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Table of Contents

Sumário
Introdução | Quatro convites
PARTE 1 | UMA DEFINIÇÃO E UMA DIFICULDADE
1 | O que é a providência divina?
2 | A autoexaltação divina é uma boa-nova?
PARTE 2 | O OBJETIVO SUPREMO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | O objetivo supremo da providência antes da criação e na criação
3 | Antes da criação
4 | O ato de criação
Seção 2 | O objetivo supremo da providência na história de Israel
5 | Visão geral: de Abraão à era vindoura
6 | O Êxodo
7 | Lembrando o Êxodo
8 | A Lei, o deserto e a conquista de Canaã
9 | O tempo dos juízes e os dias da monarquia
10 | A proteção, a destruição e a restauração de Jerusalém
Seção 3 | O objetivo supremo da providência no desígnio e no estabelecimento da nova aliança
11 | Os propósitos da nova aliança
12 | O ato fundamental de Cristo em estabelecer a nova aliança
13 | A entrada do pecado na criação e a glória do evangelho
14 | A glória de Cristo na glorificação de seu povo
PARTE 3 | A NATUREZA E A EXTENSÃO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | Montando o palco
15 | Conhecendo a providência do Deus que é
Seção 2 | A providência sobre a natureza
16 | A perda e a recuperação do teatro de maravilhas
17 | Terra, água, vento, plantas e animais
Seção 3 | A providência sobre Satanás e os demônios
18 | Satanás e os demônios
19 | A existência contínua de Satanás
Seção 4 | A providência sobre reis e nações
20 | O Rei divino de Israel é Rei das nações
21 | Reino humano e o Rei dos reis
22 | Para saber que o Altíssimo reina e regozijar-se nisso
Seção 5 | A providência sobre a vida e a morte
23 | Um banho da verdade e o dom do nascimento
24 | O Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor
25 | Somos imortais até que nossa obra acabe
Seção 6 | A providência sobre o pecado
26 | O querer e o agir humanos naturais
27 | Coisas que sabemos e coisas que não precisamos saber
28 | José: o bom propósito de Deus num ato pecaminoso
29 | Israel odiado, Faraó endurecido, Deus exaltado, os desamparados salvos
30 | Famílias arruinadas
31 | Engano e insensibilidade de coração
32 | Embora cause tristeza, Deus terá compaixão
33 | Uma perversidade que Deus odiava tremendamente
Seção 7 | A providência na conversão
34 | Nossa condição antes da conversão
35 | Três quadros bíblicos de como Deus traz as pessoas à fé
36 | A fé salvadora como o dom da providência
37 | Retornando às preciosas raízes da eleição
Seção 8 | A providência sobre o viver cristão
38 | Perdão, justificação e obediência
39 | A estratégia divina de mandamento e advertência
40 | Aos que chamou, a esses também glorificou
41 | Zelo por boas obras comprado com sangue
42 | Operando em nós o que é agradável diante dele
43 | Matando o pecado e criando o amor — pela fé
Seção 9 | A realização final da providência
44 | O triunfo das missões e a vinda de Cristo
45 | Novos corpos, novo mundo, alegria incessante em Deus
Conclusão | Vendo e provando a providência de Deus
“No que talvez seja seu livro mais importante até agora, John Piper demonstra, com marcante convicção
e habilidade exegética, que a providência de Deus “é sua soberania intencional, por meio da qual ele será
totalmente bem-sucedido na realização de seu objetivo supremo para o universo”. Este livro ampliará o
pensamento do leitor a respeito de Deus, fortalecendo, assim, sua fé.”
D. A. Carson, teólogo, The Gospel Coalition

“John Piper, com sua clareza e seu foco peculiares no texto bíblico, mostra-nos que a providência de
Deus permeia toda a Escritura. Piper discute o texto bíblico de forma ampla, e nós vemos, passagem após
passagem, que Deus governa sobre toda a realidade, desde o menor dos átomos até as catástrofes mais
atrozes. Como sempre esperamos de Piper, ele direciona nossos olhos para as infinitas grandeza e beleza
de Deus, enquanto nos lembra que a providência de Deus é uma boa-nova maravilhosa para aqueles que
conhecem Jesus.”
Thomas R. Schreiner, professor de Interpretação do Novo Testamento, The Southern Baptist
Theological Seminary

“Existem muitos livros escritos por John Piper que eu recomendaria aos crentes, por causa da
profundeza e do frescor de pensamento em seus escritos. Providência está entre os primeiros da lista. A
amplitude da providência de Deus — aqui discutida — é espetacular. Piper faz uma abordagem
completa. Leia e veja por si mesmo. Esta é uma obra excepcional!”
Conrad Mbewe, pastor, Kabwata Baptist Church, Lusaka, Zâmbia

“Embora alguns vejam a mão de Deus apenas nos milagres e outros não a vejam de maneira alguma, a
providência é a maravilhosa verdade de que Deus é soberano em tudo e sobre tudo que acontece.
Combinando paixão com espírito inquiridor, John Piper tem amado e proclamado essa verdade ao longo
de todo o seu ministério. Este livro envolvente não é apenas sobre doutrina; também alcança uma visão
alpina da obra de Deus em nosso mundo, em nossa redenção e em nossa vida nos dias de hoje. É
profundamente revigorante para a fé.”
Michael Horton, professor de Teologia Sistemática e Apologética, Westminster Seminary
California

“Neste livro formidável, John Piper revela o lado pessoal da soberania, ajudando-nos a ter um vislumbre
da intrincada complexidade, da beleza encantadora e do propósito supremo dos planos de Deus em
ação. Piper é capaz de escrever sobre uma doutrina multifacetada de um modo bem prático e de fácil
compreensão!”
Joni Eareckson Tada, fundadora e CEO, Joni and Friends International Disability Center

“Este livro magistral de Piper é um antídoto poderoso para os frágeis pontos de vista sobre a providência
de Deus sustentados por muitos cristãos de nossos dias. Sua exposição do assunto é completa em escopo
e saturada de discernimento bíblico. Piper é um modelo de pastor-teólogo, visto que não somente
descreve a providência, como também mostra como o respectivo entendimento pode tornar nossa vida
mais profunda.”
Tremper Longman III, acadêmico e professor emérito de Estudos Bíblicos, Westmont College

“Com a publicação, em 1983, de A justificação de Deus, John Piper mostrou que era um homem resoluto
em seu apego à soberania da graça de Deus. Agora, meia geração depois, esse apego ainda subsiste. Este
livro grandioso oferece alimento para a alma de uma forma que fortalecerá a mente e o coração de seus
leitores.”
Paul Helm, ex-professor de História e Filosofia da Religião, King’s College London

“Este é um livro sobre a providência de Deus, escrito por um homem que tem dedicado a própria vida a
expor a glória divina. Este volume é fundamental, da forma que o assunto abordado exige. Piper se move
desde o tempo que antecede a criação até a segunda vinda de Cristo, mostrando que os atos
providenciais de Deus permeiam, em sua totalidade, o tempo, as circunstâncias e as pessoas, explicando
o extraordinário poder do Deus autossuficiente.”
Miguel Núñez, pastor principal, International Baptist Church, Santo Domingo, República
Dominicana; fundador-presidente, Wisdom and Integrity Ministries

“Por fomentar a humildade e nos ajudar a tremer diante da palavra de Deus, Providência, de John Piper,
abre nossos olhos para que possamos ver o Rei em sua beleza magnífica e aterrorizante (Is 33.17; 66.2).
Ele não é um leão inofensivo; ele é bom.”
Jason S. DeRouchie, professor-pesquisador de Antigo Testamento e Teologia Bíblica, Midwestern
Baptist Theological Seminary

“A cuidadosa exposição de John Piper é acompanhada de discernente reflexão teológica e de aplicação


pastoral. Aqui, há esperança para tempos em que a saúde falha, os inimigos atacam, os sonhos se
frustram, os relacionamentos se desintegram e as calamidades destroem. Aqui há força para suportar a
dificuldade, enfrentar a incerteza e vencer a ansiedade. Aqui há a doce experiência da profusa bondade
de nosso Pai no cuidado e na conduta especiais de sua providência.”
J. Stephen Yuille, vice-presidente de assuntos acadêmicos, Heritage College and Seminary;
professor associado de Espiritualidade Bíblica, The Southern Baptist Theological Seminary

“Piper tem o dom de tornar ideias complexas facilmente compreensíveis. Sob o tema geral da
providência, ele lida com alguns dos temas mais difíceis da fé cristã: a relação da soberania de Deus com
as decisões do homem, a origem do mal, o uso que Deus faz de pessoas más e do diabo para realizar seus
objetivos e eleição. De um ponto de vista de alguém da América do Sul, onde surgem muitas perguntas
sobre os caminhos de Deus em um contexto do pentecostalismo desenfreado, do evangelho da saúde e
prosperidade e da pobreza e corrupção, este livro é muito necessário.”
Augustus Nicodemus Lopes, pastor assistente, Primeira Igreja Presbiteriana de Recife, Brasil; vice-
presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil

“Em nossa época centrada no homem, este livro de John Piper cura a mente e a alma com a verdade do
evangelho. É não apenas uma obra teológica sobre a providência de Deus, como também uma
orientação pastoral cheia de sabedoria bíblica e prática. Este livro ajudará a geração moderna de cristãos
a desfrutar o soberano poder de Deus e ajudar os que estão ao seu redor a permanecer no firme
fundamento do evangelho, e não no solo instável do orgulho humano. Piper acende uma chama radiante
da glória divina no farol do amor de Deus, onde as pessoas encontrarão esperança verdadeira num
oceano tempestuoso de erros e temores. Seu livro é muito relevante para residentes em países da antiga
União Soviética, que precisam ver a grandeza e a beleza do verdadeiro Rei e governante deste mundo,
enquanto se comprometem a edificar o reino dele, com vistas à prosperidade espiritual de suas nações,
para a glória de Cristo.”
Evgeny Bakhmutsky, pastor, Russian Bible Church, Moscou, Rússia

“John Piper nos ajuda a ver e provar a soberania intencional de Deus, ao demonstrar, de forma indutiva,
o que a toda a Bíblia ensina sobre o objetivo supremo, a natureza e a extensão da providência de Deus.”
Andy Naselli, professor associado de Teologia Sistemática e Novo Testamento, Bethlehem College
& Seminary; presbítero, Bethlehem Baptist Church, Mineápolis

“Por meio desta obra magna, John Piper leva corações à adoração jubilosa, ao expor a tão
frequentemente negligenciada doutrina da providência de Deus. Este é tanto um livro-texto para
estudantes sérios de teologia como uma leitura devocional para leigos. Leia esta obra e adore a Deus, que
realizará seus propósitos para sua glória e para o melhor de seus eleitos.”
Matthias G. Lohmann, presidente, Evangelium21; pastor, Free Evangelical Church, Munique,
Alemanha

“Em minha estimativa, este livro representa as mais maduras e mais completas reflexões bíblico-
teológicas de John Piper. Como pastor e mestre, perguntam-me com frequência: “Como posso
reconciliar o que sei sobre Deus, o homem e a criação, na Bíblia, com a maneira como vivencio esse
conhecimento?”. Graças a John Piper, agora tenho uma obra definitiva que pode me ajudar a responder a
perguntas dessa natureza. Esta obra levará os leitores a se deleitarem em Deus e em sua realidade
revelada, ao se admirarem do propósito de Deus para sua criação.”
Biao Chen, coordenador do Projeto Chinês, Third Millennium Ministries

“A obra de John Piper sempre enfatiza a glória de Deus e a alegria de seu povo. Agora, Piper nos oferece
um grandioso tratado sobre a consoladora doutrina da providência de Deus, transitando entre teologia
bíblica e teologia sistemática com precisão e profundo conhecimento da Escritura, sem perder o foco
nos aspectos pastorais dessa doutrina bíblica tão importante. Que o Senhor da glória use este livro para a
edificação e a alegria de seu povo!”
Franklin Ferreira, diretor acadêmico, Seminário Martin Bucer, São José dos Campos-SP, Brasil

“John Piper mostra, de forma habilidosa, como a verdade da providência se relaciona diretamente com
diversas áreas da teologia. Providência mistura a teologia e o discernimento bíblico de Piper com mais de
quarenta anos de ministério pastoral. Trata-se de um verdadeiro tesouro para a igreja global e será um
recurso valioso para a igreja de Deus nos anos por vir.”
Sherif A. Fahim, palestrante em Teologia Sistemática e Estudos Bíblicos, Alexandria School of
Theology, Egito; diretor-geral, El-Soora Ministries
A todos os missionários
que deram suas vidas,
ou que ainda as darão,
para reunir os eleitos entre todos os povos do mundo,
na confiança de que os propósitos de salvação
da Providência
em Jesus Cristo
não podem falhar.
Sumário

Introdução | Quatro convites


PARTE 1 | UMA DEFINIÇÃO E UMA DIFICULDADE
1 | O que é a providência divina?
2 | A autoexaltação divina é uma boa-nova?
PARTE 2 | O OBJETIVO SUPREMO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | O objetivo supremo da providência antes da criação e na criação
3 | Antes da criação
4 | O ato de criação
Seção 2 | O objetivo supremo da providência na história de Israel
5 | Visão geral: de Abraão à era vindoura
6 | O Êxodo
7 | Lembrando o Êxodo
8 | A Lei, o deserto e a conquista de Canaã
9 | O tempo dos juízes e os dias da monarquia
10 | A proteção, a destruição e a restauração de Jerusalém
Seção 3 | O objetivo supremo da providência no desígnio e no estabelecimento da nova aliança
11 | Os propósitos da nova aliança
12 | O ato fundamental de Cristo em estabelecer a nova aliança
13 | A entrada do pecado na criação e a glória do evangelho
14 | A glória de Cristo na glorificação de seu povo
PARTE 3 | A NATUREZA E A EXTENSÃO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | Montando o palco
15 | Conhecendo a providência do Deus que é
Seção 2 | A providência sobre a natureza
16 | A perda e a recuperação do teatro de maravilhas
17 | Terra, água, vento, plantas e animais
Seção 3 | A providência sobre Satanás e os demônios
18 | Satanás e os demônios
19 | A existência contínua de Satanás
Seção 4 | A providência sobre reis e nações
20 | O Rei divino de Israel é Rei das nações
21 | Reino humano e o Rei dos reis
22 | Para saber que o Altíssimo reina e regozijar-se nisso
Seção 5 | A providência sobre a vida e a morte
23 | Um banho da verdade e o dom do nascimento
24 | O Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor
25 | Somos imortais até que nossa obra acabe
Seção 6 | A providência sobre o pecado
26 | O querer e o agir humanos naturais
27 | Coisas que sabemos e coisas que não precisamos saber
28 | José: o bom propósito de Deus num ato pecaminoso
29 | Israel odiado, Faraó endurecido, Deus exaltado, os desamparados salvos
30 | Famílias arruinadas
31 | Engano e insensibilidade de coração
32 | Embora cause tristeza, Deus terá compaixão
33 | Uma perversidade que Deus odiava tremendamente
Seção 7 | A providência na conversão
34 | Nossa condição antes da conversão
35 | Três quadros bíblicos de como Deus traz as pessoas à fé
36 | A fé salvadora como o dom da providência
37 | Retornando às preciosas raízes da eleição
Seção 8 | A providência sobre o viver cristão
38 | Perdão, justificação e obediência
39 | A estratégia divina de mandamento e advertência
40 | Aos que chamou, a esses também glorificou
41 | Zelo por boas obras comprado com sangue
42 | Operando em nós o que é agradável diante dele
43 | Matando o pecado e criando o amor — pela fé
Seção 9 | A realização final da providência
44 | O triunfo das missões e a vinda de Cristo
45 | Novos corpos, novo mundo, alegria incessante em Deus
Conclusão | Vendo e provando a providência de Deus
Introdução | Quatro convites

Deus revelou o objetivo, a natureza e a extensão de sua providência. Ele não ficou em silêncio. E nos
mostra essas coisas na Bíblia. Essa é uma das razões por que o apóstolo Paulo diz: “Toda a Escritura é…
útil” (2Tm 3.16). A utilidade não reside principalmente na validação de um ponto de vista teológico,
mas, sim, na revelação de um grande Deus, na exaltação de sua graça invencível e na libertação de seu
povo indigno. Deus revelou sua soberania intencional sobre o bem e o mal, a fim de humilhar o orgulho
humano, intensificar a adoração humana, vencer o desamparo humano e colocar lastro no assolado
barco da fé humana, vigor na coragem humana, alegria nos gemidos de aflição e amor no coração que
não vê um caminho adiante.
O que encontramos na Bíblia é real e autêntico. A valorização e a proclamação da providência
pervasiva de Deus foram forjadas em chamas de ódio e amor, engano e verdade, assassinato e
misericórdia, carnificina e bondade, maldição e bênção, mistério e revelação, e, finalmente, crucificação e
ressurreição. Espero que minha consideração sobre a providência de Deus tenha o aroma dessa realidade
chocante e repleta de esperança.
Nesta introdução, gostaria de lhe oferecer quatro convites.

MARAVILHAS CONTRAINTUITIVAS
Em primeiro lugar, convido você para um mundo bíblico de maravilhas contraintuitivas. Argumentarei
que essas maravilhas não são ilógicas nem contraditórias, mas tão somente diferentes de nossa forma
usual de ver o mundo — tão diferentes que nossa primeira reação é, muitas vezes, dizer: “Não pode ser
assim”. Mas o “não pode” está em nossa mente, e não na realidade. “Quão insondáveis são os seus juízos,
e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).
Por exemplo, na justiça de seu julgamento, Deus levanta um pastor cruel para seu povo e, em
seguida, envia punição sobre esse pastor:
Porque eis que suscitarei um pastor na terra, o qual não cuidará das que estão perecendo, não buscará a desgarrada, não curará a
que foi ferida, nem apascentará a sã; mas comerá a carne das gordas e lhes arrancará até as unhas. Ai do pastor inútil, que
abandona o rebanho! A espada lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o braço, completamente, se lhe secará, e o olho
direito, de todo, se escurecerá (Zc 11.16-17).

Isso nos abala. Para a maioria de nós, essa não é a maneira como, em geral, pensamos sobre os
caminhos de Deus. Primeiro, o fato de que Deus suscita um pastor cruel para seu povo parece envolver
Deus em crueldade pecaminosa. Segundo, o fato de que Deus julga o pastor por sua inutilidade parece
condenar caprichosamente o que ele mesmo ordenou.
Existem muitas cenas assim na Bíblia, e eu argumentarei que, em todas elas, Deus não é nem
pecaminoso nem caprichoso. Se nos inclinarmos a ser críticos, e não mudados, teremos de colocar a mão
na boca e ouvir. Somos pecadores e finitos. Deus é infinito e santo.
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR,
porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os
meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos (Is 55.8-9).

Eu o estou convidando a um mundo de maravilhas contraintuitivas. Espero que você permita que a
palavra de Deus crie novas categorias de pensamento, em vez de tentar forçar a Escritura a se enquadrar
nos limites do que você já conhece. Quando Paulo nos chama para sermos transformados pela
renovação de nossa mente (Rm 12.2), parte do que ele tem em vista é a superação de nossa resistência
natural à estranheza dos caminhos de Deus. Imediatamente antes de exigir mentes transformadas, Paulo
escreveu:
Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão
inescrutáveis, os seus caminhos! “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro
deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36).

Em última análise, meu convite para o mundo bíblico de maravilhas contraintuitivas é um convite à
adoração. Deus é amplamente maior, mais desconhecido, mais glorioso, mais terrível e mais amoroso do
que compreendemos. Nossa imersão no oceano de sua providência nos ajuda a conhecê-lo, temê-lo,
confiar nele e amá-lo da forma devida.

PENETRANDO NA REALIDADE POR MEIO DE PALAVRAS


Segundo, eu o convido a penetrar na realidade por meio de palavras. Providência é uma palavra que não
se encontra na Bíblia. Nesse sentido, assemelha-se a palavras como Trindade, discipulado, evangelização,
exposição, aconselhamento, ética, política e carismático. Pessoas que amam a Bíblia e creem que é a palavra
de Deus querem saber o que é ensinado ali, e não somente o que é dito. Querem conhecer a realidade
que está sendo apresentada, e não somente as palavras que foram escritas.
A própria Bíblia deixa claro que não basta citarmos suas palavras. A Bíblia ordena que todas as igrejas
tenham mestres. Todas as igrejas devem ter presbíteros (Tt 1.5), os quais devem ser mestres (1Tm 3.2).
A tarefa de um mestre é não somente ler a Bíblia para seus ouvintes, mas também explicá-la. E explicar
implica usar outras palavras além daquelas que se encontram no texto. Em toda a história da igreja, os
hereges têm insistido frequentemente em afirmar que usam somente as palavras da Bíblia para defender
sua heresia. Certamente, foi isso que aconteceu no século IV, no caso dos arianos, que rejeitavam a
deidade de Jesus e se alegravam em usar as palavras da Bíblia com esse propósito. 1

R. P. C. Hanson explicou o processo nos seguintes termos: “Teólogos da Igreja cristã estavam sendo,
pouco a pouco, levados a uma compreensão de que as questões mais profundas com que o cristianismo
deparava não tinham resposta com uma linguagem puramente bíblica, porque diziam respeito ao
significado da própria linguagem bíblica”. 2

Quanto mais estudo as Escrituras e tento pregá-las e ensiná-las, mais me dou conta da necessidade de
encorajar os pregadores e leigos a penetrar na realidade bíblica por meio das palavras bíblicas. É muito
fácil pensarmos que experimentamos comunhão com Deus quando nossa mente e nosso coração se
satisfazem com definições verbais, relações gramaticais, ilustrações históricas e algumas aplicações.
Quando fazemos isso, até mesmo as palavras da Bíblia podem tornar-se alternativas ao que Paulo chama
entendimento… espiritual” (συνέσει πνευματικῇ — Cl 1.9).
Usarei o termo providência para fazer referência a uma realidade bíblica. A realidade não se encontra
em uma palavra específica da Bíblia; a realidade surge da maneira como Deus se revelou nos muitos
textos e histórias da Bíblia. São como fios entretecidos num lindo tapete maior que qualquer um dos fios.
Estamos usando uma palavra que não está na Bíblia em prol dessa verdade maior da Bíblia.
Sem dúvida, há risco em se fazer isso — assim como há risco em se usar somente a linguagem da
Bíblia, que pode ser distorcida para comunicar significados falsos, enquanto dá a impressão de fidelidade
bíblica (cf. 2Pe 3.16). Mencionarei, entre outros, um desses riscos.
Visto que o termo providência não é usado em textos específicos da Bíblia, não temos um
determinante bíblico sobre seu significado. Não podemos dizer: “A Bíblia define providência dessa
maneira”. Poderíamos dizer isso somente se a Bíblia usasse o termo providência. Sempre que
perguntamos o que uma palavra significa, tem de haver um indicador do significado, para que esse
significado seja válido. Portanto, se o indicador não é um (ou mais) dos escritores bíblicos, então,
quando uso a palavra providência, tenho de atribuir um significado. Isso é o que faço no Capítulo 1. Não
atribuo um significado arbitrário. Tento permanecer próximo do que outras pessoas queriam dizer com
a palavra na História da Igreja. Mas, de fato, escolho o significado.
Você pode perceber o que isso implica. Implica que a questão apresentada neste livro não é o
significado da palavra providência. A questão é a seguinte: a realidade que vejo na Bíblia e chamo de
providência está realmente lá? Não há utilidade alguma em debatermos sobre se providência é o melhor
termo que expressa a realidade. Isso é relativamente insignificante. A verdade que importa é se, na Bíblia,
há uma realidade que corresponde à minha descrição do objetivo, da natureza e da extensão da soberania
intencional de Deus. No Capítulo 1, você verá por que uso a definição sucinta “soberania intencional”
para providência. Por ora, contudo, destaco o risco de cometermos um erro infeliz ao ignorarmos a
realidade bíblica quando nos concentramos na palavra em si.

UM MUNDO CENTRADO EM DEUS


Terceiro, eu o convido a um mundo centrado em Deus. Jesus disse que olhemos para as aves, pois Deus
as alimenta (Mt 6.26), e consideremos os lírios do campo, pois Deus os veste (Mt 6.28-30). O objetivo
de Jesus não era estético. Seu objetivo era libertar as pessoas da ansiedade. Ele considerou realmente um
argumento válido o fato de que, se nosso Pai celestial alimenta as aves e veste os lírios, quanto mais
alimentará e vestirá seus filhos!
Isso é simplesmente extraordinário. O argumento é válido apenas se Deus for realmente aquele que
cuida para que as aves encontrem seus vermes e os lírios vistam suas flores. Se as aves e os lírios estão
agindo segundo leis naturais, sem a mão divina, então Jesus estava apenas brincando com palavras. Mas
ele não estava brincando com palavras. Jesus realmente acreditava que a mão de Deus está em atividade
nos mínimos detalhes dos processos naturais. Isso é ainda mais evidente em Mateus 10.29-31:
Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros,
até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais.
Deus não somente alimenta os pássaros e vestes os lírios, como também decide quando cada pássaro
(os incontáveis milhões deles, todos os anos) morre e cai no chão. O argumento de Jesus é o mesmo
afirmado em Mateus 6: “Ele é o Pai de vocês. Para ele, vocês são mais preciosos do que pássaros.
Portanto, não precisam ficar com medo”. Esse tipo de providência pervasiva, combinada com esse tipo
de cuidado paternal, significa que Deus pode cuidar — e cuidará — de você. Portanto, busque, em
primeiro lugar, o reino dele, com abandono radical, e não fique ansioso (Mt 6.33).

Carregado de grandeza
Não era só Jesus que tinha essa visão de mundo centrada em Deus. Os salmistas cantaram ao Senhor
sobre seu cuidado específico com as criaturas que ele mesmo fez:
Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se
ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e,
assim, renovas a face da terra (Sl 104.27-30).

O envolvimento de Deus na criação é pessoal — o tipo de proximidade que leva os escritores


bíblicos a fazerem declarações como: “Faz brotar nos montes a erva” (Sl 147.8). “Deparou o SENHOR
com um grande peixe, para que tragasse a Jonas” (Jn 1.17). “[…] fez o Senhor Deus nascer uma planta”
(Jn 4.6). “Deus […] enviou um verme, o qual feriu a planta” (Jn 4.7). Ele “faz subir as nuvens dos
confins da terra, faz os relâmpagos para a chuva, faz sair o vento dos seus reservatórios” (Sl 135.7). Ele
“repreendeu o vento e a fúria da água” (Lc 8.24). Isso não é poesia que se refere a processos naturais sem
Deus; isso é a providência pessoal de Deus.
Deus não quer que vejamos a nós mesmos ou qualquer parte de seu mundo como dentes nas
engrenagens de um mecanismo impessoal. O mundo não é uma máquina que Deus fez para mover-se
sozinha. É um quadro, uma escultura ou um drama. O Filho de Deus o sustenta pela palavra de seu
poder (Cl 1.17; Hb 1.3). Gerard Manley Hopkins expressou isso de forma inesquecível em seu famoso
soneto “Grandeza de Deus”:
O mundo está carregado da grandeza de Deus.
Vai chamejar — chispas em sacudidas folhas de metal;
Vai expandir-se — óleo que imprensado escorre, tal e qual,
E alaga. Por que o homem não teme o açoite dos céus?
Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem;
Pelas lides, pelo tráfego, um mundo sujo e crestado;

E, apesar disso tudo, a natureza nunca se esgota;


Todas as coisas nela vivem num frescor renovado;
Inda que no turvo ocaso sumam as últimas luzes,
A manhã, na fímbria castanha do oriente, brota –
Porque o Espírito Santo, sobre este mundo vergado,
Vigia com peito cálido e oh! luzentes asas.3
Vendo o nascer do sol
Nunca deixarei de ser grato pelo fato de, nos meus dias de faculdade, Clyde Kilby ter sido um de
meus professores de literatura. Certa vez, ele nos deu uma aula sobre o despertamento de admiração
com a glória estranha das coisas comuns. E terminou a aula com dez resoluções para o que ele chamou
de “saúde mental”. Eis duas de suas resoluções:
4

Abrirei meus olhos e ouvidos. Uma vez por dia, simplesmente contemplarei uma árvore, uma flor, uma nuvem ou uma pessoa. E
não me preocuparei, de maneira alguma, em perguntar o que são; apenas me alegrarei com o fato de que são. E lhes atribuirei,
com alegria, o mistério do que C. S. Lewis chama sua existência “divina, mágica, aterrorizante e extasiante”.

Ainda que eu esteja errado, apostarei minha vida na admissão de que este mundo não é idiota, nem administrado por um senhorio
ausente. Ao contrário, admitirei que hoje, neste dia, alguma pincelada está sendo acrescentada à pintura cósmica que, em seu
devido tempo, entenderei com alegria como uma pincelada feita pelo Arquiteto que se chama Alfa e Ômega.

Pela influência do professor Kilby, que me abriu os olhos, e pelo que vejo agora na Bíblia como
providência que abrange e permeia tudo, vivo de forma mais consciente num mundo exultante de Deus.
Vejo a realidade de uma forma diferente. Por exemplo, eu costumava olhar para o nascer do sol, quando
fazia caminhada, e pensava que Deus havia criado um mundo lindo. Depois, isso se tornou menos
genérico e mais específico, mais pessoal. Eu dizia: “Todas as manhãs, Deus pinta um nascer do sol
diferente”. Ele nunca se cansa de fazê-lo, de novo e de novo. Mas, então, fui impactado. Ele não o faz de
novo e de novo. Deus nunca para de fazer isso. O sol está sempre se levantando em algum lugar do
mundo. Deus guia o sol 24 horas por dia e pinta auroras a cada instante, século após século, sem um
segundo sequer de intervalo. E nunca se sente cansado ou fica menos satisfeito com a obra de suas mãos.
Até mesmo quando as nuvens impedem o homem de ver o sol, Deus está pintando auroras espetaculares
acima das nuvens.
Deus não tenciona que olhemos para o mundo que ele criou e não sintamos nada. Quando o salmista
diz: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1), sua
intenção não é que isso seja apenas para o esclarecimento de nossa teologia. O salmista escreveu isso
para a exultação de nossa alma. Sabemos isso porque ele diz logo em seguida:
Aí [no céu], pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu
caminho (vv. 4-5).

Por que ele disse isso? Quando olhamos para a obra de Deus na criação, devemos ser atraídos a uma
alegria semelhante à de aposentos nupciais e ao gozo de um Eric Liddell correndo com a cabeça curvada
para trás, os cotovelos balançando e um largo sorriso no filme Carruagens de fogo, deleitando-se no
próprio prazer de Deus.
Estou convidando-o a entrar em um mundo no qual Deus é o centro. Não, não somos ignorantes das
misérias que todo nascer do sol traz. Talvez você fique chocado com as implicações da pervasiva
providência de Deus no sofrimento e na morte deste mundo. O Senhor dá e o Senhor toma (Jó 1.21). E
o sol exultante nasce sobre 150 mil novos cadáveres a cada manhã. É assim que muitas pessoas morrem
todos os dias. Num mundo que tem essa beleza fascinante de Deus e esse horror governado por Deus, o
mandamento bíblico de nos alegrarmos com os que se alegram e de chorarmos com os que choram (Rm
12.15) significa que estaremos continuamente “entristecidos, mas sempre alegres” (2Co 6.10).

CONHECER DEUS
Em quarto e último lugar, convido-o a conhecer, talvez como você nunca conheceu, o Deus cujo
envolvimento na vida de seus filhos e no mundo é tão pervasiva, tão envolvente e, por isso, tão poderoso
que nada pode acontecer com eles além do que Deus planeja para a glorificação deles em Cristo e para
sua glorificação neles (2Ts 1.12).
A morte do Filho de Deus comprou um povo para Deus, de todas as tribos, línguas e nações (Ap
5.9). A transação entre o Pai e o Filho, na morte de Cristo, foi tão poderosa que garantiu
completamente, por todo o tempo e por toda a eternidade, tudo que é necessário para trazer a noiva de
Cristo, em segurança e com grande beleza, ao gozo eterno.
Romanos 8.32 talvez seja o versículo mais importante na Bíblia, porque estabelece a inabalável
conexão entre o maior evento do universo e o maior futuro imaginável: “Aquele que não poupou o seu
próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as
coisas?”.
De fato, ele nos dará! Todas as coisas. Todas as coisas!
Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a
morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus (1Co 3.21-23).

Tudo é nosso. Porque o Pai não poupou o Filho. Quando Cristo morreu, tudo — absolutamente
tudo — que seu povo necessitava para viver neste mundo em santidade e amor foi invencivelmente
garantido. Deus, o Pai, predestinou isso — tudo que precisamos — e o prometeu a nós (Ez 36.27; Rm
8.29). Deus, o Filho, comprou isso para nós (Tt 2.14). Deus, o Espírito, o realiza em nós (Gl 3.5; Hb
13.21). Nada pode separar-nos do amor de Deus em Cristo (Rm 8.35-39).
Gostaria de ajudar o maior número de pessoas possível a conhecer o Deus de providência todo-
pervasiva, todo-envolvente e invencível. A palavra de Deus é espetacularmente repleta de conhecimento
sobre o objetivo supremo de Deus. Do início ao fim, ela ressoa as riquezas da graça de Deus em relação
ao seu povo indigno. Página após página, a Bíblia nos conta a maravilhosa história da natureza e da
extensão da providência de Deus. Nada pode impedi-lo de ser bem-sucedido exatamente quando e
como ele almeja ser bem-sucedido.
Eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer
e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha
vontade (Is 46.9-10).

OBJETIVO, NATUREZA, EXTENSÃO


O livro está dividido em três partes. A Parte 1 define providência e, em seguida, explica a dificuldade, ou
seja, a autoexaltação envolvida no alvo de Deus de manifestar sua própria glória. A Parte 2 se concentra
no objetivo supremo da providência. A Parte 3 se volta à natureza e à extensão da providência. Escolhi
essa ordem (objetivo antes de natureza e extensão) porque acho que entendemos mais claramente o que
uma pessoa está fazendo quando sabemos a finalidade que ela está buscando. Se eu sei que seu objetivo é
construir uma casa em Minnesota, entenderei o que você está fazendo quando cavar um grande buraco
no solo. Porões são importantes nesse clima. Do contrário, sem conhecer seu alvo, não saberei o que o
buraco no solo significa. A natureza e a extensão do buraco são explicadas pelo objetivo.
Refiro-me ao objetivo supremo da providência porque Deus está sempre fazendo dez mil coisas em
cada ato da providência. (Isso é uma estimativa baixa.) Cada uma dessas dez mil coisas é intencional.
Isso significa que Deus tem milhões e milhões de alvos a cada hora. E realiza todos eles. Não
conhecemos a maioria deles. (Isso também é uma estimativa baixa.) Portanto, a Parte 2 deste livro não é
uma tentativa de conhecermos todos esses objetivos. Isso é impossível. O que quero saber é em que
direção tudo está indo. Qual é o alvo que guia todas as coisas?
Assim, tornamo-nos capazes de compreender mais plenamente a natureza e a extensão da
providência divina. Ao falar em extensão, quero dizer: quanto e quão completamente Deus controla as
coisas, incluindo os seres humanos? Ao falar em natureza, quero dizer, por exemplo: quais são os meios
que Deus usa para controlar as coisas? Controlar é a palavra certa? Essa não é minha palavra usual para
descrever providência. Não porque o termo seja falso, mas porque tende a carregar a conotação de
processos mecânicos e estratégias coercitivas. Eu a usarei. Mas espero mostrar constantemente por que
essa conotação não se vincula à providência de Deus.
A providência abrange tudo e permeia tudo, mas, quando Deus muda a vontade humana, há um
mistério que faz a pessoa experimentar o mudar de Deus como uma preferência dela própria — um ato
autêntico e responsável da vontade humana. Deus é soberano sobre as preferências do homem. O
homem é responsável por suas preferências. A mão oculta de Deus em mudar todas as coisas e seus
mandamentos revelados que exigem obediência completa estão em perfeita sintonia na mente de Deus,
mas não em nossa experiência visível. Somos obrigados a seguir os preceitos revelados de Deus, e não
seus propósitos secretos. Veremos que essa é a natureza da providência.
5

Os arianos afirmavam sentenças bíblicas e, ao mesmo tempo, negavam o significado bíblico. Eis uma descrição do procedimento deles: “Os
alexandrinos […] confrontaram os arianos com as expressões tradicionais da Escritura que pareciam não deixar dúvida quanto à divindade
eterna do Filho. Mas, para sua surpresa, deparavam com uma aquiescência perfeita. Somente quando cada teste foi proposto, observava-se
que os membros do grupo suspeito cochichavam e gesticulavam entre si, indicando evidentemente que cada sentença poderia ser aceita
com segurança, desde que se admitisse evasão. Se lhe pediam concordância com a afirmação ‘semelhante ao Pai em todas as coisas’, tal
concordância era dada, com a ressalva de que o homem como tal é ‘a imagem e a glória de Deus’. A expressão ‘o poder de Deus’ suscitava a
explicação de que a hoste de Israel fora chamada de δυναμις κυριου [poder do Senhor] e de que até o gafanhoto e a lagarta são chamados o
‘poder de Deus’. A ‘eternidade’ do Filho era refutada pela passagem ‘Nós, que vivemos, somos sempre (2Co 4.11)!’. Os pais eram
confundidos, e o teste de ομοουσιον [mesmo ser], com o qual a minoria estivera preparada desde o início, era aceito pela maioria com as
evasões dos arianos”.
Veja Archibald T. Robertson, “Prolegomena”, em St. Athanasius: Select Works and Letters, ed. Philip Schaff e Henry Wace, vol. 4, Select
Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2nd Series (New York: Christian Literature Company, 1892), xix.

R. P. C. Hanson, The Search for the Christian Doctrine of God: The Arian Controversy (Edinburgh: T. & T. Clark, 1988), xviii-xix.

Gerard Manley Hopkins, “God’s Grandeur”, Poetry Foundation, acesso em 9 de ago. de 2020,
[Link]/poems/44395/gods-grandeur [tradução em português de Aíla de Oliveira Gomes, em Gerard Manley Hopkins:
Poemas (São Paulo: Companhia das Letras, 1989)].
Você pode ler todas no seguinte artigo: John Piper, “10 resoluções para a saúde mental”, Voltemos ao Evangelho, 2 de jan. 2010,
[Link]/blog/2010/01/10-resolucoes-para-a-saude-mental/. Quando Kilby fala de “saúde mental”, está falando
de maneira geral, e não clínica. Ele não tem em vista as enfermidades mentais que podem ser clinicamente diagnosticadas.

Aqui, adaptei as palavras de John Owen: “A santidade de nossas ações consiste em conformidade com os preceitos de Deus, e não com seus
propósitos”. John Owen, The Works of John Owen, vol. 10, ed. William H. Goold (Edinburgh: T&T Clark, n.d.), 48.
PARTE 1 | UMA DEFINIÇÃO E UMA
DIFICULDADE
1 | O que é a providência divina?

A razão pela qual este livro é a respeito da providência de Deus, e não da soberania de Deus, é que a
palavra soberania não contém a ideia de ação intencional, mas a palavra providência, sim. Soberania
enfatiza o direito e o poder que Deus tem para fazer tudo o que quer, mas, em si mesma, não expressa
propósito ou objetivo.
Sem dúvida, a soberania de Deus é intencional, tem propósito e busca um objetivo. No entanto,
sabemos isso não simplesmente porque Deus é soberano, mas também porque é sábio e porque a Bíblia
o retrata como tendo propósitos em tudo que faz. “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a
minha vontade” (Is 46.10).
O foco deste livro está na soberania de Deus considerada não simplesmente como poderosa, mas
também como intencional. Historicamente, o termo providência tem sido usado como uma forma
abreviada de referência a esse foco mais específico.

OS ELEMENTOS DE FORMAÇÃO DA PALAVRA PROVIDÊNCIA


Por que escolhi a palavra providência para expressar esse ensino bíblico? Em relação a Deus, o termo não
ocorre na maior parte das Bíblias. É difícil estarmos certos da história de uma palavra e por que ela
chegou a ter o presente significado. Eis a minha sugestão.
A palavra providência tem origem nos termos em latim pro (“adiante”, “em favor de”) e vide (“ver”).
Assim, você chegaria aos significados “ver adiante” ou “prever”. Mas não. Significa “suprir o que é
necessário”, “dar sustento ou apoio”. Portanto, em referência a Deus, o substantivo providência chegou a
significar “o ato de prover intencionalmente o necessário, sustentar ou governar o mundo”.
Por que isso acontece? Existem duas razões interessantes. Uma baseada na própria etimologia e a
outra baseada numa história bíblica.

DEUS “CUIDA PARA QUE ACONTEÇA”


Em língua inglesa, temos uma expressão idiomática que diz “I’ll see to it”. Como todas as expressões
idiomáticas, essa significa mais do que as palavras tomadas individualmente parecem significar. “I’ll see
to it” significa, em inglês, “Eu cuidarei disso”. Eu proverei as coisas necessárias para isso. Eu cuidarei (ou
garantirei) que isso aconteça. Então, talvez a colocação do latim vide (“ver”) ao lado do latim pro (“para”,
“em direção a”), resultando no termo provide, em língua inglesa, tenha produzido “ver para” e tenha
chegado a significar mais do que “prever”, ou seja, tenha chegado a significar “ver isso”, no sentido de
“cuidar disso” ou “cuidar para que isso aconteça”. Isso resumiria o que queremos dizer ao falar da
providência de Deus: ele cuida para que as coisas aconteçam de certa maneira.

PROVIDÊNCIA NO MONTE MORIÁ


Em seguida, e de forma mais interessante, há a história bíblica de Abraão oferecendo seu filho Isaque.
Antes de subirem ao monte Moriá, Isaque disse a seu pai: “Onde está o cordeiro para o holocausto?”
(Gn 22.7). Abraão respondeu: “Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto” (22.8). E,
quando Deus mostrou a Abraão um carneiro preso nos arbustos, “pôs Abraão por nome àquele lugar —
O SENHOR proverá” (22.14).
O que impressiona é que, sempre que a palavra prover ocorre em Gênesis 22, a palavra hebraica é
simplesmente “ver”. Abraão, de uma forma bem simples, disse a Isaque: “Deus verá para si mesmo o
cordeiro” (22:8 ‫)ֶה ַשּׂ ה לּ־ֶה אְׅר י‬. De modo semelhante, no versículo 14: “O SENHOR Proverá [O
Senhor verá ‫]הָו הְי ֶה אְׅר י‬. Daí dizer-se até os dias de hoje: “No monte do SENHOR se proverá” [será visto
‫”]ֶה אְׅר י הָו הְי ַת ְה בּ‬.
No que diz respeito à doutrina da providência, a pergunta é esta: por que o ver de Deus em Gênesis
22 refere-se realmente a seu prover — à sua providência?
Minha sugestão de resposta é que, na mente de Moisés e de outros autores da Escritura, Deus não se
limita a ver como um espectador passivo. Como Deus, ele nunca é simplesmente um observador. Ele não
é um observador passivo do mundo, nem um profetizador passivo do futuro. Para onde quer que Deus
esteja olhando, ele está agindo. Em outras palavras, há uma profunda razão teológica para a providência
de Deus não significar apenas seu ver, mas, em vez disso, seu agir. Quando Deus vê algo, ele faz isso.
Evidentemente, quando Moisés escreveu Gênesis 22, o engajamento intencional de Deus com Abraão
era tão óbvio que Moisés pôde apenas referir-se ao perfeito ver de Deus como subentendendo o fazer
intencional de Deus. Seu ver foi seu fazer. Sua percepção subentendia sua provisão — sua providência.

O DILEMA EM ESCREVER UM LIVRO COMO ESTE


Estas são minhas sugestões a respeito de como a palavra providência chegou a significar “o ato de Deus
prover o necessário ou sustentar e governar o mundo. Sem dúvida, é menos importante saber se estou
certo a respeito disso. No que diz respeito a palavras, o importante não é sabermos de onde vêm ou
como adquiriram determinado significado. O importante é que compreendamos verdadeiramente o que
um escritor ou um falante tenciona comunicar com elas.
Então, tem início a tarefa real: o que um autor tenciona comunicar com palavras se conforma à
realidade? A concepção de providência que um autor descreve é verdadeira? Ou, no caso deste livro,
visto que adoto a Bíblia como o fundamento da verdade: conseguimos compreender verdadeiramente o
que a Bíblia ensina a respeito da providência de Deus?
Portanto, ao esclarecer mais especificamente o que pretendo dizer com providência de Deus, devo
ser claro em dizer que me encontro em uma espécie de dilema. Por um lado, devo, em primeiro lugar,
apresentar minha evidência a partir da Bíblia, a fim de apoiar meu entendimento da providência de
Deus. Por outro lado, tenho de usar a palavra providência quando exponho essa evidência, e a palavra
deve ter um significado claro para meus leitores — significado que só pode vir dessa evidência. Não
posso lhe atribuir um sentido claro do que estou querendo dizer com providência se antes não lhe dou a
evidência disso; de outro modo, posso usar, de forma ambígua, a palavra providência em todo o livro e
esperar por uma concepção clara até o final do livro.
Não gosto de ambiguidade. Acho que é fonte de muita confusão e de muito erro. Por isso, escolho a
primeira opção. Aqui no começo, vou lhe dar uma concepção tão clara quanto posso lhe dar sobre o que
pretendo dizer com a palavra providência, reconhecendo que essa definição se baseia em evidência ainda
não provada. Depois, você pode entender o restante do livro como apoio, explicação, aplicação e
celebração bíblica dessa concepção de providência.
Meu objetivo, neste livro, não é desenvolver um novo significado de providência que a igreja não
tenha adotado em suas confissões históricas de fé. Em vez disso, tenciono reunir das Escrituras alguns
velhos gravetos de verdade, amontoá-los de forma visível e pôr fogo neles. Faço isso não por querer
consumi-los, mas porque desejo liberar suas propriedades incendiárias, com vistas a intensificar a
adoração, solidificar a convicção hesitante, fortalecer a fé assolada, enrijecer a coragem jubilosa e avançar
na missão de Deus no mundo.

ALGUNS ANTIGOS E BONS PONTOS DE VISTA


SOBRE A PROVIDÊNCIA
Vamos retornar alguns séculos para encontrarmos algumas definições de providência com que me sinto
muito feliz, porque acho que elas expressam a verdade bíblica.
Catecismo de Heidelberg (1563)
Questão 27: O que é a providência de Deus?

Resposta: É o poder onipotente e onipresente de Deus, pelo qual, como que por sua mão, ele sustenta o céu e a terra, com todas
as criaturas, e os governa de tal modo que ervas e plantas, chuva e seca, anos frutíferos e estéreis, comida e bebida, saúde e doença,
riqueza e pobreza, todas as coisas não nos vêm por acaso, mas de sua mão paternal.

Em quase todas as confissões, a providência divina significa um “poder onipotente e onipresente de


Deus”. Esse poder “sustenta” e “governa” todas as coisas. Mas o que confere a essa definição sua
inclinação em direção à providência (e não apenas à soberania) é a expressão “de sua mão paternal”. Isso
tem grandes implicações quanto ao desígnio do governo de Deus sobre todas as coisas. Significa que
todas as coisas no universo são governadas tendo em vista o bem dos filhos de Deus! Mas nós temos de
esperar para ver isso mais plenamente.
A Confissão Belga (1561)
Artigo 13. A doutrina da providência de Deus

Cremos que este bom Deus, depois de haver criado todas as coisas, não as abandonou ao destino ou ao acaso, mas, segundo a sua
santa vontade, ele as dirige e governa de tal modo que neste mundo nada acontece sem o arranjo ordeiro de Deus.

Outra vez, Deus “dirige e governa” todas as coisas, de modo que nada é deixado ao “destino ou ao
acaso”. E, outra vez, o que a doutrina sobre a providência enfatiza não é apenas soberania, mas o fato de
que “nada acontece sem o arranjo ordeiro de Deus”. É claro que isso exige uma explicação da palavra
ordeiro. Ordem sugere desígnio e propósito. Ordem com que finalidade? Isso é o que destacaremos na
Parte 2 deste livro.
Catecismo Maior de Westminster (1648)
Questão 18. Quais são as obras da providência?
Resposta: As obras da providência de Deus são a sua mais santa, mais sábia e mais poderosa preservação e governo de todas as
suas criaturas, ordenando-as e todas as ações delas para a sua glória.

A providência de Deus não somente “preserva” e sustenta a existência de “todas as suas criaturas”,
como também “[ordena] todas as ações delas”. O propósito de toda essa preservação e de todo esse
ordenamento é mostrado com clareza: “para a sua glória”. Isso é soberania intencional, que chamamos
providência.
Confissão de Fé de Westminster (1646)
Capítulo 5. Da providência

5.1. Deus, o grande Criador de todas as coisas, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, ações e coisas, desde a maior
até à menor, por meio de sua providência sábia e santa, de acordo com sua presciência infalível e o soberano e imutável conselho
de sua própria vontade, para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia.

Essa é a definição mais completa que vimos até agora. Deus sustenta, dirige, dispõe e governa “todas
as criaturas, ações e coisas”. Isso é soberania pervasiva. Depois, vêm as cores providenciais: soberania
governada por sabedoria e santidade — e tudo “para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça,
bondade e misericórdia”.
Essa maneira de expressar o objetivo da providência de Deus será crucial, por ser fiel à Escritura.
Alguns pontos de vista sobre a providência ressaltam tanto o alvo de Deus em manifestar misericórdia
que o restante de sua glória é obscurecido. Acredito que a resistência da Confissão de Westminster a essa
redução é sábia e bíblica. O alvo da providência de Deus, diz a Confissão, é “o louvor” da glória de Deus
— não somente um aspecto ou uma faceta de sua glória (como amor, graça ou misericórdia), mas toda
ela: “a glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia”.

QUAL É A DIFERENÇA ENTRE PROVIDÊNCIA E DESTINO?


Às vezes, essas afirmações fortes sobre Deus dirigir, dispor e governar todas as criaturas, ações e coisas
conduzem à pergunta sobre como o ponto de vista bíblico a respeito da providência de Deus difere de
destino. A ideia de destino tem uma longa história — desde a mitologia grega até a física moderna. O
que incomoda as pessoas é, em geral, o fato de que destino e providência envolvem uma espécie de
fixidez em relação ao futuro que parece tornar a vida sem significado. Eis a resposta de Charles Spurgeon
(1834–1892) a essa preocupação.
Em primeiro lugar, ele nos oferece sua surpreendente convicção sobre a abrangência minuciosa da
providência divina. A citação que se segue é de um sermão sobre a providência baseado em Ezequiel ١.١
١٩-٥:
Creio que toda partícula de poeira que voa debaixo do sol não se move um milímetro a mais ou a menos do que Deus deseja; toda
partícula de espuma que colide com o barco a vapor tem sua órbita, assim como o sol nos céus; toda palha que voa da mão do
joeireiro é conduzida como as estrelas em seus percursos. O rastejar de um pulgão sobre o botão de uma rosa é tão fixo quanto a
marcha de uma pestilência devastadora; a queda […] das folhas de um álamo é tão ordenada quanto o rolar de uma avalanche.6

Isso é impressionante. Cada minúscula bolha que estoura na espuma no topo de uma lata de Coca-
Cola recém-aberta. Cada grão de poeira flutuante que você só pode ver sob a luz do sol, logo pela manhã,
ainda na cama de seu quarto. Cada ponta de cada haste de grãos que se estende pelas intermináveis
planícies do Nebraska. Todos eles, com todos os seus mais leves movimentos, são governados
especificamente por Deus.
Spurgeon prevê a objeção e prossegue no mesmo sermão:
Você dirá nesta manhã: Nosso pastor é fatalista. Seu pastor não é tal coisa. Alguns dirão: Ah! Ele acredita no destino. Ele não
acredita no destino de maneira alguma. O que é o destino? O destino é isto: o que tem de ser será. Mas há uma diferença entre isso
e a providência. A providência diz: o que Deus ordena será; mas a sabedoria de Deus nunca ordena algo sem um propósito. Tudo
neste mundo está trabalhando para alguma grande finalidade. O destino não diz isso. O destino diz apenas que a coisa tem de ser;
a providência, por sua vez, diz: Deus move as rodas adiante, e lá estão elas.
Se alguma coisa daria errado, Deus a corrige. E, se há alguma coisa que quer se mover obtusamente, Deus coloca sua mão e a
altera. Então, chega-se à mesma coisa; mas há uma diferença quanto ao objetivo. Entre destino e providência, há toda a diferença
que existe entre um homem de olhos bons e um homem cego. O destino é cego; é a avalanche que soterra a vila lá embaixo e
destrói milhares de pessoas. A providência não é uma avalanche; é um rio ondulante, agitado, a princípio, como um riacho que
desce dos lados da montanha, seguido por rios menores, até que chega ao oceano amplo do amor eterno, que trabalha para o bem
da raça humana. A doutrina da providência não é: o que tem de ser será. Antes, a doutrina da providência é: aquilo que existe
trabalha para o bem de nossa raça e, em especial, para o bem do povo eleito de Deus. As rodas estão cheias de olhos; não são
rodas cegas.7

Espero que fique evidente no restante do livro, especialmente na Parte 2, que o propósito supremo
de Deus em sua providência todo-pervasiva é tão intencional, tão sábio, tão santo, tão gracioso e tão
exultante que a última coisa que alguém chamaria é de destino.

PARA O GOZO SEMPRE CRESCENTE


DE TODOS QUE AMAM A DEUS
Concordo com todas as descrições da providência de Deus que já vimos, a descrição das confissões de fé
históricas e a de Spurgeon. Acho que são coerentes entre si e fiéis à Escritura. Isso é o que quero dizer
com a palavra providência neste livro. Mas talvez seja proveitoso fazer mais uma citação para esclarecer
meu próprio ponto de vista.
Durante os meus trinta e três anos como pastor da Bethlehem Baptist Church, os presbíteros
elaboraram cuidadosamente um documento denominado Declaração de Fé dos Presbíteros da Bethlehem
Baptist Church. Como participei desse processo, a afirmação sobre a providência de Deus expressa uma
ênfase que desdobrarei neste livro. Eis as citações essenciais sobre a providência:
3.1. Cremos que, desde toda a eternidade, Deus ordenou e conheceu de antemão, livre e imutavelmente, pelo mui sábio e santo
conselho de sua vontade, tudo que acontece, a fim de manifestar a plena extensão de sua glória para a alegria eterna e sempre
crescente de todos os que o amam.

3.2. Cremos que Deus sustenta e governa todas as coisas — de galáxias a partículas subatômicas, de forças da natureza aos
movimentos das nações, dos planos públicos de políticos aos atos secretos de pessoas solitárias —, tudo de acordo com seus
propósitos eternos e sábios de glorificar a si mesmo, mas de maneira tal que ele nunca peca, nem mesmo condena uma pessoa
injustamente; mas cremos que esse ordenar e esse governar todas as coisas são compatíveis com a responsabilidade moral de
todas as pessoas criadas à imagem de Deus.8

Essa afirmação de que Deus manifesta sua glória “para o gozo eterno e sempre crescente de todos os
que o amam” está implícita, creio, nos credos históricos, como, por exemplo, quando o Catecismo de
Westminster diz que o fim principal do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Mas 9

considero esse objetivo do gozo de Deus e sua relação com a glorificação de Deus tão cruciais ao
propósito de Deus na providência que as torno explícitas e proeminentes. Espero que, na Parte 2, fique
claro que isso não é apenas o que eu faço. É o que a Escritura faz.
Antes de seguir para a tarefa da Parte 2 e para a questão do objetivo de Deus na providência, será
proveitoso lidar com o que muitos veem como uma pedra de tropeço, ou seja, a autoexaltação envolvida
no objetivo de Deus em manifestar sua própria glória. Isso é que examinaremos no Capítulo 2.

Charles Spurgeon, “God’s Providence”, sermão sobre Ezequiel 1.15-19, Bible Bulletin Board, acesso em 9 de abr. de 2020,
[Link]/files/spurgeon/[Link].

Ibidem.

“Elder Affirmation of Faith”, Bethlehem Baptist Church, 18 de out. de 2015, [Link]/elder-affirmation-of-faith/.

Quanto à defesa exegética dessa ideia de gozo sempre crescente, veja a discussão sobre Efésios 2.7 no Capítulo 14.
2 | A autoexaltação divina é uma boa-nova?

Sinto-me tentado a dizer que as pessoas modernas consideram quase impossível receber com alegria e
gratidão o testemunho incansável da Bíblia de que Deus age de forma coerente, tendo em vista sua
própria glória. Estou pensando em textos como Isaías 48.9-11:
Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a
exterminar. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de
mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem.

Escrevi que me sinto tentado a dizer que as pessoas modernas resistem a essa divina autoexaltação,
em vez de se regozijarem nela. Mas, pensando bem, compreendo que essa resistência não é exclusiva das
pessoas modernas. É humana. E é complexa.

NOSSA RESISTÊNCIA À AUTOEXALTAÇÃO DE DEUS


Por um lado, os seres humanos conhecem muito bem a experiência de autoexaltação. Nós a conhecemos
de maneira íntima e pessoal. Todos nós a praticamos. Temos uma aptidão inata para amarmos o louvor e
gostamos, em certo nível, de sermos exaltados. Por outro lado, é uma característica igualmente universal
que não gostamos disso nas pessoas — nem em nós mesmos (em nossos melhores momentos, é claro).
Temos um relacionamento de ódio e amor com o desejo por nossa própria glória.
Nossa resistência ao abundante testemunho bíblico sobre a autoglorificação de Deus torna-se ainda
mais complexa porque, em geral, parece que nós (pelo menos, os americanos) amamos heróis ficcionais
e cinematográficos marcados por arrogância, presunção e segurança própria petulante. Nós lhes damos
vivas estrondosos quando exibem sua capacidade de vencer, mesmo quando se mostram em
desvantagem numérica. Parece que amamos a autoexaltação egoísta e presunçosa. É legal. E, sendo legal,
a autoexaltação (com todas as suas mutações culturais ao longo das décadas) permanece como uma
profunda aspiração do coração humano, bem como um traço admirável que vemos em nossos heróis. É a
contraparte agradável de ser envergonhado. Odiamos ser vistos como tolos. Amamos ser vistos como
espertos e competentes. E queremos que nossos heróis também sejam assim, ainda que ultrapassem os
limites da petulância.
Mas não é tão simples assim. Se esses heróis petulantes começam a usar suas habilidades para agir de
forma injusta e ferir pessoas inocentes — pessoas como nós —, nossa admiração empática se contrai.
Logo, a destreza mental e física e a perspicácia verbal que, antes, os tornavam admiráveis agora os
tornam maus. Perdem sua atração. A fanfarronice de autoexaltação que antes agradava passa a causar
repulsa.
A complexidade da resistência humana à autoexaltação de Deus é acentuada pelo fato de que o
próprio Jesus disse: “Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é” (Jo 8.54). E o apóstolo
Paulo disse: “O amor […] não procura os seus interesses” (١Co ٥-١٣.٤) e: “Ninguém busque o seu
próprio interesse” (1Co 10.24).
NÃO SOMENTE CONTRA UM DEUS QUE EXALTA
A SI MESMO, MAS CONTRA QUALQUER DEUS
No entanto, alimentar nossa resistência à autoexaltação de Deus é algo mais profundo. Superficialmente,
criamos um caso moral de autojustificação contra o suposto egoísmo de Deus, mas, na realidade, há uma
rebelião muito mais profunda em nós que resiste não somente contra um Deus que exalta a si mesmo,
mas também contra qualquer Deus — qualquer Deus real que existe e tenha autoridade sobre o mundo
e sobre nós. Paulo nos diz que essa é uma característica típica do coração humano sem a morte
transformadora de Cristo e a obra do Espírito de Deus:
A mente da carne é hostil a Deus porque não se submete à lei de Deus e, de fato, não pode submeter-se. Aqueles que estão na
carne não podem agradar a Deus (Rm 8.7-8, tradução do autor).

Paulo contrasta aqueles que têm a “mente da carne” com aqueles que têm a mente do Espírito (Rm
8.6). Em seguida, ele descreve aqueles que têm a mente do Espírito: “Vós, porém, não estais na carne,
mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós” (Rm 8.9). Nós mudamos de ter a mente da
carne para ter a mente do Espírito quando o Espírito de Deus vem habitar em nós, pela fé em Cristo (Gl
3.2). Sem o Espírito, recebido pela fé, somos naturalmente insubordinados a Deus e resistentes à sua
autoridade.
Portanto, nosso problema mais profundo em lidar com a autoexaltação de Deus não é o fato de não
gostarmos de algumas categorias de autoridade que exaltam a si mesmas, mas, sim, de a natureza
humana caída não gostar de qualquer tipo de autoridade divina sobre sua vida. A ideia de que Deus não é
atraente para nós porque age para sua própria glória oculta uma resistência profunda: ele não é atraente
porque é Deus.

MAS E SE?
Mas e se o agir contínuo de Deus com vistas à própria glória for menos semelhante a um tirano inseguro
e carente de afirmação pessoal e mais semelhante a uma estrela de basquete profissional que dirige seu
Porsche na periferia da cidade porque ama verdadeiramente crianças pobres e quer lhes dar o prazer de
jogar com seu herói?
E se o agir de Deus em chamar a atenção para sua própria glória for menos semelhante a um médico
charlatão que ergue uma placa dizendo que ele é o melhor e mais próximo de um médico verdadeiro que
tem essa placa porque é, realmente, o melhor — e somente ele pode realizar o procedimento que salvará
a comunidade da doença que se propaga?
E se o agir de Deus em tornar conhecida sua superioridade for menos semelhante a um professor
universitário de arte que incita a grandeza da classe para aumentar sua reputação por atrair mais alunos e
for mais semelhante ao melhor artista do mundo que vai à faculdade e anuncia que ministrará um curso
totalmente gratuito para mostrar aos alunos mais pobres os segredos de sua habilidade superior?
E se a promoção pública do poder de Deus for menos semelhante a um general narcisista e ansioso
por fama que busca a vitória ao sacrificar milhares de soldados por retirá-los de sua posição de segurança,
na retaguarda, e mais semelhante ao general verdadeiramente grandioso que conquista tanto a vitória
como a fama, por estar disposto a morrer na linha de frente pelas tropas que ele ama?
Em outras palavras, se, de fato, descobríssemos que a beleza de Deus é do tipo que atinge o clímax ao
ser compartilhada? E se a atitude que consideramos mera promoção pessoal for, em vez disso, a busca
por compartilhar o maior prazer possível com todos os que quiserem a mesma coisa?
E se as coisas forem como o que Jonathan Edwards acreditava que eram?
Sem dúvida, a felicidade dos santos no céu será tão grande que a própria majestade de Deus será mostrada supremamente na
grandeza, na magnificência e na plenitude dos gozos e deleites deles.10

O OBJETIVO FINAL E SUPREMO DAS OBRAS DE DEUS


Estou considerando o assunto da autoexaltação de Deus no começo deste livro porque, ao chegarmos ao
assunto do objetivo final de Deus na providência, descobriremos na Escritura que a própria glória de
Deus — a beleza de todo o panorama de suas perfeições — é o objetivo mais recorrente, abrangendo
tudo. Todos os esforços que tenho feito para examinar as Escrituras e pensar nelas têm confirmado que a
conclusão de Jonathan Edwards em sua obra O fim para o qual Deus criou o mundo está correta. Esse é 11

um dos livros mais importantes e influentes que já li. Aqui, Edwards apresenta inúmeras razões e textos
das Escrituras para corroborar esse argumento:
Assim, vemos que o objetivo supremo e final das obras de Deus, que é tão diversamente expresso na Escritura, é realmente apenas
um. E esse objetivo único é chamado mais apropriada e extensivamente “a glória de Deus”, nome pelo qual é mais comumente
chamado na Escritura.12

Em outras palavras, ao destacarmos o assunto do objetivo de Deus em suas obras de providência,


temos de encarar o fato de que a Bíblia nos mostra frequente e extensivamente Deus realizando essas
obras para sua própria glória. E, se Edwards está certo (em ambas as citações anteriores), “para a sua
glória” não significa receber a glória que Deus ainda não tem; em vez disso, significa manifestar, vindicar e
comunicar sua glória para o gozo eterno de seu povo — ou seja, para todos aqueles que, em vez de se
ressentirem da autoexaltação de Deus, recebem esse fato como seu tesouro supremo.
Esse é um grande se — se Edwards está certo. A Parte 2 deste livro colocará esse se sob o teste da
Escritura. Na Parte 2, enfatizaremos não apenas a natureza e a extensão da providência divina, mas
também o alvo supremo de tudo que Deus faz em sua providência sobre o mundo. Ficará cada vez mais
claro por que o objetivo de Deus em comunicar sua glória não está em conflito com o de nos tornar
plena e eternamente felizes. Veremos, com base nas Escrituras, e não somente em Jonathan Edwards,
por que a majestade de Deus brilha na plenitude dos gozos que os santos têm na glória de Deus.

GLÓRIA COMO O PANORAMA INTEIRO


DAS EXCELÊNCIAS DE DEUS
Sejamos claros a respeito do significado de Edwards (e do meu). Quando ele afirma que a única
finalidade (ou objetivo) de Deus na providência é chamada “mais apropriada e extensivamente ‘a glória
de Deus’”, ele não quer dizer que a glória de Deus seja um atributo divino entre outros tantos. Por
exemplo, ele não quer dizer que a glória de Deus está competindo com o amor ou com a graça de Deus
como a finalidade da providência. A glória de Deus não compete com seu amor; ela inclui esse amor.
Anteriormente, usei a expressão “a beleza de todo o panorama de suas perfeições” para definir a
glória de Deus. Em outras palavras, a glória de Deus não é qualquer uma de suas perfeições; é a beleza de
todas elas e a maneira perfeitamente harmoniosa como se relacionam entre si e se expressam na criação e
na história.
É importante enfatizarmos isso porque alguns estudiosos, em seu entendimento da providência de
Deus, escolhem tornar uma perfeição de Deus tão proeminente que as outras perfeições são, por assim
dizer, desativadas. Com bastante frequência, isso é feito com o amor de Deus. Por exemplo, alguém pode
acreditar que o amor de Deus não permitiria um ato específico da providência de Deus — como, por
exemplo, o fato de que “saiu o Anjo do SENHOR e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco
mil” (Is 37.36). Talvez perguntem: “Se o amor busca o bem do amado, como Deus permitiria ou mesmo
realizaria um ato que produziu centenas de milhares de órfãos e viúvas assírios da noite para o dia?”
Por essa razão, chamo a atenção, no Capítulo 1, para a maneira sábia e bíblica pela qual a Confissão
de Westminster expressou o objetivo de Deus em suas obras de providência. Todas elas existem, diz a
confissão, “para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia”. Não
somente uma das excelências. Todas elas. Eu concordo com isso. Portanto, quando digo que o objetivo
supremo de Deus na providência é a plena manifestação, vindicação e comunicação de sua glória para o
gozo eterno de seu povo redimido, não tenho a intenção de reduzir esse alvo a qualquer aspecto da glória
de Deus. Estou dizendo que a grandeza e a beleza da glória de Deus são todas as suas excelências
trabalhando em conjunto, em uma harmonia perfeita. 13

Jonathan Edwards, The Miscellanies (Entries 833-1152), ed. Amy Plantinga Pauw (New Haven, CT: Yale University Press, 2002), 189
(#934).

Quanto a uma introdução à vida de Edwards, à implicação de sua teologia no evangelicalismo e ao texto completo de The End for Which
God Created the World, veja John Piper, God’s Passion for His Glory: Living the Vision of Jonathan Edwards (Wheaton, IL: Crossway, 1998).
Para a tradução de The End for Which God Created the World, acesse: [Link]/textos/livros/Jonathan_Edwards_O-fim-
[Link].

Jonathan Edwards, Ethical Writings, ed. Paul Ramsey and John E. Smith, vol. 8, The Works of Jonathan Edwards (New Haven, CT: Yale
University Press, 1989), 530. Veja John Piper, God’s Passion for His Glory, 246.

Em outro lugar, tentei mostrar, com base na Escritura, que “a glória de Deus é a beleza e a grandeza infinitas de suas perfeições
multiformes”. John Piper, “O que é a glória de Deus?”, Voltemos ao Evangelho, 14 de jul. de 2021,
[Link]/blog/2021/07/o-que-e-a-gloria-de-deus/.
PARTE 2 | O OBJETIVO SUPREMO DA
PROVIDÊNCIA
Seção 1 | O objetivo supremo da providência
antes da criação e na criação
3 | Antes da criação

Não usamos comumente a palavra providência para descrever a ação de Deus antes da criação. Mas,
como nosso foco aqui, na Parte 2, está no propósito de Deus na providência, veremos um quadro mais
completo e mais fiel desse propósito se ouvirmos o testemunho bíblico sobre como ela existia antes de
Deus criar o mundo. A Escritura abre a cortina da eternidade passada e nos oferece um vislumbre do ato
de Deus em escolher um povo para si mesmo antes da criação. O objetivo de Deus é afirmado com muita
clareza:
Assim como [Deus] nos escolheu, nele [em Cristo], antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante
ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,
para louvor da glória de sua graça (Ef 1.4-6).

Um dos propósitos de Deus em escolher um povo “antes da fundação do mundo” é que sejamos
“santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4). Mas como essa santidade se expressará? Há um objetivo
mais supremo? Sim. O fato de sermos escolhidos leva consigo um destino estabelecido por Deus — uma
predestinação — e planejado antes da criação. Está nos versículos 5 e 6: Deus “nos predestinou […] para
a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória
de sua graça”.
Se você dividir esse ato de predestinação (1.5-6) em quatro partes e relacioná-las umas com as outras
em ordem, da raiz mais profunda ao fruto mais sublime, a progressão se move da seguinte forma: (1) o
propósito da vontade de Deus dá origem a (2) um plano segundo o qual, por meio de Jesus Cristo, (3)
os eleitos de Deus receberiam a adoção como filhos, com (4) o objetivo supremo de que louvariam a
glória da graça de Deus.
O objetivo supremo de Deus em iniciar todo o plano de salvação antes da criação era que ele seria
louvado para a glória de sua graça.

NÃO SOMENTE GLÓRIA, MAS O LOUVOR DA GLÓRIA


Cinco décadas atrás, quando vi pela primeira vez essa afirmação do supremo propósito de Deus em
nossa salvação, o que prendeu minha atenção foi não somente a maneira inconfundivelmente clara pela
qual a afirmação do propósito é feita (“para louvor da glória de sua graça”), mas também o fato de que
Paulo retorna às palavras desse versículo outras duas vezes em Efésios 1.
Em Efésios 1.11-12, ele diz que fomos “predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as
coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de
antemão esperamos em Cristo”. Existência para o louvor da glória de Deus! E, dois versículos adiante,
Paulo diz que o Espírito Santo é “o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em
louvor da sua glória” (1.14). Herança para o louvor da glória de Deus! Observe: o propósito de Deus é
que sejamos e que possuamos. Existir para o louvor da glória de Deus. Possuir a herança para o louvor da
glória de Deus.
Em outras palavras, o alvo de Deus desde antes da criação era que o que somos e o que temos suscitassem
louvor para sua glória.
Portanto, nesse primeiro capítulo de Efésios, vemos Deus escolhendo-nos para sua glória (1.4),
predestinando-nos para sua glória (1.5), adotando-nos para sua glória (1.5), destinando-nos a sermos para
sua glória (1.12) e garantindo nossa herança para sua glória (1.14). Ou, de uma forma mais clara e mais
exata, o objetivo de Deus, expresso três vezes, não é simplesmente “a glória de Deus”, mas o “louvor da
sua glória” (1.6, 12, 14).
Chamar a atenção para o objetivo do louvor esclarece como devemos entender o que Jonathan
Edwards quis dizer ao falar que “o supremo e final objetivo das obras de Deus […] é chamado, mais
apropriada e extensivamente, ‘a glória de Deus’”. O objetivo de Deus é não somente que a glória de suas
14

perfeições resplandeça, mas também que consideremos a glória de Deus digna de louvor.
Não, não simplesmente considerar que a glória é digna de louvor, mas também senti-la como digna de
louvor — sentir seu valor —, porque, do contrário, nosso “louvor” seria hipocrisia. Deus está realmente
buscando a exaltação de sua beleza no gozo de seu povo que o louva. Se nosso louvor é desprovido de
sentimento, não está recomendando a preciosidade daquilo que louvamos. Louvor de coração
indiferente é recomendação pobre. Mas Deus não tenciona que o louvor final que ele busca seja uma
recomendação pobre. Sua glória tem valor infinito. É infinitamente bela. Portanto, em toda a sua glória,
Deus será mais satisfatório do que qualquer outro ser ou qualquer outra coisa.

A DESCOBERTA DE C. S. LEWIS
Prossigo nos desdobramentos da palavra louvor em Efésios 1.6, 12 e 14 porque ela contém realmente
uma parte crucial da solução para o problema suscitado no Capítulo 2 deste livro, o problema referente à
autoexaltação de Deus na Escritura. C. S. Lewis, como muitos outros, encontrou dificuldade com essa
realidade na Escritura, e foi seu próprio meditar sobre a natureza do louvor que lhe deu a solução.
A princípio, ele reclamava que a maneira pela qual as Escrituras nos ordenam a louvar a Deus parecia
semelhante a “uma mulher vã que quer elogios”. Mas, em vez de abandonar o assunto, por desgosto,
Lewis examinou mais profundamente a realidade do louvor, como costumava fazer em relação a tantas
outras coisas. Oh! Que penetremos, por meio das palavras, na realidade subjacente! Eis o que Lewis
descobriu:
O fato mais óbvio sobre o louvor — de Deus ou de qualquer outro ser — escapou-me estranhamente. Eu pensava no louvor em
termos de elogio, aprovação ou dar honra. Nunca havia percebido que todo gozo [note bem!] transborda espontaneamente em
louvor […] O mundo ressoa louvor — amantes louvando suas amadas, leitores louvando seu poeta favorito, caminhantes
louvando a zona rural, jogadores louvando seu jogo favorito —, louvor do clima, vinhos, louças, atores, cavalos, faculdades, países,
personagens históricos, filhos, montanhas, flores, selos raros, besouros raros e, às vezes, políticos e eruditos.
Toda a minha dificuldade mais geral sobre o louvor de Deus dependia de eu negar absurdamente para nós, no que diz respeito
ao supremamente valioso, aquilo que temos prazer [!] em fazer,
o que realmente não podemos deixar de fazer, no que diz respeito a tudo mais que valorizamos.
Acho que apreciamos louvar aquilo em que nos deleitamos porque o louvor não somente expressa, como também completa, o
deleite; é a sua consumação designada. Não é por desejo de elogio que os amantes continuam dizendo um ao outro quão belos
são; o deleite se mostra incompleto se não for expresso.15
O OBJETIVO DE DEUS: A CONSUMAÇÃO
DE NOSSO GOZO EM DEUS
Com isso em mente, retornemos a Efésios 1 e à maneira como Paulo expressou o objetivo do plano de
Deus de escolher, predestinar e adotar um povo. Paulo diz três vezes que o alvo é o louvor da glória de
Deus (1.6, 12, 14). Ora, se Lewis está certo (e eu penso que está), então a busca de Deus por nosso
louvor para sua glória é sua busca pela consumação de nosso gozo dessa glória: “[…] apreciamos louvar
aquilo em que nos deleitamos porque o louvor não somente expressa, como também completa, o
deleite; é a sua consumação designada”.16

Isso significa que a autoexaltação de Deus é totalmente diferente de toda autoexaltação humana.
Quando os humanos exaltam a si mesmos, chamam a atenção para algo que nunca pode satisfazer as
pessoas que eles desejam impressionar: a si mesmos. Nenhum ser humano, não importando quão
exaltado seja, pode ser o tesouro plenamente satisfatório de outro ser humano. Essa satisfação de outros
não é nem mesmo um típico motivo humano para autoexaltação. Para os humanos,
a autoexaltação é, tipicamente, uma maneira de ter, e não de dar; de usar as pessoas, e não de servir a
elas. Mas, com Deus, é o contrário.
Ao exaltar a si mesmo — ou seja, ao sustentar e comunicar sua glória —, Deus almeja dar gozo a
todos aqueles que o terão como seu tesouro supremo. E, visto que o louvor é a consumação designada
desse gozo, Deus não é indiferente ao nosso louvor. Se Deus almeja nosso gozo nele, ele almejará nosso
louvor — a consumação desse gozo. Deus não limitará nosso gozo por desencorajar nosso louvor.

A AUTOEXALTAÇÃO DE DEUS VERSUS A AUTOEXALTAÇÃO HUMANA


Portanto, a exaltação de Deus é diferente da autoexaltação humana porque, ao exaltar a si mesmo, Deus
não está desviando nossa atenção do que é supremamente satisfatório, mas, sim, manifestando-o e nos
convidando a gozá-lo. Quando exaltamos a nós mesmos, desorientamos o coração dos outros. Tentamos
atrair a atenção e o louvor deles para nós mesmos. Estamos, assim, não somente incentivando a idolatria,
como também a infelicidade. Estamos afastando as pessoas do gozo. Na realidade, estamos dizendo a
elas que é melhor nos admirarem do que admirarem a Deus — gozarem a nossa glória, e não a de Deus.
De uma forma paradoxal, Deus é o único ser no universo para quem a autoexaltação é uma forma de
amor. Porque ele é o único ser cujos valor e beleza podem satisfazer plenamente a alma humana — e
para sempre. Quando Deus faz de seu louvor o objetivo de sua providência, está buscando nosso prazer
completo e duradouro. Isso é amor.
Por essa razão, a autoexaltação de Deus não contradiz as passagens das Escrituras que vimos no
capítulo anterior, sobre a autoexaltação como pecado (Jo 8.54; 1Co 10.24; 13.5). Deus nunca peca (1Jo
1.5). Nem Jesus (Hb 4.15). Mesmo assim, muita gente acreditava que Jesus pecava quando exaltava a si
mesmo ao perdoar pecados. “Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão
Deus?” (Lc 5.21). Mas Jesus não estava pecando, pois ele era muito mais do que homem. Ele realmente
podia perdoar pecados cometidos contra Deus, pois ele era Deus. O fato é este: há coisas que são
pecaminosas para o homem fazer e não pecaminosas para Deus fazer, como, por exemplo, perdoar
pecados — ou manter e comunicar sua glória para o gozo do mundo.
O GRANDIOSO E OMITIDO LUGAR DA GRAÇA
Compreendo que, até aqui neste capítulo, omiti totalmente qualquer discussão sobre a palavra graça
como parte do alvo de Deus em Efésios 1.6. Mas a expressão crucial que afirma o alvo da providência de
Deus termina com a palavra graça. Deus escolhe, predestina e adota “para louvor da glória de sua graça”.
Minha omissão não se deve à insignificância da graça, nem ao fato de que Paulo omite o termo em sua
repetição desses propósitos nos versículos 12 e 14, em que escreveu: “Para louvor da sua glória”. Minha
razão para a omissão não é o fato de a graça ser menor no objetivo de Deus, mas, sim, porque ela é
grandiosa. Isso permeará os próximos capítulos.
Permita-me dar-lhe uma indicação do que tenciono dizer com grandioso. As implicações de Deus ter
como objetivo o “louvor da glória de sua graça”, antes da fundação do mundo, são impressionantes.
Porque a graça é a resposta misericordiosa de Deus às pessoas indignas. Mas o pecado ainda não havia
entrado no mundo quando não havia mundo! Não havia pessoas indignas. Dizer que a graça que louva é
o objetivo de Deus parece sugerir que teria de haver pecado e rebelião contra Deus. Parece? Não. Essa
passagem faz mais do que parecer sugerir que Deus estava pressupondo a presença do pecado em sua
criação — uma criação que ainda não existia.

O SANGUE DO AMADO ANTES DA CRIAÇÃO?


O louvor da graça que Deus tem como alvo antes da fundação do mundo será realizado “por meio de
Jesus Cristo”. Deus “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo para louvor
da glória de sua graça” (Ef 1.5-6). O que isso significa? Paulo nos diz claramente no versículo 7: “no qual
[o Amado — Jesus!] temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da
sua graça”.
Isso nos deixa perplexos. Antes da fundação do mundo, antes que houvesse qualquer ser humano
que pecasse, antes que qualquer ser humano precisasse ser redimido, Deus planejou que o alvo da criação
e da providência seria “o louvor da glória de sua graça”. E essa graça viria às pessoas por meio da
“remissão dos pecados”, pelo “sangue” do “Amado” — o amado Filho de Deus (cf. Cl 1.13). Em outras
palavras, não somente houve graça para pessoas indignas, planejada como o ápice da glória de Deus,
como também Deus planejou que essa graça fosse expressa pelo derramamento do sangue de seu Filho
amado por transgressões que ele nunca cometeu.
Talvez, agora, você consiga perceber por que digo que minha omissão de uma consideração
ampliada da graça neste capítulo se deve não ao fato de que a graça é inferior, mas, sim, ao fato de que é
grandiosa. Nos capítulos seguintes, veremos, repetidas vezes, que o propósito de Deus é exaltar sua
glória por meio do exercício de sua graça. O objetivo de Deus é a grandeza de seu nome e a felicidade de
seu povo indigno. Ou seja, o alvo de Deus é o louvor da glória de sua graça, que o exalta e satisfaz a alma.
17

E a glória dessa graça será vista mais belamente no sofrimento do Filho amado de Deus em favor de
pecadores indignos. Portanto, lidaremos muito mais plenamente com a centralidade do Filho de Deus
na busca de Deus pelo “louvor da glória de sua graça”. No que diz respeito a Cristo, ficará evidente que
18

“tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Mas, agora, voltamo-nos ao propósito da
providência de Deus que chega à expressão no próprio ato de criação.
Citado no capítulo anterior. Jonathan Edwards, Ethical Writings, ed. Paul Ramsey and John E. Smith, vol. 8, The Works of Jonathan Edwards
(New Haven, CT: Yale University Press, 1989), 530.

C. S. Lewis, Reflections on the Psalms (New York: Harcourt, Brace & World, 1958), 93-95.

Lewis, Reflection on the Psalms, 95.

Tratar o louvor da glória da “graça” como a finalidade suprema da providência de Deus não sugere que a glória de seus outros atributos,
como sabedoria e justiça (expressos em ira contra o pecado), seja silenciada ou minimizada. Pelo contrário, em suas devidas proporções
bíblicas, isso serve, em última análise, para magnificar a glória da graça de Deus para com os redimidos.

Veja especialmente o Capítulo 12, onde consideramos 2 Timóteo 1.9 e Apocalipse 13.8.
4 | O ato de criação

O governo intencional de Deus sobre o mundo pressupõe não somente um plano para o mundo antes da
criação, como vimos em Efésios 1, mas também a própria criação do mundo. A providência pressupõe a
criação. Visto que a criação é o palco em que as obras da providência acontecerão, é provável que o
propósito supremo da criação seja o mesmo propósito supremo das obras da providência que serão
realizadas no teatro da criação. Podemos testar essa probabilidade pelos textos bíblicos apresentados
neste capítulo.

DEUS CRIOU TODAS AS COISAS “PARA DEUS”


Em 1 Coríntios 8.6, Paulo diz: “Há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem
existimos”. De modo semelhante, o autor de Hebreus escreve: “Convinha que aquele, por cuja causa e
por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de
sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2.10). Em outras palavras, Deus criou o mundo para Deus.
Ele é aquele “para quem nós existimos”. É aquele “por quem todas as coisas existem”.
A expressão “para Deus” é ambígua. Sem um contexto, poderia sugerir que Deus é carente — que ele
criou o mundo porque estava com fome e precisava de algo para comer, ou porque estava fatigado e
precisava de algo para entretê-lo, ou porque estava sozinho e precisava da companhia dos homens. Paulo
repudia essas ideias. Ele diz: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu
e da terra […] Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é
quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.24-25). Deus não criou motivado por necessidade.
Ele é um doador na criação, não um recebedor. É um benfeitor autossuficiente, não um beneficiário
dependente: “Ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais”.
Em Romanos 11.34-36, Paulo enfatiza essa verdade e, em seguida, esclarece o que “para Deus”
significa como o propósito da criação:
Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser
restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!

Essas duas perguntas retóricas (“Quem conheceu a mente do Senhor?”, “Quem primeiro deu a ele”)
esperam uma resposta: ninguém. Em outras palavras, ninguém pode dar qualquer contribuição à
sabedoria de Deus por aconselhá-lo. E ninguém pode esperar uma compensação de Deus, como se
pudéssemos torná-lo nosso devedor por lhe darmos algo que ele ainda não tinha. Isso é o que significa
dizermos que Deus é autossuficiente.
O que, então, “para Deus” significa quando Paulo diz que tudo foi criado e existe “para Deus”?
Romanos 11.36 esclarece. A razão pela qual ninguém pode fazer acréscimos à sabedoria de Deus ou lhe
dar algo que ele ainda não tenha — ou seja, a razão pela qual Deus é autossuficiente — é que “dele, e por
meio dele, e para ele são todas as coisas”. Como o Criador, Deus é a fonte de todo ser (“dele”). Não
somente todas as coisas procedem “dele”, como também suas atividades são realizadas “por meio dele”.
Ele trouxe todas as coisas à existência e, em sua providência, sustenta a existência de todas as coisas e as
governa, de modo que seus movimentos e desígnios são “por meio dele” — por meio de sua vontade e
de seu agir.
Paulo conclui que o clímax do criar (“dele”) e do governar (“por meio dele”) de Deus sobre todas as
coisas é que todas as coisas são “para ele”. Em grego, essa expressão (εἰς αὐτὸν) é idêntica à expressão
“para quem” em 1 Coríntios 8.6 (“Há um só Deus […] para quem [εἰς αὐτὸν] existimos”). Mas aqui, em
Romanos 11.36, Paulo define, para nós, o que significa a expressão “para ele [εἰς αὐτὸν] são todas as
coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”. O fato de que todas as coisas foram criadas e existem
“para Deus” significa que existem e são planejadas e governadas de tal maneira que Deus seja visto,
conhecido e adorado como glorioso para sempre.

OS LOUVORES DO CÉU AO CRIADOR DE TODAS AS COISAS


Portanto, o significado da afirmação de que Deus criou o mundo para Deus (Rm 11.36; 1Co 8.6; Hb
2.10) é que Deus criou o mundo com o objetivo de que manifestasse sua glória — e que essa glória
ecoasse nos louvores de seu povo, como Paulo expressa nas palavras “A ele, pois, a glória eternamente”.
Isso é a exultação de Paulo no poder, na sabedoria e na autossuficiência de Deus. Despertar, intensificar
e aperfeiçoar essa exultação — esses eram o objetivo de Deus em criar o mundo.
Portanto, no livro de Apocalipse, quando temos um vislumbre da exultação perfeita do céu, ouvimos
as seguintes palavras:
Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua
vontade vieram a existir e foram criadas (Ap 4.11).

O céu responde ao ato de criação de Deus da maneira que Deus tencionava quando criou todas as
coisas. E a resposta do céu é louvor. “Tu és digno […] de receber a glória […] porque todas as coisas tu
criaste”. Dizer que Deus recebe glória, honra e poder não significa que antes ele fosse carente de glória,
honra e poder. Significa que Deus recebeu o reconhecimento, a atribuição e a celebração da glória, da honra
e do poder que ele sempre teve. Seu ato de criação coloca essa glória em exibição (“Os céus proclamam a
glória de Deus”, Sl 19.1). As criaturas feitas à imagem de Deus veem essa glória, reconhecem
alegremente sua beleza e preciosidade, e lhe respondem com louvor, exultação e vidas edificadas em seu
valor supremo — e tudo isso atribui a Deus o que ele já é.

OBJETIVO NO FIM, OBJETIVO DESDE O COMEÇO


Visto que o último livro da Bíblia nos oferece um vislumbre do efeito final da criação em produzir ecos
da glória de Deus nas canções do céu, não devemos ficar surpresos quando lemos no primeiro capítulo da
Bíblia como Deus preparou as coisas para esse resultado. Ele criou o homem — o ápice de sua criação
— à sua própria imagem e o comissionou a se multiplicar e encher a terra com imagens de Deus:
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse:
Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra (Gn 1.27-28).
Independentemente do que significa ser criado à imagem de Deus, isso é muito claro: o propósito
das imagens é retratar! Esculpimos imagens de pessoas e fazemos suas estátuas para retratá-las — para
colocá-las em exibição. Portanto, quando Deus cria os seres humanos à sua imagem, coloca a si mesmo
em exibição e ordena que a terra seja cheia dessas imagens suas, é claro que o objetivo de Deus na
criação é a própria exibição.
Com certeza, a criação não humana — o mundo da natureza — está revelando em todos os lugares a
glória de Deus (Sl 19.1; 104.31; Rm 1.20). E isso, evidentemente, é uma ideia de Deus, visto que a
natureza não inventa seu próprio propósito. Entretanto, na criação, o objetivo de Deus é uma
manifestação de sua glória muito maior do que as maravilhas da natureza — por mais impressionantes
que sejam. O alvo de Deus é um mundo cheio de seres humanos adoradores. Podemos ver isso na
promessa de Números 14.21: “Toda a terra se encherá da glória do SENHOR”. Em seguida, vemos isso
mais precisamente na promessa semelhante que lemos em Habacuque 2.14: “A terra se encherá do
conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (cf. Is 11.9).
Há um sentido para a própria natureza encher a terra com a glória do Senhor. Mas esse não é o
objetivo supremo. Para que o propósito de Deus na criação seja atingido, tem de haver um mundo cheio
do “conhecimento da glória do SENHOR”. As árvores podem bater palmas (Is 55.12), mas não sabem o que
estão fazendo. Essa consciência, esse conhecimento, esse amor e esse louvor prazeroso constituem o
destino do homem, não da natureza. O objetivo da criação não é simplesmente ecoar a excelência de
Deus nos campos exultantes (Sl 96.12), nos narcisos jubilosos (Is 35.1), nos montes cantantes (Is
55.12) e nos rios que batem palmas (Sl 98.8). O objetivo é o eco da excelência de Deus nas mentes
perceptivas e nos corações adoradores de seres humanos criados à imagem dele.
Quando o anjo de Deus clama para o mundo, em Apocalipse 14.7, “Adorai aquele [Deus] que fez o
céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”, ele não está clamando às arvores, às montanhas e aos rios,
mas aos seres humanos. Somos destinados a encher a terra com adoração — adoração do Deus que fez o
céu e a terra.

VELHA CRIAÇÃO PARA CRISTO,


NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO
No Capítulo 3, adiei uma focalização no lugar grandioso da graça cristocêntrica, quando considerei o
alvo de Deus antes da criação. Estou ciente de que estou fazendo a mesma coisa nesta discussão acerca
do alvo de Deus na própria criação. Estou deixando isso para a Parte 2, Seção 3, onde se tornará evidente
que todo o universo existe para a glória de Cristo e para sua realização na cruz e na ressurreição.
Mas permita-me dar-lhe uma prelibação.

A PRIMEIRA CRIAÇÃO É POR MEIO DE CRISTO


E PARA CRISTO
Em primeiro lugar, Paulo ensina que “tudo foi criado por meio dele [Cristo] e para ele [Cristo]” (Cl
1.16). Em outras palavras, quando vimos que todas as coisas foram criadas por Deus, Paulo não quis
dizer Deus, o Pai, sem Deus, o Filho. A glória do Filho e a glória do Pai são ambas propósitos da criação.
Posteriormente, consideraremos, de forma mais ampla, como ambas se relacionam. 19
A GLÓRIA DE CRISTO MANIFESTADA EMINENTEMENTE NO SOFRIMENTO PARA SALVAR OS PECADORES
Em segundo lugar, o alvo exaltador de Cristo chega ao clímax na maior obra da criação, ou seja, a obra de
salvação. Nenhuma criação, nenhuma salvação. E a parte mais gloriosa dessa obra salvadora é o que
Jesus Cristo realizou na cruz. Portanto, ao dizer que a criação existe para a glória de Cristo (Cl 1.16),
estou falando, principalmente, da glória de quem ele era e do que fez na sexta-feira da Páscoa.
O livro de Apocalipse esclarece o seguinte: por causa da morte de Jesus, na Sexta-Feira Santa, a
adoração final no céu não será simplesmente, nem mesmo primariamente, um eco da excelência de Deus
na criação; será também, e principalmente, um eco da excelência de Cristo na salvação. O céu canta:
Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem
de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra… Digno é o
Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor (Ap 5.9-10, 12).

Sim, nós cantaremos “Tu és digno […] porque todas as coisas tu criaste” (Ap 4.11). Mas nos
moveremos dessa glória (sem ignorá-la) para a glória ainda maior da morte do Filho de Deus para
comprar pecadores. “Digno és […] porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que
procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9).
Precisamos dizer que tudo que afirmamos nos Capítulos 2 e 3 sobre louvar a Cristo como a
consumação de gozar a Cristo está implícito nos louvores da glória de Cristo em Apocalipse 4 e 5. O
propósito supremo de Deus em magnificar a glória de seu Filho em seus sofrimentos atingirá o clímax
quando a excelência de Cristo encontrar eco na alegria irrestrita de seu povo adorador.

UMA NOVA CRIAÇÃO COMPRADA


POR SANGUE EM CRISTO, PELO ESPÍRITO
Em terceiro lugar, essa compra resulta no derramamento do Espírito Santo sobre o adquirido povo de
Deus, de modo que eles se tornam uma nova criação à imagem de Cristo. A primeira criação foi
corrompida e se tornou fútil (Rm 8.20-21) na catástrofe da queda do homem em pecado (Gn 3.1-6; Rm
5.13-21). Mas, por estar aquém de prover um quadro perfeito da beleza de Deus, a primeira criação
tornou-se palco para uma exibição de glória maior — a glória da graça salvadora por meio de Cristo.
A glória dessa graça é vista não somente na beleza real de Cristo e de sua obra expiatória na cruz, mas
também na realização da obra do Espírito Santo, comprada com sangue, que transforma pecadores
comprados na imagem de Cristo.
Ele [Deus] nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio
de Jesus Cristo, nosso Salvador (Tt 3.5-6).

Por causa da compra realizada por Cristo, o Espírito Santo é derramado sobre as pessoas compradas,
resultando em que são renovadas.
Essa renovação é outro nome para a “nova criação”. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). “Pois nem a circuncisão é
coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6.15). Toda pessoa comprada por Cristo,
quando o Espírito Santo a leva à fé e a renova, é um “novo homem que se refaz para o pleno
conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). Essa imagem é a imagem de Cristo, o
qual, por sua vez, é a imagem de Deus (٢Co ٤.٤ ;٣.١٨). Quando considerarmos essa obra
transformadora do Espírito no Novo Testamento, veremos que o brilho da glória de Cristo na vida da
nova criatura é, em seu âmago, o brilho de uma vida de alegria em Cristo, tão satisfatória que possibilita
todos os sacrifícios que revelam a beleza do amor de Cristo (veja Parte 3, Seção 8).

NOVA CRIAÇÃO, NÃO APENAS RESTAURAÇÃO


Essa nova criação não é uma simples restauração da imagem que a humanidade tinha no princípio. É
muito maior porque está em “Cristo”. Henry Alford salientou:
O que quer que tenha sido a imagem de Deus em que o primeiro Adão foi criado, é certo que a imagem de Deus, na qual o
Espírito de Cristo nos recria, será muito mais gloriosa do que aquela, visto que o segundo homem é muito mais glorioso do que o
primeiro.20

Uma diferença é que nosso chamado como novas criaturas em Cristo é para refletirmos, de forma
consciente, as belezas específicas do Cristo encarnado. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus
para boas obras” (Ef 2.10). Por toda a eternidade, o chamado dos redimidos será para viverem como
imagens de Cristo Jesus — não somente para refletirem Deus em geral, como no princípio, mas para
refletirem Cristo. “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do
Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3.18).

MUITO MAIS A DIZER SOBRE A GLÓRIA


DE CRISTO E SEU SOFRIMENTO
Portanto, o alvo da criação e o alvo da salvação realizados no palco da criação é a glorificação de Jesus
Cristo. E o que vimos é que ele é glorificado tanto em louvores de alegria consumada de seu povo como
na vida de amor recriada em conformidade com a imagem de Cristo. Há muito mais — muito mais — a
dizer sobre Cristo e seu sofrimento em favor de pecadores indignos como a expressão consumada da
glória de Deus e sobre seu brilho refletido no regozijo das novas criaturas de Deus. Mas agora
consideraremos a história do desdobramento da revelação de Deus em toda a Escritura. Por isso,
guardaremos o foco mais pleno sobre a glória de Cristo para o momento em que chegarmos ao grito:
Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem (Lc 2.14).

A glória de Deus e a glória do Filho de Deus na criação são uma só glória, assim como o alvo da
primeira criação por meio de Cristo e o alvo da nova criação em Cristo são uma única glória.

QUANDO OS DISCERNIMENTOS DE TODA


A ESCRITURA SÃO INESGOTÁVEIS
Na Parte 2, Seção 2, traçamos o propósito supremo da providência de Deus na história de Israel. Por isso
seguimos sem comentar os capítulos de Gênesis 4 a 11. Não fazemos isso porque esses capítulos não
tenham com que contribuir para o assunto do propósito supremo de Deus no mundo. De fato, a história
da construção da torre de Babel destina-se a mostrar como o pecado do homem é completamente
oposto ao propósito supremo de Deus:
Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para
que não sejamos espalhados por toda a terra (Gn 11.4).

O homem foi colocado na terra para tornar célebre o nome de Deus, e não seu próprio nome. Assim,
de forma indireta, o propósito supremo de Deus é proclamado pelo fiasco dessa torre que exaltava o
homem e menosprezava Deus. Portanto, não deixo de lado esses capítulos por não terem nada com que
contribuir, mas simplesmente porque tenho de ser seletivo, visto que os discernimentos possíveis da
Escritura para nosso propósito são inesgotáveis.
Nos capítulos seguintes, olharemos a história de Israel do começo ao fim — de uma elevação de
10.000 metros, por assim dizer. Qual era o propósito supremo de Deus em escolher um povo étnico para
si mesmo e, em todas as providências misteriosas, até os dias de hoje, lidar com Israel de maneira
singular? Depois, nos Capítulos 6 a 10, desceremos dessa elevação de 10.000 metros e aterrissaremos em
alguns períodos específicos da história de Israel para vermos mais de perto como Deus expressa seu
propósito supremo em providência na história de Israel.

Veja o Capítulo 14, no qual constataremos que “a glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” e “a glória de Deus na face de Cristo” são
uma só glória (2Co 4.4-6).

Henry Alford, Alford’s Greek Testament: An Exegetical and Critical Commentary, vol. 3 (Grand Rapids, MI: Guardian Press, 1976), 234.
Seção 2 | O objetivo supremo da providência na
história de Israel
5 | Visão geral: de Abraão à era vindoura

Antes de estreitarmos as lentes de nosso foco para períodos específicos da história de Israel (o êxodo, a
entrega da lei, a conquista de Canaã, os juízes, a monarquia, o exílio), este capítulo abre as lentes de
nosso foco para toda a história de Israel — de Abraão à era vindoura — enquanto perguntamos: qual é o
objetivo supremo nesta história admirável da providência de Deus?

A HISTÓRIA DE ISRAEL E JESUS CRISTO PARA AS NAÇÕES


No Capítulo 12 do primeiro livro da Bíblia, narra-se a história da escolha de Deus relativa a Abrão (cerca
de quatro mil anos atrás) para se tornar o pai de uma grande nação que traria bênçãos para todos os
povos da terra. Esse foi o começo da história de Israel como povo escolhido de Deus por meio do qual
viria o Messias, Jesus Cristo, cujas morte e ressurreição trariam as bênçãos de Abraão para o mundo
inteiro. Deus planejou que seu remédio para o problema universal de pecado e sofrimento viria por meio
de Israel e de seu Messias.
É importante entender que a eleição de Israel por Deus e o fato de torná-lo o foco de suas bênçãos
salvadoras no Antigo Testamento montam o palco na história mundial para o impacto global de Jesus
Cristo e de sua obra salvadora para o bem das nações. A história de Israel não é uma tentativa frustrada
de Deus realizar seus propósitos salvadores somente por meio de Israel, que Deus abandonou e
substituiu por Jesus e pela história do cristianismo. Desde o começo, Deus planejou que a história de
Israel serviria a todas as nações por meio da vinda do Messias. Não há duas histórias. Há apenas uma
história de redenção na História. E essa única história terá um proposito abrangente.
Antes de nos voltarmos para esse propósito na história de Israel, vejamos, em primeiro lugar, as bases
bíblicas para a afirmação de que o plano de Deus para Israel e seu plano concernente ao impacto
salvador e global de Jesus sobre todas as nações são, de fato, um único plano.

“EM TI SERÃO BENDITAS TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA”


Deus não escolheu Abraão (que se chamava inicialmente Abrão) por ele ser um adorador do Deus
verdadeiro. Ele era um pagão que adorava outros deuses. Lemos isso em Josué 24.2-3:
Josué disse a todo o povo: Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Antigamente, vossos pais, Tera, pai de Abraão e de Naor,
habitaram dalém do Eufrates e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a
terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência.

Apesar de Abrão servir a outros deuses, Deus o escolheu e lhe deu “por nome Abraão” (Ne 9.7).
Nesse encontro inicial, Deus lhe disse estas palavras importantíssimas:
De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.2-3).
Chamo essas palavras “importantíssimas” porque, no Novo Testamento, Paulo cita essa última
sentença (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”), em Gálatas 3, para argumentar que até os
gentios que têm fé no Messias judaico herdarão a bênção de Abraão:
Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios,
preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos [Gn 12.3]. De modo que os da fé são abençoados
com o crente Abraão (Gl 3.7-9).

Em outras palavras, a morte do Messias dos judeus em favor de todos os pecadores que depositariam
sua fé nele resultou em que um mistério formidável se tornou verdadeiro. Esse mistério é “que os gentios
são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do
evangelho” (Ef 3.6). Ou, como Paulo diz em Gálatas 3.13-14: “Cristo nos resgatou da maldição da lei,
fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar […] para que a bênção de Abraão chegasse aos
gentios”. O propósito salvador de Deus para Israel, por intermédio do Messias, se torna um propósito
salvador para o mundo — para todo aquele que compartilha “da fé que teve Abraão” (Rm 4.16).

OLIVEIRAS BRAVAS DENTRO; RAMOS NATURAIS FORA


Paulo expressa tudo isso numa imagem em Romanos 11. Ele retrata Israel como uma oliveira que tem
uma raiz rica e doadora de vida — a aliança de promessa feita com Abraão (Rm 11.17). Ele argumenta
que a participação nessa rica raiz de salvação é desfrutada não por uma mera conexão étnica com a
oliveira, mas pela fé, o que sugere que os judeus podem ser excluídos por causa de incredulidade,
enquanto os gentios podem ser enxertados por meio da fé. Por isso, Paulo diz aos gentios:
Se, porém, alguns dos ramos [judeus] foram quebrados, e tu [gentio], sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te
tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que
sustentas a raiz, mas a raiz, a ti (Rm 11.17-18).

Em outras palavras, desde o começo da existência de Israel, sempre houve um verdadeiro Israel
(referido em outra passagem como um Israel espiritual ou interior — Rm 2.28-29), bem como um Israel
étnico e cultural. Esse verdadeiro Israel se caracteriza pela fé, razão pela qual os gentios que
compartilham a fé de Abraão podem fazer parte desse verdadeiro Israel:
Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência,
não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós…)
(Rm 4.16).

Isso também significa que o povo judeu que rejeitou o Messias, Jesus, não faz parte do verdadeiro
Israel:
Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em
Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser
considerados como descendência os filhos da promessa (Rm 9.6-8).

Portanto, ser filho “da carne” — ou seja, ser etnicamente judeu — não faz de você um filho de Deus.
Ser “descendência” física de Abraão não torna as pessoas filhos “de Abraão” no sentido espiritual e
salvífico. Nem todo o Israel é Israel. Mas alguns gentios podem ser “considerados descendência” por
meio da fé no Messias. Eles pertencem ao verdadeiro Israel.
Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão aquela que é somente na carne. Porém, judeu é aquele que
o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas
de Deus (Rm 2.28-29).

QUANTO MAIS A SUA PLENITUDE!


Essa participação dos gentios na bênção salvífica de Abraão não significa que não há mais nenhum
propósito divino para o Israel étnico. Em Romanos 11, Paulo prevê o dia em que o Israel étnico, como
uma realidade coletiva, será enxertado de novo na oliveira da bênção pactual de Abraão. Isso será por
meio da fé em Jesus, o Messias. “Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados;
pois Deus é poderoso para os enxertar de novo” (Rm 11.23).
Esse “se” se tornará, de fato, uma realidade. Pois, “se a transgressão deles redundou em riqueza para o
mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude!” (Rm 11.12; veja
todo o texto de Rm 11.11-16). Deus removerá o véu dos olhos deles (2Co 3.12-16), removerá o
endurecimento de incredulidade (Rm 11.25), e eles olharão “para aquele a quem traspassaram; pranteá-
lo-ão como quem pranteia por um unigênito” (Zc 12.10) e, assim, “todo o Israel será salvo” (Rm 11.26).

A ABRANGÊNCIA DO FOCO DE DEUS EM ISRAEL


Passamos, agora, a examinar as afirmações da Escritura que expressam o propósito de Deus em escolher
Israel e lidar principalmente com Israel, e não com as outras nações, por dois mil anos, até que o Messias
viesse. Quando digo que Deus estava lidando principalmente com Israel, afirmo indiretamente duas
coisas. Uma é que Deus estava, de fato, fazendo milhões de obras de providência no mundo em geral,
tanto na natureza como nos afazeres do mundo (veja Parte 3, Seções 2-6). A outra é que, “nas gerações
passadas, [Deus] permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos” (At 14.16). Paulo
chamou essas gerações passadas de “tempos da ignorância”, que Deus agora, em Cristo, trouxe ao fim
com sua missão para o mundo. Agora, Deus está ordenando “aos homens que todos, em toda parte, se
arrependam” (At 17.30) e creiam no nome de Jesus, porque “abaixo do céu não existe nenhum outro
nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12).
No entanto, até a vinda de Cristo, a história da obra redentora de Deus no mundo foi principalmente
a história de Israel. Sem dúvida, no decorrer daqueles dois mil anos de história, houve repetidos
indicadores do propósito salvífico de Deus para todas as nações (por exemplo, Raabe, Rute, Jonas,
Salmos 67). Mas o relato dos lidares salvadores de Deus com o mundo — lidares que tiraram os homens
de sua ruína para um relacionamento com Deus — foi um relato do foco de Deus em Israel. Isso é o que
o Antigo Testamento é.

O PLANO EXTENSIVO E A MÃO DE DEUS


NA HISTÓRIA DE ISRAEL
Antes de perguntarmos qual era o supremo propósito de Deus na história de Israel, seria bom
lembrarmos que a história de Israel é realmente a história da ação providencial de Deus. A Bíblia é
inteiramente orientada em Deus como o ator determinante na história de Israel. Não conheço nenhuma
narrativa fora da Bíblia que se compare à maneira como a Bíblia narra a história de Israel. No Antigo e no
Novo Testamentos, a história é retratada como sendo realizada de forma permeada por Deus. Apesar da
agência humana real a quase todo momento, Deus é tratado como aquele que faz a história de Israel
acontecer. É por isso que podemos falar de um propósito da providência de Deus na história de Israel.
Citando apenas um exemplo, considere o primeiro sermão de Paulo no livro de Atos — o sermão
que ele pregou na sinagoga de Antioquia da Pisídia, em Atos 13. Incluo aqui o texto mais longo, para que
você possa verificar que os pontos que assinalo a seguir aparecem no sermão. Talvez estejamos tão
familiarizados com essa maneira bíblica de escrever história que não percebemos quão impressionante
ela é. Na lista que se segue, dessa passagem bíblica, destaco em itálico como Deus é retratado (17 vezes)
como o ator decisivo na história de Israel.
Paulo, levantando-se e fazendo com a mão sinal de silêncio, disse: Varões israelitas e vós outros que também temeis a Deus, ouvi.
O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou o povo durante sua peregrinação na terra do Egito, donde os tirou
com braço poderoso; e suportou-lhes os maus costumes por cerca de quarenta anos no deserto; e, havendo destruído sete nações
na terra de Canaã, deu-lhes essa terra por herança, vencidos cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Depois disto, lhes deu juízes,
até o profeta Samuel. Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, e isto pelo
espaço de quarenta anos. E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei Davi,
filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade. Da descendência deste, conforme a promessa,
trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus, havendo João, primeiro, pregado a todo o povo de Israel, antes da manifestação dele,
batismo de arrependimento. Mas, ao completar João a sua carreira, dizia: Não sou quem supondes; mas após mim vem aquele de
cujos pés não sou digno de desatar as sandálias.
Irmãos, descendência de Abraão e vós outros os que temeis a Deus, a nós nos foi enviada a palavra desta salvação. Pois os que
habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem todos os sábados,
quando o condenaram, cumpriram as profecias; e, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele
fosse morto. Depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo.
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos; e foi visto muitos dias pelos que, com ele, subiram da Galileia para Jerusalém, os quais
são agora as suas testemunhas perante o povo. Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais, como Deus a
cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus (At 13.16-33).

Eis a minha versão condensada desse sermão para chamar a atenção ao foco persistente em Deus
como o protagonista na história de Israel.
• “O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais” (13.17a).
• “[Deus] exaltou o povo durante sua peregrinação na terra do Egito” (13.17b).
• “[Deus] os tirou com braço poderoso” (13.17c).
• “[Deus] suportou-lhes os maus costumes por cerca de quarenta anos” (13.18).
• “Havendo [Deus] destruído sete nações na terra de Canaã” (13.19a).
• “Deu-lhes [Deus] essa terra por herança” (13.19b)
• “Depois disto, [Deus] lhes deu juízes, até o profeta Samuel” (13.20).
• “Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul” (13.21).
• “E [Deus], tendo tirado a este” (13.22a).
• “[Deus] levantou-lhes o rei Davi” (13.22b).
• “Da descendência deste […] trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus” (13.23a).
• “Conforme a promessa [de Deus]” (12.23a).
• “Irmãos […] a nós nos foi enviada [por Deus] a palavra desta salvação” (13.26).
• “Pois (….) as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas… cumpriram
as profecias [pela mão guiadora de Deus]” (13.27).
• “Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (At 13.30).
• “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita [por Deus] a nossos pais” (13.32).
• “Deus a cumpriu plenamente […] ressuscitando a Jesus” (13.33).
A ação onipresente de Deus é retratada nessa narrativa não somente pela frequência e a consistência
da ação de Deus, mas também pela maneira notável como Paulo fala sobre o cumprimento dessa história
em Jesus. Por exemplo, no versículo 27, ele sai de seu curso para mostrar que até mesmo os que não
conheciam a Deus — que não viviam em harmonia com Deus e não compreendiam as profecias da
Escritura — cumpriram essas mesmas profecias. Eles fizeram o que Deus planejou e profetizou:
Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem todos os
sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias.

Isso é admirável. Exatamente por não conhecerem as profecias, as autoridades as cumpriram! Qual é
o objetivo em dizer tal coisa? O objetivo é este: se uma pessoa lê e entende as profecias de Deus e as
cumpre, podemos concluir que ela escolheu ser um parceiro de Deus para cumprir as profecias. Mas, se
as autoridades não as conheciam e, apesar disso, agiram exatamente de acordo com elas, quem está
cuidando para que isso aconteça? Deus. Esse é o objetivo. Paulo quer que vejamos aqui que a história de
Israel é obra de Deus. É a providência divina.
21

QUAL ERA O PROPÓSITO SUPREMO DE DEUS


NA HISTÓRIA DE ISRAEL?
Em face desse tipo de narrativa, vemos como é apropriado indagarmos sobre o propósito de Deus na
história de Israel. Se a história de Israel fosse guiada, de forma determinante, pela mão de homens ou de
Satanás, e não pela mão e pelo plano de Deus (At 4.28), seria inútil perguntarmos qual alvo se realizou
na história de Israel. Mas não é inútil. É essencial.
O que veremos (no restante da Seção 2) é que o propósito abrangente de Deus nesses lidares com
Israel era que ele seria glorificado. “Tu és o meu servo”, diz ele em Isaías 49.3, “por quem hei de ser
glorificado”. Em Jeremias 13.11, Deus afirma esse propósito nos seguintes termos: “Eu fiz apegar-se a
mim toda a casa de Israel e toda a casa de Judá, diz o SENHOR, para me serem por povo, e nome, e louvor, e
glória”.

A CRIAÇÃO DO MUNDO E A ESCOLHA DE ISRAEL


TÊM O MESMO ALVO
Deus trouxe Israel à existência e diz, “para mim” (Is 43.21). Em seguida, ele explica o que isso significa:
Israel é o “povo que formei para mim, para celebrar o meu louvor”. A linguagem de criação (“que
formei”) conecta o propósito da eleição de Israel com o propósito de criação. Eles são o mesmo. Deus
tem um único propósito supremo na criação e na eleição e história de Israel. Vemos isso especialmente
em Isaías 43.6-7:
Direi ao Norte: entrega! E ao Sul: não retenhas! Trazei meus filhos de longe e minhas filhas, das extremidades da terra, a todos os
que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória, e que formei, e fiz.

A criação de Israel e, depois, a ampliação da ação redentora de Deus, por meio do Messias, para
incluir os gentios têm um único e mesmo propósito supremo. Essa continuidade entre o propósito de
Deus em criar Israel e criar a igreja do Novo Testamento é vista na maneira como o apóstolo Pedro usa
linguagem semelhante para descrever o propósito de Deus para a igreja, tal como Isaías fizera para
descrever o propósito de Deus para Israel:
Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).

Israel é destinado a “celebrar o louvor” de Deus (Is 43.21). A igreja é destinada a proclamar “as
virtudes” de Deus (1Pe 2.9).

O FUTURO DISTANTE DE ISRAEL PARA A GLÓRIA DE DEUS


Quando Isaías levanta seus olhos proféticos para o futuro mais remoto da glória de Israel, o propósito de
Deus permanece o mesmo:
Todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para
que eu seja glorificado (Is 60.21).

Com base nesse mesmo contexto em Isaías, Jesus aplica Isaías 61.1 a si mesmo, em Lucas 4.18-19,
para mostrar que ele será o meio de Israel atingir finalmente essa condição futura. O Espírito do Senhor
estará sobre o Messias, Jesus,
para pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez
de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo SENHOR para a sua glória (Is 61.3).

Portanto, se considerarmos apenas as afirmações gerais sobre o propósito de Deus na criação e


consumação de Israel, o propósito final e abrangente é unânime. O propósito é que Israel seja um servo
em quem Deus será glorificado (Is 49.3), seja um povo, um nome, um louvor e uma glória (Jr 13.11), seja
um povo que declarará o louvor de Deus (Is 43.21), criado para a glória do Senhor (Is 43.7), a obra das
mãos de Deus para que ele seja glorificado (Is 60.21; 61.3).

UM ÚNICO ALVO: O NOME DE DEUS E NOSSO GOZO NELE


Em outras palavras, o propósito supremo de Deus para Israel é o mesmo que vimos quando enfatizamos
os planos de Deus antes da criação do mundo (Capítulo 3) e a obra de Deus na criação (Capítulo 4). E
há outra coerência crucial. O propósito da glorificação de Deus na condição final de Israel acontecerá
por meio do gozo deles em Deus, e esse gozo será o próprio sinal da gloriosa reputação de Deus — seu
nome:
Porque, com alegria, saireis e, em paz, sereis guiados; os montes e os outeiros exclamarão de prazer perante a vossa face, e todas as
árvores do campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro, crescerá a faia, e, em lugar da sarça, crescerá a murta; isso será para o
SENHOR por nome, por sinal eterno, que nunca se apagará.
(Is 55.12-13 , ARC).

Ao que “isso” se refere no versículo 13? “[…] isso será para o SENHOR por nome, por sinal eterno.” O
hebraico não é mais específico do que nossa tradução. Mas não acredito que o significado seja incerto.
“Isso” se refere a toda a situação: Israel sairá em paz e alegria; montes e outeiros cantarão; as árvores
baterão palmas; o cipreste substituirá o espinheiro; a murta substituirá a sarça. Tudo isso será “para o
SENHOR por nome”. Isso será sua reputação, a exibição de sua glória.
Mas o que é tudo isso? Muitos comentaristas ignoram a conexão totalmente crucial entre o nome de
Deus e o gozo do homem. Calvino comentou:
Quando diz que será “nome” para Deus, ele nos mostra qual é o propósito da restauração da igreja. É que o nome de Deus seja
mais ilustre entre os homens e que a lembrança dele floresça e seja mantida.22

Sim. Mas o que tornará esse nome “mais ilustre”? O que fará a “lembrança dele” florescer? E. J.
Young comenta:
O sujeito de será [“isso será para o SENHOR por nome”] é a própria gloriosa mudança. A preposição antes de Senhor pode ser
traduzida como por ou para; possivelmente esta última é preferível [“nome para o Senhor”]. O profeta está afirmando, agora que
abandonou sua linguagem figurada, que haverá mudança para a glória de seu autor. Será um nome ou um memorial porque sempre
trará à mente e exaltará o Nome de seu autor.23

Sim. Mas o que é essa “mudança” que “existirá para a glória de seu autor”?
O ensino totalmente crucial não é sobre montes, outeiros ou árvores. O ensino absolutamente
crucial é sobre a alegria e a paz do povo de Deus.
Porque, com alegria, saireis e, em paz, sereis guiados; […]; isso será para o SENHOR por nome, por sinal eterno, que nunca se
apagará.(Is 55.12-13 , ARC).

O garantir de Deus de nome para si mesmo e o garantir de Deus da alegria para seu povo são uma só
coisa.
Essa alegria é o nome de Deus — sua reputação, sua glória.
A razão pela qual a alegria de Israel é a glória de Deus é que toda a alegria de Israel nos dons de Deus é,
em essência, alegria nele mesmo. O Israel redimido clama: “Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha
alma se alegra no meu Deus” (Is 61.10). E a promessa é feita a Judá: “Tu te alegrarás no SENHOR e te
gloriarás no Santo de Israel” (Is 41.16).

ALEGRIA NOS DONS DE DEUS


COMO ALEGRIA EM SUA BONDADE
Sem dúvida, não há nada mau em se regozijar nas bênçãos pessoais e materiais de Deus. Deus não faz
uma nova criação simplesmente para ser uma tentação:
Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas. Mas vós
folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para Jerusalém alegria e para o seu povo, regozijo (Is
65.17-18).

A alegria de Israel — a nossa alegria — consistirá, parcialmente, em alegria no que Deus cria. As
coisas da criação são boas dádivas que devem ser recebidas com ações de graça e regozijo. Mas alegria em
Deus mesmo — em e por meio de (e, se necessário, sem) suas dádivas — é o que faz de nossa alegria final
um sinal de sua glória.
Vemos isso mais claramente em Habacuque 3.17-18:
Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as
ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha
salvação.

O objetivo aqui é mostrar que, por melhores, mais preciosos e inspiradores de alegria que sejam os
dons de Deus, não são o objetivo supremo da alma humana ou da obra redentora de Deus. É por essa
razão que concluo de Isaías 55.12-13 que o sinal supremo e final da glória de Deus — a demonstração
final e suprema do nome glorioso de Deus — será a alegria do povo de Deus em Deus. “Saireis” porque
ouvireis a glória de Deus no cantar dos montes e no bater palmas das árvores. Vereis nos magníficos
ciprestes, substituindo os miseráveis espinheiros, o belíssimo poder, sabedoria, justiça e misericórdia de
vosso Deus. E, como Habacuque, vocês exultarão em Deus mesmo. “Eu me alegro no Senhor, exulto no
Deus da minha salvação.” Provará e verão que, em e por meio de todos os dons maravilhosos de Deus, ele
mesmo é o tesouro de vida plenamente satisfatório: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua
destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

A ALEGRIA DE DEUS EM NOSSA ALEGRIA NELE


E isso se torna ainda melhor. O objetivo supremo de Deus na história de Israel não é somente a exaltação
do nome glorioso de Deus na alegria de seu povo. É também a própria alegria de Deus na alegria de seu
povo nele.
E exultarei por causa de Jerusalém e me alegrarei no meu povo, e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor (Is
65.19).

O choro do povo de Deus cessa; o regozijo do coração dele se eleva. Isso não é um par coincidente. A
alegria final de Deus em nós é nossa alegria nele:
O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor,
regozijar-se-á em ti com júbilo (Sf 3.17).

A alegria se move em ambas as direções: de nós para Deus e de Deus para nós. A glória de Deus é
nossa alegria. E nossa alegria na glória de Deus é a alegria dele. Dessa maneira, a glorificação de Deus é o
objetivo supremo e final da existência de Israel, e esse objetivo inclui nossa exultação na glória de Deus e
a alegria dele nessa exultação.
DE UM ÂNGULO ABERTO PARA UM ÂNGULO ESTREITO
Nos capítulos seguintes da Parte 2, vamos nos mover do foco de ângulo aberto na história de Israel para
o foco de ângulo estreito nos períodos cruciais dessa história apresentados na Escritura. O evento do
êxodo e sua reverberação em todo o resto da história de Israel e na Bíblia são o foco dos Capítulos 6 e 7.
Além da encarnação do Messias, Jesus, nenhum outro evento na história de Israel tem tantas afirmações
de propósitos vinculadas a ele. O impacto do objetivo de Deus no êxodo é sentido em todo o restante da
Escritura, inclusive com um profundo impacto no apóstolo Paulo.

Quanto a uma narrativa semelhante, saturada de Deus, da história de Israel, veja Josué 24.1-13. Nessa passagem, o próprio Deus narra a
história de Israel em que humanos estavam realmente agindo, mas Deus afirma que ele mesmo era a causa determinante: “Eu, porém, tomei
Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência e lhe dei Isaque. A Isaque
dei Jacó e Esaú […] Então, enviei Moisés e Arão e feri o Egito com o que fiz no meio dele; e, depois, vos tirei de lá […] o SENHOR pôs
escuridão entre vós e os egípcios, e trouxe o mar sobre estes […] Eu vos trouxe à terra dos amorreus […]; porém os entreguei nas vossas
mãos […] e os destruí diante de vós […] vos livrei da sua mão [de Balaão] […] porém os entreguei nas vossas mãos. Enviei vespões
adiante de vós […] não com a tua espada, nem com o teu arco. Dei-vos a terra em que não trabalhastes”.

John Calvin e William Pringle, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, vol. 4 (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010), 174.

Edward Younq, The Book of Isaiah, Chapters 40–66, vol. 3 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1972), 385-86.
6 | O Êxodo

Mais do que qualquer outro evento na história de Israel, o êxodo do Egito moldou a adoração de Israel a
Deus como seu redentor, aquele que os escolheu, os salvou e fez deles um povo para si mesmo. De uma
forma que não surpreende, a Escritura expressa o objetivo supremo de Deus nos eventos do êxodo mais
clara e frequentemente do que qualquer outro evento na história de Israel. Isso é o que este capítulo
destaca — as expressões do objetivo de Deus no êxodo inseridas na própria história do êxodo. Em
seguida, no Capítulo 7, ampliaremos esse foco e veremos o objetivo supremo de Deus para o êxodo
expresso em toda a história de Israel e no Novo Testamento.

LIBERTAÇÃO DO POVO DE DEUS,


IDENTIFICAÇÃO DO DEUS DE ISRAEL
Uma das razões para o objetivo supremo de Deus na história de Israel receber essa ênfase e essa
repetição na história do êxodo é que, nessa narrativa, Deus revela seu nome singular, Iavé, que o
distingue de todos os outros deuses. Iavé é traduzido pela palavra “SENHOR” em versalete na maior parte
das traduções da Bíblia e ocorre no Antigo Testamento mais de 6.800 vezes em referência ao Deus de
Israel.
A razão pela qual a revelação desse nome não somente desperta uma enxurrada de afirmações de
propósito sobre o êxodo, como também desencadeia uma sucessão de afirmações em todo o Antigo
Testamento, é que esse nome comunica a própria essência do que Deus é e como deseja ser conhecido.
Em outras palavras, o nome Iavé existe, em parte, porque o próprio nome expressa o objetivo de Deus
para todas as ações de Deus na história de Israel e, como veremos, todas as ações de Deus na história do
mundo.

CONTEXTO PARA REVELAÇÃO E LIBERTAÇÃO


Para vermos isso, coloquemos a história do êxodo em seu contexto histórico e, em seguida, vamos
observá-lo mais de perto. Por gerações, o povo de Israel — o povo eleito de Deus — tem vivido como
estrangeiros no Egito. E, por muito tempo, eles têm sido tratados como escravos. O tempo da libertação
por Deus se aproxima. Nasce um menino judeu que recebe o nome de Moisés. Ele é providencialmente
resgatado, pela filha de Faraó, do edito de morte, vindo a ser criado na corte egípcia.
Já adulto, Moisés defende um de seus compatriotas por matar um egípcio e foge para a terra de
Midiã. Ali, Deus aparece para Moisés numa sarça ardente e lhe diz que ele é o instrumento divinamente
escolhido para tirar seu povo da escravidão: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu
povo, os filhos de Israel, do Egito” (Êx 3.10). Moisés fica perplexo. Ele recua. “Disse Moisés a Deus:
Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel? Deus lhe respondeu: Eu serei contigo; e
este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste
monte” (Êx 3.11-12).
Em seguida, Moisés nos apresenta das mais importantes declarações que Deus já fez — a revelação
de seu nome, Iavé:
Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e
eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos
filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros. Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o
Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome
eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração (Êx ١٥-٣.١٣).

Observe três aspectos do que Deus fala a respeito de si mesmo.

SER ABSOLUTO ANTES DO NOME


Primeiro, em Êxodo 3.14a, “Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU”. Ele não disse que esse era seu
nome. Ele disse, em essência: “Antes de você se preocupar com o meu nome e em qual categoria me
encaixo entre os outros muitos deuses do Egito, da Babilônia ou da Filístia e antes de você ponderar
sobre invocar-me pelo meu nome e antes mesmo de perguntar se eu sou o Deus de Abraão — antes de
tudo isso —, fique admirado com isto: “EU SOU O QUE SOU”. Em outras palavras, “Antes de você ouvir
meu nome, compreenda meu ser único e absoluto em contraste com todo e qualquer outro ser”. Esse é o
primeiro aspecto, fundamental e de uma importância infinita.
Segundo, em Êxodo 3.14b, Deus acrescenta: “Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a
vós outros”. Até aqui, Deus ainda não disse seu nome a Moisés. Ele está construindo uma ponte entre
seu ser (“EU SOU O QUE SOU”) e seu nome (Iavé). Aqui, Deus apenas coloca a afirmação de seu ser no
lugar de seu nome. Diga aos líderes de Israel: “EU SOU me enviou a vós outros”. Aquele que é — que é
de forma absoluta — me enviou a vocês.
Terceiro, em Êxodo 3.15, Deus também diz a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR
[Iavé], o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós
outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração”. Finalmente,
Deus nos revela seu nome: Iavé (o SENHOR).
Esse nome, Iavé, é uma palavra hebraica formada sobre o verbo hebraico que significa “Eu sou”. Por
isso a versão em português traduz “EU SOU O QUE SOU” e “EU SOU”, em versalete, da maneira como o faz
com o nome “Iavé” — “SENHOR”. O fato é que, sempre que Israel ouve ou lê a palavra Iavé (ou a forma
abreviada Ia, que ouvimos toda vez que cantamos aleluia — “louvai Iavé”), ou toda vez que vemos “o
SENHOR” em nossa Bíblia, devemos pensar: “Este é um nome próprio (como Pedro, Tiago ou João) e
tem um significado dado pelo próprio Deus. Significa “EU SOU O QUE SOU”, com tudo que isso implica.

O QUE DEUS NOS DIZ A RESPEITO


DE SI MESMO 6.800 VEZES
Em outras palavras, o nome de Deus é uma mensagem. E a mensagem é a respeito de como ele tenciona
ser conhecido. Sempre que seu nome aparece — todas as 6.800 vezes —, Deus quer nos lembrar seu ser
totalmente único. Ao meditar sobre o significado do nome Iavé, expresso na frase “EU SOU O QUE SOU”,
que indica o ser absoluto de Deus, vejo pelo menos dez dimensões para seu significado:
1. O ser absoluto de Deus significa que ele nunca teve um começo. Isso desconcerta nossa mente.
Toda criança pergunta: “Quem fez Deus?”. E todo pai sábio responde: “Ninguém fez Deus”. Deus
simplesmente é e sempre foi. Ele não teve começo”.
2. O ser absoluto de Deus significa que ele nunca deixa de existir. Se ele não chegou à existência, não
pode sair da existência, porque é ser absoluto. Ele é o que é. Não há lugar para ir fora do ser. Só há
um Deus. Antes de ele criar, isto é tudo que existe: Deus.
3. O ser absoluto de Deus significa que Deus é realidade absoluta. Não há realidade antes dele. Não
há nenhuma realidade fora dele, a menos que ele o queira e o faça. Ele é não uma das muitas
realidades antes de criar. Ele simplesmente está lá, como a realidade absoluta. Ele é tudo que era,
eternamente. Nenhum espaço, nenhum universo, nenhum vazio. Somente Deus lá, de forma
absoluta, sendo absolutamente tudo.
4. O ser absoluto de Deus significa que ele é totalmente independente. Deus não depende de nada
para trazê-lo à existência, ou para sustentá-lo, ou para aconselhá-lo, ou para torná-lo o que ele é.
Isso é o que ser absoluto significa.
5. O ser absoluto de Deus significa que tudo que não é Deus depende totalmente dele. Tudo que não
é Deus é secundário e dependente. Todo o universo é totalmente secundário — não primário.
Chegou à existência por obra de Deus e continua existindo, momento após momento, pela
decisão de Deus de mantê-lo em existência.
6. O ser absoluto de Deus significa que todo o universo é, comparativamente, nada para Deus. Em
relação à realidade absoluta e independente, a realidade contingente e dependente é como uma
sombra em relação à substância, um eco em relação ao trovão, uma bolha em relação ao oceano.
Tudo que vemos, tudo de que nos admiramos no mundo e nas galáxias é, em comparação a Deus,
como nada. “Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos
do que nada, como um vácuo” (Is 40.17).
7. O ser absoluto de Deus significa que ele é constante. Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Não pode ser melhorado. Não está se tornando algo. Ele é quem ele é. Não há desenvolvimento
em Deus. Nenhum progresso. A perfeição absoluta não pode ser aprimorada.
8. O ser absoluto de Deus significa que ele é o padrão absoluto de verdade, bondade e beleza. Não há
nenhum livro de leis que ele examina para saber o que é certo. Nenhum almanaque para
estabelecer fatos. Nenhuma associação de classe para determinar o que é excelente ou belo. Ele
mesmo é o padrão do que é certo, do que é verdadeiro, do que é belo.
9. O ser absoluto de Deus significa que ele faz o que lhe agrada, o que é sempre certo, sempre belo e
sempre segundo a verdade. Não há restrições fora dele mesmo que possam impedi-lo de fazer o
que lhe agrada. Toda realidade que está fora dele, ele a criou, planejou e governa. Por isso, ele é
totalmente livre de quaisquer constrangimentos que não têm origem no conselho de sua própria
vontade.
10. O ser absoluto de Deus significa que ele é a realidade mais importante e mais valiosa no universo,
bem como a pessoa mais importante e mais valiosa no universo. Ele é mais digno de interesse,
atenção, admiração e gozo do que quaisquer outras realidades, incluindo o universo inteiro.
Essa é a mensagem do seu nome. E, no êxodo, Deus estabelece uma ligação permanente entre seu
nome e seu poder de resgatar Israel da escravidão. O tempo da revelação do nome de Deus não é
coincidência. Deus está vindo para salvar. Israel desejará saber quem é esse Deus salvador. Em essência,
Deus está falando: “Diga-lhes que meu nome é Iavé e deixe claro o que isso significa. Sou totalmente
livre e independente. E escolho livremente salvar meu povo. A liberdade de meu ser e a liberdade de meu
amor são uma só”.
Agora estamos em condições de ouvir Moisés nos presenteando com uma torrente de afirmações
que nos mostram o propósito supremo de Deus no êxodo. Por que as dez pragas? Dez! Por que a derrota
de Faraó e de seu exército no mar Vermelho? Por que a proteção e o livramento de Israel em toda a
travessia? Por que a ordem de se lembrarem disso para sempre?

PARA DEUS MOSTRAR SEU NOME A ISRAEL E AO EGITO


O propósito de Deus em multiplicar suas maravilhas no Egito, durante o êxodo, era tornar conhecidos
seu nome e seu poder de uma forma que ele seria glorificado por Israel, pelo Egito e pelas nações.
Moisés vai até aos líderes de Israel e entrega a mensagem de Deus:
Eu sou o SENHOR, e vos tirarei de debaixo das cargas do Egito, e vos livrarei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido
e com grandes manifestações de julgamento. Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR, vosso
Deus, que vos tiro de debaixo das cargas do Egito (Êx 6.6-7).

Deus revelou seu nome, “o SENHOR”, e seu significado: “EU SOU O QUE SOU”. Agora ele lhes mostrará,
“com grandes manifestações de julgamento” e libertação, que ele é “o SENHOR”. “Sabereis que eu sou o
SENHOR, vosso Deus.”
O propósito de Deus é não somente que Israel saiba quem seu Deus realmente é, mas também que
Faraó e os egípcios o saibam. “Faraó não vos ouvirá, para que as minhas maravilhas se multipliquem na terra
do Egito” (Êx 11.9; cf. 10.1). Com que propósito? “Saberão os egípcios que eu sou o SENHOR, quando
estender eu a mão sobre o Egito e tirar do meio deles os filhos de Israel” (Êx 7.5).
E todas as pragas que conduziram ao livramento tinham o mesmo propósito. As rãs: “Para que saibas
que ninguém há como o SENHOR, nosso Deus” (Êx 8.10). As moscas: “E saibas que eu sou o SENHOR no
meio desta terra” (Êx ٨.٢٢). Todas as pragas: “Enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração
[Faraó], e sobre os teus oficiais, e sobre o teu povo, para que saibas que não há quem me seja semelhante
em toda a terra” (Êx 9.14). E, no livramento final através do mar Vermelho, “saberão os egípcios que eu sou
o SENHOR […] e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR” (Êx 14.4, 18).

SEU NOME ENTRE TODAS AS NAÇÕES


Mas nem mesmo o Egito é audiência suficiente para o que Deus está fazendo no êxodo. Por isso, ele diz a
Faraó: “Para isso te hei mantido, a fim de mostrar-te o meu poder, e para que seja o meu nome anunciado
em toda a terra” (Êx 9.16). O êxodo é por amor às nações. Um exemplo dos efeitos salvadores da
reputação de Deus manifestada no êxodo é Raabe, a prostituta de Jericó. Ela favoreceu os espias de Israel
e, posteriormente, teve lugar na lista de crentes em Hebreus 11.31 e no ensino sobre a justificação em
Tiago 2.25. Como isso aconteceu? Eis o que ela disse aos espias:
Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra […] Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de
vós, quando saíeis do Egito […] Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa
presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2.9-11).

Portanto, quando Deus disse a Faraó: “Para isso te hei mantido […] para que seja o meu nome
anunciado em toda a terra” (Êx 9.16), podemos crer que Deus tinha em mente a fé de Raabe, bem como
milhares de outros efeitos. Seu propósito era ampliar sua reputação — tornar seu nome conhecido entre
as nações —, tendo em vista o efeito de que aqueles que vissem seu nome como glorioso o adorassem
com esperança e alegria.

NÃO APENAS CONHECIDO, MAS CONHECIDO


E RECONHECIDO COMO GLORIOSO
Quando Deus fala, repetidas vezes, que seu objetivo é que seu nome (e poder — Êx ٩.١٦) seja
conhecido, sabemos que esse objetivo não era que seu nome fosse conhecido e desprezado, mas
conhecido e glorificado. Deus mostra isso com muita clareza em duas afirmações sobre o clímax de sua
vitória no mar Vermelho:
Endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército; e saberão os egípcios que
eu sou o SENHOR (Êx 14.4).

Endurecerei o coração dos egípcios, para que vos sigam e entrem nele; serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus
carros e nos seus cavalarianos; e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos
seus cavalarianos (Êx 14.17-18).

A forma passiva “serei glorificado” não especifica quem é que está glorificando a Deus. Não há razão
para restringir isso a Israel ou aos egípcios. Deus já havia afirmado seu objetivo: “Para que seja o meu
nome anunciado em toda a terra” (Êx 9.16). Portanto, podemos admitir que esse objetivo de ser
glorificado é tão amplo quanto o alvo de que o nome de Deus se torne conhecido.

MUITO MAIS DO QUE CONHECIDO


E RECONHECIDO: ADORADO
Assim, o propósito abrangente de Deus — seu objetivo supremo — no êxodo era que ele fosse visto e
adorado como glorioso. Eu digo “adorado”, não somente “admirado relutantemente pelos inimigos”, por
algumas razões.
Já vimos uma razão — ou seja, o efeito do propósito de Deus para o êxodo (Êx 9.14) na salvação de
Raabe (Js 2.8-11; Hb 11.31). Outra razão é o próprio significado da palavra glorificar. Embora seja
possível um incrédulo “glorificar” a Deus por lhe atribuir poder terrificante, esse não é o objetivo
supremo de Deus ao fazer o que os autores da Escritura chamam de “maravilhas”. Ao fazer suas
maravilhas, o objetivo supremo de Deus é a adoração. Esse é o alvo de “glorificar”, que podemos ver, por
exemplo, em Salmos 86.9-10:
Todas as nações que fizeste virão, prostrar-se-ão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome. Pois tu és grande e operas
maravilhas; só tu és Deus!

Quando Deus tenciona, como o faz em Êxodo 14.4 e 17, “ser glorificado” por causa de seu triunfo
maravilhoso sobre Faraó, seu objetivo é que seu “nome” seja “anunciado em toda a terra” (Êx 9.16) —
ou seja, que “todas as nações que fizeste” venham e prostrem-se “diante de ti, Senhor”, e glorifiquem “o teu
nome”.

ADORAÇÃO INCLUI ALEGRIA NA GLORIOSA


GRANDEZA DE DEUS
É claro que adorar a Deus — glorificar a Deus — por suas maravilhas inclui uma grande alegria no
coração do povo de Deus. O chamado dirigido a Israel e a todas as nações para adorar a Deus é um
chamado para que se regozijem no Senhor:
Aclamai a Deus, toda a terra. Salmodiai a glória do seu nome, dai glória ao seu louvor. Dizei a Deus: Que tremendos são os teus
feitos! Pela grandeza do teu poder, a ti se mostram submissos os teus inimigos (Sl 66.1-3).

Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações (Sl 67.4).

Outra razão para eu dizer que o objetivo supremo de Deus no êxodo é ser adorado alegremente, e não
somente admirado relutantemente por seus inimigos, é que isso foi o que Moisés, Israel e Miriã fizeram
em resposta imediata ao afogamento de Faraó, por Deus, no mar Vermelho.
Deus disse: Serei “glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavalarianos” (Êx 14.18). E, mais
adiante no texto, a resposta do povo de Israel, quando “viu […] o grande poder que o SENHOR
exercitara contra os egípcios”, foi que “o povo temeu ao SENHOR e confiou no SENHOR e em Moisés, seu
servo” (Êx 14.31). Esse temor não foi um terror paralisante, mas confiança com tremor (como o que
uma criança sente quando seu pai a envolve em seus braços por medo da correnteza do mar). Ela, ao
mesmo tempo, treme e sorri.
Moisés e o povo de Israel cantaram este cântico ao SENHOR, dizendo:
Cantarei ao SENHOR, porque triunfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro. O SENHOR é a minha força e o
meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu Deus; portanto, eu o louvarei; ele é o Deus de meu pai; por isso, o exaltarei. O
SENHOR é homem de guerra; SENHOR é o seu nome (Êx ٣-١٥.١).

Eles cantaram ao Senhor. Louvaram o Senhor. Exaltaram o Senhor. E, quando o cântico acabou,
“Miriã […] tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças”
(Êx 15.20).
E Miriã lhes respondia em cântico:
Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro (Êx 15.21).

Todo esse cantar ao Senhor, louvar o Senhor e exaltar o Senhor em resposta ao afogamento dos
cavalos e dos cavaleiros no mar, tudo isso tem o propósito de nos mostrar qual era o objetivo de Deus ao
dizer: Serei “glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavalarianos” (Êx 14.18). Seu objetivo era a
adoração exultante da grandeza de sua glória. Foi por essa razão que ele multiplicou suas maravilhas na
terra do Egito (Êx 11.9). Foi por isso que o êxodo aconteceu.

O ECO INCESSANTE DO ÊXODO


Uma das coisas que tornam o êxodo singular é que expressões de seu objetivo supremo não estão
restritas à própria história que se desdobra nos primeiros capítulos do livro de Êxodo. Há reverberações
de seu propósito, ao longo dos séculos, na história de Israel e na história da Igreja cristã. No capítulo
seguinte, consideraremos a fé e a adoração jubilosa que o êxodo se destinava a produzir (e
frequentemente produziu) na história de Israel e no Novo Testamento — de fato, na eternidade.
7 | Lembrando o Êxodo

Terminamos o Capítulo 6 com o argumento de que o objetivo de Deus no êxodo era não somente que
seu grande nome (Iavé, com tudo o que ele sugere) fosse conhecido e reconhecido, mas também que
fosse alegremente adorado. O êxodo tinha como alvo não somente a admiração relutante de Faraó e das
nações, mas também, em especial, o louvor exultante por todo o panorama das excelências de Deus.
Sabemos isso tanto pelas razões que apresentamos no Capítulo 6 como pelo fato de que, na providência
de Deus, o êxodo desencadeou séculos de respostas adoradoras e jubilosas na história de Israel que se
estendem por todo o Antigo Testamento, o Novo Testamento – e até à eternidade. Este capítulo é uma
amostra dessas respostas.

A ADMIRAÇÃO HUMILDE DE DAVI


Quatrocentos anos depois do êxodo, o rei Davi orou com admiração e gratidão pelo fato de que Deus
tivera grande misericórdia por Israel e, em particular, em relação a ele. “Quem sou eu, SENHOR Deus, e
qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?” (1Cr 17.16). Quando o autor de Salmos 105
considera as centenas de anos de bênçãos sobre Israel, concentra-se no êxodo como a fonte da alegria
que deveria marcar a adoração do povo de Deus:
Porque estava lembrado da sua santa palavra e de Abraão, seu servo. E conduziu com alegria o seu povo e, com jubiloso canto, os
seus escolhidos (Sl 105.42-43).

Deus os conduziu com alegria! Deus fez isso. Esse era seu objetivo. Ele criaria para si mesmo um
nome global (Êx 9.16), e seu povo exultaria nessa autoexaltação divina. Esse era o propósito do êxodo e,
centenas de anos depois, ainda estava produzindo fruto na adoração jubilosa.

MARAVILHAS DE PODER, MARAVILHAS DE GRAÇA


Em seguida, há o salmo que exulta no êxodo. Veja o Salmo 106 como um exemplo. O que é admirável a
respeito dessa celebração do êxodo é que ela deixa claro que Israel era um povo pecador e não merecia
ser libertado. Isso significa que a maioria dos israelitas discernentes sabia que as maravilhas do êxodo
haviam sido não somente maravilhas de poder, mas também maravilhas de graça.
Pecamos, como nossos pais; cometemos iniquidade, procedemos mal. Nossos pais, no Egito, não atentaram às tuas maravilhas;
não se lembraram da multidão das tuas misericórdias e foram rebeldes junto ao mar, o mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor
do seu nome, para lhes fazer notório o seu poder. Repreendeu o mar Vermelho, e ele secou; e fê-los passar pelos abismos, como por
um deserto. Salvou-os das mãos de quem os odiava e os remiu do poder do inimigo (Sl 106.6-10).

Eis a essência do que estamos vemos repetidas vezes no propósito supremo da providência de Deus:
eles “foram rebeldes junto ao […] mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer
notório o seu poder” (Sl 106.7-8). Então, para quem foi o êxodo: para Israel ou para Deus? Ele os salvou.
Por amor ao seu nome! Para tornar conhecido seu poder! Para ambos. Foi para Israel. Foi para Deus.
Mas não foi para Israel e para Deus no mesmo sentido. Foi para a salvação de Israel. Foi para a
reputação de Deus. Mostrou a necessidade desesperadora e a condição indigna de Israel. Mostrou o
tremendo poder de Deus e sua graça maravilhosa. Satisfez a Israel com o êxtase grato de que sua
necessidade foi satisfeita por Deus. Magnificou a Deus pelo fato de que ele foi capaz e se mostrou
disposto a satisfazer essa necessidade. Israel recebeu a bênção da ajuda. Deus recebeu a honra de ser o
ajudador poderoso. Israel obteve a alegria. Deus recebeu a glória.
Como já vimos, nossa alegria e a glória de Deus não são objetivos separáveis da providência de Deus.
Estão entretecidos em um único alvo. A reverberação contínua da glória de Deus no êxodo acontece na
adoração jubilosa do povo de Deus em face dessa glória. A alegria de Israel em seu Deus gracioso,
poderoso e libertador é o eco da glória de Deus no êxodo. O objetivo de Deus de ser glorificado e seu
objetivo de que seu povo seja satisfeito nessa glória não estão separados entre si. Israel ser satisfeito no
Deus do êxodo é a essência de como o Deus do êxodo é glorificado em Israel. Esse é o objetivo supremo
da providência de Deus, o alvo que estamos vendo repetidamente.

ISAÍAS CELEBRA O BRAÇO GLORIOSO DE DEUS


Os profetas dão testemunho desse mesmo objetivo da providência de Deus no êxodo. Considere o
testemunho de Isaías:
Então, o povo se lembrou dos dias antigos, de Moisés, e disse: Onde está aquele que fez subir do mar o pastor do seu rebanho?
Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo? Aquele cujo braço glorioso ele fez andar à mão direita de Moisés? Que fendeu as águas
diante deles, criando para si um nome eterno? Aquele que os guiou pelos abismos, como o cavalo no deserto, de modo que nunca
tropeçaram? Como o animal que desce aos vales, o Espírito do SENHOR lhes deu descanso. Assim, guiaste o teu povo, para te
criares um nome glorioso (Is 63.11-14).

Deus manifestou o seu braço glorioso (‫ )ֶת ָר ְא ׅפ תּ‬a fim de criar para si mesmo um nome glorioso (
‫)ֶת ָר ְא ׅפ תּ‬, — não é a palavra usual para expressar glória (‫— )דוָֹב כּ‬, significando beleza, ornamento,
brilho, esplendor. Por quê? A fim de criar “para si um nome eterno” (63.12). Ou, como Isaías diz no final:
“Para te criares um nome glorioso” (63.14).
E o que Deus estava fazendo para criar esse nome glorioso? Estava fazendo seu povo subir do mar.
Pastoreando-os como um rebanho. Dando-lhes seu Espírito Santo. Guiando-os pelos abismos. Não
permitindo que tropeçassem. Dando-lhes descanso. Em outras palavras, o mesmo padrão que já vimos:
eles recebem a salvação; Deus recebe a reputação. Eles recebem a alegria de ser ajudados. Deus recebe a
glória de ajudar. O nome que Deus estava criando para si mesmo era Iavé — Eu sou o que sou —, ser
absoluto, todo-suficiente e todo-glorioso! Mas tudo isso foi realizado em benefício de um povo sem
esperança e indigno. Para aqueles que tinham olhos para ver, Deus estava criando um nome para a glória
de sua graça.

DA ESCRAVIDÃO À ABUNDÂNCIA
POR CAUSA DO NOME DE DEUS
O profeta Jeremias viu o mesmo objetivo da providência divina no êxodo:
Tu puseste sinais e maravilhas na terra do Egito até ao dia de hoje, tanto em Israel como entre outros homens; e te fizeste um nome,
qual o que tens neste dia. Tiraste o teu povo de Israel da terra do Egito, com sinais e maravilhas, com mão poderosa e braço
estendido e com grande espanto; e lhe deste esta terra, que com juramento prometeste a seus pais, terra que mana leite e mel (Jr
32.20-22).

O objetivo de Deus no êxodo era fazer um nome para si mesmo. Qual é esse nome? Do contexto,
poderíamos dizer que o nome de Deus é seu caráter como um Deus com uma mão forte e um braço
estendido, com grande terror, para mostrar sinais e maravilhas e trazer seu povo de uma terra de aflição
para uma terra que mana leite e mel. A glória do nome de Deus é seu poder, sabedoria, justiça e
misericórdia trazendo um povo da escravidão para a abundância. Seu objetivo é que seu povo veja essa
glória e adore com alegria.

UM NOME DE JUSTIÇA E GRAÇA


Mil anos depois do êxodo, alguns dos exilados de Israel retornaram do cativeiro na Babilônia para
Jerusalém. Em uma passagem do livro de Neemias, os levitas recitam a história de Israel em forma de
oração (Capítulo 9), confessando os pecados da nação e agradecendo a Deus por suas misericórdias.
Quando chegam ao êxodo, incluem o mesmo objetivo que temos visto repetidas vezes:
Viste a aflição de nossos pais no Egito, e lhes ouviste o clamor junto ao mar Vermelho. Fizeste sinais e milagres contra Faraó e
seus servos e contra todo o povo da sua terra, porque soubeste que os trataram com soberba; e, assim, adquiriste renome, como
hoje se vê. Dividiste o mar perante eles, de maneira que o atravessaram em seco; lançaste os seus perseguidores nas profundezas,
como uma pedra nas águas impetuosas (Ne 9.9-11).

O discernimento que os levitas nos mostram claramente é que parte do que significou Deus fazer um
nome para si mesmo, no êxodo, foi lidar, de forma justa, contra a arrogância dos líderes do Egito:
“Porque soubeste que os trataram com soberba”. Isso não somente explica a justiça de Deus na maneira
como ele lidou com Faraó, como também coloca em destaque a graça que Deus estava mostrando a
Israel no êxodo, porque eles também eram soberbos. Devemos lembrar Salmos 106.7-8:
Nossos pais, no Egito, não atentaram às tuas maravilhas; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias e foram rebeldes
junto ao mar, o mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer notório o seu poder.

A situação não era que o Egito merecesse ser julgado por sua arrogância, enquanto Israel merecia ser
salvo por sua justiça. Nenhum dos dois merecia ser salvo. Mas Deus escolheu livremente salvar Israel.

AS RAÍZES DA GRAÇA DO ÊXODO NA ALIANÇA DE GRAÇA


Sem dúvida, Deus estava se lembrando de sua aliança com Abraão quando salvou Israel do Egito (Êx
2.24; 6.5). Mas essa aliança foi feita tão livre e graciosamente quanto a graça do êxodo:
Eis que os céus e os céus dos céus são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão somente o SENHOR se afeiçoou a
teus pais para os amar [literalmente, o SENHOR deleitou-se em teus pais para amá-los]; a vós outros, descendentes deles, escolheu
de todos os povos, como hoje se vê (Dt 10.14-15).

A escolha de Abraão, no começo da história de Israel, não aconteceu por causa de quaisquer
constrangimentos que Deus sentiu exteriormente. Ele não teve de escolher Israel. Ele poderia ter
escolhido qualquer outra nação. Poderia não haver escolhido nação alguma. Essa é a de se dizer “Eis que
os céus e os céus dos céus são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo o que nela há” (10.14). Deus possui
cada pessoa, e poderia ter escolhido quem ele quisesse. O essencial é que sua escolha de Israel foi
totalmente livre. Deus simplesmente se deleitou em amá-los. Não foi por causa de fé ou justiça superior
deles. Fé foi uma resposta à escolha de Deus, e não a causa (Gn 15.6).
Por isso, no êxodo, quando Deus escolheu salvar Israel, e não o Egito, embora ambos fossem
rebeldes (Ne 9.10; Sl 106.7), sua escolha foi uma extensão dessa mesma livre graça que ele manifestou
para com Israel no começo, quando escolheu Abraão entre todas as pessoas do mundo. A aliança de
Deus não o obriga a salvar qualquer geração específica de israelitas incrédulos.
Qualquer geração que se vanglorie das misericórdias da aliança de Deus como se não pudesse ser
condenada deveria ouvir a mensagem de João Batista dirigida àqueles que diziam (presunçosamente):
“Temos por pai a Abraão”. João lhes disse: “Destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3.9).
Em outras palavras, a soberania de Deus o livra de ser manipulado ou coagido por sua própria aliança.
Isso foi verdadeiro no Egito, por ocasião do êxodo, como o foi também mais tarde, em Jerusalém, na
primeira vinda de Cristo. O êxodo foi uma obra de livre graça para fazer um nome para Iavé. Ou, como
Paulo diria, o êxodo foi para “para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6).
O nome que Deus fez para si mesmo no êxodo tinha suas raízes no nome que ele mesmo revelou:
“EU SOU O QUE SOU”. Esse nome significa liberdade: “Não estou preso a coisa alguma fora de mim
mesmo. Eu sou aquele que meu próprio conselho sábio e autoconsulente determina que eu seja (Ef
1.11). Eu sou livre”. No êxodo, Deus fez um nome para si mesmo ao agir como um Deus de graça
absolutamente livre. Ou seja, ele mostrou seu poder salvador em favor de um povo (Israel) que, à
semelhança dos egípcios, não merecia salvação. Deus é quem ele é e salva quem ele quer salvar — essa é
a liberdade da graça. Por trás do nome que Deus faz para si mesmo, está o nome que ele é em si mesmo:
“EU SOU O QUE SOU”.

ROMANOS 9 E OS ISRAELITAS QUE PERECEM


Esse é exatamente o ponto ao qual o apóstolo Paulo chega em sua aplicação da liberdade de Deus no
êxodo. Romanos 9 tem início com o doloroso lamento de Paulo de que seus compatriotas, o Israel de
seus dias, eram, em sua maioria, anátemas e separados de Cristo (Rm 9.3). Esse é o problema chocante
que define a forma como Romanos 9 se desenvolve. Como o povo eleito de Deus — que tem “a adoção”,
“a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas” (9.4) — pode ser anátema e separado do
Messias? Parece algo impensável. Essa é a questão com que Romanos 9 lida (de fato, é a questão por trás
de Romanos 9 a 11).
A resposta de Paulo é que as promessas de Deus não falharam, “porque nem todos os de Israel são,
de fato, israelitas” (9.6). Ou, em outras palavras, “Estes filhos de Deus não são propriamente os da carne
[o Israel meramente étnico], mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa
[aqueles que Deus escolheu livremente para considerar como herdeiros da promessa de vida] (9.8). Isso
significa que, embora muitos no Israel étnico sejam anátemas e separados de Cristo, as promessas feitas a
Israel não falharam, pois nem todo aquele que, fisicamente, é um israelita é considerado por Deus um
verdadeiro israelita, ou seja, um verdadeiro herdeiro da promessa.24
Para apoiar esse argumento, Paulo salienta que, entre os filhos físicos de Abraão, Isaque foi o
escolhido, e não Ismael (9.9). E, dos filhos físicos de Isaque, Jacó foi escolhido, e não Esaú (9.10-13).
Depois, Paulo deixa claro qual é o propósito dessa providência divina eletiva. Por que Deus escolheu um
filho, e não o outro, embora ainda não fossem “nascidos”, nem houvessem “praticado o bem ou o mal”
(9.11)? Resposta: “Para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por
aquele que chama” (9.11).
Em outras palavras, a causa suprema e decisiva de Isaque ser escolhido, e não Ismael, e de Jacó ser
escolhido, e não Esaú, não foi nada que houvesse neles; antes, foi o chamado de Deus. Isso deveria
parecer bem semelhante ao fato de Israel, e não o Egito, ser salvo no êxodo, embora ambos fossem
rebeldes e não merecedores.

PAULO E O ÊXODO: A LIBERDADE DA GRAÇA DE DEUS


De fato, Paulo se volta ao livro de Êxodo para esclarecer a liberdade de Deus em escolher os beneficiários
de sua misericórdia. Em primeiro lugar, ele cita Êxodo 33.19 em Romanos 9.15: “Ele [Deus] diz a
Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me
aprouver ter compaixão” (o que é um eco de “EU SOU O QUE SOU”). Em outras palavras, “Eu sou
absolutamente autodeterminante e livre em dispensar misericórdia”. Do que Paulo extrai esta verdade:
“Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (9.16).
Em outras palavras, a liberdade de Deus em ter misericórdia de quem ele quer significa que sua
misericórdia não é governada pela vontade ou a realização humana. É governada, final e decisivamente,
pela vontade de Deus.
Em seguida, para apoio adicional, Paulo se volta ao propósito da providência de Deus no próprio
evento do êxodo. Ele traz à mente a afirmação de propósito em Êxodo 9.16 e cita-a em Romanos 9.17:
“Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por
toda a terra”. Em outras palavras, a vontade de Deus, seu propósito, é final e decisivo em explicar por que
Faraó foi levantado como adversário de Israel.
Em seguida, Paulo se afasta dessas duas citações de Êxodo (33.19 e 9.16) e extrai a seguinte
conclusão em Romanos 9.18: “Logo, tem ele [Deus] misericórdia de quem quer e também endurece a
quem lhe apraz”. Em outras palavras, Paulo viu, em Êxodo 33.19 e 9.16, a mesma coisa que vemos no
nome que Deus fez para si mesmo no êxodo. Deus estava fazendo um nome para sua liberdade, para sua
completa autossuficiência. “EU SOU O QUE SOU.”
Em sua liberdade e autossuficiência, Deus almeja ser conhecido pela liberdade em graça para com
um Israel não merecedor (Sl 106.7-8) e liberdade em justiça para com o arrogante Egito (Ne 9.10).
“Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.” O objetivo supremo de
Deus é que aqueles que têm olhos para ver cheguem a tremer diante de sua justiça e valorizem a glória de
sua graça — sua graça autodeterminada e absolutamente livre.
TORNAR CONHECIDAS AS RIQUEZAS DA GLÓRIA
EM VASOS DE MISERICÓRDIA
Consideremos mais um passo no argumento de Paulo em Romanos 9. Paulo extrai algo admirável dessa
lição sobre Faraó. Deus afirma que Faraó foi levantado, “para mostrar em ti o meu poder e para que o
meu nome seja anunciado por toda a terra” (9.17). No versículo 22, Paulo inicia com uma sentença
sobre esse desejo de Deus mostrar seu poder, mas nunca a termina. Paulo diz:
Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de
ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que
para glória preparou de antemão (9.22-23).

Na verdade, as palavras “que diremos” não existem no original. A frase é uma extensa oração
condicional sem a oração principal. Espera-se que acrescentemos a parte ausente. Eis a minha sugestão
quanto ao que devemos acrescentar: “Se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder,
suportou com tanta longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também
desse a conhecer as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia, que, para a glória, preparou de
antemão […] então, nenhuma objeção legítima pode ser levantada”. Isso é o que a tradução “que diremos”
também sugere. “Se eu tiver este propósito de mostrar minha ira e meu poder? Se eu quiser fazer isso,
vocês acharão falta em mim?” Esse é o argumento que Paulo expõe nos versículos 20-21: o oleiro tem
direito de mostrar seu poder e sua sabedoria de qualquer forma que considere melhor para realizar seus
propósitos. 25

Portanto, o argumento básico de Paulo para a razão pela qual é certo Deus agir com liberdade — ter
misericórdia de quem ele quiser e endurecer a quem ele quiser (9.18) — é que o propósito supremo de
mostrar ira e poder (como na derrota de Faraó) é “que também desse a conhecer as riquezas da sua glória
em vasos de misericórdia”. A livre justiça de Deus no endurecimento de Faraó faz a liberdade da
misericórdia de Deus refulgir mais brilhantemente nos vasos de misericórdia.
No caso do êxodo, isso significa que, se tanto Israel como o Egito mereciam nada mais nada menos
que julgamento, a demonstração da ira e do poder de Deus contra os egípcios foi tanto justa, por causa
da soberba do Egito (Ne 9.10), como misericordiosa, por causa da rebeldia de Israel (Sl 106.7). Deus era
livre para endurecer a quem ele quisesse e ter misericórdia de quem resolvesse ter misericórdia (Rm
9.18). Porque Deus julgou justamente Faraó, as riquezas da glória de sua misericórdia brilham muito
mais intensamente em Israel. Eles não mereciam nada melhor do que o que Faraó merecia. Mas
receberam misericórdia — livremente.
O OBJETIVO SUPREMO DO ÊXODO: GRAÇA GRATUITA
PARA A GLÓRIA DE DEUS
Estaríamos corretos em dizer que o propósito supremo de Deus no êxodo era que ele fosse glorificado
(Êx 14.4, 17), para fazer um nome para si mesmo (Êx 9.16; Ne 9.10; Is 63.14; Jr 32.20). Mais
especificamente, Deus fez um nome para si mesmo ao vivenciar o significado do nome que ele revelara
no começo da história (Iavé): “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14), “EU SOU O QUE SOU” se torna “Eu salvo
quem eu quiser salvar” e “Eu julgo quem eu quiser julgar”. Ou, como Romanos 9 diz, “Terei misericórdia
de quem me aprouver ter misericórdia” (9.15), e ele “endurece a quem lhe apraz” (9.18).
Em outras palavras, a providência de Deus no êxodo (ou em qualquer outro evento) é final e
decisivamente governada não por vontade ou esforço humano (٩.١٦), mas, sim, pela própria vontade
autodeterminante de Deus. Ele é livre. Ele é o que é — e não o que outros pensam dele. E Deus faz o que
faz — e não o que outros o constrangem a fazer. Em sua liberdade, Deus nunca é injusto, porque nunca
trata ninguém em pior medida do que merece. E sua graça é sempre livre, totalmente livre. Esse é o
nome que ele almeja glorificar. Seu nome — seu caráter essencial — é que ele é o Deus que salva por
causa de si mesmo, ou seja, para a glória de sua graça. Seu objetivo no êxodo — e em toda a sua obra de
salvação — é ser louvado para a glória de sua graça “em toda a terra” (Êx 9.16; Rm 9.17).
Para uma discussão sobre o entendimento de Paulo quanto à diferença entre o verdadeiro Israel e o Israel étnico, e como esse verdadeiro,
ou interior, ou espiritual, Israel (Rm 2.28-29) se relaciona com os gentios crentes no Messias, veja o Capítulo 5.

Compreendo que esse foi um resumo muito breve de Romanos 9.1-23. Se você deseja ver uma argumentação mais completa, escrevi um
livro inteiro sobre esses 23 versículos: John Piper, The Justification of God: An Exegetical and Theological Study of Romans 9:1–23 (Grand
Rapids, MI: Baker Academic, 1983). Muitos eruditos afirmam que esses versículos nada têm a ver com pessoas ou com destinos eternos,
mas somente com experiências temporais e grupos coletivos. Considero essas afirmações exegeticamente equivocadas. Eles simplesmente
não conseguem lidar com o problema crucial e central levantado no versículo 2, ou seja, o problema de que os israelitas individuais são
anátemas e separados de Cristo. O assunto se refere realmente a destinos eternos e a indivíduos em Israel, e não somente às pessoas como
um todo. De fato, a solução de Paulo para o aparente fracasso de Deus em cumprir suas promessas é insistir em que nem todos do Israel
coletivo são verdadeiramente filhos de Deus. O texto começa (vv. 2 a 6) e termina (v. 24) com a ênfase em Deus escolher indivíduos
“dentre os judeus, mas também dentre os gentios”. O texto é, de uma forma surpreendente, sobre indivíduos e seu destino eterno.
8 | A Lei, o deserto e a conquista de Canaã

“No terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia desse mês, vieram ao
deserto do Sinai” (Êx 19.1). Se o êxodo reverberou em toda a história de adoração de Israel como a
grande exaltação da glória de Deus em livramento gracioso, então a entrega da Lei no monte Sinai
reverberou ainda mais na vida comum de Israel como a Constituição exaustiva de sua existência.

A CONEXÃO EXALTADORA DE DEUS ENTRE


A LEI E O ÊXODO
O tempo que Israel passou no monte Sinai foi de grande importância em sua vida — de fato, na vida do
mundo, levando-se em conta quão influentes os Dez Mandamentos têm sido na história humana.
Quando Deus chamou Moisés, a primeira coisa que ele disse criou uma conexão entre a entrega da lei e
o êxodo:
Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim. Agora, pois, se diligentemente
ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque
toda a terra é minha (Êx 19.4-5).

Em outras palavras, “Israel, sua travessia do mar Vermelho por minha intervenção foi miraculosa e
maravilhosa, como se você tivesse deixado o Egito nas asas de uma águia. Vocês eram tão desamparados
quanto filhotes de águia; e eu fui poderoso o suficiente para levar a nação inteira em minhas asas. O meu
livramento foi impressionante. E acrescentem a isso outras duas maravilhas: primeira, vocês não
mereciam nada disso (Sl 106.7); segunda, eu lhes trouxe para desfrutar o melhor tesouro do universo: a
mim mesmo. Eu ‘vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim’ (Êx ١٩.٤). Lembrem-se das palavras
que falei por intermédio de Moisés no êxodo”:
Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas
do Egito (Êx 6.7).

O êxodo foi uma espécie de ratificação da escolha original de Deus alusiva a Abraão e seus
descendentes (Gn 12.1-3), para serem “a minha propriedade peculiar” (Êx 19.5). Quarenta anos depois,
às portas da terra prometida, Deus falou a Israel: “Mas o SENHOR vos tomou e vos tirou da fornalha de
ferro do Egito, para que lhe sejais povo de herança, como hoje se vê” (Dt 4.20).
Depois, quando Deus entregou a Moisés a essência da lei no monte Sinai — os Dez Mandamentos
—, suas primeiras palavras reafirmaram a conexão entre o êxodo e os mandamentos:
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim (Êx 20.2-
3).
A PRIMEIRA PRIORIDADE DE DEUS
NA LEI: SUA SUPREMACIA
Em face do que vimos nos Capítulos 6 e 7 sobre o objetivo supremo da providência no êxodo, não
ficamos surpresos com o fato de que a primeira prioridade de Deus em sua Constituição para a vida de
Israel seja que ele é seu Deus supremo. “Não terás outros deuses diante de mim.” O principal alvo de
Deus no êxodo era que Israel (Êx 6.7) e o Egito (Êx 7.5) soubessem que ele é o Deus único e supremo
— Iavé, aquele que absolutamente é (Êx 3.14). “E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR [Iavé]
quando for glorificado em Faraó” (Êx 14.18).
Esse propósito divino, agora, é inserido na lei de Israel e estabelecido como o alicerce da vida coletiva
da nação. Isso não é o homem exigindo que Deus seja supremo; é Deus exigindo que Deus seja supremo.
A autoexaltação de Deus não poderia ser mais intimamente entretecida na estrutura da vida coletiva de
Israel do que neste primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”.

SUPREMO NAS AFEIÇÕES FELIZES DE SUA ESPOSA


Mas a natureza dessa autoexaltação no primeiro mandamento não se torna clara enquanto não a
relacionamos ao segundo mandamento:
Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas
águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a
iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem (Êx 20.4-5).

O primeiro mandamento era “Não terás outros deuses diante de mim” (20.3). Mas em que sentido
Deus quer dizer “diante de mim”? O segundo mandamento esclarece: “Eu sou o SENHOR, teu Deus,
Deus zeloso” (Êx 20.5). Em outras palavras, “Você, Israel, é a minha esposa (Jr 2.2; Ez 16.8). Se seu
coração seguir qualquer outro ser, eu fico irado; e fazer isso é parte de minha santidade (Js 24.19; Ez
39.25). Seu coração, sua lealdade suprema, seu amor, sua afeição, sua devoção, sua satisfação, tudo
pertence, supremamente, a mim”.
Portanto, o objetivo do primeiro mandamento (“Não terás outros deuses diante de mim”) era não
somente reivindicar que Deus fosse supremamente exaltado em Israel, mas também que Israel fosse
supremamente satisfeito em Deus. Quando uma esposa é plenamente satisfeita em seu esposo e não
busca satisfação em nenhum outro, ela exalta o valor de seu esposo, e o ciúme dele nunca é despertado.
A suprema alegria dela em seu marido é sua exaltação do valor dele. Essa exaltação é o objetivo dos dois
primeiros mandamentos da lei.

COMO O PRIMEIRO E O ÚLTIMO


DOS DEZ MANDAMENTOS SÃO UNÂNIMES
Esse entendimento dos dois primeiros mandamentos é confirmado pelo último. O décimo mandamento
diz: “Não cobiçarás” (Êx 20.17). A palavra traduzida como cobiçar é, no hebraico, simplesmente
“desejar”. Então, a pergunta para definir o que cobiçar significa é: quando o desejo por algo — como
dinheiro ou o que o dinheiro pode comprar — se torna um desejo mau? Quando o desejo legítimo se
torna cobiça?
A resposta aparece quando colocamos o décimo mandamento ao lado dos dois primeiros. Os dois
primeiros mandamentos dizem: “Nenhum deus diante de mim. Nada em seu coração deve competir
comigo. Deseje-me tão plenamente que, quando você me tem, fica satisfeito”. E, depois, o décimo
mandamento diz: “Não cobice. Não tenha quaisquer desejos ilegítimos”. Ou seja, não deseje coisa
alguma de maneira que enfraqueça seu contentamento em Deus. Portanto, cobiça — ou desejo errado
— é desejar qualquer coisa de uma maneira que nos faz perder nosso contentamento em Deus. 26

Em essência, o primeiro e o último dos Dez Mandamentos exigem a mesma coisa. Paulo explicitou
essa conexão em Colossenses 3.5: “A avareza [cobiça – o décimo mandamento] […] é idolatria [o
primeiro mandamento]”. O primeiro mandamento (“Não terás outros deuses diante de mim”) exige:
“Você sempre me terá como supremo em suas afeições. Você se deleitará em mim mais do que em
qualquer pretendente que aparecer. Nada apelará a você mais do que eu mesmo. Tenha-me como seu
tesouro supremo e contente-se em mim”.
O décimo mandamento (“Não cobiçarás”) exige: “Não deseje coisa alguma além de mim, de
maneira tal que o desejo enfraqueça sua satisfação em mim. Permita que todos os seus desejos por meus
dons sejam expressões de seu desejo por mais de mim”. A maneira de Agostinho expressar isso foi orar:
“Pouco te ama aquele que ama a ti e, ao mesmo tempo, ama qualquer outra coisa não por amor a ti”. 27

O ALVO DA PROVIDÊNCIA
E O CAMINHO DE TODA OBEDIÊNCIA
A partir desse entendimento sobre os Dez Mandamentos, chego a duas conclusões relevantes para nosso
propósito neste livro. A primeira é que Deus cuidou para que seu alvo supremo na providência fosse
inserido no âmago da Constituição escrita de Israel. Esse alvo é que seu valor e sua beleza sejam
magnificados acima de todas as coisas na adoração sincera de suas excelências por parte de seu povo. Ou,
dito de outra maneira, o alvo da providência de Deus, agora estabelecido no âmago de sua lei, é que ele
seja exaltado como o maior tesouro nas afeições alegres de seu povo — que ele seja supremamente
glorificado por sermos profundamente satisfeitos nele.
A segunda conclusão a que chego a partir desse entendimento sobre o primeiro e o último dos Dez
Mandamentos é que Deus tenciona que se obedeça aos outros mandamentos com base no primeiro e no
último. O fato de que os outros mandamentos estão entre o primeiro e o último não é insignificante. O
começo e o fim da lei de Israel consistem em que Deus seja exaltado como supremo na satisfação mais
profunda de seu povo nele.
Portanto, estou argumentando que o objetivo de Deus em começar e terminar os Dez Mandamentos
com esse coração alegre e exaltador é que toda obediência flua desse tipo de coração. Obediência
relutante não faz Deus parecer grande. Ou, em outras palavras: servir ao “SENHOR com alegria” (Sl
100.2) é um resumo da lei. Somente esse tipo de servir mostra que nosso Deus é nosso tesouro mais
elevado e nosso prazer mais excelente. Portanto, o objetivo supremo da providência está inserido no
âmago da lei.
GRAÇA NO DESERTO PARA A GLÓRIA DE DEUS
A desobediência de Israel à lei de Deus caracterizou sua história desde o começo. Foi um pano de fundo
sombrio no mar Vermelho e fez do êxodo uma admirável manifestação de graça (Sl 106.7-8). Continuou
no incidente do bezerro de ouro (Êx 32) e durante a peregrinação no deserto. Às portas da terra
prometida, pouco antes de Deus fazer o povo voltar para mais quarenta anos de peregrinação, ele disse:
Porém, tão certo como eu vivo, e como toda a terra se encherá da glória do SENHOR, nenhum dos homens que, tendo visto a
minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, todavia, me puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha
voz, nenhum deles verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me desprezaram a verá (Nm
14.21-23).

Desde o dia em que saístes do Egito até que chegastes a este lugar, rebeldes fostes contra o SENHOR (Dt 9.7).

Por que, então, Israel não foi destruído no deserto? Pela mesma razão pela qual não foi destruído no
Egito. Oitocentos anos depois do êxodo, quando o profeta Ezequiel considerava a providência de Deus
na história de Israel, ele associou o propósito de Deus no êxodo ao propósito de Deus na experiência de
Israel no deserto. E os descreveu de maneira idêntica. Sua ênfase foi que Israel era pecaminoso e indigno,
mas Deus os salvou no êxodo e no deserto pela mesma razão: seu objetivo supremo. Ele os salvou por
amor ao seu nome.
Citando Deus, Ezequiel descreve o propósito da providência de Deus no êxodo como temos visto:
Rebelaram-se contra mim e não me quiseram ouvir… Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir a
minha ira contra eles, no meio da terra do Egito. O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das
nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito . Tirei-os da terra do
Egito e os levei para o deserto (Ez 20.8-10).

Depois, ele volta a citar o Senhor, com palavras quase idênticas, para descrever o propósito de sua
providência na experiência de Israel no deserto:
A casa de Israel se rebelou contra mim no deserto […] Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor no deserto, para os
consumir. O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante as quais os fiz sair (Ez
20.13-14).

Oito versículos à frente, ele repete a si mesmo para garantir que a verdade seja clara e convincente:
Mas também os filhos se rebelaram contra mim […] Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra
eles a minha ira no deserto. Mas detive a mão e o fiz por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante
as quais os fiz sair (Ez 20.21-22).

Ezequiel tenciona que vejamos a conexão entre a graça de Deus — não derramar sua ira sobre Israel,
embora merecessem isso — e seu compromisso com a glória de seu próprio nome. A conexão é que sua
graça restritiva de ira alcançou Israel por causa do seu compromisso invariável com seu nome. Nesse
caso, especificamente, Deus teve preocupação com a glória de seu nome entre as nações — “para que
não fosse profanado diante das nações” (20.9, 14, 22).
Somos advertidos outra vez a não pensar no propósito de autoexaltação de Deus como algo que, de
alguma maneira, esteja em desacordo com seu propósito de ser misericordioso. A autoexaltação de Deus
foi o fundamento da exultação imerecida de Israel. Se tivessem olhos para ver, eles se teriam regozijado
na glória da graça de Deus que o levou a poupá-los.

MAR DIVIDIDO, RIO DIVIDIDO,


PARA MOSTRAR QUE O SENHOR É PODEROSO
Avançamos, em seguida, do alvo da providência divina nas peregrinações de Israel no deserto para seu
alvo na conquista brutal de Canaã, a terra da promessa, a terra que mana leite e mel. Em uma espécie de
reencenação do êxodo, Deus divide as águas do rio Jordão, para que Israel atravesse e entre na terra
prometida por terra seca (Js 3.15-17). Eles constroem um memorial com doze pedras. O significado
dessas pedras estabelece para nós a conexão entre o propósito de Deus no êxodo e seu propósito na
conquista iminente:
Quando, no futuro, vossos filhos perguntarem a seus pais, dizendo: Que significam estas pedras?, fareis saber a vossos filhos,
dizendo: Israel passou em seco este Jordão. Porque o SENHOR, vosso Deus, fez secar as águas do Jordão diante de vós, até que
passásseis, como o SENHOR, vosso Deus, fez ao mar Vermelho, ao qual secou perante nós, até que passamos. Para que todos os
povos da terra conheçam que a mão do SENHOR é forte, a fim de que temais ao SENHOR, vosso Deus, todos os dias (Js 4.21-24).

No êxodo, Deus dividiu o mar Vermelho e derrotou Faraó, “a fim de mostrar-te o meu poder, e para
que seja o meu nome anunciado em toda a terra” (Êx 9.16). De modo semelhante, ele dividiu o rio
Jordão e levou seu povo para uma nova terra, “para que todos os povos da terra conheçam que a mão do
SENHOR é forte” (Js 4.24).

VITÓRIA PARA ISRAEL, GLÓRIA PARA DEUS


Quando Israel guerreia contra os povos da terra, um evento em especial chama nossa atenção no que diz
respeito a esse propósito de Deus de ser conhecido como o grande e poderoso Deus. Por causa do
engano de Acã, o povo de Israel é derrotado na batalha pela cidade de Ai. Josué ficou desanimado. Ele
“rasgou as suas vestes e se prostrou em terra sobre o rosto perante a arca do SENHOR” (7.6). Josué sabia
o que as pedras memoriais significavam e qual era o propósito de Deus nessas batalhas. Por isso, sua
principal controvérsia com o Senhor era a preocupação de Deus com seu próprio nome:
Disse Josué: Ah! SENHOR Deus, por que fizeste este povo passar o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, para nos
fazerem perecer? Tomara nos contentáramos com ficarmos dalém do Jordão. Ah! SENHOR, que direi? Pois Israel virou as costas
diante dos seus inimigos! Ouvindo isto os cananeus e todos os moradores da terra, nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da
terra; e, então, que farás ao teu grande nome? (Js 7.7-9).

As duas preocupações de Josué são inseparáveis na história de Israel e no propósito da providência


de Deus: seu povo está prestes a ser destruído, e seu nome está prestes a ser aviltado. Implícito na oração
de Josué, está um anseio duplo “Salva-nos, ó Deus, e faze isso por amor ao teu nome”. Obtenha para si
mesmo grande glória ao nos dar a vitória. O propósito de Deus nessa conquista era “que todos os povos
da terra conheçam que a mão do SENHOR é forte” (Js 4.24) e que Israel herde a terra, receba todas as
misericórdias de Deus, se apegue a ele e sirva a ele com alegria.
GRAÇA IMERECIDA PARA ISRAEL,
JULGAMENTO MERECIDO PARA CANAÃ
Antes de atravessarem o Jordão, Deus advertiu o povo de Israel de que essa conquista não era um tributo
à justiça deles. Eles não merecem uma terra que mana leite e mel. Não estão destruindo os habitantes da
terra por causa da justiça superior de Israel, mas, sim, por causa da justiça de Deus para com as nações e
da graça de Deus totalmente imerecida para com Israel:
Não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que o SENHOR me trouxe a esta terra para a possuir, porque, pela maldade
destas gerações, é que o SENHOR as lança de diante de ti. Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que
entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti; e para confirmar a
palavra que o SENHOR, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.
Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR, teu Deus, te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo de
dura cerviz. Lembrai-vos e não vos esqueçais de que muito provocastes à ira o SENHOR, vosso Deus, no deserto; desde o dia em
que saístes do Egito até que chegastes a este lugar, rebeldes fostes contra o SENHOR (Dt 9.4-7).

Vez após vez, Deus lembrou a Israel que eles não mereciam suas bênçãos, assim como os egípcios e
os cananeus não as mereciam. Eles mereciam ser julgados e destruídos, assim como os povos pagãos —
talvez ainda mais por causa de sua rebelião contra Deus, apesar de todos os seus benefícios (Nm 14.11).
Mas Deus escolheu livremente fazer um nome para si mesmo ao derramar graça imerecida sobre Israel e
justiça bem-merecida sobre as nações perversas de Canaã, cujos pecados haviam, finalmente, enchido a
medida (Gn 15.16). Ou, como o apóstolo Paulo diria, Deus estava tornando conhecidos sua ira e seu
poder, a fim de tornar conhecidas as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia (Rm 9.22-23). 28

DEUS LUTOU POR ELES PARA QUE SE ACHEGASSEM A ELE


Oh! Quão valentemente Deus lutou por Israel e quão generosamente os abençoou! Não houve nenhum
fracasso. Deus lutou por eles. As vitórias pertenceram ao Senhor.
O SENHOR expulsou de diante de vós grandes e fortes nações; e, quanto a vós outros, ninguém vos resistiu até ao dia de hoje. Um só
homem dentre vós perseguirá mil, pois o SENHOR, vosso Deus, é quem peleja por vós, como já vos prometeu. Portanto,
empenhai-vos em guardar a vossa alma, para amardes o SENHOR, vosso Deus (Js 23.9-11).

E que experiência no coração de seu povo Deus estava almejando em todos esses julgamentos sobre
seus inimigos e todas essas bênçãos sobre seu povo? Qual era o propósito de Deus para Israel nessa nova
terra, onde “nem uma só promessa caiu de todas as boas palavras que falou de vós o SENHOR, vosso
Deus” (Js 23.14; cf. 21.45)?
A resposta é que eles amassem o Senhor! “Empenhai-vos em guardar a vossa alma, para amardes o
SENHOR, vosso Deus” (23.11). Sim, Deus tencionava que eles guardassem “o mandamento e a lei” (Js
22.5) — o que, como já vimos, ao lidarmos com os Dez Mandamentos, significa “servir ao Senhor com
alegria”. O âmago do objetivo de Deus para a experiência de seu povo estava nesta grande inferência:
porque Deus luta tão misericordiosamente por vocês, “guardem diligentemente a alma de vocês para
amarem Iavé, o Deus de vocês” (23.11 — tradução do autor). Ou, como Josué 22.5 diz, “Acheguem-se a
ele e […] sirvam-no de todo o vosso coração e de toda a vossa alma”.
Amar, achegar-se, servir: essa é a descrição não de um escravo miserável, mas de um filho feliz.
Feliz és tu, ó Israel! Quem é como tu? Povo salvo pelo SENHOR, escudo que te socorre, espada que te dá alteza. Assim, os teus
inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás os seus altos (Dt 33.29).

O propósito da providência de Deus na conquista de Canaã era colocar em exibição seu poder e seu
nome em justiça e misericórdia, para que seu povo ficasse admirado com a liberdade e a glória de sua
graça. Depois, com essa admiração humilde e estonteante diante da poderosa graça de Deus, que eles se
achegassem a Deus como sua vida (Dt 30.20) e servissem a ele para sempre, de maneira que deixasse
evidente que Deus é um tesouro plenamente satisfatório. O propósito da providência de Deus era que sua
glória fosse exaltada, na medida em que seu povo o valorizasse e se satisfizesse nele como sua herança
suprema (Sl 73.26). Isso é o que significava achegar-se a ele e servir a ele de todo o coração e de toda a
alma (Js 22.5).

DOS DEZ MANDAMENTOS À CONQUISTA DE CANAÃ


Nada moldaria tanto a vida coletiva de Israel, durante toda a sua história, quanto a entrega da Lei no
monte Sinai. Portanto, Deus inseriu no âmago da Lei uma expressão inconfundível de sua autoexaltação:
“Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). Esse mandamento não deveria ser um fardo, mas,
sim, uma experiência satisfatória de uma mulher que tem um marido perfeito. Essa satisfação faria a
diferença entre desejos que exaltam a grandeza do marido e desejos que são conhecidos como cobiça. O
objetivo supremo de Deus na Lei era que a supremacia de seu valor e de sua beleza se refletisse na
satisfação suprema de seu povo nele.
Assim como o êxodo e a entrega da Lei foram planejados por Deus para exaltar a inquestionável
grandeza de sua glória em um povo que se satisfaz em Deus e o exalta, também a paciência inigualável de
Deus para com o desobediente Israel, no deserto, destinava-se a magnificar o nome de Deus e impedi-lo
de ser profanado entre as nações (Ez 20.9, 14, 22). As maravilhas de Deus no deserto foram realizadas
repetidas vezes em favor de um povo que se rebelou contra ele. Portanto, a glória desse Deus exaltado
entre as nações era a glória de sua graça poderosa.
Por fim, em sua misericórdia, Deus levou Israel à terra prometida e desapossou as nações em sua
justiça sobre a impiedade delas e em sua graça sobre a impiedade de Israel (Dt 9.4-7). Nem Israel nem os
cananeus mereciam aquela terra. Deus estava agindo em liberdade (“EU SOU O QUE SOU” – Êx 3.14;
“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia” – Rm 9.15). O alvo de Deus era “que todos
os povos da terra conheçam que a mão do SENHOR é forte” (Js 4.24) e que Israel o amasse e se achegasse
a ele com todo o seu coração e com toda a sua alma (Js 22.5; 23.11). Essa glória global e essa alegria do
povo de Deus em sua graça são inseparáveis. A perfeição da glória se manifesta, finalmente, na perfeição
da alegria na glória da graça. É para esse ponto que toda a providência está conduzindo. Isso significa que
ela está conduzindo rumo a Jesus e à sua cruz, como vimos no Capítulo 3 e voltaremos a ver.

Essas reflexões sobre o primeiro e o último dos Dez Mandamentos não são novas. Em várias ocasiões, escrevi e falei sobre essa relação. A
fraseologia usada aqui foi emprestada, em parte, de John Piper, Living in the Light with Money, Sex, and Power (Charlotte, NC: Good Book
Company, 2016), cap. 3.

Agostinho, Confissões, livro 10, cap. 29.


Ao meditarmos no fato de que “muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt 22.14; Lc 13.23-24), faríamos bem em não esquecer
quão grande misericórdia é alguém ser salvo. John Owen reflete sobre essa misericórdia: “Aqueles que, no presente, alegam grande
dificuldade na conciliação da perdição eterna de maior parte da humanidade com essas noções que temos da bondade divina, esses parecem
não ter considerado suficientemente o que estava contido em nossa apostasia original de Deus, nem a justiça de Deus em lidar com os anjos
que pecaram. Pois, quando o homem, voluntariamente, quebrou toda a relação de amor e bem moral entre Deus e ele mesmo, deformou a
imagem de Deus — a única representação da sua santidade e justiça neste mundo caído — e negou-lhe toda a glória manifestada nas obras
de suas mãos, colocando-se em sociedade com o diabo e sob sua condução. Que desonra teria sido para Deus, que diminuição teria havido
de sua glória, se ele houvesse entregado o homem à sua própria escolha, para comer para sempre dos frutos de seus próprios caminhos e ser
cheio de seus próprios enganos até à eternidade? É somente a sabedoria infinita que pode divisar um caminho para salvação de qualquer um
de toda a raça humana, para que seja reconciliado com a glória da santidade, justiça e governo de Deus. Por isso, devemos admirar sempre a
graça soberana nos poucos que serão salvos. Portanto, não temos base para meditar sobre a bondade divina nas multidões que perecem,
especialmente levando em conta que todos eles continuam voluntariamente em seu pecado e apostasia”. John Owen, The Works of John
Owen, vol. 1, ed. William H. Goold (Edinburgh: T&T Clark, n.d.), 191.
9 | O tempo dos juízes e os dias da monarquia

Infelizmente, o objetivo de Deus de que seu nome fosse exaltado entre as nações quando Israel se
achegasse a ele em amor satisfeito (Js 4.24; 22.5) não é a maneira como a história acontece. Não ainda.
O poder do pecado parece desenfreado. Clama por uma solução que nunca surge no Antigo
Testamento. Existem apenas amostras e antevisões que apontam para um Messias vindouro que lidará
com o pecado da maneira mais impensável, porém decisiva (Is 53.4-6). Mas, por ora, com o fim da
geração de Josué, Israel desce progressivamente rumo à anarquia durante o tempo dos juízes. “Naqueles
dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6; 21.25). “Fizeram os filhos
de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins” (Jz 2.11).

PANO DE FUNDO SOMBRIO


PARA MISERICÓRDIAS ESPLÊNDIDAS
Em nossa viagem pela história de Israel, paramos apenas brevemente nesse período, no qual parece que
o único propósito de Deus é expor as profundezas do pecado humano. Esse não é o único objetivo da
providência divina no tempo dos juízes. Consideraremos apenas um evento específico para mostrar um
propósito maior.
Ler o livro de Juízes é como ter a insanidade do pecado exposta diante de seus olhos, enquanto Deus
retorna sempre com misericórdia, que foi repetidamente esquecida. Eis um resumo desse período
sombrio da história de Israel:
Suscitou o SENHOR juízes, que os livraram da mão dos que os pilharam. Contudo, não obedeceram aos seus juízes; antes, se
prostituíram após outros deuses e os adoraram… Quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz e os livrava
da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa
dos que os apertavam e oprimiam. Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais,
seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus
caminhos (Jz 2.16-19).

No entanto, Deus tencionava realmente tornar bastante clara sua paciência, sua misericórdia e seu
poder. Destacamos uma ocasião notável em que Deus revela zelo imutável por sua glória na realização de
sua misericórdia salvadora — a história de Gideão.

A AUTOEXALTAÇÃO DE DEUS NA VITÓRIA SURPREENDENTE DE GIDEÃO


No infeliz refrão do livro de Juízes, lemos: “Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o SENHOR;
por isso, o SENHOR os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos” (Jz 6.1). Apesar da
desobediência de Israel (6.10), Deus enviou um anjo a Gideão para recrutá-lo para uma grande obra de
livramento: “Tornou-lhe o Senhor […] eu estou contigo, ferirás os midianitas como se fossem um só
homem” (6.16). “Então, o Espírito do SENHOR revestiu a Gideão, o qual tocou a rebate” (6.34), e trinta
e dois mil homens se reuniram para lutar contra os midianitas (7.3). A essa altura, o zelo de Deus por sua
glória torna-se evidente. Ele diz a Gideão:
É demais o povo que está contigo, para eu entregar os midianitas nas suas mãos; Israel poderia se gloriar contra mim, dizendo: A
minha própria mão me livrou. Apregoa, pois, aos ouvidos do povo, dizendo: Quem for tímido e medroso, volte e retire-se da
região montanhosa de Gileade. Então, voltaram do povo vinte e dois mil, e dez mil ficaram (٧.2-3).

A essência do pecado consiste em minimizar Deus e exaltar o ego. Em outras palavras, a essência do
pecado é orgulho. O que torna a autoexaltação humana tão má é a dupla tragédia de que Deus é
depreciado e os seres humanos são destruídos. Jesus deixou isso bem claro:
Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus (Mt 18.3-4).

Evidentemente, essa mensagem básica, entre todas as outras, foi afirmada com clareza, de inúmeras
maneiras, no Antigo Testamento. Em face da arrogância de Faraó (Ne 9.10), Moisés disse: “Até quando
recusarás humilhar-te perante mim?” (Êx 10.3). Faraó é um dos muitos exemplos dessa verdade:
A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda. Melhor é ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o
despojo com os soberbos. (Pv 16.18-19).

Depois que o orgulho do Egito foi punido no êxodo, Deus cuidou de seu povo pecaminoso no
deserto e Moisés deixou bem claro para eles que o objetivo de Deus era “te humilhar […] te provar, e,
afinal, te fazer bem” (Dt 8.16). Isso era o que Deus estava prestes a fazer por meio de Gideão, no livro de
Juízes. Deus tencionava silenciar, por seu poder e por meio de Gideão, o orgulho de Israel.
Ele reduziu o exército de Gideão, de trinta e dois mil para dez mil homens, para Israel não “se gloriar
contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou” (Jz 7.2). Mas dez mil ainda era muito. Por isso,
Deus ordenou a Gideão que levasse os dez mil até às águas e os fizesse beber. Em seguida, Deus lhes
falou: “Com estes trezentos homens que lamberam a água eu vos livrarei, e entregarei os midianitas nas
tuas mãos” (7.7). Isso não aconteceu porque os midianitas eram um exército pequeno. O número deles
era incalculável: “Os midianitas, os amalequitas e todos os povos do Oriente cobriam o vale como
gafanhotos em multidão; e eram os seus camelos em multidão inumerável como a areia que há na praia
do mar” (7.12).
Com esses trezentos homens, Deus venceu os midianitas (7.22). Ele já havia assegurado isso — para
aqueles que tinham ouvidos para ouvir. Em essência, Deus estava dizendo: “Eu me oponho à arrogância
de Israel, que exulta em sua grandeza, e não na minha. Meu nome, meu poder e minha glória serão
exaltados em meu povo. Eu não salvo vocês para que se esqueçam de mim. Eu os salvo para que me
louvem. Se não veem isso em minha misericórdia e em meu poder, e voltam repetidamente aos seus
pecados, então vejam pelo menos desta vez na vitória de Gideão”.
Na verdade, Deus estava dizendo: “Os inimigos de vocês eram inumeráveis como gafanhotos, mas eu
livrei vocês com trezentos homens. Israel, você entende? Fiz isso para silenciar a vanglória de vocês
(“Israel poderia gloriar-se contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou” — v. 2). Meu objetivo
era humilhá-los para que vissem que eu sou a esperança, o escudo, a espada, a porção de vocês. Se vocês
se achegarem a mim e me amarem pelo que eu sou, serão um povo feliz, um “povo salvo pelo SENHOR”
(Dt 33.29). Vocês obterão alegria. Eu obterei a glória. Esse era o objetivo supremo de Deus no período
dos juízes — direcionar Israel para além de sua anarquia e de seu orgulho, levando-o à esperança de
adoração humilde e feliz sob a mão onipotente e redentora de Deus.

O ESTRANHO SURGIMENTO DE UM REINO EM ISRAEL


O período dos juízes chegou ao fim com o surgimento do reino em Israel, um período do Israel unido
sob Saul, Davi e Salomão como reis, seguido por um período de um reino dividido com reis no Norte
(Israel) e no Sul (Judá). O reino do Norte chegou ao fim em 722 a.C., com a vitória dos assírios sobre a
importante cidade de Samaria (2Rs 17.6-8). O reino do Sul chegou ao fim em 586 a.C., com o exílio
babilônico (2Rs 25.1-12).
O surgimento do reino em Israel depois de aproximadamente quatrocentos anos de história judaica
sem um rei é uma das estranhas providências da Bíblia. Eu digo estranha porque o movimento para
estabelecer o primeiro rei foi um ato de rebelião contra Deus, embora Deus já houvesse profetizado que
Israel teria um rei. Aumentando a estranheza, está o fato de que Deus advertira de que ter um rei seria
um problema para Israel, embora o plano profético de Deus fosse a vinda de um Messias glorioso que
seria o rei eterno e final — o “Rei dos reis” (1Tm 6.15; Ap 17.14; 19.16).

AS ORIGENS DO REINADO DE HOMEM


ORDENADAS POR DEUS
Bem antes, em Gênesis 14, conhecemos uma figura misteriosa chamada Melquisedeque, a quem Abraão
pagou tributo (14.20). Seu nome significa “rei de justiça”, e tanto Salmos 110.4 como Hebreus 7.10-11
tratam-no como um precursor de Cristo. Portanto, desde os primeiros tempos bíblicos, o propósito de
Deus era que houvesse um “rei de justiça” final sobre seu povo. A monarquia não foi uma reconsideração
ou um plano B concebido depois que o plano A sem o rei houvesse falhado.
Em Deuteronômio 17.14-20, Deus fala a seu povo que eles podem estabelecer um rei quando
chegarem à terra prometida. Mas, em seguida, ele lhes diz que esse rei, para ser um rei legítimo, tem de
viver sob a Lei, e não acima dela. Não deve adquirir muitos cavalos, ter muitas esposas ou muito ouro e
prata, e seu coração não se deve elevar “sobre os seus irmãos” (17.20). Em Israel, não obedeceriam a
esses mandamentos durante séculos de paciência de Deus.
Quando o período dos juízes já terminava, Ana falou profeticamente a respeito de um rei vindouro
em Israel:
Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga as extremidades da terra, dá
força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido (1Sm 2.10).

Pouco tempo depois da profecia de Ana, Samuel adverte que nem tudo a respeito dos reis vindouros
será tão prudente quanto Deuteronômio exigia ou como a profecia de Ana prometia:
Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros…
outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento
de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas
vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus
oficiais e aos seus servidores. Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos
jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por
causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia (1Sm 8.11-18).

A GRANDE MALDADE DE CUMPRIREM A VONTADE DE DEUS


Apesar disso, o povo insiste em ter um rei. Pegam Saul e o tornam rei (1Sm 11.15). Esse não foi um ato
piedoso. No entanto, Deus coloca seu selo real quando envia Samuel para ungi-lo (1Sm 15.1). Mas
Samuel assegura-se de que o povo compreenda que “grande maldade” cometeram em pedir um rei:
Vós […] me dissestes: Não! Mas reinará sobre nós um rei; ao passo que o SENHOR, vosso Deus, era o vosso rei […] e sabereis e
vereis que é grande a vossa maldade, que tendes praticado perante o SENHOR, pedindo para vós outros um rei […] Então, disse
Samuel ao povo: Não temais; tendes cometido todo este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir o SENHOR, mas servi ao
SENHOR de todo o vosso coração. Não vos desvieis; pois seguiríeis coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar,
porque vaidade são. Pois o SENHOR, por causa do seu grande nome, não desamparará o seu povo, porque aprouve ao SENHOR fazer-
vos o seu povo (1Sm 12.12, 17, 20-22).

Vimos isso antes — Deus agindo “por causa do seu grande nome” (12.22). Vimos isso nos
propósitos de Deus antes da criação (Ef 1.4-6), no ato de criação (Hb 2.10), no êxodo (Sl 106.8), no
deserto (Ez 20.9), na conquista de Canaã (Js 4.24) e nos livramentos no tempo dos juízes (Jz 7.2). O
que é tão enfático aqui é que o povo havia cometido grande maldade em pedir um rei (1Sm 12.17). Foi
traição: eles tinham um rei — ou seja, Deus (1Sm 12.12)! Portanto, no próprio ato de destronarem seu
Deus, ele lhes diz: “É exatamente por causa do meu nome que não destruirei vocês, embora certamente
mereçam ser destruídos”.

UM REINO POR MEIO DE PECADO


PARA MOSTRAR A GRAÇA DE DEUS
Em outras palavras, a estranha providência pela qual Israel se torna uma monarquia destina-se, pelo
menos, a mostrar que o governo desse rei sobre seu povo baseia-se em graça absolutamente livre e
soberana. Ao estabelecerem para si mesmos um rei, eles agiram de forma ímpia. Seu rei legítimo, no céu,
poderia suprimir, de maneira justa, essa rebeldia, com um grande julgamento. Em vez disso, ele diz:
“Não abandonarei o meu povo”. Em outras palavras, “Agirei com graça abundante para com esses
rebeldes. Confirmarei seu rei e não os destruirei”. E qual é o fundamento dessa graça? Ele diz
explicitamente: “Por causa do seu grande nome” (1Sm 12.22). O compromisso de Deus com a glória de
seu nome é o fundamento de seu gracioso compromisso com seu povo — e com o rei deles.

AS BÊNÇÃOS IMERECIDAS DE UM REINO


CONCEBIDO EM PECADO
Essa história tem implicações de grande alcance. A graça de afirmar uma monarquia concebida em
pecado sinaliza que toda bênção procedente desse reino é imerecida. Toda bênção que flui desse reino é
graça. Em um sentido, o reino é um testemunho permanente da rebeldia de Israel. Em outro sentido, ela
é um testemunho permanente da graça de Deus, que planejou o reino como uma fonte de bênção
(literalmente inesgotável). E toda essa bênção graciosa repousará sobre este fundamento: Deus é
comprometido com a preservação da glória do seu nome (1Sm 12.22).
Podemos lembrar apenas três bênçãos indizivelmente grandes que fluem dessa monarquia.
UM REI-POETA POR CAUSA DO LOUVOR
DE DEUS E DA ALEGRIA DO POVO
Em primeiro lugar, o rei Davi é retratado como o grande modelo de um rei segundo o coração de Deus
(1Sm 13.14; At 13.22). E pelo que ele é mais conhecido? Por suas canções:
São estas as últimas palavras de Davi: Palavra de Davi, filho de Jessé, palavra do homem que foi exaltado, do ungido do Deus de
Jacó, do mavioso salmista de Israel (2Sm 23.1).

Embora ele não tenha escrito todos os salmos de Israel, seu nome é tão identificado como o grande
salmista de Israel que não podemos deixar de ver aqui uma grande ironia da graça: o estabelecimento
traiçoeiro de um rei humano sobre Israel se tornou, pela graça de Deus, dentro de uma geração, uma
fonte de louvor que exalta a Deus. Em outras palavras, essa monarquia existiu “por causa do grande
nome de Deus”. Por que mais Deus garantiria que esse poeta louvador fosse instituído como o
paradigma de fidelidade real? Davi fez mais do que qualquer outra pessoa para solidificar o louvor
poético como crucial à vida de Israel. Os salmos têm uma única grande mensagem: Deus é digno de ser
louvado. E esse louvor é o prazer para o qual os humanos foram criados:
Louvai ao SENHOR, porque o SENHOR é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável (Sl 135.3).

Deus recebe o louvor. Nós recebemos o prazer. Isso foi crucial nas realizações de Davi como rei. Sem
ele, provavelmente não haveria o Livros dos Salmos. Esse foi o maior fruto de seu reinado. Assim, a
monarquia foi uma providência da graça maravilhosa.

UM REI EDIFICADOR POR CAUSA DO NOME


DE DEUS E DA MISERICÓRDIA DE PERDÃO
Em segundo lugar, porque o rei Davi havia planejado e Salomão executado, o templo de Iavé foi erigido
em Israel. Quando Salomão faz a oração de dedicação (2Cr 6), vemos claramente o que aquele prédio
significava. Sem dúvida, o templo não é a casa de Deus no sentido de que o Criador do universo pode
viver numa casa: “Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que
eu edifiquei” (6.18).
As palavras de Salomão em sua oração mostram que a casa oferecia uma espécie de posição física
para uma transação espiritual entre o homem e Deus. E o âmago dessa transação é isto: o homem
pecador reconhece o Deus santo e sua misericórdia, clama por ajuda e Deus perdoa. Por exemplo, eis
como Salomão expressa isso numa oração de dedicação:
Ouve, pois, a súplica do… teu povo de Israel, quando orarem neste lugar… ouve e perdoa (6.21).

Quando o teu povo de Israel, por ter pecado contra ti, for ferido diante do inimigo, e se converter, e confessar o teu nome […] ouve
tu dos céus, e perdoa (6.24-25).

Quando os céus se cerrarem, e não houver chuva, por ter o povo pecado contra ti, e ele orar neste lugar, e confessar o teu nome, e se
converter dos seus pecados… ouve tu nos céus, perdoa (6.26-27).

Em outras palavras, o templo representa “o nome de Deus” — seu caráter e sua grandeza essenciais.
Esse nome é a glória de sua justiça e de sua graça. Os sacrifícios que aconteciam ali eram evidência de
que o objetivo de Deus é ser um Deus perdoador, mas não sem sacrifício, não sem justiça (como Rm
3.23-25 revelará, quando Cristo for apresentado como o grande sacrifício por trás de todos os
sacrifícios).
Portanto, quando um pecador olha para o templo, confessa esse nome e apela por perdão por causa
desse nome, como Davi diz (“Por causa do teu nome, SENHOR, perdoa a minha iniquidade, que é
grande” — Sl 25.11), o apelo de Salomão é para que o pecador seja perdoado. Esse, portanto, é o
significado do templo: a exaltação do nome de Iavé no perdão de pecados.
Essa fusão da exaltação de Deus e de sua graça para com os pecadores atinge o clímax na oração de
Salomão com seu apelo em favor do estrangeiro. É algo admirável:
Também ao estrangeiro que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu grande nome e por causa
da tua mão poderosa e do teu braço estendido, e orar, voltado para esta casa, ouve tu dos céus, do lugar da tua habitação, e faze tudo
o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e
para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome (2Cr 6.32-33).

Observe a estrutura da oração de Salomão em favor desses estrangeiros. Inicialmente, eles vêm ao
templo, “por amor do teu grande nome”. Em seguida, Salomão pede que a resposta de Deus seja
graciosa: “Faze tudo o que o estrangeiro te pedir”. Após, o alvo dessa graça é “que todos os povos da
terra conheçam o teu nome”, saibam “que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome” e temam a
ti.
O zelo pelo nome de Deus leva o estrangeiro a buscar as misericórdias de Deus. Receber as
misericórdias de Deus leva o estrangeiro a conhecer e temer o nome de Deus. O que diremos, então,
sobre a relação entre a glória do nome de Deus e a grandeza de suas misericórdias? Diremos que as
misericórdias de Deus destinam-se a exaltar o nome de Deus. O estrangeiro sentiu-se atraído às
misericórdias de Deus “por amor do teu grande nome” (6.32). E o resultado de provar essas
misericórdias foi que o estrangeiro quis conhecer e reverenciar o nome de Deus ainda mais.
Portanto, a monarquia de Israel desencadeou não somente uma era de louvores poéticos por meio
do rei Davi, para a glória do nome de Deus, mas também a edificação de um templo, por meio do rei
Salomão, cujo propósito era a exaltação do nome de Deus no ato de experimentar da misericórdia
divina.

UM REI-SALVADOR PARA A GLÓRIA DO PAI


E A ALEGRIA DE SEU POVO
Em terceiro lugar, de uma forma mais maravilhosa e talvez ainda mais óbvia, sem a existência de uma
monarquia em Israel — não importando quão ímpia tenha chegado a ser —, não haveria um reinado
final de Jesus, o Messias. Não haveria um clamor “Tem compaixão de nós, Filho de Davi!” (Mt 9.27),
nem a confissão de Natanael: “Tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo 1.49), tampouco um rei
entrando em Jerusalém humilde e montado num jumento (Mt 21.5), um Salvador crucificado com uma
placa acima de sua cabeça dizendo: “REI DOS JUDEUS” (Mt 27.37) ou um soberano vindouro chamado
“Rei dos reis” (1Tm 6.15).
Em outras palavras, todas as dimensões reais da encarnação do Filho de Deus, como o Messias,
estavam em formação quando Deus ordenou o estabelecimento da monarquia em Israel. E, como
veremos, quase tudo sobre a obra real de Jesus na terra e no céu foi planejado para manifestar e exaltar a
glória de seu Pai, especialmente a glória de sua graça.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (Jo
1.14).

Essa revelação final e decisiva da glória da graça de Deus — a revelação da encarnação de Cristo, o
ungido Filho de Davi — foi o desígnio supremo da monarquia de Israel. Foi supremo se incluirmos, na
revelação da glória do Rei Jesus, a experiência de seu povo ver essa glória, provar essa glória e refletir essa
glória.
O objetivo supremo da providência ao estabelecer uma monarquia em Israel não será atingido até
que o povo redimido do Rei Jesus veja nessa monarquia a sua perfeição e a perfeição dele. Isso foi o que
Jesus orou em João 17.24: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que
me deste, para que vejam a minha glória”. Sim. Mas nem mesmo ver a glória dele é o objetivo supremo. O
objetivo supremo é vê-la com alegria. Quando Jesus nos receber na presença de sua glória final, ele dirá:
“Entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21). Quando o gozo do Senhor se tornar o gozo de seu povo
aperfeiçoado, a alegria deles será completa (Jo 15.11). E eles serão transformados na semelhança
daquele que eles veem com alegria completa (1Jo 3.2; 2Co 3.18).
O propósito supremo da monarquia de Israel será realizado finalmente quando Jesus sentar-se no
“trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32-33) e reinar não somente sobre um Israel redimido, mas também sobre
um reino de adoradores de todas as nações (Ap 5.10). Eles o verão exaltado como o “Senhor dos
senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). E ficarão satisfeitos sob seu governo gracioso:
Aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre
eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água
da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 7.15-17).

E, em sua alegria, eles “resplandecerão como o sol, no reino do seu Pai” e “do seu Cristo” (Mt 13.43;
Ap 11.15). Nessa semelhança com Cristo jubilosa e transformada, a glória do “Rei eterno” (1Tm 1.17)
encherá toda a criação. Esse é o objetivo supremo da providência em estabelecer a monarquia de Israel.
10 | A proteção, a destruição e a restauração de Jerusalém

A monarquia de Israel, como uma nação independente, terminou com a pilhagem de Jerusalém e o
cativeiro da nação em Babilônia. De acordo com a profecia de Jeremias, o exílio babilônico duraria
setenta anos: “Toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto; estas nações servirão ao rei da
Babilônia setenta anos” (Jr 25.11). Essa foi uma experiência devastadora para Israel e, em especial, para
Jerusalém, mais bem-descrita, talvez, no livro de Lamentações:
Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entra as nações; princesa entre as
províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a
console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos (Lm
1.1-2).

Para os autores da Bíblia que contaram a história, Deus estava agindo por amor ao seu nome, do
começo ao fim, ao lidar com Jerusalém. Inicialmente, ele protegeu Jerusalém por amor ao seu nome;
depois, por amor ao seu nome, ele a entregou nas mãos dos babilônios para a pilhagem e, depois, de
novo, resgatou seu povo do exílio por amor ao seu nome. As Escrituras nos mostram cada uma dessas
fases da providência de Deus e atraem nossa atenção especificamente para o propósito de Deus na
exaltação da glória de seu nome.

DEFENDENDO JERUSALÉM “POR AMOR DE MIM”


Em sua paciência, Deus suportou por muito tempo a infidelidade e os pecados de Jerusalém (Is 40.2; Lm
1.8; Dn 9.6; Mq 1.5). Agora, Senaqueribe, o rei da Assíria, viera guerrear contra as cidades fortificadas de
Judá. Ele as tomou e ameaçou tomar Jerusalém. Enviou seu emissário ao rei Ezequias, em Jerusalém,
com um grande exército, e menosprezou o rei, zombando de sua confiança no Senhor (Is 36.1-10).
Mas Deus livrou Jerusalém das mãos de Senaqueribe, e o profeta Isaías nos diz qual era o propósito
de Deus nessa misericórdia extraordinária: “Eu defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e
por amor do meu servo Davi” (Is 37.35). A paciência e a misericórdia de Deus para com a Jerusalém
pecaminosa se deviam, final e decisivamente, não à fé ou à justiça deles. Deviam-se ao zelo de Deus pela
glória de seu nome, que incluía a aliança que ele fizera soberanamente com Davi. “Eu defenderei esta
cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor do meu servo Davi” (Is 37.35; cf. 2Rs 19.34; 20.6).

A RESPOSTA SALVADORA DE DEUS À FÉ


Quando digo que o livramento de Jerusalém se deveu final e decisivamente não à fé ou à justiça deles,
não estou sugerindo que nunca há uma correlação entre a fé do povo de Deus e o livramento divino que
eles experimentam. Com frequência, sim, há. Desde o começo da aliança de Deus com Abraão, o Senhor
estabeleceu uma correlação entre a obediência de fé e boa parte das bênçãos que recebemos: “Nela serão
benditas todas as nações da terra, porquanto obedeceste à minha voz” (Gn 22.18). Essa obediência era o
fruto da fé de Abraão — o que o apóstolo Paulo chama “obediência por fé” (Rm 1.5; 15.18; 16.26) ou
“obra de fé” (2Ts 1.11; 1Ts 1.3) —, pois Abraão “creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça”
(Gn 15.6). Muitas bênçãos chegam ao povo de Deus como resultado dessa obediência.
Por isso, Davi diz para Deus:
Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste (Sl 22.4).

E, quando Daniel foi resgatado da cova dos leões, o autor diz: “Assim, foi tirado Daniel da cova, e
nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus” (Dn 6.23).
Outras histórias das misericórdias de Deus comunicam a mesma mensagem: “Dos filhos de Rúben
[…] e os hagarenos e todos quantos estavam com eles foram entregues nas suas mãos; porque, na peleja,
clamaram a Deus, que lhes deu ouvidos, porquanto confiaram nele” (1Cr 5.18, 20). Josafá, o rei de Judá,
disse ao seu povo: “Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém! Crede no SENHOR, vosso Deus, e
estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis” (2Cr 20.20).
E, novamente, Davi diz: “O SENHOR […] os [os justos] livra; livra-os dos ímpios e os salva, porque
nele buscam refúgio” (Sl 37.40). Isso também se deu com outros reis depois de Davi: “Nos dias em que
[Uzias] buscou ao SENHOR, Deus o fez prosperar” (2Cr 26.5). “Jotão se foi tornando mais poderoso,
porque dirigia os seus caminhos segundo a vontade do SENHOR, seu Deus” (2Cr 27.6).
O contrário também é verdadeiro: com frequência, o julgamento segue a incredulidade e o pecado.
“Quando violardes a aliança que o SENHOR, vosso Deus, vos ordenou […] a ira do SENHOR se acenderá
sobre vós, e logo perecereis na boa terra que vos deu” (Js 23.16). “Tu me rejeitaste, diz o SENHOR […]
por isso, levantarei a mão contra ti e te destruirei” (Jr 15.6). O inimigo “matou em Judá, num só dia,
cento e vinte mil […] por terem abandonado o SENHOR” (2Cr 28.6). Portanto, é claro que,
frequentemente, Deus responde à fé com livramento e à incredulidade com julgamento.
No entanto, o livro de Jó e outras passagens da Escritura (e.g., Sl 44.22; cf. Rm 8.36) deixam claro
que, algumas vezes, Deus permite que seus santos passem por grande aflição. Nem sempre ele os livra da
aflição, mas frequentemente na aflição (Sl 34.19). O autor de Hebreus confirma essa observação ao
considerar a história de fé do Antigo Testamento. Por um lado, a fé é o caminho pelo qual grandes
triunfos foram desfrutados:
Por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência
do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de
estrangeiros. Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.33-35a).

Por outro lado, essa mesma fé foi a forma pela qual os crentes suportaram grande aflição:
[Pela fé] alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram
pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões […] Ora, todos estes […] obtiveram bom testemunho por sua fé
(Hb 11.35b, 36, 39).

PORQUE EZEQUIAS OROU E POR CAUSA DO ZELO


DE DEUS POR SUA GLÓRIA
Quando digo que a misericórdia de Deus para com a Jerusalém pecaminosa não se deveu final e
decisivamente à fé ou à justiça deles, mas, sim, ao zelo de Deus pela glória de seu nome, não estou
dizendo que Deus não respondeu à oração de fé de Ezequias ou à profecia de Isaías. Pois Ezequias já
tinha orado por livramento, e Isaías, em resposta a essa oração, entregou uma mensagem de devastação a
Senaqueribe. Não, o que estou dizendo é que a oração de Ezequias em favor do livramento de Jerusalém
foi uma oração de fé que agrada a Deus (Sl 147.10-11), precisamente porque olhava para além dos
pecados do povo de Deus, que merecia castigo, e baseava seu apelo totalmente no zelo de Deus por sua glória.
Esse compromisso de Deus com o próprio nome é decisivo no livramento.
Eis como Ezequias orou quando a cidade de Deus foi ameaçada:
Ó SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinos da
terra; tu fizeste os céus e a terra. Inclina, ó SENHOR, os ouvidos e ouve; abre, SENHOR, os olhos e vê; ouve todas as palavras de
Senaqueribe, as quais ele enviou para afrontar o Deus vivo… Agora, pois, ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para
que todos os reinos da terra saibam que só tu és o SENHOR (Is 37.16, 17, 20).

A oração de Ezequias não apelou à dignidade de Jerusalém de ser libertada; antes, apelou à dignidade
Deus de ser adorado. A esse tipo de oração que exalta a Deus, Isaías respondeu da seguinte maneira:
Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Visto que me pediste acerca de Senaqueribe, rei da Assíria, esta é a palavra que o SENHOR
falou a respeito dele… eu defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor do meu servo Davi (Is 37.21-22, 35).

E, em seguida, lemos: “Então, saiu o Anjo do SENHOR e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta
e cinco mil” (Is 37.36).
Não há contradição alguma entre dizer que o exército de Senaqueribe foi destruído porque Ezequias
orou (37.21) e dizer que foi destruído por causa do zelo de Deus por seu próprio nome. A razão pela qual
não há contradição é que a oração de Ezequias apelou exatamente para o zelo de Deus por seu próprio
nome. “Agora, pois, ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinos da terra
saibam que só tu és o SENHOR” (Is 37.20).
É por essa razão que, em toda a história de Israel (e na história da igreja), Deus responde com ajuda
às orações cheias de fé de seu povo em busca de ajuda. A fé, por sua própria natureza, olha para longe de
nós mesmos e de nossa pecaminosidade, e alicerça toda a nossa ajuda no zelo de Deus por seu próprio
nome. Perdoa-nos por causa do teu nome (Sl 25.11). Salva-nos por amor ao teu nome (Sl 106.8).
Preserva-nos por amor ao teu nome (Sl 143.11). Guia-nos na justiça por amor ao teu nome (Sl 23.3). É
assim que a fé ora, pois a fé perde a esperança no ego como suficiente e olha para a suficiência plena de
Deus. Por isso, Paulo diz, em Romanos 4.20, que a fé de Abraão deu “glória a Deus”.
Quando Jesus fez a primeira petição da oração do Pai-nosso, “Pai nosso, que estás nos céus,
santificado seja o teu nome” (Mt 6.9) — ou seja, cuide para que seu nome seja reverenciado, valorizado
e honrado —, ele estava nos mostrando que o ponto de referência de toda oração feita com fé é o zelo
pela glória de Deus. Jesus nos ensinou que, acima de tudo, devemos pedir que Deus aja para garantir que
seja visto e reverenciado como grande. Devemos querer isso e amar isso acima de tudo.
Portanto, quando Isaías diz que Deus livrará Jerusalém porque Ezequias orou (Is 37.21) e que ele
livrará Jerusalém por amor a si mesmo (37.35), esses são o mesmo motivo pelo qual a oração de Ezequias
apela para que o Senhor atue por amor a si mesmo. Portanto, por muitas gerações, Jerusalém foi salva da
destruição porque o objetivo supremo da providência de Deus é “que todos os reinos da terra saibam
que só tu és o SENHOR” (Is 37.20).

O NOME DE DEUS É EXALTADO


QUANDO SUA PACIÊNCIA ACABA
Mas chegariam os dias em que ficaria claro que a paciência de Deus para com Jerusalém e seu amor
eterno (Jr 31.3) pelo povo da aliança não excluiriam seu julgamento sobre as gerações que o
abandonaram e encontraram prazer em outras coisas.
A tua malícia te castigará, e as tuas infidelidades te repreenderão; sabe, pois, e vê que mau e quão amargo é deixares o SENHOR,
teu Deus (Jr 2.19).

A paciência de Deus para com as idolatrias de Jerusalém chega a um fim sábio e santo. O zelo de
Deus pela glória de seu nome move-se da demonstração da glória de sua paciência para a demonstração
da glória de sua santidade e justiça, em julgamentos terríveis contra Jerusalém. Isso também faz parte da
glória de seu nome:
Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, pois que profanaste o meu santuário com todas as tuas coisas detestáveis e com
todas as tuas abominações, eu retirarei, sem piedade, os olhos de ti e não te pouparei. Uma terça parte de ti morrerá de peste e
será consumida de fome no meio de ti; outra terça parte cairá à espada em redor de ti; e a outra terça parte espalharei a todos os
ventos e desembainharei a espada atrás dela. Assim, se cumprirá a minha ira, e satisfarei neles o meu furor e me consolarei; saberão
que eu, o SENHOR, falei no meu zelo, quando cumprir neles o meu furor. (Ez 5.11-13)

Saberão que eu sou o SENHOR, quando eu os dispersar entre as nações e os espalhar pelas terras (Ez 12.15).

Voltarei o rosto contra eles; ainda que saiam do fogo, o fogo os consumirá; e sabereis que eu sou o SENHOR, quando tiver voltado o
rosto contra eles (Ez 15.7).

Quando Deus julgou Jerusalém em seu “zelo” (Ez 5.13) e disse que seu alvo era que eles soubessem
“que eu sou o SENHOR”, a implicação é que Jerusalém, como uma esposa infiel, seguiu outros amantes,
como se o Senhor fosse indigno de suas afeições — como se prazeres maiores pudessem ser encontrados
nos braços de outro marido:
Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR (Jr 3.1).

Todos os teus amantes se esqueceram de ti, já não perguntam por ti; porque te feri com ferida de inimigo e com castigo de cruel,
por causa da grandeza da tua maldade e da multidão de teus pecados (Jr 30.14; cf. Ez 16.31-34).

MALDADE DUPLA: ADULTÉRIO CONTRA DEUS


O que torna esse “prostituir”, ou seja, esse adultério contra “o SENHOR” especialmente perverso é que o
nome “SENHOR”, como vimos no Capítulo 6, não é o nome genérico de Deus; é o nome pessoal do Deus
de Israel, Iavé. O julgamento viria sobre Israel porque o povo havia tratado com desprezo a realidade
mais preciosa e o relacionamento mais precioso. Jeremias chamou isso de maldade dupla:
Dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não
retêm as águas (Jr 2.13).
Maldade 1: desprezar a Deus. Maldade 2: preferir a sujeira. Esta é a própria essência do mal: avaliar o
Deus infinitamente precioso e todo-satisfatório e, depois, virar as costas para ele, considerando-o
indigno e insatisfatório, com o propósito de buscar satisfação por escavar na sujeira para fazer uma
cisterna rota. Não há zombaria maior contra um nome tão grande. Por essa razão, veio julgamento sobre
Jerusalém.

LEMBRETE CONSTANTE DE EZEQUIEL


O zelo de Deus não é um acesso de raiva pessoal por causa de um rival detestado. É a fúria equilibrada,
apropriada e santa de alguém que sabe que desprezar o que é infinitamente bom e satisfatório é blasfemo
e suicida. É traição e tragédia. O julgamento zeloso de Deus é a revelação ativa do valor e da beleza
satisfatórios da pessoa que está sendo rejeitada em troca de cisternas rotas.
Quando Ezequiel diz que o julgamento está vindo sobre Jerusalém para que o povo saiba que Deus é
“o SENHOR” (5.13; 12.15; 15.7), ele tenciona que vejamos a magnitude do nome de Deus, “o SENHOR”
— Iavé — na motivação divina. O profeta diz setenta e duas vezes em seu livro que Deus age de tal
forma para que saibam que ele é “o SENHOR”. Outras dez vezes, ele diz: “Eu sou o SENHOR”. Tanto as
punições terríveis (33.29) como a salvação empolgante (20.44) estão fundamentadas nesta motivação:
“Sabereis que eu sou o SENHOR”. As palavras “Eu sou o SENHOR” têm o alvo de nos lembrar o grande
“EU SOU” de Êxodo 3.14.
Em outras palavras, mais de oitenta vezes Ezequiel nos lembra: nunca, nunca esqueça que você está
lidando com o Deus que absolutamente é. Ele é quem ele é. Ele faz o que faz. Ele quer o que quer. Não
29

se conforma a nada fora de si mesmo. Deus não está se esforçando para se tornar algo que gostaria de ser.
Ele é a realidade suprema, não originada, absoluta, independente, autossuficiente, final.
Ezequiel quer nos lembrar que essa realidade suprema, absoluta, todo-importante e primária deve
dominar nossa consciência mais do que qualquer outra coisa. Quando olhamos para nosso relógio,
devemos estar conscientes do fato impressionante de que esse relógio depende de Deus. Quando
contemplamos as galáxias à noite, devemos nos alegrar com o fato de que elas foram dispostas ali pelo
dedo de Deus (Sl 8.3) e são totalmente dependentes dele para cada milissegundo de sua existência (Hb
1.3).
O objetivo de Ezequiel ao profetizar repetidas vezes “Sabereis que eu sou o SENHOR” é que
possamos viver na conscientização resoluta de que a realidade suprema no universo — na América, na
China, no Brasil, na Nigéria, em Bruxelas, em nosso quarto de dormir, em nossa mente — é Iavé, o Deus
que absolutamente é. Nada é mais importante. Nada é mais onipresente. Nada é mais relevante. Nada é
mais glorioso. Nada é mais belo. Nada é mais satisfatório.
A duradoura paciência de Deus para com a rebelde Jerusalém (Ez 2.3-5) e sua entrega final deles ao
cativeiro babilônico, ambas fazem parte do propósito providencial de Deus. Ambas foram guiadas pelo
seguinte objetivo: “Sabereis que eu sou o SENHOR”. Eles saberiam que Deus é inflexivelmente
comprometido com o valor e a beleza de seu nome santo — quer em paciência misericordiosa, quer em
punição justa.
RESTAURAÇÃO PARA A ALEGRIA DELES
E “HUMILHAÇÃO EVANGÉLICA”
No entanto, a misericórdia terá a última palavra para com o povo de Deus. O nome de Deus é o grande
tesouro que ele oferece a Israel para o gozo eterno deles e para a glória de Deus. Ele está comprometido
com a alegria de seu povo em provar seu nome de um modo que conduza ao fim o julgamento de
Jerusalém por desprezar o nome do Senhor:
Jerusalém me servirá por nome, por louvor e glória, entre todas as nações da terra que ouvirem todo o bem que eu lhe faço (Jr
33.9).

Mas há algo extraordinário na maneira como Deus revela seu compromisso com seu povo em
restaurá-los do exílio. Ele exalta a supremacia de seu próprio nome — a santidade de seu nome — ao
deixar claro que sua misericórdia não se deve à justiça de Israel. Três vezes no livro de Ezequiel, o Senhor
exalta sua santidade e seu nome como o motivo de sua misericórdia em resgatar Israel do exílio. Ele
torna esse motivo ainda mais relevante porque, ao mesmo tempo, atrai atenção explícita para o fato de
que essa restauração “não é por amor de vós [Israel]” (Ez 36.22). A restauração deles foi duplamente
graciosa: aconteceu apesar da presença de pecado e apesar da ausência de justiça.
Isso significa que Deus exerceu grande cuidado para deixar claro a nós que a base de sua misericórdia
— a base da sua restauração depois do exílio — foi o zelo por sua santidade e por seu nome. A seguir,
citamos três passagens que exaltam a santidade do nome de Deus em salvar Jerusalém. Lembro-me de
haver sentido a força dessas passagens pela primeira vez quando estava lendo Afeições religiosas, de
Jonathan Edwards. Nessa obra, ele apresenta doze sinais de um verdadeiro cristão — ou, nas palavras
dele, doze sinais de “afeições verdadeiramente graciosas” —, ou seja, afeições criadas e moldadas pela
graça, e não por mera emoção humana. O sexto sinal é este: “Afeições graciosas são acompanhadas de
humilhação evangélica”. 30

Retraí-me ante a palavra humilhação até que li a exposição dele sobre esses textos. Em sua mente,
“humilhação evangélica” não é inconsistente com a — e, sim, parte da — mais requintada alegria nas
misericórdias de Deus. Edwards explica:
Embora Cristo tenha carregado nossas aflições e nossas tristezas, para que sejamos livres da tristeza de punição e agora nos
alimentemos docemente dos consolos que ele comprou para nós, isso não impede que o nosso alimentar-nos desses consolos seja
acompanhado da tristeza de arrependimento.31

SALVO E CONFUNDIDO — PELA GRAÇA


As passagens seguintes são as que Edwards pondera em chegar a essa conclusão. Convido-o a refletir a
respeito com ele. Todos os trechos falam do motivo autoexaltador de Deus em salvar
misericordiosamente Israel do exílio e restaurar o destino de Jerusalém.
Agradar-me-ei de vós como de aroma suave, quando eu vos tirar dentre os povos e vos congregar das terras em que andais
espalhados; e serei santificado em vós perante as nações. Sabereis que eu sou o SENHOR, quando eu vos der entrada na terra de
Israel, na terra que, levantando a mão, jurei dar a vossos pais. Ali, vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos
com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas iniquidades que tendes cometido. Sabereis que eu sou
o SENHOR, quando eu proceder para convosco por amor do meu nome, não segundo os vossos maus caminhos, nem segundo os
vossos feitos corruptos, ó casa de Israel, diz o SENHOR Deus (Ez 20.41-44).

Em chegando às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome, pois deles se dizia: São estes o povo do SENHOR, porém
tiveram de sair da terra dele. Mas tive compaixão do meu santo nome, que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi.
Dize, portanto, à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu
santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. Vindicarei a santidade do meu grande nome, que foi profanado
entre as nações, o qual profanastes no meio delas; as nações saberão que eu sou o SENHOR, diz o SENHOR Deus, quando eu vindicar a
minha santidade perante elas (Ez 36.20-23).

Eu estabelecerei a minha aliança contigo e saberás que eu sou Jeová, para que te lembres, e fiques confundida, e não abras mais a
tua boca por causa da tua vergonha, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste, diz o Senhor Jeová. (Ez 16.62-63, TB).

Quando li esses textos e a reflexão de Jonathan Edwards a esse respeito, senti-me como se estivesse
num mundo diferente de graça centrada em Deus, e não no mundo de meu próprio século (na ocasião, o
século XX). Ainda me sinto dessa maneira. Essa é uma das razões por que estou escrevendo este livro.
Tão chocado quanto a maioria das pessoas se sentem ao serem informadas de que deveriam “estar
confusas” e fechar a boca — não pelo terror da justiça de Deus, mas por sua misericórdia expiadora. O
fato é que isso é profundamente certo, e a alma quebrantada que foi curada pela graça reconhece isso. É a
graça inferior, não a graça genuína, que pensa que a vida em Cristo não sente tristeza por causa do
pecado passado e da corrupção remanescente.

ALEGRIA HUMILDE E CONTRITA


Mas essa tristeza (que leva à vida — 2Co 7.9-11) não é, de modo algum, inconsistente com a alegria
mais profunda e mais satisfatória. De fato, nossa alegria na misericórdia de Deus é intensificada pela
compreensão de quão desprovidos de merecimento éramos e somos. Esse senso de não sermos
merecedores é uma experiência real, não apenas uma noção meramente intelectual. É algo que sentimos.
E Deus projetou a nova criação — a nova pessoa em Cristo — de tal maneira que aquilo que, para o
mundo, parece totalmente contraditório é, para o cristão, um paradoxo de profundo prazer
experimentado. Edwards descreve essa experiência em um dos mais belos parágrafos que já li:
Todas as afeições graciosas que são um doce aroma para Cristo e que enchem a alma de um cristão com doçura e fragrância
celestiais são afeições contritas. Um amor verdadeiramente cristão, a Deus ou aos homens, é um amor humilde e contrito. Os
desejos dos santos, embora fervorosos, são desejos humildes; a esperança deles é uma esperança humilde; e a alegria deles,
mesmo quando é indescritível e cheia de glória, é uma alegria humilde e contrita, tornando o cristão mais pobre de espírito, mais
semelhante a uma criança e mais disposto a uma humildade de comportamento.32

Meu argumento principal aqui é que, ao restaurar o destino de Jerusalém — e prometer a Israel um
futuro ainda maior do que aquele que eles haviam experimentado ao retornar da Babilônia (Ez 36.24-
26), Deus estava agindo para vindicar a santidade de seu nome. Seu compromisso com sua própria glória
era o fundamento da esperança e da alegria de Israel. O nome que Deus estava fazendo para si mesmo,
ao restaurar a sua cidade humilhada — Sião, “a menina do seu olho” (Zc 2.8) — era, em última análise,
um nome de alegria. 33
NÃO UMA AMEAÇA À ALEGRIA, MAS A BASE DA ALEGRIA
Minha esperança é que todo leitor veja que a centralidade de Deus em si mesmo — o compromisso de
Deus de magnificar seu nome, sua santidade e sua glória como o objetivo supremo de sua providência —
não é uma ameaça à nossa alegria, mas, em vez disso, é a base dela. É claro que, se sentimos que nossa
alegria procede de nossa própria autoexaltação, nada disso será uma boa-nova. Mas o propósito de Deus
para seu povo é que seu nome e nossa alegria cresçam juntos:
Folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome (Sl 5.11).

Celebraremos com júbilo a tua vitória e em nome do nosso Deus hastearemos pendões (Sl 20.5).

Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó
SENHOR, Deus dos Exércitos (Jr 15.16).

A PROMESSA TODO-ABRANGENTE DE
COMO O PROPÓSITO DA PROVIDÊNCIA SE DESDOBRA
Uma ponte que liga o Antigo ao Novo Testamento é construída de inúmeros componentes que se
conectam. É uma ponte linda e digna de inspeção e admiração cuidadosa. Mais de uma vez, Jesus
fomentou essa inspeção admiradora:
Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim (Jo 5.39).

E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras
(Lc 24.27).

Proeminente entre os componentes dessa ponte é o que Jeremias e Jesus chamaram de “a nova
aliança” (Jr 31.31; Lc 22.20). Visto que essa aliança é prometida no Antigo Testamento e estabelecida
no Novo Testamento, nós a entendemos como uma descrição todo-abrangente de como Deus
finalmente realiza o propósito supremo da providência por meio de Jesus Cristo. Isso é o que
consideraremos no restante da Parte 2 (Capítulos 11 a 14).

Lembre-se do significado do nome Iavé, quando Deus se identificou com esse nome em Êxodo 3.14 (“ EU SOU O QUE SOU”), como vimos
no Capítulo 6.

Jonathan Edwards, Religious Affections, ed. John E. Smith e Harry S. Stout, vol. 2, The Works of Jonathan Edwards (New Haven, CT: Yale
University Press, 2009), 311 [edição em português: Afeições religiosas (São Paulo: Vida Nova, 2018).

Edwards, Religious Affections, 366.

Edwards, Religious Affections, 339-40.

Quanto a uma consideração mais completa sobre a alegria do futuro mais remoto para Jerusalém, leia as páginas finais do Capítulo 5.
Seção 3 | O objetivo supremo da providência no
desígnio e no estabelecimento da nova aliança
11 | Os propósitos da nova aliança

A ponte entre o Antigo e o Novo Testamento está construída amplamente sobre a promessa de que, um
dia, Deus estabeleceria uma nova aliança. O estabelecimento dessa aliança por meio de Jesus Cristo seria
o caminho no qual o objetivo supremo da providência de Deus se realizaria. O restante da Parte 2
(Capítulos 11 a 14) segue o alvo da providência nesse caminho. Neste capítulo, destacamos não
primariamente o estabelecimento da nova aliança por Cristo (o que desdobramos nos demais capítulos
da Parte 2); em vez disso, enfatizamos os propósitos interiores da nova aliança. Ou, poderíamos dizer,
concentramo-nos nas promessas específicas da aliança que foram expressas no Antigo Testamento.

AFIRMAÇÃO DA ALIANÇA
A expressão clássica da nova aliança no Antigo Testamento — o texto citado em Hebreus 8 e 10 para
mostrar que Cristo é o mediador de uma “superior aliança” (Hb 7.22; 8.6) — é Jeremias 31.31-34:
Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que
fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não
obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz
o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu
povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me
conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me
lembrarei.

Essa nova aliança é contrastada com a aliança do Sinai ou Mosaica, aqui descrita como “a aliança que
fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito” (31.32). Sabemos que
essa aliança anterior se referia à lei de Moisés dada em tábuas de pedra no monte Sinai, porque o
apóstolo Paulo diz que era um ministro dessa “nova aliança” (2Co 3.6), contrastando-a com as “letras
em pedras” dadas a Moisés (2Co 3.7).

TRÊS REALIDADES EXTRAORDINÁRIAS


A novidade da nova aliança consiste em três realidades extraordinárias prometidas. Primeira, Deus
perdoará os pecados daqueles que estão nesse relacionamento de aliança (Jr 31.34). Segunda, Deus
colocará a lei em suas mentes e a inscreverá em seus corações — significando que a vontade de Deus não
será simplesmente experimentada como uma imposição de fora em tábuas de pedra, mas será sentida
interiormente como uma nova disposição do coração, inclinando-nos a fazer o que Deus requer (31.33).
Terceira, Deus será o Deus deles, de uma maneira que “todos me conhecerão, desde o menor até o
maior deles”.
Coloco essas três realidades da nova aliança nessa ordem porque é a ordem em que Deus faz
acontecer seu propósito supremo.
Em primeiro lugar, Deus cancela os pecados de seu povo de uma maneira que, sem nenhum
comprometimento de sua justiça, sua misericórdia é livre para fluir em torrentes sem qualquer ira.
Em segundo lugar, essa misericórdia se move do cancelamento legal dos pecados para o triunfo
interior sobre o pecar. Esse é o significado de a lei ser escrita no coração.
Em terceiro lugar, essa transformação interior de obediência é o contraste com a antiga aliança. Ela
não é “conforme a aliança que fiz com seus pais” (31.32), que eles quebraram. O povo de Deus nunca
mais será separado de Deus na nova aliança porque os termos da aliança não são apenas palavras
exteriores de Deus; são também obras interiores de Deus. Ele não somente exige obediência; ele cria
obediência. Essa é a razão pela qual o objetivo da providência de Deus se move em direção à realização
no caminho da nova aliança. A providência penetra no coração e realiza o que ela ordena.

A NOVA ALIANÇA COMO A MANEIRA


PELA QUAL A PROVIDÊNCIA SE MOVE EM DIREÇÃO
AO SEU OBJETIVO SUPREMO
O âmago dessa novidade de que Deus opera no coração de seu povo na nova aliança é que “todos me
conhecerão” (Jr 31.34). Essa promessa tem vastas implicações. Significa mais do que meras ideias
intelectuais sobre Deus. É por isso que a promessa diz que Deus escreverá sua lei no coração deles. Trata-
se de um conhecimento verdadeiro, do coração — como o que Paulo roga em Efésios 1.18, quando pede
que “os olhos do vosso coração” sejam iluminados para saberdes quais são as esperanças, as riquezas e o
poder de Deus (Ef 1.17-18). Essa oração é respondida quando a nova aliança se cumpre — a palavra de
Deus é escrita no coração.
O que temos visto em todas as etapas da providência — antes da criação, nas obras de criação, na
eleição de Israel, no êxodo, na conquista da terra prometida, no período dos juízes, na monarquia, no
exílio e na sua reversão — é que o propósito supremo da providência de Deus é que ele seja conhecido,
desfrutado e louvado por quem ele é: “Sabereis que eu sou o SENHOR”. Agora vemos que esse propósito
abrangente será atingido por meio da nova aliança.
Isso é ainda mais óbvio à luz de Ezequiel 36, passagem em que o profeta coloca a nova aliança dentro
do propósito de Deus de vindicar a santidade de seu “grande nome”.
Mas tive compaixão do meu santo nome, que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi […] Não é por amor de vós
que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome […] Vindicarei a santidade do meu grande nome… as nações saberão
que eu sou o SENHOR […] Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos
os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei
coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis (Ez
36.21-27).

Os versículos 26 e 27 são as palavras da nova aliança, as quais são prometidas como a estratégia de
Deus para vindicar a santidade de seu grande nome e seu propósito de que as nações saibam que ele é o
Senhor. Em suma, a nova aliança é a maneira pela qual Deus realiza seus propósitos supremos desde o
começo — que a glória de quem ele é seja exaltada para o gozo e o louvor de todo aquele que tiver o
Senhor como seu maior tesouro (cf. Jr 24.7).
A NOVA ALIANÇA COMO A CRIAÇÃO DE ALEGRIA EM DEUS
A razão pela qual digo que o propósito de Deus é ser exaltado no gozo e no louvor de seu povo é que sua
estratégia explícita na nova aliança para vindicar “a santidade” de seu “grande nome” é (1) retirar o
coração de pedra (Ez 36.26), (2) colocar seu Espírito em seu povo (Ez 36.27a) e (3) fazer que
obedeçam à sua palavra (Ez 36.27b). Cada uma dessas estratégias aponta para a alegria em Deus.
Inicialmente, o coração de pedra é o coração que não sente nada precioso, belo ou agradável na
santidade de Deus. Esse coração será substituído por um coração de carne vivo, afetuoso e sensível que
sente a verdadeira preciosidade, a beleza e a agradabilidade do santo nome do Senhor (Ez 36.26; cf. Sl
135.3). Em segundo lugar, colocar seu próprio Espírito em seu povo significa que, a partir do interior,
eles avaliarão e valorizarão o nome do Senhor da maneira como o próprio Senhor faz (Is 63.14; Jo
16.14). Em terceiro, Deus faz com que seu povo obedeça à sua palavra, e a essência e o clímax dessa
palavra constituem o chamado para amarem o Senhor e se achegarem a ele com todo o coração (Js
22.5), o que inclui valorizá-lo e deleitar-se nele acima de tudo mais (Sl 37.4; Mt 13.44).
Em outras palavras, o plano de Deus na nova aliança é realizar o que ele buscava na criação e na
redenção desde o início, ou seja, comunicar sua glória para que seja exaltada no modo como as pessoas
gozam e refletem as excelências divinas. Essa é a razão pela qual ele move a história adiante, da antiga
aliança para a nova aliança — da “caducidade da letra” para a “novidade de espírito” (Rm 7.6), do amor
exigente (Dt 6.5) para o amor criativo (Jo 17.26; Gl 5.22; 1Ts 3.12), de alegria apeladora (Sl 37.4) para
alegria abençoadora (Jo 15.11; 17.13; Gl 5.22).

ELE NÃO SE AFASTARÁ, NEM NOS DEIXARÁ AFASTAR-NOS, PARA SUA GRANDE ALEGRIA
Na nova aliança, podemos ver o alvo final de todas as coisas com mais clareza que nunca. Nela, vemos o
fato de que o próprio Deus está se movendo de uma nova maneira para fazer o alvo acontecer nos
corações transformados de seu povo. Em seguida, vemos que Deus pretende tornar permanente essa
transformação do coração. Finalmente, vemos o fato de que Deus se regozijará em seu povo
transformado com todo o seu coração e com toda a sua alma. Esses três aspectos da nova aliança se
encontram em Jeremias 32.39-41:
Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles
aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem
de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a
minha alma.

Essa expressão da nova aliança contém algumas das promessas mais admiráveis, mais cheias de
esperança e mais preciosas da Bíblia. Observe quatro coisas. Primeira, Deus enfatiza a permanência das
bênçãos dessa aliança: “Farei com eles aliança eterna”. Segunda, ele garante a permanência dessas
bênçãos ao se comprometer a nunca parar de fazer o bem a seu povo: “Não deixarei de lhes fazer o bem”.
Terceira, ele torna as bênçãos mais seguras ao se comprometer a nunca deixar que seu povo se aparte
dele: “Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim”. Quarta e, talvez, a mais
admirável e maravilhosa, ele se compromete a garantir essas bênçãos com uma alegria transbordante:
“Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem […] de todo o meu coração e de toda a minha alma”. Deus
não está dando com má vontade as bênçãos eternas da nova aliança. Ele está fazendo o que ama fazer.

DELEITE NO TEMOR
Para que ninguém tenha dificuldade com a palavra temor no versículo 40 (“Porei o meu temor no seu
coração, para que nunca se apartem de mim”), pensando que Deus pode regozijar-se em que nós, como
parte da nova aliança, nos curvemos de medo diante dele. Considere isto: os beneficiários da nova
aliança não se curvarão de medo. O temor do Senhor não é o oposto de alegria no Senhor; é a
profundeza e a seriedade dessa alegria.
Podemos ver isso na conexão entre alegria e temor, por exemplo, em Isaías 11.3. O profeta diz sobre
o Messias prometido: “Deleitar-se-á no temor do SENHOR”. Vemos a conexão novamente em Neemias
1.11, onde lemos que os servos do Senhor “se agradam de temer o teu nome”. Quando Deus promete na
nova aliança guardar seu povo de se apartar dele, as cordas que prendem nosso coração a ele não são de
se curvar de medo; são cordas de desejo satisfeito. O que tememos é não ver Deus em Cristo como
supremamente encantador (cf. Rm 11.20). Deus promete manter-nos firmes ao não deixar que isso
aconteça. Isso significa que o objetivo final da nova aliança é a alegria abundante do próprio Deus na
alegria que seu povo tem na glória do nome dele.

A NOVA ALIANÇA EM DEUTERONÔMIO:


O DELEITE DE DEUS EM NOSSO DELEITE NELE
Esse propósito já era evidente desde uma das primeiras expressões da nova aliança. Em Deuteronômio
29.4, Moisés diz ao povo de Israel, que está prestes a entrar na terra prometida: “O SENHOR não vos deu
coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje”. Isso parece
prenunciar um futuro sem esperança para a alegria deles e os propósitos de Deus. Eles não têm o coração
certo.
Mas, em Deuteronômio 30.6, Moisés mostra ao povo a única esperança deles. Sem usar a expressão
“nova aliança”, ele promete a realidade: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de
tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que
vivas”.
Em outras palavras, chegaria o dia em que amar o Senhor seria não apenas um mandamento escrito,
mas também uma criação no coração. Deus dará o que ele mesmo ordena. E, três versículos depois,
vemos o que Deus está buscando — não somente o amor de seu povo por ele, mas também seu próprio
deleite no amar deles. “O SENHOR tornará a exultar em ti, para te fazer bem, como exultou em teus pais
[…] se te converteres ao SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt 30.9-10).
Esse ato da nova aliança de criar amor no coração de seu povo é a maneira de Deus completar o grande
propósito da criação: o deleite de Deus em nosso deleite nele. Pois essa é a essência do que amar a Deus
é — deleite nele. O propósito supremo de Deus é o embelezamento de seu povo, por suas próprias
mãos, para sua própria glória. Porque a beleza deles é seu deleite em Deus e o reflexo da beleza de Deus.
O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim […] para […] pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas,
óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça,
plantados pelo SENHOR para a sua glória (Is 61.1, 3).

Os louvores exultantes do povo de Deus são o que ele está criando na nova aliança. Essa é a beleza, a
alegria e a força deles — e de todos os “plantados pelo SENHOR para a sua glória”. O embelezamento é a
glorificação do Senhor, porque o embelezamento deles é sua exultação na beleza de Deus. Portanto, o
objetivo de Deus em sua providência generalizada é a glorificação de sua própria graça ao embelezar um
povo indigno cuja beleza é o gozo e o reflexo da beleza de Deus.

VISLUMBRES DE COMO CRISTO REALIZA A NOVA ALIANÇA


Veremos isso com uma clareza admirável quando nos voltarmos para o estabelecimento da nova aliança
por meio dos sofrimentos de Cristo. Entretanto, permita-me fazer a conexão aqui, para que não
minimizemos como esse grande propósito se cumpre por meio de Cristo. Veremos que a nova aliança é
assegurada por meio do sacrifício de Jesus em favor dos pecados de seu povo. Eis como Paulo descreve o
propósito da morte de Cristo:
Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água
pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito
(Ef 5.25-27).

Em poucas palavras, o objetivo de Deus na nova aliança por meio da morte de Cristo é o
embelezamento de uma noiva na qual o Filho pode regozijar-se para sempre. Quando Paulo disse que
Cristo morreu “para apresentar a si mesmo Igreja gloriosa”, não queria dizer que Cristo ficaria entediado
com sua noiva embelezada por sangue. Não, Paulo queria dizer que Cristo ficaria encantado com sua
noiva. Foi por isso que ele morreu, para torná-la encantadora.
E o que é esse embelezamento? É a santificação da Igreja, sua santidade (5.26). Ou seja, é a Igreja
obedecendo alegremente a toda a palavra de Deus, ao que significa, mais essencialmente, seu amor por
Deus. Seu deleite em Deus. Sua reflexão de Deus. Portanto, o objetivo supremo da providência de Deus
é glorificar sua graça no embelezamento, pelo sangue de seu Filho, de uma noiva desprovida de
merecimento, que desfruta e reflete a beleza de Deus acima de todas as coisas.

VOLTANDO-NOS PARA O ESTABELECIMENTO


DA NOVA ALIANÇA POR MEIO DE CRISTO
Nos últimos capítulos da Parte 2 (12 a 14), tentaremos seguir o caminho todo-abrangente pelo qual
Cristo realiza o objetivo supremo e generalizado da providência, ao estabelecer a nova aliança por meio
de seu sofrimento santificador e salvador. Eu o chamo caminho todo-abrangente porque o “mistério de
Cristo” (Ef 3.4) é apenas isto: a forma como o Messias de Israel crucificado, ressuscitado e reinante,
Cristo, estabelece a nova aliança de uma maneira que compra pessoas de todas as nações (Ap 5.9),
transforma-as em uma nova humanidade à sua imagem (2Co 3.18; 1Jo 3.2) e liberta todo o universo
criado de sua servidão à corrupção (Rm 8.21). E essa obra todo-abrangente é realizada de modo que a
providência de Deus atinja seu objetivo supremo: o louvor eterno da glória da graça de Deus por parte
da noiva de Cristo, quando ela desfruta e exalta as excelências de Cristo.
12 | O ato fundamental de Cristo em estabelecer a nova aliança

Em um sentido, o restante da história da humanidade — da encarnação do Filho de Deus às eras eternas


da nova terra — poderia ser descrito como o estabelecimento da nova aliança. Do começo ao fim desse
período interminável, Jesus Cristo é tanto o fundamento como a recompensa final da nova aliança. Ele é
a base e o alvo. O preço e o prêmio. O redentor gracioso e a grande recompensa. Este capítulo destaca o
passo fundamental de Cristo de sofrer para estabelecer a nova aliança e a maneira pela qual esse
sofrimento torna-o adequado para ser a recompensa da nova aliança e nos torna adequados para receber
essa recompensa.

NOVA ALIANÇA NO SANGUE DE JESUS


Na noite anterior à sua crucificação, Jesus disse que o sangue que ele estava prestes a derramar — a
morte que ele estava prestes a sofrer — era o passo fundamental para o estabelecimento da nova aliança.
Depois de haverem comido, ele tomou o cálice e disse: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue
derramado em favor de vós” (Lc 22.20). “No meu sangue” (ou provavelmente “por meu sangue”)
significa que, no derramamento de seu sangue, os pecados de seu povo foram cobertos (Rm 4.7) ou
cancelados (Cl 2.13-14). Isto é o que a nova aliança prometia: “Perdoarei as suas iniquidades e dos seus
pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34). O sague derramado de Jesus era o fundamento dessa promessa
de perdão.
Mateus cita Jesus mais completamente na Última Ceia e torna explícita a conexão com o perdão:
“Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de
pecados” (Mt 26.28). O padrão estabelecido por Deus na antiga aliança havia sido que, “sem
derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22). Mas sempre foi verdade que “é impossível que o
sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Todos os sacrifícios de animais apontavam
para o sacrifício final e melhor, o sacrifício de Cristo. De fato, qualquer eficácia que eles tinham se devia à
expiação em Cristo que era eficaz até para os crentes que viveram antes de Cristo (Rm 3.25-26).
Ao contrário dos sacerdotes anteriores, que, repetidas vezes, ofereciam animais pelo seu próprio
pecado e pelos pecados do povo (Hb 9.7), Jesus era sem pecado (Hb 4.15). Portanto, ele “se manifestou
uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (Hb 9.26). Dessa maneira,
Cristo “é o Mediador da nova aliança, a fim de que […] recebam a promessa da eterna herança aqueles
que têm sido chamados” (Hb 9.15; cf. 8.6; 12.24).
Portanto, Jesus é o fundamento da nova aliança. É a base dessa aliança. Ela se tornou efetiva por
causa do sacrifício que ele fez. Jesus é responsável por implementá-la.

CRISTO, O FUNDAMENTO E O ALVO DE SUA PRÓPRIA REALIZAÇÃO DA NOVA ALIANÇA


Falar dessa maneira sobre a relação de Cristo com a nova aliança é uma grande honra para Cristo. Seu
sacrifício foi uma realização gloriosa em prover o perdão dos pecados. Mas expressá-la dessa maneira é
apenas metade da verdade sobre a realização de Cristo. Em sua morte e ressurreição (Rm 4.25), Cristo
não somente providenciou o fundamento das promessas da nova aliança; ele também se tornou o alvo.
Jesus é tanto o fundamento de nossa salvação como a glória que veremos e compartilharemos como
resultado da salvação. Ele foi o preço que foi pago por nossa libertação e o prêmio que fomos destinados a
desfrutar. Cristo nos redimiu do inferno e nos recompensou com ele próprio. A promessa da nova
aliança era “Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jr 31.33). A realidade surpreendente e
incompreensível da nova aliança é que experimentamos Deus como nosso Deus precisamente no
relacionamento com Cristo. Porque Cristo é Deus.

NELE HABITA CORPORALMENTE


TODA A PLENITUDE DA DIVINDADE
Jesus é capaz de ser o fundamento e o alvo da nova aliança porque ele não é um mero homem. Ele é
plenamente homem e plenamente Deus. “Nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade”
(Cl 2.9; cf. 1.19). Antes de assumir a natureza humana, Jesus, “subsistindo em forma de Deus, não julgou
como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-
se em semelhança de homens” (Fp 2.6-7). Ele “é o resplendor da glória e a expressão exata do” Ser de
Deus e sustenta “todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). O próprio Deus dá testemunho de
que seu Filho é Deus: “Acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8, citando Sl
45.6).
A deidade de Cristo — sua existência divina como o eterno Filho de Deus — tornou possível que ele
fosse o fundamento da nova aliança ao morrer por pecadores. “O que fora impossível à lei, no que estava
enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no
tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado” (Rm 8.3). A punição devida ao
nosso pecado pôde ser paga por outro porque Deus enviou seu Filho em semelhança de carne
pecaminosa. Ele era o Filho divino e era impecável em sua natureza humana. Portanto, Cristo tinha o
valor divino e a mortalidade humana para realizar o que ninguém mais poderia realizar: oferecer um
sacrifício infinitamente valioso e morrer pelos pecados de seu povo (Hb 2.14).

GLÓRIAS DA REALIZAÇÃO DO DEUS-HOMEM


Essa glória da realização de Cristo em morrer por inimigos sem merecimento é uma glória acrescentada
à glória eterna de sua deidade. Assim como a natureza humana foi assumida pela pessoa divina do Filho,
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também as glórias das realizações do Deus-homem foram acrescentadas às glórias eternas do Filho que
ele tinha antes de se tornar homem. Quando Jesus ressuscitou dos mortos e subiu ao Pai, no céu, foi
restaurado à sua glória anterior. “Agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive
junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.5). Mas não somente à sua glória anterior. Agora, ele tem
a glória de um redentor triunfante. Ele é, agora, o vitorioso Deus-homem que derrotou Satanás (Cl 2.15;
Hb 2.14) e a morte (1Co 15.54-57). Satisfez a ira santa de Deus (Rm 3.25; Ef 2.3-5). Comprou uma
noiva (Ef 5.25-27) do meio de todos os povos do mundo (Ap 5.9). Por essas realizações da cruz e por
muitas outras, Cristo foi exaltado a um lugar de glória multiforme à direita de Deus:
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Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se
dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai
(Fp 2.9-11).

Ele será adorado para sempre não somente por causa da glória de sua deidade eterna, mas também
de suas realizações gloriosas ao redimir seu povo como o Deus-homem — como o Mediador da nova
aliança. Observe que, na canção do céu, a dignidade do Filho para abrir o rolo da história se deve
diretamente à sua realização na cruz:
Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra (Ap 5.9-10).

Portanto, as dimensões da glória de Cristo são muitas. Algumas têm origem na eternidade, como
essenciais à sua natureza divina. Outras pertencem ao seu estado de encarnação como divino e humano.
Ele é peculiarmente glorioso por causa da obra que realizou por ser tanto Deus como homem. É à
totalidade de sua glória que me refiro quando digo que Cristo é o alvo da nova aliança. Por causa do que
Cristo realizou em seu sofrimento, em sua morte e ressurreição, ele é não somente o fundamento da
nova aliança; ele se tornou a suprema recompensa da nova aliança. O preço de todas as promessas da
nova aliança tornou-se seu prêmio supremo.

AO NOS ADEQUAR PARA VER SUA GLÓRIA, CRISTO TORNOU-SE AINDA MAIS DIGNO DE SER VISTO
Se Cristo não se tivesse tornado o fundamento da nova aliança em seu sofrimento, nunca poderia ser a
recompensa da nova aliança em sua glória. Isso é verdadeiro por duas razões. Primeira, se ele não tivesse
sofrido, nenhum pecado seria perdoado e, portanto, todos estariam sob a ira de Deus (Ef 2.3), com
coração de pedra (Ez 36.26), cegos para a glória de Cristo (2Co 4.4). Segunda, uma grande parte da
glória de Cristo consiste na maneira pela qual ele estabeleceu a nova aliança — ou seja, por seu
sofrimento amoroso, terrível e sem culpa. Em outras palavras, ao se tornar o fundamento da nova
aliança, Cristo não somente expandiu a glória eterna de sua deidade, como também se manifestou como
um redentor glorioso. Sua obra salvadora nos adequou para ver sua glória e também o adequou para ser
visto como glorioso em sua realização salvadora, bem como em sua grandeza eterna.
Em outras palavras, o propósito de Deus na nova aliança era não somente tornar possível que os
pecadores fossem perdoados, conhecessem e desfrutassem a glória de Deus para sempre. Seu propósito
era também que o Mediador da aliança fosse o próprio Deus e exibisse uma glória redentora que se
tornaria a mais bela manifestação de glória que alguém jamais poderia desfrutar — a glória da graça de
Deus.

GRAÇA, O ÁPICE DA GLÓRIA; CRISTO, O ÁPICE DA GRAÇA


No Capítulo 3, vimos que, desde antes da fundação do mundo, o objetivo da providência de Deus era ter
um povo que viveria para “louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6, 12, 14). Agora vemos com mais clareza
que esse propósito estava absolutamente centrado em Cristo. Mais especificamente, estava concentrado
em Cristo, em seus triunfos por meio de sofrimento. A implicação de Efésios 1.4-6 é que a graça de Deus
é o ápice de sua glória. Seu alvo não é apenas “o louvor de sua glória”. É o “louvor da glória de sua graça”.
Em outras palavras, o conjunto das excelências que constituem a glória de Deus atinge seu mais belo
transbordamento na expressão de graça em favor de pecadores indignos como nós. E o que agora fica
evidente no estabelecimento da nova aliança “em seu sangue” é que o sofrimento humilde, espontâneo e
obediente de Cristo em favor de pecadores é o ápice da graça de Deus — o lugar no qual essa graça é
mais lindamente exibida.
Portanto, a graça é a expressão consumada da glória de Deus, e Cristo é, em seu sofrimento, a
expressão consumada da graça. Por três vezes em Efésios 1.4-6, Paulo esclarece que o alvo de louvar “a
glória da graça de Deus” é atingido “por meio de Jesus Cristo”.
Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos
predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória
de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado.

“Nele.” “Por meio de Jesus Cristo.” “No Amado.” Sabemos que essas expressões se referem à obra de
Cristo na cruz porque, no versículo seguinte, Paulo diz: “[Nele], temos a redenção, pelo seu sangue, a
remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (1.7). Portanto, o alvo supremo de Deus em sua
providência salvadora — ou seja, o louvor da glória de sua graça — foi atingido por meio do sofrimento
do Filho de Deus, que morreu para nos libertar do sofrimento eterno (2Ts 1.9) e nos levar ao gozo
eterno de sua glória (Jo 17.24).

SOFRIMENTO ESSENCIAL
PARA O ATO DE GRAÇA MAIS GLORIOSO
Mais uma vez, vamos deixar claro o ensinamento óbvio, mas frequentemente negligenciado, de Efésios
1.4-6: esse foi o plano de Deus desde o começo — Cristo sofrer por pecadores indignos para exibir a
glória da graça de Deus. Não se tratava de um plano B. O propósito supremo de Deus na criação e na
providência não era que sua glória fosse manifestada e louvada por meios que não envolvessem o
sofrimento de seu Filho. A cruz não foi uma ideia tardia. Era parte do plano desde antes da fundação do
mundo (cf. 2Tm 1.9; Ap 13.8).
As implicações disso são impressionantes. Significa que o sofrimento é essencial ao propósito
supremo da criação e da providência. O sofrimento é parte essencial da trama do universo, de tal modo
que a tessitura da graça, por meio do sofrimento de Cristo, pode ser vista pelo que realmente é. Ou, em
palavras mais simples e mais claras, a principal razão pela qual o sofrimento existe é que Cristo possa
exibir a grandeza da glória da graça de Deus por sofrer, ele mesmo, para vencer o sofrimento. O
sofrimento do totalmente inocente e infinitamente santo Filho de Deus no lugar de pecadores
totalmente indignos para nos levar à alegria eterna é a maior exibição da glória da graça de Deus que já
existiu e poderia existir. 36

O LIVRO DA VIDA DO CORDEIRO QUE FOI MORTO


Isso é tão extraordinário e tão diferente da maneira de pensar de muitas pessoas que faríamos bem se
apresentássemos a base para isso mais amplamente do que o que vimos em Efésios 1.4-7. Considere
duas outras passagens: Apocalipse 13.8 e 2 Timóteo 1.9.
Em Apocalipse 13.8, João escreveu:
E adorá-la-ão [a besta] todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro
que foi morto desde a fundação do mundo.

A fraseologia exata nesse versículo é importante, e essa é uma boa tradução literal e cuidadosa: “o
Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”. Significa que, antes de o mundo ser criado, houve na mente
de Deus um “Cordeiro que foi morto”.
O Cordeiro que foi morto é Jesus Cristo crucificado. Desse modo, o livro de nomes é o livro de Jesus
Cristo crucificado. Portanto, antes de Deus criar o mundo, ele tinha em vista Jesus Cristo morto e um
povo comprado por seu sangue, escrito no livro. Isso significa que o sofrimento de Jesus não foi uma
ideia tardia, como se a obra de criação não tivesse saído da maneira como Deus havia planejado. A morte
do Cordeiro estava em vista antes de a obra de criação ser iniciada.

GRAÇA EM CRISTO ANTES DOS TEMPOS ETERNOS


Em 2 Timóteo 1.9, Paulo olha para trás, para a eternidade, antes de as eras começarem, e diz:
[Deus] nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e
graça que nos foi dada [ou seja, ele nos deu essa graça] em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos.

Deus nos deu graça — favor imerecido para com pecadores! — em Cristo Jesus antes dos tempos
eternos. Ainda não havíamos sido criados. Ainda não existíamos para que pecássemos. Mas Deus já havia
decretado que a graça — um tipo de graça “em Cristo”, graça comprada com sangue, graça que vence o
pecado — chegaria até nós em Cristo Jesus. Tudo isso estava na mente de Deus antes da criação do
mundo. Portanto, há um “Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”, e há uma graça que, em Cristo, flui
para pecadores indignos que ainda não estão criados.
E não ignore a magnitude dessa palavra morto (no grego, esphagmenou): “o Cordeiro que foi morto”.
É usada no Novo Testamento somente pelo apóstolo João e significa, literalmente, “abater”. Aqui, temos
um sofrimento horrível — o abatimento do Filho de Deus — na mente e no plano de Deus antes da
fundação do mundo. O Cordeiro de Deus sofrerá. Será abatido. Esse é o plano.
Por quê? Porque o alvo de Deus na criação e na providência era fazer a mais plena, a mais clara e a mais
segura manifestação da grandeza da glória da graça. E essa manifestação seria o abatimento do melhor Ser do
universo no lugar de milhões de pecadores indignos. O sofrimento e a morte do Cordeiro de Deus na
história são a perfeita manifestação da glória da graça de Deus. Essa é a razão pela qual Deus a planejou
antes da fundação do mundo. Esse é o alvo, a obra e a maravilha da providência pervasiva de Deus.

CORDEIRO MORTO, FOCO DA ADORAÇÃO PARA SEMPRE


Vimos que as hostes celestiais enfatizam sua adoração não simplesmente no Cordeiro, mas também no
Cordeiro que foi morto (Ap 5.9). E estão cantando essa canção em Apocalipse 15.3 (“Entoavam o cântico
de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro”). Portanto, podemos concluir que o foco da adoração
no céu, por toda a eternidade, será a manifestação da glória da graça de Deus no Cordeiro que foi morto.
Os anjos e todos os redimidos cantarão o sofrimento do Cordeiro para sempre e sempre. O
sofrimento do Filho de Deus nunca será esquecido. O maior sofrimento que já aconteceu será o centro
de nossa adoração e de nossa admiração para sempre e sempre. Esse não é um pensamento tardio de
Deus; é o plano elaborado desde antes da fundação do mundo.
Tudo o mais está subordinado a esse plano. Todo o resto é colocado em operação pela providência
de Deus por causa desse plano. A manifestação da glória da graça de Deus, especialmente no sofrimento do
Amado, ecoando para sempre nos louvores plenamente satisfatórios dos redimidos, é o alvo da criação e o
alvo supremo de todas as obras da providência divina.

MUITO MAIS PARA VERMOS


Na nova aliança, Deus prometeu o perdão dos pecados, um novo coração que valoriza a Deus acima de
tudo e que ele mesmo seria nosso Deus em comunhão plena de alegria para sempre (Jr 31.33-34). No
sofrimento, na morte e na ressurreição de Jesus, ele se tornou o fundamento dessas promessas. E não
somente o fundamento, mas também o alvo. Na beleza do amor, da sabedoria e do poder de seu
sofrimento triunfante (1Co 1.18-25; 2.7-9), Cristo manifestou a glória na qual seu povo exultará para
sempre. Ele se tornou o preço e o prêmio da nova aliança. O fundamento e o alvo. A redenção e a
recompensa. Esse era o plano de Deus desde antes da fundação do mundo.
Há mais — muito mais — para vermos nas magníficas realizações dos sofrimentos de Cristo e em
suas implicações inesgotáveis. Há implicações, por exemplo, na forma como entendemos a entrada do
pecado no mundo e como entendemos o evangelho. Esse será o foco do Capítulo 13.

Com isso, não estou sugerindo que a glória eterna e intrínseca do Filho de Deus tenha sido alterada, como se fosse deficiente ou algo menos
do que infinita antes da encarnação. Pelo contrário, as “glórias acrescentadas” eram novas manifestações extrínsecas da grandeza dessa
glória intrínseca.

Veja John Piper, Fifty Reasons Why Jesus Came to Die (Wheaton, IL: Crossway, 2006).

Os pensamentos nesse parágrafo são adaptados de John Piper, “The Suffering of Christ and the Sovereignty of God”, em Suffering and the
Sovereignty of God, ed. John Piper and Justin Taylor (Wheaton, IL: Crossway, 2006), 81-90.
13 | A entrada do pecado na criação e a glória do evangelho

Ao descobrirmos a origem do objetivo da providência no plano eterno de Deus, como fizemos no


capítulo anterior (Ef 1.4-6; 2Tm 1.9; Ap 13.8), vimos que a própria existência de sofrimento — mais
explicitamente, o sofrimento de Cristo — era parte da textura da realidade que Deus planejou para a
história humana, de modo que ele manifestasse a glória de sua graça no sofrimento de seu Filho em favor
de pecadores indignos. Os desdobramentos admiráveis que abordamos no Capítulo 12 não esgotam
suas maravilhas. Temos mais a observar em relação à queda do homem e à glória do evangelho.

PLANEJOU PERMITIR
Se Deus planejou o sofrimento de seu Filho antes da criação e, por conseguinte, antes do pecado de
Adão e Eva, como vimos em Apocalipse 13.8 e em 2 Timóteo 1.9, ele previu a vinda do pecado e
planejou permitir sua entrada no mundo. Escolhi essas palavras cuidadosamente: “planejou permitir”. Às
vezes, dizemos que Deus permitiu algo. Isso é perfeitamente apropriado, porque a providência de Deus
não governa todos os eventos exatamente da mesma forma, e “permissão” é uma maneira de descrever
alguns dos atos de sua providência. Por exemplo, “Deixemo-nos levar para o que é perfeito […] Isso
faremos, se Deus permitir” (Hb 6.1-3; veja também Lc 8.32; 1Co 16.7).
Mas, algumas vezes, ignoramos o fato de que, porque Deus é capaz de prever o que pode ou não
pode permitir, ele escolhe fazê-lo ou não. E todas as escolhas de Deus estão em consonância com sua
sabedoria (Sl 104.24; Is 28.9), com sua justiça (Ne 9.33; Sl 145.17; Dn 9.14) e com sua bondade
perfeitas (Sl 145.7, 9). Deus não é caprichoso. Ele nunca escolhe de forma insensata ou pecaminosa.
Deus escolhe vendo todas as consequências (dolorosas e agradáveis) do que ele permite. Portanto,
podemos falar apropriadamente do que ele planejou permitir. E, assim, podemos e devemos falar do
propósito de Deus em permitir.

DEUS PLANEJOU PERMITIR A QUEDA


Deus previu que Adão e Eva pecariam e trariam ruína para sua criação. Ele levou essa realidade ao
“conselho da sua vontade”, ponderou todas as suas consequências e todos os seus propósitos e escolheu
permitir a queda deles em pecado. Deus fez isso de acordo com sua sabedoria, justiça e bondade
perfeitas. Visto que ele poderia ter escolhido não permitir o primeiro pecado, assim como escolheu não
permitir o pecado de Abimeleque (“Daí o ter impedido eu de pecares contra mim” — Gn 20.6),
sabemos que Deus tinha propósitos bons, justos e sábios em permitir o pecado.
Se Deus tinha propósitos bons, justos e sábios em permitir a queda de Adão e Eva, podemos falar do
plano de Deus em permitir o pecado. Ou seja, nesse sentido, podemos falar de Deus planejar ou ordenar
a queda. Por planejar e ordenar, quero dizer simplesmente que Deus poderia ter escolhido não permitir a
queda, mas, ao escolher permiti-la por propósitos sábios, ele a planejou e a ordenou. Deus levou em
consideração tudo (trilhões de coisas) que faria com a queda e tornou-a parte de seu plano soberano.
Isso significa que Deus planeja e ordena que aconteçam algumas coisas que ele odeia. Deus odeia o
pecado (Pv 6.16-19). O pecado o desonra (Rm 3.23) e destrói as pessoas (Rm 6.23). Mas ele planejou
permitir que o pecado entrasse em sua criação perfeita. Portanto, em sua sabedoria e santidade infinitas,
não é pecaminoso Deus haver planejado que o pecado acontecesse. Sem dúvida, há inúmeras razões
sábias e santas para Deus planejar permitir o pecado. Mas nós fomos atraídos a essas reflexões por uma
única razão: o alvo supremo de Deus na criação e na providência é manifestar a glória de sua graça,
especialmente no sofrimento de Cristo, ecoando para sempre nos louvores plenamente satisfatórios dos
redimidos. Esse é o supremo propósito sábio, justo e bom de Deus em permitir a queda.

ADÃO E EVA INTENTARAM O MAL;


DEUS O INTENTOU PARA BEM
Em outras palavras, embora haja mistérios na forma como Deus quer que o pecado exista, sem ele mesmo
pecar, a Bíblia nos dá orientações sobre como pensar e falar a respeito disso. Por exemplo, podemos falar
apropriadamente do pecado de Adão e Eva com as palavras que José falou sobre o pecado de seus
irmãos, que o venderam para a escravidão: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o
intentou para bem” (Gn 50.20, ACF). O texto não diz: “Deus o usou para o bem”; antes, ele diz: Deus o
intentou para bem — a mesma palavra usada para se referir à intenção pecaminosa dos irmãos: eles
intentaram o mal. Tiveram uma intenção no ato. Deus tinha outra intenção no ato. A intenção deles foi
37

pecaminosa. A intenção de Deus era salvadora: “para fazer como se vê neste dia, para conservar muita
gente com vida” (Gn 50.20, ACF; veja 45.7; Sl 105.17).
Deus nos deu essas palavras para que possamos assimilar, em alguma medida, como sua providência
se relaciona não somente com o pecado dos irmãos de José, mas também com todo pecado, inclusive
com o primeiro pecado humano. Assim, podemos dizer: “Adão e Eva, vocês intentaram o mal; Deus,
porém, o intentou para o bem. O propósito de vocês em pecar era a busca inútil de prazer por meio de
autonomia autoexaltadora. O propósito de Deus em permitir o pecado de vocês era dar a seu povo o
prazer de ver e provar a glória de sua graça nos indizíveis sofrimentos e triunfos de seu Filho”.

JULGAMENTO DE SOFRIMENTO: JUSTO E GRACIOSO


Portanto, essa manifestação da glória da graça de Deus aconteceria supremamente em e por meio do
sofrimento do Filho de Deus em favor de rebeldes indignos. Mas, para isso acontecer, deveria haver algo
como o sofrimento. Por conseguinte, não foi somente a justiça, mas também a misericórdia, que levou
Deus a designar o sofrimento como consequência do pecado. Ele disse à mulher: “Multiplicarei
sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos” (Gn 3.16). Para o
homem, ele disse: “Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de
tua vida” (Gn 3.17). Esses sofrimentos se espalharam por toda a criação habitada:
A criação está sujeita [por Deus] à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou [Deus], na esperança de
que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que
toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora (Rm 8.20-22).
A “vaidade”, o “cativeiro da corrupção” e o “gemer” da criação — como todos os seus horrores de
doença, desastres naturais e atrocidades humanas — são consequências físicas e psicológicas da afronta
moral e espiritual do pecado. O horror dessas consequências corresponde ao horror da rebelião contra o
Criador. São, por assim dizer, uma parábola do indescritível mal de menosprezar Deus pela rebelião do
coração. São um ressoar de trombeta de advertência, para os sentidos físicos do homem caído, cuja
habilidade espiritual em discernir a afronta do pecado contra Deus foi dessensibilizada. Essa foi a
interpretação sobre a atrocidade de adoradores assassinados (Lc 13.3)e sobre um desastre natural que
provocou várias mortes: “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13.5). Morrer
numa calamidade não significa que alguém merece a morte mais do que os outros (Lc 13.2). Pelo
contrário, é uma mensagem para todos, porque todos merecem a morte: arrependei-vos! 38

Todo pecado e todo sofrimento na terra tiveram início com a sentença de morte, da parte de Deus,
depois do pecado de Adão (Gn 2.17; Rm 5.12). E, de uma forma admirável, com esse julgamento, Deus
mostrou, ao mesmo tempo, o triunfo supremo da graça por meio de sofrimento: “Porei inimizade entre
ti [a serpente] e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe
ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Por fim, Cristo, embora ferido, derrotará o maligno (Cl 2.15; Hb 2.15).
Esse era o evangelho de Romanos 5.19, anunciado em esperança dois mil anos antes de Cristo: “Porque,
como, pela desobediência de um só homem [Adão], muitos se tornaram pecadores, assim também, por
meio da obediência de um só [Cristo], muitos se tornarão justos”.

O QUE ENTRETECEMOS NOS CAPÍTULOS 12 E 13?


Entretecemos as implicações das origens, anteriores à criação, da nova aliança e de seu estabelecimento
por Cristo. Agora, vamos fazer uma pausa para identificar os fios da tapeçaria que entretecemos nos
Capítulos 12 e 13. Em seguida, com os fios já identificados, podemos completar nossa trama do
estabelecimento fundamental da nova aliança em propagar o “evangelho da glória de Cristo”. Eis o que
vimos:
1. O objetivo supremo de Deus em prometer e estabelecer a nova aliança era manifestar a glória da
graça de Deus especialmente no sofrimento de seu Filho, ecoando para sempre nos louvores
plenamente satisfatórios dos redimidos.
2. Nenhum homem poderia realizar o que a nova aliança prometia — o perdão de pecados, a
transformação do coração humano e a revelação de Deus — para ser gozado como Deus para
sempre. Portanto, a glória do estabelecimento da nova aliança por Cristo é imensuravelmente
grande, pois ele era, de fato, não um mero homem, mas Deus encarnado. Todas as belezas da obra
salvadora de Cristo são intensificadas porque ele era o divino Filho de Deus.
3. Dentro do objetivo supremo da nova aliança, está a realidade de que a graça de Deus é a expressão
completa de sua glória — o transbordamento culminante da cooperação perfeita de todas as
excelências divinas.
4. Também no alvo da nova aliança, está a realidade de que o sofrimento e a morte espontâneos do
Filho de Deus em favor de pecadores indignos é a mais bela expressão da graça de Deus. Será
cantada com admiração para sempre (Ap 5.9; 15.3).
5. Esse objetivo supremo foi planejado por Deus antes da fundação do mundo (2Tm 1.9; Ap 13.8).
6. Portanto, o pecado de Adão e Eva não surpreendeu a Deus. Seu plano para o sofrimento de seu
Filho por amor a pecadores já incluía sua permissão planejada do pecado humano. Ele planejou
permitir a queda e, por suas consequências justas de sofrimento, preparar o cenário para a obra de
redenção e o sofrimento triunfante e exibidor de graça de seu Filho.

BOAS-NOVAS DA GLÓRIA DE CRISTO


Diante disso, podemos entender por que Paulo diz que as boas-novas, que Cristo enviou ao mundo ao
estabelecer a nova aliança, eram as boas-novas de sua glória. Em 2 Coríntios 4.4, Paulo diz: “O deus deste
século [Satanás] cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho
da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”. Essa é uma expressão maravilhosa: “o evangelho da glória
de Cristo” — “as boas-novas da glória de Cristo”. E sugere que o maior bem das boas-novas é a glória de
Cristo.
Já vimos que o evangelho conta a história da glória de Cristo ao se tornar o fundamento todo-
suficiente do perdão dos pecados — a pessoa mais preciosa sofrendo o pior sofrimento em favor
daqueles que não tinham merecimento algum. Esse é o âmago da glória do evangelho. Mas nós vemos
também que, ao nos mostrar a glória do que Cristo já realizou, “o evangelho da glória de Cristo” realiza
mais duas maravilhas.
O evangelho cria um povo que, acima de tudo, (1) aprecia o valorizar a glória de Cristo (Mt 10.37) e
(2) desfruta o ato de ser transformado na gloriosa imagem de Cristo (2Co 3.18). O evangelho cria um
novo povo que se regozija na glória de Cristo como seu maior tesouro e reflete a glória de Cristo como sua
nova identidade. Cristo é glorificado por sua glória estar sendo desfrutada e ecoada.
Esses dois alvos — valorizar alegremente a glória de Cristo e ser transformado alegremente pela
glória de Cristo — são explícitos na Escritura.

O ALVO DE VALORIZAR ALEGREMENTE


A GLÓRIA DE CRISTO
Na noite anterior à sua morte, Jesus orou: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também
comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da
fundação do mundo” (Jo 17.24). Essa foi sua última oração. Quase. Há mais um pedido que, combinado
com esse, faz de ambos, juntos, a última oração. Em João 17.26, Jesus acrescentou o seguinte pedido:
que o mundo não somente veja, mas também seja capaz de amar a glória do Filho como o Pai a ama. Em
João 17.26, Jesus acrescentou este pedido: que não somente vejamos, mas também sejamos capazes de
amar a glória do Filho da forma como o Pai o faz — não como o fazemos agora, com nossa visão de
Cristo corrompida pelo pecado, mas com o próprio amor do Pai operando em nós em nosso estado
aperfeiçoado.
Eis como Jesus fez seu pedido: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que
o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja”. Ele pediu que o amor do Pai pelo Filho estivesse
em nós. Em outras palavras: “Pai, que a pureza e a intensidade do teu amor sejam a pureza e a
intensidade com que meu povo verá e valorizará a minha glória e ficará satisfeito com ela”.
O OBJETIVO DE SER TRANSFORMADO
ALEGREMENTE PELA GLÓRIA DE CRISTO
O objetivo de Deus na morte de Cristo incluía a transformação de seu povo. “Carregando ele mesmo
[Cristo] em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados,
vivamos para a justiça” (1Pe 2.24). Cristo morreu para garantir o perdão de nosso pecado e romper o
poder de nosso pecar. Em sua morte, segundo a qual se estabeleceu a nova aliança, ele destronou a
inclinação ao pecado e implantou a preferência por santidade. Ele assegurou tanto a justificação como a
santificação. Como esse poder transformador do “evangelho da glória de Cristo” se torna eficaz?
Quanto mais completa e mais clara for nossa visão da glória de Cristo, mais intensamente seremos
transformados à sua semelhança. Pouco antes de Paulo dizer que Satanás cega os incrédulos para a luz
“do evangelho da glória de Cristo”, ele diz que os crentes (que não são mais cegos — 2Co 4.6),
“contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua
própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18).
É a esse ponto que o ver e o provar a glória de Cristo conduzem, agora mesmo, nesta vida.
Contemplar conduz à transformação. A consideração focalizada de Cristo leva a refletir fielmente Cristo.
Essa é também a maneira como Deus cumprirá sua ordem de que a terra seja cheia de sua glória (Gn
1.27-28; Nm 14.21; Hc 2.14). Por meio do Espírito (2Co 3.18b), nossa contemplação feliz da glória de
Cristo, em seu sofrimento triunfante, nos transforma, fazendo-nos à sua semelhança.
Esse é um processo que atinge a perfeição na segunda vinda do Senhor Jesus: “Sabemos que, quando
ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2). Dessa
maneira, Deus encherá a nova terra com imagens lindas da glória de seu próprio Filho, e “a própria
criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm
8.21). E, assim, a nova aliança será total e finalmente concluída.

CADA REALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO DE CRISTO


LEVA A AMAR SUA GLÓRIA
Por isso, quando Paulo chama a mensagem cristã de “o evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4), está
dando a entender que todas as outras realizações preciosas dos sofrimentos de Cristo são meios para se
atingir este alvo magnífico e final: um povo redimido que desfruta o valorizar a glória de Cristo acima de
tudo e desfruta o ser transformado na imagem gloriosa de Cristo. O que torna as boas-novas final e
supremamente boas é que elas asseguraram o gozo eterno para o povo de Deus em amar e refletir a
glória de Cristo.
Todas as outras realizações do sofrimento de Cristo são gloriosas. Mas essa glória consiste, em
última análise, em levar à presença satisfatória de Deus, para sempre, os pecadores indignos que foram
justificados, perdoados e transformados. “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos
injustos, para conduzir-vos a Deus” (1Pe 3.18), onde “há plenitude de alegria […] [e] delícias
perpetuamente” (Sl 16.11). Todas as outras realizações da cruz servem a essa finalidade.
A MARAVILHA DA PROPICIAÇÃO
POR VER A GLÓRIA DE CRISTO
Considere um exemplo de “todas as outras realizações do sofrimento de Cristo”: a mais básica realização
de propiciação — ou seja, a remoção da ira de Deus para todos os que creem em Cristo, para que Deus
nunca mais seja contra nós, mas, em vez disso, seja 100% por nós, para sempre. Como Cristo fez isso?
Paulo explica da seguinte maneira:
Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele
que for pendurado em madeiro) (Gl 3.13).

A quem Deus propôs, no seu [Cristo] sangue, como propiciação [remove a ira, satisfaz a justiça] mediante a fé, para manifestar a
sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm 3.25).

Se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados,
seremos salvos [da ira de Deus; cf. v. 9] pela sua vida (Rm 5.10).

Observe que é o próprio Deus quem propõe Cristo como propiciação para lidar com sua própria ira.
Não há nenhum pensamento de que Jesus seja misericordioso e o Pai, não. Deus, o Pai, toma essa
iniciativa para satisfazer às exigências de sua própria ira justa. Cristo sofre a ira para que não tenhamos de
sofrê-la.
E observe que Deus faz isso porque, em “sua tolerância”, havia “deixado impunes os pecados
anteriormente cometidos” (Rm 3.25). É possível pensar que Deus podia simplesmente esquecer os
milhões de pecados de todos os santos do Antigo Testamento, a quem ele havia perdoado. Mas sua
justiça não permitiria isso. Todo pecado que menospreza Deus tem de ser punido de forma justa, para
que a glória de Deus seja mantida como infinitamente preciosa. E poderia ser tratado de maneira justa se
Deus enviasse todos os pecadores para o inferno. Mas, em sua graça (Rm 3.24), Deus planejou salvar os
pecadores que merecem o inferno, ao dar seu Filho para sofrer a punição e dar satisfação à sua ira santa.
Dessa maneira, o valor da glória de Deus, que tem sido depreciada ao longo de toda a história, de
trilhões de maneiras, é mantido, a justiça de Deus é vindicada e os pecadores são salvos. Ou, em termos
que expressam o que temos visto em todas as Escrituras, o objetivo supremo de Deus nos sofrimentos de
Cristo era exaltar a glória de sua justiça no próprio ato de salvar os pecadores, que passarão a eternidade
louvando a glória da graça de Deus.
Portanto, essa propiciação — essa remoção da ira de Deus — foi o meio para a finalidade máxima de
redimir um povo que exalta a glória de Cristo, ao gozar Deus em Cristo para sempre. A propiciação não é
um fim em si mesma. Ela remove um obstáculo imenso ao gozo da glória de Deus. Esse gozo que exalta
Deus é o objetivo supremo da propiciação — e o objetivo supremo de todas as outras maravilhas da
providência.

TODA REALIZAÇÃO DA CRUZ


REMOVE OBSTÁCULOS À GLÓRIA
O mesmo pode ser mostrado a respeito de todas as outras realizações dos sofrimentos de Cristo. Todas
são meios para o fim de capacitar as pessoas não merecedoras a passarem a eternidade na presença todo-
satisfatória de Deus (Sl 16.11; 1Pe 3.18). O perdão remove a barreira de nossos pecados, que produzem
culpa (Ef 1.7). A justificação provê uma justiça perfeita que nos torna legalmente aceitáveis a Deus (Rm
5.19). A adoção provê uma posição legal na família de Deus (Ef 1.5). A derrota da morte e o dom da vida
eterna garantem a perpetuidade de nosso gozo na presença de Deus (Rm 6.23; 1Co 15.56-57). O
desarme dos poderes demoníacos garante que nossa comunhão com Deus nunca será invadida por poderes
hostis (Cl 2.15; Hb 2.14). A cura final de todas as doenças significa que nosso desfrute da presença de
Deus nunca será obstruído por dores que nos distraem (Is 53.5; Ap 7.17).
Em outras palavras, quando Paulo chama o evangelho de “o evangelho da glória de Cristo”, quer
dizer não somente que todas essas realizações dos sofrimentos de Cristo revelam sua glória, como
também que todas elas conduzem a esse alvo supremo — um povo de Deus comprado por sangue
gozando e refletindo a glória de Deus em Cristo como seu maior tesouro. A providência de Deus em
enviar seu Filho como um substituto em favor de pecadores realiza tudo que é necessário para trazer seu
povo à sua presença com louvores eternos da glória de sua graça, que propiciam satisfação à alma. Deus
recebe a glória do louvor; nós recebemos o prazer de louvar. A glória da graça de Deus e a alegria de
nossa alma são consumadas em conjunto nesse louvor eterno.

ESTABELECIMENTO PRESENTE E FUTURO


DA NOVA ALIANÇA
No capítulo seguinte, chegamos ao fim de nossa primeira jornada pelas Escrituras, buscando descobrir o
objetivo da providência. Neste capítulo final da Parte 2, o foco muda da realização fundamental de Cristo
na nova aliança, por meio de seus sofrimentos, para o estabelecimento permanente da nova aliança na
transformação do povo de Deus e, finalmente, do mundo criado. A nova aliança prometeu não somente
o perdão dos pecados, mas também a lei inscrita em nossos corações (Jr 31.33) — um povo
transformado cujo coração se deleita em fazer a vontade de Deus. “Agrada-me fazer a tua vontade, ó
Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8).
Essa transformação comprada por sangue e operada pelo Espírito é, em última análise, a criação de
uma nova humanidade (Ef 2.10), cujas afeições por Deus e cujo espelhamento de Deus encherão a terra
como as águas cobrem o mar (Nm 14.21; Sl 72.19; Hc 2.1; Ef 1.22-23). Esse é o objetivo final da
providência: um povo glorificado, cuja glória é regozijar-se em Deus e refletir a Deus, o qual se deleita,
ele mesmo, de todo o seu coração (Jr 32.41), no deleite que o povo tem nele. Essa é a realização da nova
aliança que está acontecendo agora mesmo enquanto escrevo estas palavras e que será completada em
seu devido tempo, por meio da sabedoria, do poder, da justiça e da graça da providência de Deus.

N. E.: Infelizmente, a maioria das traduções brasileiras trazem “tornou em bem”, o que não corresponde ao original. Para mais detalhes, veja
o Capítulo 28.

Para mais reflexão sobre por que Deus deveria designar o sofrimento físico como julgamento sobre o mal moral e sujeitar toda a criação à
vaidade e à corrupção (Rm 8.20-23), veja Capítulo 33.
14 | A glória de Cristo na glorificação de seu povo

Visto que a glorificação final do povo de Deus (Rm 8.17, 30) consistirá amplamente em sua alegria na
glória do próprio Deus e em sua reflexão dessa glória, as Escrituras nos lembram, repetidas vezes, que a
glorificação progressiva dos santos, nesta vida, é para a glória de Deus. Sei que glorificação progressiva não
é uma expressão comum. Mais comum é santificação progressiva — ou seja, o processo de ser feito cada
vez mais santo nesta vida por meio da obra do Espírito Santo (Rm 15.16; 2Ts 2.13). Esse processo é a
transformação comprada por Cristo e capacitada pelo Espírito — transformação que conduz,
finalmente, ao cumprimento do propósito da providência nesta era e na era vindoura.

GLORIFICAÇÃO PROGRESSIVA
Uso a expressão glorificação progressiva porque é uma paráfrase adequada de 2 Coríntios 3.18: “E todos
nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos
transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Essa mudança
progressiva “de glória em glória”, que vem da parte do “Senhor, o Espírito”, é o que tenciono dizer por
glorificação progressiva. E é quase a mesma experiência que Paulo descreve em
2 Tessalonicenses 2.13, ou seja, ser salvo “pela santificação do Espírito”.
Suspeito que Paulo, ao escrever “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou,
a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30), omitiu “aos que
santificou”, pois, em sua mente, a palavra glorificou, nesse ponto de seu argumento, incluía a obra divina
de santificação. Por isso, ele não escreveu “aos que justificou, a esses também santificou, e aos que
santificou, a esses também glorificou”. Não porque a santificação seja opcional (como veremos); estou
sugerindo apenas porque está incluída em “glorificou”. Outra maneira de descrever a santificação
progressiva é chamá-la glorificação progressiva.
Um dos bons resultados de se usar a expressão glorificação progressiva é que ela atrai a atenção para o
fato de que o propósito da providência santificadora de Deus em nossa vida é manifestar a glória de
Deus, ao operar em nós os tipos de pensamentos, afeições e comportamentos que mostram a beleza e o
valor de Deus como nosso tesouro supremo. Nossa glorificação progressiva é a experiência de crescer
em maneiras de pensar, sentir e comportar-se que refletem a glória de Deus em Cristo.

A GLORIFICAÇÃO PROGRESSIVA
CUMPRE A NOVA ALIANÇA
Essa glorificação progressiva foi o que a nova aliança prometeu quando Deus falou:
Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne (Ez
36.26).

Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas
leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 31.33).
Esse novo espírito e esse novo coração, em que a lei de Deus se torna nosso desejo íntimo,
constituem a experiência de glorificação progressiva. As Escrituras nos lembram, repetidas vezes, que
essa transformação é da obra do Espírito de Deus e para a glória da graça de Deus. É da providência de
Deus, para o esplendor de Deus. Considere quatro ilustrações (de Jesus, Pedro, Hebreus e Paulo) a
respeito de como Deus expressa o objetivo de sua providência na glorificação progressiva de seu povo.

A SÚPLICA DO SENHOR PELA GLORIFICAÇÃO PROGRESSIVA


Na oração do Pai-Nosso, antes de Jesus dizer a seus discípulos que orem para que façam a vontade de
Deus, perdoem seus devedores e sejam livres da tentação, ele lhes diz que orem, principalmente, para
que o nome de Deus seja santificado (Mt 6.9). Em toda a providência de Deus ao nos ajudar a fazer sua
vontade, está o objetivo de que seu nome seja reverenciado e estimado como nosso tesouro mais
precioso.
O fato de que Jesus não somente nos ordena a reverenciar o nome de Deus, como também nos
instrui a orarmos para que esse nome seja reverenciado, mostra-nos que Deus é a causa decisiva na
glorificação de Deus. Estamos orando para que Deus nos faça, bem como a outros, reverenciar Deus. E
esse reverenciar está em e através de fazermos a vontade dele. Conformar-se cada vez mais com a
vontade revelada de Deus, para que seu nome seja santificado, ou glorificado, é o mesmo que glorificação
progressiva. E Jesus está nos ensinando, na oração do Pai-Nosso, que Deus é decisivo em realizar isso. A
providência está buscando atingir seu alvo por meio da glorificação progressiva dos crentes quando
oram: “Santificado seja o teu nome”. De fato, é precisamente porque Deus realiza nossa transformação
que santifica a Deus que ele recebe glória por isso.

SERVINDO NO PODER QUE DEUS SUPRE


Isso é o que Pedro quer dizer ao falar:
Se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a
quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! (1Pe 4.11)

O segredo para a nova maneira de servir a Deus na nova aliança (em novidade de espírito, e não na
caducidade da letra — Rm 7.6) é que não olhamos para nossos próprios recursos e confiamos na força,
comprada por sangue, que Deus supre. Pedro diz que, ao fazermos isso, Deus é “glorificado por meio de
Jesus Cristo”. Ou seja, nossa glorificação progressiva, ao servir a Deus pela fé, reflete o valor da glória de
Deus que desfrutamos por meio da obra de Jesus.

AGRADANDO A DEUS POR MEIO DE JESUS CRISTO


PARA A GLÓRIA DE DEUS
O escritor da Epístola aos Hebreus diz a mesma coisa de maneira diferente:
Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da
eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus
Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém! (Hb 13.20-21).
A lógica dessa bênção é assim: Deus nos capacita, de forma decisiva, para fazermos sua vontade; por
meio de Jesus, ele opera realmente em nós para que façamos o que ele nos capacita a fazer. O resultado é
que, quando fazemos o que lhe agrada, quem recebe a glória é Jesus, e não nós, porque, por meio dele,
Deus operou nossa glorificação progressiva.

OBRAS DE FÉ DE ACORDO COM A GRAÇA DE CRISTO


PARA SUA GLÓRIA
A mesma lógica da santificação (ou glorificação progressiva) da nova aliança pode ser vista no apóstolo
Paulo:
Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder
todo propósito de bondade e obra de fé, 12a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele,
segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo (2Ts 1.11-12).

Essa é uma sentença maravilhosa! Deus nos torna “dignos da sua vocação” — ou seja, ele nos
capacita a viver uma vida que mostra o valor supremo de nossa vocação. Para realizar isso, Deus compre
nossas boas resoluções. Elas são realizadas pelo poder dele. Esse poder está em consonância com a graça
de Deus. Em outras palavras, é gratuito e imerecido.
Nossa parte nisso é confiar em sua graça e em seu poder e, depois, com essa confiança, usar nossos
corações, mentes e mãos para agir, de modo que nossas obras se tornem obras de fé. O objetivo final de
viver dessa maneira é que “o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele”. Em outras
palavras, mostramos que Cristo é glorioso quando refletimos sua glória nesse formidável padrão de
glorificação progressiva sustentado por Deus.

PEDINDO A DEUS QUE GLORIFIQUE DEUS


Algo bastante óbvio que passa despercebido é o fato de que, em 2 Tessalonicenses 1.11-12, Paulo estava
orando (como Jesus estava orando na oração do Pai-Nosso e como o autor de Hebreus estava orando
em sua bênção). Isso significa que ele pedia a Deus que fizesse tudo isso acontecer, ou seja, pedia que
Deus glorificasse a Cristo, que é a imagem de Deus. Isso foi o que Jesus nos disse que devemos fazer, na
primeira súplica da oração do Pai-Nosso: peçam a Deus que ele faça com que seu nome seja santificado.
E era o que o autor de Hebreus estava fazendo quando orou que Deus operasse em nós para a glória de
Cristo.
E é isso que Paulo faz em Filipenses 1.9-11:
E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes
as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo,
para a glória e o louvor de Deus.

Paulo ora que os cristãos filipenses produzam o fruto de justiça “para a glória e o louvor de Deus”.
Portanto, ao orar dessa maneira, Paulo está pedindo a Deus que glorifique a Deus. A razão pela qual
deduzo esse fato óbvio, que geralmente passa despercebido, é lembrar-nos que, desde antes da criação,
esse fato tem sido central: as coisas simplesmente não acontecem para a glória de Deus; acontecem para
a glória de Deus porque a providência pervasiva de Deus cuida para que aconteça dessa maneira.
Deus é incrivelmente comprometido com a manifestação de sua glória para a admiração e o gozo de
todos que a têm como seu tesouro supremo. Se não nos sentimos à vontade com essa centralidade
radical de Deus em Deus, não nos sentiremos bem com a história bíblica da providência. Não nos
sentiremos à vontade na presença de Deus que exalta a Deus.

A RECONCILIAÇÃO NA NOVA ALIANÇA DESENCADEIA A TRANSFORMAÇÃO QUE GLORIFICA A DEUS


A glorificação (ou santificação) progressiva é a obra de Deus (Hb 13.20-21) mediante Jesus Cristo (Fp
1.11) pelo Espírito (2Ts 2.13). A expressão “mediante Jesus Cristo” nos lembra que a transformação
sobre a qual estamos falando é parte do estabelecimento da nova aliança por Cristo. A nova aliança
prometia que a lei seria inscrita no coração (Jr 31.33). Ou seja, seria parte de nosso desejo, para que
façamos alegremente a vontade de Deus. Isso é o que Deus está fazendo “pelo Espírito Santo”,
“mediante Jesus Cristo”.
Em outras palavras, quando Cristo sofreu para prover o fundamento da nova aliança no perdão dos
pecados, também iniciou, por seu sangue, a poderosa obra do Espírito Santo para cumprir a
transformação da nova aliança prometida nas seguintes palavras: “Na mente, lhes imprimirei as minhas
leis, também no coração lhas inscreverei” (Jr 31.33).
Pedro explicita essa conexão entre o sofrimento fundamental de Cristo por nós e a transformação
resultante em nós. “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que
nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pe 2.24). Cristo fundamentou a nova aliança em sua
morte por nós. Depois, essa reconciliação com Deus (Rm 5.10) desencadeia o poder do Espírito no
processo, e o eventual triunfo, de nossa glorificação progressiva.

O DESÍGNIO DE DEUS EM TODO DEVER HUMANO


— A GLÓRIA DE DEUS EM CRISTO
Visto que a transformação do povo de Deus causada pela nova aliança foi determinada na eternidade
pela sabedoria de Deus, pelo sangue de Cristo, e operada pelo Espírito de Deus — tudo para a glória de
Cristo e de seu Pai —, é claro que a repetida exigência bíblica de que os seres humanos glorifiquem a
Deus e a Cristo em tudo que fazem não é um mero dever humano, mas um desígnio divino. Isso é
verdadeiro em relação a todas as exigências bíblicas subsequentes, e o desígnio da providência de Deus
em cada uma delas é a glória de Deus.
Produzir fruto:
Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos (Jo 15.8).

Realizar boas obras:


Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus
(Mt 5.16; cf. 1Pe 2.12).

Agir com seu corpo:


Fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo (1Co 6.20).

Comer, beber e tudo o mais:


Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (1Co 10.31).

Viver em harmonia com os outros crentes:


Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que
concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 15.5-6).

Acolher outros crentes:


Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus (Rm 15.7).

Ser guiado pelas veredas da justiça:


Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome (Sl 23.3; 31.3; Is 61.3)

Suportar as provas com paciência:


E suportaste provas por causa do meu nome (Ap 2.3).

Sofrer como cristão:


Se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome (1Pe 4.16).

O ZELO DE CRISTO PELA GLÓRIA DE SEU PAI


Esse desígnio divino, de que Deus seja glorificado em todas as ações humanas, não somente foi
comprado e capacitado por Cristo, como também foi exemplificado à perfeição em sua vida. Considere o
propósito de Cristo em duas passagens sobre seu ministério. O que elas mostram é que o Filho de Deus
veio ao mundo para glorificar o nome de Deus e redimir um povo que faz o mesmo.
Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta
hora. Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei (Jo 12.27-28).

Cristo foi constituído ministro da circuncisão [ele nasceu como o Messias judeu], em prol da verdade de Deus, para confirmar as
promessas feitas aos nossos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia (Rm 15.8-9).

Essas duas passagens expressam os dois grandes objetivos da encarnação de Cristo: primeiro, que o
próprio Jesus, em sua obra, glorificaria o nome de seu Pai; segundo, que Jesus faria as nações se unirem a
ele ao fazer a mesma coisa — glorificar a Deus por sua misericórdia. Ou, unindo as duas, como já vimos
com alguma frequência, o objetivo de Cristo era o louvor da glória da graça de Deus (Ef 1.6). Seu
estabelecimento da nova aliança buscava esse alvo.

A GLÓRIA DO PAI E A DO FILHO SÃO UMA SÓ GLÓRIA


Mas, ao nos movermos em direção ao clímax da história, a consumação da nova aliança e o objetivo final
da nova aliança, devemos deixar claro que a glória do Pai e a glória do Filho são uma única glória. Isso
significa que, quando Cristo almeja exaltar a glória do Pai e quando o Pai almeja exaltar a glória do Filho,
ele não está sendo ambivalente nem blasfemo.
Jesus disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Ele não estava blasfemando quando orou: “Glorifica-
me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.5).
Não estava afastando seus discípulos da glória do Pai quando orou: “A minha vontade é que […]
estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória” (Jo 17.24). A glória do Pai e a
glória do Filho são, intrinsecamente, uma única glória.
Paulo ensinou isso quando disse que o evangelho são as boas-novas “da glória de Cristo, o qual é a
imagem de Deus”, e, em seguida, disse que o evangelho são as boas novas da “glória de Deus na face de
Jesus Cristo” (2Co 4.4, 6). Observe a correspondência:
“a glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”

“a glória de Deus na face de Jesus Cristo”

Aqui não temos dois evangelhos e duas glórias. A glória de Deus é conhecida na face de Cristo. É a
glória de Cristo. A glória de Cristo é a glória de Deus resplandecendo nele como a perfeita imagem de
Deus. Portanto, o desígnio divino e o dever humano do perfeito Deus-homem visavam à exaltação de
sua própria glória — a glória do Pai e do Filho.
Por exemplo, quando soube que seu amigo Lázaro estava doente, Jesus se demorou por dois dias e
permitiu que Lázaro morresse (Jo 11.1-15). Por quê? Ele responde: “Esta enfermidade não é para morte,
e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado ” (Jo 11.4). Observe agora
como a glória de Deus e a glória do Filho são o alvo conjunto da ação de Jesus.

VINDA DO ESPÍRITO PARA GLORIFICAR CRISTO


Portanto, não devemos ter dificuldade com o objetivo de Cristo glorificar Cristo. Não devemos sentir-
nos ofendidos com o fato de que Cristo exalta grandemente Cristo. Quando estava prestes a deixar seus
discípulos e voltar para o Pai, ele disse que voltaria para eles. “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós
outros” (Jo 14.18). Jesus estava se referindo ao Espírito Santo — seu próprio Espírito. “E eu rogarei ao
Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade,
que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita
convosco e estará em vós” (Jo 14.16-17). Cristo habita com eles (na carne) e estaria com eles (no
Espírito).
Cristo mesmo enviaria o Espírito: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte
do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). A missão que o
Espírito tem, da parte do Pai e do Filho — mas especialmente da parte do Filho (“Eu vos enviarei”) —, é
dar testemunho do Filho. Mais especificamente, Jesus disse sobre o Espírito que ele mesmo o enviaria:
“Ele me glorificará” (Jo 16.14). Esse Espírito que glorifica o Filho é o Espírito do Filho. Portanto, o
desígnio de Deus para o Filho de Deus e o dever que ele aceitou, tanto durante como depois de seu
ministério terreno, consistia em glorificar a si mesmo, o que não está em conflito com sua missão de
glorificar o Pai (Jo 12.27-28).
A VINDA DE CRISTO PARA GLORIFICAR CRISTO
Eis como a história chega ao seu clímax. Cristo retorna do céu com o seguinte propósito: ser glorificado
em seu povo. Essa é sua intenção e seu objetivo nos atos culminantes da providência divina:
Estes [os que não conhecem o evangelho] sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu
poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre
vós o nosso testemunho) (2Ts 1.9-10).

Paulo afirmou o seguinte em relação ao propósito da vinda de Cristo: “ser glorificado nos seus santos e
ser admirado em todos os que creram”. Essas duas afirmações (“ser glorificado nos seus santos” e “ser
admirado em”) abordam dois aspectos distintos da exaltação de Cristo. “Ser glorificado nos seus santos”
põe a ênfase na própria experiência de Cristo receber glória. “Ser admirado em” ressalta a experiência do
coração dos santos em sua admiração daquela glória. Essas duas experiências são inseparáveis. Como
temos visto com frequência, o objetivo supremo é a experiência unida de Deus em Cristo sendo exaltado
como supremo e de nós sendo impactados por vermos e refletirmos essa supremacia.
Permita-me, porém, observar novamente a verdade óbvia que, muitas vezes, é ignorada: a
glorificação de Cristo não é o resultado de sua vinda. É o propósito de sua vinda. Seu propósito. Ele vem a
fim de ser glorificado e admirado. Se não nos alegrarmos com o fato de que Cristo exalta Cristo, não nos
alegraremos com sua vinda. Se escondermos em nós resistência ao zelo de Deus por sua própria glória e
resistência ao compromisso de Cristo com a própria exaltação, toda a nossa leitura estará em desarmonia
com o teor da Escritura. Não conheceremos Deus, nem a nós mesmos, tampouco o mundo, da maneira
correta.

PROPÓSITO ETERNO
Esse propósito de exaltar a Cristo que a segunda vinda possui não é temporário. É um propósito eterno.
Da eternidade passada à eternidade futura, o propósito da criação e da providência tem sido — e sempre
será — a comunicação da glória de Cristo. “Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Esse
propósito — a exaltação de Cristo em toda a criação e na providência — não chega ao fim na nova
criação. A providência de Deus não desaparece na era vindoura. E seu principal desígnio não muda: que
“em todas as coisas” Cristo tenha “a primazia” (Cl 1.18). Certamente, o evento da segunda vinda será
diferente de qualquer outro anterior ou posterior. Haverá uma mudança chocante e definitiva no clímax
da história humana da forma como a conhecemos:
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo
sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória (Mt 24.30).

Mas nós temos visto, em cada ponto da história (até mesmo antes da história), que este universo está
destinado, na sabedoria de Deus — e governado pela providência de Deus —, a ser o palco da glória de
Deus, exibida perfeitamente na glória de sua graça, expressa pela glória de Cristo, que brilha mais
intensamente em seus sofrimentos em favor dos rebeldes indignos.
A PROMESSA MAIS ABUNDANTE DE DEUS?
Esse tem sido o propósito supremo desde o começo. E é o propósito das eras eternas no futuro. Paulo
exultou ao falar sobre isso em uma das promessas mais abundantes que lemos na Escritura:
Juntamente com ele, [Deus] nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos
vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus (Ef 2.6-7).

Isso é acumulação verbal gloriosa. Serão necessários “séculos” eternos para Deus exaurir a
demonstração de sua “riqueza” em relação àqueles que estão em Cristo. Pois essa riqueza é imensurável.
Também é a “riqueza de sua graça”. E, para não pensarmos muito vagamente, Paulo diz que essa graça é
“em bondade”. E, para não pensarmos muito genericamente sobre essa “bondade”, Paulo diz “para
conosco”. E, para não pensarmos que essa riqueza é do Pai, e não do Filho, Paulo conclui dizendo que
essa riqueza vem até nós da parte do Pai “em Cristo Jesus”. Nele, estão todos os tesouros. Isso significa
que, em Cristo, Deus será visto como infinitamente rico em glória por toda a eternidade, e nós ficaremos
cada vez mais satisfeitos com as crescentes medidas de novas bondades.
Durante todos os dias de toda a eternidade — sem pausa e sem fim —, a riqueza da glória da graça
de Deus em Cristo se tornará cada vez maior e mais bela em nossa percepção. Nós somos finitos. Elas
são imensuráveis — infinitas. Portanto, não podemos jamais compreendê-la em sua plenitude. Que isso
fique claro em nossa mente! Sempre haverá mais. Gloriosamente mais. Para sempre. Somente um ser
infinito é capaz de compreender riqueza infinita. Mas nós podemos gastar — e, efetivamente,
gastaremos — a eternidade assimilando mais e mais dessa riqueza. Há uma correlação necessária entre
existência eterna e bênção infinita. Precisamos de uma para experimentar a outra. A vida eterna é
essencial para o desfrutar a imensurável riqueza da graça.
Experiência é uma palavra absolutamente essencial aqui — precisamos de uma coisa para
experimentar a outra. No capítulo anterior, Paulo disse que, desde a criação, Deus planejara fazer do
universo — incluindo a nova criação e a era vindoura — um palco não somente para a manifestação da
“suprema riqueza de sua graça” (Ef 2.7), mas também para o jubiloso “louvor da glória de sua graça” (Ef
1.6, 12, 14). Essa é a experiência implícita em Efésios 2.7. O que significa para nós — para nossa
experiência — Deus nos conceder profusamente, para sempre, “a suprema riqueza de sua graça, em
bondade para conosco, em Cristo Jesus”? Significa alegria. Usando as palavras do apóstolo Pedro,
“alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8).

ALEGRIA SOBRENATURAL, ETERNA,


QUE GLORIFICA DEUS E EXALTA CRISTO
Não é meramente alegria natural que podemos produzir sozinhos, mesmo quando fazemos o nosso
melhor. Será a própria alegria de Deus em seu Filho, como vemos em João 17.26 . A alegria de Deus em 39

seu Filho será a nossa alegria no Filho. E a nossa alegria será a alegria de Cristo no Pai.
Isto é o que Jesus nos dirá na segunda vinda: “Entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21, 23). Ele é o
senhor. Nós entramos no gozo dele. Esta será a obra eterna do Espírito: fazer do gozo do Pai e do Filho o
nosso gozo, ao nos revelar a glória do Pai e do Filho em medidas sempre crescentes. Essa será a
experiência da “suprema riqueza de sua graça em bondade para conosco em Cristo Jesus”, a experiência
que será plenamente satisfatória, glorificará Deus, exaltará o Filho e dependerá do Espírito.

DELEITE DE DEUS NO ECO JUBILOSO DE SUAS EXCELÊNCIAS NOS LOUVORES DE SEU POVO
Essa experiência de alegria sempre crescente em tudo que Deus é para nós em Cristo será a essência da
glorificação eterna de Deus nas eras vindouras. Certamente, os céus se alegrarão. O sol, a luz e as estrelas
louvarão o Senhor. A terra se regozijará. Os mares rugirão com louvores. Os rios baterão palmas. Os
montes cantarão de alegria. Os campos e tudo que há neles exultarão. As árvores das florestas entoarão
seus louvores. O deserto florescerá como o narciso (Sl 96.11-13; 98.7-9; 148.3; Is 35.1). O mundo
criado — liberto e aperfeiçoado (Rm 8.21) — nunca cessará de declarar a glória de Deus (Sl 19.1; Rm
1.20).
No entanto, toda essa beleza reveladora e exultante de Deus na natureza não realizará seu propósito
mais elevado até encontrar sua reverberação nos corações cheios de louvores — na experiência — dos
filhos de Deus, comprados por sangue (Rm 8.21). A glória de Deus será a luz que permeará tudo naquele
novo país, mas a lâmpada dessa glória será o Cordeiro (Ap 21.23) — o sofrimento recordado, o
espetáculo eterno.
O teatro aperfeiçoado da criação será glorioso e radiante com Deus. Mas o drama — a experiência
humana de Deus em Cristo —, e não o teatro, será supremo em magnificar o Deus da providência todo-
pervasiva. E a beleza e o valor incomparáveis do Cordeiro que foi morto serão a principal canção da
eternidade. E a alegria dos filhos de Deus será o principal eco das excelências infinitas de Deus — e o
foco de seu deleite eterno.

Quando Jesus diz: “o amor com que me amaste esteja neles” (Jo 17.26), ele não quer dizer um tipo de amor que deve superar os obstáculos
do pecado e da culpa, como quando Deus nos ama. Jesus é infinita e perfeitamente digno do amor do Pai, de modo que esse amor é
essencialmente deleite, gozo, aprovação jubilosa. “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17).
PARTE 3 | A NATUREZA E A EXTENSÃO
DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | Montando o palco
15 | Conhecendo a providência do Deus que é

O alvo da Parte 3 deste livro é mostrar, com base na Escritura, não o objetivo da providência, mas sua
natureza e sua extensão. A nova pergunta não é “para onde Deus está levando o mundo?”, mas, sim, “como
ele cuida para que o mundo chegue (providencialmente) lá?”. No entanto, o objetivo da providência
ainda será proeminente, visto que é na direção dele que tudo está se movendo. E a forma como Deus leva
o mundo ao clímax designado esclarece, ao longo do caminho, o significado desse clímax.
Na Parte 2, vimos, com base na Escritura, o alvo supremo da providência. Em todas as obras da
providência, o objetivo supremo de Deus é ser glorificado ao criar uma nova humanidade — uma igreja,
uma noiva de Cristo, um povo de Deus — que, por meio de Jesus Cristo, existe para o louvor da glória de
sua graça (Ef 1.6, 12, 14).
Visto que a valorização jubilosa é a essência de louvar; visto que a graça gratuita é o ápice da glória de
Deus e que Jesus Cristo, morto em favor de pecadores rebeldes, é a manifestação consumada da graça,
também podemos expressar o objetivo supremo da providência como a alegria aperfeiçoada e
irrepreensível do povo de Deus na glória de sua graça, supremamente radiante no sofrimento vitorioso
do Filho de Deus. O alvo da providência é expresso na seguinte exultação prazerosa: “Digno é o
Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”
(Ap 5.12).

POR AMOR A ELE — E A NÓS


O fato de que esse louvor é o objetivo supremo de Deus mostra que todas as obras da providência são
por amor a Deus. “Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto […] A minha glória, não a dou a
outrem” (Is 48.11). “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim” (Is 43.25).
“Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (Sl 23.3).
E o fato de esse louvor ser a conclusão de nossa alegria naquele que mais admiramos mostra que
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todas as obras da providência são também por amor a nós. “Porque todas as coisas existem por amor de
vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para
glória de Deus” (2Co 4.15; cf. 8.9).
Isso não é uma contradição — por amor a ele e por amor a nós. De fato, a manifestação do valor e da
beleza da glória de Deus é o objetivo supremo. Mas Deus constituiu de tal maneira o mundo criado e a
natureza humana que o valor e a beleza de Deus brilham mais claramente num povo que, acima de tudo,
o valoriza alegremente. Ele é o único Ser no universo para quem a autoexaltação é um ato de amor supremo.

IMPLICAÇÕES DO NOME REVELADO POR DEUS MESMO


Esta última sentença e o nome revelado pelo próprio Deus em Êxodo 3.1 moldam a maneira como
idealizei a Parte 3 deste livro. Permita-me explicar como é isso. Como vimos no Capítulo 6, o nome
autorrevelado de Deus em Êxodo 3.14 foi proeminente em explicar o supremo propósito de Deus no
êxodo. “Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU.” Já mencionei dez dimensões dessa autoidentificação
de Deus. Incluídas nessas dimensões, havia estas três:
1. Deus é ser absoluto, realidade absoluta. Nada existia antes dele. Ele nunca teve começo. Deus não
está se tornando. Ele simplesmente é e sempre tem sido. Antes de Deus criar outra realidade, ele já
estava lá — eternamente.
2. Deus é totalmente independente. Ele não depende de nada para trazê-lo à existência, ou para
sustentá-lo, ou para aconselhá-lo, ou para torná-lo o que ele é. Portanto, tudo que não é Deus
depende totalmente dele. Portanto, tudo que não é Deus é secundário e dependente. O universo
inteiro é totalmente secundário. Chegou à existência por obra de Deus e permanece em existência,
a cada momento, por causa da resolução de Deus de mantê-lo em existência.
3. Deus é a realidade mais importante e mais valiosa que existe. Ele é mais digno de interesse,
atenção, admiração e gozo do que quaisquer outras realidades, incluindo o universo inteiro.
Isso nos reconduz à seguinte afirmação: Ele é o único Ser no universo para quem a autoexaltação é um
ato de amor supremo. Deus não decidiu ser um ser que é supremamente valioso, supremamente belo,
supremamente interessante, supremamente admirável, supremamente prazeroso. Ele é quem ele é. Isso
é o que ele é. Deus não cogitou sobre tipos alternativos de ser e, depois, se tornou um desses. Ele não
decidiu ser “o bendito e único Soberano” (1Tm 6.15). Deus não decidiu entre várias opções qual seria a
maior dádiva que ele poderia dar.

A MAIOR DÁDIVA DO AMOR


Nada existe que seja maior, melhor, mais belo ou mais satisfatório do que Deus mesmo. Seria idólatra e
blasfemo Deus contemplar a existência de uma dádiva melhor do que ele mesmo. Se o ser
supremamente amoroso inclui dar o que é supremamente valioso, belo e satisfatório, então o próprio ser
de Deus estabeleceu o alvo de seu amor. O alvo supremo do maior amor seria Deus dar a si mesmo para o
gozo eterno de seus amados. Quando Deus afirma, manifesta, exalta e dá a si mesmo para o gozo dos
amados, ele é supremamente amoroso. Portanto, Deus é o único Ser no universo para quem a autoexaltação
é um ato de amor supremo.
Na verdade, como a supremamente valiosa dádiva de si mesmo seria dada, para que todo o panorama
de seus gloriosos atributos fosse conhecido com a maior clareza possível e desfrutado com a maior
intensidade possível — Deus realmente contemplou essa questão e decidiu “conforme o conselho da sua
vontade” (Ef 1.11). E essa contemplação, arraigada em seu ser justo, sábio e gracioso, conduziu a toda a
história de providência e salvação, por meio de Cristo, que vemos na Escritura.

COMO O SER DE DEUS MOLDA A PARTE 3 DESTE LIVRO


Eu me detenho nas implicações do nome de Deus (“EU SOU O QUE SOU” — Êx 3.14) porque elas
moldam profundamente a maneira como abordo a questão que apresento na Parte 3 deste livro. Eu já
disse que o alvo da Parte 3 é mostrar, com base na Escritura, não o objetivo da providência, mas sua
natureza e sua extensão.
Por extensão, quero dizer: quão ampla ou quão abrangente é a governança ou o controle de Deus
sobre a realidade criada? Estende-se até às galáxias mais distantes? Alcança as partículas subatômicas?
Inclui todos os processos da natureza (como os sistemas climáticos e as mutações de vírus)? Inclui o
movimento de reis e nações e as mínimas escolhas da vontade humana?
Por natureza da providência, quero dizer não tanto a extensão, mas a forma como Deus influencia
tudo que ele governa. Seu controle é sempre exercido da mesma maneira? Se seu controle atinge a
extensão de seu governo sobre as ações pecaminosas dos seres humanos, como ele faz isso de uma
maneira que não o torna pecador? Se seu controle alcança a extensão de governar todos os ventos e
ondas, como ele faz isso de uma maneira que, quando um tsunami mata duzentas mil pessoas, isso é
coerente com sua misericórdia?
Na Escritura, pode haver ou não respostas abrangentes a essas perguntas. Tal questão, neste
momento, não é de meu interesse. Meu interesse é duplo: (1) dizer que a questão apresentada na Parte 3
refere-se à natureza e à extensão da providência; (2) dizer que a realidade de Deus em sua existência
absoluta (“EU SOU O QUE SOU”) e a centralidade dele mesmo na natureza de seu amor (1Pe 3.18)
moldam profundamente minha abordagem desses dois interesses.

ESTANDARTE SUPREMO: DEUS É DEUS; NÓS NÃO SOMOS


Não compartilhamos da existência absoluta de Deus. Não dizemos: “Eu sou o que sou”. Dizemos, com o
apóstolo Paulo, “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Co 15.10). Conhecemos a verdade implícita nestas
perguntas de Paulo: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias,
como se o não tiveras recebido?” (1Co 4.7). Não somos Deus. Somos criaturas. Somos totalmente
dependentes de Deus em relação a tudo.
Dependemos dele quanto ao nosso ser e ao nosso conhecimento — especialmente, quanto ao nosso
conhecimento dele. Nós somos porque ele é. Nós conhecemos porque ele nos revela. Não originamos
nossa própria existência ou nosso conhecimento. Deus é a fonte e o fundamento de ambos. E, visto que
o ser e o revelar absolutos de Deus são essenciais à sua glória e visto que a sua glória é a maior dádiva que
ele poderia dar, somos felizes por ele ser o Deus todo-glorioso e doador e por não sermos, nós mesmos,
Deus.
Essa é a verdade influente que norteia a Parte 3 deste livro. Deus é Deus, e nós não somos. Ele é
totalmente autossuficiente. Nós somos totalmente dependentes. Nosso ser vem dele. Nosso
conhecimento vem dele. Conhecemos a extensão e a natureza da providência até o grau em que a
conhecemos, porque ele a revela a nós, parcialmente, na natureza (Rm 1.19-21), porém mais
completamente, na verdade de forma infalível, em sua palavra, as Escrituras: “Desde aquele tempo não
vo-lo fiz ouvir, não vo-lo anunciei? […] Há outro Deus além de mim?” (Is 44.8). “Eu sou Deus, e não há
outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer […] que digo: o meu
conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.9-10). Deus nos fala sobre a sua
providência. É assim que a conhecemos pelo que ela é.

OBSERVAÇÃO BÍBLICA VERSUS ESPECULAÇÃO FILOSÓFICA


Portanto, a Parte 3 não é uma análise filosófica sobre a extensão e a natureza da providência de Deus. Em
vez disso, é uma tentativa de fixar nossa atenção no que Deus nos falou sobre a providência em sua
palavra. Minha experiência em ler análises da providência de Deus que priorizam questões filosóficas
acima de questões exegéticas é que as pressuposições não bíblicas substituem, silenciam ou destroem
facilmente o que as Escrituras ensinam. E não somente isso; eu tenho a impressão de que nossa mente se
torna facilmente tão emaranhada nas ambiguidades e sutilezas das palavras e categorias filosóficas que
acabamos saindo com menos clareza e menos coragem de arriscar nossa vida por aquele que diz:
“Matarão alguns dentre vós […] Contudo, não se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça” (Lc
21.16-18).

EXEMPLO DE PRESSUPOSIÇÕES
DESPROVIDAS DE BASE BÍBLICA
No que diz respeito a quanto Deus controla e como ele controla, devemos ser instruídos por ele mesmo.
Não ousamos atribuir a ele ou à sua palavra pressuposições que se mostram alheias à sua palavra, ainda
que sejam amplamente aceitas em determinada cultura. Por exemplo, acho que é estranha à Escritura e
desprovida de qualquer base bíblica a pressuposição de que a responsabilidade humana é anulada pelo
controle supremo e decisivo de Deus sobre a vontade humana. Em outras palavras, não penso que
devemos trazer para a Bíblia a pressuposição de que os humanos precisam ter autodeterminação
suprema para agirem de forma responsável e fazerem coisas louváveis ou censuráveis.
Sei que a expressão autodeterminação suprema corre o risco de ser um dos termos filosóficos que
causam confusão e sobre os quais acabei de reclamar. Mas, de fato, não estou tentando esclarecer uma
pressuposição filosófica, mas uma pressuposição cotidiana de uma pessoa comum. Acho que as pessoas
comuns do Ocidente presumem a própria coisa sobre a qual estou advertindo que não devemos
presumir: em relação ao possível controle de Deus sobre as decisões delas, ou o controle delas sobre suas
próprias decisões, é o controle delas, e não o de Deus, que é supremo. Isso é o que muitas pessoas
presumem. Por supremo, quero dizer apenas o controle que decide finalmente o resultado. Isso é o que
quero dizer com pressuposição de autodeterminação suprema.
Meu argumento aqui não é que essa pressuposição (a de que precisamos ter autodeterminação
suprema para agir de forma responsável) seja falsa (embora eu ache que sim). Meu argumento é que não
devemos levá-la ao nosso entendimento da Bíblia como uma pressuposição norteadora. Devemos
esperar e ver se Deus nos diz em sua palavra se esse entendimento de autodeterminação suprema é
verdadeiro.

DEFININDO LIVRE-ARBÍTRIO
Sim, admito que a expressão autodeterminação suprema acaba se enquadrando em uma terminologia
filosófica. Mas meu alvo não é principalmente filosófico; meu algo é prático. Milhões de pessoas comuns
carregam em sua mente a pressuposição culturalmente (não biblicamente) formada de que a
autodeterminação suprema é essencial à sua humanidade moralmente responsável. Na verdade, quase
ninguém usa essa expressão. Em seu lugar, a palavra que usam é livre-arbítrio. Esse termo é visto com
associações e sentimentos tão positivos que quase não é contestado como uma pressuposição aceita.
No entanto, poucos param para defini-lo. E, quando o fazem, começam como um filósofo. Essa é a
razão pela qual os filósofos existem. É algo inevitável. E não estou reclamando da existência deles. Estou
reclamando, como já disse, de priorizar questões filosóficas acima das questões exegéticas e do risco de
ficar emaranhado nas ambiguidades e sutilezas de palavras filosóficas. Tenho essas duas preocupações,
ainda que precise correr esse risco. Não sou contra a filosofia. De fato, desejo que haja mais filósofos
centrados em Deus, exaltadores de Cristo e saturados da Bíblia!
Quando paramos para definir livre-arbítrio, acho que as pessoas querem simplesmente dizer, em
certa medida, algo assim: “Eu faço algo de minha própria e livre vontade, quando minha escolha não é
coagida por alguém, digamos, que coloca uma arma em minha cabeça (ou na cabeça de meu filho)”.
Mas, em um nível mais profundo, se perguntássemos às pessoas quem controla final ou supremamente
suas escolhas, elas responderiam, em geral, acho, algo assim: “Se não tenho o controle final, então não
tenho livre-arbítrio”. E talvez acrescentassem: “E, se eu não tenho livre-arbítrio, não sou responsável. Eu
sou um robô”.
Visto que esse entendimento mais profundo (e quase universal) de livre-arbítrio contém a
pressuposição de autodeterminação suprema (eu tenho o controle final e decisivo no momento em que
prefiro algo e vivo de acordo com isso), é possível ver quão frequentemente essa pressuposição seria
trazida à nossa leitura da Bíblia. Meu argumento é que não devemos fazer isso. Devemos esperar e ver o
que Deus diz sobre sua providência. Devemos esperar e ver se a palavra de Deus nos leva à pressuposição
de que devemos ter a autodeterminação suprema a fim de sermos pessoas responsáveis.

VOCÊ ESTÁ NEGANDO O USO DA LÓGICA?


Se alguém diz: “Espere, isso é simplesmente uma questão de lógica. É como dizer: ‘Dois mais dois são
quatro’. É como dizer: ‘A’ não pode ser ‘não A’ da mesma maneira e ao mesmo tempo’. Você está
dizendo que temos de descartar toda lógica comum quando nos aproximamos da Bíblia?”. Minha
resposta é, em primeiro lugar, não, não temos. As leis normais da lógica estão exibidas claramente na
Bíblia. Mas, em segundo lugar, não, eu não concordo que a afirmação “autodeterminação suprema é
necessária à responsabilidade humana” seja a lógica equivalente da afirmação “Dois mais dois são
quatro”. A relação entre a providência divina e a responsabilidade humana não é uma questão de lógica
dessa maneira. Podemos perceber isso quando observamos quão diferentes as duas afirmações são.
Considere a afirmação “Dois mais dois são quatro”. A resposta à pergunta “O que deve ser
acrescentado a dois para torná-lo em quatro?” está contida na própria pergunta. Isso é o que quatro é.
Por definição, o número quatro corresponde a dois acrescentados a dois. Esse número de asteriscos (****)
é o mesmo que este número de asteriscos (**+**). Mas a relação entre autodeterminação humana
suprema e responsabilidade humana não se dá dessa forma. A definição de uma não está contida na
outra. E a forma como se relacionam não é estabelecida pelas leis da lógica. É estabelecida pelo que Deus
nos diz em sua palavra.

COMO CONHECEREMOS A PROVIDÊNCIA DE DEUS?


É impossível todos os leitores da Bíblia serem filosoficamente sofisticados. Alguns devem ser. Essa é sua
vocação dada por Deus. Mas, para milhões de outros, isso é algo irrealista e indesejável. Somente alguns
tipos de corações e mentes podem transitar com segurança pelas complexidades da filosofia (Cl 2.8).
Como, então, esses milhões de leitores comuns que desejam conhecer a verdade, aceitá-la e viver por ela
chegarão a convicções razoáveis e justificadas sobre a extensão e a natureza da providência de Deus? Por
meio da leitura de toda a Bíblia — de uma leitura humilde, cuidadosa e ampla, em dependência do
Espírito. Ou, se eles não têm acesso a toda a Bíblia, de tanto quanto dispuserem dela.
Há convicções por trás dessa resposta que expliquei e defendi no livro Uma glória peculiar. Elas me 41

levam à posição de que Deus tenciona que os cristãos fiéis e comuns sejam capazes de discernir, em sua
palavra, com confiança, a verdade de sua providência. Ao ler e ouvir regularmente toda a palavra de
Deus, o cristão pode assimilar a realidade da providência de Deus, de modo que ela se torna um tesouro
que satisfaz a alma e expande a adoração, uma energia que fortalece o amor para sustentar os sacrifícios e
um lastro perfeitamente equilibrado na alma para impedir o barco de virar sob as ondas fustigantes da
vida.

“O LUGAR EM QUE ESTÁS É SANTO”


Portanto, a principal função da Parte 3 deste livro é ouvir o que Deus fala sobre sua providência e atrair a
atenção do leitor para isso. Os interesses deste capítulo podem ser resumidos por uma história na vida de
Josué:
Estando Josué ao pé de Jericó, levantou os olhos e olhou; eis que se achava em pé diante dele um homem que trazia na mão uma
espada nua; chegou-se Josué a ele e disse-lhe: És tu dos nossos ou dos nossos adversários? Respondeu ele: Não; sou príncipe do
exército do SENHOR e acabo de chegar. Então, Josué se prostrou com o rosto em terra, e o adorou, e disse-lhe: Que diz meu senhor
ao seu servo? Respondeu o príncipe do exército do SENHOR a Josué: Descalça as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é
santo. E fez Josué assim (Js 5.13-15).

Se eu me aproximo da palavra de Deus e digo: “É para mim ou para meus adversários teológicos?”
Posso esperar ouvir Deus dizer: “Não; sou príncipe”. Em outras palavras, Deus não nos encontra em sua
palavra como um advogado faccioso, mas como um príncipe. Ele não é governado por nossas
pressuposições facciosas. Ele é quem ele é. E revela o que quer revelar. Nosso dever é ouvir, curvar-nos
em adoração confiante e obedecer. Nosso chamado, quando nos aproximamos da palavra de Deus, é
receber o tesouro, a energia e o lastro da realidade da providência. Retiramos as sandálias dos pés —
símbolo de nossa autossuficiência para trilhar as alturas dos mistérios da providência — e dizemos:
“Fala, SENHOR, porque o teu servo ouve” (1Sm 3.9).

PARA ONDE VAMOS A PARTIR DAQUI?


A Parte 3 deste livro tem o alvo de responder à pergunta sobre a natureza e a extensão da providência em
atingir o objetivo supremo descrito na Parte 2. Ou seja, quão extensivamente Deus governa o mundo?
Que tipo de governo ele exerce, por exemplo, sobre a natureza, a vida, a morte e, em especial, sobre as
vontades de Satanás, dos incrédulos e daqueles a quem salva? Esse governo que abrange tudo é
importante para o objetivo supremo de Deus. Esse alvo é ter um povo transformado, centrado em Deus,
exaltador de Cristo, capacitado pelo Espírito, cheio de amor e exultante, um povo que magnifica as
riquezas da graça de Deus em um novo mundo que foi renovado, em perfeita harmonia com esses santos
glorificados. Portanto, a Parte 3 se move em direção à obra da providência em criar esse novo povo e
esse novo mundo.
Mas não segue imediatamente para lá. Ao longo do caminho para nosso foco na criação e na
transformação de um novo povo, focalizamos a terra, a água, o vento, as plantas, os animais, Satanás, os
demônios, os reis, as nações, o nascimento, a vida, a morte e o pecado. A razão para essa abordagem mais
ampla da providência, antes de chegarmos à sua obra mais crucial em salvar, santificar e glorificar a noiva
de Cristo, é tripla.
Em primeiro lugar, essa providência mais ampla permeia a palavra de Deus. E nosso alvo é ver o que
Deus falou sobre sua providência.
Em segundo lugar, este é o mundo, e esses são os poderes pecaminosos, de que o povo de Deus será
salvo. Este mundo e esses poderes — ao nosso redor e, infelizmente, ainda muito arraigados em nós —
são os campos de batalha em que a providência realiza sua obra salvadora, santificadora e glorificadora.
Tudo depende de a providência manter o controle sobre este mundo — o mundo da natureza, das
nações, de Satanás e do pecado. Não somos salvos e tirados imediatamente deste mundo. Somos salvos e
transformados nele e por meio dele. E esses poderes são de tal natureza que não seremos salvos se a
providência de Deus não exercer controle sobre eles. Portanto, ver essa providência na Bíblia é
importante.
Em terceiro lugar, este vasto mundo de terra, água, vento, plantas, animais, Satanás, demônios, reis,
nações, nascimento, vida, morte e pecado é não somente um campo de batalha, mas também um teatro
para a glória da providência de Deus. É aqui que vemos a mão de Deus. E, se a providência de Deus guia
o mais diminuto grão de poeira que flutua no ar, isso será uma ocasião de adoração nesta vida e para
sempre. Como Jonathan Edwards escreveu:
Cada átomo no universo é governado por Cristo, de modo que contribua para o bem do cristão, cada partícula de ar e cada raio
do sol; para que, no outro mundo, quando ele vier para vê-lo, possa sentar-se e desfrutar toda essa vasta herança com alegria
extasiante e admirável.42

Este mundo de natureza e beleza, de pecado e tristeza, é o teatro no qual Deus mesmo entra na
história em Jesus Cristo. É o teatro no qual experimentamos os triunfos de nossa própria salvação. Saber
se e como a providência de Deus exerce controle neste mundo — o mundo inteiro — é mais importante
para nossa perseverança do que muitos cristãos imaginam.
Portanto, a fim de nos dar coragem e competência para a batalha, bem como olhos para esse teatro,
voltemo-nos agora para a natureza e a extensão da providência de Deus.

Veja o Capítulo 3 e os discernimentos de C. S. Lewis a respeito de como o louvor não somente expressa a alegria de admiração, como
também a completa.

John Piper, A Peculiar Glory: How the Christian Scriptures Reveal Their Complete Truthfulness (Wheaton, IL: Crossway, 2016) [edição em
português: Uma glória peculiar (São José dos Campos: Fiel, 2019).

Jonathan Edwards, The “Miscellanies”: (Entry Nos. A-z, Aa-zz, 1-500), ed. Thomas A. Schafer e Harry S. Stout, vol. 13, The Works of Jonathan
Edwards (New Haven, CT: Yale University Press, 2002), 184.
Seção 2 | A providência sobre a natureza
16 | A perda e a recuperação do teatro de maravilhas

O quadro apresentado na Bíblia, do início ao fim, não é um quadro de Deus criando o mundo natural
para seguir seu curso sozinho, enquanto Deus se mantém a distância. O que encontramos, no lugar
disso, é um quadro de Deus criando, sustentando, possuindo e governando o mundo da natureza. Sua
providência não é, por assim dizer, por procuração, mas presente e pessoal — o tipo de proximidade que
fez os escritores bíblicos dizerem coisas como: Deus “faz brotar nos montes a erva” (Sl 147.8), “Deus
[…] enviou um verme, o qual feriu a planta” (Jn 4.7) e “faz sair o vento dos seus reservatórios” (Sl
135.7). Este capítulo é a respeito da atenção íntima — o envolvimento pervasivo — da providência de
Deus na natureza para torná-la um teatro de maravilhas.

OBRA PRESENTE DO CRIADOR


A ciência moderna nos tem deixado mais conhecedores dos padrões de casualidade e regularidade na
natureza, o que temos chamado de “leis da natureza”. Mas o quadro na Bíblia revela a relação
permanente de Deus com a natureza de tal maneira que pode ser chamado de um Criador contínuo e de
tal maneira que nenhum processo ou evento natural é tão irrelevante que esteja fora de sua providência
intencional e generalizada.
Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. Eis o mar vasto,
imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. Por ele transitam os navios e o monstro marinho que
formaste para nele folgar. Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão,
eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu
Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra. A glória do SENHOR seja para sempre! Exulte o SENHOR por suas obras!
(Sl 104.24-31).

A terra e o mar estão cheios de criaturas que Deus fez (Sl 104.24-25). Esse “fazer” não aconteceu
somente no começo do mundo (Gn 1.25). Pelo contrário, sempre que um animal chega à existência,
Deus está ativo nessa criação: “Envias o teu Espírito, eles são criados” (Sl 104.30), o que pode significar
ou que o Espírito Santo de Deus está ativo na criação de cada animal, ou que, mais metaforicamente, o
fôlego de vida de Deus dá vida ao animal. Aqui, a verdade é essencialmente a mesma em ambos os casos.
E, ainda que a maioria dos seres que “se movem” no mar não tenha fôlego, a verdade permanece a
mesma: o salmista quer que atribuamos o surgimento sempre recorrente da vida animal à obra de
criação contínua de Deus.

A OBRA SUSTENTADORA DO CRIADOR


Deus não somente é ativo em dar vida a todos os animais (e tirá-la — Sl 104.29), como também está
envolvido nos processos pelos quais eles são mantidos vivos:
Tu fazes rebentar fontes no vale, cujas águas correm entre os montes; dão de beber a todos os animais do campo; os jumentos
selvagens matam a sua sede. Junto delas têm as aves do céu o seu pouso e, por entre a ramagem, desferem o seu canto. Do alto de
tua morada, regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais e as plantas, para o
serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão (Sl 104.10-14).

Deus faz essa provisão para suas criaturas com tanto cuidado e intencionalidade que o salmista fala
realmente de Deus alimentá-los, como Jesus o faz quando diz sobre as aves: “Vosso Pai celeste as
sustenta” (Mt 6.26):
Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se
ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó (Sl 104.27-29).

O salmista não perdeu de vista o fato de que houve um começo, um momento no qual Deus criou os
céus e a terra (Gn 1.1):
Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão,
para que não tornem a cobrir a terra (Sl 104.8-9).

No entanto, o foco desse salmo está na maravilhosa prontidão da sabedoria de Deus. “Fazes crescer a
relva” (Sl 104.14). E, como diz o Salmo 147.8-9:
[Deus] cobre de nuvens os céus, prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva e dá o alimento aos animais e aos filhos
dos corvos, quando clamam.

Os salmistas não querem que pensemos ou falemos como os naturalistas modernos, os quais pensam
no mundo natural como formado e sustentado por processos físicos irracionais. Ou em relação às
nuvens, ou aos olhos e ouvidos dos homens, a providência de Deus é muito próxima e poderosa em sua
criação e em sua sustentação contínuas. “O ouvido que ouve e o olho que vê, o SENHOR os fez, tanto um
como o outro” (Pv 20.12). Todos os bilhões de olhos e ouvidos neste planeta foram feitos por Deus —
não apenas planejados no começo do mundo, mas feitos no ventre. “Pois tu formaste o meu interior, tu
me teceste no seio de minha mãe” (Sl 139.13). O ponto de vista bíblico sobre o mundo é o de que a
grama, a chuva, as fontes de água, os ouvidos e os olhos são obra das mãos de Deus, quando, então,
chegam à existência e cumprem sua obra designada por Deus.

UM TEATRO DE MARAVILHAS PERDIDO


E O PROPÓSITO DA PROVIDÊNCIA
Um fato trágico do mundo moderno é que a maioria das pessoas contemporâneas cientificamente
inclinadas acredita que é mais verdadeiro e mais importante falar das tecnicalidades da fotossíntese do
que dizer: “Deus faz a grama crescer”. Isso não é uma simples afirmação para crianças. É uma afirmação
— uma realidade — desesperadamente necessitada pelo homem moderno, um homem de alma
atrofiada cujo mundo foi reduzido de um teatro de maravilhas a uma máquina que funciona de forma
irracional, segundo leis mecânicas.
Sem dúvida, um cristão centrado em Deus pode seguir alegremente seu trabalho científico e colocar
nomes técnicos nos caminhos de Deus. Mas ai de nós se seguirmos o espírito secular da época com o
propósito de termos uma mentalidade na qual Deus está fora de vista, fora da mente e fora de nossa
conversa cotidiana sobre as maravilhas do crescimento da grama.
A principal razão pela qual é trágico perder de vista a íntima e onipresente providência de Deus no
mundo natural é que isso significa perder de vista os propósitos dessa providência que Deus tenciona
que vejamos. O escritor do Salmo 104 é maravilhosamente claro sobre seus propósitos ao meditar acerca
do mundo criado de Deus. E esses propósitos são os mesmos que ressoam em toda a Escritura como as
grandes finalidades de Deus em criar, sustentar, possuir e governar o mundo natural.

A ALEGRIA DE DEUS NA GRANDEZA DE SUA OBRA


Em primeiro lugar, é propósito de Deus transbordar maravilhas gloriosas e reveladoras de Deus por
amor ao seu próprio regozijo. O salmista também afirma a alegria de Deus nas obras de suas próprias
mãos:
A glória do SENHOR seja para sempre! Exulte o SENHOR por suas obras! (Sl 104.31)

Aqui, suponho que o salmista não está em desarmonia com a realidade ao expressar seu desejo de
que o Senhor se regozije em suas obras. Ele não está desejando algo que Deus reluta em fazer. Não está
orando que Deus cometa idolatria ao exultar na criação e não somente em si mesmo. Não, o salmista
está se unindo a Deus para afirmar o que ele sabe com base em seu próprio discernimento dado por
Deus: isso é o que Deus realmente faz, ou seja, ele se regozija nas obras de suas mãos.
Se, em cada momento de sua criação, Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1.4, 10, 12, 18, 21, 25),
seria muito estranho se ele ficasse desapontado, em vez de se regozijar. E seria duplamente estranho se,
no momento da criação, todos os anjos exultassem de alegria e Deus não compartilhasse a alegria deles.
Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento […] quem lhe assentou a pedra
angular, quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus [anjos]? (Jó 38.4, 6-7)

Em outras palavras, um dos propósitos de Deus em criar o mundo natural foi o gozo que teria nele. O
fato de que Deus se regozija nas obras de suas mãos oferece uma explicação parcial às incontáveis glórias
do universo natural que nenhum ser humano jamais vê e nenhum anjo compreende totalmente. Deus fez
o Leviatã para “brincar” no mar: “Eis o mar vasto, imenso […] e o Leviatã que formaste para nele brincar”
(Sl 104.25-26, NAA). Há milhões dessas maravilhas lúdicas que nenhum humano jamais vê:
Olhe para o monstro Beemote, que eu criei […] O capim que o alimenta cresce nas montanhas, onde as feras se divertem. (Jó
40.15, 20, NTLH).

Todo esse brincar totalmente fascinante enche a criação não vista pelos humanos. Mas não há
desperdício. Os anjos assimilam um pouco dela. Um dia, também assimilaremos mais dela. Mas Deus a
assimila completamente e se regozija em toda ela. É parte da glória de Deus não perder nada da criação e
valorizá-la de acordo com sua verdadeira natureza como uma revelação dele mesmo.

A ALEGRIA DE DEUS NA CRIAÇÃO É ALEGRIA


EM SUA PRÓPRIA GLÓRIA
A alegria de Deus no mundo natural (como seu regozijo em seu povo redimido — Is 62.5; Jr 32.41; Sf
3.17) não é uma alegria acrescentada à alegria que ele já tem em sua própria glória todo-satisfatória.
Observe como o salmista fala da alegria de Deus em suas obras:
A glória do SENHOR seja para sempre! Exulte o SENHOR por suas obras! (Sl 104.31)

O salmista sabia que seria blasfemo sugerir que Deus precisava da criação para ser glorioso ou ser feliz
— como uma criança frustrada que precisa de um brinquedo para brincar. Não. A alegria de Deus na
criação é a plenitude de sua alegria na glória de seu próprio poder, de sua sabedoria e de sua bondade
que se expressam na criação. Isso se torna mais claro ainda quando avançamos para o segundo propósito
de Deus em criar, sustentar, possuir e governar o mundo natural.

PROPÓSITO ETERNO E FELIZ DO TEATRO DE MARAVILHAS


O segundo propósito (que podemos ver com clareza no Salmo 104) é Deus manifestar sua glória para o
gozo de seu povo — um gozo que atinge a consumação no louvor a Deus, cuja bondade transborda com
essas manifestações dele mesmo. Deus criou o mundo natural como um teatro para sua glória e uma
habitação prazerosa para seu povo contemplador, que, por toda a eternidade, viverá em corpos
glorificados, em um mundo glorificado profundamente agradável.
Quando Jesus voltar para estabelecer seu reino eterno, ele “transformará o nosso corpo de
humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até
subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.21). Naquele tempo, “a própria criação será redimida do cativeiro
da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21).
É verdade que Paulo disse sobre nosso corpo de ressurreição: “Semeia-se corpo natural, ressuscita
corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1Co 15.44). E ele disse: “Isto afirmo,
irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a
incorrupção” (1Co 15.50). Mas a ênfase de Paulo não é que nos tornaremos seres incorpóreos, mas,
antes, que nosso corpo natural, criado, físico passará por uma mudança profunda que o adequará a um
mundo glorificado e radicalmente novo, mas ainda será vida espiritual num corpo. Carne e sangue
perecíveis serão adequados a esse mundo e a essa vida.
Ao descrever a ressurreição final, Paulo chama a transformação de nosso corpo um vestir, e não um
despir. O pensamento de uma alma sem corpo era inverídico e indesejável: “Pois, na verdade, os que
estamos neste tabernáculo [caído, corpo natural] gememos angustiados, não por querermos ser
despidos [sem qualquer corpo], mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (2Co 5.4).
O fato não é que Paulo queria livrar-se do corpo; em vez disso, ele queria vestir-se de um novo tipo de
corpo, adequado à vida imortal.
Esse também foi seu ensinamento em 1 Coríntios 15.53: “Porque é necessário que este corpo
corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade”. Vestir, não
despir. Em outras palavras, na nova terra não ficaremos “despidos” — sem nenhum corpo. Não seremos
espíritos sem corpos. Haverá um mundo criado de matéria física glorificada no qual habitaremos com
corpos físicos glorificados, iguais “ao corpo da sua glória” (o corpo de glória de Jesus — Fp 3.21).
Esse novo mundo e o mundo no qual vivemos, ambos destinam-se a ser teatros para a glória de Deus
e habitações prazerosas para os filhos de Deus, embora o mundo presente, com seu estado de queda,
futilidade e corrupção (Rm 8.20-22), torne-nos “contristados por várias provações” (1Pe 1.6). Alegria e
tristeza sempre se fundem neste mundo caído, que é radiante de maravilhas reveladoras da glória de
Deus e arruinado por males que destroem o corpo e ameaçam a alma. Portanto, a atitude dos cristãos,
como disse Paulo, é “entristecidos, mas sempre alegres” (2Co 6.10). Nós “gememos em nosso íntimo,
aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). Entretanto, mesclada com nosso
gemer, está a alegria, porque sabemos que não há condenação para aqueles que estão em Cristo (Rm
8.1), que o aguilhão da morte será removido (1Co 15.55) e que nossas aflições estão nos preparando
para um “eterno peso de glória” (2Co 4.17); por isso, “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”
(Rm 5.2).
Mas essas não são as únicas razões pelas quais nos regozijamos. Todo suspiro, todo som, toda
fragrância, toda textura e todo deleite neste mundo que não são pecados apontam para algo da glória de
Deus que Cristo morreu para obter em favor de pecadores como nós. Esse “algo” é aquilo a que me referi
antes quando disse que a bondade de Deus transborda na criação com “manifestações dele mesmo”. As
glórias reveladoras de Deus do mundo natural e sua perfeição redimida e futura não são separadas da
“glória da sua herança” (Ef 1.18), que Cristo morreu para assegurar ao seu povo. Este é o ensino de
Romanos 8.21: “A própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos
filhos de Deus” (Rm 1.20-21). Mas agora mesmo há prelibações — antegozos gloriosos manifestados no
palco do teatro da glória de Deus para a alegria de seu povo.

NOSSA ALEGRIA NA CRIAÇÃO É ALEGRIA NO SENHOR


Agora, volte comigo ao Salmo 104, sobre o qual eu disse que podemos ver com clareza o propósito de
Deus de fazer do mundo um teatro para sua glória e para o gozo de seu povo:
Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas (Sl 104.24).

A glória do SENHOR seja para sempre […] Cantarei ao SENHOR enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a
minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no SENHOR (Sl 104.31, 33-34).

O salmista chama esse salmo de “meditação” (ou louvor meditativo: “Seja-lhe agradável a minha
meditação”). Ele esteve meditando sobre o mundo que Deus criou, sustenta e governa. O mundo da
providência. O que ele viu o levou a exultar na sabedoria incomparável de Deus, nas incontáveis
maravilhas naturais que Deus cria e controla. “Todas com sabedoria as fizeste.” A glória dessa sabedoria
e sua execução em poder e bondade levaram o salmista a cantar, louvar e se alegrar no Senhor.
É importante notar isto: o salmista se alegra “no SENHOR” (104.34). Sim, ele se regozija nas obras do
Senhor (como Deus mesmo o faz — 104.31). Não fazer isso seria um pecado de ingratidão. Essas são
dádivas e bênçãos. Mas, quando tudo é dito e feito, e o salmista espera que sua meditação seja agradável
a Deus, a base de sua esperança é esta: “Eu me alegrarei no SENHOR” — não finalmente, nem
completamente em suas obras, mas no próprio Senhor. A criação existe para isso.
Toda a criação — nos céus, acima, ou na terra, embaixo — destina-se a revelar a glória de Deus. A
glória de Deus, incluindo seu poder, sua natureza divina, seu entendimento, sua bondade — tudo isso e
ainda mais —, é colocada em exibição no teatro da glória de Deus, que chamamos de mundo natural:
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos (Sl 19.1).
Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis (Rm
1.20).

Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode
esquadrinhar o seu entendimento (Is 40.28).

O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras (Sl 145.9).

TODA A GLÓRIA NA CRIAÇÃO É A GLÓRIA DE CRISTO


O apóstolo Paulo deixa claro que todo aspecto dessa revelação da glória de Deus é, de fato, para a glória
de Cristo. “Tudo foi criado por meio dele [Cristo] e para ele [Cristo]” (Cl 1.16). De fato, “Nele tudo
subsiste” (Cl 1.17). Ele sustenta “todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). Tudo que Deus
revela de si mesmo na natureza é revelado para a glória de Cristo e para nosso desfrute de sua grandeza.
Mas nenhum pecador cego (2Co 4.4) e morto (Ef 2.5) veria e provaria a glória de Cristo na criação
sem a obra da nova aliança de Cristo que vimos no Capítulo 12 — a aquisição de Cristo, em sua morte e
ressurreição, que cobre o pecado, absorve a ira e remove a cegueira. Portanto, toda boa dádiva neste
mundo e no porvir (inclusive as inúmeras maravilhas que gozamos na natureza) foi comprada por Cristo
para nós ao custo de sua vida. Portanto, toda visão, todo som, toda fragrância, toda textura e todo sabor
não pecaminoso neste mundo têm o propósito de intensificar nossa admiração e nosso amor por Jesus
(como criador, sustentador, mantenedor e redentor) e nos levar a gloriar-nos “na cruz de nosso Senhor
Jesus Cristo” (Gl 6.14). O teatro de maravilhas que chamamos mundo natural é por Cristo e para Cristo.
PRECISAMOS DE UMA ABORDAGEM MAIS DETALHADA
No que diz respeito ao governo de Deus sobre o mundo natural, este capítulo pode ser visto como uma
espécie de introdução e resumo do envolvimento de Deus e de seu propósito em tornar o mundo natural
um teatro de maravilhas. Mas isso não é extensivo nem detalhado o suficiente para mostrar o que desejo
que vejamos nas Escrituras, ou seja, quão generalizada e quão exaustiva é a providência de Deus em
governar cada aspecto do mundo natural. Para isso, seguimos uma abordagem mais detalhada no
Capítulo 17.
17 | Terra, água, vento, plantas e animais

No Capítulo 16, inferimos uma governança divina extensiva e detalhada de todos os processos naturais,
principalmente com base em alguns versículos do Salmo 104: “Fazes crescer a relva” (v. 14); “Tu fazes
rebentar fontes no vale” (v. 10); “Se lhes [tuas criaturas] cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó”
(v. 29). Mas o testemunho bíblico da providência de Deus sobre o mundo natural é muito mais vasto e
específico. Aborda os maiores e os menores eventos da natureza, e mostra o cuidado pessoal de Deus em
dirigir cada aspecto desse mundo natural.

TRÊS RAZÕES PELAS QUAIS PRECISAMOS


DE UMA ABORDAGEM MAIS DETALHADA
Há pelo menos três razões por que precisamos dessa abordagem mais detalhada quanto à extensão e ao
cuidado diligente da providência de Deus em cada parte da natureza.
Em primeiro lugar, porque é o mundo natural que ameaça nos prejudicar mais constantemente do
que qualquer perigo de acidente humano, assalto ou guerra. Perigos procedentes de outras pessoas são
reais e podem prevalecer durante algum tempo e em alguns lugares. Mas os perigos de ataque cardíaco,
AVC, câncer, pneumonia, diabetes, malária e vírus estão sempre presentes, não importando quão
pacíficos sejam nossos relacionamentos com outras pessoas — sem mencionar os desastres naturais
perigosos (como furacões, terremotos e inundações) e inúmeras possibilidades de acidentes bizarros.
Precisamos conhecer as medidas da providência de Deus sobre as partes da realidade que mais ameaçam
nossas vidas.
Em segundo lugar, a fim de que tenhamos uma convicção profunda, inabalável e estabilizadora a
respeito da providência de Deus sobre o mundo natural, precisamos levar em conta a amplitude e a
especificidade da descrição bíblica do macrogoverno e do microgoverno de Deus sobre a natureza.
A terceira razão para uma abordagem mais detalhada e atenta da providência sobre o mundo natural
é que, se não virmos na Escritura o cuidado pessoal do governo de Deus sobre o mundo natural, não
veremos seus propósitos nesse governo. Alguém pode ter um propósito para uma pedra, como, por
exemplo, matar Golias. Mas, se alguém não tem controle sobre a pedra, o propósito se torna uma
esperança, e não uma certeza. Meu argumento neste capítulo é que, embora Davi, por um lado, com sua
funda, pudesse ter apenas esperado que sua pedra derrubasse Golias, porque seu controle não era
completo, Deus, por outro lado, tem mais do que esperança para seus propósitos no mundo natural,
porque seu controle é completo. Portanto, nossa confiança nos propósitos da providência de Deus na
natureza pode ser total.

PROVIDÊNCIA SOBRE A TERRA


Embora Deus crie as estrelas (Is 40.26), coloque cada uma em seu devido lugar (Sl 8.3) e dê a cada uma
o seu nome (Sl 147.4), a fim de chamá-las para fazerem sua vontade (Is 40.26), é da terra e de seus
habitantes que Deus cuida com uma proximidade incomum.
“Eu fiz a terra”, diz o Senhor (Is 45.12; cf. Jó 38.4). Portanto, Deus possui a terra. Ela lhe pertence
para ele fazer como lhe apraz. “Ao SENHOR pertencem a terra e tudo o que nela se contém” (Sl 24.1).
“Eis que os céus […] são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo que nela há” (Dt 10.14); cf. Sl 89.11). Ou,
como o próprio Senhor diz, “Toda a terra é minha” (Êx 19.5). “O mundo é meu e quanto nele se
contém” (Sl 50.12). Portanto, a terra existe para servir aos propósitos de seu criador e possuidor, e Deus
a governa com essa finalidade em vista.
Ele faz a terra cumprir sua vontade. Remove montanhas, abala a terra e abre-a com terremotos à sua
vontade:
Ele é quem remove os montes, sem que saibam que ele na sua ira os transtorna; quem move a terra para fora do seu lugar, cujas
colunas estremecem (Jo 5.6).

Com um só olhar para a terra, ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam (Sl 104.32).

Abalaste a terra, fendeste-a; repara-lhe as brechas, pois ela ameaça ruir (Sl 60.2).

Uma ocasião em que vemos Deus se mover dos processos normais de governar a terra para um ato
extraordinário de controle é quando Corá, Datã e Abirão se rebelam contra Moisés. Deus os sentencia à
morte, bem como suas famílias. E tira suas vidas ao fazer a terra abrir-se e engoli-los:
[Moisés disse:] Mas, se o SENHOR criar alguma coisa inaudita, e a terra abrir a sua boca e os tragar com tudo o que é seu, e vivos
descerem ao abismo, então, conhecereis que estes homens desprezaram o SENHOR. E aconteceu que, acabando ele de falar todas
estas palavras, a terra debaixo deles se fendeu, abriu a sua boca e os tragou (Nm 16.30-32; cf. Dt 11.6).

Com base no fato de que Deus criou a terra para seus propósitos, com base em sua possessão
absoluta da terra e de tudo que ela contém, em sua moldagem contínua da estrutura da terra (quando os
montes são removidos — Jó 9.5) e em seu fazê-la tremer e abrir-se, podemos concluir que, não
importando quais sejam os processos naturais que aconteçam na terra, Deus está agindo neles para
realizar seus propósitos. Ainda não estou abordando o que Satanás e os homens podem fazer com a
terra. Isso virá depois, no Capítulo 18.
Estou simplesmente concluindo que todos os processos naturais, como, por exemplo, os terremotos,
estão no controle de Deus, porque, se Deus os causa (como já vimos que o faz), também pode fazê-los
cessar. A terra não é autônoma. Não tem vontade própria. Seus processos não ocorrem 43

independentemente de seu criador, possuidor e governante. Deus é “Senhor do céu e da terra” (At
17.24). Ele “move a terra para fora do seu lugar” (Jó 9.6). Ou não. A terra se abala ou permanece firme
ante a direção daquele que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Deus é
aquele sobre quem Jó disse, no fim de suas aflições: “Nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó
42.1). Ele é aquele que diz: “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10).
“Ao teu dispor estão todas as coisas” (Sl 119.91). Portanto, se um terremoto destrói uma cidade, isso foi
do Senhor. Porque o Senhor disse: “Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?”
(Am 3.6). E espera a resposta não. Se o desastre vem, é porque o Senhor o fez.
PROVIDÊNCIA SOBRE A ÁGUA
No que se refere ao impacto sobre a vida humana, há uma íntima conexão entre a terra e a água. Um
terremoto pode destruir um dique, mas é a água violenta seguindo curso abaixo que destrói um vilarejo.
Um terremoto pode acontecer no fundo do oceano Índico, mas foi o tsunami de 26 de dezembro de
2004 que tirou a vida de mais de 200 mil pessoas. O que a Bíblia diz a respeito do controle que Deus
exerce sobre a água — inundações, mares, rios, ondas, chuva, granizo, neve, gelo, orvalho?
Não há razão alguma para pensarmos que Jesus, de seu trono no céu, agora não possa dar ordens às
ondas, da maneira como fez quando esteve aqui. “Jesus repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo
cessou, e veio a bonança” (Lc 8.24). Com base nisso, os discípulos inferiram corretamente: “Até os
ventos e o mar lhe obedecem” (Mt 8.27). Isso ainda é verdadeiro hoje: os mares obedecem a Jesus. Eles
não se movem sem a instrução do Senhor, quer por comando, quer por sua permissão sabiamente
planejada. Com uma simples repreensão, o Senhor Jesus pode fazer todas as ondas furiosas se
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aquietarem. Ele pode parar tsunamis. Se não o faz, ficamos calados e confiamos na justiça, na bondade e
na sabedoria do plano de Deus. “Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas
vezes, porém não prosseguirei” (Jó 40.4-5).

MARES E RIOS SE DIVIDEM, SUSTENTAM


E CONGELAM DIANTE DE SUAS ORDENS
Os mares não somente obedecem à ordem de Deus para se aquietar; também obedecem à sua ordem
para se dividir. “Repreendeu o mar Vermelho, e ele secou; e fê-los passar pelos abismos, como por um
deserto” (Sl 106.9). “Dividiste o mar perante eles [os israelitas], de maneira que o atravessaram em seco”
(Ne 9.11). Depois, quando o atravessaram em segurança, “o SENHOR fez tornar sobre eles [os egípcios]
as águas do mar” (Êx 15.19; veja também Dt 11.4; Js 24.7).
O mar também obedeceu à ordem de Cristo para sustentá-lo quando andou sobre ele. “Na quarta
vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar” (Mt 14.25). Isso não aconteceu porque
o mar estava congelado! Pedro afundou na mesma água sobre a qual Jesus caminhou (Mt 14.30). Mas é
verdade que Deus faz a água congelar com seu sopro: “Pelo sopro de Deus se dá a geada, e as largas águas
se congelam” (Jó 37.10). “Por chuva deu-lhes saraiva” (Sl 105.32).
Dá a neve como lã e espalha a geada como cinza. Ele arroja o seu gelo em migalhas; quem resiste ao seu frio? (Sl 147.16-17)

A água também obedece à ordem de Deus para fluir onde não há nenhum ribeiro (2Rs 3.17, 20),
tornar-se em sangue (Sl 105.29), jorrar de uma rocha (Nm 20.8; Sl 105.41; 114.17), fazer a cabeça de
um machado flutuar (2Rs 6.6-7) e parar de ser venenosa (2Rs 4.41).

DEUS GOVERNA A CHUVA, A SECA E A FOME


E o que é mais importante, a água obedece à ordem de Deus para cair como chuva e produzir colheitas,
bem como para não cair e trazer seca e fome. Deus ordena tanto uma coisa como outra. “Fiz chover
sobre uma cidade e sobre a outra, não; um campo teve chuva, mas o outro, que ficou sem chuva, se
secou” (Am 4.7). Chuvas importantes para sustentar a vida são enviadas por Deus. “O SENHOR te abrirá
o seu bom tesouro, o céu, para dar chuva à tua terra no seu tempo e para abençoar toda obra das tuas
mãos” (Dt 28.12). “Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt
5.45; cf. At 14.17). E a seca e a fome procedem do Senhor. “Se eu cerrar os céus de modo que não haja
chuva […]” (2Cr 7.13). “Às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela” (Is 5.6). “Fiz vir a
seca sobre a terra” (Ag 1.11; cf. Dt 28.22).
Eliú disse a Jó que todas as aparentemente aleatórias mudanças das nuvens, dando e retendo a chuva,
são, de fato, por orientação de Deus e completamente intencionais. Realizam as suas ordens. Expressam
disciplina e amor por suas criaturas.
Também de umidade carrega as densas nuvens, nuvens que espargem os relâmpagos. Então, elas, segundo o rumo que ele dá, se
espalham para uma e outra direção, para fazerem tudo o que lhes ordena sobre a redondeza da terra. E tudo isso faz ele vir para
disciplina, se convém à terra, ou para exercer a sua misericórdia (Jó 37.11-13).

A providência de Deus na chuva não é aleatória, como também não é qualquer outra ação de água
em qualquer lugar do mundo. A Bíblia nos direciona a uma cosmovisão em que nenhum elemento ou
evento natural existe ou opera de forma aleatória ou somente segundo as chamadas leis da natureza. A
cosmovisão bíblica é centrada em Deus. Na natureza, nada acontece sem a providência sábia, justa e
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graciosa de Deus. Nada está fora do interesse e da orientação de Deus. De fato, os caminhos dele são,
para nós, frequentemente inescrutáveis (Rm 11.33). Mas o quadro bíblico do mundo natural é radiante
com a realidade de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente” (Rm 11.36).

PROVIDÊNCIA SOBRE O VENTO


Lembro-me de uma viagem de pescaria em alto-mar no litoral da Flórida, com meu pai, quando eu era
menino. Estávamos praticando pesca esportiva. Quando nuvens escuras se ajuntaram sobre nosso barco,
que não podia ser visualizado da terra, e começou a chover, perguntei ao capitão se era perigoso para
nós. Ele disse: “A chuva não é problema; o barco é projetado para a água escoar do deque”. Então, o
homem acrescentou: “O vento é o que é perigoso”. Sem dúvida, o vento forma as ondas.
De fato, quando Jesus removeu o perigo de as ondas violentas ameaçarem os discípulos no mar da
Galileia, foi ao vento que ele deu ordens. Como já vimos, ele governa as águas. Mas uma das maneiras
como ele governa as águas é governando os ventos:
E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que
até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mt 8.26-27).

ELE LEVANTA OS VENTOS TEMPESTUOSOS E OS AQUIETA


Deus governa os ventos, que lhe obedecem. Quando quis cobrir a terra do Egito com gafanhotos, “o
SENHOR trouxe sobre a terra um vento oriental todo aquele dia e toda aquela noite; quando amanheceu,
o vento oriental tinha trazido os gafanhotos” (Êx 10.13). E, quando seus propósitos se realizaram, “o
SENHOR fez soprar fortíssimo vento ocidental, o qual levantou os gafanhotos e os lançou no mar
Vermelho” (Êx 10.19). E, quando terminou de elevar e dividir as águas do mar para que seu povo
passasse em terra seca, ele ordenou que o vento terminasse seu julgamento sobre o exército de Faraó:
“Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram-se como chumbo em águas impetuosas” (Êx
15.10).
Ventos tempestuosos são ameaças mortais para aqueles que saem para o mar em navios. E o cessar
dessas tempestades é agradável. O Senhor ordena ambos:
Os que, tomando navios, descem aos mares, os que fazem tráfico na imensidade das águas, esses veem as obras do SENHOR e as
suas maravilhas nas profundezas do abismo. Pois ele falou e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar […]
Então, na sua angústia, clamaram ao SENHOR, e ele os livrou das suas tribulações. Fez cessar a tormenta, e as ondas se acalmaram
(Sl 107.23-25, 28-29).

Nuvens, relâmpagos, toda rajada de vento — esses são guardados pelo Senhor, por assim dizer, em
reservatórios, e trazidos para fora quando ele considera conveniente aos seus propósitos:
Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos. Faz subir as nuvens dos confins da
terra, faz os relâmpagos para a chuva, faz sair o vento dos seus reservatórios (Sl 135.6-7).

E, quando os retira de seus reservatórios, o Senhor lhes dá ordens, e cumprem cada palavra dele.
Louvai ao SENHOR da terra, monstros marinhos e abismos todos; fogo e saraiva, neve e vapor e ventos procelosos que lhe
executam a palavra (Sl 148.7-8).

MILHARES DE PROVIDÊNCIAS
NÃO AGRADECIDAS — DIARIAMENTE
Não posso deixar de parar aqui e fazer uma observação sobre a maneira como o mundo responde à
providência de Deus. Se há uma tempestade no mar e um navio afunda, ou se condições climáticas
perigosas derrubam um avião comercial, e vidas se perdem, com muita frequência há uma espécie de
clamor — tanto publicamente como na tristeza pessoal de membros de famílias — sobre o fracasso de
Deus em impedir o desastre (“Onde estava Deus?”). Uma tristeza profunda é real, dolorosa e
compreensível por parte de todos os que experimentam perdas nesses desastres. E, com muita
frequência, até os santos mais maduros pronunciam palavras imprudentes (Jo 6.26). Porém,
conselheiros sábios deixam-nas passar sem julgamento nos momentos de crise.
Mas onde está a intensidade emocional correspondente ou mesmo o reconhecimento moderado da
providência de Deus quando 100 mil aviões aterrissam em segurança todos os dias? Essa é
aproximadamente a quantidade de voos programados que existem todos os dias no mundo. E isso não
inclui a aviação de forma geral, os táxis aéreos, os aviões militares e os cargueiros. Onde está o coro
incessante de admiração e agradecimento pelo fato de que hoje Deus providenciou dez milhões de
fatores mecânicos, naturais e pessoais que cooperam perfeitamente para manter esses aviões no ar e levá-
los em segurança ao destino desejado — e a maioria levando pessoas que negligenciam e menosprezam
a Deus?
Quando um avião sem os motores funcionando aterrissa no rio Hudson, e cada passageiro sai pelas
asas flutuantes desse avião de oitenta toneladas, ou quando um avião com 97 passageiros cai no México e
explode em chamas depois que cada passageiro e toda a tripulação estão em segurança fora do avião,
onde está a efusão pública de gratidão ao Deus das maravilhas? Onde está o clamor sincero de gratidão a
Deus que ouvimos em Salmos 107.31 pelo resgate no mar?
Rendam graças ao SENHOR por sua bondade e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!

O mundo e até milhares de cristãos não tributam louvor e ações de graças a Deus por milhões de
providências diárias e sustentadoras da vida, pois não veem o mundo como o teatro das maravilhas de
Deus. Veem-no como uma máquina enorme que funciona segundo leis naturais irracionais, exceto
quando a rebeldia e a autoexaltação de nossos corações veem uma oportunidade adequada para
encontrar falhas em Deus e justificar nossa cegueira em relação a bilhões de atos de bondade para com
sua criação desafiadora. Um dos meus objetivos em escrever este livro é ajudar-nos a ver o mundo de
outra maneira.

A PROVIDÊNCIA SOBRE AS PLANTAS


Deus não somente governa os elementos inanimados da natureza, como a terra, a água e o vento (sem
mencionar o fogo), como também comanda as plantas, e elas obedecem a ele. “Então, fez o SENHOR
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Deus nascer uma planta, que subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra sobre a sua cabeça, a fim
de o livrar do seu desconforto” (Jn 4.6). Porém, muito mais importante do que essa intervenção
extraordinária no caso de Jonas, é a obra constante de Deus em sustentar milhões de pessoas por
produzir comida para o homem e os animais:
Fazes crescer a relva para os animais e as plantas, para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão, o vinho, que alegra
o coração do homem, o azeite, que lhe dá brilho ao rosto, e o alimento, que lhe sustém as forças (Sl 104.14-15).

O grão do campo obedece à ordem do Senhor, quer para perecer de fome, quer para prosperar
quando a fome é restringida:
Fez vir fome sobre a terra e cortou os meios de se obter pão (Sl 105.16; cf. 2Rs 8.1; Ez 5.16-17; 14.13).

Farei vir o trigo, e o multiplicarei, e não trarei fome sobre vós (Ez 36.29; cf. Rt 1.6).

SE NÃO VIRMOS A PROVIDÊNCIA


SOBRE AS PLANTAS, COMO SEREMOS CAPAZES DE EXPERIMENTAR O CUIDADO DE DEUS?
O Senhor Jesus nos ensinou que observar esses processos de providência na vida das plantas da terra tem
em vista não somente a admiração ou as comparações estéticas com os lábios de uma pessoa amada (Ct
5.13), mas também o fortalecimento de nossa fé no cuidado providencial de nosso Pai celestial:
E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu,
contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do
campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? (Mt 6.28-30)

Isso é realmente extraordinário. Deus quer que olhemos para as flores e sejamos encorajados e
fortalecidos, para acabarmos com a ansiedade quanto a roupas para vestir. Como isso funciona? Quero
dizer, se somos pobres e quase não temos roupas nem sapatos, como um lírio florescente pode ter o
poder de aquietar em nosso coração o temor de vergonha e exposição?
A resposta é que ele não pode — a menos que sejamos profundamente convencidos, por uma
doutrina biblicamente fundamentada, da providência de Deus sobre as plantas e sobre nossas vidas.
Uma das razões por que estou escrevendo este livro é ajudar os cristãos a viverem na devoção radical e
espontânea de buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus (Mt 6.33), porque nossa doutrina da
providência nos leva a crer realmente que o controle de Deus é suficientemente detalhado, poderoso e
misericordioso para vestir cada lírio no planeta e nos dar tudo que precisamos para viver sua justiça.

PROVIDÊNCIA SOBRE OS ANIMAIS


Jesus espera que vençamos o temor ao adotarmos a mesma lógica baseada nos lírios, quando
observamos as aves. Ele usa esse tipo de argumento em dois contextos distintos no Evangelho de
Mateus. Em primeiro lugar, no Sermão do Monte, ele diz:
Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura,
não valeis vós muito mais do que as aves? (Mt 6.26)

Jesus adotava seriamente um ponto de vista pervasivo e detalhado sobre a providência quando
olhava para o mundo e quando lia seu Antigo Testamento. Sem dúvida, ele leu em Salmos 147.9:
“[Deus] dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos, quando clamam”. E conhecia a resposta à
pergunta que Deus fez a Jó: “Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam
a Deus e andam vagueando, por não terem que comer?” (Jó 38.41) De fato, Jesus sabia que seu Pai
sustenta toda vida em suas mãos: “Na sua mão está a alma de todo ser vivente” (Jó 12.10).
Um tordo precisa de um verme para sobreviver? Deus governa o mundo subterrâneo dos vermes e
ordena-lhes que estejam onde ele quer que estejam para cumprir seus propósitos. Por exemplo, quando
ele quis repreender Jonas por se sentar à sombra com sua raiva etnocêntrica, “Deus […] enviou um
verme, o qual feriu a planta, e esta se secou” (Jn 4.7). Um pelicano precisa de um peixe para sobreviver?
Deus governa o mundo subaquático dos peixes e ordena-lhes que façam a sua vontade, como na ocasião
em que Jonas precisava ser salvo das profundezas: “Deparou o SENHOR um grande peixe, para que
tragasse a Jonas” (Jn 1.17). E, quando os discípulos precisaram de encorajamento, Jesus cuidou para que
os peixes viessem na hora certa e enchessem as redes deles (Lc 5.5-6; Jo 21.5-6). E, se necessário, um
desses peixes terá uma moeda na boca (Mt 17.27), sem mencionarmos o fato de que, quando os peixes
já estão mortos, Jesus pode cuidar para que dois deles (com cinco pães) alimentem cinco mil (Mt 14.17-
21).
Desse modo, Jesus pega seu ponto de vista todo-abrangente sobre a providência e argumenta da
seguinte maneira em Mateus 6.26:
Premissa 1: Deus alimenta as aves do céu.
Premissa 2: Para ele você é mais valioso do que as aves.
Conclusão: Deus lhe dará tudo que você precisa para realizar todos os propósitos dele, o que é a base do mandamento “Buscai,
pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.33).
Jesus não tenciona argumentar isso para nós o tempo todo. Ele está dando um exemplo. Está nos
dizendo que devemos aplicar a doutrina da providência quando olhamos para o mundo natural:
“Observai as aves do céu” (Mt 6.26). “Observai os corvos” (Lc 12.24). “Observai os lírios” (Lc 12.27).

JESUS ACREDITAVA NO QUADRO DA PROVIDÊNCIA APRESENTADO EM SUA BÍBLIA


A notável confiança de Jesus na providência todo-abrangente e detalhada de seu Pai era, sem dúvida,
moldada pelo fato de que ele tinha participação nela como o Filho de Deus. “Tudo me foi entregue por
meu Pai” (Mt 11.27). Mas também era moldada pelo fato de que ele levava muito a sério sua Bíblia — o
que conhecemos como o Antigo Testamento. “A Escritura não pode falhar” (Jo 10.35), nem mesmo no
mínimo detalhe. “Nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.18).
Portanto, Jesus entendia como real a extraordinária providência de Deus sobre os animais quando lia
a história do êxodo. Os animais eram centrais à história. O Senhor disse que eles fariam a sua vontade,
“para que saibais que eu sou o SENHOR no meio desta terra” (Êx 8.22). Quando Deus falou: “Estenderei
a mão e ferirei o Egito com todos os meus prodígios que farei no meio dele” (Êx 3.20), a maior parte do
que ele estava prestes a fazer era ordenar aos animais que realizassem seus julgamentos. Ele começou
com uma serpente que apareceu de um bordão e voltou a ser um bordão, a fim de preparar o palco para
as maravilhas que, em breve, eles veriam (Êx 4.3-4). Em seguida, Deus convocou sapos (Êx 8.1-15),
piolhos (Êx 8.16-19), moscas (Êx 8.20-32) e gafanhotos (Êx 10.4) para devastar o Egito rebelde.
Ao ler sua Bíblia, Jesus viu Deus ordenando que codornas viessem e alimentassem seu povo depois
de saírem do Egito (�