INQUÉRITO POLICIAL
DIREITO
PROCESSUAL
PENAL
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1. A POLÍCIA NO BRASIL
a) POLÍCIA ADMINISTRATIVA/OSTENSIVA
O seu papel é nitidamente preventivo, almejando inibir a prática de delitos,
atuando de forma ostensiva.
Ex.: PM e PRF.
b) POLÍCIA JUDICIÁRIA/CIVIL
O seu papel é investigativo, atuando como auxiliar do Poder Judiciário e
elaborando o IP, atuando de forma velada.
Ex.: PC (Estados) e PF (União).
Art. 4º A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de
suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e da
sua autoria.
1.2. ATUAÇÃO DA AUTORIDADE POLICIAL
a) FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA
CRITÉRIOS DEFINIDORES PARA ATUAÇÃO DA AUTORIDADE POLICIAL
O delegado com atribuição é aquele que atua na circunscrição
Territorial
(delimitação territorial de atuação) da consumação do delito.
O delegado com atribuição é aquele que é especializado no tipo
Material
de infração cometida. Ex.: Delegacia de Homicídios.
O delegado com atribuição é definido em razão da vítima.
Pessoal
Ex.: Delegacia da Mulher.
• Nas comarcas com mais de 1 circunscrição, estão dispensadas as cartas
precatórias entre delegados:
Art. 22. No Distrito Federal e nas comarcas em que houver mais de uma
circunscrição policial, a autoridade com exercício em uma delas poderá, nos
inquéritos a que esteja procedendo, ordenar diligências em circunscrição de outra,
independentemente de precatórias ou requisições, e bem assim providenciará,
até que compareça a autoridade competente, sobre qualquer fato que ocorra em
sua presença, noutra circunscrição.
b) DILIGÊNCIAS
Art. 6o - Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade
policial deverá:
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I - Dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação
das coisas, até a chegada dos peritos criminais;
II - Apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos
Criminais;
III - Colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas
circunstâncias;
IV - Ouvir o ofendido;
V - Ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo
III do Título Vll, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por 2
testemunhas que lhe tenham ouvido a leitura;
VI - Proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações;
VII - Determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer
outras perícias;
VIII - Ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e
fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes;
IX - Averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar
e social, sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do
crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação
do seu temperamento e caráter.
X - Colher informações sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem
alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos
filhos, indicado pela pessoa presa.
• A identificação criminal é a diligência que almeja colher elementos para
individualizar a pessoa, diferenciando-a das demais. Pode ser feita por
fotografia, impressão digital e colheita de material biológico (determinada
pelo juiz);
• O Juiz pode determinar a colheita do material biológico de ofício, a
requerimento da defesa, do MP ou por representação da autoridade
policial;
• Caso seja essencial para as investigações policiais, o preso em flagrante
poderá ser obrigado a se sujeitar à coleta de material genético, mediante
despacho da autoridade judiciária competente, mesmo que forneça a sua
identidade civil;
Art. 7º - Para verificar a possibilidade de haver a infração sido praticada de
determinado modo, a autoridade policial poderá proceder à reprodução simulada
dos fatos, desde que esta não contrarie a moralidade ou a ordem pública.
• O acusado não é obrigado a participar da reconstituição do crime –
princípio do nemo tenetur se detegere, mas poderá será obrigado a
acompanhar a reconstituição;
• A reprodução simulada é uma prova nominada, atípica (não tem um
procedimento determinado no código) e pode ser determinada pelo
delegado, independentemente de intervenção do MP ou Juiz;
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1.3. CONCEITO E FINALIDADE
O IP é um procedimento administrativo preliminar, de caráter informativo,
presidido pela autoridade policial (delegado), sem forma pré-estabelecida
(informal/discricionário), sem contraditório e ampla defesa (inquisitivo), com
prazo determinado, que tem por objetivo apurar a autoria, a materialidade e as
circunstâncias da infração (justa causa), contribuindo na formação da opinio
delicti do titular da ação.
• Justa causa é o lastro probatório mínimo acerca de materialidade e
autoria/participação suficiente para que o titular da ação penal (MP ou
ofendido) possa imputar a prática de infração penal a alguém;
FINALIDADES DO INQUÉRITO POLICIAL
1 Oferecer justa causa para o autor (MP/ofendido) da ação penal.
2 Oferecer fundamentos para a decretação de medidas cautelares.
3 Garantir que o cidadão inocente não seja processado sem motivo.
4 Auxiliar na formação da convicção do juiz acerca do fato.
Lei 12.830/13, art. 2º, § 1º - Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade policial,
cabe a condução da investigação criminal por meio de inquérito policial ou outro
procedimento previsto em lei, que tem como objetivo a apuração das circunstâncias, da
materialidade e da autoria das infrações penais.
• A atividade investigatória de crimes não é exclusiva da polícia judiciária,
podendo ser eventualmente presidida por outras autoridades, conforme
dispuser a lei especial (CPI, Processo Administrativo, Inquérito Ministerial - MP,
Inquérito Policial Militar – IPM);
• A avocação/redistribuição do IP pode ocorrer em caso de interesse público
e de descumprimento de regras procedimentais, sempre por ato motivado do
chefe de polícia e por motivo determinado em lei;
• As ações criminais são, em regra, titularizadas pelo Ministério Público (MP):
CF/88, art. 129 - São funções institucionais do Ministério Público:
I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei;
• O IP serve para convencer o titular da ação (MP ou ofendido) quanto à
deflagração ou não do processo:
Art. 13 - Incumbirá ainda à autoridade policial:
I - Fornecer às autoridades judiciárias as informações necessárias à instrução e
julgamento dos processos;
II - Realizar as diligências requisitadas pelo juiz ou pelo Ministério Público;
III - Cumprir os mandados de prisão expedidos pelas autoridades judiciárias;
IV - Representar acerca da prisão preventiva.
• Em virtude da sua natureza inquisitiva, não é obrigatória a observância de
contraditório e ampla defesa;
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• O IP tem valor probatório relativo, pois serve de base apenas para a
deflagração do processo, não podendo, por si só, sustentar a futura
condenação, pois os seus elementos não se submeteram ao contraditório ou
à ampla defesa:
Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em
contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos
elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares,
não repetíveis e antecipadas.
Justificada pela necessidade e urgência.
Cautelar
Ex.: Interceptação telefônica.
Não terá como ser refeita na fase processual devido ao seu
Não repetível iminente perecimento, não dependendo de ordem judicial.
Ex.: Bafômetro.
Terá dificultada sua colheita por alguma circunstância, devendo
Antecipada ser instaurada perante o juiz, com contraditório e ampla defesa.
Ex.: Depoimento de testemunha com risco de morte.
• O indiciamento é o ato formal privativo do delegado de polícia, exigindo a
adequada motivação, por meio de análise técnico-jurídica, evidenciando-se
os indícios da autoria, da materialidade e das circunstâncias da infração:
Lei 12.830/13, art. 2, § 6º - O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-
á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá
indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias.
• O indiciamento caracteriza a convergência da investigação em face de
determinada pessoa, saindo de um juízo de possibilidade para um juízo de
probabilidade, pois o indiciado passa a ser o principal suspeito do delito;
• As autoridades com foro por prerrogativa de função só poderão ser
indiciadas com prévia autorização do tribunal no qual elas gozam da referida
prerrogativa (ex.: Membros do Congresso perante o STF);
• É plenamente possível o desindiciamento, que consiste na retirada do status
de indiciado do indivíduo, ao ser constatado que este não contribuiu para a
infração penal;
• O desindiciamento voluntário é aquele promovido pelo próprio delegado de
polícia, simbolizando um redirecionamento da investigação;
• O desindiciamento coacto é aquele imposto pela impetração de Habeas
Corpus Trancativo;
• Em consonância com o dispositivo constitucional que trata da vedação ao
anonimato, é vedada a instauração de inquérito policial com base unicamente
em denúncia anônima, salvo quando constituírem, elas próprias, o corpo de
delito;
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2. CARACTERÍSTICAS DO IP
1 Obrigatório Diante da lavratura do auto de prisão em flagrante delito.
2 Indisponível Delegado não pode arquivar os autos do IP.
3 Escrito Todos os atos serão reduzidos a termo.
4 Dispensável O IP não é necessário à deflagração do processo.
5 Discricionário O delegado conduz da forma que entender mais eficiente.
6 Sigiloso Os atos investigatórios não podem ser divulgados.
7 Inquisitivo Não há contraditório nem ampla defesa.
2.1. OBRIGATÓRIO
A autoridade policial possui o dever de instaurar o IP diante da lavratura do auto
de prisão em flagrante delito -notitia criminis coercitiva direta (polícia) ou indireta
(povo).
2.2. INDISPONÍVEL
O delegado jamais poderá arquivar os autos do IP. Logo, toda investigação
iniciada deve ser concluída e encaminhada à autoridade competente (Juiz) para
que este, a pedido do MP, proceda ao arquivamento.
Art. 17 - A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito.
2.3. ESCRITO
Todos os atos produzidos no IP serão reduzidos a termo (forma documental),
sendo rubricados pela autoridade com o objetivo de conferir-lhes autenticidade.
Art. 9º - Todas as peças do inquérito policial serão, num só processado, reduzidas a
escrito ou datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade.
• Atualmente, as novas ferramentas tecnológicas podem ser utilizadas para
documentar a investigação, como acontece com a captação de som e imagem
ou com a estenotipia (técnica de resumo de palavras por símbolos):
Art. 405, § 1o Sempre que possível, o registro dos depoimentos do investigado,
indiciado, ofendido e testemunhas será feito pelos meios ou recursos de gravação
magnética, estenotipia, digital ou técnica similar, inclusive audiovisual, destinada a
obter maior fidelidade das informações.
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2.4. DISPENSÁVEL
Para a deflagração do processo criminal, não é necessária a prévia elaboração
de IP, tendo em vista que as provas podem ser obtidas por outros meios.
• No Brasil, há inquéritos não-policiais, que são presididos por autoridades
distintas da Polícia Judiciária. Ex.: Inquérito Parlamentar (Presidido pela CPI),
Inquérito Militar (Presidido por Oficial), Inquérito Ministerial (Presidido por
membro do MP);
• O MP poderá presidir investigação criminal, que conviverá harmonicamente
com o IP, porém ainda não há lei regulamentando a matéria - STF/STJ;
• A teoria dos Poderes Implícitos fundamenta a competência do MP para
realizar inquéritos, já que tem o poder-dever de processar e, por consequência,
também o de investigar - STF/STJ;
• O promotor que investiga não é suspeito ou impedido para atuar na fase
processual:
Súmula 234/STJ - A participação de membro do MP na fase investigatória criminal
não acarreta o seu impedimento ou suspeição para o oferecimento da denúncia.
2.5. DISCRICIONÁRIO
O delegado conduz o IP com margem de conveniência e oportunidade para
melhor adequar a investigação à realidade do delito apurado, trazendo eficiência
ao procedimento.
• A discricionariedade é mitigada, em virtude das requisições de diligências
advindas do MP, salvo se eivadas de ilegalidade;
• O delegado não pode rejeitar as diligências requisitadas pelo MP, mas não
por haver hierarquia entre eles e sim pelo princípio da obrigatoriedade da ação
penal pública;
• O delegado possui o dever jurídico de atender à requisição do MP para
instaurar IP, salvo em caso de manifesta ilegalidade;
• Os requerimentos de diligências apresentados pela vítima ou pelo suspeito
podem ser indeferidos, se o delegado os reputar impertinentes:
Art. 14 - O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado poderão requerer
qualquer diligência, que será realizada, ou não, a juízo da autoridade.
• Quando o crime deixar vestígios, o requerimento para a realização do exame
de corpo de delito não pode ser indeferido:
Art. 184 - Salvo o caso de exame de corpo de delito, o juiz ou a autoridade policial
negará a perícia requerida pelas partes, quando não for necessária ao esclarecimento
da verdade.
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2.6. SIGILOSO
O delegado conduz a investigação de forma sigilosa, em favor da eficiência na
apuração do delito e da proteção da intimidade da vítima e do acusado. Como
regra, o princípio da publicidade é afastado da fase investigativa.
Art. 20 - A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato
ou exigido pelo interesse da sociedade.
• O sigilo não se aplica ao Juiz, ao MP e ao Advogado (nos elementos já
documentados);
• Tento em vista o princípio da presunção de inocência, informações
referentes à instauração de IP não serão apontadas em certidão de
antecedentes criminais:
Art. 20, Parágrafo único. Nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados, a
autoridade policial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a
instauração de inquérito contra os requerentes.
• O direito de acesso independe da apresentação de procuração, entretanto,
sendo decretado o sigilo (segredo de justiça), o acesso continua preservado,
mas a procuração será necessária:
Lei 8.906/94 (Estatuto da OAB) - Art. 7º São direitos do advogado:
XIV - examinar, em qualquer instituição responsável por conduzir investigação,
mesmo sem procuração, autos de flagrante e de investigações de qualquer natureza,
findos ou em andamento, ainda que conclusos à autoridade, podendo copiar peças e
tomar apontamentos, em meio físico ou digital;
• O juiz poderá decretar o segredo de justiça da persecução penal, protegendo
a intimidade, a vida privada e a família da vítima. A decretação não impede o
acesso do advogado, mas será necessária a apresentação de procuração:
Art. 201, § 6º - O juiz tomará as providências necessárias à preservação da intimidade,
vida privada, honra e imagem do ofendido, podendo, inclusive, determinar o segredo
de justiça em relação aos dados, depoimentos e outras informações constantes dos
autos a seu respeito para evitar sua exposição aos meios de comunicação.
• A autoridade investigante, motivadamente, poderá limitar o acesso aos autos
para evitar o contato com diligências em andamento ou futuras:
SV 14/STF - É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos
elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado
por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do
direito de defesa.
• Se o acesso aos autos for boicotado pela autoridade, haverá abuso de
autoridade, e o advogado que tiver seu acesso prejudicado poderá utilizar
mandado de segurança, reclamação constitucional ao STF, habeas corpus (em
nome do investigado) e requerimento ao Poder Judiciário;
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2.7. INQUISITIVO
O IP é caracterizado pela concentração de poder na figura do delegado. Em
decorrência disso, como regra geral, não haverá contraditório nem ampla
defesa.
• A ampla defesa é subdividida em autodefesa (disponível) e defesa técnica
(indisponível);
• Nada impede que o legislador discipline outras modalidades de inquérito
admitindo contraditório e ampla defesa, como ocorre no Estatuto do
Estrangeiro;
• O advogado tem o direito de acompanhar seu cliente ao ser ouvido por
qualquer autoridade investigante, sob pena de nulidade do interrogatório e
de todos os atos que dele decorrerem em caso de negativa desse direito,
podendo apresentar razões e quesitos, desenvolvendo o seu papel funcional:
Art. 7º São direitos do advogado:
XXI - assistir a seus clientes investigados durante a apuração de infrações, sob pena
de nulidade absoluta do respectivo interrogatório ou depoimento e,
subsequentemente, de todos os elementos investigatórios e probatórios dele
decorrentes ou derivados, direta ou indiretamente, podendo, inclusive, no curso da
respectiva apuração:
a) apresentar razões e quesitos;
• Na fase do processo, o réu será necessariamente interrogado na presença do
advogado, sob pena de nulidade absoluta. Na fase do IP, se o suspeito
comparecer sem advogado, será ouvido normalmente;
• Os vícios do IP são endoprocedimentais (internos ao procedimento), não
gerando, em regra, contaminação do futuro processo, já que o procedimento
é meramente dispensável - STF/STJ;
• Quando o titular da ação utilizar o IP para oferecer a petição inicial (queixa-
crime ou denúncia), o inquérito a acompanhará:
Art. 12. O inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa, sempre que servir
de base a uma ou outra.
• A defesa pode solicitar a produção de provas, mas a sua realização ficará a
critério do delegado:
Art. 14 - O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado poderão requerer
qualquer diligência, que será realizada, ou não, a juízo da autoridade.
• Ao final da ação penal, o Juiz não poderá fundamentar sua decisão
exclusivamente com base nas provas do IP:
Art. 155 - O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em
contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos
elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares,
não repetíveis e antecipadas.
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Justificada pela necessidade e urgência.
Cautelar
Ex.: Interceptação telefônica.
Não terá como ser refeita na fase processual devido ao seu
Não repetível iminente perecimento, não dependendo de ordem judicial.
Ex.: Bafômetro.
Terá dificultada sua colheita por alguma circunstância, sendo
Antecipada instaurada perante o juiz, com contraditório e ampla defesa.
Ex.: Depoimento de testemunha com risco de morte.
• A prova antecipada será submetida a contraditório judicial na fase
investigativa (contraditório antecipado);
• As provas cautelares e não repetíveis serão submetidas ao contraditório
judicial (postergado/diferido) quando da sua migração para o processo;
3. INÍCIO DO IP
O IP é deflagrado por meio de uma Portaria (peça escrita que demarca o início da
investigação policial), que conterá o fato a ser investigado, os sujeitos envolvidos, as
diligências e o desfecho.
NOTITIA CRIMINIS
É a comunicação da ocorrência de uma infração à autoridade com atribuição para agir.
DESTINATÁRIOS DO IP
Delegado Juiz (mediato) MP (imediato)
LEGITIMIDADE
Notícia Crime Direta A polícia toma conhecimento da informação diretamente,
(Cognição imediata) independente de estar no desempenho de suas funções.
Notícia Crime Indireta É apresentada por pessoa estranha à polícia, mas
(Cognição mediata) devidamente identificada (MP, juiz, vítima etc.).
Notícia Crime Coercitiva
Ocorre com a lavratura do auto de prisão em flagrante delito.
(obrigatória)
• Seja qual for a modalidade de notícia crime, quando levada a conhecimento da
autoridade policial, implica obrigatoriamente a instauração do IP, sob pena de
caracterizar o crime de prevaricação;
• A delatio criminis ocorre quando a notícia crime é feita por um terceiro não
envolvido com o crime ou com a persecução penal;
• A delatio criminis postulatória é aquela realizada pela vítima na ação penal pública
condicionada, por meio da representação;
• A delatio criminis apócrifa/inqualificada (denúncia anônima) não autoriza a
imediata instauração da investigação, cabendo ao delegado auferir inicialmente a
plausibilidade e a pertinência do que foi noticiado - STF/STJ;
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3.1. AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA
Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito policial será iniciado:
I - de ofício;
II - mediante requisição da autoridade judiciária ou do MP, ou a requerimento do
ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo.
• Diante da requisição do juiz ou do MP, o delegado não poderá se negar a
instaurar o IP, salvo diante de manifesta ilegalidade (exceção à
discricionariedade);
Art. 5, § 2º - Do despacho que indeferir o requerimento de abertura de inquérito caberá
recurso para o chefe de Polícia.
• A notícia-crime apresentada pela vítima/representante legal (menor de
idade) se dá por meio de um requerimento que, havendo denegação quanto
à instauração do IP, caberá recurso administrativo endereçado ao chefe de
polícia;
Art. 5, § 3º - Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da existência de infração
penal em que caiba ação pública poderá, verbalmente ou por escrito, comunicá-la à
autoridade policial, e esta, verificada a procedência das informações, mandará instaurar
inquérito.
• A notícia-crime prestada por terceiros não envolvidos com o crime/processo
– delatio criminis – será feita por meio de delação, mas só é possível em crime
de ação pública incondicionada (que o delegado deve instaurar de ofício);
Art. 301 - Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão
prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.
• A notícia-crime coercitiva é aquela obtida por meio de auto de prisão em
flagrante delito, que poderá ser direta (feita pela polícia) ou indireta (feita por
qualquer do povo);
3.2. AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA
Art. 5º, § 4º - O inquérito, nos crimes em que a ação pública depender de representação,
não poderá sem ela ser iniciado.
• O IP somente será instaurado diante da representação do ofendido ou da
requisição do Ministro da Justiça;
• Tanto a representação quanto a requisição são condições de procedibilidade,
ou seja, sem elas não haverá ação penal, IP ou lavratura de APFD;
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3.3. AÇÃO PENAL PRIVADA
Art. 5º, § 5º - Nos crimes de ação privada, a autoridade policial somente poderá proceder
a inquérito a requerimento de quem tenha qualidade para intentá-la.
• O IP somente será instaurado mediante requerimento da vítima;
• A instauração de IP não interrompe o prazo decadencial (não sofre suspensão
nem interrupção) para o oferecimento da queixa-crime;
FORMAS DE INSTAURAÇÃO DO IP
- De ofício
AÇÃO PENAL PÚBLICA - Requisição do MP/Juiz
INCONDICIONADA - Requerimento da Vítima
- Auto de Prisão em Flagrante
- Representação da Vítima
AÇÃO PENAL PÚBLICA - Requisição do MJ
CONDIDIONADA - Requisição do MP/Juiz
- Auto de Prisão em Flagrante
- Requerimento da vítima
AÇÃO PENAL
- Requisição do MP/Juiz
PRIVADA
- Auto de Prisão em Flagrante
SITUAÇÕES ESPECÍFICAS NA INSTAURAÇÃO
- O próprio órgão ao qual está
Crime cometido por Juiz ou
vinculado será responsável pela
membro do MP
investigação.
- Algumas autoridades são julgadas
Prerrogativa de Função
por tribunais determinados.
Infração de Menor - Apuradas com base na Lei 9.099,
Potencial Ofensivo sendo instaurado TCO.
4. ENCERRAMENTO DO IP
A contagem do prazo será dia a dia. Para o indivíduo preso, será material (inclui o dia
do começo e exclui o dia do término) e, para o indivíduo solto, será processual (exclui
o dia do começo e inclui o dia do término).
• Durante prisão temporária, não transcorre prazo para conclusão do IP, devendo
este ser contado somente quando da conversão em prisão preventiva;
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4.1. PRAZO
a) JUSTIÇA ESTADUAL
Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido
preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta
hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30
dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela.
DELEGADO ESTADUAL
PRESO SOLTO
10 dias (improrrogável) 30 dias (prorrogável)
• Havendo necessidade de prorrogação, o Delegado solicita ao Juiz, devendo
a prisão ser relaxada;
§ 3º Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a autoridade
poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão
realizadas no prazo marcado pelo juiz.
b) JUSTIÇA FEDERAL
Caso o indiciado esteja preso, o prazo será 15 dias, podendo ser prorrogado
uma única vez, por igual período, entretanto, se o indiciado estiver solto, a
regra será a mesma do Delegado Estadual (30 dias).
DELEGADO FEDERAL
PRESO SOLTO
15 dias (prorrogável) 30 dias (prorrogável)
c) TRÁFICO DE DROGAS
Caso o indiciado esteja preso, o prazo será de 30 dias, entretanto, se o
indiciado estiver solto, o prazo será de 90 dias, podendo ser duplicado
independentemente de estar preso ou solto.
• A prorrogação é requerida pelo Delegado ao Juiz, após ciência do MP;
TRÁFICO DE DROGAS
PRESO SOLTO
30 dias (duplicável) 90 dias (duplicável)
CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR
PRESO SOLTO
10 dias (improrrogável) 10 dias (improrrogável)
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INQUÉRITO MILITAR
PRESO SOLTO
20 dias (improrrogável) 40 dias (+20)
PRISÃO TEMPORÁRIA – Lei 7.960/89
PRESO SOLTO
5 dias (+5) Não se aplica
PRISÃO TEMPORÁRIA – Lei 8.072/90
PRESO SOLTO
30 dias (+30) Não se aplica
4.2. RELATÓRIO
É a peça descritiva que aponta a síntese das diligências realizadas e justifica,
eventualmente, as que não foram feitas por algum motivo relevante.
Art. 10 - § 1º A autoridade fará minucioso relatório do que tiver sido apurado e enviará
autos ao juiz competente.
§ 2º No relatório poderá a autoridade indicar testemunhas que não tiverem sido
inquiridas, mencionando o lugar onde possam ser encontradas.
• O relatório não vincula o juiz ou o MP;
• Em caso de tráfico de drogas, a Lei 11.343/06 exige que o delegado motive
no relatório as razões que justificaram seu enquadramento na respectiva lei;
• O Delegado remete ao Juiz os autos do IP com o relatório e este, por sua vez,
deverá abrir vistas ao MP;
• Havendo indícios de autoria, da materialidade e das circunstâncias da
infração (justa causa), cabe ao MP oferecer a petição inicial (denúncia), na
expectativa de deflagrar o processo;
• O Delegado deve oficiar ao órgão de identificação e estatística, para
compilação das estatísticas criminais:
Art. 23. Ao fazer a remessa dos autos do inquérito ao juiz competente, a autoridade
policial oficiará ao Instituto de Identificação e Estatística, ou repartição congênere,
mencionando o juízo a que tiverem sido distribuídos, e os dados relativos à infração
penal e à pessoa do indiciado.
• É possível que não estejam presentes os indícios necessários à deflagração
do processo. Todavia, havendo esperança de que tais elementos sejam
rapidamente colhidos, cabe ao MP requisitar novas diligências, que sejam
imprescindíveis ao início do processo:
CPP, art. 16 - O Ministério Público não poderá requerer a devolução do inquérito à
autoridade policial, senão para novas diligências, imprescindíveis ao oferecimento da
denúncia.
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• É vedado ao juiz requisitar novas diligências probatórias caso o MP tenha se
manifestado pelo arquivamento - STF;
• Diante do pedido de arquivamento, o juiz terá as seguintes hipóteses:
concordar com o pedido do MP, devendo homologar o requerimento (ato
complexo) ou discordar do pedido de arquivamento, invocando o art. 28, com
a remessa dos autos ao Procurador Geral do MP, que, por sua vez, poderá
oferecer a denúncia, designar outro membro do MP para oferecê-la (deve
oferecer) ou insistir no arquivamento, cabendo ao juiz apenas homologar;
• O membro do MP pode, ainda, entender que não possui atribuição para
agir, devendo declinar do feito, requerendo ao juiz a remessa dos autos a uma
outra esfera;
Art. 19. Nos crimes em que não couber ação pública, os autos do inquérito serão
remetidos ao juízo competente, onde aguardarão a iniciativa do ofendido ou de seu
representante legal, ou serão entregues ao requerente, se o pedir, mediante traslado.
5. QUESTÕES COMPLEMENTARES
• Quando o juiz federal invoca o art. 28, ele remete os autos para a Câmara de
Coordenação e Revisão do MPF, que atua por delegação do PGR;
• Nas infrações de menor potencial ofensivo e nas contravenções penais, o Termo
Circunstanciado de Ocorrência – TCO substitui o IP;
• O Habeas Corpus trancativo possui a finalidade de trancar o inquérito, por força
de uma manifesta ilegalidade ou ausência de justa causa durante o procedimento,
visando exterminar imediatamente a investigação. (ex.: inquérito que apura fato
atípico ou inexistente);
• As pessoas entre 18 e 21 anos incompletos eram consideradas relativamente
capazes, exigindo-se a nomeação de curador no momento do indiciamento;
• O arquivamento é uma decisão judicial (ato complexo) que, em regra, põe fim ao
IP sem que ele origine a esperada ação penal, seja porque não foi encontrada justa
causa, seja porque não há interesse do Estado na persecução penal do fato
investigado;
• O arquivamento do IP, em regra, não faz coisa julgada material. Logo, se surgirem
novas provas enquanto o crime não estiver prescrito, o MP terá aptidão para
oferecer a denúncia:
Súmula 524/STF - Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do
promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem novas provas.
• Caso haja coisa julgada material, não haverá desarquivamento, ainda que surjam
novas provas;
• Caso haja coisa julgada formal, poderá haverá desarquivamento caso surjam novas
provas;
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• O arquivamento do IP com base no princípio da insignificância gera coisa julgada
material, por excluir a tipicidade;
• O arquivamento do inquérito policial determinado por autoridade judiciária
competente, a pedido do MP, com fundamento na atipicidade da conduta,
excludente de culpabilidade ou extinção da punibilidade, por fazer coisa julgada
material, obsta seu desarquivamento, ainda que surjam de novas provas;
• Em caso de conduta atípica, é possível o trancamento do IP via habeas corpus;
• O arquivamento fundamentado na excludente de ilicitude do fato faz coisa julgada
formal, pois a excludente pode ser provada ilegal posteriormente - STF;
• O requerimento de arquivamento de IP formulado pelo MP não está sujeito a
controle jurisdicional nos casos de competência originária do STF ou do STJ;
• Arquivamento Originário é aquele apresentado pelo próprio Procurador Geral do
MP ao tribunal respectivo, restando a este apenas homologar, sendo inaplicável o
art. 28;
• O Arquivamento Implícito não é aceito pela doutrina. Existem 2 tipos: subjetivo
(exclusão injustificada de acusado por omissão do MP) e objetivo (exclusão
injustificada de crime por omissão do MP);
• O Arquivamento Indireto não é aceito pela doutrina. Ocorre quando há o
questionamento da competência do Juiz;
• O Arquivamento Provisório ocorre quando há IMPO e, sendo crime de Ação
Penal Pública Condicionada à representação, a vítima se ausenta da audiência de
conciliação. O desarquivamento acontecerá quando houver novo oferecimento da
representação (dentro do prazo decadencial de 6 meses);
Art. 18 - Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta
de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de
outras provas tiver notícia.
• O desarquivamento é o oferecimento da denúncia pelo mesmo fato, desde que
surjam novas provas (apenas com coisa julgada formal);
Art. 13-A. Nos crimes previstos nos arts. 148, 149 e 149-A, no § 3º do art. 158 e no art. 159 do
Código Penal, e no art. 239 do ECA, o membro do MP ou o delegado de polícia poderá
requisitar, de quaisquer órgãos do poder público ou de empresas da iniciativa privada, dados
e informações cadastrais da vítima ou de suspeitos.
Parágrafo único. A requisição, que será atendida no prazo de 24 horas, conterá:
I - o nome da autoridade requisitante;
II - o número do inquérito policial; e
III - a identificação da unidade de polícia judiciária responsável pela investigação.
• O MP ou o Delegado poderão requisitar dados cadastrais da vítima ou de
suspeitos, que serão atendidos no prazo de 24h;
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CRIMES AOS QUAIS SE APLICA
- Sequestro e cárcere privado
- Redução à condição análoga de escravo
- Tráfico de pessoas
- Extorsão mediante restrição de liberdade
- Extorsão mediante sequestro
- Envio de criança/adolescente ao exterior ilegalmente
Art. 13-B. Se necessário à prevenção e à repressão dos crimes relacionados ao tráfico de
pessoas, o membro do MP ou o delegado de polícia poderão requisitar, mediante autorização
judicial, às empresas prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que
disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais, informações e
outros – que permitam a localização da vítima ou dos suspeitos do delito em curso.
• Em caso de crimes relacionados ao tráfico de pessoas, o MP e o Delegado, após
autorização judicial, podem requisitar às empresas de telecomunicações sinais que
indiquem a localização da vítima;
§ 1º Para os efeitos deste artigo, sinal significa posicionamento da estação de cobertura,
setorização e intensidade de radiofrequência.
§ 2º Na hipótese de que trata o caput, o sinal:
I - não permitirá acesso ao conteúdo da comunicação de qualquer natureza, que dependerá
de autorização judicial, conforme disposto em lei;
II - deverá ser fornecido pela prestadora de telefonia móvel celular por período não superior
a 30 dias, renovável por uma única vez, por igual período;
III - para períodos superiores àquele de que trata o inciso II, será necessária a apresentação de
ordem judicial.
• O sinal não dá acesso a conteúdo de comunicação, dependendo isso de
autorização judicial e será fornecido pelo prazo máximo de 30 dias, podendo ser
prorrogado uma única vez (em caso de necessidade de prazo maior, somente com
determinação judicial);
§ 3º Na hipótese prevista neste artigo, o inquérito policial deverá ser instaurado no prazo
máximo de 72 horas, contado do registro da respectiva ocorrência policial.
• Em se tratando do crime de tráfico de pessoas, o IP deve ser instaurado em até
72h;
§ 4º Não havendo manifestação judicial no prazo de 12 horas, a autoridade competente
requisitará às empresas prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que
disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais, informações e
outros – que permitam a localização da vítima ou dos suspeitos do delito em curso, com
imediata comunicação ao juiz.
• Em caso de inércia judicial no prazo de 12 horas após o requerimento do MP ou
do Delegado, estes poderão requisitar às empresas que disponibilizem o sinal
imediatamente e comunicarão o fato ao juiz;
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