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Revista Dbo - 58 59

O artigo discute os desafios e estratégias de controle do carrapato bovino, que afeta a produtividade e saúde do rebanho. Apresenta a evolução dos métodos de controle, desde arsenicais até novas moléculas, e recomendações para manejo preventivo, considerando as particularidades regionais no Brasil. Destaca a importância de abordagens integradas e a necessidade de orientação técnica para enfrentar a resistência dos carrapatos aos tratamentos disponíveis.

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Revista Dbo - 58 59

O artigo discute os desafios e estratégias de controle do carrapato bovino, que afeta a produtividade e saúde do rebanho. Apresenta a evolução dos métodos de controle, desde arsenicais até novas moléculas, e recomendações para manejo preventivo, considerando as particularidades regionais no Brasil. Destaca a importância de abordagens integradas e a necessidade de orientação técnica para enfrentar a resistência dos carrapatos aos tratamentos disponíveis.

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SANIDADE | ARTIGO

Carrapato: desafios e
estratégias de controle
A cadeia produtiva da carne bo-
vina enfrenta, há tempos, desafios consi- Fig. 1 - Ciclo de vida do carrapato do boi
deráveis decorrentes das parasitoses, es-
pecialmente aquelas provocadas pelas
infestações de carrapatos, que, além de
causarem queda na produtividade pela
perda de sangue e desvio de energia dos
animais, prejudica sua saúde e bem-es-
tar, além de trazer custos adicionais com
tratamentos e manejo do rebanho. Dian-
te desse cenário desafiador, torna-se es-
sencial adotar estratégias eficazes de con-
trole do parasita, especialmente diante do
surgimento de populações resistentes aos
princípios ativos dos carrapaticidas tradi-
cionais. Várias técnicas foram desenvol-
vidas para enfrentar o problema: estudos
sobre a resistência genética dos bovinos
aos carrapatos; práticas de manejo am- Fonte: Nespro/UFRGS
biental, como o controle da altura e densi-
dade dos pastos; uso de armadilhas, fungos e fitoterápicos com nheiros de imersão. Mesmo naquela época, já se identificavam
propriedades repelentes ou inseticidas. Essas abordagens, com- sinais de resistência cruzada entre esses princípios ativos, o que
binadas com o manejo da epidemiologia do ectoparasita e o esta- dificultou seu uso. Além disso, devido à presença de resíduos na
belecimento de calendários sanitários específicos, oferecem um carne, os dois fármacos foram proibidos no Brasil. Na sequência,
potencial significativo para controle da população de carrapatos surgiram os organofosforados, os carbamatos e, em meados das
em bovinos, assegurando a saúde e a produtividade do rebanho. décadas de 70 e 80, princípios ativos como o amitraz (amidinas);
O ciclo biológico do Rhipicephalus (Boophilus) microplus é a cipermetrina (piretroide); e a ivermectina (lactonas macrocí-
dividido em duas etapas: a parasitária e a de vida livre. Nesta úl- clicas), todos em uso até hoje. Embora esses fármacos tenham
tima, a fêmea ingurgitada de sangue se desprende do bovino hos- destacada eficácia, a presença de carrapatos resistentes exigiu
pedeiro e procura um local preferencialmente úmido para rea- novas alternativas para combatê-los. Assim, na década de 90,
lizar a postura dos ovos (veja figura acima). Cada fêmea produz, surgiram os Benzoilfenilureia (Fluazuron), os Fenilpirazóis (Fi-
em média, 3.000 ovos no período de duas semanas a dois meses, pronil), e, recentemente (2022), as isoxazolinas, através do prin-
e depois morre. Esta fase é diretamente influenciada pela tem- cípio ativo Fluralaner (veja figura 2).
peratura e umidade no ambiente, pois os ovos são extremamente O controle do carrapato bovino é bastante complexo por en-
sensíveis à desidratação. As larvas começam a eclodir cerca de volver diversos fatores: raça, categoria animal, época do ano, es-
20 dias após a oviposição e se tornam bastante ativas, migrando tado nutricional e sanitário do rebanho, manejo e condições
para a extremidade das folhas, a fim de encontrar um hospedei- ambientais. Características da pele, pelagem, autolimpeza, res-
ro. Passados sete dias da fase parasitária no bovino, a larva sofre postas imunológicas e presença de genes de zebuínos resultam
uma primeira ecdise (se transforma em ninfa) e, após mais sete em diferentes níveis de resistência ao carrapato. A principal for-
dias, uma segunda ecdise (diferenciação sexual). As teleóginas ma de controle do parasita ainda é por meio de produtos quími-
se reproduzem sobre o hospedeiro e usam a maior parte dos nu- cos, com os mais variados princípios ativos de contato e sistê-
trientes ingeridos para a formação dos ovos até o ingurgitamen- micos. No grupo dos fármacos que atuam por contato estão os
to. Assim, o ciclo se repete, tendo-se até quatro gerações em um organofosforados e os piretróides, que não apresentam poder re-
ano, dependendo das condições climáticas. sidual, e os diamínicos (amitraz) e o fenilpirazóis (fipronil) que
atuam por mais tempo no corpo do animal, aumentando o inter-
Evolução do controle valo entre aplicações. Já o grupo dos sistêmicas, metabolizados
O combate ao carrapato nos bovinos começou no século pelo animal, inclui as avermectinas, o fluazuron e o fluralaner.
XIX, com os chamados arsenicais. Posteriormente, por volta dos Buscando alternativas para vencer a resistência dos carra-
anos 50, surgiram os organoclorados, aplicados por meio de ba- patos aos grupos químicos disponíveis no mercado, os labora-

58 DBO junho 2024


tórios desenvolveram estratégias de ata-
que múltiplo, investindo em formulações Fig. 2 - Linha do tempo dos carrapaticidas
carrapaticidas associadas. Para uma me-
lhor eficácia no tratamento e para retar-
dar a seleção de populações resistentes,
é estratégico controlar a frequência de
uso dos banhos de imersão ou aspersão,
das formulações pour on, da concentra-
ção e dosagem desses produtos e rotação
de moléculas. Outra medida que pode ser
adotada e que evita gastos com princípios
ativos ineficazes é fazer o teste de biocar-
rapaticidograma. Nele, com uma amostra
de 100 fêmeas ingurgitadas de sangue, é
possível descobrir as moléculas às quais
aquela população é sensível ou resisten-
te. É importante que os animais testados
não tenham passado por tratamento pré-
vio à coleta por 21 dias, no caso de banho
de imersão ou aspersão, e por 50 dias no
caso de injetáveis.
ticidas de contato, ou 30 e 45 dias, respectivamente, nos casos de
Recomendações avermectinas e fluazuron (veja figura 3).
É aconselhada a realização de três tratamentos preventivos Além do controle químico adequado, ainda existem alguns
ao longo do ano, para as condições do Sul do Brasil: o primeiro manejos que podem colaborar no controle do carrapato, como
nos meses de outubro/novembro, para eliminar a primeira gera- uma rotação de pastagens que considere o ciclo de vida do para-
ção de carrapatos que terá pico em dezembro/janeiro; a segun- sita (95% da população está no solo), de forma a reduzir seu con-
da aplicação em janeiro para prevenir a segunda geração de pico tato com o hospedeiro. Sabendo-se que 20%-30% do rebanho são
em fevereiro; por fim, uma terceira aplicação em março/abril que suscetíveis às infestações e acabam sofrendo mais prejuízos, é
dissipará a terceira geração com o pico em abril/maio. É impor- possível fazer uma triagem dos animais menos resistentes para
tante ressaltar, que, por se tratar de um manejo preventivo, deve tratamento mais frequente com carrapaticidas. Ao adquirir ani-
ser feito antes de se verificarem altas infestações. mais oriundos de fazendas onde o mane-
No Brasil-Central, o cenário é um pouco distinto, devido ao jo do carrapato é desconhecido, o produtor
período marcado de águas (outubro a março) e de seca (abril a deve colocá-los em quarentena e tratá-los,
setembro). Como as temperaturas altas e a umidade favorecem para que não introduzam carrapatos re-
o desenvolvimento do carrapato, o controle deve ser feito nos sistentes no rebanho.
meses de seca, que são desfavoráveis à manutenção das larvas O cenário no Brasil para o controle
nas pastagens. O controle estratégico pode ser feito com cinco do carrapato é alarmante, principalmen-
ou seis tratamentos, a intervalos de 21 dias, no caso de carrapa- te no Sul, onde se concentram as maio-
res taxas de resistência a carrapaticidas e
Fig. 3 - Dinâmica populacional e sugestão de onde se criam raças bovinas mais susce-
tratamentos preventivos ao longo do ano tíveis (taurinas). O uso indiscriminado de
princípios ativos e a falta de conhecimen- Júlio Barcelos,
é professor do
to técnico acerca das doses e concentra- Departamento de
G3
Tratamentos ções adequadas favorece e acelera o sur- Zootecnia da UFRGS
Pico das gerações gimento destas populações de carrapatos e coordenador do
Nespro.
de carrapato
que sobrevivem mesmo com tratamen-
Brasil-Central
G3 tos seriados. O surgimento de vacinas se Coautores: Laura
Girardi, Leonardo
Sul do Brasil
mostra promissor, ainda que não este- Saafeld e Manuela
G2
jam disponíveis no Brasil e nem substi- Siqueira (graduan-
G1
T3
T2 G2
tuam os métodos tradicionais. Por fim, dos em veterinária
G1 T3 G4
da UFRGS); Marcela
T1
T4
T2 cabe ressaltar à necessidade de melhor Kuczynski da Rocha
T1 T5 orientação técnica aos pecuaristas, bem (pós-doutoranda) e
como manejos integrados para prolongar Helena Xavier Fagundes
(mestranda) do curso
a vida útil e eficácia de novos acaricidas de Zootecnia da
Fonte: Nespro/UFRGS que vêm surgindo no mercado. n mesma instituição.

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