, Kelly se vê assustada por estar ensurdecendo. “Quando eu
penso em minha história sendo representada por meio da Kelly, lágrimas caem dos meus
olhos (lágrimas de felicidade!), porque isso me lembra quanto Angela Kang (roteirista),
os autores e a AMC confiaram em mim desde o começo”, diz Angel. “Eles poderiam ter
escrito qualquer coisa que encontrassem no Google, mas, ao contrário, me consultaram e
dedicaram tempo para entenderem as coisas boas, as coisas ruins e o que há nesse meio-
termo” (retirado de Distractify).

FONTE: Eiji (2020, s.p., grifos do autor)

3 ESTUDOS SURDOS: PERSPECTIVAS DE PESQUISA


Acadêmico! No subtópico anterior, nós estudamos o conceito de
interdisciplinaridade e compreendemos como os Estudos Surdos se originaram
numa perspectiva em que diferentes campos de estudo se articulam a fim de
entender um fenômeno a ser observado. Assim, percebemos que os trabalhos
que se inscrevem neste alinhamento teórico-metodológico se utilizam dos
conteúdos, metodologias, abordagens e linguagens próprias das áreas
entrecruzadas para responder aos questionamentos específicos, porém, no
diálogo entre os aspectos próprios elencados pelas áreas acabam surgindo
novos modos de se observar a realidade.

Logo, estas formas de captar, categorizar e analisar o conhecimento


acabam por dar origem a modos específicos de se fazer pesquisa nos campos
que são arrolados para se relacionarem através da visão dos ES. Ao mesmo
tempo, as pesquisas realizadas nesta área podem ser categorizadas a partir das
áreas com as quais se relacionam. Após analisarmos os trabalhos publicados na
Coleção Estudos Surdos e 135 das teses e dissertações defendidas entre 2017 e
2020 em quarenta e três instituições de ensino superior, chegamos às perspectivas
de pesquisa da Linguística, da Educação e dos Estudos Culturais como aquelas
através das quais os Estudos Surdos estruturam suas pesquisas.

TUROS
ESTUDOS FU

No último subtópicos será apresentado o site da Biblioteca Digital de Teses e


Dissertações, ferramenta que permitiu a feitura da análise referia acima.

191
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

A seguir, nós veremos brevemente os principais temas de pesquisa em


ES em cada uma destas perspectivas, bem como serão colocados resumos de
trabalhos feitos na área para que fique facilitado o entendimento de como são
elaborados os trabalhos nesta perspectiva. Contudo, antes de passarmos a isso
algumas ressalvas são necessárias:

• Não se pretende esgotar os assuntos já abordados na pesquisa em ES, nem nas


perspectivas adotadas, apenas delimitar alguns dos temas que mais apareceram
na pesquisa feita por nós sobre os trabalhos em ES.
• Foram citados apenas alguns trabalhos para exemplificar as temáticas estudadas
em cada perspectiva, não sendo possível apresentar um grande número devido
ao escopo deste material, recomendamos que você acesse, no final deste tópico,
as informações sobre como obter pesquisas e trabalhos em ES.
• Existem pesquisas em ES que se relacionam também com outras áreas que não
estas três majoritárias, contudo, neste momento, escolhemos focar naquelas em
que está inscrita a maior parte dos trabalhos encontrados em nossa pesquisa.
• Com certeza, os trabalhos citados não estão inseridos apenas em uma área de
estudos, mas, eles têm uma ênfase de pesquisa e é através dela que fizemos a
categorização apresentada.
• A área dos Estudos Culturais se inscreve no contexto dos estudos em Educação,
porém, para fins didáticos, escolhemos colocar em separado, delimitando
temas a serem tratados em cada uma destas perspectivas.

3.1 LINGUÍSTICA
A linguística é o campo de pesquisa que estuda as questões relacionadas
aos temas que se estabelecem a partir do entendimento dos fenômenos vinculados
à linguagem e à língua. Assim, é um campo muito importante para os Estudos
Surdos porque a língua de sinais é um dos marcadores mais importantes para
a delimitação do povo surdo, tendo em vista que a compreensão territorial não
pode ser utilizada neste contexto.

Os estudos que se inserem nesta perspectiva são aqueles que estudam


situações especificamente relacionadas aos usos da língua de sinais, da relação
entre a Libras como língua materna do povo surdo, da LP como L2, do ensino
e aprendizagem da leitura e da escrita em LP e em sistemas de escrita de sinais,
bem como aqueles que procuram compreender as questões vinculadas à tradução
e interpretação entre as línguas de sinais e as línguas oral-auditivas do país.

A fim de exemplificar algumas das temáticas citadas acima apresentaremos,


a seguir, alguns estudos em quatro delas:

192
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

• Gramática: os estudos que abordam a temática da gramática são aqueles


que se dedicam a observar como as línguas de sinas ou a Libras, quando
específicos, se estruturam nos níveis fonéticos, semânticos e sintáticos. Assim,
eles se dedicam a compreender aspectos sobre o uso e as normas da língua
que regem o uso das partes que constituem a língua. Como exemplo de um
destes trabalhos podemos citar o artigo “Mecanismos de coesão textual visual
em uma narrativa sinalizada: Língua de Sinais Brasileira em foco”, de Anater e
Passos (2009, p. 50):

Os estudos acerca das Línguas de Sinais têm evidenciado algumas


especificidades importantes, se comparadas às línguas orais
existentes no mundo. Destacamos a modalidade como principal
fator de diferença, uma vez que nosso objetivo envolve a análise dos
mecanismos de coesão textual em uma narrativa sinalizada, através
do uso de sinais dêiticos e anafóricos e outros recursos linguísticos
possíveis a serem utilizados na interpretação de histórias na Língua de
Sinais Brasileira (Libras ou LSB).

Assim, as autoras pretendem analisar quais são os mecanismos da língua


que estabelecem a unidade lógica linguística em uma narrativa sinalizada, ou
seja, como e através de quais mecanismos da língua que o sinalizante em Libras
organiza narrativa de modo que ela se torne um todo que faça sentido de modo
coerente e bem estabelecido (coeso). Desta forma, este é um trabalho que se insere
na perspectiva da sintaxe das línguas de sinais, pois observa a forma como a
língua constrói a sua estrutura de significação textual.

• Aquisição de linguagem, língua, leitura e escrita: nestas temáticas, os estudos


procuram entender como os indivíduos surdos adquirem a linguagem, língua,
leitura e escrita, seja em Libras ou em LP. Assim, nestas pesquisas a ideia é
perceber de que modo o sujeito surdo se apropria dos elementos que fazem
parte da aprendizagem da língua. Com certeza, existe um sem fim de artigos,
dissertações e teses sobre estas temáticas, selecionamos a dissertação “Libras
e Português como L2: a escrita dos surdos nas redes sociais”, o resumo do
trabalho de Viana (2017, p. 7), segue:

O trabalho apresenta a análise da produção escrita em Língua


Portuguesa como L2 desenvolvida por surdos usuários da Língua
Brasileira de Sinais-LIBRAS como L1, nas redes sociais. O objetivo foi
analisar o emprego do verbo na estrutura frasal do português escrito
como segunda língua dos surdos usuários das redes sociais. Partimos
da seguinte questão norteadora: De que modo os surdos que têm a
LIBRAS como sua primeira língua empregam o verbo no português
escrito nas redes sociais? Para responder à questão norteadora,
recorremos, primeiramente, aos teóricos cujos trabalhos versavam
sobre LIBRAS, língua portuguesa, português escrito, português como
segunda língua, verbo, redes sociais, escrita e surdez, [...]. Nesse
processo, emergiram das – conversas‖ dos componentes do grupo
5 (cinco) categorias de análise: verbo no infinitivo, verbo auxiliar

193
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

acompanhado de principal, verbo com marca de oralidade, verbo


com emprego inadequado e verbo com flexão adequada. Os dados
analisados revelam os seguintes resultados: a rede social WhatsApp
é uma ferramenta a ser considerada para auxiliar na aquisição do
português como L2; os surdos se apropriam do português como L2,
quando usam a rede social da web, adquirindo na escrita uma flexão
verbal adequada para a compreensão da sentença e se valendo, em
seus escritos, até de registros próprios do português falado, como as
marcas de oralidade. A partir da compreensão/interpretação que a
atitude de reflexão e de desvelamento nos proporcionou, sugerimos
novos estudos, no sentido de estreitar os laços entre a LIBRAS como
L1 e o português como L2, para que o surdo possa estabelecer uma
relação interativa mais proficiente na sociedade que tem o português
como L1.

Observe que o trabalho procurou observar questões sobre o uso de verbos


para compreender como os surdos usavam os verbos nas redes sociais, o que seria
uma questão que se encaixaria na temática da gramática, porém as reflexões feitas
pela pesquisadora evidenciam não apenas a observação de como estes sujeitos
usavam os verbos, mas como o WhatsApp pode ser uma ferramenta para a
aquisição deste uso dos verbos em L2 (LP). Assim, a pesquisa começou como uma
observação de uso gramatical e se desenvolveu para a aquisição de um aspecto
de uso da LP por surdos nas redes sociais, de modo que se desenvolveu para a
discussão de questões vinculadas ao ensino e aprendizagem de L2. Também cabe
destaque o uso das Tecnologias Digitais de Comunicação de Informação (TDICs)
para a realização da pesquisa.

• Estudos de tradução: também podem ser estudadas na perspectiva da


linguística as questões específicas sobre a tradução e interpretação entre a
Libras e a LP, tanto na compreensão do próprio uso da língua quanto na
análise de como se dá a estruturação entre as relações gramaticais, de sentido
e de traduzibilidade, bem como do processo de formação de tradutores no
que concerne ao preparo para lidar com as duas línguas em processo, seja, no
uso da fala/sinalização quanto da escrita em LP/Sign Writing ou outro sistema
de escrita/notação das línguas de sinais. Em seu artigo intitulado “Entrevista
com tradutores surdos do curso de Letras Libras da UFSC”, Avelar (2009, p.
364) apresenta

[...] algumas reflexões sobre a necessidade de uma padronização


linguística no Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem – AVEA
do curso de Letras Libras da UFSC. Essa variação linguística acontece
no nível do uso de alguns sinais da Libras que, por várias vezes,
provocam confusões entre os discentes do curso. Para realizar tais
reflexões, parto da problemática da variação que ocorre nas traduções
dos conteúdos publicados no AVEA, que, em princípio, atendem a
vários polos educacionais espalhados pelo Brasil. Além disso, conto
com a entrevista dos tradutores que atuam no curso para corroborar
com meus questionamentos propostos.

194
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Assim, a autora pretende observar como a falta do que ela chama de


padronização linguística no ambiente virtual de aprendizagem da Universidade
Federal de Santa Catarina pode provocar confusões em relação à compreensão
dos materiais por parte dos discentes. Por padronização linguística, a autora
delimita que está fazendo referência ao uso lexical e sintático, entendendo que
podem acontecer problemas de compreensão quando são utilizados parâmetros
gramaticais e lexicais de diferentes lugares do país. Para realizar a sua pesquisa a
autora entrevista diversos tradutores intérpretes que trabalham na tradução dos
materiais para o ambiente virtual de aprendizagem da UFSC.

• CODAS: Correia e Códula (2017, s.p.) apresentam um quadro (reproduzido


a seguir) em que fazem um levantamento das pesquisas publicadas sobre os
ouvintes filhos de surdos e apontam que os estudos dentro desta temática são
sobre “[...] inclusão, narrativas, processos de aprendizagem do bilinguismo ou
bimodal, desenvolvimento cognitivo e linguístico, identidade cultura surda”.

QUADRO 5 – PESQUISAS SOBRE CODAS 2000 A 2016

Autores Categoria Objeto do estudo Principal resultado


“Faz-se, então, uma discussão sobre o
“Apresentar uma
Skliar e discurso e a prática cultural em torno
Periódico reflexão invertendo
Quadros dos outros, da alteridade, adquirindo
científico epistemologicamente o
(2000, p. 32) novas dimensões epistemológicas,
problema da inclusão”.
políticas e pedagógicas”.
“Verificou-se que os CoDAs
possuem papel relevante para a
inclusão do surdo, uma vez que
“O estudo apresenta
conhecem as duas culturas, e diante
uma investigação acerca
Melo (2012, Periódico dessa realidade seu papel também
dos Children of Deaf
p. 85) científico se confunde com a do tradutor
Adults (CoDAs) em
intérprete, o que deve ser repensado
Sergipe”.
e discutido com mais profundidade,
considerando as especificidades do
profissional”.
“A análise mostra que as narrativas
apresentam características típicas
de cada modalidade, oral/auditiva
“Entender a relação das ou gesto/visual e os elementos
crianças com a língua estruturais de Labov e Waletsky.
Neves (2012, de sinais (LSB – Língua Apesar de as histórias elaboradas
Dissertação
p. 9) de Sinais Brasileira) e pertencerem a diferentes línguas, a
a língua falada (PB – pesquisa mostrou que as crianças
Português Brasileiro”. estão desenvolvendo a competência
narrativa nas duas línguas – PB e
Libras – sem que uma língua se
sobressaia à outra”.

195
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

“As características da alternância


de línguas pelo adulto e pela
“Identificar e analisar
criança parecem ter semelhanças e
o uso dessa alternância
diferenças. O sujeito adulto parece
na fala de uma criança
ter feito um uso da alternância
e de um adulto (ambos
Sousa e mais preocupado com o curso da
Periódico ouvintes, filhos de pais
Quadros interação. A criança, por sua vez, não
científico surdos), interagindo
(2012, p. 329) parece tê-la usado com propósitos
em uma situação de
pragmáticos específicos. Quanto à
bilinguismo intermodal,
extensão das alternâncias, pode-se
com interlocutores
perceber que tanto a criança quanto o
surdos e ouvintes”.
adulto utilizaram enunciados maiores
do que uma única palavra isolada”.
Streiechen “Identificar as
“A surdez da mãe não causa nenhum
e Krause- Anais de estratégias linguísticas
tipo de prejuízo ao desenvolvimento
Lemke (2013, evento na comunicação de pais
linguístico, cógnito e social dos filhos”.
p. 2 e 17) e filhos”.
“Todas as quatro crianças
produziram enunciados bimodais,
tanto nas sessões em que a língua
“Analisa produções alvo era a fala ou os sinais, mas de
espontâneas de crianças forma muito mais frequente nas
bilíngues bimodais, sessões em sinais, potencialmente
Quadros et al. Periódico interagindo com seus porque as crianças acham mais difícil
(2014, p. 799) científico interlocutores surdos ou suprimir a língua dominante. Esses
ouvintes (duas crianças resultados indicam que essas crianças
norte-americanas e duas bilíngues bimodais são sensíveis
brasileiras)”. às línguas e seus interlocutores,
enquanto apresentam uma influência
considerável da língua dominante da
sua comunidade”.
“O parâmetro movimento é
percebido mais facilmente do que
os demais contrastes, seguido dos
parâmetros locação e configuração
“Verificar o surgimento
de mão, que atuam de maneira
e a estabilização da
Vargas et al. Periódico semelhante na percepção dos
percepção dos contrastes
(2016, p. 835) científico aprendizes desta língua. O contraste
mínimos da Língua
mais difícil de ser percebido refere-
Brasileira de Sinais”.
se à orientação. Quanto mais tempo
de contato com a língua, melhor
o desempenho das CoDAs na
percepção dos contrastes mínimos”.

FONTE: Correia e Córdula (2016, s.p.)

Optamos por colocar este quadro, pois ele apresenta um panorama de


dezesseis anos sobre os estudos cuja temática dos Codas é bastante interessante,
o levantamento foi feito pelos autores no Google Acadêmico, com a análise de
100 trabalhos, eles chegaram aos estudos apresentados no quadro acima. Com
certeza, existe uma infinidade de temáticas e trabalhos que poderiam ser citados
aqui, porém, a ideia neste momento é dar uma amostra de quais assuntos para
pesquisa em ES se instauram através da Linguística.

196
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

3.2 EDUCAÇÃO
A educação é o campo de pesquisa que se debruça sobre as questões que
envolvem o ensino e aprendizagem e podem abordar as mais diversas temáticas,
tais como: análise histórica de um aspecto específico, escolha e elaboração
curricular, formação de professores, didática em geral e específica para o ensino,
uso de novas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação, práticas de
ensino, processo de escolarização, metodologias de ensino, processos formativos
e avaliativos, adaptações curriculares, inclusão, dentre muitos outros assuntos
que fazem parte da estruturação e organização da Educação, ou seja, do ensino
e da aprendizagem. Deste modo, é uma área de grande abrangência que tem um
sem fim de artigos, pesquisas, dissertações e teses escritos no Campo dos Estudos
Surdos pelo viés da Educação.

• Inclusão, avaliação, ensino e aprendizagem: nesta temática estão as pesquisas


que analisam as adaptações educacionais para a inclusão de alunos surdos nas
escolas regulares em relação à metodologia, à qualidade da educação oferecida,
aos aspectos de avaliação na perspectiva inclusiva, bem como da organização
curricular, pedagógica e de acesso aos diferentes níveis educacionais, dentre
outras temáticas que tenham como foco observar os processos de inclusão do
povo surdo, tais como o Atendimento Educacional Especializado, entre outros.

À fim de exemplificar esta área de pesquisa, podemos citar a tese


intitulada “O surdo na perspectiva inclusiva: acesso, permanência e êxito no
ensino (?)”, de Reis (2019, p. 8). A autora destaca que “A pesquisa está inserida
no campo da inclusão escolar do surdo e apresenta como objetivo geral observar,
investigar e analisar a execução da implementação das políticas públicas na
perspectiva inclusiva dos surdos [...] especificamente na rede regular de ensino
público estadual”. Assim, o objetivo do trabalho é observar os modos como se dá
a inclusão de alunos surdos nas escolas regulares, e chama atenção, já no título,
para a dúvida quanto ao êxito deste processo no corpus analisado.

Como resultado da pesquisa, Reis (2019, p. 8) aponta que a inclusão


proposta nas políticas públicas não acontece pelos seguintes fatores:

ausência da Língua Brasileira de Sinais e do interlocutor mediador da


comunicação entre surdos e ouvintes, formação docente especializada
insuficiente no atendimento ao aluno surdo, desconhecimento das
adaptações curriculares adequadas, discursos pedagógicos apoiados
na inclusão como direito, principalmente social e privação de
materiais especializados.

Assim, esta tese avalia a inclusão de alunos surdos em um contexto


específico de escola regular e observa quais são os elementos que comprovam que
as políticas públicas não são aplicadas devido a diferentes fatores linguísticos,
pedagógicos e vinculados à formação de professores.

197
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Ainda na temática sobre inclusão, a dissertação de Oliveira (2017), procura


compreender como pode ser feito ensino do conteúdo no Componente Curricular
de Física no ensino regular. Os objetivos da pesquisa são os seguintes: (i)
compreender a educação de surdos e suas nuances, perpassando pelos diferentes
momentos históricos até o contexto da educação inclusiva por meio de estudos
bibliográficos; (ii) apresentar os papéis dos professores e tradutores/intérpretes
de Libras no contexto do ensino de Física e (iii) averiguar qual é a percepção
dos surdos sobre o ensino do Som, qual o trabalho do tradutor/intérprete como
mediador na sala de aula e quais as concepções dos professores de Física sobre o
ensino do Som a alunos surdos (OLIVEIRA, 2017).

Logo, este trabalho faz a avaliação de um caminho histórico, revisa as


atribuições dos professores e dos tradutores intérpretes e, por fim, estuda como o
estudo do som para alunos surdos é percebido pelos diferentes agentes do ensino e
aprendizagem de física. Como resultado Oliveira (2017, p. 7) apresenta que:

A análise de dados apontou para a necessidade de um trabalho em


conjunto do tradutor/intérprete de Libras e do professor de Física
para superar concepções que dizem da incapacidade do aluno surdo
transpor a barreira atitudinal, que foi construída historicamente, e que
diz que Surdez e Som não combinam.

Logo, o resultado indica a necessidade da parceria entre professores e


tradutores intérpretes para superar as visões preestabelecidas sobre surdez e a
aprendizagem do som no Componente Curricular de Física.

• Políticas públicas e BNCC: estas duas temáticas se relacionam e estão em


um momento de transição em que a Base Nacional Comum Curricular está
em vigor, mas em processo de implantação e compreensão por parte dos
professores e instituições de ensino, principalmente, neste momento de
pandemia em que as certezas foram implodidas e as desigualdades sociais e
educacionais se tornaram ainda mais evidentes. Por ser um dos documentos
legais que norteiam o ensino no Brasil, a BNCC faz parte do rol de políticas
públicas que estruturam o ensino e a aprendizagem de todas as instituições
de educação básica em território nacional. Sobre a Libras, o documento a cita
sete vezes, contudo apenas dentro das competências da Área da Linguagem,
mas sem a inserir dentro do grupo de disciplina ou sequer dar destaque,
pois apenas em dois dos registros a língua brasileira de sinais está fora de
parênteses explicativos que a inserem nas diferentes linguagens verbais: uma
citação da Lei nº 10.436 (de abril de 2002) e num rol de linguagens que devem
ser trabalhadas nos itinerários formativos do Ensino Médio (BRASIL, 2016).

Esta constatação apresentada acima, encontra eco naquilo que Ramos e


Martins (2018, p. 10) apresentam em seu artigo sobre a alfabetização e letramento
de alunos surdos:

198
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

[...] a BNCC, é pensada em uma lógica que prioriza, acima de tudo, a


Língua Portuguesa (oral e escrita) e os métodos fonológicos de ensino.
Além de que a escola é ainda marcada por sérias limitações e grandes
dissonâncias em relação à educação bilíngue de surdos, a qual pouco
se aproxima com o que está estabelecido no Decreto nº 5.626/05.

Assim, o documento que deverá nortear a educação em território nacional


não conversa com as políticas públicas existentes sobre surdez e reforça o uso
da LP e das técnicas baseadas no som para o ensino, ou seja, não contempla o
alunado surdo em sua base. Logo, é um documento novo, mas, ao mesmo tempo,
defasado em relação às discussões já estabelecidas nos campos que tratam da
Educação de Surdos.

Ainda dentro desta temática, temos o Decreto nᵒ 10.502, de 30 de setembro de


2020, a Política Nacional de Educação Especial, que traz em seu texto a opção
pelas salas e escolas especiais e reacende as discussões sobre a segregação dos
alunos com necessidades educacionais especiais. Assim, ao mesmo tempo faz
parte das discussões sobre inclusão e políticas públicas, também reacende o
debate sobre o local de estudo dos alunos surdos e abre brechas complexas no
sentido em que, em termos, desobriga as instituições a fazerem as adaptações
necessárias para o atendimento ao povo surdo dentro das escolas regulares.
Num primeiro momento, parece interessante para os surdos estudarem juntos
de modo a possibilitar as trocas entre os diferentes pares e o desenvolvimento
linguístico, porém, num exemplo bem simples, e se a escola for longe, as
passagens serão pagas pelo governo? E se a família quiser na escola regular, o
governo ainda irá possibilitar a interpretação ou, como existe escola específica,
ele se desobrigará? Assim, é uma temática que vai trazer muitos debates e ser
tópico para diferentes pesquisas.

Como esta é ainda uma discussão muito recente, sobre o assunto


encontramos artigos curtos e lives de discussão, recomendamos o artigo da
revista Pátio intitulado “Nova política nacional de educação especial: avanço ou
retrocesso?”, publicado em 5 de out. 2020 e a live “Pontos e contrapontos: a nova
Política Nacional de Educação Especial”, da Campanha Nacional pelo Direito à
Educação, realizada em 14 de out. 2020, disponível em: [Link]
com/watch?v=DujCAYAAsB8.

• Formação de professores: nesta temática são estudados os elementos


educacionais que estão envolvidos na formação de professores, sejam eles
surdos ou ouvintes, de modo que as pesquisas nesta categoria observam os
aspectos específicos vinculados aos processos de construção da docência
através de seus agentes.

Neste contexto, a dissertação “A formação de professores e o ensino de


Biologia em salas com estudantes surdos”, de Pinheiro (2018, p. 7), em que a
pesquisadora tem como objetivo: “[...] identificar as metodologias utilizadas por
professores de biologia nas aulas de genética em salas que recebem estudantes
surdos, avaliando sua adequação e pertinência”. Para atingir este objetivo a

199
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

autora entrevistou professores de escolas regulares que tivessem turmas com


inclusão de alunos surdos e percebeu que a formação inicial destes professores
era insuficiente para atender aos grupos com alunos surdos e, muitas vezes, os
docentes não têm apoio na escola e precisam procurar formação complementar
por si mesmos para tentar modificar sua prática de ensino, logo, depende do
próprio professor a sua formação para o atendimento aos alunos surdos incluídos
em escolas regulares.

• EAD, Ensino não Presencial (ENP) e TDICS: a Educação a Distância e o Ensino


não Presencial são temáticas na área da Educação há muito tempo, tendo em
vista que todos os modos de ensino feito de forma que a aprendizagem é mediada
por algum material em um ambiente diferente do escolar são modos de EAD/
ENP, um exemplo é o Instituto Universal que oferece cursos pelos Correios
desde 1941. Com o surgimento das Tecnologias de Informação e Comunicação
e, após, como as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação, os estudos
sobre estes assuntos se tornaram muito mais necessários, pois nossa sociedade
começou a se estruturar a partir dos meios digitais de interação. Com a pandemia
da Covid-19, a necessidade de estudar como o ensino pode acontecer através
de aplicativos, plataformas e interação síncronas e assíncronas se tornou um
tema de extrema necessidade, pois os elementos que caracterizam este tipo
de ensino precisarão, cada vez mais, ser compreendidos numa perspectiva de
acessibilidade e uso. Esta perspectiva, a dissertação “Aplicação do sensor Leap
Motion como instrumento didático no ensino de crianças surdas”, de Fillipsen
(2017), apresenta uma pesquisa em que a Interface de Interação Gestual Leap
Motion (segue nota sobre o software) foi utilizado com um grupo de crianças
surdas, de acordo com o Fillipsen (2017, p. 18):

Na Educação, há a investigação de como esses novos dispositivos


de interação podem ser aplicados para potencializar o processo de
ensino e aprendizagem. É nesse contexto que esta pesquisa se situa,
uma vez que se pretende investigar o emprego do sensor como uma
forma de interação que possibilite a criação de diferentes estratégias
de ensino às crianças surdas, entendendo a tecnologia como
potencializadora da construção do conhecimento nos diferentes
contextos em que é aplicada.

Logo, a pesquisa apresentada tem como objetivo investigar como o software


que permite a interação com o computador com o uso da captação de gestos pode
ser uma forma de ensino para crianças surdas. O autor do trabalho percebeu
que as crianças surdas acabam por ficar mais imersas no computador do que as
crianças ouvintes, por que elas precisam das mãos para usar os periféricos como
mouse e teclado, não conseguindo interagir com os colegas porque é inviável usar
o computador e sinalizar ao mesmo tempo. Assim, a ideia do uso do sensor é dar
mais liberdade para que os alunos pudessem interagir entre si e usar o computador.
Ao final, a pesquisa apresenta como resultado que: “[...] em cenários de uso bem
planejados, houve a contribuição do uso do sensor Leap Motion no aprendizado, e
que houve contribuição significativa na interação social e na colaboração entre os
alunos na realização das tarefas” (FILLIPSEN, 217, p. 12).

200
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

NOTA

O que é e como funciona o leap motion?

Leap motion é a tecnologia criada pela empresa homônima apresentada ao


mercado em 2013. Consiste em um pequeno dispositivo com um sensor capaz de captar
movimentos dos 10 dedos das mãos do usuário. O gadget permite, portanto, controlar
computadores rodando Windows ou Mac usando apenas movimentos no ar.

O grande diferencial do aparelho frente a seus concorrentes na época de seu


lançamento foi seu tamanho compacto. Medindo 79 x 30 x 11 mm, o dispositivo é discreto
e tem acabamento em metal, com somente uma das frentes em vidro, onde ficam
localizados os sensores infravermelhos e as câmeras responsáveis pelo rastreamento dos
movimentos do usuário.

SENSOR LEAP MOTION É DO TAMANHO DE UM PENDRIVE

FONTE: Alves (2014, s.p.)

Como funciona

Ao contrário do Kinect, da Microsoft, que usa um sensor de profundidade, Leap


Motion utiliza infravermelho e câmeras para captar movimentos precisos e simultâneos
dos dedos dentro de centésimos de milímetros. Além disso, a latência é inexistente para os
olhos humanos, sendo inferior à taxa de atualização de monitores de computador.
O aparelho funciona também graças ao software que transforma os movimentos em
comandos entendidos pelos sistemas operacionais Windows e Mac. Após sua instalação
na máquina, o usuário pode, então, usar os dedos para abrir aplicativos, navegar na Internet
e usar programas otimizados, acessados em loja própria da Leap Motion.

Como usar

Seu uso é muito simples, já que o Leap Motion se destaca pela instintividade de
funcionamento e facilidade de instalação. Basta posicionar o equipamento, do tamanho de
um pendrive, entre o teclado e o usuário e treinar os movimentos para aprender a realizar
qualquer comando no PC usando as mãos.

201
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Os controles são divididos em duas zonas, uma mais na borda da mesa, que serve
para captar movimentos de pouca profundidade como navegação geral do cursor na tela,
e uma zona mais próxima ao monitor que ativa botões e outros comandos equivalentes
aos cliques do mouse. Ou seja, basta movimentar os dedos na primeira zona para mexer o
mouse e pressionar no ar para clicar. [...] (Alves (2014, s.p.)

3.3 ESTUDOS CULTURAIS


O campo dos Estudos Culturais em Educação, na perspectiva em ES,
estuda as temáticas referentes às construções da subjetividade e da identidade
surdas, os artefatos culturais da cultura surda, a própria cultura surda, e todas
as temáticas que se propõem a perceber como o sujeito surdo constitui a sua
identidade surda, bem como os modos pelos quais ela se manifesta e como a
Cultura Surda se estabelece e é estabelecida a partir da comunidade e do povo
surdo e das inter-relações entre os artefatos culturais, a cultura em si e o indivíduo
pertence a estes grupos.

• Identidades surdas: nesta temática estão as pesquisas que investigam como


se estabelecem as identidades surdas e quais os elementos que são envolvidos
nas discussões sobre o modo como elas se constituem, bem como aqueles que
pretendem perceber como a surdez é compreendida socialmente. Nesta linha,
a tese “Surdez, gênero e sexualidade: um estudo sobre o imaginário social em
uma escola de ensino fundamental bilíngue no Sul do Brasil”, de Müller (2017),
apresenta um estudo em que a autora tem como objetivo perceber como os
docentes e discentes de uma escola bilíngue entendem as questões relativas
às identidades surdas e aos traços de constituição de gênero e compreensão
da sexualidade, além de estudar como esta noção particular do grupo de
professores influencia nas atividades pedagógicas, bem como observar como
os próprios alunos entendem este assuntos. Ao final, a autora descobre que as
questões de gênero e sexualidade são silenciadas e pouco trabalhadas devido
a barreiras linguísticas, ao despreparo dos docentes e à compreensão social de
que o surdo teria limitações para aprender “coisas da vida”, porém ela constata
que isso se deve mais a uma barreira linguística do que a uma característica
identitária dos surdos.
• Cultura surda, artefatos e produções culturais: nesta temática são tratados
os assuntos referentes aos elementos que compõem a cultura surda e seus
artefatos culturais. Nesta linha temática, a dissertação “Youtubers surdos como
marcadores culturais: uma análise multimodal de produções contemporâneas”,
tem como objetivo “[...] analisar os marcadores culturais nas produções de
YouTubers surdos a fim de ampliar a compreensão sobre a constituição de
modos de ser surdo na Contemporaneidade.”

202
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

Assim, este trabalho analisa uma produção cultural a fim de observar


como ela influencia na formação das identidades surdas. De acordo com Ruiz
(2019, p. 20), marcadores culturais são “[...} elementos que unem e fortalecem
os surdos como grupo cultural com características próprias [...]”. Deste modo,
ela entende que os youtubers estão se estabelecendo como um dos marcadores
culturais surdos e porque, através de seus discursos “[...] ajudam a estabelecer
mudanças na representação social da pessoa surda frente à sociedade
majoritária (ouvinte)”.

Acadêmico! Encerramos esta seção com a certeza de que os trabalhos aqui


apresentados dão uma ideia de como o campo dos Estudos Surdos se relaciona
interdisciplinarmente com outras áreas de pesquisa. Contudo, o número de
trabalhos e a quantidade de inter-relações possíveis são infinitos e este subtópico
apenas dá uma leve noção de como elas se estabelecem.

NOTA

Para fazer o subtópico acima foi realizado por nós, autores deste livro, o
tratamento dos dados obtidos no site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações através
da pesquisa combinada dos termos “Estudos surdos” e “Surdez” com uma categorização
especificamente feita para a construção deste livro didático. Caso você queira ter acesso
a este material exclusivo, basta acessar o arquivo de Excel através do QRcode a seguir
ou disponível no link: [Link]
Acesso em: 16 nov. 2020.

Fonte: os autores

4 REVISTAS, PERIÓDICOS E FONTES DE PESQUISA


Este subtópico que encera as discussões da Unidade 3 apresentará
alguns sites em que podem ser encontrados trabalhos dentro da linha de
pesquisas em ES. São eles:

203
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

• BDBT: site da Biblioteca de Teses e Dissertações, nele é possível realizar


pesquisas sobre as teses e dissertações defendidas nas instituições brasileiras de
pesquisa, a busca pode ser feita de modo simples através de apenas um campo
de pesquisa, ou avançada em que são possíveis inúmeras combinações entre
os diferentes campos de pesquisa. A localização das pesquisas referidas na
seção de texto anterior foi feita com o uso desta ferramenta muito interessante.
Disponível em: [Link] Acesso em: 16 nov.
2020. A seguir, reproduzimos a página inicial do site, a fim de demonstrar como
pode ser feita a busca simples e a quantidade atual de trabalhos disponíveis no
momento desta consulta:

FIGURA 11 – PÁGINA INICIAL DO SITE DA BDTD

FONTE: BDTD (2020, s.p.)

• Revista Virtual da Cultura Surda: periódico da Editora Arara Azul,


completamente digital, que publicou 27 edições ao longo dos últimos 13 anos,
infelizmente, a última edição saiu em março de 2020, contudo, os editores
afirmam que pretendem lançar outro material assim que possível. Mesmo
assim, os artigos já publicados são muito relevantes e trazem inúmeros assuntos
pertinentes ao universo dos Estudos Surdos. A seguir, página inicial do site
com a capa da última edição e local de acesso às demais edições localizado
abaixo e à esquerda:

204
TÓPICO 2 — PANORAMA DE PESQUISA EM ESTUDOS SURDOS

FIGURA 12 – PÁGINA INICIAL DA REVISTA VIRTUAL DE CULTURA SURDA, EDITORA ARARA AZUL

FONTE: Revista Virtual de Cultura Surda (2007 a 2020, s.p.)

• Portal de periódicos do Instituto Nacional de Educação de Surdos: neste site


pode-se ter acesso aos três periódicos publicados pelo INES, como as revistas
já tem uma longa caminhada, com publicações desde 1993, é possível observar
como os estudos em surdez se desenvolveram ao longo do tempo. Segue página
inicial do site:

FIGURA 13 – PÁGINA INICIAL DO PORTAL DE PERIÓDICOS DO INES

FONTE: Portal de periódicos do INES (2020, s.p.)

205
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Os Estudos Surdos já “nasceram” dentro de uma perspectiva que entende a


surdez numa visão global.

• Os Estudos Surdos têm a interdisciplinaridade como elemento de estruturação das


pesquisas, dentro das teorias que explicam os níveis de interação entre as disciplinas.

• A constituição do campo de pesquisa dos Estudos Surdos se dá na urdidura


complexa entre saberes, metodologias de pesquisa e percepções, mas sempre
sendo norteada através do olhar surdo, da realidade composta através da visão
e das mãos que inscrevem e escrevem a realidade.

• A linguística é o campo de pesquisa que estuda as questões relacionadas aos


temas que se estabelecem a partir do entendimento dos fenômenos vinculados à
linguagem e à língua. A língua de sinais é um dos marcadores mais importantes
para a delimitação do povo surdo, tendo em vista que a compreensão territorial
não pode ser utilizada neste contexto.

• Os estudos que abordam a temática da gramática se dedicam a compreender


aspectos sobre o uso e as normas da língua que regem o uso das partes que
constituem a língua.

• Nas pesquisas sobre aquisição de linguagem, língua, leitura e escrita a ideia


é perceber de que modo o sujeito surdo se apropria dos elementos que fazem
parte da aprendizagem da língua.

• O WhatsApp pode ser uma ferramenta para a aquisição do uso dos verbos em
L2 (LP).

• Estudos de tradução também podem ser estudadas na perspectiva da


linguística.

• A educação é o campo de pesquisa que se debruça sobre as questões que


envolvem o ensino e aprendizagem e pode abordar as mais diversas temáticas.

• As pesquisas sobre inclusão, avaliação, ensino e aprendizagem são as que


analisam as adaptações educacionais para a inclusão de alunos surdos nas
escolas regulares em relação à metodologia, à qualidade da educação oferecida,
aos aspectos de avaliação na perspectiva inclusiva, bem como da organização
curricular, pedagógica e de acesso aos diferentes níveis educacionais, dentre
outras temáticas que tenham como foco observar os processos de inclusão do
povo surdo, tais como o Atendimento Educacional Especializado, entre outros.

206
• Nas pesquisas sobre formação de professores são estudados os elementos
educacionais que estão envolvidos nesta formação, sejam eles surdos ou
ouvintes, de modo que as pesquisas nesta categoria observam os aspectos
específicos vinculados aos processos de construção da docência através de
seus agentes.

• A Educação a Distância e o Ensino não Presencial são temáticas na área da


Educação há muito tempo, tendo em vista que todos os modos de ensino feito
de forma que a aprendizagem é mediada por algum material em um ambiente
diferente do escolar são modos de EAD/ENP.

• O campo dos Estudos Culturais em Educação, na perspectiva em ES, estuda as


temáticas referentes às construções da subjetividade e da identidade surdas.

• Nas pesquisas sobre identidades surdas estão as que investigam como se


estabelecem as identidades surdas e quais os elementos que são envolvidos
nas discussões sobre o modo como elas se constituem, bem como aqueles que
pretendem perceber como a surdez é compreendida socialmente.

207
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com os estudos sobre a interdisciplinaridade no


campo dos Estudos Surdos estudado no tópico dois:

I- É importante termos em mente que os Estudos Surdos já


“nasceram” dentro de uma perspectiva que entende a surdez numa visão
global, ou seja, procura abarcar os vários aspectos que fazem parte da
realidade e do universo surdo.
II- Cada área de conhecimento estabelece sua forma específica de se relacionar
com o conhecimento que pretende estudar.
III- Numa relação interdisciplinar entre as áreas de saber acontece um a
organização em estágios que norteiam como os saberes serão estruturados.
IV- A interdisciplinaridade pressupõe a existência de um nível hierárquico
inferior de onde procede e coordenação das ações empreendidas pelas
diversas disciplinas.
V- No entendimento interdisciplinar para a relação entre os saberes, uma
área de pesquisa coordena o relacionamento entre os conhecimentos.

Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

2 De acordo com os estudos efetuados no tópico dois a Educação é o


campo de pesquisa que se debruça sobre as questões que envolvem
o ensino e aprendizagem e pode abordar as mais diversas temáticas.

( ) Os estudos que abordam a temática da gramática são aqueles que


se dedicam a observar como as línguas de sinais ou a Libras, quando
específicas, se estruturam nos níveis fonéticos, semânticos e sintáticos.
( ) Aquisição de linguagem, língua, leitura e escrita: nestas temáticas, os
estudos procuram entender como os indivíduos surdos adquirem a
linguagem, língua, leitura e escrita, seja em Libras ou em LP.
( ) Estudos de tradução: também podem ser estudadas na perspectiva da
linguística as questões específicas sobre a tradução e interpretação entre
a Libras e a LP, tanto na compreensão do próprio uso da língua quanto
na análise de como se dá a estruturação entre as relações gramaticais,
de sentido e de traduzibilidade, bem como do processo de formação de
tradutores no que concerne ao preparo para lidar com as duas línguas em
processo, seja, no uso da fala/sinalização quanto da escrita em LP/Sign
Writing ou outro sistema de escrita/notação das línguas de sinais.
( ) O WhatsApp pode ser usado como ferramenta para compreender como
os surdos usam os verbos nas redes sociais.

208
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – V – V – V – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) V – V – F – V – V.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.

3 A partir do artigo “Mecanismos de coesão textual visual em uma narrativa


sinalizada: Língua de Sinais Brasileiros em foco”, de Anater e Passos (2009),
assinale a alternativa CORRETA com relação ao objetivo do estudo:

a) ( ) Envolve a análise dos mecanismos de coesão textual em uma narrativa


sinalizada.
b) ( ) O trabalho apresenta a análise da produção escrita em Língua
Portuguesa.
c) ( ) Identificar as estratégias linguísticas na comunicação de pais e filhos.
d) ( ) Analisa produções espontâneas de crianças bilíngues bimodais.
e) ( ) Verificar o surgimento e a estabilização da percepção dos contrastes
mínimos da Língua Brasileira de Sinais.

4 De acordo com pesquisa efetuada por Melo (2012), que apresenta uma
investigação acerca dos Children of Deaf Adults (CoDAs) em Sergipe,
disserte sobre o principal resultado encontrado:

5 Qual é o seu entendimento sobre o tema da formação de professores no


processo de construção da docência através de seus agentes:

209
210
TÓPICO 3 —
UNIDADE 3

ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM


ESTUDOS DE SINAIS

1 INTRODUÇÃO
Acadêmico! Chegamos ao tópico que encerrará nossas discussões sobre a
área de Estudos Surdos. Ao longo de nossa caminhada estudamos os diferentes
aspectos que cercam os fatores políticos, identitários e culturais que envolvem
o entendimento sobre a comunidade e o povo surdo. Além disso foram vistos
elementos sobre o desenvolvimento do campo de pesquisa, bem como estudamos
as demais áreas através das quais os Estudos Surdos estruturam seus trabalhos.
Também debatemos como a área dos Estudos Surdos se estrutura de modo
interdisciplinar e quais as implicações disso no entendimento das pesquisas
feitas nesta área. Por fim foram estudadas as áreas com as quais os ES dialogam
e quais as temáticas vinculadas a cada uma delas, também foram apresentados
sites confiáveis para a busca de referência em estudos sobre surdez.

O objetivo deste tópico é trazer discussões e debates sobre as situações


contemporâneas e suas implicações especificamente para a comunidade e o povo
surdo de modo a proporcionar a você material de inspiração para a realização
de suas próprias pesquisas acadêmicas ou discussões futuras para seu caminho
como pesquisadores em Estudos Surdos.

Com este objetivo, começaremos a unidade que encerra este livro


didático, discutindo como as lives em tempos de pandemia serviram para
divulgar elementos culturais surdos e ampliar o acesso a materiais de qualidade
de modo amplo através dos vídeos em tempo real para o YouTube. Em seguida
serão apontados aspectos referentes às notícias, ao uso de máscaras e ao acesso
à informação durante este período histórico em que a Covid-19 alterou aquilo
que conhecíamos como normalidade. Para encerrar este tópico serão discutidos
elementos quanto ao ensino não presencial, a Educação a distância e à in/exclusão
de alunos surdos neste contexto em que a necessidade de isolamento social alterou
de modo extremamente rápido as relações de ensino e aprendizagem em todos os
níveis de ensino. Bons estudos!

211
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

2 AS LIVES EM TEMPOS DE PANDEMIA: ENTRETENIMENTO E


DIVULGAÇÃO DE TEMÁTICAS SURDAS
Acadêmico! O ano de 2020 trouxe grandes alterações para a vida de todos
nós, aquilo que conhecíamos como “normal” foi completamente modificado
pela necessidade de distanciamento social, lockdow e diminuição das atividades
econômicas e escolares. Assim, nosso modo pessoal de vivenciar a realidade
foi completamente transformado em poucos dias e precisamos (re)aprender a
estabelecer trabalhar, estudar, procurar entretenimento e estabelecer vínculos
através das TDICs.

Nesta verdadeira revolução nas relações sociais, diferentes profissões


tiveram que se reinventar para poderem sobreviver, pois dependiam da presença
de pessoas para exercer suas atividades, tais como bares, cafés e, principalmente,
o setor de eventos que viu sua atividade se tornar completamente inviável e até
mesmo arriscada. Assim, os artistas tiveram que encontrar modos de continuar
em contato com o seu público, obter alguma renda para si e para seus funcionários
e se manterem na mídia, pois, mais do que diversas outras profissões, a classe
artística se mantém através do interesse do público em seus trabalhos.

Outro fator foi que a pandemia acabou por evidenciar e aprofundar ainda
mais a desigualdade social de nosso país e muitas pessoas que tinham empregos
informais acabaram por se verem completamente sem renda, necessitando
de auxílio até para a alimentação. Além disso, também os hospitais e demais
lugares que atendem a pessoas, tais como instituições de caridade e organizações
não governamentais que organizam o auxílio às pessoas mais necessitadas,
começaram a sentir a falta de insumos de proteção para seus profissionais, tais
como máscaras, luvas, álcool líquido e em gel.

Neste contexto de quarentena, o cantor sertanejo, Gustavo Lima, fez uma


live de mais de cinco horas no dia 28 de março de 2020, atingindo um público de
12 milhões de pessoas ao longo de sua duração, segundo Dias (2020. Esta live nem
está mais disponível, porque apresentou momentos constrangedores de excesso
de álcool e situações vexatórias protagonizadas pelo artista.

Embora a transmissão de shows ao vivo pela internet não seja novidade,


o cantor inaugurou uma fórmula que mistura música, entretenimento,
informalidade, propagandas de patrocinadores e arrecadação de doações de
alimentos e materiais hospitalares para ajuda no combate à Covid-19. Assim,
nesta mistura cresce uma forma de arrecadar receita, pois vários grupos inclusive
colocaram links diretos para auxílio aos integrantes da banda e da equipe de
apoio, mas não só isso, porque também é uma forma de se manter em contato
com seu público durante a quarenta e continuar em destaque na mídia, nas
plataformas digitais e, também, das marcas conseguirem ganhar espaço através
das inserções nas telas, a ponto de algumas lives terem etiquetas emoldurando
toda a borda da tela.

212
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

O crescimento da oferta de lives e o aumento expressivo do número de


pessoas utilizando plataformas como o YouTube para lidar com o isolamento,
criou uma forma diferente de interação com o público e com o conhecimento,
pois as lives sertanejas fizeram tanto sucesso que inúmeros outros formatos
foram lançados, como eventos como congresso, seminários, defesas de mestrado
e doutorado sendo feitos ao vivo. Além disso, outros estilos musicais, cantores
e bandas sumidos do cenário nacional, institutos de pesquisa, instituições e
muitos outros órgãos e pessoas começaram a utilizar esta forma de interação
com seu público-alvo.

Poderíamos apontar muitos outros elementos sobre este formato de


interação que ganhou fôlego em fins de março, porém, para nossas discussões
sobre os Estudos Surdos e as possibilidades de pesquisa que se abrem na
contemporaneidade, precisamos discutir dois aspectos: a presença dos intérpretes
de Libras na lives de música e as transmissões para divulgação de temas
importantes para a comunidade surda, a seguir, trataremos destes dois pontos.

2.1 AS LIVES DE ENTRETENIMENTO E A PRESENÇA DO


INTÉRPRETE
Se a live de Gustavo Lima inaugurou um gênero de transmissão ao vivo,
a de Marilia Mendonça, ocorrida em 8 de abril, trouxe a acessibilidade em Libras
para o centro das discussões e deu uma visibilidade gigantesca para a língua
de sinais. A live da cantora sertaneja teve um pico de audiência simultânea de
3,3 milhões de acessos, uma liderança que se manteve como o maior número
durante três meses, de abril a junho, um feito realmente impressionante num
mundo digital em que as coisas acontecem absurdamente rápidas, atualmente
(nov. 2020), o vídeo conta com a espantosa marca de 55.400.968 visualizações.

Para as discussões sobre possibilidades de pesquisa em ES, a presença


da intérprete de Libras Gessilda Dias e Viny Batista e a repercussão causada por
eles é muito relevante, pois trouxe uma visibilidade incrível para a comunidade
surda e a língua do povo surdo. Isso porque, relembrando as discussões sobre
representatividade que fizemos na Unidade 1, mesmo sendo obrigatória a
presença de intérpretes, muitos eventos não levam em consideração o público
surdo e não trazem os profissionais para que ele possa, também, apreciar o show.
Segue uma foto de Gessilda Dias durante a interpretação da live sertaneja.

213
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

FIGURA 14 - GESSILDA DIAS FAZENDO A INTEREPRETAÇÃO DE LIBRAS NA LIVE DE MARÍLIA


MENDENÇA NO DIA 8 DE ABRIL 2020

FONTE: Moniz (2020, s.p.)

Assim, a participação dos intérpretes na live de Marília Mendonça já


foi um diferencial em relação às demais lives, contudo, devido ao número de
pessoas e à interpretação entregue pelos profissionais acabaram por gerar
um número gigantesco de comentários, memes, twits e postagens nas redes
sociais. O que acarretou um interesse ainda maior pela Libras e pela língua de
sinais num geral e, consequentemente, gerou reportagens para TV, entrevistas
escritas, entrevistas on-line, notícias e reportagens sobre a intérprete e,
principalmente, as expressões faciais que acompanharam as traduções da
sofrência das músicas cantadas por Marília Mendonça. A seguir, imagem com
três momentos da interpretação em que as expressões faciais são bastante
marcadas e imprescindíveis para a compreensão:

214
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

FIGURA 15 – GESSILDA EM TRÊS MOMENTOS DURANTE A INTERPRETAÇÃO DA LIVE DE


MARILIA MENDONÇA

FONTE: Lorentz (2020, s.p.)

Observe que a importância deste tipo de atenção da mídia, mesmo que


apegado a apenas um aspecto da Libras, a marcação das expressões faciais, é
muito importante, pois chama a atenção das pessoas que desconhecem a língua
de sinais não apenas para a existência de um público surdo para as lives de música,
o que ainda causa estranheza para alguns grupos de ouvintes, mas também é
através do contato que surge o interesse e se desenvolve a compreensão. Mesmo
o meme, que tem como ideia principal, fazer graça com uma situação, tem seu
papel na divulgação dos artefatos da cultura surda, pois seu alcance faz com que
mais pessoas tenham acesso a elementos que caracterizam a comunidade surda e
procurem informações sobre surdez, surdos e língua de sinais. A seguir, um dos
memes criados com a interpretação de sofrência:

FIGURA 16 – MEME SOBRE A SOFRÊNCIA NA LIBRAS

FONTE: Pinterest (2020, s.p.)

215
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Dito de outro modo, quanto mais contato as pessoas tiverem com a


Libras, maior será o espaço que a língua e, por consequência, a pessoa surda
terá na sociedade. Logo, a inserção do intérprete na live de Marília Mendonça e
a repercussão das traduções feitas pelos profissionais envolvidos, acabaram por
tornar a presença deles obrigatória nas demais lives de música e criando algumas
situações engraçadas, como quando durante uma live do Molejo o cantor
principal “invadiu” o local em que o profissional estava e interagiu diretamente
com o público surdo tentando estabelecer alguma comunicação, mas, no fim,
atrapalhando o trabalho do rapaz.

A seguir, reproduzimos o texto de Moniz (2020, s.p.), que faz um


levantamento importante sobre os aspectos elencados acima:

NTE
INTERESSA

Não inclusivas, lives musicais dão visibilidade a Libras

Ana Clara Moniz

Desde o começo da quarentena no estado de São Paulo, no dia 24 de março, as


lives musicais começaram a surgir como meio de entretenimento para as pessoas que
estão em casa. Com o objetivo de arrecadar doações para instituições que necessitam,
as transmissões ao vivo reinventaram uma opção de entretenimento virtual durante o
isolamento social. Mas, o que tinha o objetivo de incluir todos que estão em casa, acabou
esquecendo uma parcela da população, como as pessoas com deficiência auditiva que não
conseguem acompanhar os shows pela falta de acessibilidade.

Segundo dados revelados pelo YouTube, assim que a quarentena foi implementada
no Brasil, o consumo de lives na plataforma de vídeos aumentou em 4.900%, sendo 3,5
bilhões de minutos de conteúdo por dia. Mesmo assim, ainda não podem ser consideradas
acessíveis. Depois de ter sido a primeira transmissão ao vivo com intérpretes de Libras a
live de Marília Mendonça, cantora de sertanejo e “rainha da sofrência”, com 3,3 milhões de
acessos simultâneos, trouxe à tona a importância de fazer um show inclusivo a todos, o
que gerou comentários positivos diante da comunidade surda e intérpretes. “Agora com a
quarentena, as lives podem mostrar ao Brasil o quanto é importante respeitar nossa língua”,
relata Elivelton Silva, professor e dançarino surdo de Paulínia.

Lives grandes como a de Marília Mendonça ajudaram a criar a visibilidade para


interpretação em Libras em transmissões ao vivo. Letícia Navero, tradutora e intérprete de
Libras em Campinas, diz acreditar que essa necessidade é uma questão de empatia para
entender o quanto esse recurso é importante para a comunidade surda. Ao contrário do
que se pensa, pessoas surdas e com deficiências auditivas estão imersas no mundo da
música. “Até uns cinco anos atrás, a música era uma coisa que não fazia parte da cultura
surda. Ouvíamos muitos comentários como “música é para quem ouve”. Mas a música se
torna algo cultural, eles sentem a vibração”, comenta a intérprete.

216
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

Apagamento

A Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes


e Guia-intérpretes de Língua de Sinais (Febrapils) informa que, no Brasil, há cerca de 10
milhões de surdos que dependem da interpretação de Libras para conseguirem se
comunicar. Dentro desse número estão pessoas como Elivelton Silva, professor de dança
em Paulínia, que usam a voz através de sinais para relembrar que a acessibilidade é muito
mais que uma questão de empatia.

Pelo tempo que as lives continuarem, a falta de acessibilidade nelas também


ocorre. Elivelton diz não assistir tanto os shows onlines, pois os artistas que gostaria de
acompanhar não fazem transmissões acessíveis e isso vai muito além da quarentena. O
apagamento das pessoas com deficiência começa no presencial, com o não cumprimento
da acessibilidade. Para ele, as lives ainda possuem mais intérpretes de Libras que os eventos
e shows que costuma ir. “Os shows musicais parecem esquecer que os surdos também
querem estar lá”, desabafa o dançarino.

Apesar da maioria não acessível, o aumento da visibilidade se tornou um fator


importante para a comunidade surda e de intérpretes de Libras. Para a interprete Letícia
Navero, a visibilidade ajuda, mas ainda tem muito pelo que lutar. “Depois da quarentena,
vamos voltar à realidade. A comunidade surda luta por isso há muito tempo, acredito que
vai demorar para que seja visto com outros olhos”, afirma.

Obrigatoriedade

De acordo com a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), toda pessoa com deficiência
deve ter acesso a eventos como atividades culturais, incluindo cinema, teatro, programas
de televisão e shows. Graziela Leite, advogada especialista em Direito Público, afirma que
as lives não fogem da lei. “Os intérpretes de Libras transformam as lives em uma forma
democrática e humanizada de acesso ao lazer e comunicação a todos”, afirma a advogada.
Quando não cumprida a lei, Graziela esclarece que pode configurar discriminação.
“Discriminação, de acordo com a LBI, é tudo que impede a pessoa com deficiência de
concorrer em igualdade de condições com os demais, incluindo falta de acessibilidade.
Discriminação é um crime”, explica.

‘Estrangeiros da própria terra’, como usa Letícia, os surdos e pessoas com


deficiência auditiva são esquecidos, principalmente em momentos como esse. Com isso,
além da lei, a falta de acessibilidade tira o direito das pessoas com deficiência de curtirem
aquilo que amam. “Eu amo o ritmo, eu não ouço, mas sinto, danço. Eu amo a música
também”, conta Elivelton.

FONTE: Moniz (2020, s.p.)

Acadêmico! Como a pandemia, a quarentena e as lives ainda são recentes


no momento em que este material está sendo produzido, não temos como saber
como estes elementos apontados repercutirão ao longo do tempo na relação entre a
sociedade e a comunidade e o povo surdo. Por isso, é interessante que pesquisas em
ES procurem mensurar este impacto e perceber se/como as relações entre ouvintes,
surdos e música sofrerão, ou não, alterações quando se reestabelecer o “novo normal”.

217
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

2.2 AS LIVES PARA DIVULGAÇÃO DE TEMAS SURDOS


As lives de entretenimento abriram um caminho de interação e percepção
do público ouvinte para o universo da língua de sinais, porém, outro grupo de
lives também surgiu nos estudos especializados em surdez, as transmissões de
divulgação de temáticas surdas.

Antes da pandemia, com exceção dos canais de algumas Instituições de


Ensino Superior e o canal do Ines no YouTube, ou vídeos antigos (re)postados
por pessoas que se interessavam pelo tema da surdez, era muito complicado
encontrar materiais relevantes sobre as temáticas surdas. Eram encontrados
trabalhos de acadêmicos, algumas entrevistas antigas com pesquisadores (como
uma entrevista dos anos 1990, feita com a professora Ronice Quadros, repostada
várias vezes em diferentes canais do YouTube) e um que outro material pedagógico
de qualidade.

Agora, houve um aumento expressivo da necessidade do uso das


TDICs como meio de estruturação pedagógica em todos os níveis de ensino
e, consequentemente, com o investimento em equipamentos, velocidade e
qualidade de transmissão e recepção de internet, bem como na contratação de
pessoal especializado em gravação e edição de vídeos. Além disso, os professores
e pesquisadores foram obrigados a procurar qualificação para utilizar as
Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação.

Assim, a pandemia fez com que as instituições e os profissionais


investissem em Ensino não Presencial e criassem modos digitais de divulgar seus
conhecimentos e realizar eventos em educação. Para demonstrar graficamente
este aumento, fizemos uma pesquisa simples no YouTube pelos vídeos em que
o nome da professora Ronice Quadros aparece e filtramos para que a lista fosse
organizada por ano de publicação do vídeo. Segue o quadro que demonstra a
quantidade de vídeos dos últimos cinco anos:

QUADRO 6 – VÍDEOS DE RONICE QUADROS NO YOUTUBE 2015 A 2020

Ano Quantidade Percentual


2020 25 42%
2019 7 12%
2018 7 12%
2017 8 13%
2016 9 15%
2015 3 5%
59

FONTE: Os autores

218
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

Observe que quase metade dos vídeos com a professora foram


disponibilizados no ano de 2020, dentre os vinte e cinco vídeos postados, treze são
vídeos ao vivo. Logo, fica evidente o aumento das lives de divulgação e discussão
de temáticas surdas que foram promovidas por diferentes instituições.

DICAS

Caso você queira ver esta pesquisa feita no YouTube (inclusive com o vídeo
que citamos acima), ela está disponível em [Link]
query=ronice+quadros&sp=CAI%253D. Acesso em: 18 nov. 2020.

Além das lives e vídeos da professora Ronice, também podemos destacar


os seguintes vídeos de divulgação, discussão e debate sobre temáticas surdas:

• Preconceito linguístico em comunidades surdas, professora Hadassa


Rodrigues (Universidade Federal de Juiz de Fora), palestra de atividade de
extensão do curso de Letras Libras da UFJF, palestra com a professora Shirley
Vilhalva. Disponível em: [Link]
• Educação para surdos na pandemia, Instituto Anísio Teixeira, professora
Alessandra Calixto. Disponível em: [Link]
nCDlYN8OuT0.
• Desafios e possibilidades da educação dos surdos, UNIASSELVI, conversa
com o Carlos Alberto Goés, fundador e diretor da FENEIS desde 1995 até 2002.
Disponível em: [Link]
• Dicas lúdicas para a educação de crianças surdas, UNIASSELVI, palestra
com Denise Coin, sobre como trabalhar com crianças surdas nos diferentes
espaços em que estiver inserida. Disponível em: [Link]
watch?v=1poyZdUL6C4&feature=[Link].
• Indicamos ainda Playlist estudos surdos da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, em que mais de vinte lives sobre diferentes temáticas
importantes para o campo de estudos tais como entrevistas com professores
e pesquisadores, teatro, escrita de sinais, ensino de LP para surdos,
neurolinguística e muitos mais. Disponível em: [Link]
watch?v=TUGxTWFo8HI&list=PL5EJRcvax21yvkewqnWNv_Tnj9P9Uu1-c.

Além destas, aconteceram muito mais lives e eventos transmitidos via


YouTube, Facebook, Instagram e outras redes sociais. Assim, acreditamos que
o aumento de número, também expressa uma ampliação do interesse e do
público interessado em questões sobre surdez, seja o público leigo que ainda
fica impressionado com as expressões não manuais e com a necessidade de uso
do corpo como instrumento de comunicação, seja o público especializado, que
procura materiais de qualidade para formação, informação e ampliação de seus
conhecimentos sobre discussões e aspectos específicos em Libras.
219
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Logo, com o tempo poderemos ter a dimensão do impacto da


disponibilização de material de qualidade nas plataformas gratuitas de acesso para
a formação de professores, divulgação da cultura surda e formação continuada
de profissionais que trabalham com a comunidade e o povo surdo. Por isso, estas
transmissões são um tópico interessante para futuras pesquisas em Estudos Surdos

3 NOTÍCIAS, MÁSCARAS E ACESSO À INFORMAÇÃO


Com o surgimento da Covid-19, a pandemia e a quarentena cada vez
mais se fez necessário que as notícias fossem acessíveis a todas as pessoas e, foi
importante a criação de canais de divulgação de notícias para este público, pois
jornais da TV aberta dos grandes canais ainda não trabalham com a possibilidade
de interpretação simultânea, apenas a tecnologia de Closed Caption, uma
legenda oculta que pode ser ativada pelo telespectador, com a legenda escrita
em Língua Portuguesa. Contudo, o uso desta tecnologia pressupõe não apenas
ser alfabetizado nesta língua, mas ter uma proficiência de leitura que permita
acompanhar a velocidade em que as palavras aparecem, além de compreensão
leitora em L2, que também permita o entendimento do que está aparecendo na
legenda, ao mesmo tempo em que tenta acompanhar o que aparece no vídeo,
um feito que muitos ouvintes, para quem a LP é a língua materna, nem sempre
conseguem acompanhar.

Além disso, os repórteres têm utilizado máscaras em todas as transmissões


fora do estúdio, o que dificulta para a percepção da expressão facial, bem como
para aquelas pessoas que se apoiam na leitura labial para compreensão do que
é falado. Algumas máscaras diferentes têm sido inventadas, porém, as mais
utilizadas ainda são aquelas que escondem a parte inferior da face. Seguem dois
exemplos de máscaras de proteção que deixam o rosto mais aparente.

FIGURA 17 – AUTORA USA MÁSCARA DE ACETATO TRANSPARENTE DURANTE ENTREGA DE


ATIVIDADES NÃO PRESENCIAS AOS ALUNOS

FONTE: Os autores

220
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

FIGURA 18 – SECRETÁRIO DA SAÚDE DE PERNAMBUCO USA MÁSCARA COM VISOR DURANTE


COLETIVA DE IMPRENSA

FONTE: Fontes (2020, s.p.)

Entretanto, estas ainda são máscaras pouco utilizadas em grande escala,


assim, a comunicação para o povo surdo sobre as notícias mais atualizadas acaba
sendo pouco eficiente e, as pessoas dependentes da leitura na internet ou de
parentes possam ajudar nesta empreitada de se manterem atualizados em relação
às notícias mais recentes.

Para tentar auxiliar neste momento em que é necessário, mais do que


nunca, se manter atualizado em relação às informações sobre a Covid-19, a
pandemia, a quarentena e todas as demais situações que aconteceram em 2020,
o Ines lançou um App chamado “Primeira mão”. Para conhecer mais sobre ele
observem as telas reproduzidas a seguir:

FIGURA 19 – TELAS DO JORNAL, BOLETIM E SABER MAIS DO APLICATIVO PRIMEIRA MÃO

FONTE: Aplicativo Primeira Mão (2020, s.p.)

221
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

Como você pôde ver na parte de baixo da tela, o aplicativo apresenta


quatro categorias: Destaques, vídeos relevantes; Jornal, matérias sobre as notícias
atuais; Boletim, informações sobre a Covid-19 e Saiba Mais, explicação sobre
assuntos importantes. Deste modo, o aplicativo procura atualizar a comunidade
e o povo surdo sobre as notícias mais recentes e trazer informações sobre a
pandemia e explicações relevantes para que fiquem atentos às novidades sobre
diferentes assuntos.

Além disso, a TV Ines tem Canal do YouTube, aplicativo e site com canal
de transmissão ao vivo da programação bem como disponibiliza a gravação de
inúmeros programas e informações sobre o Brasil, o mundo e a pandemia. Segue
a capa do site da TV Ines em que podemos ver as categorias da programação
disponibilizada ao público em material bilíngue Libras/LP:

FIGURA 20 – SITE TV INES

FONTE: TV Ines (2020, s.p.)

Além disso, a iniciativa da UFSM também se destaca por disponibilizar


vídeos em Libras sobre assuntos relevantes acerca da pandemia, disponíveis no link
[Link]
em-tempos-de-covid-19/.

Uma iniciativa que consegue manter temáticas atualizadas na pandemia


e que tem tradução para Libras em todos os seus vídeos, é da Uniasselvi, em que
vários assuntos relacionados ao Coronavírus são tratados por profissionais que
explicam, por exemplo, ergonomia para o Home Office, direitos fundamentais em
tempos de pandemia, temas científicos, educação em geral e educação de surdos
e muitos outros. Deste modo, a universidade preenche o espaço de fornecer

222
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

temáticas atuais, quase em tempo real, acessível ao público surdo. Atualmente,


em meados de novembro de 2020, já existem trinta e três vídeos na playlist
Circuito de Lives: #adistanciaimporta, disponível em: [Link]
playlist?list=PLU5TiUVdQhDqBf5mIKWPXFEp1iRZUxQpJ.

Contudo, mesmo importantes, estas iniciativas não suprem a necessidade


de acessibilidade linguística dos surdos, pois é necessário que a legislação saia
do papel e seja colocada em prática de modo que as grandes emissoras coloquem
a interpretação em Libras como algo comum em suas programações, pois, o que
acontece é que existe a necessidade de criação de outro vídeo para explicar o
que a presença de um profissional sinalizando resolveria, assim, a agilidade na
obtenção das informações fica prejudicada e, por consequência, o povo surdo
acaba ficando de fora de muitas notícias, reportagens e informações relevantes
sobre o país e o mundo.

Assim, como em muitos outros segmentos sociais, a pandemia escancarou


as fragilidades da aplicação e regulamentação de nossas políticas públicas, pois
já existe a obrigatoriedade, mas por falta de regulamentação e compreensão das
particularidades sobre o povo surdo, as empresas de telecomunicação partem
do princípio de que as legendas automáticas seriam suficientes, mas não são.
Um exemplo de como as informações estão defasadas, quando procuramos na
ferramenta de busca a expressão “vacina Covid Libras”, o vídeo mais recente que
aparece é de maio! Ou seja, todas as discussões e descobertas desde então acabam
não chegando aos surdos diretamente, apenas através da dependência de alguém
explicar para eles.

Então, nesta temática, nós temos várias abordagens de pesquisa sobre


os materiais criados, as instituições que criaram estes materiais, a agilidade
da informação para a comunidade e o povo surdo, bem como, estudos que
procurem entender como esta morosidade influenciou o comportamento dos
surdos em relação à pandemia, à quarentena e aos cuidados para evitar a
contaminação pela Covid-19.

223
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

NTE
INTERESSA

Pesquisador cria ferramenta de combate à Covid-19 voltada para surdos na Bahia

Projeto de inovação tecnológica interliga os profissionais de saúde à intérprete de


Libras para atender deficientes auditivos atingidos pela doença.

Por G1 BA – 01/06/2020

Um pesquisador baiano criou uma ferramenta que interliga os profissionais de


saúde a uma intérprete de Libras para atender a pessoas surdas que foram infectadas pelo
novo coronavírus na Bahia. A plataforma funciona através da internet, por uma sala virtual,
e por um aplicativo.

O projeto de inovação tecnológica, chamado LibrasInterConect, foi ideia do baiano


Aisamaque Gomes, que atuou como intérprete de Libras por sete anos e atualmente é
professor de Libras no Instituto Federal Baiano de Itapetinga (IF Baiano). A ferramenta vai
disponibilizar informações sobre o novo coronavírus, ações de combate à doença, e, caso,
a pessoa apresente os sintomas, será oferecido atendimento com um profissional da saúde.
Tudo com a ajuda do intérprete de Libras.

A plataforma vai passar por testes em junho e deve ser implementada a partir de
setembro, inicialmente, nas cidades de Itapetinga, Uruçuca e Teixeira de Freitas, conforme
o cronograma do projeto. Após a implantação do projeto nesses lugares, a expansão da
ferramenta vai ocorrer em Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista.

Como funciona? Segundo o idealizador do projeto, o funcionamento é simples.


O profissional da saúde deve acionar a ferramenta e solicitar um intérprete de Libras para
atender aos pacientes. A depender da disponibilidade, o médico ou qualquer profissional
da área vai a uma sala virtual, onde o intérprete irá atendê-lo.

FONTE: G1 BA (2020, s.p.)

224
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

4 ENSINO NÃO PRESENCIAL E A SURDEZ EM TEMPOS DE


PANDEMIA
Com o início da quarentena, todas os níveis de ensino suspenderam a
realização de atividades presenciais e passaram a adotar formas não presenciais
de estudo através de plataformas virtuais, redes sociais, aplicativos para trocas de
mensagens ou para diferentes fins pedagógicos, assim, o ensino presencial teve
que se tornar ensino não presencial rapidamente.

É importante destacar que Educação a Distância (EAD) e Ensino não


presencial (ENP) são propostas diferentes, a EAD é uma modalidade de ensino
pensada, planejada e estruturada para funcionar através de Tecnologias de
Informação e Comunicação, que podem ser digitais ou impressas, síncronas
ou assíncronas. Assim, na EAD o planejamento total das situações de ensino e
aprendizagem foi organizado para funcionar a distância. Já o ENP foi adotado de
modo emergencial para suprir, parcialmente, as necessidades educacionais dos
estudantes devido à suspensão das aulas presenciais.

Esta necessidade de realizar as aulas apenas através de meios não presencias


evidenciou as fragilidades que já existiam e demonstrou outras dificuldades
para a garantia mínima de continuidade dos estudos para todos os estudantes.
Contudo, para os surdos, que já enfrentam dificuldade de acessibilidade em seu
processo de escolarização, este processo está sendo bastante complexo, pois com
a necessidade de planejamento completamente diferentes daquilo que estavam
acostumados, os professores acabaram tendo dificuldade em atender a todos os
alunos em suas especificidades, pois as adaptações que seriam feitas na sala de
aula através de explicações adequadas para cada aluno, acabam não acontecendo,
ou seja, a adaptação presencial baseada na docência não é possível.

Então, o aluno surdo acaba tendo que lidar com atividades não
especificamente pensadas para suas necessidades, com as demais dificuldades
de acesso e permanência em ambientes digitais também não adequados e
com a exigência de ter que compreender o que é solicitado sem a presença do
professor, do intérprete e do aparato escolar que, bem ou mal, acaba existindo
nas escolas. Em termos, não parece ser muito diferente do que o aluno surdo
enfrenta em escolas regulares, porém, acaba sendo muito mais complicado,
porque ele está sozinho na frente do computador/celular, aqueles que têm
acesso, e precisa entender o que é pedido sem o auxílio direto do professor,
do intérprete ou dos colegas.

No artigo de Shimazaki, Menegassi e Fellini (2020), os pesquisadores


relatam que entrevistaram remotamente professores, alunos e pedagogos de uma
escola bilíngue e chegaram a cinco pontos relevantes sobre o ensino não presencial
para alunos surdos, estes pontos foram colocados a seguir e serão comentados
por nós a partir da discussão proposta pelos autores e de nossa experiência como
professores em tempos de pandemia:

225
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

a) O ensino remoto é um desafio na preparação de aulas: conforme dissemos


acima, o planejamento das aulas de modo remoto é bastante complexo porque as
adaptações pontuais que seriam feitas presencialmente acabam não sendo viáveis
de serem realizadas, porque, numa sala de aula com 35 alunos, por exemplo,
praticamente cada um deles precisa de alguma explicação diferente, ou de uma
adaptação de exercício, ou de um olhar diferenciado na elaboração das questões,
pois não existe atividade presencial ou não presencial que seja adequada a todos
os alunos, assim, as adaptações são feitas na interação da prática, algo que é muito
complicado de ser feito não presencialmente, pois é cansativo para o aluno e para
o professor, trocar mensagens a cada dificuldade encontrada.
b) Alguns alunos vulneráveis economicamente não acessam atividades remotas:
as aulas remotas pressupõem acesso aos equipamentos tecnológicos e a um
serviço de internet de qualidade, para que o aluno tenha estas duas coisas é
necessário certa situação econômica que permita o investimento da família
nestes elementos, contudo, com a crise econômica, a perda dos empregos e o
aumento de preços ocorrido durante a pandemia, muitas famílias não tiveram
como manter os pacotes de dados e wi-fi em suas casas, logo, muitos alunos
ficaram sem a possibilidade de acompanhar as aulas, para resolver isso, muitas
escolas começaram a entregar atividades impressas, o que resolve o acesso,
mas não a interação e explicação das atividades.
c) Alunos sem auxílio parental para os estudos: por falta de tempo, de
conhecimento ou de vontade, muitos pais e/ou responsáveis não se envolvem
na vida escolar das crianças e jovens, assim, o auxílio presencial que os alunos
teriam, acaba por não existir. Inclusive, muitos responsáveis sequer auxiliam
na organização de horários e espaço de estudo o que inviabiliza dificulta ainda
mais, pois, crianças e adolescentes necessitam de ajuda para autorregulação
devido à imaturidade a sua percepção das tarefas escolares nem sempre as
classifica como importantes, assim, sem o auxílio parental eles não acessam
as atividades e têm dificuldades para estruturar o tempo para compreensão e
realização das tarefas enviadas;
d) Dificuldades de compreensão e interpretação dos enunciados: crianças e
jovens são aprendizes da língua em sua modalidade mais formal de escrita ou
leitura, principalmente quando a LP é a L2, como no caso dos alunos surdos,
assim, precisam de auxílio para compreender o que é pedido, às vezes, por
dificuldades vocabulares ou de mesmo da inter-relação entre as palavras
e de como isso influencia no todo da frase, algo que seria resolvido em aula
através da intervenção do professor, nem sempre é respondido no ensino não
presencial por inúmeros fatores, falta de interesse, cansaço de ter que estudar
longe dos amigos, pouco auxílio dos pais/responsáveis, dificuldades de acesso,
timidez de entrar em contato com o professor via aplicativo de mensagens,
dentre outros fatores;
e) Sem contato social escolar, o isolamento afeta o desenvolvimento linguístico
e social dos surdos: as crianças surdas, muitas vezes, não têm uma família
que utilize a língua de sinais, assim, na escola é que ela tinha acesso à língua
de sinais; além disso, muitas vezes a LP em sua modalidade escrita é utilizada
apenas no ambiente e nas tarefas escolares, assim, sem este contato, as crianças
acabam por não terem seu potencial linguístico explorado.

226
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

Mais uma vez, serão as pesquisas feitas e o tempo transcorrido que nos
mostrarão quais as consequências para a educação a médio e longo prazo na
formação desta geração de professores e estudantes que teve que enfrentar os
desafios da pandemia.

NOTA

Acadêmico! Para encerrar nosso livro didático, recomendamos a leitura do


artigo em que, numa perspectiva socioemocional, o psicólogo e mestrando em Educação
Carlos Pereira de Carvalho Júnior apresenta, no artigo reproduzido a seguir, uma perspectiva
em que avalia as consequências emocionais da quarentena para a educação de surdos, em
sua argumentação o pesquisador toca em várias das discussões que fizemos ao longo
deste livro didático, tais como as diferentes identidades surdas, a necessidade de suporte
familiar para o estudo e aspectos linguísticos sobre a Libras e seu uso, juntamente com as
legendas, para tornar acessíveis os materiais utilizados para o ensino de surdos. Boa leitura!

227
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

LEITURA COMPLEMENTAR

IMPACTO DAS AULAS REMOTAS PARA ESTUDANTES COM SURDEZ

Carlos Pereira de Carvalho Júnior

A Educação nos provoca repensar nossas estratégias, nossos caminhos


escolhidos para atingirmos os nossos objetivos quanto à inclusão de pessoas surdas
– e suas emoções – num mundo globalizado em época de pandemia. Período em
que, cada vez mais distantes fisicamente das pessoas, há uma distância ainda maior
daqueles que não ouvem, ou seja, dos surdos. Como consequência, transformou-se
o trabalho de docentes e discentes fora das escolas, das universidades e do convívio
social presencial.

Meu objetivo é propor reflexões e discutir sobre o mundo e as emoções no


aprendizado de alunos com surdez em aulas remotas sem acessibilidade visual
para a leitura labial, o que configura um quadro de sentimentos e reações que, na
medicina, se denomina síndrome de burnout. Manifesta em sentimentos de solidão
com relação ao enfrentamento à falta de comunicação em tempos de pandemia,
produz no surdo sentimentos de incapacidade, insegurança e distanciamento dos
demais, o que dificulta significativamente o seu aprendizado.

Caracterizada como um distúrbio psíquico causado por altos níveis


de estresse e pelo estado emocional desequilibrado, desenvolvidos a partir de
condições de estafa e esgotamento emocional, a síndrome pode atingir qualquer
profissional, docente, estudante em qualquer idade e também em todas as classes
sociais. A síndrome se gera após um período de trabalho excessivo, um estado de
exaustão em que a pessoa que o desenvolve passa a apresentar comportamento
agressivo, com sintomas físicos e emocionais.

Temos que pensar em como enfrentar as barreiras que vêm ocorrendo com
o fechamento de escolas e universidades, o que traz maior dificuldade ainda para
aqueles que necessitam de um olhar, de um sinal de Libras para a sua comunicação
interpessoal, social e contextual.

As pessoas surdas, ao longo da história, enfrentaram e enfrentam inúmeras


situações e barreiras para conseguir se inserir e permanecer na educação escolar, e
com isso buscam o reconhecimento e a inclusão. Em geral, a sociedade fica receosa
e apreensiva por não saber como se relacionar com os sujeitos surdos, que, em
algumas situações, são tratados de forma paternal, como “coitadinhos”, ou como se
tivessem “doença contagiosa”, de forma preconceituosa – estereótipos construídos
pela falta de conhecimento.

228
TÓPICO 3 — ENCAMINHAMENTOS PARA PESQUISA EM ESTUDOS DE SINAIS

Muitos defensores da Língua Brasileira de Sinais para os surdos afirmam


que ela é considerada “natural”, adquirida em qualquer idade, e que a partir dela
o surdo constituirá uma identidade surda, já que ele não é ouvinte. A maioria
dos estudos tem como base a ideia de que a identidade surda se define pelo uso
da língua. Ou seja, o uso ou não da Libras seria o que definiria basicamente a
identidade do sujeito, que só seria desenvolvida em contato com outro surdo.

Não existe, entretanto, um fator único de identidade; esta é construída


pelo exercício de papéis sociais diferentes (ser surdo, rico, heterossexual,
branco, professor, pai, por exemplo) e também pela língua comum que constrói
nossa subjetividade.

De acordo com as minhas experiências como deficiente auditivo em relação


ao contato com o público surdo, percebo que a ausência de comunicação entre
surdos e ouvintes causa barreiras entre eles, e isso afeta muito o sujeito surdo. E é
bastante perceptível que as falhas de comunicação começam em casa, continuam na
escola e, depois, permanecem na vida cotidiana do sujeito surdo, acompanhando-o
nas esferas sociais.

A Comunicação não chega aos surdos como chega para os ouvintes.


Importa dizer aqui que na maioria das vezes é a mãe e os irmãos que repassam
as informações das aulas para o surdo, porque ele não consegue compreender
o que está sendo falado. Existe um distanciamento também nessa parte, daí os
sentimentos de solidão, incapacidade e exaustão, surgindo a síndrome de burnout,
com sentimentos de irritabilidade, pouca vontade de estudar – desistência em
muitos casos -, além do constrangimento diante dos familiares e dos demais por
não conseguir participar ativamente das aulas online.

É importante reconhecer que existem diversos graus de surdez, o que


impacta na forma de comunicação. Sendo assim, algumas pessoas têm dificuldade
apenas para entender conversas em locais muito barulhentos, enquanto outras
praticamente não captam som algum. Há, ainda, indivíduos que usam aparelhos
auditivos e conseguem escutar com plenitude, outros que fazem leitura labial.
Também existem aqueles que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A Libras é especialmente importante dentro da comunidade surda e seu


uso deve ser difundido para que tenhamos uma comunicação acessível. Nem
toda pessoa com perda auditiva, contudo, utiliza essa linguagem, fazendo uso
tradicional do português. Nesse caso, a legenda é um recurso essencial para ajudar
na comunicação entre surdos e ouvintes.

O mais importante é que cada uma dessas pessoas é um indivíduo com


plena capacidade cognitiva e que busca interação social. Por isso, a comunicação
entre surdos e ouvintes é algo necessário. É por meio dela que se combate o
preconceito e diminuiu-se o isolamento que atinge muitos indivíduos com
perda auditiva.

229
UNIDADE 3 — PERSPECTIVAS EM PESQUISA DENTRO DOS ESTUDOS SURDOS

A pandemia de Covid-19 provocou uma crise sem precedentes, sem


previsibilidade, sem fronteiras, com reflexos humanitários, sociais, econômicos
e culturais significativos. Diante de um cenário tão desafiador e das medidas de
restrição de circulação para conter o avanço do novo coronavírus, o trabalho remoto
ganhou uma nova dimensão.

Estudos mostram que os sentimentos de solidão e o comprometimento


emocional de alunos se modificam conforme sua graduação, mas há um dado
significativo com relação à síndrome de burnout: ela afeta tanto alunos com notas
acima como alunos com notas abaixo da média. Isso indica que a implantação
de atividades remotas no fechamento das escolas e universidades não impediu o
desencadeamento dessa síndrome, afetando o rendimento acadêmico dos alunos
e, ainda, suas relações.

Ainda, os surdos se sentem isolados em várias esferas sociais, incluindo


as aulas remotas, os encontros virtuais e a falta de materiais visuais, e o maior
impasse entre todas as situações é a falta de comunicação, que engloba todo e
qualquer distanciamento. Espera-se que surjam mudanças que possam ampliar a
oferta de serviços para inclusão e apoio a esses cidadãos. Não basta ter o intérprete,
precisamos de qualificação para todos em qualquer contexto social.

Fazem-se necessários, portanto, mais estudos longitudinais para confirmar e


esclarecer esses fatores e agregar outros para melhor compreender o aprendizado
e o desempenho desses estudantes.

Vale lembrar que para uma educação ser de fato para todos, ela tem que ter
um ambiente virtual adequado, com plataformas permanentes de acessibilidade,
e não somente em lives. Em toda e qualquer situação que envolva a comunicação,
deve haver a troca e o respeito com aquele que apresenta alguma necessidade de
acessibilidade diferenciada para participar, aprender e contribuir na construção
do aprendizado.

FONTE: <[Link]
Acesso em: 4 dez. 2020.

230
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• O ano de 2020 trouxe grandes alterações para a vida de todos nós, aquilo que
conhecíamos como “normal” foi completamente modificado pela necessidade
de distanciamento social, lockdown e diminuição das atividades econômicas
e escolares.

• Nosso modo pessoal de vivenciar a realidade foi completamente transformado


em poucos dias e precisamos (re)aprender a estabelecer trabalhar, estudar,
procurar entretenimento e estabelecer vínculos através das TDICs.

• O crescimento da oferta de lives e o aumento expressivo do número de pessoas


utilizando plataformas como o YouTube para lidar com o isolamento, criou
uma forma diferente de interação com o público e com o conhecimento.

• As possibilidades de pesquisa que se abrem na contemporaneidade,


precisamos discutir dois aspectos: a presença dos intérpretes de Libras na
lives de música e as transmissões para divulgação de temas importantes para a
comunidade surda.

• Quanto mais contato as pessoas tiverem com a Libras, maior será o espaço que
a língua e, por consequência, a pessoa surda terá na sociedade.

• As lives de entretenimento abriram um caminho de interação e percepção do


público ouvinte para o universo da língua de sinais, porém, outro grupo de
lives também surgiu nos estudos especializados em surdez, as transmissões de
divulgação de temáticas surdas.

• A pandemia fez com que as instituições e os profissionais investissem em Ensino


não Presencial e criassem modos digitais de divulgar seus conhecimentos e
realizar eventos em educação.

• Acontecem muito mais lives e eventos transmitidos via YouTube, Facebook,


Instagram e outras redes sociais.

• Com o tempo poderemos ter a dimensão do impacto da disponibilização de


material de qualidade nas plataformas gratuitas de acesso para a formação
de professores, divulgação da cultura surda e formação continuada de
profissionais que trabalham com a comunidade e o povo surdo.

231
• Com o surgimento da Covid-19, a pandemia e a quarentena cada vez mais
se fez necessários que as notícias fossem acessíveis a todas as pessoas e, foi
importante a criação de canais de divulgação de notícias para este público,
pois jornais da TV dos grande canais da aberta ainda não trabalham com a
possibilidade de interpretação simultânea, apenas a tecnologia de Closed
Caption, uma legenda oculta que pode ser ativada pelo telespectador, como a
legenda é escrita em Língua Portuguesa.

• Os repórteres têm utilizado máscaras em todas as transmissões fora do estúdio,


o que dificulta para a percepção da expressão facial, bem como para aquelas
pessoas que se apoiam na leitura labial para compreensão do que é falado.

• A TV Ines tem Canal do YouTube, aplicativo e site com canal de transmissão


ao vivo da programação bem como disponibiliza a gravação de inúmeros
programas e informações sobre o Brasil, o mundo e a pandemia.

• A pandemia escancarou as fragilidades da aplicação e regulamentação de


nossas políticas públicas, pois já existe a obrigatoriedade, mas por falta de
regulamentação e compreensão das particularidades sobre o povo surdo, as
empresas de telecomunicação partem do princípio que as legendas automáticas
seriam suficientes, mas não são.

• O aluno surdo acaba tendo que lidar com atividades não especificamente
pensadas para suas necessidades.

• Serão as pesquisas feitas e o tempo transcorrido que nos mostrarão quais


são as consequências para a educação a médio e longo prazo na formação
desta geração de professores e estudantes que teve que enfrentar os desafios
da pandemia.

CHAMADA

Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem


pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

232
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com o estudo sobre o crescimento da oferta de lives


e o aumento expressivo do número de pessoas utilizando
plataformas como o YouTube para lidar com o isolamento
estudadas no tópico três, que criou uma forma diferente
de interação com o público e com o conhecimento, analise as sentenças
classificando V para as verdadeiras e F para as falsas:

( ) As lives de pagode fizeram tanto sucesso que inúmeros outros formatos


foram lançados.
( ) Eventos como congresso, seminários, defesas de mestrado e doutorado
começaram a ser feitas ao vivo.
( ) O cantor sertanejo Gustavo Lima fez uma live de mais de cinco horas no
dia 28 de março de 2020.
( ) Dois aspectos importantes nas transmissões de lives são a presença de
intérpretes de Libras e transmissões com conteúdo para a comunidade surda.
( ) A marcação das expressões faciais não é importante na interpretação
de Libras.

a) ( ) V – V – V – V – V.
b) ( ) F – F – V – V – V.
c) ( ) F – V – V – V – F.
d) ( ) F – V – V – F – V.
e) ( ) V – F – V – V – F.

2 De acordo com os estudos sobre a importância das lives de entretenimento


para a percepção do público ouvinte para o universo da língua de sinais
do Tópico 3:

I- Antes da pandemia era muito complicado encontrar materiais relevantes


em vídeo sobre as temáticas surdas.
II- Eram encontrados trabalhos de acadêmicos, algumas entrevistas antigas
com pesquisadores (como um dos anos 1990 feita com a professora Ronice
Quadros, repostada várias vezes em diferentes canais do YouTube) e um
que outro material pedagógico de qualidade.
III- A pandemia fez com que as instituições e os profissionais investissem
em Ensino Presencial e criassem modos presenciais de divulgar seus
conhecimentos e realizar eventos em educação.
IV- O aumento do número de lives e eventos transmitidos via You Tube,
Facebook, Instagram e outros demonstram o aumento do interesse em
questões sobre surdez.
V- Estas transmissões são um tópico interessante para futuras pesquisas em
Estudos Surdos.

233
Dentre estas informações, quais estão CORRETAS?
a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) I, II, III e V.
c) ( ) II, III, IV e V.
d) ( ) I, III, IV e V.
e) ( ) I, II, IV e V.

3 Com o surgimento da Covid-19, a pandemia e a quarentena cada vez


mais se fez necessário que as notícias fossem acessíveis a todas as pessoas
e, foi importante a criação de canais de divulgação de notícias para este
público. De acordo com esta afirmação contida no Tópico 3, assinale a
alternativa CORRETA:

a) ( ) Jornais dos grandes canais da TV aberta já trabalham com a possibilidade


de interpretação simultânea.
b) ( ) Nas transmissões de TV, existe apenas a tecnologia de Closed Caption,
uma legenda oculta que pode ser ativada pelo telespectador, a legenda
é escrita em Língua Portuguesa.
c) ( ) Os repórteres têm utilizado máscaras em todas as transmissões fora do
estúdio, o que facilita a percepção da expressão facial.
d) ( ) As informações estão defasadas, quando procuramos na ferramenta
de busca a expressão “vacina Covid Libras”, o vídeo mais recente que
aparece é do mês de julho.
e) ( ) As discussões e descobertas acabam chegando aos surdos diretamente.

4 De acordo com o artigo de Shimazaki, Menegassi e Fellini (2020), os


pesquisadores relatam que entrevistaram remotamente professores, alunos
e pedagogos de uma escola bilíngue e chegaram a cinco pontos relevantes
sobre o ensino não presencial para alunos surdos. Enumere estes pontos:

5 Qual é seu entendimento sobre a Síndrome de Burnout, trazido por Carlos


pereira de Carvalho Júnior (2020), para fazer referência aos sentimentos de
incapacidade, insegurança e distanciamento dos demais que produz nos surdos
em tempos de pandemia que, na medicina, se denomina Síndrome de Burnout:

234
REFERÊNCIAS
ALVES, P. O que é e como funciona o leap motion? 2014. In: TechTudo. Sem
paginação. Disponível em: [Link]
noticia/2014/05/[Link]. Acesso em: 16 nov. 2020.

ANATER, G. I. P; PASSOS, G. Mecanismos de coesão textual visual em uma


narrativa sinalizada: Língua de Sinais Brasileira em foco. P. 50 a 76. In: QUADROS,
R. M. (Org.). In: Estudos Surdos I. Petrópolis: Arara Azul, 2006. Disponível em:
[Link] Acesso em: 30 out. 2020.

AVELAR, T. F. Entrevista com tradutores surdos do curso de Letras Libras da


UFSC: discussões teóricas e práticas sobre a padronização linguística na tradução
de Língua de Sinais. P. 364 a 392. In: QUADROS, R. M.; STUMPF, M. R. (Orgs.).
Estudos Surdos IV. Petrópolis: Arara Azul, 2009. Disponível em: [Link]
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BIBLIOTECA DIGITAL DE TESES E DISSERTAÇÕES. Disponível em: https://


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BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. 2016. Disponível em http://


[Link]/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.
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BRASIL. Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020. Disponível em: [Link]/


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CAED UFSM. Acessibilidade linguística em tempos de Covid-19. Publicado


em: 16 abr. 2020. Disponível em: [Link]
caed/2020/04/16/acessibilidade-linguistica-em-tempos-de-covid-19/. Acesso em:
18 nov. 2020.

CARVALHO JÚNIOR, C. P. Impacto das aulas remotas para estudantes com


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