Providencia Ebook
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Sumário
Introdução | Quatro convites
PARTE 1 | UMA DEFINIÇÃO E UMA DIFICULDADE
1 | O que é a providência divina?
2 | A autoexaltação divina é uma boa-nova?
PARTE 2 | O OBJETIVO SUPREMO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | O objetivo supremo da providência antes da criação e na criação
3 | Antes da criação
4 | O ato de criação
Seção 2 | O objetivo supremo da providência na história de Israel
5 | Visão geral: de Abraão à era vindoura
6 | O Êxodo
7 | Lembrando o Êxodo
8 | A Lei, o deserto e a conquista de Canaã
9 | O tempo dos juízes e os dias da monarquia
10 | A proteção, a destruição e a restauração de Jerusalém
Seção 3 | O objetivo supremo da providência no desígnio e no estabelecimento da nova aliança
11 | Os propósitos da nova aliança
12 | O ato fundamental de Cristo em estabelecer a nova aliança
13 | A entrada do pecado na criação e a glória do evangelho
14 | A glória de Cristo na glorificação de seu povo
PARTE 3 | A NATUREZA E A EXTENSÃO DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | Montando o palco
15 | Conhecendo a providência do Deus que é
Seção 2 | A providência sobre a natureza
16 | A perda e a recuperação do teatro de maravilhas
17 | Terra, água, vento, plantas e animais
Seção 3 | A providência sobre Satanás e os demônios
18 | Satanás e os demônios
19 | A existência contínua de Satanás
Seção 4 | A providência sobre reis e nações
20 | O Rei divino de Israel é Rei das nações
21 | Reino humano e o Rei dos reis
22 | Para saber que o Altíssimo reina e regozijar-se nisso
Seção 5 | A providência sobre a vida e a morte
23 | Um banho da verdade e o dom do nascimento
24 | O Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor
25 | Somos imortais até que nossa obra acabe
Seção 6 | A providência sobre o pecado
26 | O querer e o agir humanos naturais
27 | Coisas que sabemos e coisas que não precisamos saber
28 | José: o bom propósito de Deus num ato pecaminoso
29 | Israel odiado, Faraó endurecido, Deus exaltado, os desamparados salvos
30 | Famílias arruinadas
31 | Engano e insensibilidade de coração
32 | Embora cause tristeza, Deus terá compaixão
33 | Uma perversidade que Deus odiava tremendamente
Seção 7 | A providência na conversão
34 | Nossa condição antes da conversão
35 | Três quadros bíblicos de como Deus traz as pessoas à fé
36 | A fé salvadora como o dom da providência
37 | Retornando às preciosas raízes da eleição
Seção 8 | A providência sobre o viver cristão
38 | Perdão, justificação e obediência
39 | A estratégia divina de mandamento e advertência
40 | Aos que chamou, a esses também glorificou
41 | Zelo por boas obras comprado com sangue
42 | Operando em nós o que é agradável diante dele
43 | Matando o pecado e criando o amor — pela fé
Seção 9 | A realização final da providência
44 | O triunfo das missões e a vinda de Cristo
45 | Novos corpos, novo mundo, alegria incessante em Deus
Conclusão | Vendo e provando a providência de Deus
“No que talvez seja seu livro mais importante até agora, John Piper demonstra, com marcante convicção
e habilidade exegética, que a providência de Deus “é sua soberania intencional, por meio da qual ele será
totalmente bem-sucedido na realização de seu objetivo supremo para o universo”. Este livro ampliará o
pensamento do leitor a respeito de Deus, fortalecendo, assim, sua fé.”
D. A. Carson, teólogo, The Gospel Coalition
“John Piper, com sua clareza e seu foco peculiares no texto bíblico, mostra-nos que a providência de
Deus permeia toda a Escritura. Piper discute o texto bíblico de forma ampla, e nós vemos, passagem após
passagem, que Deus governa sobre toda a realidade, desde o menor dos átomos até as catástrofes mais
atrozes. Como sempre esperamos de Piper, ele direciona nossos olhos para as infinitas grandeza e beleza
de Deus, enquanto nos lembra que a providência de Deus é uma boa-nova maravilhosa para aqueles que
conhecem Jesus.”
Thomas R. Schreiner, professor de Interpretação do Novo Testamento, The Southern Baptist
Theological Seminary
“Existem muitos livros escritos por John Piper que eu recomendaria aos crentes, por causa da
profundeza e do frescor de pensamento em seus escritos. Providência está entre os primeiros da lista. A
amplitude da providência de Deus — aqui discutida — é espetacular. Piper faz uma abordagem
completa. Leia e veja por si mesmo. Esta é uma obra excepcional!”
Conrad Mbewe, pastor, Kabwata Baptist Church, Lusaka, Zâmbia
“Embora alguns vejam a mão de Deus apenas nos milagres e outros não a vejam de maneira alguma, a
providência é a maravilhosa verdade de que Deus é soberano em tudo e sobre tudo que acontece.
Combinando paixão com espírito inquiridor, John Piper tem amado e proclamado essa verdade ao longo
de todo o seu ministério. Este livro envolvente não é apenas sobre doutrina; também alcança uma visão
alpina da obra de Deus em nosso mundo, em nossa redenção e em nossa vida nos dias de hoje. É
profundamente revigorante para a fé.”
Michael Horton, professor de Teologia Sistemática e Apologética, Westminster Seminary
California
“Neste livro formidável, John Piper revela o lado pessoal da soberania, ajudando-nos a ter um vislumbre
da intrincada complexidade, da beleza encantadora e do propósito supremo dos planos de Deus em
ação. Piper é capaz de escrever sobre uma doutrina multifacetada de um modo bem prático e de fácil
compreensão!”
Joni Eareckson Tada, fundadora e CEO, Joni and Friends International Disability Center
“Este livro magistral de Piper é um antídoto poderoso para os frágeis pontos de vista sobre a providência
de Deus sustentados por muitos cristãos de nossos dias. Sua exposição do assunto é completa em escopo
e saturada de discernimento bíblico. Piper é um modelo de pastor-teólogo, visto que não somente
descreve a providência, como também mostra como o respectivo entendimento pode tornar nossa vida
mais profunda.”
Tremper Longman III, acadêmico e professor emérito de Estudos Bíblicos, Westmont College
“Com a publicação, em 1983, de A justificação de Deus, John Piper mostrou que era um homem resoluto
em seu apego à soberania da graça de Deus. Agora, meia geração depois, esse apego ainda subsiste. Este
livro grandioso oferece alimento para a alma de uma forma que fortalecerá a mente e o coração de seus
leitores.”
Paul Helm, ex-professor de História e Filosofia da Religião, King’s College London
“Este é um livro sobre a providência de Deus, escrito por um homem que tem dedicado a própria vida a
expor a glória divina. Este volume é fundamental, da forma que o assunto abordado exige. Piper se move
desde o tempo que antecede a criação até a segunda vinda de Cristo, mostrando que os atos
providenciais de Deus permeiam, em sua totalidade, o tempo, as circunstâncias e as pessoas, explicando
o extraordinário poder do Deus autossuficiente.”
Miguel Núñez, pastor principal, International Baptist Church, Santo Domingo, República
Dominicana; fundador-presidente, Wisdom and Integrity Ministries
“Por fomentar a humildade e nos ajudar a tremer diante da palavra de Deus, Providência, de John Piper,
abre nossos olhos para que possamos ver o Rei em sua beleza magnífica e aterrorizante (Is 33.17; 66.2).
Ele não é um leão inofensivo; ele é bom.”
Jason S. DeRouchie, professor-pesquisador de Antigo Testamento e Teologia Bíblica, Midwestern
Baptist Theological Seminary
“Piper tem o dom de tornar ideias complexas facilmente compreensíveis. Sob o tema geral da
providência, ele lida com alguns dos temas mais difíceis da fé cristã: a relação da soberania de Deus com
as decisões do homem, a origem do mal, o uso que Deus faz de pessoas más e do diabo para realizar seus
objetivos e eleição. De um ponto de vista de alguém da América do Sul, onde surgem muitas perguntas
sobre os caminhos de Deus em um contexto do pentecostalismo desenfreado, do evangelho da saúde e
prosperidade e da pobreza e corrupção, este livro é muito necessário.”
Augustus Nicodemus Lopes, pastor assistente, Primeira Igreja Presbiteriana de Recife, Brasil; vice-
presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil
“Em nossa época centrada no homem, este livro de John Piper cura a mente e a alma com a verdade do
evangelho. É não apenas uma obra teológica sobre a providência de Deus, como também uma
orientação pastoral cheia de sabedoria bíblica e prática. Este livro ajudará a geração moderna de cristãos
a desfrutar o soberano poder de Deus e ajudar os que estão ao seu redor a permanecer no firme
fundamento do evangelho, e não no solo instável do orgulho humano. Piper acende uma chama radiante
da glória divina no farol do amor de Deus, onde as pessoas encontrarão esperança verdadeira num
oceano tempestuoso de erros e temores. Seu livro é muito relevante para residentes em países da antiga
União Soviética, que precisam ver a grandeza e a beleza do verdadeiro Rei e governante deste mundo,
enquanto se comprometem a edificar o reino dele, com vistas à prosperidade espiritual de suas nações,
para a glória de Cristo.”
Evgeny Bakhmutsky, pastor, Russian Bible Church, Moscou, Rússia
“John Piper nos ajuda a ver e provar a soberania intencional de Deus, ao demonstrar, de forma indutiva,
o que a toda a Bíblia ensina sobre o objetivo supremo, a natureza e a extensão da providência de Deus.”
Andy Naselli, professor associado de Teologia Sistemática e Novo Testamento, Bethlehem College
& Seminary; presbítero, Bethlehem Baptist Church, Mineápolis
“Por meio desta obra magna, John Piper leva corações à adoração jubilosa, ao expor a tão
frequentemente negligenciada doutrina da providência de Deus. Este é tanto um livro-texto para
estudantes sérios de teologia como uma leitura devocional para leigos. Leia esta obra e adore a Deus, que
realizará seus propósitos para sua glória e para o melhor de seus eleitos.”
Matthias G. Lohmann, presidente, Evangelium21; pastor, Free Evangelical Church, Munique,
Alemanha
“Em minha estimativa, este livro representa as mais maduras e mais completas reflexões bíblico-
teológicas de John Piper. Como pastor e mestre, perguntam-me com frequência: “Como posso
reconciliar o que sei sobre Deus, o homem e a criação, na Bíblia, com a maneira como vivencio esse
conhecimento?”. Graças a John Piper, agora tenho uma obra definitiva que pode me ajudar a responder a
perguntas dessa natureza. Esta obra levará os leitores a se deleitarem em Deus e em sua realidade
revelada, ao se admirarem do propósito de Deus para sua criação.”
Biao Chen, coordenador do Projeto Chinês, Third Millennium Ministries
“A obra de John Piper sempre enfatiza a glória de Deus e a alegria de seu povo. Agora, Piper nos oferece
um grandioso tratado sobre a consoladora doutrina da providência de Deus, transitando entre teologia
bíblica e teologia sistemática com precisão e profundo conhecimento da Escritura, sem perder o foco
nos aspectos pastorais dessa doutrina bíblica tão importante. Que o Senhor da glória use este livro para a
edificação e a alegria de seu povo!”
Franklin Ferreira, diretor acadêmico, Seminário Martin Bucer, São José dos Campos-SP, Brasil
“John Piper mostra, de forma habilidosa, como a verdade da providência se relaciona diretamente com
diversas áreas da teologia. Providência mistura a teologia e o discernimento bíblico de Piper com mais de
quarenta anos de ministério pastoral. Trata-se de um verdadeiro tesouro para a igreja global e será um
recurso valioso para a igreja de Deus nos anos por vir.”
Sherif A. Fahim, palestrante em Teologia Sistemática e Estudos Bíblicos, Alexandria School of
Theology, Egito; diretor-geral, El-Soora Ministries
A todos os missionários
que deram suas vidas,
ou que ainda as darão,
para reunir os eleitos entre todos os povos do mundo,
na confiança de que os propósitos de salvação
da Providência
em Jesus Cristo
não podem falhar.
Sumário
Deus revelou o objetivo, a natureza e a extensão de sua providência. Ele não ficou em silêncio. E nos
mostra essas coisas na Bíblia. Essa é uma das razões por que o apóstolo Paulo diz: “Toda a Escritura é…
útil” (2Tm 3.16). A utilidade não reside principalmente na validação de um ponto de vista teológico,
mas, sim, na revelação de um grande Deus, na exaltação de sua graça invencível e na libertação de seu
povo indigno. Deus revelou sua soberania intencional sobre o bem e o mal, a fim de humilhar o orgulho
humano, intensificar a adoração humana, vencer o desamparo humano e colocar lastro no assolado
barco da fé humana, vigor na coragem humana, alegria nos gemidos de aflição e amor no coração que
não vê um caminho adiante.
O que encontramos na Bíblia é real e autêntico. A valorização e a proclamação da providência
pervasiva de Deus foram forjadas em chamas de ódio e amor, engano e verdade, assassinato e
misericórdia, carnificina e bondade, maldição e bênção, mistério e revelação, e, finalmente, crucificação e
ressurreição. Espero que minha consideração sobre a providência de Deus tenha o aroma dessa realidade
chocante e repleta de esperança.
Nesta introdução, gostaria de lhe oferecer quatro convites.
MARAVILHAS CONTRAINTUITIVAS
Em primeiro lugar, convido você para um mundo bíblico de maravilhas contraintuitivas. Argumentarei
que essas maravilhas não são ilógicas nem contraditórias, mas tão somente diferentes de nossa forma
usual de ver o mundo — tão diferentes que nossa primeira reação é, muitas vezes, dizer: “Não pode ser
assim”. Mas o “não pode” está em nossa mente, e não na realidade. “Quão insondáveis são os seus juízos,
e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).
Por exemplo, na justiça de seu julgamento, Deus levanta um pastor cruel para seu povo e, em
seguida, envia punição sobre esse pastor:
Porque eis que suscitarei um pastor na terra, o qual não cuidará das que estão perecendo, não buscará a desgarrada, não curará a
que foi ferida, nem apascentará a sã; mas comerá a carne das gordas e lhes arrancará até as unhas. Ai do pastor inútil, que
abandona o rebanho! A espada lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o braço, completamente, se lhe secará, e o olho
direito, de todo, se escurecerá (Zc 11.16-17).
Isso nos abala. Para a maioria de nós, essa não é a maneira como, em geral, pensamos sobre os
caminhos de Deus. Primeiro, o fato de que Deus suscita um pastor cruel para seu povo parece envolver
Deus em crueldade pecaminosa. Segundo, o fato de que Deus julga o pastor por sua inutilidade parece
condenar caprichosamente o que ele mesmo ordenou.
Existem muitas cenas assim na Bíblia, e eu argumentarei que, em todas elas, Deus não é nem
pecaminoso nem caprichoso. Se nos inclinarmos a ser críticos, e não mudados, teremos de colocar a mão
na boca e ouvir. Somos pecadores e finitos. Deus é infinito e santo.
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR,
porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os
meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos (Is 55.8-9).
Eu o estou convidando a um mundo de maravilhas contraintuitivas. Espero que você permita que a
palavra de Deus crie novas categorias de pensamento, em vez de tentar forçar a Escritura a se enquadrar
nos limites do que você já conhece. Quando Paulo nos chama para sermos transformados pela
renovação de nossa mente (Rm 12.2), parte do que ele tem em vista é a superação de nossa resistência
natural à estranheza dos caminhos de Deus. Imediatamente antes de exigir mentes transformadas, Paulo
escreveu:
Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão
inescrutáveis, os seus caminhos! “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro
deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36).
Em última análise, meu convite para o mundo bíblico de maravilhas contraintuitivas é um convite à
adoração. Deus é amplamente maior, mais desconhecido, mais glorioso, mais terrível e mais amoroso do
que compreendemos. Nossa imersão no oceano de sua providência nos ajuda a conhecê-lo, temê-lo,
confiar nele e amá-lo da forma devida.
R. P. C. Hanson explicou o processo nos seguintes termos: “Teólogos da Igreja cristã estavam sendo,
pouco a pouco, levados a uma compreensão de que as questões mais profundas com que o cristianismo
deparava não tinham resposta com uma linguagem puramente bíblica, porque diziam respeito ao
significado da própria linguagem bíblica”. 2
Quanto mais estudo as Escrituras e tento pregá-las e ensiná-las, mais me dou conta da necessidade de
encorajar os pregadores e leigos a penetrar na realidade bíblica por meio das palavras bíblicas. É muito
fácil pensarmos que experimentamos comunhão com Deus quando nossa mente e nosso coração se
satisfazem com definições verbais, relações gramaticais, ilustrações históricas e algumas aplicações.
Quando fazemos isso, até mesmo as palavras da Bíblia podem tornar-se alternativas ao que Paulo chama
entendimento… espiritual” (συνέσει πνευματικῇ — Cl 1.9).
Usarei o termo providência para fazer referência a uma realidade bíblica. A realidade não se encontra
em uma palavra específica da Bíblia; a realidade surge da maneira como Deus se revelou nos muitos
textos e histórias da Bíblia. São como fios entretecidos num lindo tapete maior que qualquer um dos fios.
Estamos usando uma palavra que não está na Bíblia em prol dessa verdade maior da Bíblia.
Sem dúvida, há risco em se fazer isso — assim como há risco em se usar somente a linguagem da
Bíblia, que pode ser distorcida para comunicar significados falsos, enquanto dá a impressão de fidelidade
bíblica (cf. 2Pe 3.16). Mencionarei, entre outros, um desses riscos.
Visto que o termo providência não é usado em textos específicos da Bíblia, não temos um
determinante bíblico sobre seu significado. Não podemos dizer: “A Bíblia define providência dessa
maneira”. Poderíamos dizer isso somente se a Bíblia usasse o termo providência. Sempre que
perguntamos o que uma palavra significa, tem de haver um indicador do significado, para que esse
significado seja válido. Portanto, se o indicador não é um (ou mais) dos escritores bíblicos, então,
quando uso a palavra providência, tenho de atribuir um significado. Isso é o que faço no Capítulo 1. Não
atribuo um significado arbitrário. Tento permanecer próximo do que outras pessoas queriam dizer com
a palavra na História da Igreja. Mas, de fato, escolho o significado.
Você pode perceber o que isso implica. Implica que a questão apresentada neste livro não é o
significado da palavra providência. A questão é a seguinte: a realidade que vejo na Bíblia e chamo de
providência está realmente lá? Não há utilidade alguma em debatermos sobre se providência é o melhor
termo que expressa a realidade. Isso é relativamente insignificante. A verdade que importa é se, na Bíblia,
há uma realidade que corresponde à minha descrição do objetivo, da natureza e da extensão da soberania
intencional de Deus. No Capítulo 1, você verá por que uso a definição sucinta “soberania intencional”
para providência. Por ora, contudo, destaco o risco de cometermos um erro infeliz ao ignorarmos a
realidade bíblica quando nos concentramos na palavra em si.
Carregado de grandeza
Não era só Jesus que tinha essa visão de mundo centrada em Deus. Os salmistas cantaram ao Senhor
sobre seu cuidado específico com as criaturas que ele mesmo fez:
Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se
ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e,
assim, renovas a face da terra (Sl 104.27-30).
Abrirei meus olhos e ouvidos. Uma vez por dia, simplesmente contemplarei uma árvore, uma flor, uma nuvem ou uma pessoa. E
não me preocuparei, de maneira alguma, em perguntar o que são; apenas me alegrarei com o fato de que são. E lhes atribuirei,
com alegria, o mistério do que C. S. Lewis chama sua existência “divina, mágica, aterrorizante e extasiante”.
Ainda que eu esteja errado, apostarei minha vida na admissão de que este mundo não é idiota, nem administrado por um senhorio
ausente. Ao contrário, admitirei que hoje, neste dia, alguma pincelada está sendo acrescentada à pintura cósmica que, em seu
devido tempo, entenderei com alegria como uma pincelada feita pelo Arquiteto que se chama Alfa e Ômega.
Pela influência do professor Kilby, que me abriu os olhos, e pelo que vejo agora na Bíblia como
providência que abrange e permeia tudo, vivo de forma mais consciente num mundo exultante de Deus.
Vejo a realidade de uma forma diferente. Por exemplo, eu costumava olhar para o nascer do sol, quando
fazia caminhada, e pensava que Deus havia criado um mundo lindo. Depois, isso se tornou menos
genérico e mais específico, mais pessoal. Eu dizia: “Todas as manhãs, Deus pinta um nascer do sol
diferente”. Ele nunca se cansa de fazê-lo, de novo e de novo. Mas, então, fui impactado. Ele não o faz de
novo e de novo. Deus nunca para de fazer isso. O sol está sempre se levantando em algum lugar do
mundo. Deus guia o sol 24 horas por dia e pinta auroras a cada instante, século após século, sem um
segundo sequer de intervalo. E nunca se sente cansado ou fica menos satisfeito com a obra de suas mãos.
Até mesmo quando as nuvens impedem o homem de ver o sol, Deus está pintando auroras espetaculares
acima das nuvens.
Deus não tenciona que olhemos para o mundo que ele criou e não sintamos nada. Quando o salmista
diz: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1), sua
intenção não é que isso seja apenas para o esclarecimento de nossa teologia. O salmista escreveu isso
para a exultação de nossa alma. Sabemos isso porque ele diz logo em seguida:
Aí [no céu], pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu
caminho (vv. 4-5).
Por que ele disse isso? Quando olhamos para a obra de Deus na criação, devemos ser atraídos a uma
alegria semelhante à de aposentos nupciais e ao gozo de um Eric Liddell correndo com a cabeça curvada
para trás, os cotovelos balançando e um largo sorriso no filme Carruagens de fogo, deleitando-se no
próprio prazer de Deus.
Estou convidando-o a entrar em um mundo no qual Deus é o centro. Não, não somos ignorantes das
misérias que todo nascer do sol traz. Talvez você fique chocado com as implicações da pervasiva
providência de Deus no sofrimento e na morte deste mundo. O Senhor dá e o Senhor toma (Jó 1.21). E
o sol exultante nasce sobre 150 mil novos cadáveres a cada manhã. É assim que muitas pessoas morrem
todos os dias. Num mundo que tem essa beleza fascinante de Deus e esse horror governado por Deus, o
mandamento bíblico de nos alegrarmos com os que se alegram e de chorarmos com os que choram (Rm
12.15) significa que estaremos continuamente “entristecidos, mas sempre alegres” (2Co 6.10).
CONHECER DEUS
Em quarto e último lugar, convido-o a conhecer, talvez como você nunca conheceu, o Deus cujo
envolvimento na vida de seus filhos e no mundo é tão pervasiva, tão envolvente e, por isso, tão poderoso
que nada pode acontecer com eles além do que Deus planeja para a glorificação deles em Cristo e para
sua glorificação neles (2Ts 1.12).
A morte do Filho de Deus comprou um povo para Deus, de todas as tribos, línguas e nações (Ap
5.9). A transação entre o Pai e o Filho, na morte de Cristo, foi tão poderosa que garantiu
completamente, por todo o tempo e por toda a eternidade, tudo que é necessário para trazer a noiva de
Cristo, em segurança e com grande beleza, ao gozo eterno.
Romanos 8.32 talvez seja o versículo mais importante na Bíblia, porque estabelece a inabalável
conexão entre o maior evento do universo e o maior futuro imaginável: “Aquele que não poupou o seu
próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as
coisas?”.
De fato, ele nos dará! Todas as coisas. Todas as coisas!
Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a
morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus (1Co 3.21-23).
Tudo é nosso. Porque o Pai não poupou o Filho. Quando Cristo morreu, tudo — absolutamente
tudo — que seu povo necessitava para viver neste mundo em santidade e amor foi invencivelmente
garantido. Deus, o Pai, predestinou isso — tudo que precisamos — e o prometeu a nós (Ez 36.27; Rm
8.29). Deus, o Filho, comprou isso para nós (Tt 2.14). Deus, o Espírito, o realiza em nós (Gl 3.5; Hb
13.21). Nada pode separar-nos do amor de Deus em Cristo (Rm 8.35-39).
Gostaria de ajudar o maior número de pessoas possível a conhecer o Deus de providência todo-
pervasiva, todo-envolvente e invencível. A palavra de Deus é espetacularmente repleta de conhecimento
sobre o objetivo supremo de Deus. Do início ao fim, ela ressoa as riquezas da graça de Deus em relação
ao seu povo indigno. Página após página, a Bíblia nos conta a maravilhosa história da natureza e da
extensão da providência de Deus. Nada pode impedi-lo de ser bem-sucedido exatamente quando e
como ele almeja ser bem-sucedido.
Eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer
e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha
vontade (Is 46.9-10).
Os arianos afirmavam sentenças bíblicas e, ao mesmo tempo, negavam o significado bíblico. Eis uma descrição do procedimento deles: “Os
alexandrinos […] confrontaram os arianos com as expressões tradicionais da Escritura que pareciam não deixar dúvida quanto à divindade
eterna do Filho. Mas, para sua surpresa, deparavam com uma aquiescência perfeita. Somente quando cada teste foi proposto, observava-se
que os membros do grupo suspeito cochichavam e gesticulavam entre si, indicando evidentemente que cada sentença poderia ser aceita
com segurança, desde que se admitisse evasão. Se lhe pediam concordância com a afirmação ‘semelhante ao Pai em todas as coisas’, tal
concordância era dada, com a ressalva de que o homem como tal é ‘a imagem e a glória de Deus’. A expressão ‘o poder de Deus’ suscitava a
explicação de que a hoste de Israel fora chamada de δυναμις κυριου [poder do Senhor] e de que até o gafanhoto e a lagarta são chamados o
‘poder de Deus’. A ‘eternidade’ do Filho era refutada pela passagem ‘Nós, que vivemos, somos sempre (2Co 4.11)!’. Os pais eram
confundidos, e o teste de ομοουσιον [mesmo ser], com o qual a minoria estivera preparada desde o início, era aceito pela maioria com as
evasões dos arianos”.
Veja Archibald T. Robertson, “Prolegomena”, em St. Athanasius: Select Works and Letters, ed. Philip Schaff e Henry Wace, vol. 4, Select
Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2nd Series (New York: Christian Literature Company, 1892), xix.
R. P. C. Hanson, The Search for the Christian Doctrine of God: The Arian Controversy (Edinburgh: T. & T. Clark, 1988), xviii-xix.
Gerard Manley Hopkins, “God’s Grandeur”, Poetry Foundation, acesso em 9 de ago. de 2020,
[Link]/poems/44395/gods-grandeur [tradução em português de Aíla de Oliveira Gomes, em Gerard Manley Hopkins:
Poemas (São Paulo: Companhia das Letras, 1989)].
Você pode ler todas no seguinte artigo: John Piper, “10 resoluções para a saúde mental”, Voltemos ao Evangelho, 2 de jan. 2010,
[Link]/blog/2010/01/10-resolucoes-para-a-saude-mental/. Quando Kilby fala de “saúde mental”, está falando
de maneira geral, e não clínica. Ele não tem em vista as enfermidades mentais que podem ser clinicamente diagnosticadas.
Aqui, adaptei as palavras de John Owen: “A santidade de nossas ações consiste em conformidade com os preceitos de Deus, e não com seus
propósitos”. John Owen, The Works of John Owen, vol. 10, ed. William H. Goold (Edinburgh: T&T Clark, n.d.), 48.
PARTE 1 | UMA DEFINIÇÃO E UMA
DIFICULDADE
1 | O que é a providência divina?
A razão pela qual este livro é a respeito da providência de Deus, e não da soberania de Deus, é que a
palavra soberania não contém a ideia de ação intencional, mas a palavra providência, sim. Soberania
enfatiza o direito e o poder que Deus tem para fazer tudo o que quer, mas, em si mesma, não expressa
propósito ou objetivo.
Sem dúvida, a soberania de Deus é intencional, tem propósito e busca um objetivo. No entanto,
sabemos isso não simplesmente porque Deus é soberano, mas também porque é sábio e porque a Bíblia
o retrata como tendo propósitos em tudo que faz. “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a
minha vontade” (Is 46.10).
O foco deste livro está na soberania de Deus considerada não simplesmente como poderosa, mas
também como intencional. Historicamente, o termo providência tem sido usado como uma forma
abreviada de referência a esse foco mais específico.
Resposta: É o poder onipotente e onipresente de Deus, pelo qual, como que por sua mão, ele sustenta o céu e a terra, com todas
as criaturas, e os governa de tal modo que ervas e plantas, chuva e seca, anos frutíferos e estéreis, comida e bebida, saúde e doença,
riqueza e pobreza, todas as coisas não nos vêm por acaso, mas de sua mão paternal.
Cremos que este bom Deus, depois de haver criado todas as coisas, não as abandonou ao destino ou ao acaso, mas, segundo a sua
santa vontade, ele as dirige e governa de tal modo que neste mundo nada acontece sem o arranjo ordeiro de Deus.
Outra vez, Deus “dirige e governa” todas as coisas, de modo que nada é deixado ao “destino ou ao
acaso”. E, outra vez, o que a doutrina sobre a providência enfatiza não é apenas soberania, mas o fato de
que “nada acontece sem o arranjo ordeiro de Deus”. É claro que isso exige uma explicação da palavra
ordeiro. Ordem sugere desígnio e propósito. Ordem com que finalidade? Isso é o que destacaremos na
Parte 2 deste livro.
Catecismo Maior de Westminster (1648)
Questão 18. Quais são as obras da providência?
Resposta: As obras da providência de Deus são a sua mais santa, mais sábia e mais poderosa preservação e governo de todas as
suas criaturas, ordenando-as e todas as ações delas para a sua glória.
A providência de Deus não somente “preserva” e sustenta a existência de “todas as suas criaturas”,
como também “[ordena] todas as ações delas”. O propósito de toda essa preservação e de todo esse
ordenamento é mostrado com clareza: “para a sua glória”. Isso é soberania intencional, que chamamos
providência.
Confissão de Fé de Westminster (1646)
Capítulo 5. Da providência
5.1. Deus, o grande Criador de todas as coisas, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, ações e coisas, desde a maior
até à menor, por meio de sua providência sábia e santa, de acordo com sua presciência infalível e o soberano e imutável conselho
de sua própria vontade, para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia.
Essa é a definição mais completa que vimos até agora. Deus sustenta, dirige, dispõe e governa “todas
as criaturas, ações e coisas”. Isso é soberania pervasiva. Depois, vêm as cores providenciais: soberania
governada por sabedoria e santidade — e tudo “para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça,
bondade e misericórdia”.
Essa maneira de expressar o objetivo da providência de Deus será crucial, por ser fiel à Escritura.
Alguns pontos de vista sobre a providência ressaltam tanto o alvo de Deus em manifestar misericórdia
que o restante de sua glória é obscurecido. Acredito que a resistência da Confissão de Westminster a essa
redução é sábia e bíblica. O alvo da providência de Deus, diz a Confissão, é “o louvor” da glória de Deus
— não somente um aspecto ou uma faceta de sua glória (como amor, graça ou misericórdia), mas toda
ela: “a glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia”.
Isso é impressionante. Cada minúscula bolha que estoura na espuma no topo de uma lata de Coca-
Cola recém-aberta. Cada grão de poeira flutuante que você só pode ver sob a luz do sol, logo pela manhã,
ainda na cama de seu quarto. Cada ponta de cada haste de grãos que se estende pelas intermináveis
planícies do Nebraska. Todos eles, com todos os seus mais leves movimentos, são governados
especificamente por Deus.
Spurgeon prevê a objeção e prossegue no mesmo sermão:
Você dirá nesta manhã: Nosso pastor é fatalista. Seu pastor não é tal coisa. Alguns dirão: Ah! Ele acredita no destino. Ele não
acredita no destino de maneira alguma. O que é o destino? O destino é isto: o que tem de ser será. Mas há uma diferença entre isso
e a providência. A providência diz: o que Deus ordena será; mas a sabedoria de Deus nunca ordena algo sem um propósito. Tudo
neste mundo está trabalhando para alguma grande finalidade. O destino não diz isso. O destino diz apenas que a coisa tem de ser;
a providência, por sua vez, diz: Deus move as rodas adiante, e lá estão elas.
Se alguma coisa daria errado, Deus a corrige. E, se há alguma coisa que quer se mover obtusamente, Deus coloca sua mão e a
altera. Então, chega-se à mesma coisa; mas há uma diferença quanto ao objetivo. Entre destino e providência, há toda a diferença
que existe entre um homem de olhos bons e um homem cego. O destino é cego; é a avalanche que soterra a vila lá embaixo e
destrói milhares de pessoas. A providência não é uma avalanche; é um rio ondulante, agitado, a princípio, como um riacho que
desce dos lados da montanha, seguido por rios menores, até que chega ao oceano amplo do amor eterno, que trabalha para o bem
da raça humana. A doutrina da providência não é: o que tem de ser será. Antes, a doutrina da providência é: aquilo que existe
trabalha para o bem de nossa raça e, em especial, para o bem do povo eleito de Deus. As rodas estão cheias de olhos; não são
rodas cegas.7
Espero que fique evidente no restante do livro, especialmente na Parte 2, que o propósito supremo
de Deus em sua providência todo-pervasiva é tão intencional, tão sábio, tão santo, tão gracioso e tão
exultante que a última coisa que alguém chamaria é de destino.
3.2. Cremos que Deus sustenta e governa todas as coisas — de galáxias a partículas subatômicas, de forças da natureza aos
movimentos das nações, dos planos públicos de políticos aos atos secretos de pessoas solitárias —, tudo de acordo com seus
propósitos eternos e sábios de glorificar a si mesmo, mas de maneira tal que ele nunca peca, nem mesmo condena uma pessoa
injustamente; mas cremos que esse ordenar e esse governar todas as coisas são compatíveis com a responsabilidade moral de
todas as pessoas criadas à imagem de Deus.8
Essa afirmação de que Deus manifesta sua glória “para o gozo eterno e sempre crescente de todos os
que o amam” está implícita, creio, nos credos históricos, como, por exemplo, quando o Catecismo de
Westminster diz que o fim principal do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Mas 9
considero esse objetivo do gozo de Deus e sua relação com a glorificação de Deus tão cruciais ao
propósito de Deus na providência que as torno explícitas e proeminentes. Espero que, na Parte 2, fique
claro que isso não é apenas o que eu faço. É o que a Escritura faz.
Antes de seguir para a tarefa da Parte 2 e para a questão do objetivo de Deus na providência, será
proveitoso lidar com o que muitos veem como uma pedra de tropeço, ou seja, a autoexaltação envolvida
no objetivo de Deus em manifestar sua própria glória. Isso é que examinaremos no Capítulo 2.
Charles Spurgeon, “God’s Providence”, sermão sobre Ezequiel 1.15-19, Bible Bulletin Board, acesso em 9 de abr. de 2020,
[Link]/files/spurgeon/[Link].
Ibidem.
Quanto à defesa exegética dessa ideia de gozo sempre crescente, veja a discussão sobre Efésios 2.7 no Capítulo 14.
2 | A autoexaltação divina é uma boa-nova?
Sinto-me tentado a dizer que as pessoas modernas consideram quase impossível receber com alegria e
gratidão o testemunho incansável da Bíblia de que Deus age de forma coerente, tendo em vista sua
própria glória. Estou pensando em textos como Isaías 48.9-11:
Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a
exterminar. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de
mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem.
Escrevi que me sinto tentado a dizer que as pessoas modernas resistem a essa divina autoexaltação,
em vez de se regozijarem nela. Mas, pensando bem, compreendo que essa resistência não é exclusiva das
pessoas modernas. É humana. E é complexa.
Paulo contrasta aqueles que têm a “mente da carne” com aqueles que têm a mente do Espírito (Rm
8.6). Em seguida, ele descreve aqueles que têm a mente do Espírito: “Vós, porém, não estais na carne,
mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós” (Rm 8.9). Nós mudamos de ter a mente da
carne para ter a mente do Espírito quando o Espírito de Deus vem habitar em nós, pela fé em Cristo (Gl
3.2). Sem o Espírito, recebido pela fé, somos naturalmente insubordinados a Deus e resistentes à sua
autoridade.
Portanto, nosso problema mais profundo em lidar com a autoexaltação de Deus não é o fato de não
gostarmos de algumas categorias de autoridade que exaltam a si mesmas, mas, sim, de a natureza
humana caída não gostar de qualquer tipo de autoridade divina sobre sua vida. A ideia de que Deus não é
atraente para nós porque age para sua própria glória oculta uma resistência profunda: ele não é atraente
porque é Deus.
MAS E SE?
Mas e se o agir contínuo de Deus com vistas à própria glória for menos semelhante a um tirano inseguro
e carente de afirmação pessoal e mais semelhante a uma estrela de basquete profissional que dirige seu
Porsche na periferia da cidade porque ama verdadeiramente crianças pobres e quer lhes dar o prazer de
jogar com seu herói?
E se o agir de Deus em chamar a atenção para sua própria glória for menos semelhante a um médico
charlatão que ergue uma placa dizendo que ele é o melhor e mais próximo de um médico verdadeiro que
tem essa placa porque é, realmente, o melhor — e somente ele pode realizar o procedimento que salvará
a comunidade da doença que se propaga?
E se o agir de Deus em tornar conhecida sua superioridade for menos semelhante a um professor
universitário de arte que incita a grandeza da classe para aumentar sua reputação por atrair mais alunos e
for mais semelhante ao melhor artista do mundo que vai à faculdade e anuncia que ministrará um curso
totalmente gratuito para mostrar aos alunos mais pobres os segredos de sua habilidade superior?
E se a promoção pública do poder de Deus for menos semelhante a um general narcisista e ansioso
por fama que busca a vitória ao sacrificar milhares de soldados por retirá-los de sua posição de segurança,
na retaguarda, e mais semelhante ao general verdadeiramente grandioso que conquista tanto a vitória
como a fama, por estar disposto a morrer na linha de frente pelas tropas que ele ama?
Em outras palavras, se, de fato, descobríssemos que a beleza de Deus é do tipo que atinge o clímax ao
ser compartilhada? E se a atitude que consideramos mera promoção pessoal for, em vez disso, a busca
por compartilhar o maior prazer possível com todos os que quiserem a mesma coisa?
E se as coisas forem como o que Jonathan Edwards acreditava que eram?
Sem dúvida, a felicidade dos santos no céu será tão grande que a própria majestade de Deus será mostrada supremamente na
grandeza, na magnificência e na plenitude dos gozos e deleites deles.10
um dos livros mais importantes e influentes que já li. Aqui, Edwards apresenta inúmeras razões e textos
das Escrituras para corroborar esse argumento:
Assim, vemos que o objetivo supremo e final das obras de Deus, que é tão diversamente expresso na Escritura, é realmente apenas
um. E esse objetivo único é chamado mais apropriada e extensivamente “a glória de Deus”, nome pelo qual é mais comumente
chamado na Escritura.12
Jonathan Edwards, The Miscellanies (Entries 833-1152), ed. Amy Plantinga Pauw (New Haven, CT: Yale University Press, 2002), 189
(#934).
Quanto a uma introdução à vida de Edwards, à implicação de sua teologia no evangelicalismo e ao texto completo de The End for Which
God Created the World, veja John Piper, God’s Passion for His Glory: Living the Vision of Jonathan Edwards (Wheaton, IL: Crossway, 1998).
Para a tradução de The End for Which God Created the World, acesse: [Link]/textos/livros/Jonathan_Edwards_O-fim-
[Link].
Jonathan Edwards, Ethical Writings, ed. Paul Ramsey and John E. Smith, vol. 8, The Works of Jonathan Edwards (New Haven, CT: Yale
University Press, 1989), 530. Veja John Piper, God’s Passion for His Glory, 246.
Em outro lugar, tentei mostrar, com base na Escritura, que “a glória de Deus é a beleza e a grandeza infinitas de suas perfeições
multiformes”. John Piper, “O que é a glória de Deus?”, Voltemos ao Evangelho, 14 de jul. de 2021,
[Link]/blog/2021/07/o-que-e-a-gloria-de-deus/.
PARTE 2 | O OBJETIVO SUPREMO DA
PROVIDÊNCIA
Seção 1 | O objetivo supremo da providência
antes da criação e na criação
3 | Antes da criação
Não usamos comumente a palavra providência para descrever a ação de Deus antes da criação. Mas,
como nosso foco aqui, na Parte 2, está no propósito de Deus na providência, veremos um quadro mais
completo e mais fiel desse propósito se ouvirmos o testemunho bíblico sobre como ela existia antes de
Deus criar o mundo. A Escritura abre a cortina da eternidade passada e nos oferece um vislumbre do ato
de Deus em escolher um povo para si mesmo antes da criação. O objetivo de Deus é afirmado com muita
clareza:
Assim como [Deus] nos escolheu, nele [em Cristo], antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante
ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,
para louvor da glória de sua graça (Ef 1.4-6).
Um dos propósitos de Deus em escolher um povo “antes da fundação do mundo” é que sejamos
“santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef 1.4). Mas como essa santidade se expressará? Há um objetivo
mais supremo? Sim. O fato de sermos escolhidos leva consigo um destino estabelecido por Deus — uma
predestinação — e planejado antes da criação. Está nos versículos 5 e 6: Deus “nos predestinou […] para
a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória
de sua graça”.
Se você dividir esse ato de predestinação (1.5-6) em quatro partes e relacioná-las umas com as outras
em ordem, da raiz mais profunda ao fruto mais sublime, a progressão se move da seguinte forma: (1) o
propósito da vontade de Deus dá origem a (2) um plano segundo o qual, por meio de Jesus Cristo, (3)
os eleitos de Deus receberiam a adoção como filhos, com (4) o objetivo supremo de que louvariam a
glória da graça de Deus.
O objetivo supremo de Deus em iniciar todo o plano de salvação antes da criação era que ele seria
louvado para a glória de sua graça.
perfeições resplandeça, mas também que consideremos a glória de Deus digna de louvor.
Não, não simplesmente considerar que a glória é digna de louvor, mas também senti-la como digna de
louvor — sentir seu valor —, porque, do contrário, nosso “louvor” seria hipocrisia. Deus está realmente
buscando a exaltação de sua beleza no gozo de seu povo que o louva. Se nosso louvor é desprovido de
sentimento, não está recomendando a preciosidade daquilo que louvamos. Louvor de coração
indiferente é recomendação pobre. Mas Deus não tenciona que o louvor final que ele busca seja uma
recomendação pobre. Sua glória tem valor infinito. É infinitamente bela. Portanto, em toda a sua glória,
Deus será mais satisfatório do que qualquer outro ser ou qualquer outra coisa.
A DESCOBERTA DE C. S. LEWIS
Prossigo nos desdobramentos da palavra louvor em Efésios 1.6, 12 e 14 porque ela contém realmente
uma parte crucial da solução para o problema suscitado no Capítulo 2 deste livro, o problema referente à
autoexaltação de Deus na Escritura. C. S. Lewis, como muitos outros, encontrou dificuldade com essa
realidade na Escritura, e foi seu próprio meditar sobre a natureza do louvor que lhe deu a solução.
A princípio, ele reclamava que a maneira pela qual as Escrituras nos ordenam a louvar a Deus parecia
semelhante a “uma mulher vã que quer elogios”. Mas, em vez de abandonar o assunto, por desgosto,
Lewis examinou mais profundamente a realidade do louvor, como costumava fazer em relação a tantas
outras coisas. Oh! Que penetremos, por meio das palavras, na realidade subjacente! Eis o que Lewis
descobriu:
O fato mais óbvio sobre o louvor — de Deus ou de qualquer outro ser — escapou-me estranhamente. Eu pensava no louvor em
termos de elogio, aprovação ou dar honra. Nunca havia percebido que todo gozo [note bem!] transborda espontaneamente em
louvor […] O mundo ressoa louvor — amantes louvando suas amadas, leitores louvando seu poeta favorito, caminhantes
louvando a zona rural, jogadores louvando seu jogo favorito —, louvor do clima, vinhos, louças, atores, cavalos, faculdades, países,
personagens históricos, filhos, montanhas, flores, selos raros, besouros raros e, às vezes, políticos e eruditos.
Toda a minha dificuldade mais geral sobre o louvor de Deus dependia de eu negar absurdamente para nós, no que diz respeito
ao supremamente valioso, aquilo que temos prazer [!] em fazer,
o que realmente não podemos deixar de fazer, no que diz respeito a tudo mais que valorizamos.
Acho que apreciamos louvar aquilo em que nos deleitamos porque o louvor não somente expressa, como também completa, o
deleite; é a sua consumação designada. Não é por desejo de elogio que os amantes continuam dizendo um ao outro quão belos
são; o deleite se mostra incompleto se não for expresso.15
O OBJETIVO DE DEUS: A CONSUMAÇÃO
DE NOSSO GOZO EM DEUS
Com isso em mente, retornemos a Efésios 1 e à maneira como Paulo expressou o objetivo do plano de
Deus de escolher, predestinar e adotar um povo. Paulo diz três vezes que o alvo é o louvor da glória de
Deus (1.6, 12, 14). Ora, se Lewis está certo (e eu penso que está), então a busca de Deus por nosso
louvor para sua glória é sua busca pela consumação de nosso gozo dessa glória: “[…] apreciamos louvar
aquilo em que nos deleitamos porque o louvor não somente expressa, como também completa, o
deleite; é a sua consumação designada”.16
Isso significa que a autoexaltação de Deus é totalmente diferente de toda autoexaltação humana.
Quando os humanos exaltam a si mesmos, chamam a atenção para algo que nunca pode satisfazer as
pessoas que eles desejam impressionar: a si mesmos. Nenhum ser humano, não importando quão
exaltado seja, pode ser o tesouro plenamente satisfatório de outro ser humano. Essa satisfação de outros
não é nem mesmo um típico motivo humano para autoexaltação. Para os humanos,
a autoexaltação é, tipicamente, uma maneira de ter, e não de dar; de usar as pessoas, e não de servir a
elas. Mas, com Deus, é o contrário.
Ao exaltar a si mesmo — ou seja, ao sustentar e comunicar sua glória —, Deus almeja dar gozo a
todos aqueles que o terão como seu tesouro supremo. E, visto que o louvor é a consumação designada
desse gozo, Deus não é indiferente ao nosso louvor. Se Deus almeja nosso gozo nele, ele almejará nosso
louvor — a consumação desse gozo. Deus não limitará nosso gozo por desencorajar nosso louvor.
E a glória dessa graça será vista mais belamente no sofrimento do Filho amado de Deus em favor de
pecadores indignos. Portanto, lidaremos muito mais plenamente com a centralidade do Filho de Deus
na busca de Deus pelo “louvor da glória de sua graça”. No que diz respeito a Cristo, ficará evidente que
18
“tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Mas, agora, voltamo-nos ao propósito da
providência de Deus que chega à expressão no próprio ato de criação.
Citado no capítulo anterior. Jonathan Edwards, Ethical Writings, ed. Paul Ramsey and John E. Smith, vol. 8, The Works of Jonathan Edwards
(New Haven, CT: Yale University Press, 1989), 530.
C. S. Lewis, Reflections on the Psalms (New York: Harcourt, Brace & World, 1958), 93-95.
Tratar o louvor da glória da “graça” como a finalidade suprema da providência de Deus não sugere que a glória de seus outros atributos,
como sabedoria e justiça (expressos em ira contra o pecado), seja silenciada ou minimizada. Pelo contrário, em suas devidas proporções
bíblicas, isso serve, em última análise, para magnificar a glória da graça de Deus para com os redimidos.
Veja especialmente o Capítulo 12, onde consideramos 2 Timóteo 1.9 e Apocalipse 13.8.
4 | O ato de criação
O governo intencional de Deus sobre o mundo pressupõe não somente um plano para o mundo antes da
criação, como vimos em Efésios 1, mas também a própria criação do mundo. A providência pressupõe a
criação. Visto que a criação é o palco em que as obras da providência acontecerão, é provável que o
propósito supremo da criação seja o mesmo propósito supremo das obras da providência que serão
realizadas no teatro da criação. Podemos testar essa probabilidade pelos textos bíblicos apresentados
neste capítulo.
Essas duas perguntas retóricas (“Quem conheceu a mente do Senhor?”, “Quem primeiro deu a ele”)
esperam uma resposta: ninguém. Em outras palavras, ninguém pode dar qualquer contribuição à
sabedoria de Deus por aconselhá-lo. E ninguém pode esperar uma compensação de Deus, como se
pudéssemos torná-lo nosso devedor por lhe darmos algo que ele ainda não tinha. Isso é o que significa
dizermos que Deus é autossuficiente.
O que, então, “para Deus” significa quando Paulo diz que tudo foi criado e existe “para Deus”?
Romanos 11.36 esclarece. A razão pela qual ninguém pode fazer acréscimos à sabedoria de Deus ou lhe
dar algo que ele ainda não tenha — ou seja, a razão pela qual Deus é autossuficiente — é que “dele, e por
meio dele, e para ele são todas as coisas”. Como o Criador, Deus é a fonte de todo ser (“dele”). Não
somente todas as coisas procedem “dele”, como também suas atividades são realizadas “por meio dele”.
Ele trouxe todas as coisas à existência e, em sua providência, sustenta a existência de todas as coisas e as
governa, de modo que seus movimentos e desígnios são “por meio dele” — por meio de sua vontade e
de seu agir.
Paulo conclui que o clímax do criar (“dele”) e do governar (“por meio dele”) de Deus sobre todas as
coisas é que todas as coisas são “para ele”. Em grego, essa expressão (εἰς αὐτὸν) é idêntica à expressão
“para quem” em 1 Coríntios 8.6 (“Há um só Deus […] para quem [εἰς αὐτὸν] existimos”). Mas aqui, em
Romanos 11.36, Paulo define, para nós, o que significa a expressão “para ele [εἰς αὐτὸν] são todas as
coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”. O fato de que todas as coisas foram criadas e existem
“para Deus” significa que existem e são planejadas e governadas de tal maneira que Deus seja visto,
conhecido e adorado como glorioso para sempre.
O céu responde ao ato de criação de Deus da maneira que Deus tencionava quando criou todas as
coisas. E a resposta do céu é louvor. “Tu és digno […] de receber a glória […] porque todas as coisas tu
criaste”. Dizer que Deus recebe glória, honra e poder não significa que antes ele fosse carente de glória,
honra e poder. Significa que Deus recebeu o reconhecimento, a atribuição e a celebração da glória, da honra
e do poder que ele sempre teve. Seu ato de criação coloca essa glória em exibição (“Os céus proclamam a
glória de Deus”, Sl 19.1). As criaturas feitas à imagem de Deus veem essa glória, reconhecem
alegremente sua beleza e preciosidade, e lhe respondem com louvor, exultação e vidas edificadas em seu
valor supremo — e tudo isso atribui a Deus o que ele já é.
Sim, nós cantaremos “Tu és digno […] porque todas as coisas tu criaste” (Ap 4.11). Mas nos
moveremos dessa glória (sem ignorá-la) para a glória ainda maior da morte do Filho de Deus para
comprar pecadores. “Digno és […] porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que
procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9).
Precisamos dizer que tudo que afirmamos nos Capítulos 2 e 3 sobre louvar a Cristo como a
consumação de gozar a Cristo está implícito nos louvores da glória de Cristo em Apocalipse 4 e 5. O
propósito supremo de Deus em magnificar a glória de seu Filho em seus sofrimentos atingirá o clímax
quando a excelência de Cristo encontrar eco na alegria irrestrita de seu povo adorador.
Por causa da compra realizada por Cristo, o Espírito Santo é derramado sobre as pessoas compradas,
resultando em que são renovadas.
Essa renovação é outro nome para a “nova criação”. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). “Pois nem a circuncisão é
coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6.15). Toda pessoa comprada por Cristo,
quando o Espírito Santo a leva à fé e a renova, é um “novo homem que se refaz para o pleno
conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). Essa imagem é a imagem de Cristo, o
qual, por sua vez, é a imagem de Deus (٢Co ٤.٤ ;٣.١٨). Quando considerarmos essa obra
transformadora do Espírito no Novo Testamento, veremos que o brilho da glória de Cristo na vida da
nova criatura é, em seu âmago, o brilho de uma vida de alegria em Cristo, tão satisfatória que possibilita
todos os sacrifícios que revelam a beleza do amor de Cristo (veja Parte 3, Seção 8).
Uma diferença é que nosso chamado como novas criaturas em Cristo é para refletirmos, de forma
consciente, as belezas específicas do Cristo encarnado. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus
para boas obras” (Ef 2.10). Por toda a eternidade, o chamado dos redimidos será para viverem como
imagens de Cristo Jesus — não somente para refletirem Deus em geral, como no princípio, mas para
refletirem Cristo. “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do
Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3.18).
A glória de Deus e a glória do Filho de Deus na criação são uma só glória, assim como o alvo da
primeira criação por meio de Cristo e o alvo da nova criação em Cristo são uma única glória.
O homem foi colocado na terra para tornar célebre o nome de Deus, e não seu próprio nome. Assim,
de forma indireta, o propósito supremo de Deus é proclamado pelo fiasco dessa torre que exaltava o
homem e menosprezava Deus. Portanto, não deixo de lado esses capítulos por não terem nada com que
contribuir, mas simplesmente porque tenho de ser seletivo, visto que os discernimentos possíveis da
Escritura para nosso propósito são inesgotáveis.
Nos capítulos seguintes, olharemos a história de Israel do começo ao fim — de uma elevação de
10.000 metros, por assim dizer. Qual era o propósito supremo de Deus em escolher um povo étnico para
si mesmo e, em todas as providências misteriosas, até os dias de hoje, lidar com Israel de maneira
singular? Depois, nos Capítulos 6 a 10, desceremos dessa elevação de 10.000 metros e aterrissaremos em
alguns períodos específicos da história de Israel para vermos mais de perto como Deus expressa seu
propósito supremo em providência na história de Israel.
Veja o Capítulo 14, no qual constataremos que “a glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” e “a glória de Deus na face de Cristo” são
uma só glória (2Co 4.4-6).
Henry Alford, Alford’s Greek Testament: An Exegetical and Critical Commentary, vol. 3 (Grand Rapids, MI: Guardian Press, 1976), 234.
Seção 2 | O objetivo supremo da providência na
história de Israel
5 | Visão geral: de Abraão à era vindoura
Antes de estreitarmos as lentes de nosso foco para períodos específicos da história de Israel (o êxodo, a
entrega da lei, a conquista de Canaã, os juízes, a monarquia, o exílio), este capítulo abre as lentes de
nosso foco para toda a história de Israel — de Abraão à era vindoura — enquanto perguntamos: qual é o
objetivo supremo nesta história admirável da providência de Deus?
Apesar de Abrão servir a outros deuses, Deus o escolheu e lhe deu “por nome Abraão” (Ne 9.7).
Nesse encontro inicial, Deus lhe disse estas palavras importantíssimas:
De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.2-3).
Chamo essas palavras “importantíssimas” porque, no Novo Testamento, Paulo cita essa última
sentença (“em ti serão benditas todas as famílias da terra”), em Gálatas 3, para argumentar que até os
gentios que têm fé no Messias judaico herdarão a bênção de Abraão:
Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios,
preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos [Gn 12.3]. De modo que os da fé são abençoados
com o crente Abraão (Gl 3.7-9).
Em outras palavras, a morte do Messias dos judeus em favor de todos os pecadores que depositariam
sua fé nele resultou em que um mistério formidável se tornou verdadeiro. Esse mistério é “que os gentios
são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do
evangelho” (Ef 3.6). Ou, como Paulo diz em Gálatas 3.13-14: “Cristo nos resgatou da maldição da lei,
fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar […] para que a bênção de Abraão chegasse aos
gentios”. O propósito salvador de Deus para Israel, por intermédio do Messias, se torna um propósito
salvador para o mundo — para todo aquele que compartilha “da fé que teve Abraão” (Rm 4.16).
Em outras palavras, desde o começo da existência de Israel, sempre houve um verdadeiro Israel
(referido em outra passagem como um Israel espiritual ou interior — Rm 2.28-29), bem como um Israel
étnico e cultural. Esse verdadeiro Israel se caracteriza pela fé, razão pela qual os gentios que
compartilham a fé de Abraão podem fazer parte desse verdadeiro Israel:
Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência,
não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós…)
(Rm 4.16).
Isso também significa que o povo judeu que rejeitou o Messias, Jesus, não faz parte do verdadeiro
Israel:
Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em
Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser
considerados como descendência os filhos da promessa (Rm 9.6-8).
Portanto, ser filho “da carne” — ou seja, ser etnicamente judeu — não faz de você um filho de Deus.
Ser “descendência” física de Abraão não torna as pessoas filhos “de Abraão” no sentido espiritual e
salvífico. Nem todo o Israel é Israel. Mas alguns gentios podem ser “considerados descendência” por
meio da fé no Messias. Eles pertencem ao verdadeiro Israel.
Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão aquela que é somente na carne. Porém, judeu é aquele que
o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas
de Deus (Rm 2.28-29).
Eis a minha versão condensada desse sermão para chamar a atenção ao foco persistente em Deus
como o protagonista na história de Israel.
• “O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais” (13.17a).
• “[Deus] exaltou o povo durante sua peregrinação na terra do Egito” (13.17b).
• “[Deus] os tirou com braço poderoso” (13.17c).
• “[Deus] suportou-lhes os maus costumes por cerca de quarenta anos” (13.18).
• “Havendo [Deus] destruído sete nações na terra de Canaã” (13.19a).
• “Deu-lhes [Deus] essa terra por herança” (13.19b)
• “Depois disto, [Deus] lhes deu juízes, até o profeta Samuel” (13.20).
• “Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul” (13.21).
• “E [Deus], tendo tirado a este” (13.22a).
• “[Deus] levantou-lhes o rei Davi” (13.22b).
• “Da descendência deste […] trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus” (13.23a).
• “Conforme a promessa [de Deus]” (12.23a).
• “Irmãos […] a nós nos foi enviada [por Deus] a palavra desta salvação” (13.26).
• “Pois (….) as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas… cumpriram
as profecias [pela mão guiadora de Deus]” (13.27).
• “Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (At 13.30).
• “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita [por Deus] a nossos pais” (13.32).
• “Deus a cumpriu plenamente […] ressuscitando a Jesus” (13.33).
A ação onipresente de Deus é retratada nessa narrativa não somente pela frequência e a consistência
da ação de Deus, mas também pela maneira notável como Paulo fala sobre o cumprimento dessa história
em Jesus. Por exemplo, no versículo 27, ele sai de seu curso para mostrar que até mesmo os que não
conheciam a Deus — que não viviam em harmonia com Deus e não compreendiam as profecias da
Escritura — cumpriram essas mesmas profecias. Eles fizeram o que Deus planejou e profetizou:
Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem todos os
sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias.
Isso é admirável. Exatamente por não conhecerem as profecias, as autoridades as cumpriram! Qual é
o objetivo em dizer tal coisa? O objetivo é este: se uma pessoa lê e entende as profecias de Deus e as
cumpre, podemos concluir que ela escolheu ser um parceiro de Deus para cumprir as profecias. Mas, se
as autoridades não as conheciam e, apesar disso, agiram exatamente de acordo com elas, quem está
cuidando para que isso aconteça? Deus. Esse é o objetivo. Paulo quer que vejamos aqui que a história de
Israel é obra de Deus. É a providência divina.
21
A criação de Israel e, depois, a ampliação da ação redentora de Deus, por meio do Messias, para
incluir os gentios têm um único e mesmo propósito supremo. Essa continuidade entre o propósito de
Deus em criar Israel e criar a igreja do Novo Testamento é vista na maneira como o apóstolo Pedro usa
linguagem semelhante para descrever o propósito de Deus para a igreja, tal como Isaías fizera para
descrever o propósito de Deus para Israel:
Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).
Israel é destinado a “celebrar o louvor” de Deus (Is 43.21). A igreja é destinada a proclamar “as
virtudes” de Deus (1Pe 2.9).
Com base nesse mesmo contexto em Isaías, Jesus aplica Isaías 61.1 a si mesmo, em Lucas 4.18-19,
para mostrar que ele será o meio de Israel atingir finalmente essa condição futura. O Espírito do Senhor
estará sobre o Messias, Jesus,
para pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez
de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo SENHOR para a sua glória (Is 61.3).
Ao que “isso” se refere no versículo 13? “[…] isso será para o SENHOR por nome, por sinal eterno.” O
hebraico não é mais específico do que nossa tradução. Mas não acredito que o significado seja incerto.
“Isso” se refere a toda a situação: Israel sairá em paz e alegria; montes e outeiros cantarão; as árvores
baterão palmas; o cipreste substituirá o espinheiro; a murta substituirá a sarça. Tudo isso será “para o
SENHOR por nome”. Isso será sua reputação, a exibição de sua glória.
Mas o que é tudo isso? Muitos comentaristas ignoram a conexão totalmente crucial entre o nome de
Deus e o gozo do homem. Calvino comentou:
Quando diz que será “nome” para Deus, ele nos mostra qual é o propósito da restauração da igreja. É que o nome de Deus seja
mais ilustre entre os homens e que a lembrança dele floresça e seja mantida.22
Sim. Mas o que tornará esse nome “mais ilustre”? O que fará a “lembrança dele” florescer? E. J.
Young comenta:
O sujeito de será [“isso será para o SENHOR por nome”] é a própria gloriosa mudança. A preposição antes de Senhor pode ser
traduzida como por ou para; possivelmente esta última é preferível [“nome para o Senhor”]. O profeta está afirmando, agora que
abandonou sua linguagem figurada, que haverá mudança para a glória de seu autor. Será um nome ou um memorial porque sempre
trará à mente e exaltará o Nome de seu autor.23
Sim. Mas o que é essa “mudança” que “existirá para a glória de seu autor”?
O ensino totalmente crucial não é sobre montes, outeiros ou árvores. O ensino absolutamente
crucial é sobre a alegria e a paz do povo de Deus.
Porque, com alegria, saireis e, em paz, sereis guiados; […]; isso será para o SENHOR por nome, por sinal eterno, que nunca se
apagará.(Is 55.12-13 , ARC).
O garantir de Deus de nome para si mesmo e o garantir de Deus da alegria para seu povo são uma só
coisa.
Essa alegria é o nome de Deus — sua reputação, sua glória.
A razão pela qual a alegria de Israel é a glória de Deus é que toda a alegria de Israel nos dons de Deus é,
em essência, alegria nele mesmo. O Israel redimido clama: “Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha
alma se alegra no meu Deus” (Is 61.10). E a promessa é feita a Judá: “Tu te alegrarás no SENHOR e te
gloriarás no Santo de Israel” (Is 41.16).
A alegria de Israel — a nossa alegria — consistirá, parcialmente, em alegria no que Deus cria. As
coisas da criação são boas dádivas que devem ser recebidas com ações de graça e regozijo. Mas alegria em
Deus mesmo — em e por meio de (e, se necessário, sem) suas dádivas — é o que faz de nossa alegria final
um sinal de sua glória.
Vemos isso mais claramente em Habacuque 3.17-18:
Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as
ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha
salvação.
O objetivo aqui é mostrar que, por melhores, mais preciosos e inspiradores de alegria que sejam os
dons de Deus, não são o objetivo supremo da alma humana ou da obra redentora de Deus. É por essa
razão que concluo de Isaías 55.12-13 que o sinal supremo e final da glória de Deus — a demonstração
final e suprema do nome glorioso de Deus — será a alegria do povo de Deus em Deus. “Saireis” porque
ouvireis a glória de Deus no cantar dos montes e no bater palmas das árvores. Vereis nos magníficos
ciprestes, substituindo os miseráveis espinheiros, o belíssimo poder, sabedoria, justiça e misericórdia de
vosso Deus. E, como Habacuque, vocês exultarão em Deus mesmo. “Eu me alegro no Senhor, exulto no
Deus da minha salvação.” Provará e verão que, em e por meio de todos os dons maravilhosos de Deus, ele
mesmo é o tesouro de vida plenamente satisfatório: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua
destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).
O choro do povo de Deus cessa; o regozijo do coração dele se eleva. Isso não é um par coincidente. A
alegria final de Deus em nós é nossa alegria nele:
O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor,
regozijar-se-á em ti com júbilo (Sf 3.17).
A alegria se move em ambas as direções: de nós para Deus e de Deus para nós. A glória de Deus é
nossa alegria. E nossa alegria na glória de Deus é a alegria dele. Dessa maneira, a glorificação de Deus é o
objetivo supremo e final da existência de Israel, e esse objetivo inclui nossa exultação na glória de Deus e
a alegria dele nessa exultação.
DE UM ÂNGULO ABERTO PARA UM ÂNGULO ESTREITO
Nos capítulos seguintes da Parte 2, vamos nos mover do foco de ângulo aberto na história de Israel para
o foco de ângulo estreito nos períodos cruciais dessa história apresentados na Escritura. O evento do
êxodo e sua reverberação em todo o resto da história de Israel e na Bíblia são o foco dos Capítulos 6 e 7.
Além da encarnação do Messias, Jesus, nenhum outro evento na história de Israel tem tantas afirmações
de propósitos vinculadas a ele. O impacto do objetivo de Deus no êxodo é sentido em todo o restante da
Escritura, inclusive com um profundo impacto no apóstolo Paulo.
Quanto a uma narrativa semelhante, saturada de Deus, da história de Israel, veja Josué 24.1-13. Nessa passagem, o próprio Deus narra a
história de Israel em que humanos estavam realmente agindo, mas Deus afirma que ele mesmo era a causa determinante: “Eu, porém, tomei
Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência e lhe dei Isaque. A Isaque
dei Jacó e Esaú […] Então, enviei Moisés e Arão e feri o Egito com o que fiz no meio dele; e, depois, vos tirei de lá […] o SENHOR pôs
escuridão entre vós e os egípcios, e trouxe o mar sobre estes […] Eu vos trouxe à terra dos amorreus […]; porém os entreguei nas vossas
mãos […] e os destruí diante de vós […] vos livrei da sua mão [de Balaão] […] porém os entreguei nas vossas mãos. Enviei vespões
adiante de vós […] não com a tua espada, nem com o teu arco. Dei-vos a terra em que não trabalhastes”.
John Calvin e William Pringle, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, vol. 4 (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010), 174.
Edward Younq, The Book of Isaiah, Chapters 40–66, vol. 3 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1972), 385-86.
6 | O Êxodo
Mais do que qualquer outro evento na história de Israel, o êxodo do Egito moldou a adoração de Israel a
Deus como seu redentor, aquele que os escolheu, os salvou e fez deles um povo para si mesmo. De uma
forma que não surpreende, a Escritura expressa o objetivo supremo de Deus nos eventos do êxodo mais
clara e frequentemente do que qualquer outro evento na história de Israel. Isso é o que este capítulo
destaca — as expressões do objetivo de Deus no êxodo inseridas na própria história do êxodo. Em
seguida, no Capítulo 7, ampliaremos esse foco e veremos o objetivo supremo de Deus para o êxodo
expresso em toda a história de Israel e no Novo Testamento.
Deus revelou seu nome, “o SENHOR”, e seu significado: “EU SOU O QUE SOU”. Agora ele lhes mostrará,
“com grandes manifestações de julgamento” e libertação, que ele é “o SENHOR”. “Sabereis que eu sou o
SENHOR, vosso Deus.”
O propósito de Deus é não somente que Israel saiba quem seu Deus realmente é, mas também que
Faraó e os egípcios o saibam. “Faraó não vos ouvirá, para que as minhas maravilhas se multipliquem na terra
do Egito” (Êx 11.9; cf. 10.1). Com que propósito? “Saberão os egípcios que eu sou o SENHOR, quando
estender eu a mão sobre o Egito e tirar do meio deles os filhos de Israel” (Êx 7.5).
E todas as pragas que conduziram ao livramento tinham o mesmo propósito. As rãs: “Para que saibas
que ninguém há como o SENHOR, nosso Deus” (Êx 8.10). As moscas: “E saibas que eu sou o SENHOR no
meio desta terra” (Êx ٨.٢٢). Todas as pragas: “Enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração
[Faraó], e sobre os teus oficiais, e sobre o teu povo, para que saibas que não há quem me seja semelhante
em toda a terra” (Êx 9.14). E, no livramento final através do mar Vermelho, “saberão os egípcios que eu sou
o SENHOR […] e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR” (Êx 14.4, 18).
Portanto, quando Deus disse a Faraó: “Para isso te hei mantido […] para que seja o meu nome
anunciado em toda a terra” (Êx 9.16), podemos crer que Deus tinha em mente a fé de Raabe, bem como
milhares de outros efeitos. Seu propósito era ampliar sua reputação — tornar seu nome conhecido entre
as nações —, tendo em vista o efeito de que aqueles que vissem seu nome como glorioso o adorassem
com esperança e alegria.
Endurecerei o coração dos egípcios, para que vos sigam e entrem nele; serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus
carros e nos seus cavalarianos; e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos
seus cavalarianos (Êx 14.17-18).
A forma passiva “serei glorificado” não especifica quem é que está glorificando a Deus. Não há razão
para restringir isso a Israel ou aos egípcios. Deus já havia afirmado seu objetivo: “Para que seja o meu
nome anunciado em toda a terra” (Êx 9.16). Portanto, podemos admitir que esse objetivo de ser
glorificado é tão amplo quanto o alvo de que o nome de Deus se torne conhecido.
Quando Deus tenciona, como o faz em Êxodo 14.4 e 17, “ser glorificado” por causa de seu triunfo
maravilhoso sobre Faraó, seu objetivo é que seu “nome” seja “anunciado em toda a terra” (Êx 9.16) —
ou seja, que “todas as nações que fizeste” venham e prostrem-se “diante de ti, Senhor”, e glorifiquem “o teu
nome”.
Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações (Sl 67.4).
Outra razão para eu dizer que o objetivo supremo de Deus no êxodo é ser adorado alegremente, e não
somente admirado relutantemente por seus inimigos, é que isso foi o que Moisés, Israel e Miriã fizeram
em resposta imediata ao afogamento de Faraó, por Deus, no mar Vermelho.
Deus disse: Serei “glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavalarianos” (Êx 14.18). E, mais
adiante no texto, a resposta do povo de Israel, quando “viu […] o grande poder que o SENHOR
exercitara contra os egípcios”, foi que “o povo temeu ao SENHOR e confiou no SENHOR e em Moisés, seu
servo” (Êx 14.31). Esse temor não foi um terror paralisante, mas confiança com tremor (como o que
uma criança sente quando seu pai a envolve em seus braços por medo da correnteza do mar). Ela, ao
mesmo tempo, treme e sorri.
Moisés e o povo de Israel cantaram este cântico ao SENHOR, dizendo:
Cantarei ao SENHOR, porque triunfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro. O SENHOR é a minha força e o
meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu Deus; portanto, eu o louvarei; ele é o Deus de meu pai; por isso, o exaltarei. O
SENHOR é homem de guerra; SENHOR é o seu nome (Êx ٣-١٥.١).
Eles cantaram ao Senhor. Louvaram o Senhor. Exaltaram o Senhor. E, quando o cântico acabou,
“Miriã […] tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças”
(Êx 15.20).
E Miriã lhes respondia em cântico:
Cantai ao SENHOR, porque gloriosamente triunfou e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro (Êx 15.21).
Todo esse cantar ao Senhor, louvar o Senhor e exaltar o Senhor em resposta ao afogamento dos
cavalos e dos cavaleiros no mar, tudo isso tem o propósito de nos mostrar qual era o objetivo de Deus ao
dizer: Serei “glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavalarianos” (Êx 14.18). Seu objetivo era a
adoração exultante da grandeza de sua glória. Foi por essa razão que ele multiplicou suas maravilhas na
terra do Egito (Êx 11.9). Foi por isso que o êxodo aconteceu.
Terminamos o Capítulo 6 com o argumento de que o objetivo de Deus no êxodo era não somente que
seu grande nome (Iavé, com tudo o que ele sugere) fosse conhecido e reconhecido, mas também que
fosse alegremente adorado. O êxodo tinha como alvo não somente a admiração relutante de Faraó e das
nações, mas também, em especial, o louvor exultante por todo o panorama das excelências de Deus.
Sabemos isso tanto pelas razões que apresentamos no Capítulo 6 como pelo fato de que, na providência
de Deus, o êxodo desencadeou séculos de respostas adoradoras e jubilosas na história de Israel que se
estendem por todo o Antigo Testamento, o Novo Testamento – e até à eternidade. Este capítulo é uma
amostra dessas respostas.
Deus os conduziu com alegria! Deus fez isso. Esse era seu objetivo. Ele criaria para si mesmo um
nome global (Êx 9.16), e seu povo exultaria nessa autoexaltação divina. Esse era o propósito do êxodo e,
centenas de anos depois, ainda estava produzindo fruto na adoração jubilosa.
Eis a essência do que estamos vemos repetidas vezes no propósito supremo da providência de Deus:
eles “foram rebeldes junto ao […] mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer
notório o seu poder” (Sl 106.7-8). Então, para quem foi o êxodo: para Israel ou para Deus? Ele os salvou.
Por amor ao seu nome! Para tornar conhecido seu poder! Para ambos. Foi para Israel. Foi para Deus.
Mas não foi para Israel e para Deus no mesmo sentido. Foi para a salvação de Israel. Foi para a
reputação de Deus. Mostrou a necessidade desesperadora e a condição indigna de Israel. Mostrou o
tremendo poder de Deus e sua graça maravilhosa. Satisfez a Israel com o êxtase grato de que sua
necessidade foi satisfeita por Deus. Magnificou a Deus pelo fato de que ele foi capaz e se mostrou
disposto a satisfazer essa necessidade. Israel recebeu a bênção da ajuda. Deus recebeu a honra de ser o
ajudador poderoso. Israel obteve a alegria. Deus recebeu a glória.
Como já vimos, nossa alegria e a glória de Deus não são objetivos separáveis da providência de Deus.
Estão entretecidos em um único alvo. A reverberação contínua da glória de Deus no êxodo acontece na
adoração jubilosa do povo de Deus em face dessa glória. A alegria de Israel em seu Deus gracioso,
poderoso e libertador é o eco da glória de Deus no êxodo. O objetivo de Deus de ser glorificado e seu
objetivo de que seu povo seja satisfeito nessa glória não estão separados entre si. Israel ser satisfeito no
Deus do êxodo é a essência de como o Deus do êxodo é glorificado em Israel. Esse é o objetivo supremo
da providência de Deus, o alvo que estamos vendo repetidamente.
Deus manifestou o seu braço glorioso ( )ֶת ָר ְא ׅפ תּa fim de criar para si mesmo um nome glorioso (
)ֶת ָר ְא ׅפ תּ, — não é a palavra usual para expressar glória (— )דוָֹב כּ, significando beleza, ornamento,
brilho, esplendor. Por quê? A fim de criar “para si um nome eterno” (63.12). Ou, como Isaías diz no final:
“Para te criares um nome glorioso” (63.14).
E o que Deus estava fazendo para criar esse nome glorioso? Estava fazendo seu povo subir do mar.
Pastoreando-os como um rebanho. Dando-lhes seu Espírito Santo. Guiando-os pelos abismos. Não
permitindo que tropeçassem. Dando-lhes descanso. Em outras palavras, o mesmo padrão que já vimos:
eles recebem a salvação; Deus recebe a reputação. Eles recebem a alegria de ser ajudados. Deus recebe a
glória de ajudar. O nome que Deus estava criando para si mesmo era Iavé — Eu sou o que sou —, ser
absoluto, todo-suficiente e todo-glorioso! Mas tudo isso foi realizado em benefício de um povo sem
esperança e indigno. Para aqueles que tinham olhos para ver, Deus estava criando um nome para a glória
de sua graça.
DA ESCRAVIDÃO À ABUNDÂNCIA
POR CAUSA DO NOME DE DEUS
O profeta Jeremias viu o mesmo objetivo da providência divina no êxodo:
Tu puseste sinais e maravilhas na terra do Egito até ao dia de hoje, tanto em Israel como entre outros homens; e te fizeste um nome,
qual o que tens neste dia. Tiraste o teu povo de Israel da terra do Egito, com sinais e maravilhas, com mão poderosa e braço
estendido e com grande espanto; e lhe deste esta terra, que com juramento prometeste a seus pais, terra que mana leite e mel (Jr
32.20-22).
O objetivo de Deus no êxodo era fazer um nome para si mesmo. Qual é esse nome? Do contexto,
poderíamos dizer que o nome de Deus é seu caráter como um Deus com uma mão forte e um braço
estendido, com grande terror, para mostrar sinais e maravilhas e trazer seu povo de uma terra de aflição
para uma terra que mana leite e mel. A glória do nome de Deus é seu poder, sabedoria, justiça e
misericórdia trazendo um povo da escravidão para a abundância. Seu objetivo é que seu povo veja essa
glória e adore com alegria.
O discernimento que os levitas nos mostram claramente é que parte do que significou Deus fazer um
nome para si mesmo, no êxodo, foi lidar, de forma justa, contra a arrogância dos líderes do Egito:
“Porque soubeste que os trataram com soberba”. Isso não somente explica a justiça de Deus na maneira
como ele lidou com Faraó, como também coloca em destaque a graça que Deus estava mostrando a
Israel no êxodo, porque eles também eram soberbos. Devemos lembrar Salmos 106.7-8:
Nossos pais, no Egito, não atentaram às tuas maravilhas; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias e foram rebeldes
junto ao mar, o mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer notório o seu poder.
A situação não era que o Egito merecesse ser julgado por sua arrogância, enquanto Israel merecia ser
salvo por sua justiça. Nenhum dos dois merecia ser salvo. Mas Deus escolheu livremente salvar Israel.
A escolha de Abraão, no começo da história de Israel, não aconteceu por causa de quaisquer
constrangimentos que Deus sentiu exteriormente. Ele não teve de escolher Israel. Ele poderia ter
escolhido qualquer outra nação. Poderia não haver escolhido nação alguma. Essa é a de se dizer “Eis que
os céus e os céus dos céus são do SENHOR, teu Deus, a terra e tudo o que nela há” (10.14). Deus possui
cada pessoa, e poderia ter escolhido quem ele quisesse. O essencial é que sua escolha de Israel foi
totalmente livre. Deus simplesmente se deleitou em amá-los. Não foi por causa de fé ou justiça superior
deles. Fé foi uma resposta à escolha de Deus, e não a causa (Gn 15.6).
Por isso, no êxodo, quando Deus escolheu salvar Israel, e não o Egito, embora ambos fossem
rebeldes (Ne 9.10; Sl 106.7), sua escolha foi uma extensão dessa mesma livre graça que ele manifestou
para com Israel no começo, quando escolheu Abraão entre todas as pessoas do mundo. A aliança de
Deus não o obriga a salvar qualquer geração específica de israelitas incrédulos.
Qualquer geração que se vanglorie das misericórdias da aliança de Deus como se não pudesse ser
condenada deveria ouvir a mensagem de João Batista dirigida àqueles que diziam (presunçosamente):
“Temos por pai a Abraão”. João lhes disse: “Destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3.9).
Em outras palavras, a soberania de Deus o livra de ser manipulado ou coagido por sua própria aliança.
Isso foi verdadeiro no Egito, por ocasião do êxodo, como o foi também mais tarde, em Jerusalém, na
primeira vinda de Cristo. O êxodo foi uma obra de livre graça para fazer um nome para Iavé. Ou, como
Paulo diria, o êxodo foi para “para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6).
O nome que Deus fez para si mesmo no êxodo tinha suas raízes no nome que ele mesmo revelou:
“EU SOU O QUE SOU”. Esse nome significa liberdade: “Não estou preso a coisa alguma fora de mim
mesmo. Eu sou aquele que meu próprio conselho sábio e autoconsulente determina que eu seja (Ef
1.11). Eu sou livre”. No êxodo, Deus fez um nome para si mesmo ao agir como um Deus de graça
absolutamente livre. Ou seja, ele mostrou seu poder salvador em favor de um povo (Israel) que, à
semelhança dos egípcios, não merecia salvação. Deus é quem ele é e salva quem ele quer salvar — essa é
a liberdade da graça. Por trás do nome que Deus faz para si mesmo, está o nome que ele é em si mesmo:
“EU SOU O QUE SOU”.
Na verdade, as palavras “que diremos” não existem no original. A frase é uma extensa oração
condicional sem a oração principal. Espera-se que acrescentemos a parte ausente. Eis a minha sugestão
quanto ao que devemos acrescentar: “Se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder,
suportou com tanta longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também
desse a conhecer as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia, que, para a glória, preparou de
antemão […] então, nenhuma objeção legítima pode ser levantada”. Isso é o que a tradução “que diremos”
também sugere. “Se eu tiver este propósito de mostrar minha ira e meu poder? Se eu quiser fazer isso,
vocês acharão falta em mim?” Esse é o argumento que Paulo expõe nos versículos 20-21: o oleiro tem
direito de mostrar seu poder e sua sabedoria de qualquer forma que considere melhor para realizar seus
propósitos. 25
Portanto, o argumento básico de Paulo para a razão pela qual é certo Deus agir com liberdade — ter
misericórdia de quem ele quiser e endurecer a quem ele quiser (9.18) — é que o propósito supremo de
mostrar ira e poder (como na derrota de Faraó) é “que também desse a conhecer as riquezas da sua glória
em vasos de misericórdia”. A livre justiça de Deus no endurecimento de Faraó faz a liberdade da
misericórdia de Deus refulgir mais brilhantemente nos vasos de misericórdia.
No caso do êxodo, isso significa que, se tanto Israel como o Egito mereciam nada mais nada menos
que julgamento, a demonstração da ira e do poder de Deus contra os egípcios foi tanto justa, por causa
da soberba do Egito (Ne 9.10), como misericordiosa, por causa da rebeldia de Israel (Sl 106.7). Deus era
livre para endurecer a quem ele quisesse e ter misericórdia de quem resolvesse ter misericórdia (Rm
9.18). Porque Deus julgou justamente Faraó, as riquezas da glória de sua misericórdia brilham muito
mais intensamente em Israel. Eles não mereciam nada melhor do que o que Faraó merecia. Mas
receberam misericórdia — livremente.
O OBJETIVO SUPREMO DO ÊXODO: GRAÇA GRATUITA
PARA A GLÓRIA DE DEUS
Estaríamos corretos em dizer que o propósito supremo de Deus no êxodo era que ele fosse glorificado
(Êx 14.4, 17), para fazer um nome para si mesmo (Êx 9.16; Ne 9.10; Is 63.14; Jr 32.20). Mais
especificamente, Deus fez um nome para si mesmo ao vivenciar o significado do nome que ele revelara
no começo da história (Iavé): “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14), “EU SOU O QUE SOU” se torna “Eu salvo
quem eu quiser salvar” e “Eu julgo quem eu quiser julgar”. Ou, como Romanos 9 diz, “Terei misericórdia
de quem me aprouver ter misericórdia” (9.15), e ele “endurece a quem lhe apraz” (9.18).
Em outras palavras, a providência de Deus no êxodo (ou em qualquer outro evento) é final e
decisivamente governada não por vontade ou esforço humano (٩.١٦), mas, sim, pela própria vontade
autodeterminante de Deus. Ele é livre. Ele é o que é — e não o que outros pensam dele. E Deus faz o que
faz — e não o que outros o constrangem a fazer. Em sua liberdade, Deus nunca é injusto, porque nunca
trata ninguém em pior medida do que merece. E sua graça é sempre livre, totalmente livre. Esse é o
nome que ele almeja glorificar. Seu nome — seu caráter essencial — é que ele é o Deus que salva por
causa de si mesmo, ou seja, para a glória de sua graça. Seu objetivo no êxodo — e em toda a sua obra de
salvação — é ser louvado para a glória de sua graça “em toda a terra” (Êx 9.16; Rm 9.17).
Para uma discussão sobre o entendimento de Paulo quanto à diferença entre o verdadeiro Israel e o Israel étnico, e como esse verdadeiro,
ou interior, ou espiritual, Israel (Rm 2.28-29) se relaciona com os gentios crentes no Messias, veja o Capítulo 5.
Compreendo que esse foi um resumo muito breve de Romanos 9.1-23. Se você deseja ver uma argumentação mais completa, escrevi um
livro inteiro sobre esses 23 versículos: John Piper, The Justification of God: An Exegetical and Theological Study of Romans 9:1–23 (Grand
Rapids, MI: Baker Academic, 1983). Muitos eruditos afirmam que esses versículos nada têm a ver com pessoas ou com destinos eternos,
mas somente com experiências temporais e grupos coletivos. Considero essas afirmações exegeticamente equivocadas. Eles simplesmente
não conseguem lidar com o problema crucial e central levantado no versículo 2, ou seja, o problema de que os israelitas individuais são
anátemas e separados de Cristo. O assunto se refere realmente a destinos eternos e a indivíduos em Israel, e não somente às pessoas como
um todo. De fato, a solução de Paulo para o aparente fracasso de Deus em cumprir suas promessas é insistir em que nem todos do Israel
coletivo são verdadeiramente filhos de Deus. O texto começa (vv. 2 a 6) e termina (v. 24) com a ênfase em Deus escolher indivíduos
“dentre os judeus, mas também dentre os gentios”. O texto é, de uma forma surpreendente, sobre indivíduos e seu destino eterno.
8 | A Lei, o deserto e a conquista de Canaã
“No terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia desse mês, vieram ao
deserto do Sinai” (Êx 19.1). Se o êxodo reverberou em toda a história de adoração de Israel como a
grande exaltação da glória de Deus em livramento gracioso, então a entrega da Lei no monte Sinai
reverberou ainda mais na vida comum de Israel como a Constituição exaustiva de sua existência.
Em outras palavras, “Israel, sua travessia do mar Vermelho por minha intervenção foi miraculosa e
maravilhosa, como se você tivesse deixado o Egito nas asas de uma águia. Vocês eram tão desamparados
quanto filhotes de águia; e eu fui poderoso o suficiente para levar a nação inteira em minhas asas. O meu
livramento foi impressionante. E acrescentem a isso outras duas maravilhas: primeira, vocês não
mereciam nada disso (Sl 106.7); segunda, eu lhes trouxe para desfrutar o melhor tesouro do universo: a
mim mesmo. Eu ‘vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim’ (Êx ١٩.٤). Lembrem-se das palavras
que falei por intermédio de Moisés no êxodo”:
Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas
do Egito (Êx 6.7).
O êxodo foi uma espécie de ratificação da escolha original de Deus alusiva a Abraão e seus
descendentes (Gn 12.1-3), para serem “a minha propriedade peculiar” (Êx 19.5). Quarenta anos depois,
às portas da terra prometida, Deus falou a Israel: “Mas o SENHOR vos tomou e vos tirou da fornalha de
ferro do Egito, para que lhe sejais povo de herança, como hoje se vê” (Dt 4.20).
Depois, quando Deus entregou a Moisés a essência da lei no monte Sinai — os Dez Mandamentos
—, suas primeiras palavras reafirmaram a conexão entre o êxodo e os mandamentos:
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim (Êx 20.2-
3).
A PRIMEIRA PRIORIDADE DE DEUS
NA LEI: SUA SUPREMACIA
Em face do que vimos nos Capítulos 6 e 7 sobre o objetivo supremo da providência no êxodo, não
ficamos surpresos com o fato de que a primeira prioridade de Deus em sua Constituição para a vida de
Israel seja que ele é seu Deus supremo. “Não terás outros deuses diante de mim.” O principal alvo de
Deus no êxodo era que Israel (Êx 6.7) e o Egito (Êx 7.5) soubessem que ele é o Deus único e supremo
— Iavé, aquele que absolutamente é (Êx 3.14). “E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR [Iavé]
quando for glorificado em Faraó” (Êx 14.18).
Esse propósito divino, agora, é inserido na lei de Israel e estabelecido como o alicerce da vida coletiva
da nação. Isso não é o homem exigindo que Deus seja supremo; é Deus exigindo que Deus seja supremo.
A autoexaltação de Deus não poderia ser mais intimamente entretecida na estrutura da vida coletiva de
Israel do que neste primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”.
O primeiro mandamento era “Não terás outros deuses diante de mim” (20.3). Mas em que sentido
Deus quer dizer “diante de mim”? O segundo mandamento esclarece: “Eu sou o SENHOR, teu Deus,
Deus zeloso” (Êx 20.5). Em outras palavras, “Você, Israel, é a minha esposa (Jr 2.2; Ez 16.8). Se seu
coração seguir qualquer outro ser, eu fico irado; e fazer isso é parte de minha santidade (Js 24.19; Ez
39.25). Seu coração, sua lealdade suprema, seu amor, sua afeição, sua devoção, sua satisfação, tudo
pertence, supremamente, a mim”.
Portanto, o objetivo do primeiro mandamento (“Não terás outros deuses diante de mim”) era não
somente reivindicar que Deus fosse supremamente exaltado em Israel, mas também que Israel fosse
supremamente satisfeito em Deus. Quando uma esposa é plenamente satisfeita em seu esposo e não
busca satisfação em nenhum outro, ela exalta o valor de seu esposo, e o ciúme dele nunca é despertado.
A suprema alegria dela em seu marido é sua exaltação do valor dele. Essa exaltação é o objetivo dos dois
primeiros mandamentos da lei.
Em essência, o primeiro e o último dos Dez Mandamentos exigem a mesma coisa. Paulo explicitou
essa conexão em Colossenses 3.5: “A avareza [cobiça – o décimo mandamento] […] é idolatria [o
primeiro mandamento]”. O primeiro mandamento (“Não terás outros deuses diante de mim”) exige:
“Você sempre me terá como supremo em suas afeições. Você se deleitará em mim mais do que em
qualquer pretendente que aparecer. Nada apelará a você mais do que eu mesmo. Tenha-me como seu
tesouro supremo e contente-se em mim”.
O décimo mandamento (“Não cobiçarás”) exige: “Não deseje coisa alguma além de mim, de
maneira tal que o desejo enfraqueça sua satisfação em mim. Permita que todos os seus desejos por meus
dons sejam expressões de seu desejo por mais de mim”. A maneira de Agostinho expressar isso foi orar:
“Pouco te ama aquele que ama a ti e, ao mesmo tempo, ama qualquer outra coisa não por amor a ti”. 27
O ALVO DA PROVIDÊNCIA
E O CAMINHO DE TODA OBEDIÊNCIA
A partir desse entendimento sobre os Dez Mandamentos, chego a duas conclusões relevantes para nosso
propósito neste livro. A primeira é que Deus cuidou para que seu alvo supremo na providência fosse
inserido no âmago da Constituição escrita de Israel. Esse alvo é que seu valor e sua beleza sejam
magnificados acima de todas as coisas na adoração sincera de suas excelências por parte de seu povo. Ou,
dito de outra maneira, o alvo da providência de Deus, agora estabelecido no âmago de sua lei, é que ele
seja exaltado como o maior tesouro nas afeições alegres de seu povo — que ele seja supremamente
glorificado por sermos profundamente satisfeitos nele.
A segunda conclusão a que chego a partir desse entendimento sobre o primeiro e o último dos Dez
Mandamentos é que Deus tenciona que se obedeça aos outros mandamentos com base no primeiro e no
último. O fato de que os outros mandamentos estão entre o primeiro e o último não é insignificante. O
começo e o fim da lei de Israel consistem em que Deus seja exaltado como supremo na satisfação mais
profunda de seu povo nele.
Portanto, estou argumentando que o objetivo de Deus em começar e terminar os Dez Mandamentos
com esse coração alegre e exaltador é que toda obediência flua desse tipo de coração. Obediência
relutante não faz Deus parecer grande. Ou, em outras palavras: servir ao “SENHOR com alegria” (Sl
100.2) é um resumo da lei. Somente esse tipo de servir mostra que nosso Deus é nosso tesouro mais
elevado e nosso prazer mais excelente. Portanto, o objetivo supremo da providência está inserido no
âmago da lei.
GRAÇA NO DESERTO PARA A GLÓRIA DE DEUS
A desobediência de Israel à lei de Deus caracterizou sua história desde o começo. Foi um pano de fundo
sombrio no mar Vermelho e fez do êxodo uma admirável manifestação de graça (Sl 106.7-8). Continuou
no incidente do bezerro de ouro (Êx 32) e durante a peregrinação no deserto. Às portas da terra
prometida, pouco antes de Deus fazer o povo voltar para mais quarenta anos de peregrinação, ele disse:
Porém, tão certo como eu vivo, e como toda a terra se encherá da glória do SENHOR, nenhum dos homens que, tendo visto a
minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, todavia, me puseram à prova já dez vezes e não obedeceram à minha
voz, nenhum deles verá a terra que, com juramento, prometi a seus pais, sim, nenhum daqueles que me desprezaram a verá (Nm
14.21-23).
Desde o dia em que saístes do Egito até que chegastes a este lugar, rebeldes fostes contra o SENHOR (Dt 9.7).
Por que, então, Israel não foi destruído no deserto? Pela mesma razão pela qual não foi destruído no
Egito. Oitocentos anos depois do êxodo, quando o profeta Ezequiel considerava a providência de Deus
na história de Israel, ele associou o propósito de Deus no êxodo ao propósito de Deus na experiência de
Israel no deserto. E os descreveu de maneira idêntica. Sua ênfase foi que Israel era pecaminoso e indigno,
mas Deus os salvou no êxodo e no deserto pela mesma razão: seu objetivo supremo. Ele os salvou por
amor ao seu nome.
Citando Deus, Ezequiel descreve o propósito da providência de Deus no êxodo como temos visto:
Rebelaram-se contra mim e não me quiseram ouvir… Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir a
minha ira contra eles, no meio da terra do Egito. O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das
nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito . Tirei-os da terra do
Egito e os levei para o deserto (Ez 20.8-10).
Depois, ele volta a citar o Senhor, com palavras quase idênticas, para descrever o propósito de sua
providência na experiência de Israel no deserto:
A casa de Israel se rebelou contra mim no deserto […] Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor no deserto, para os
consumir. O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante as quais os fiz sair (Ez
20.13-14).
Oito versículos à frente, ele repete a si mesmo para garantir que a verdade seja clara e convincente:
Mas também os filhos se rebelaram contra mim […] Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra
eles a minha ira no deserto. Mas detive a mão e o fiz por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante
as quais os fiz sair (Ez 20.21-22).
Ezequiel tenciona que vejamos a conexão entre a graça de Deus — não derramar sua ira sobre Israel,
embora merecessem isso — e seu compromisso com a glória de seu próprio nome. A conexão é que sua
graça restritiva de ira alcançou Israel por causa do seu compromisso invariável com seu nome. Nesse
caso, especificamente, Deus teve preocupação com a glória de seu nome entre as nações — “para que
não fosse profanado diante das nações” (20.9, 14, 22).
Somos advertidos outra vez a não pensar no propósito de autoexaltação de Deus como algo que, de
alguma maneira, esteja em desacordo com seu propósito de ser misericordioso. A autoexaltação de Deus
foi o fundamento da exultação imerecida de Israel. Se tivessem olhos para ver, eles se teriam regozijado
na glória da graça de Deus que o levou a poupá-los.
No êxodo, Deus dividiu o mar Vermelho e derrotou Faraó, “a fim de mostrar-te o meu poder, e para
que seja o meu nome anunciado em toda a terra” (Êx 9.16). De modo semelhante, ele dividiu o rio
Jordão e levou seu povo para uma nova terra, “para que todos os povos da terra conheçam que a mão do
SENHOR é forte” (Js 4.24).
Vez após vez, Deus lembrou a Israel que eles não mereciam suas bênçãos, assim como os egípcios e
os cananeus não as mereciam. Eles mereciam ser julgados e destruídos, assim como os povos pagãos —
talvez ainda mais por causa de sua rebelião contra Deus, apesar de todos os seus benefícios (Nm 14.11).
Mas Deus escolheu livremente fazer um nome para si mesmo ao derramar graça imerecida sobre Israel e
justiça bem-merecida sobre as nações perversas de Canaã, cujos pecados haviam, finalmente, enchido a
medida (Gn 15.16). Ou, como o apóstolo Paulo diria, Deus estava tornando conhecidos sua ira e seu
poder, a fim de tornar conhecidas as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia (Rm 9.22-23). 28
E que experiência no coração de seu povo Deus estava almejando em todos esses julgamentos sobre
seus inimigos e todas essas bênçãos sobre seu povo? Qual era o propósito de Deus para Israel nessa nova
terra, onde “nem uma só promessa caiu de todas as boas palavras que falou de vós o SENHOR, vosso
Deus” (Js 23.14; cf. 21.45)?
A resposta é que eles amassem o Senhor! “Empenhai-vos em guardar a vossa alma, para amardes o
SENHOR, vosso Deus” (23.11). Sim, Deus tencionava que eles guardassem “o mandamento e a lei” (Js
22.5) — o que, como já vimos, ao lidarmos com os Dez Mandamentos, significa “servir ao Senhor com
alegria”. O âmago do objetivo de Deus para a experiência de seu povo estava nesta grande inferência:
porque Deus luta tão misericordiosamente por vocês, “guardem diligentemente a alma de vocês para
amarem Iavé, o Deus de vocês” (23.11 — tradução do autor). Ou, como Josué 22.5 diz, “Acheguem-se a
ele e […] sirvam-no de todo o vosso coração e de toda a vossa alma”.
Amar, achegar-se, servir: essa é a descrição não de um escravo miserável, mas de um filho feliz.
Feliz és tu, ó Israel! Quem é como tu? Povo salvo pelo SENHOR, escudo que te socorre, espada que te dá alteza. Assim, os teus
inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás os seus altos (Dt 33.29).
O propósito da providência de Deus na conquista de Canaã era colocar em exibição seu poder e seu
nome em justiça e misericórdia, para que seu povo ficasse admirado com a liberdade e a glória de sua
graça. Depois, com essa admiração humilde e estonteante diante da poderosa graça de Deus, que eles se
achegassem a Deus como sua vida (Dt 30.20) e servissem a ele para sempre, de maneira que deixasse
evidente que Deus é um tesouro plenamente satisfatório. O propósito da providência de Deus era que sua
glória fosse exaltada, na medida em que seu povo o valorizasse e se satisfizesse nele como sua herança
suprema (Sl 73.26). Isso é o que significava achegar-se a ele e servir a ele de todo o coração e de toda a
alma (Js 22.5).
Essas reflexões sobre o primeiro e o último dos Dez Mandamentos não são novas. Em várias ocasiões, escrevi e falei sobre essa relação. A
fraseologia usada aqui foi emprestada, em parte, de John Piper, Living in the Light with Money, Sex, and Power (Charlotte, NC: Good Book
Company, 2016), cap. 3.
Infelizmente, o objetivo de Deus de que seu nome fosse exaltado entre as nações quando Israel se
achegasse a ele em amor satisfeito (Js 4.24; 22.5) não é a maneira como a história acontece. Não ainda.
O poder do pecado parece desenfreado. Clama por uma solução que nunca surge no Antigo
Testamento. Existem apenas amostras e antevisões que apontam para um Messias vindouro que lidará
com o pecado da maneira mais impensável, porém decisiva (Is 53.4-6). Mas, por ora, com o fim da
geração de Josué, Israel desce progressivamente rumo à anarquia durante o tempo dos juízes. “Naqueles
dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6; 21.25). “Fizeram os filhos
de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins” (Jz 2.11).
No entanto, Deus tencionava realmente tornar bastante clara sua paciência, sua misericórdia e seu
poder. Destacamos uma ocasião notável em que Deus revela zelo imutável por sua glória na realização de
sua misericórdia salvadora — a história de Gideão.
A essência do pecado consiste em minimizar Deus e exaltar o ego. Em outras palavras, a essência do
pecado é orgulho. O que torna a autoexaltação humana tão má é a dupla tragédia de que Deus é
depreciado e os seres humanos são destruídos. Jesus deixou isso bem claro:
Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus (Mt 18.3-4).
Evidentemente, essa mensagem básica, entre todas as outras, foi afirmada com clareza, de inúmeras
maneiras, no Antigo Testamento. Em face da arrogância de Faraó (Ne 9.10), Moisés disse: “Até quando
recusarás humilhar-te perante mim?” (Êx 10.3). Faraó é um dos muitos exemplos dessa verdade:
A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda. Melhor é ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o
despojo com os soberbos. (Pv 16.18-19).
Depois que o orgulho do Egito foi punido no êxodo, Deus cuidou de seu povo pecaminoso no
deserto e Moisés deixou bem claro para eles que o objetivo de Deus era “te humilhar […] te provar, e,
afinal, te fazer bem” (Dt 8.16). Isso era o que Deus estava prestes a fazer por meio de Gideão, no livro de
Juízes. Deus tencionava silenciar, por seu poder e por meio de Gideão, o orgulho de Israel.
Ele reduziu o exército de Gideão, de trinta e dois mil para dez mil homens, para Israel não “se gloriar
contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou” (Jz 7.2). Mas dez mil ainda era muito. Por isso,
Deus ordenou a Gideão que levasse os dez mil até às águas e os fizesse beber. Em seguida, Deus lhes
falou: “Com estes trezentos homens que lamberam a água eu vos livrarei, e entregarei os midianitas nas
tuas mãos” (7.7). Isso não aconteceu porque os midianitas eram um exército pequeno. O número deles
era incalculável: “Os midianitas, os amalequitas e todos os povos do Oriente cobriam o vale como
gafanhotos em multidão; e eram os seus camelos em multidão inumerável como a areia que há na praia
do mar” (7.12).
Com esses trezentos homens, Deus venceu os midianitas (7.22). Ele já havia assegurado isso — para
aqueles que tinham ouvidos para ouvir. Em essência, Deus estava dizendo: “Eu me oponho à arrogância
de Israel, que exulta em sua grandeza, e não na minha. Meu nome, meu poder e minha glória serão
exaltados em meu povo. Eu não salvo vocês para que se esqueçam de mim. Eu os salvo para que me
louvem. Se não veem isso em minha misericórdia e em meu poder, e voltam repetidamente aos seus
pecados, então vejam pelo menos desta vez na vitória de Gideão”.
Na verdade, Deus estava dizendo: “Os inimigos de vocês eram inumeráveis como gafanhotos, mas eu
livrei vocês com trezentos homens. Israel, você entende? Fiz isso para silenciar a vanglória de vocês
(“Israel poderia gloriar-se contra mim, dizendo: A minha própria mão me livrou” — v. 2). Meu objetivo
era humilhá-los para que vissem que eu sou a esperança, o escudo, a espada, a porção de vocês. Se vocês
se achegarem a mim e me amarem pelo que eu sou, serão um povo feliz, um “povo salvo pelo SENHOR”
(Dt 33.29). Vocês obterão alegria. Eu obterei a glória. Esse era o objetivo supremo de Deus no período
dos juízes — direcionar Israel para além de sua anarquia e de seu orgulho, levando-o à esperança de
adoração humilde e feliz sob a mão onipotente e redentora de Deus.
Pouco tempo depois da profecia de Ana, Samuel adverte que nem tudo a respeito dos reis vindouros
será tão prudente quanto Deuteronômio exigia ou como a profecia de Ana prometia:
Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros…
outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento
de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas
vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus
oficiais e aos seus servidores. Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos
jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por
causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia (1Sm 8.11-18).
Vimos isso antes — Deus agindo “por causa do seu grande nome” (12.22). Vimos isso nos
propósitos de Deus antes da criação (Ef 1.4-6), no ato de criação (Hb 2.10), no êxodo (Sl 106.8), no
deserto (Ez 20.9), na conquista de Canaã (Js 4.24) e nos livramentos no tempo dos juízes (Jz 7.2). O
que é tão enfático aqui é que o povo havia cometido grande maldade em pedir um rei (1Sm 12.17). Foi
traição: eles tinham um rei — ou seja, Deus (1Sm 12.12)! Portanto, no próprio ato de destronarem seu
Deus, ele lhes diz: “É exatamente por causa do meu nome que não destruirei vocês, embora certamente
mereçam ser destruídos”.
Embora ele não tenha escrito todos os salmos de Israel, seu nome é tão identificado como o grande
salmista de Israel que não podemos deixar de ver aqui uma grande ironia da graça: o estabelecimento
traiçoeiro de um rei humano sobre Israel se tornou, pela graça de Deus, dentro de uma geração, uma
fonte de louvor que exalta a Deus. Em outras palavras, essa monarquia existiu “por causa do grande
nome de Deus”. Por que mais Deus garantiria que esse poeta louvador fosse instituído como o
paradigma de fidelidade real? Davi fez mais do que qualquer outra pessoa para solidificar o louvor
poético como crucial à vida de Israel. Os salmos têm uma única grande mensagem: Deus é digno de ser
louvado. E esse louvor é o prazer para o qual os humanos foram criados:
Louvai ao SENHOR, porque o SENHOR é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável (Sl 135.3).
Deus recebe o louvor. Nós recebemos o prazer. Isso foi crucial nas realizações de Davi como rei. Sem
ele, provavelmente não haveria o Livros dos Salmos. Esse foi o maior fruto de seu reinado. Assim, a
monarquia foi uma providência da graça maravilhosa.
Quando o teu povo de Israel, por ter pecado contra ti, for ferido diante do inimigo, e se converter, e confessar o teu nome […] ouve
tu dos céus, e perdoa (6.24-25).
Quando os céus se cerrarem, e não houver chuva, por ter o povo pecado contra ti, e ele orar neste lugar, e confessar o teu nome, e se
converter dos seus pecados… ouve tu nos céus, perdoa (6.26-27).
Em outras palavras, o templo representa “o nome de Deus” — seu caráter e sua grandeza essenciais.
Esse nome é a glória de sua justiça e de sua graça. Os sacrifícios que aconteciam ali eram evidência de
que o objetivo de Deus é ser um Deus perdoador, mas não sem sacrifício, não sem justiça (como Rm
3.23-25 revelará, quando Cristo for apresentado como o grande sacrifício por trás de todos os
sacrifícios).
Portanto, quando um pecador olha para o templo, confessa esse nome e apela por perdão por causa
desse nome, como Davi diz (“Por causa do teu nome, SENHOR, perdoa a minha iniquidade, que é
grande” — Sl 25.11), o apelo de Salomão é para que o pecador seja perdoado. Esse, portanto, é o
significado do templo: a exaltação do nome de Iavé no perdão de pecados.
Essa fusão da exaltação de Deus e de sua graça para com os pecadores atinge o clímax na oração de
Salomão com seu apelo em favor do estrangeiro. É algo admirável:
Também ao estrangeiro que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu grande nome e por causa
da tua mão poderosa e do teu braço estendido, e orar, voltado para esta casa, ouve tu dos céus, do lugar da tua habitação, e faze tudo
o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e
para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome (2Cr 6.32-33).
Observe a estrutura da oração de Salomão em favor desses estrangeiros. Inicialmente, eles vêm ao
templo, “por amor do teu grande nome”. Em seguida, Salomão pede que a resposta de Deus seja
graciosa: “Faze tudo o que o estrangeiro te pedir”. Após, o alvo dessa graça é “que todos os povos da
terra conheçam o teu nome”, saibam “que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome” e temam a
ti.
O zelo pelo nome de Deus leva o estrangeiro a buscar as misericórdias de Deus. Receber as
misericórdias de Deus leva o estrangeiro a conhecer e temer o nome de Deus. O que diremos, então,
sobre a relação entre a glória do nome de Deus e a grandeza de suas misericórdias? Diremos que as
misericórdias de Deus destinam-se a exaltar o nome de Deus. O estrangeiro sentiu-se atraído às
misericórdias de Deus “por amor do teu grande nome” (6.32). E o resultado de provar essas
misericórdias foi que o estrangeiro quis conhecer e reverenciar o nome de Deus ainda mais.
Portanto, a monarquia de Israel desencadeou não somente uma era de louvores poéticos por meio
do rei Davi, para a glória do nome de Deus, mas também a edificação de um templo, por meio do rei
Salomão, cujo propósito era a exaltação do nome de Deus no ato de experimentar da misericórdia
divina.
Essa revelação final e decisiva da glória da graça de Deus — a revelação da encarnação de Cristo, o
ungido Filho de Davi — foi o desígnio supremo da monarquia de Israel. Foi supremo se incluirmos, na
revelação da glória do Rei Jesus, a experiência de seu povo ver essa glória, provar essa glória e refletir essa
glória.
O objetivo supremo da providência ao estabelecer uma monarquia em Israel não será atingido até
que o povo redimido do Rei Jesus veja nessa monarquia a sua perfeição e a perfeição dele. Isso foi o que
Jesus orou em João 17.24: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que
me deste, para que vejam a minha glória”. Sim. Mas nem mesmo ver a glória dele é o objetivo supremo. O
objetivo supremo é vê-la com alegria. Quando Jesus nos receber na presença de sua glória final, ele dirá:
“Entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21). Quando o gozo do Senhor se tornar o gozo de seu povo
aperfeiçoado, a alegria deles será completa (Jo 15.11). E eles serão transformados na semelhança
daquele que eles veem com alegria completa (1Jo 3.2; 2Co 3.18).
O propósito supremo da monarquia de Israel será realizado finalmente quando Jesus sentar-se no
“trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32-33) e reinar não somente sobre um Israel redimido, mas também sobre
um reino de adoradores de todas as nações (Ap 5.10). Eles o verão exaltado como o “Senhor dos
senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). E ficarão satisfeitos sob seu governo gracioso:
Aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre
eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água
da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 7.15-17).
E, em sua alegria, eles “resplandecerão como o sol, no reino do seu Pai” e “do seu Cristo” (Mt 13.43;
Ap 11.15). Nessa semelhança com Cristo jubilosa e transformada, a glória do “Rei eterno” (1Tm 1.17)
encherá toda a criação. Esse é o objetivo supremo da providência em estabelecer a monarquia de Israel.
10 | A proteção, a destruição e a restauração de Jerusalém
A monarquia de Israel, como uma nação independente, terminou com a pilhagem de Jerusalém e o
cativeiro da nação em Babilônia. De acordo com a profecia de Jeremias, o exílio babilônico duraria
setenta anos: “Toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto; estas nações servirão ao rei da
Babilônia setenta anos” (Jr 25.11). Essa foi uma experiência devastadora para Israel e, em especial, para
Jerusalém, mais bem-descrita, talvez, no livro de Lamentações:
Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entra as nações; princesa entre as
províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a
console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos (Lm
1.1-2).
Para os autores da Bíblia que contaram a história, Deus estava agindo por amor ao seu nome, do
começo ao fim, ao lidar com Jerusalém. Inicialmente, ele protegeu Jerusalém por amor ao seu nome;
depois, por amor ao seu nome, ele a entregou nas mãos dos babilônios para a pilhagem e, depois, de
novo, resgatou seu povo do exílio por amor ao seu nome. As Escrituras nos mostram cada uma dessas
fases da providência de Deus e atraem nossa atenção especificamente para o propósito de Deus na
exaltação da glória de seu nome.
E, quando Daniel foi resgatado da cova dos leões, o autor diz: “Assim, foi tirado Daniel da cova, e
nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus” (Dn 6.23).
Outras histórias das misericórdias de Deus comunicam a mesma mensagem: “Dos filhos de Rúben
[…] e os hagarenos e todos quantos estavam com eles foram entregues nas suas mãos; porque, na peleja,
clamaram a Deus, que lhes deu ouvidos, porquanto confiaram nele” (1Cr 5.18, 20). Josafá, o rei de Judá,
disse ao seu povo: “Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém! Crede no SENHOR, vosso Deus, e
estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis” (2Cr 20.20).
E, novamente, Davi diz: “O SENHOR […] os [os justos] livra; livra-os dos ímpios e os salva, porque
nele buscam refúgio” (Sl 37.40). Isso também se deu com outros reis depois de Davi: “Nos dias em que
[Uzias] buscou ao SENHOR, Deus o fez prosperar” (2Cr 26.5). “Jotão se foi tornando mais poderoso,
porque dirigia os seus caminhos segundo a vontade do SENHOR, seu Deus” (2Cr 27.6).
O contrário também é verdadeiro: com frequência, o julgamento segue a incredulidade e o pecado.
“Quando violardes a aliança que o SENHOR, vosso Deus, vos ordenou […] a ira do SENHOR se acenderá
sobre vós, e logo perecereis na boa terra que vos deu” (Js 23.16). “Tu me rejeitaste, diz o SENHOR […]
por isso, levantarei a mão contra ti e te destruirei” (Jr 15.6). O inimigo “matou em Judá, num só dia,
cento e vinte mil […] por terem abandonado o SENHOR” (2Cr 28.6). Portanto, é claro que,
frequentemente, Deus responde à fé com livramento e à incredulidade com julgamento.
No entanto, o livro de Jó e outras passagens da Escritura (e.g., Sl 44.22; cf. Rm 8.36) deixam claro
que, algumas vezes, Deus permite que seus santos passem por grande aflição. Nem sempre ele os livra da
aflição, mas frequentemente na aflição (Sl 34.19). O autor de Hebreus confirma essa observação ao
considerar a história de fé do Antigo Testamento. Por um lado, a fé é o caminho pelo qual grandes
triunfos foram desfrutados:
Por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência
do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de
estrangeiros. Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.33-35a).
Por outro lado, essa mesma fé foi a forma pela qual os crentes suportaram grande aflição:
[Pela fé] alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; outros, por sua vez, passaram
pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões […] Ora, todos estes […] obtiveram bom testemunho por sua fé
(Hb 11.35b, 36, 39).
A oração de Ezequias não apelou à dignidade de Jerusalém de ser libertada; antes, apelou à dignidade
Deus de ser adorado. A esse tipo de oração que exalta a Deus, Isaías respondeu da seguinte maneira:
Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Visto que me pediste acerca de Senaqueribe, rei da Assíria, esta é a palavra que o SENHOR
falou a respeito dele… eu defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor do meu servo Davi (Is 37.21-22, 35).
E, em seguida, lemos: “Então, saiu o Anjo do SENHOR e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta
e cinco mil” (Is 37.36).
Não há contradição alguma entre dizer que o exército de Senaqueribe foi destruído porque Ezequias
orou (37.21) e dizer que foi destruído por causa do zelo de Deus por seu próprio nome. A razão pela qual
não há contradição é que a oração de Ezequias apelou exatamente para o zelo de Deus por seu próprio
nome. “Agora, pois, ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinos da terra
saibam que só tu és o SENHOR” (Is 37.20).
É por essa razão que, em toda a história de Israel (e na história da igreja), Deus responde com ajuda
às orações cheias de fé de seu povo em busca de ajuda. A fé, por sua própria natureza, olha para longe de
nós mesmos e de nossa pecaminosidade, e alicerça toda a nossa ajuda no zelo de Deus por seu próprio
nome. Perdoa-nos por causa do teu nome (Sl 25.11). Salva-nos por amor ao teu nome (Sl 106.8).
Preserva-nos por amor ao teu nome (Sl 143.11). Guia-nos na justiça por amor ao teu nome (Sl 23.3). É
assim que a fé ora, pois a fé perde a esperança no ego como suficiente e olha para a suficiência plena de
Deus. Por isso, Paulo diz, em Romanos 4.20, que a fé de Abraão deu “glória a Deus”.
Quando Jesus fez a primeira petição da oração do Pai-nosso, “Pai nosso, que estás nos céus,
santificado seja o teu nome” (Mt 6.9) — ou seja, cuide para que seu nome seja reverenciado, valorizado
e honrado —, ele estava nos mostrando que o ponto de referência de toda oração feita com fé é o zelo
pela glória de Deus. Jesus nos ensinou que, acima de tudo, devemos pedir que Deus aja para garantir que
seja visto e reverenciado como grande. Devemos querer isso e amar isso acima de tudo.
Portanto, quando Isaías diz que Deus livrará Jerusalém porque Ezequias orou (Is 37.21) e que ele
livrará Jerusalém por amor a si mesmo (37.35), esses são o mesmo motivo pelo qual a oração de Ezequias
apela para que o Senhor atue por amor a si mesmo. Portanto, por muitas gerações, Jerusalém foi salva da
destruição porque o objetivo supremo da providência de Deus é “que todos os reinos da terra saibam
que só tu és o SENHOR” (Is 37.20).
A paciência de Deus para com as idolatrias de Jerusalém chega a um fim sábio e santo. O zelo de
Deus pela glória de seu nome move-se da demonstração da glória de sua paciência para a demonstração
da glória de sua santidade e justiça, em julgamentos terríveis contra Jerusalém. Isso também faz parte da
glória de seu nome:
Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, pois que profanaste o meu santuário com todas as tuas coisas detestáveis e com
todas as tuas abominações, eu retirarei, sem piedade, os olhos de ti e não te pouparei. Uma terça parte de ti morrerá de peste e
será consumida de fome no meio de ti; outra terça parte cairá à espada em redor de ti; e a outra terça parte espalharei a todos os
ventos e desembainharei a espada atrás dela. Assim, se cumprirá a minha ira, e satisfarei neles o meu furor e me consolarei; saberão
que eu, o SENHOR, falei no meu zelo, quando cumprir neles o meu furor. (Ez 5.11-13)
Saberão que eu sou o SENHOR, quando eu os dispersar entre as nações e os espalhar pelas terras (Ez 12.15).
Voltarei o rosto contra eles; ainda que saiam do fogo, o fogo os consumirá; e sabereis que eu sou o SENHOR, quando tiver voltado o
rosto contra eles (Ez 15.7).
Quando Deus julgou Jerusalém em seu “zelo” (Ez 5.13) e disse que seu alvo era que eles soubessem
“que eu sou o SENHOR”, a implicação é que Jerusalém, como uma esposa infiel, seguiu outros amantes,
como se o Senhor fosse indigno de suas afeições — como se prazeres maiores pudessem ser encontrados
nos braços de outro marido:
Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR (Jr 3.1).
Todos os teus amantes se esqueceram de ti, já não perguntam por ti; porque te feri com ferida de inimigo e com castigo de cruel,
por causa da grandeza da tua maldade e da multidão de teus pecados (Jr 30.14; cf. Ez 16.31-34).
se conforma a nada fora de si mesmo. Deus não está se esforçando para se tornar algo que gostaria de ser.
Ele é a realidade suprema, não originada, absoluta, independente, autossuficiente, final.
Ezequiel quer nos lembrar que essa realidade suprema, absoluta, todo-importante e primária deve
dominar nossa consciência mais do que qualquer outra coisa. Quando olhamos para nosso relógio,
devemos estar conscientes do fato impressionante de que esse relógio depende de Deus. Quando
contemplamos as galáxias à noite, devemos nos alegrar com o fato de que elas foram dispostas ali pelo
dedo de Deus (Sl 8.3) e são totalmente dependentes dele para cada milissegundo de sua existência (Hb
1.3).
O objetivo de Ezequiel ao profetizar repetidas vezes “Sabereis que eu sou o SENHOR” é que
possamos viver na conscientização resoluta de que a realidade suprema no universo — na América, na
China, no Brasil, na Nigéria, em Bruxelas, em nosso quarto de dormir, em nossa mente — é Iavé, o Deus
que absolutamente é. Nada é mais importante. Nada é mais onipresente. Nada é mais relevante. Nada é
mais glorioso. Nada é mais belo. Nada é mais satisfatório.
A duradoura paciência de Deus para com a rebelde Jerusalém (Ez 2.3-5) e sua entrega final deles ao
cativeiro babilônico, ambas fazem parte do propósito providencial de Deus. Ambas foram guiadas pelo
seguinte objetivo: “Sabereis que eu sou o SENHOR”. Eles saberiam que Deus é inflexivelmente
comprometido com o valor e a beleza de seu nome santo — quer em paciência misericordiosa, quer em
punição justa.
RESTAURAÇÃO PARA A ALEGRIA DELES
E “HUMILHAÇÃO EVANGÉLICA”
No entanto, a misericórdia terá a última palavra para com o povo de Deus. O nome de Deus é o grande
tesouro que ele oferece a Israel para o gozo eterno deles e para a glória de Deus. Ele está comprometido
com a alegria de seu povo em provar seu nome de um modo que conduza ao fim o julgamento de
Jerusalém por desprezar o nome do Senhor:
Jerusalém me servirá por nome, por louvor e glória, entre todas as nações da terra que ouvirem todo o bem que eu lhe faço (Jr
33.9).
Mas há algo extraordinário na maneira como Deus revela seu compromisso com seu povo em
restaurá-los do exílio. Ele exalta a supremacia de seu próprio nome — a santidade de seu nome — ao
deixar claro que sua misericórdia não se deve à justiça de Israel. Três vezes no livro de Ezequiel, o Senhor
exalta sua santidade e seu nome como o motivo de sua misericórdia em resgatar Israel do exílio. Ele
torna esse motivo ainda mais relevante porque, ao mesmo tempo, atrai atenção explícita para o fato de
que essa restauração “não é por amor de vós [Israel]” (Ez 36.22). A restauração deles foi duplamente
graciosa: aconteceu apesar da presença de pecado e apesar da ausência de justiça.
Isso significa que Deus exerceu grande cuidado para deixar claro a nós que a base de sua misericórdia
— a base da sua restauração depois do exílio — foi o zelo por sua santidade e por seu nome. A seguir,
citamos três passagens que exaltam a santidade do nome de Deus em salvar Jerusalém. Lembro-me de
haver sentido a força dessas passagens pela primeira vez quando estava lendo Afeições religiosas, de
Jonathan Edwards. Nessa obra, ele apresenta doze sinais de um verdadeiro cristão — ou, nas palavras
dele, doze sinais de “afeições verdadeiramente graciosas” —, ou seja, afeições criadas e moldadas pela
graça, e não por mera emoção humana. O sexto sinal é este: “Afeições graciosas são acompanhadas de
humilhação evangélica”. 30
Retraí-me ante a palavra humilhação até que li a exposição dele sobre esses textos. Em sua mente,
“humilhação evangélica” não é inconsistente com a — e, sim, parte da — mais requintada alegria nas
misericórdias de Deus. Edwards explica:
Embora Cristo tenha carregado nossas aflições e nossas tristezas, para que sejamos livres da tristeza de punição e agora nos
alimentemos docemente dos consolos que ele comprou para nós, isso não impede que o nosso alimentar-nos desses consolos seja
acompanhado da tristeza de arrependimento.31
Em chegando às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome, pois deles se dizia: São estes o povo do SENHOR, porém
tiveram de sair da terra dele. Mas tive compaixão do meu santo nome, que a casa de Israel profanou entre as nações para onde foi.
Dize, portanto, à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu
santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. Vindicarei a santidade do meu grande nome, que foi profanado
entre as nações, o qual profanastes no meio delas; as nações saberão que eu sou o SENHOR, diz o SENHOR Deus, quando eu vindicar a
minha santidade perante elas (Ez 36.20-23).
Eu estabelecerei a minha aliança contigo e saberás que eu sou Jeová, para que te lembres, e fiques confundida, e não abras mais a
tua boca por causa da tua vergonha, quando eu te houver perdoado tudo o que fizeste, diz o Senhor Jeová. (Ez 16.62-63, TB).
Quando li esses textos e a reflexão de Jonathan Edwards a esse respeito, senti-me como se estivesse
num mundo diferente de graça centrada em Deus, e não no mundo de meu próprio século (na ocasião, o
século XX). Ainda me sinto dessa maneira. Essa é uma das razões por que estou escrevendo este livro.
Tão chocado quanto a maioria das pessoas se sentem ao serem informadas de que deveriam “estar
confusas” e fechar a boca — não pelo terror da justiça de Deus, mas por sua misericórdia expiadora. O
fato é que isso é profundamente certo, e a alma quebrantada que foi curada pela graça reconhece isso. É a
graça inferior, não a graça genuína, que pensa que a vida em Cristo não sente tristeza por causa do
pecado passado e da corrupção remanescente.
Meu argumento principal aqui é que, ao restaurar o destino de Jerusalém — e prometer a Israel um
futuro ainda maior do que aquele que eles haviam experimentado ao retornar da Babilônia (Ez 36.24-
26), Deus estava agindo para vindicar a santidade de seu nome. Seu compromisso com sua própria glória
era o fundamento da esperança e da alegria de Israel. O nome que Deus estava fazendo para si mesmo,
ao restaurar a sua cidade humilhada — Sião, “a menina do seu olho” (Zc 2.8) — era, em última análise,
um nome de alegria. 33
NÃO UMA AMEAÇA À ALEGRIA, MAS A BASE DA ALEGRIA
Minha esperança é que todo leitor veja que a centralidade de Deus em si mesmo — o compromisso de
Deus de magnificar seu nome, sua santidade e sua glória como o objetivo supremo de sua providência —
não é uma ameaça à nossa alegria, mas, em vez disso, é a base dela. É claro que, se sentimos que nossa
alegria procede de nossa própria autoexaltação, nada disso será uma boa-nova. Mas o propósito de Deus
para seu povo é que seu nome e nossa alegria cresçam juntos:
Folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome (Sl 5.11).
Celebraremos com júbilo a tua vitória e em nome do nosso Deus hastearemos pendões (Sl 20.5).
Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado, ó
SENHOR, Deus dos Exércitos (Jr 15.16).
A PROMESSA TODO-ABRANGENTE DE
COMO O PROPÓSITO DA PROVIDÊNCIA SE DESDOBRA
Uma ponte que liga o Antigo ao Novo Testamento é construída de inúmeros componentes que se
conectam. É uma ponte linda e digna de inspeção e admiração cuidadosa. Mais de uma vez, Jesus
fomentou essa inspeção admiradora:
Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim (Jo 5.39).
E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras
(Lc 24.27).
Proeminente entre os componentes dessa ponte é o que Jeremias e Jesus chamaram de “a nova
aliança” (Jr 31.31; Lc 22.20). Visto que essa aliança é prometida no Antigo Testamento e estabelecida
no Novo Testamento, nós a entendemos como uma descrição todo-abrangente de como Deus
finalmente realiza o propósito supremo da providência por meio de Jesus Cristo. Isso é o que
consideraremos no restante da Parte 2 (Capítulos 11 a 14).
Lembre-se do significado do nome Iavé, quando Deus se identificou com esse nome em Êxodo 3.14 (“ EU SOU O QUE SOU”), como vimos
no Capítulo 6.
Jonathan Edwards, Religious Affections, ed. John E. Smith e Harry S. Stout, vol. 2, The Works of Jonathan Edwards (New Haven, CT: Yale
University Press, 2009), 311 [edição em português: Afeições religiosas (São Paulo: Vida Nova, 2018).
Quanto a uma consideração mais completa sobre a alegria do futuro mais remoto para Jerusalém, leia as páginas finais do Capítulo 5.
Seção 3 | O objetivo supremo da providência no
desígnio e no estabelecimento da nova aliança
11 | Os propósitos da nova aliança
A ponte entre o Antigo e o Novo Testamento está construída amplamente sobre a promessa de que, um
dia, Deus estabeleceria uma nova aliança. O estabelecimento dessa aliança por meio de Jesus Cristo seria
o caminho no qual o objetivo supremo da providência de Deus se realizaria. O restante da Parte 2
(Capítulos 11 a 14) segue o alvo da providência nesse caminho. Neste capítulo, destacamos não
primariamente o estabelecimento da nova aliança por Cristo (o que desdobramos nos demais capítulos
da Parte 2); em vez disso, enfatizamos os propósitos interiores da nova aliança. Ou, poderíamos dizer,
concentramo-nos nas promessas específicas da aliança que foram expressas no Antigo Testamento.
AFIRMAÇÃO DA ALIANÇA
A expressão clássica da nova aliança no Antigo Testamento — o texto citado em Hebreus 8 e 10 para
mostrar que Cristo é o mediador de uma “superior aliança” (Hb 7.22; 8.6) — é Jeremias 31.31-34:
Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que
fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não
obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz
o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu
povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me
conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me
lembrarei.
Essa nova aliança é contrastada com a aliança do Sinai ou Mosaica, aqui descrita como “a aliança que
fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito” (31.32). Sabemos que
essa aliança anterior se referia à lei de Moisés dada em tábuas de pedra no monte Sinai, porque o
apóstolo Paulo diz que era um ministro dessa “nova aliança” (2Co 3.6), contrastando-a com as “letras
em pedras” dadas a Moisés (2Co 3.7).
Os versículos 26 e 27 são as palavras da nova aliança, as quais são prometidas como a estratégia de
Deus para vindicar a santidade de seu grande nome e seu propósito de que as nações saibam que ele é o
Senhor. Em suma, a nova aliança é a maneira pela qual Deus realiza seus propósitos supremos desde o
começo — que a glória de quem ele é seja exaltada para o gozo e o louvor de todo aquele que tiver o
Senhor como seu maior tesouro (cf. Jr 24.7).
A NOVA ALIANÇA COMO A CRIAÇÃO DE ALEGRIA EM DEUS
A razão pela qual digo que o propósito de Deus é ser exaltado no gozo e no louvor de seu povo é que sua
estratégia explícita na nova aliança para vindicar “a santidade” de seu “grande nome” é (1) retirar o
coração de pedra (Ez 36.26), (2) colocar seu Espírito em seu povo (Ez 36.27a) e (3) fazer que
obedeçam à sua palavra (Ez 36.27b). Cada uma dessas estratégias aponta para a alegria em Deus.
Inicialmente, o coração de pedra é o coração que não sente nada precioso, belo ou agradável na
santidade de Deus. Esse coração será substituído por um coração de carne vivo, afetuoso e sensível que
sente a verdadeira preciosidade, a beleza e a agradabilidade do santo nome do Senhor (Ez 36.26; cf. Sl
135.3). Em segundo lugar, colocar seu próprio Espírito em seu povo significa que, a partir do interior,
eles avaliarão e valorizarão o nome do Senhor da maneira como o próprio Senhor faz (Is 63.14; Jo
16.14). Em terceiro, Deus faz com que seu povo obedeça à sua palavra, e a essência e o clímax dessa
palavra constituem o chamado para amarem o Senhor e se achegarem a ele com todo o coração (Js
22.5), o que inclui valorizá-lo e deleitar-se nele acima de tudo mais (Sl 37.4; Mt 13.44).
Em outras palavras, o plano de Deus na nova aliança é realizar o que ele buscava na criação e na
redenção desde o início, ou seja, comunicar sua glória para que seja exaltada no modo como as pessoas
gozam e refletem as excelências divinas. Essa é a razão pela qual ele move a história adiante, da antiga
aliança para a nova aliança — da “caducidade da letra” para a “novidade de espírito” (Rm 7.6), do amor
exigente (Dt 6.5) para o amor criativo (Jo 17.26; Gl 5.22; 1Ts 3.12), de alegria apeladora (Sl 37.4) para
alegria abençoadora (Jo 15.11; 17.13; Gl 5.22).
ELE NÃO SE AFASTARÁ, NEM NOS DEIXARÁ AFASTAR-NOS, PARA SUA GRANDE ALEGRIA
Na nova aliança, podemos ver o alvo final de todas as coisas com mais clareza que nunca. Nela, vemos o
fato de que o próprio Deus está se movendo de uma nova maneira para fazer o alvo acontecer nos
corações transformados de seu povo. Em seguida, vemos que Deus pretende tornar permanente essa
transformação do coração. Finalmente, vemos o fato de que Deus se regozijará em seu povo
transformado com todo o seu coração e com toda a sua alma. Esses três aspectos da nova aliança se
encontram em Jeremias 32.39-41:
Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles
aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem
de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a
minha alma.
Essa expressão da nova aliança contém algumas das promessas mais admiráveis, mais cheias de
esperança e mais preciosas da Bíblia. Observe quatro coisas. Primeira, Deus enfatiza a permanência das
bênçãos dessa aliança: “Farei com eles aliança eterna”. Segunda, ele garante a permanência dessas
bênçãos ao se comprometer a nunca parar de fazer o bem a seu povo: “Não deixarei de lhes fazer o bem”.
Terceira, ele torna as bênçãos mais seguras ao se comprometer a nunca deixar que seu povo se aparte
dele: “Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim”. Quarta e, talvez, a mais
admirável e maravilhosa, ele se compromete a garantir essas bênçãos com uma alegria transbordante:
“Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem […] de todo o meu coração e de toda a minha alma”. Deus
não está dando com má vontade as bênçãos eternas da nova aliança. Ele está fazendo o que ama fazer.
DELEITE NO TEMOR
Para que ninguém tenha dificuldade com a palavra temor no versículo 40 (“Porei o meu temor no seu
coração, para que nunca se apartem de mim”), pensando que Deus pode regozijar-se em que nós, como
parte da nova aliança, nos curvemos de medo diante dele. Considere isto: os beneficiários da nova
aliança não se curvarão de medo. O temor do Senhor não é o oposto de alegria no Senhor; é a
profundeza e a seriedade dessa alegria.
Podemos ver isso na conexão entre alegria e temor, por exemplo, em Isaías 11.3. O profeta diz sobre
o Messias prometido: “Deleitar-se-á no temor do SENHOR”. Vemos a conexão novamente em Neemias
1.11, onde lemos que os servos do Senhor “se agradam de temer o teu nome”. Quando Deus promete na
nova aliança guardar seu povo de se apartar dele, as cordas que prendem nosso coração a ele não são de
se curvar de medo; são cordas de desejo satisfeito. O que tememos é não ver Deus em Cristo como
supremamente encantador (cf. Rm 11.20). Deus promete manter-nos firmes ao não deixar que isso
aconteça. Isso significa que o objetivo final da nova aliança é a alegria abundante do próprio Deus na
alegria que seu povo tem na glória do nome dele.
Os louvores exultantes do povo de Deus são o que ele está criando na nova aliança. Essa é a beleza, a
alegria e a força deles — e de todos os “plantados pelo SENHOR para a sua glória”. O embelezamento é a
glorificação do Senhor, porque o embelezamento deles é sua exultação na beleza de Deus. Portanto, o
objetivo de Deus em sua providência generalizada é a glorificação de sua própria graça ao embelezar um
povo indigno cuja beleza é o gozo e o reflexo da beleza de Deus.
Em poucas palavras, o objetivo de Deus na nova aliança por meio da morte de Cristo é o
embelezamento de uma noiva na qual o Filho pode regozijar-se para sempre. Quando Paulo disse que
Cristo morreu “para apresentar a si mesmo Igreja gloriosa”, não queria dizer que Cristo ficaria entediado
com sua noiva embelezada por sangue. Não, Paulo queria dizer que Cristo ficaria encantado com sua
noiva. Foi por isso que ele morreu, para torná-la encantadora.
E o que é esse embelezamento? É a santificação da Igreja, sua santidade (5.26). Ou seja, é a Igreja
obedecendo alegremente a toda a palavra de Deus, ao que significa, mais essencialmente, seu amor por
Deus. Seu deleite em Deus. Sua reflexão de Deus. Portanto, o objetivo supremo da providência de Deus
é glorificar sua graça no embelezamento, pelo sangue de seu Filho, de uma noiva desprovida de
merecimento, que desfruta e reflete a beleza de Deus acima de todas as coisas.
também as glórias das realizações do Deus-homem foram acrescentadas às glórias eternas do Filho que
ele tinha antes de se tornar homem. Quando Jesus ressuscitou dos mortos e subiu ao Pai, no céu, foi
restaurado à sua glória anterior. “Agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive
junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.5). Mas não somente à sua glória anterior. Agora, ele tem
a glória de um redentor triunfante. Ele é, agora, o vitorioso Deus-homem que derrotou Satanás (Cl 2.15;
Hb 2.14) e a morte (1Co 15.54-57). Satisfez a ira santa de Deus (Rm 3.25; Ef 2.3-5). Comprou uma
noiva (Ef 5.25-27) do meio de todos os povos do mundo (Ap 5.9). Por essas realizações da cruz e por
muitas outras, Cristo foi exaltado a um lugar de glória multiforme à direita de Deus:
35
Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se
dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai
(Fp 2.9-11).
Ele será adorado para sempre não somente por causa da glória de sua deidade eterna, mas também
de suas realizações gloriosas ao redimir seu povo como o Deus-homem — como o Mediador da nova
aliança. Observe que, na canção do céu, a dignidade do Filho para abrir o rolo da história se deve
diretamente à sua realização na cruz:
Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra (Ap 5.9-10).
Portanto, as dimensões da glória de Cristo são muitas. Algumas têm origem na eternidade, como
essenciais à sua natureza divina. Outras pertencem ao seu estado de encarnação como divino e humano.
Ele é peculiarmente glorioso por causa da obra que realizou por ser tanto Deus como homem. É à
totalidade de sua glória que me refiro quando digo que Cristo é o alvo da nova aliança. Por causa do que
Cristo realizou em seu sofrimento, em sua morte e ressurreição, ele é não somente o fundamento da
nova aliança; ele se tornou a suprema recompensa da nova aliança. O preço de todas as promessas da
nova aliança tornou-se seu prêmio supremo.
AO NOS ADEQUAR PARA VER SUA GLÓRIA, CRISTO TORNOU-SE AINDA MAIS DIGNO DE SER VISTO
Se Cristo não se tivesse tornado o fundamento da nova aliança em seu sofrimento, nunca poderia ser a
recompensa da nova aliança em sua glória. Isso é verdadeiro por duas razões. Primeira, se ele não tivesse
sofrido, nenhum pecado seria perdoado e, portanto, todos estariam sob a ira de Deus (Ef 2.3), com
coração de pedra (Ez 36.26), cegos para a glória de Cristo (2Co 4.4). Segunda, uma grande parte da
glória de Cristo consiste na maneira pela qual ele estabeleceu a nova aliança — ou seja, por seu
sofrimento amoroso, terrível e sem culpa. Em outras palavras, ao se tornar o fundamento da nova
aliança, Cristo não somente expandiu a glória eterna de sua deidade, como também se manifestou como
um redentor glorioso. Sua obra salvadora nos adequou para ver sua glória e também o adequou para ser
visto como glorioso em sua realização salvadora, bem como em sua grandeza eterna.
Em outras palavras, o propósito de Deus na nova aliança era não somente tornar possível que os
pecadores fossem perdoados, conhecessem e desfrutassem a glória de Deus para sempre. Seu propósito
era também que o Mediador da aliança fosse o próprio Deus e exibisse uma glória redentora que se
tornaria a mais bela manifestação de glória que alguém jamais poderia desfrutar — a glória da graça de
Deus.
“Nele.” “Por meio de Jesus Cristo.” “No Amado.” Sabemos que essas expressões se referem à obra de
Cristo na cruz porque, no versículo seguinte, Paulo diz: “[Nele], temos a redenção, pelo seu sangue, a
remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (1.7). Portanto, o alvo supremo de Deus em sua
providência salvadora — ou seja, o louvor da glória de sua graça — foi atingido por meio do sofrimento
do Filho de Deus, que morreu para nos libertar do sofrimento eterno (2Ts 1.9) e nos levar ao gozo
eterno de sua glória (Jo 17.24).
SOFRIMENTO ESSENCIAL
PARA O ATO DE GRAÇA MAIS GLORIOSO
Mais uma vez, vamos deixar claro o ensinamento óbvio, mas frequentemente negligenciado, de Efésios
1.4-6: esse foi o plano de Deus desde o começo — Cristo sofrer por pecadores indignos para exibir a
glória da graça de Deus. Não se tratava de um plano B. O propósito supremo de Deus na criação e na
providência não era que sua glória fosse manifestada e louvada por meios que não envolvessem o
sofrimento de seu Filho. A cruz não foi uma ideia tardia. Era parte do plano desde antes da fundação do
mundo (cf. 2Tm 1.9; Ap 13.8).
As implicações disso são impressionantes. Significa que o sofrimento é essencial ao propósito
supremo da criação e da providência. O sofrimento é parte essencial da trama do universo, de tal modo
que a tessitura da graça, por meio do sofrimento de Cristo, pode ser vista pelo que realmente é. Ou, em
palavras mais simples e mais claras, a principal razão pela qual o sofrimento existe é que Cristo possa
exibir a grandeza da glória da graça de Deus por sofrer, ele mesmo, para vencer o sofrimento. O
sofrimento do totalmente inocente e infinitamente santo Filho de Deus no lugar de pecadores
totalmente indignos para nos levar à alegria eterna é a maior exibição da glória da graça de Deus que já
existiu e poderia existir. 36
A fraseologia exata nesse versículo é importante, e essa é uma boa tradução literal e cuidadosa: “o
Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”. Significa que, antes de o mundo ser criado, houve na mente
de Deus um “Cordeiro que foi morto”.
O Cordeiro que foi morto é Jesus Cristo crucificado. Desse modo, o livro de nomes é o livro de Jesus
Cristo crucificado. Portanto, antes de Deus criar o mundo, ele tinha em vista Jesus Cristo morto e um
povo comprado por seu sangue, escrito no livro. Isso significa que o sofrimento de Jesus não foi uma
ideia tardia, como se a obra de criação não tivesse saído da maneira como Deus havia planejado. A morte
do Cordeiro estava em vista antes de a obra de criação ser iniciada.
Deus nos deu graça — favor imerecido para com pecadores! — em Cristo Jesus antes dos tempos
eternos. Ainda não havíamos sido criados. Ainda não existíamos para que pecássemos. Mas Deus já havia
decretado que a graça — um tipo de graça “em Cristo”, graça comprada com sangue, graça que vence o
pecado — chegaria até nós em Cristo Jesus. Tudo isso estava na mente de Deus antes da criação do
mundo. Portanto, há um “Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”, e há uma graça que, em Cristo, flui
para pecadores indignos que ainda não estão criados.
E não ignore a magnitude dessa palavra morto (no grego, esphagmenou): “o Cordeiro que foi morto”.
É usada no Novo Testamento somente pelo apóstolo João e significa, literalmente, “abater”. Aqui, temos
um sofrimento horrível — o abatimento do Filho de Deus — na mente e no plano de Deus antes da
fundação do mundo. O Cordeiro de Deus sofrerá. Será abatido. Esse é o plano.
Por quê? Porque o alvo de Deus na criação e na providência era fazer a mais plena, a mais clara e a mais
segura manifestação da grandeza da glória da graça. E essa manifestação seria o abatimento do melhor Ser do
universo no lugar de milhões de pecadores indignos. O sofrimento e a morte do Cordeiro de Deus na
história são a perfeita manifestação da glória da graça de Deus. Essa é a razão pela qual Deus a planejou
antes da fundação do mundo. Esse é o alvo, a obra e a maravilha da providência pervasiva de Deus.
Com isso, não estou sugerindo que a glória eterna e intrínseca do Filho de Deus tenha sido alterada, como se fosse deficiente ou algo menos
do que infinita antes da encarnação. Pelo contrário, as “glórias acrescentadas” eram novas manifestações extrínsecas da grandeza dessa
glória intrínseca.
Veja John Piper, Fifty Reasons Why Jesus Came to Die (Wheaton, IL: Crossway, 2006).
Os pensamentos nesse parágrafo são adaptados de John Piper, “The Suffering of Christ and the Sovereignty of God”, em Suffering and the
Sovereignty of God, ed. John Piper and Justin Taylor (Wheaton, IL: Crossway, 2006), 81-90.
13 | A entrada do pecado na criação e a glória do evangelho
PLANEJOU PERMITIR
Se Deus planejou o sofrimento de seu Filho antes da criação e, por conseguinte, antes do pecado de
Adão e Eva, como vimos em Apocalipse 13.8 e em 2 Timóteo 1.9, ele previu a vinda do pecado e
planejou permitir sua entrada no mundo. Escolhi essas palavras cuidadosamente: “planejou permitir”. Às
vezes, dizemos que Deus permitiu algo. Isso é perfeitamente apropriado, porque a providência de Deus
não governa todos os eventos exatamente da mesma forma, e “permissão” é uma maneira de descrever
alguns dos atos de sua providência. Por exemplo, “Deixemo-nos levar para o que é perfeito […] Isso
faremos, se Deus permitir” (Hb 6.1-3; veja também Lc 8.32; 1Co 16.7).
Mas, algumas vezes, ignoramos o fato de que, porque Deus é capaz de prever o que pode ou não
pode permitir, ele escolhe fazê-lo ou não. E todas as escolhas de Deus estão em consonância com sua
sabedoria (Sl 104.24; Is 28.9), com sua justiça (Ne 9.33; Sl 145.17; Dn 9.14) e com sua bondade
perfeitas (Sl 145.7, 9). Deus não é caprichoso. Ele nunca escolhe de forma insensata ou pecaminosa.
Deus escolhe vendo todas as consequências (dolorosas e agradáveis) do que ele permite. Portanto,
podemos falar apropriadamente do que ele planejou permitir. E, assim, podemos e devemos falar do
propósito de Deus em permitir.
pecaminosa. A intenção de Deus era salvadora: “para fazer como se vê neste dia, para conservar muita
gente com vida” (Gn 50.20, ACF; veja 45.7; Sl 105.17).
Deus nos deu essas palavras para que possamos assimilar, em alguma medida, como sua providência
se relaciona não somente com o pecado dos irmãos de José, mas também com todo pecado, inclusive
com o primeiro pecado humano. Assim, podemos dizer: “Adão e Eva, vocês intentaram o mal; Deus,
porém, o intentou para o bem. O propósito de vocês em pecar era a busca inútil de prazer por meio de
autonomia autoexaltadora. O propósito de Deus em permitir o pecado de vocês era dar a seu povo o
prazer de ver e provar a glória de sua graça nos indizíveis sofrimentos e triunfos de seu Filho”.
Todo pecado e todo sofrimento na terra tiveram início com a sentença de morte, da parte de Deus,
depois do pecado de Adão (Gn 2.17; Rm 5.12). E, de uma forma admirável, com esse julgamento, Deus
mostrou, ao mesmo tempo, o triunfo supremo da graça por meio de sofrimento: “Porei inimizade entre
ti [a serpente] e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe
ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Por fim, Cristo, embora ferido, derrotará o maligno (Cl 2.15; Hb 2.15).
Esse era o evangelho de Romanos 5.19, anunciado em esperança dois mil anos antes de Cristo: “Porque,
como, pela desobediência de um só homem [Adão], muitos se tornaram pecadores, assim também, por
meio da obediência de um só [Cristo], muitos se tornarão justos”.
A quem Deus propôs, no seu [Cristo] sangue, como propiciação [remove a ira, satisfaz a justiça] mediante a fé, para manifestar a
sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm 3.25).
Se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados,
seremos salvos [da ira de Deus; cf. v. 9] pela sua vida (Rm 5.10).
Observe que é o próprio Deus quem propõe Cristo como propiciação para lidar com sua própria ira.
Não há nenhum pensamento de que Jesus seja misericordioso e o Pai, não. Deus, o Pai, toma essa
iniciativa para satisfazer às exigências de sua própria ira justa. Cristo sofre a ira para que não tenhamos de
sofrê-la.
E observe que Deus faz isso porque, em “sua tolerância”, havia “deixado impunes os pecados
anteriormente cometidos” (Rm 3.25). É possível pensar que Deus podia simplesmente esquecer os
milhões de pecados de todos os santos do Antigo Testamento, a quem ele havia perdoado. Mas sua
justiça não permitiria isso. Todo pecado que menospreza Deus tem de ser punido de forma justa, para
que a glória de Deus seja mantida como infinitamente preciosa. E poderia ser tratado de maneira justa se
Deus enviasse todos os pecadores para o inferno. Mas, em sua graça (Rm 3.24), Deus planejou salvar os
pecadores que merecem o inferno, ao dar seu Filho para sofrer a punição e dar satisfação à sua ira santa.
Dessa maneira, o valor da glória de Deus, que tem sido depreciada ao longo de toda a história, de
trilhões de maneiras, é mantido, a justiça de Deus é vindicada e os pecadores são salvos. Ou, em termos
que expressam o que temos visto em todas as Escrituras, o objetivo supremo de Deus nos sofrimentos de
Cristo era exaltar a glória de sua justiça no próprio ato de salvar os pecadores, que passarão a eternidade
louvando a glória da graça de Deus.
Portanto, essa propiciação — essa remoção da ira de Deus — foi o meio para a finalidade máxima de
redimir um povo que exalta a glória de Cristo, ao gozar Deus em Cristo para sempre. A propiciação não é
um fim em si mesma. Ela remove um obstáculo imenso ao gozo da glória de Deus. Esse gozo que exalta
Deus é o objetivo supremo da propiciação — e o objetivo supremo de todas as outras maravilhas da
providência.
N. E.: Infelizmente, a maioria das traduções brasileiras trazem “tornou em bem”, o que não corresponde ao original. Para mais detalhes, veja
o Capítulo 28.
Para mais reflexão sobre por que Deus deveria designar o sofrimento físico como julgamento sobre o mal moral e sujeitar toda a criação à
vaidade e à corrupção (Rm 8.20-23), veja Capítulo 33.
14 | A glória de Cristo na glorificação de seu povo
Visto que a glorificação final do povo de Deus (Rm 8.17, 30) consistirá amplamente em sua alegria na
glória do próprio Deus e em sua reflexão dessa glória, as Escrituras nos lembram, repetidas vezes, que a
glorificação progressiva dos santos, nesta vida, é para a glória de Deus. Sei que glorificação progressiva não
é uma expressão comum. Mais comum é santificação progressiva — ou seja, o processo de ser feito cada
vez mais santo nesta vida por meio da obra do Espírito Santo (Rm 15.16; 2Ts 2.13). Esse processo é a
transformação comprada por Cristo e capacitada pelo Espírito — transformação que conduz,
finalmente, ao cumprimento do propósito da providência nesta era e na era vindoura.
GLORIFICAÇÃO PROGRESSIVA
Uso a expressão glorificação progressiva porque é uma paráfrase adequada de 2 Coríntios 3.18: “E todos
nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos
transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Essa mudança
progressiva “de glória em glória”, que vem da parte do “Senhor, o Espírito”, é o que tenciono dizer por
glorificação progressiva. E é quase a mesma experiência que Paulo descreve em
2 Tessalonicenses 2.13, ou seja, ser salvo “pela santificação do Espírito”.
Suspeito que Paulo, ao escrever “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou,
a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30), omitiu “aos que
santificou”, pois, em sua mente, a palavra glorificou, nesse ponto de seu argumento, incluía a obra divina
de santificação. Por isso, ele não escreveu “aos que justificou, a esses também santificou, e aos que
santificou, a esses também glorificou”. Não porque a santificação seja opcional (como veremos); estou
sugerindo apenas porque está incluída em “glorificou”. Outra maneira de descrever a santificação
progressiva é chamá-la glorificação progressiva.
Um dos bons resultados de se usar a expressão glorificação progressiva é que ela atrai a atenção para o
fato de que o propósito da providência santificadora de Deus em nossa vida é manifestar a glória de
Deus, ao operar em nós os tipos de pensamentos, afeições e comportamentos que mostram a beleza e o
valor de Deus como nosso tesouro supremo. Nossa glorificação progressiva é a experiência de crescer
em maneiras de pensar, sentir e comportar-se que refletem a glória de Deus em Cristo.
A GLORIFICAÇÃO PROGRESSIVA
CUMPRE A NOVA ALIANÇA
Essa glorificação progressiva foi o que a nova aliança prometeu quando Deus falou:
Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne (Ez
36.26).
Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas
leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 31.33).
Esse novo espírito e esse novo coração, em que a lei de Deus se torna nosso desejo íntimo,
constituem a experiência de glorificação progressiva. As Escrituras nos lembram, repetidas vezes, que
essa transformação é da obra do Espírito de Deus e para a glória da graça de Deus. É da providência de
Deus, para o esplendor de Deus. Considere quatro ilustrações (de Jesus, Pedro, Hebreus e Paulo) a
respeito de como Deus expressa o objetivo de sua providência na glorificação progressiva de seu povo.
O segredo para a nova maneira de servir a Deus na nova aliança (em novidade de espírito, e não na
caducidade da letra — Rm 7.6) é que não olhamos para nossos próprios recursos e confiamos na força,
comprada por sangue, que Deus supre. Pedro diz que, ao fazermos isso, Deus é “glorificado por meio de
Jesus Cristo”. Ou seja, nossa glorificação progressiva, ao servir a Deus pela fé, reflete o valor da glória de
Deus que desfrutamos por meio da obra de Jesus.
Essa é uma sentença maravilhosa! Deus nos torna “dignos da sua vocação” — ou seja, ele nos
capacita a viver uma vida que mostra o valor supremo de nossa vocação. Para realizar isso, Deus compre
nossas boas resoluções. Elas são realizadas pelo poder dele. Esse poder está em consonância com a graça
de Deus. Em outras palavras, é gratuito e imerecido.
Nossa parte nisso é confiar em sua graça e em seu poder e, depois, com essa confiança, usar nossos
corações, mentes e mãos para agir, de modo que nossas obras se tornem obras de fé. O objetivo final de
viver dessa maneira é que “o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele”. Em outras
palavras, mostramos que Cristo é glorioso quando refletimos sua glória nesse formidável padrão de
glorificação progressiva sustentado por Deus.
Paulo ora que os cristãos filipenses produzam o fruto de justiça “para a glória e o louvor de Deus”.
Portanto, ao orar dessa maneira, Paulo está pedindo a Deus que glorifique a Deus. A razão pela qual
deduzo esse fato óbvio, que geralmente passa despercebido, é lembrar-nos que, desde antes da criação,
esse fato tem sido central: as coisas simplesmente não acontecem para a glória de Deus; acontecem para
a glória de Deus porque a providência pervasiva de Deus cuida para que aconteça dessa maneira.
Deus é incrivelmente comprometido com a manifestação de sua glória para a admiração e o gozo de
todos que a têm como seu tesouro supremo. Se não nos sentimos à vontade com essa centralidade
radical de Deus em Deus, não nos sentiremos bem com a história bíblica da providência. Não nos
sentiremos à vontade na presença de Deus que exalta a Deus.
Cristo foi constituído ministro da circuncisão [ele nasceu como o Messias judeu], em prol da verdade de Deus, para confirmar as
promessas feitas aos nossos pais; e para que os gentios glorifiquem a Deus por causa da sua misericórdia (Rm 15.8-9).
Essas duas passagens expressam os dois grandes objetivos da encarnação de Cristo: primeiro, que o
próprio Jesus, em sua obra, glorificaria o nome de seu Pai; segundo, que Jesus faria as nações se unirem a
ele ao fazer a mesma coisa — glorificar a Deus por sua misericórdia. Ou, unindo as duas, como já vimos
com alguma frequência, o objetivo de Cristo era o louvor da glória da graça de Deus (Ef 1.6). Seu
estabelecimento da nova aliança buscava esse alvo.
Aqui não temos dois evangelhos e duas glórias. A glória de Deus é conhecida na face de Cristo. É a
glória de Cristo. A glória de Cristo é a glória de Deus resplandecendo nele como a perfeita imagem de
Deus. Portanto, o desígnio divino e o dever humano do perfeito Deus-homem visavam à exaltação de
sua própria glória — a glória do Pai e do Filho.
Por exemplo, quando soube que seu amigo Lázaro estava doente, Jesus se demorou por dois dias e
permitiu que Lázaro morresse (Jo 11.1-15). Por quê? Ele responde: “Esta enfermidade não é para morte,
e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado ” (Jo 11.4). Observe agora
como a glória de Deus e a glória do Filho são o alvo conjunto da ação de Jesus.
Paulo afirmou o seguinte em relação ao propósito da vinda de Cristo: “ser glorificado nos seus santos e
ser admirado em todos os que creram”. Essas duas afirmações (“ser glorificado nos seus santos” e “ser
admirado em”) abordam dois aspectos distintos da exaltação de Cristo. “Ser glorificado nos seus santos”
põe a ênfase na própria experiência de Cristo receber glória. “Ser admirado em” ressalta a experiência do
coração dos santos em sua admiração daquela glória. Essas duas experiências são inseparáveis. Como
temos visto com frequência, o objetivo supremo é a experiência unida de Deus em Cristo sendo exaltado
como supremo e de nós sendo impactados por vermos e refletirmos essa supremacia.
Permita-me, porém, observar novamente a verdade óbvia que, muitas vezes, é ignorada: a
glorificação de Cristo não é o resultado de sua vinda. É o propósito de sua vinda. Seu propósito. Ele vem a
fim de ser glorificado e admirado. Se não nos alegrarmos com o fato de que Cristo exalta Cristo, não nos
alegraremos com sua vinda. Se escondermos em nós resistência ao zelo de Deus por sua própria glória e
resistência ao compromisso de Cristo com a própria exaltação, toda a nossa leitura estará em desarmonia
com o teor da Escritura. Não conheceremos Deus, nem a nós mesmos, tampouco o mundo, da maneira
correta.
PROPÓSITO ETERNO
Esse propósito de exaltar a Cristo que a segunda vinda possui não é temporário. É um propósito eterno.
Da eternidade passada à eternidade futura, o propósito da criação e da providência tem sido — e sempre
será — a comunicação da glória de Cristo. “Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Esse
propósito — a exaltação de Cristo em toda a criação e na providência — não chega ao fim na nova
criação. A providência de Deus não desaparece na era vindoura. E seu principal desígnio não muda: que
“em todas as coisas” Cristo tenha “a primazia” (Cl 1.18). Certamente, o evento da segunda vinda será
diferente de qualquer outro anterior ou posterior. Haverá uma mudança chocante e definitiva no clímax
da história humana da forma como a conhecemos:
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo
sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória (Mt 24.30).
Mas nós temos visto, em cada ponto da história (até mesmo antes da história), que este universo está
destinado, na sabedoria de Deus — e governado pela providência de Deus —, a ser o palco da glória de
Deus, exibida perfeitamente na glória de sua graça, expressa pela glória de Cristo, que brilha mais
intensamente em seus sofrimentos em favor dos rebeldes indignos.
A PROMESSA MAIS ABUNDANTE DE DEUS?
Esse tem sido o propósito supremo desde o começo. E é o propósito das eras eternas no futuro. Paulo
exultou ao falar sobre isso em uma das promessas mais abundantes que lemos na Escritura:
Juntamente com ele, [Deus] nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos
vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus (Ef 2.6-7).
Isso é acumulação verbal gloriosa. Serão necessários “séculos” eternos para Deus exaurir a
demonstração de sua “riqueza” em relação àqueles que estão em Cristo. Pois essa riqueza é imensurável.
Também é a “riqueza de sua graça”. E, para não pensarmos muito vagamente, Paulo diz que essa graça é
“em bondade”. E, para não pensarmos muito genericamente sobre essa “bondade”, Paulo diz “para
conosco”. E, para não pensarmos que essa riqueza é do Pai, e não do Filho, Paulo conclui dizendo que
essa riqueza vem até nós da parte do Pai “em Cristo Jesus”. Nele, estão todos os tesouros. Isso significa
que, em Cristo, Deus será visto como infinitamente rico em glória por toda a eternidade, e nós ficaremos
cada vez mais satisfeitos com as crescentes medidas de novas bondades.
Durante todos os dias de toda a eternidade — sem pausa e sem fim —, a riqueza da glória da graça
de Deus em Cristo se tornará cada vez maior e mais bela em nossa percepção. Nós somos finitos. Elas
são imensuráveis — infinitas. Portanto, não podemos jamais compreendê-la em sua plenitude. Que isso
fique claro em nossa mente! Sempre haverá mais. Gloriosamente mais. Para sempre. Somente um ser
infinito é capaz de compreender riqueza infinita. Mas nós podemos gastar — e, efetivamente,
gastaremos — a eternidade assimilando mais e mais dessa riqueza. Há uma correlação necessária entre
existência eterna e bênção infinita. Precisamos de uma para experimentar a outra. A vida eterna é
essencial para o desfrutar a imensurável riqueza da graça.
Experiência é uma palavra absolutamente essencial aqui — precisamos de uma coisa para
experimentar a outra. No capítulo anterior, Paulo disse que, desde a criação, Deus planejara fazer do
universo — incluindo a nova criação e a era vindoura — um palco não somente para a manifestação da
“suprema riqueza de sua graça” (Ef 2.7), mas também para o jubiloso “louvor da glória de sua graça” (Ef
1.6, 12, 14). Essa é a experiência implícita em Efésios 2.7. O que significa para nós — para nossa
experiência — Deus nos conceder profusamente, para sempre, “a suprema riqueza de sua graça, em
bondade para conosco, em Cristo Jesus”? Significa alegria. Usando as palavras do apóstolo Pedro,
“alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8).
seu Filho será a nossa alegria no Filho. E a nossa alegria será a alegria de Cristo no Pai.
Isto é o que Jesus nos dirá na segunda vinda: “Entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21, 23). Ele é o
senhor. Nós entramos no gozo dele. Esta será a obra eterna do Espírito: fazer do gozo do Pai e do Filho o
nosso gozo, ao nos revelar a glória do Pai e do Filho em medidas sempre crescentes. Essa será a
experiência da “suprema riqueza de sua graça em bondade para conosco em Cristo Jesus”, a experiência
que será plenamente satisfatória, glorificará Deus, exaltará o Filho e dependerá do Espírito.
DELEITE DE DEUS NO ECO JUBILOSO DE SUAS EXCELÊNCIAS NOS LOUVORES DE SEU POVO
Essa experiência de alegria sempre crescente em tudo que Deus é para nós em Cristo será a essência da
glorificação eterna de Deus nas eras vindouras. Certamente, os céus se alegrarão. O sol, a luz e as estrelas
louvarão o Senhor. A terra se regozijará. Os mares rugirão com louvores. Os rios baterão palmas. Os
montes cantarão de alegria. Os campos e tudo que há neles exultarão. As árvores das florestas entoarão
seus louvores. O deserto florescerá como o narciso (Sl 96.11-13; 98.7-9; 148.3; Is 35.1). O mundo
criado — liberto e aperfeiçoado (Rm 8.21) — nunca cessará de declarar a glória de Deus (Sl 19.1; Rm
1.20).
No entanto, toda essa beleza reveladora e exultante de Deus na natureza não realizará seu propósito
mais elevado até encontrar sua reverberação nos corações cheios de louvores — na experiência — dos
filhos de Deus, comprados por sangue (Rm 8.21). A glória de Deus será a luz que permeará tudo naquele
novo país, mas a lâmpada dessa glória será o Cordeiro (Ap 21.23) — o sofrimento recordado, o
espetáculo eterno.
O teatro aperfeiçoado da criação será glorioso e radiante com Deus. Mas o drama — a experiência
humana de Deus em Cristo —, e não o teatro, será supremo em magnificar o Deus da providência todo-
pervasiva. E a beleza e o valor incomparáveis do Cordeiro que foi morto serão a principal canção da
eternidade. E a alegria dos filhos de Deus será o principal eco das excelências infinitas de Deus — e o
foco de seu deleite eterno.
Quando Jesus diz: “o amor com que me amaste esteja neles” (Jo 17.26), ele não quer dizer um tipo de amor que deve superar os obstáculos
do pecado e da culpa, como quando Deus nos ama. Jesus é infinita e perfeitamente digno do amor do Pai, de modo que esse amor é
essencialmente deleite, gozo, aprovação jubilosa. “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17).
PARTE 3 | A NATUREZA E A EXTENSÃO
DA PROVIDÊNCIA
Seção 1 | Montando o palco
15 | Conhecendo a providência do Deus que é
O alvo da Parte 3 deste livro é mostrar, com base na Escritura, não o objetivo da providência, mas sua
natureza e sua extensão. A nova pergunta não é “para onde Deus está levando o mundo?”, mas, sim, “como
ele cuida para que o mundo chegue (providencialmente) lá?”. No entanto, o objetivo da providência
ainda será proeminente, visto que é na direção dele que tudo está se movendo. E a forma como Deus leva
o mundo ao clímax designado esclarece, ao longo do caminho, o significado desse clímax.
Na Parte 2, vimos, com base na Escritura, o alvo supremo da providência. Em todas as obras da
providência, o objetivo supremo de Deus é ser glorificado ao criar uma nova humanidade — uma igreja,
uma noiva de Cristo, um povo de Deus — que, por meio de Jesus Cristo, existe para o louvor da glória de
sua graça (Ef 1.6, 12, 14).
Visto que a valorização jubilosa é a essência de louvar; visto que a graça gratuita é o ápice da glória de
Deus e que Jesus Cristo, morto em favor de pecadores rebeldes, é a manifestação consumada da graça,
também podemos expressar o objetivo supremo da providência como a alegria aperfeiçoada e
irrepreensível do povo de Deus na glória de sua graça, supremamente radiante no sofrimento vitorioso
do Filho de Deus. O alvo da providência é expresso na seguinte exultação prazerosa: “Digno é o
Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”
(Ap 5.12).
todas as obras da providência são também por amor a nós. “Porque todas as coisas existem por amor de
vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para
glória de Deus” (2Co 4.15; cf. 8.9).
Isso não é uma contradição — por amor a ele e por amor a nós. De fato, a manifestação do valor e da
beleza da glória de Deus é o objetivo supremo. Mas Deus constituiu de tal maneira o mundo criado e a
natureza humana que o valor e a beleza de Deus brilham mais claramente num povo que, acima de tudo,
o valoriza alegremente. Ele é o único Ser no universo para quem a autoexaltação é um ato de amor supremo.
EXEMPLO DE PRESSUPOSIÇÕES
DESPROVIDAS DE BASE BÍBLICA
No que diz respeito a quanto Deus controla e como ele controla, devemos ser instruídos por ele mesmo.
Não ousamos atribuir a ele ou à sua palavra pressuposições que se mostram alheias à sua palavra, ainda
que sejam amplamente aceitas em determinada cultura. Por exemplo, acho que é estranha à Escritura e
desprovida de qualquer base bíblica a pressuposição de que a responsabilidade humana é anulada pelo
controle supremo e decisivo de Deus sobre a vontade humana. Em outras palavras, não penso que
devemos trazer para a Bíblia a pressuposição de que os humanos precisam ter autodeterminação
suprema para agirem de forma responsável e fazerem coisas louváveis ou censuráveis.
Sei que a expressão autodeterminação suprema corre o risco de ser um dos termos filosóficos que
causam confusão e sobre os quais acabei de reclamar. Mas, de fato, não estou tentando esclarecer uma
pressuposição filosófica, mas uma pressuposição cotidiana de uma pessoa comum. Acho que as pessoas
comuns do Ocidente presumem a própria coisa sobre a qual estou advertindo que não devemos
presumir: em relação ao possível controle de Deus sobre as decisões delas, ou o controle delas sobre suas
próprias decisões, é o controle delas, e não o de Deus, que é supremo. Isso é o que muitas pessoas
presumem. Por supremo, quero dizer apenas o controle que decide finalmente o resultado. Isso é o que
quero dizer com pressuposição de autodeterminação suprema.
Meu argumento aqui não é que essa pressuposição (a de que precisamos ter autodeterminação
suprema para agir de forma responsável) seja falsa (embora eu ache que sim). Meu argumento é que não
devemos levá-la ao nosso entendimento da Bíblia como uma pressuposição norteadora. Devemos
esperar e ver se Deus nos diz em sua palavra se esse entendimento de autodeterminação suprema é
verdadeiro.
DEFININDO LIVRE-ARBÍTRIO
Sim, admito que a expressão autodeterminação suprema acaba se enquadrando em uma terminologia
filosófica. Mas meu alvo não é principalmente filosófico; meu algo é prático. Milhões de pessoas comuns
carregam em sua mente a pressuposição culturalmente (não biblicamente) formada de que a
autodeterminação suprema é essencial à sua humanidade moralmente responsável. Na verdade, quase
ninguém usa essa expressão. Em seu lugar, a palavra que usam é livre-arbítrio. Esse termo é visto com
associações e sentimentos tão positivos que quase não é contestado como uma pressuposição aceita.
No entanto, poucos param para defini-lo. E, quando o fazem, começam como um filósofo. Essa é a
razão pela qual os filósofos existem. É algo inevitável. E não estou reclamando da existência deles. Estou
reclamando, como já disse, de priorizar questões filosóficas acima das questões exegéticas e do risco de
ficar emaranhado nas ambiguidades e sutilezas de palavras filosóficas. Tenho essas duas preocupações,
ainda que precise correr esse risco. Não sou contra a filosofia. De fato, desejo que haja mais filósofos
centrados em Deus, exaltadores de Cristo e saturados da Bíblia!
Quando paramos para definir livre-arbítrio, acho que as pessoas querem simplesmente dizer, em
certa medida, algo assim: “Eu faço algo de minha própria e livre vontade, quando minha escolha não é
coagida por alguém, digamos, que coloca uma arma em minha cabeça (ou na cabeça de meu filho)”.
Mas, em um nível mais profundo, se perguntássemos às pessoas quem controla final ou supremamente
suas escolhas, elas responderiam, em geral, acho, algo assim: “Se não tenho o controle final, então não
tenho livre-arbítrio”. E talvez acrescentassem: “E, se eu não tenho livre-arbítrio, não sou responsável. Eu
sou um robô”.
Visto que esse entendimento mais profundo (e quase universal) de livre-arbítrio contém a
pressuposição de autodeterminação suprema (eu tenho o controle final e decisivo no momento em que
prefiro algo e vivo de acordo com isso), é possível ver quão frequentemente essa pressuposição seria
trazida à nossa leitura da Bíblia. Meu argumento é que não devemos fazer isso. Devemos esperar e ver o
que Deus diz sobre sua providência. Devemos esperar e ver se a palavra de Deus nos leva à pressuposição
de que devemos ter a autodeterminação suprema a fim de sermos pessoas responsáveis.
levam à posição de que Deus tenciona que os cristãos fiéis e comuns sejam capazes de discernir, em sua
palavra, com confiança, a verdade de sua providência. Ao ler e ouvir regularmente toda a palavra de
Deus, o cristão pode assimilar a realidade da providência de Deus, de modo que ela se torna um tesouro
que satisfaz a alma e expande a adoração, uma energia que fortalece o amor para sustentar os sacrifícios e
um lastro perfeitamente equilibrado na alma para impedir o barco de virar sob as ondas fustigantes da
vida.
Se eu me aproximo da palavra de Deus e digo: “É para mim ou para meus adversários teológicos?”
Posso esperar ouvir Deus dizer: “Não; sou príncipe”. Em outras palavras, Deus não nos encontra em sua
palavra como um advogado faccioso, mas como um príncipe. Ele não é governado por nossas
pressuposições facciosas. Ele é quem ele é. E revela o que quer revelar. Nosso dever é ouvir, curvar-nos
em adoração confiante e obedecer. Nosso chamado, quando nos aproximamos da palavra de Deus, é
receber o tesouro, a energia e o lastro da realidade da providência. Retiramos as sandálias dos pés —
símbolo de nossa autossuficiência para trilhar as alturas dos mistérios da providência — e dizemos:
“Fala, SENHOR, porque o teu servo ouve” (1Sm 3.9).
Este mundo de natureza e beleza, de pecado e tristeza, é o teatro no qual Deus mesmo entra na
história em Jesus Cristo. É o teatro no qual experimentamos os triunfos de nossa própria salvação. Saber
se e como a providência de Deus exerce controle neste mundo — o mundo inteiro — é mais importante
para nossa perseverança do que muitos cristãos imaginam.
Portanto, a fim de nos dar coragem e competência para a batalha, bem como olhos para esse teatro,
voltemo-nos agora para a natureza e a extensão da providência de Deus.
Veja o Capítulo 3 e os discernimentos de C. S. Lewis a respeito de como o louvor não somente expressa a alegria de admiração, como
também a completa.
John Piper, A Peculiar Glory: How the Christian Scriptures Reveal Their Complete Truthfulness (Wheaton, IL: Crossway, 2016) [edição em
português: Uma glória peculiar (São José dos Campos: Fiel, 2019).
Jonathan Edwards, The “Miscellanies”: (Entry Nos. A-z, Aa-zz, 1-500), ed. Thomas A. Schafer e Harry S. Stout, vol. 13, The Works of Jonathan
Edwards (New Haven, CT: Yale University Press, 2002), 184.
Seção 2 | A providência sobre a natureza
16 | A perda e a recuperação do teatro de maravilhas
O quadro apresentado na Bíblia, do início ao fim, não é um quadro de Deus criando o mundo natural
para seguir seu curso sozinho, enquanto Deus se mantém a distância. O que encontramos, no lugar
disso, é um quadro de Deus criando, sustentando, possuindo e governando o mundo da natureza. Sua
providência não é, por assim dizer, por procuração, mas presente e pessoal — o tipo de proximidade que
fez os escritores bíblicos dizerem coisas como: Deus “faz brotar nos montes a erva” (Sl 147.8), “Deus
[…] enviou um verme, o qual feriu a planta” (Jn 4.7) e “faz sair o vento dos seus reservatórios” (Sl
135.7). Este capítulo é a respeito da atenção íntima — o envolvimento pervasivo — da providência de
Deus na natureza para torná-la um teatro de maravilhas.
A terra e o mar estão cheios de criaturas que Deus fez (Sl 104.24-25). Esse “fazer” não aconteceu
somente no começo do mundo (Gn 1.25). Pelo contrário, sempre que um animal chega à existência,
Deus está ativo nessa criação: “Envias o teu Espírito, eles são criados” (Sl 104.30), o que pode significar
ou que o Espírito Santo de Deus está ativo na criação de cada animal, ou que, mais metaforicamente, o
fôlego de vida de Deus dá vida ao animal. Aqui, a verdade é essencialmente a mesma em ambos os casos.
E, ainda que a maioria dos seres que “se movem” no mar não tenha fôlego, a verdade permanece a
mesma: o salmista quer que atribuamos o surgimento sempre recorrente da vida animal à obra de
criação contínua de Deus.
Deus faz essa provisão para suas criaturas com tanto cuidado e intencionalidade que o salmista fala
realmente de Deus alimentá-los, como Jesus o faz quando diz sobre as aves: “Vosso Pai celeste as
sustenta” (Mt 6.26):
Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se
ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó (Sl 104.27-29).
O salmista não perdeu de vista o fato de que houve um começo, um momento no qual Deus criou os
céus e a terra (Gn 1.1):
Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão,
para que não tornem a cobrir a terra (Sl 104.8-9).
No entanto, o foco desse salmo está na maravilhosa prontidão da sabedoria de Deus. “Fazes crescer a
relva” (Sl 104.14). E, como diz o Salmo 147.8-9:
[Deus] cobre de nuvens os céus, prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva e dá o alimento aos animais e aos filhos
dos corvos, quando clamam.
Os salmistas não querem que pensemos ou falemos como os naturalistas modernos, os quais pensam
no mundo natural como formado e sustentado por processos físicos irracionais. Ou em relação às
nuvens, ou aos olhos e ouvidos dos homens, a providência de Deus é muito próxima e poderosa em sua
criação e em sua sustentação contínuas. “O ouvido que ouve e o olho que vê, o SENHOR os fez, tanto um
como o outro” (Pv 20.12). Todos os bilhões de olhos e ouvidos neste planeta foram feitos por Deus —
não apenas planejados no começo do mundo, mas feitos no ventre. “Pois tu formaste o meu interior, tu
me teceste no seio de minha mãe” (Sl 139.13). O ponto de vista bíblico sobre o mundo é o de que a
grama, a chuva, as fontes de água, os ouvidos e os olhos são obra das mãos de Deus, quando, então,
chegam à existência e cumprem sua obra designada por Deus.
Aqui, suponho que o salmista não está em desarmonia com a realidade ao expressar seu desejo de
que o Senhor se regozije em suas obras. Ele não está desejando algo que Deus reluta em fazer. Não está
orando que Deus cometa idolatria ao exultar na criação e não somente em si mesmo. Não, o salmista
está se unindo a Deus para afirmar o que ele sabe com base em seu próprio discernimento dado por
Deus: isso é o que Deus realmente faz, ou seja, ele se regozija nas obras de suas mãos.
Se, em cada momento de sua criação, Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1.4, 10, 12, 18, 21, 25),
seria muito estranho se ele ficasse desapontado, em vez de se regozijar. E seria duplamente estranho se,
no momento da criação, todos os anjos exultassem de alegria e Deus não compartilhasse a alegria deles.
Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento […] quem lhe assentou a pedra
angular, quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus [anjos]? (Jó 38.4, 6-7)
Em outras palavras, um dos propósitos de Deus em criar o mundo natural foi o gozo que teria nele. O
fato de que Deus se regozija nas obras de suas mãos oferece uma explicação parcial às incontáveis glórias
do universo natural que nenhum ser humano jamais vê e nenhum anjo compreende totalmente. Deus fez
o Leviatã para “brincar” no mar: “Eis o mar vasto, imenso […] e o Leviatã que formaste para nele brincar”
(Sl 104.25-26, NAA). Há milhões dessas maravilhas lúdicas que nenhum humano jamais vê:
Olhe para o monstro Beemote, que eu criei […] O capim que o alimenta cresce nas montanhas, onde as feras se divertem. (Jó
40.15, 20, NTLH).
Todo esse brincar totalmente fascinante enche a criação não vista pelos humanos. Mas não há
desperdício. Os anjos assimilam um pouco dela. Um dia, também assimilaremos mais dela. Mas Deus a
assimila completamente e se regozija em toda ela. É parte da glória de Deus não perder nada da criação e
valorizá-la de acordo com sua verdadeira natureza como uma revelação dele mesmo.
O salmista sabia que seria blasfemo sugerir que Deus precisava da criação para ser glorioso ou ser feliz
— como uma criança frustrada que precisa de um brinquedo para brincar. Não. A alegria de Deus na
criação é a plenitude de sua alegria na glória de seu próprio poder, de sua sabedoria e de sua bondade
que se expressam na criação. Isso se torna mais claro ainda quando avançamos para o segundo propósito
de Deus em criar, sustentar, possuir e governar o mundo natural.
A glória do SENHOR seja para sempre […] Cantarei ao SENHOR enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a
minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no SENHOR (Sl 104.31, 33-34).
O salmista chama esse salmo de “meditação” (ou louvor meditativo: “Seja-lhe agradável a minha
meditação”). Ele esteve meditando sobre o mundo que Deus criou, sustenta e governa. O mundo da
providência. O que ele viu o levou a exultar na sabedoria incomparável de Deus, nas incontáveis
maravilhas naturais que Deus cria e controla. “Todas com sabedoria as fizeste.” A glória dessa sabedoria
e sua execução em poder e bondade levaram o salmista a cantar, louvar e se alegrar no Senhor.
É importante notar isto: o salmista se alegra “no SENHOR” (104.34). Sim, ele se regozija nas obras do
Senhor (como Deus mesmo o faz — 104.31). Não fazer isso seria um pecado de ingratidão. Essas são
dádivas e bênçãos. Mas, quando tudo é dito e feito, e o salmista espera que sua meditação seja agradável
a Deus, a base de sua esperança é esta: “Eu me alegrarei no SENHOR” — não finalmente, nem
completamente em suas obras, mas no próprio Senhor. A criação existe para isso.
Toda a criação — nos céus, acima, ou na terra, embaixo — destina-se a revelar a glória de Deus. A
glória de Deus, incluindo seu poder, sua natureza divina, seu entendimento, sua bondade — tudo isso e
ainda mais —, é colocada em exibição no teatro da glória de Deus, que chamamos de mundo natural:
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos (Sl 19.1).
Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis (Rm
1.20).
Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode
esquadrinhar o seu entendimento (Is 40.28).
O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras (Sl 145.9).
No Capítulo 16, inferimos uma governança divina extensiva e detalhada de todos os processos naturais,
principalmente com base em alguns versículos do Salmo 104: “Fazes crescer a relva” (v. 14); “Tu fazes
rebentar fontes no vale” (v. 10); “Se lhes [tuas criaturas] cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó”
(v. 29). Mas o testemunho bíblico da providência de Deus sobre o mundo natural é muito mais vasto e
específico. Aborda os maiores e os menores eventos da natureza, e mostra o cuidado pessoal de Deus em
dirigir cada aspecto desse mundo natural.
Com um só olhar para a terra, ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam (Sl 104.32).
Abalaste a terra, fendeste-a; repara-lhe as brechas, pois ela ameaça ruir (Sl 60.2).
Uma ocasião em que vemos Deus se mover dos processos normais de governar a terra para um ato
extraordinário de controle é quando Corá, Datã e Abirão se rebelam contra Moisés. Deus os sentencia à
morte, bem como suas famílias. E tira suas vidas ao fazer a terra abrir-se e engoli-los:
[Moisés disse:] Mas, se o SENHOR criar alguma coisa inaudita, e a terra abrir a sua boca e os tragar com tudo o que é seu, e vivos
descerem ao abismo, então, conhecereis que estes homens desprezaram o SENHOR. E aconteceu que, acabando ele de falar todas
estas palavras, a terra debaixo deles se fendeu, abriu a sua boca e os tragou (Nm 16.30-32; cf. Dt 11.6).
Com base no fato de que Deus criou a terra para seus propósitos, com base em sua possessão
absoluta da terra e de tudo que ela contém, em sua moldagem contínua da estrutura da terra (quando os
montes são removidos — Jó 9.5) e em seu fazê-la tremer e abrir-se, podemos concluir que, não
importando quais sejam os processos naturais que aconteçam na terra, Deus está agindo neles para
realizar seus propósitos. Ainda não estou abordando o que Satanás e os homens podem fazer com a
terra. Isso virá depois, no Capítulo 18.
Estou simplesmente concluindo que todos os processos naturais, como, por exemplo, os terremotos,
estão no controle de Deus, porque, se Deus os causa (como já vimos que o faz), também pode fazê-los
cessar. A terra não é autônoma. Não tem vontade própria. Seus processos não ocorrem 43
independentemente de seu criador, possuidor e governante. Deus é “Senhor do céu e da terra” (At
17.24). Ele “move a terra para fora do seu lugar” (Jó 9.6). Ou não. A terra se abala ou permanece firme
ante a direção daquele que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Deus é
aquele sobre quem Jó disse, no fim de suas aflições: “Nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó
42.1). Ele é aquele que diz: “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10).
“Ao teu dispor estão todas as coisas” (Sl 119.91). Portanto, se um terremoto destrói uma cidade, isso foi
do Senhor. Porque o Senhor disse: “Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?”
(Am 3.6). E espera a resposta não. Se o desastre vem, é porque o Senhor o fez.
PROVIDÊNCIA SOBRE A ÁGUA
No que se refere ao impacto sobre a vida humana, há uma íntima conexão entre a terra e a água. Um
terremoto pode destruir um dique, mas é a água violenta seguindo curso abaixo que destrói um vilarejo.
Um terremoto pode acontecer no fundo do oceano Índico, mas foi o tsunami de 26 de dezembro de
2004 que tirou a vida de mais de 200 mil pessoas. O que a Bíblia diz a respeito do controle que Deus
exerce sobre a água — inundações, mares, rios, ondas, chuva, granizo, neve, gelo, orvalho?
Não há razão alguma para pensarmos que Jesus, de seu trono no céu, agora não possa dar ordens às
ondas, da maneira como fez quando esteve aqui. “Jesus repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo
cessou, e veio a bonança” (Lc 8.24). Com base nisso, os discípulos inferiram corretamente: “Até os
ventos e o mar lhe obedecem” (Mt 8.27). Isso ainda é verdadeiro hoje: os mares obedecem a Jesus. Eles
não se movem sem a instrução do Senhor, quer por comando, quer por sua permissão sabiamente
planejada. Com uma simples repreensão, o Senhor Jesus pode fazer todas as ondas furiosas se
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aquietarem. Ele pode parar tsunamis. Se não o faz, ficamos calados e confiamos na justiça, na bondade e
na sabedoria do plano de Deus. “Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas
vezes, porém não prosseguirei” (Jó 40.4-5).
A água também obedece à ordem de Deus para fluir onde não há nenhum ribeiro (2Rs 3.17, 20),
tornar-se em sangue (Sl 105.29), jorrar de uma rocha (Nm 20.8; Sl 105.41; 114.17), fazer a cabeça de
um machado flutuar (2Rs 6.6-7) e parar de ser venenosa (2Rs 4.41).
A providência de Deus na chuva não é aleatória, como também não é qualquer outra ação de água
em qualquer lugar do mundo. A Bíblia nos direciona a uma cosmovisão em que nenhum elemento ou
evento natural existe ou opera de forma aleatória ou somente segundo as chamadas leis da natureza. A
cosmovisão bíblica é centrada em Deus. Na natureza, nada acontece sem a providência sábia, justa e
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graciosa de Deus. Nada está fora do interesse e da orientação de Deus. De fato, os caminhos dele são,
para nós, frequentemente inescrutáveis (Rm 11.33). Mas o quadro bíblico do mundo natural é radiante
com a realidade de que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente” (Rm 11.36).
Nuvens, relâmpagos, toda rajada de vento — esses são guardados pelo Senhor, por assim dizer, em
reservatórios, e trazidos para fora quando ele considera conveniente aos seus propósitos:
Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos. Faz subir as nuvens dos confins da
terra, faz os relâmpagos para a chuva, faz sair o vento dos seus reservatórios (Sl 135.6-7).
E, quando os retira de seus reservatórios, o Senhor lhes dá ordens, e cumprem cada palavra dele.
Louvai ao SENHOR da terra, monstros marinhos e abismos todos; fogo e saraiva, neve e vapor e ventos procelosos que lhe
executam a palavra (Sl 148.7-8).
MILHARES DE PROVIDÊNCIAS
NÃO AGRADECIDAS — DIARIAMENTE
Não posso deixar de parar aqui e fazer uma observação sobre a maneira como o mundo responde à
providência de Deus. Se há uma tempestade no mar e um navio afunda, ou se condições climáticas
perigosas derrubam um avião comercial, e vidas se perdem, com muita frequência há uma espécie de
clamor — tanto publicamente como na tristeza pessoal de membros de famílias — sobre o fracasso de
Deus em impedir o desastre (“Onde estava Deus?”). Uma tristeza profunda é real, dolorosa e
compreensível por parte de todos os que experimentam perdas nesses desastres. E, com muita
frequência, até os santos mais maduros pronunciam palavras imprudentes (Jo 6.26). Porém,
conselheiros sábios deixam-nas passar sem julgamento nos momentos de crise.
Mas onde está a intensidade emocional correspondente ou mesmo o reconhecimento moderado da
providência de Deus quando 100 mil aviões aterrissam em segurança todos os dias? Essa é
aproximadamente a quantidade de voos programados que existem todos os dias no mundo. E isso não
inclui a aviação de forma geral, os táxis aéreos, os aviões militares e os cargueiros. Onde está o coro
incessante de admiração e agradecimento pelo fato de que hoje Deus providenciou dez milhões de
fatores mecânicos, naturais e pessoais que cooperam perfeitamente para manter esses aviões no ar e levá-
los em segurança ao destino desejado — e a maioria levando pessoas que negligenciam e menosprezam
a Deus?
Quando um avião sem os motores funcionando aterrissa no rio Hudson, e cada passageiro sai pelas
asas flutuantes desse avião de oitenta toneladas, ou quando um avião com 97 passageiros cai no México e
explode em chamas depois que cada passageiro e toda a tripulação estão em segurança fora do avião,
onde está a efusão pública de gratidão ao Deus das maravilhas? Onde está o clamor sincero de gratidão a
Deus que ouvimos em Salmos 107.31 pelo resgate no mar?
Rendam graças ao SENHOR por sua bondade e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!
O mundo e até milhares de cristãos não tributam louvor e ações de graças a Deus por milhões de
providências diárias e sustentadoras da vida, pois não veem o mundo como o teatro das maravilhas de
Deus. Veem-no como uma máquina enorme que funciona segundo leis naturais irracionais, exceto
quando a rebeldia e a autoexaltação de nossos corações veem uma oportunidade adequada para
encontrar falhas em Deus e justificar nossa cegueira em relação a bilhões de atos de bondade para com
sua criação desafiadora. Um dos meus objetivos em escrever este livro é ajudar-nos a ver o mundo de
outra maneira.
Deus nascer uma planta, que subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra sobre a sua cabeça, a fim
de o livrar do seu desconforto” (Jn 4.6). Porém, muito mais importante do que essa intervenção
extraordinária no caso de Jonas, é a obra constante de Deus em sustentar milhões de pessoas por
produzir comida para o homem e os animais:
Fazes crescer a relva para os animais e as plantas, para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão, o vinho, que alegra
o coração do homem, o azeite, que lhe dá brilho ao rosto, e o alimento, que lhe sustém as forças (Sl 104.14-15).
O grão do campo obedece à ordem do Senhor, quer para perecer de fome, quer para prosperar
quando a fome é restringida:
Fez vir fome sobre a terra e cortou os meios de se obter pão (Sl 105.16; cf. 2Rs 8.1; Ez 5.16-17; 14.13).
Farei vir o trigo, e o multiplicarei, e não trarei fome sobre vós (Ez 36.29; cf. Rt 1.6).
Isso é realmente extraordinário. Deus quer que olhemos para as flores e sejamos encorajados e
fortalecidos, para acabarmos com a ansiedade quanto a roupas para vestir. Como isso funciona? Quero
dizer, se somos pobres e quase não temos roupas nem sapatos, como um lírio florescente pode ter o
poder de aquietar em nosso coração o temor de vergonha e exposição?
A resposta é que ele não pode — a menos que sejamos profundamente convencidos, por uma
doutrina biblicamente fundamentada, da providência de Deus sobre as plantas e sobre nossas vidas.
Uma das razões por que estou escrevendo este livro é ajudar os cristãos a viverem na devoção radical e
espontânea de buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus (Mt 6.33), porque nossa doutrina da
providência nos leva a crer realmente que o controle de Deus é suficientemente detalhado, poderoso e
misericordioso para vestir cada lírio no planeta e nos dar tudo que precisamos para viver sua justiça.
Jesus adotava seriamente um ponto de vista pervasivo e detalhado sobre a providência quando
olhava para o mundo e quando lia seu Antigo Testamento. Sem dúvida, ele leu em Salmos 147.9:
“[Deus] dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos, quando clamam”. E conhecia a resposta à
pergunta que Deus fez a Jó: “Quem prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam
a Deus e andam vagueando, por não terem que comer?” (Jó 38.41) De fato, Jesus sabia que seu Pai
sustenta toda vida em suas mãos: “Na sua mão está a alma de todo ser vivente” (Jó 12.10).
Um tordo precisa de um verme para sobreviver? Deus governa o mundo subterrâneo dos vermes e
ordena-lhes que estejam onde ele quer que estejam para cumprir seus propósitos. Por exemplo, quando
ele quis repreender Jonas por se sentar à sombra com sua raiva etnocêntrica, “Deus […] enviou um
verme, o qual feriu a planta, e esta se secou” (Jn 4.7). Um pelicano precisa de um peixe para sobreviver?
Deus governa o mundo subaquático dos peixes e ordena-lhes que façam a sua vontade, como na ocasião
em que Jonas precisava ser salvo das profundezas: “Deparou o SENHOR um grande peixe, para que
tragasse a Jonas” (Jn 1.17). E, quando os discípulos precisaram de encorajamento, Jesus cuidou para que
os peixes viessem na hora certa e enchessem as redes deles (Lc 5.5-6; Jo 21.5-6). E, se necessário, um
desses peixes terá uma moeda na boca (Mt 17.27), sem mencionarmos o fato de que, quando os peixes
já estão mortos, Jesus pode cuidar para que dois deles (com cinco pães) alimentem cinco mil (Mt 14.17-
21).
Desse modo, Jesus pega seu ponto de vista todo-abrangente sobre a providência e argumenta da
seguinte maneira em Mateus 6.26:
Premissa 1: Deus alimenta as aves do céu.
Premissa 2: Para ele você é mais valioso do que as aves.
Conclusão: Deus lhe dará tudo que você precisa para realizar todos os propósitos dele, o que é a base do mandamento “Buscai,
pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.33).
Jesus não tenciona argumentar isso para nós o tempo todo. Ele está dando um exemplo. Está nos
dizendo que devemos aplicar a doutrina da providência quando olhamos para o mundo natural:
“Observai as aves do céu” (Mt 6.26). “Observai os corvos” (Lc 12.24). “Observai os lírios” (Lc 12.27).