Relações de Bromeliáceas Epifíticas Com Fatores Ambientais em Planícies de Inundação Do Rio Iguaçu, Paraná, Brasil
Relações de Bromeliáceas Epifíticas Com Fatores Ambientais em Planícies de Inundação Do Rio Iguaçu, Paraná, Brasil
Annete Bonnet1, Gustavo Ribas Curcio2, Osmir José Lavoranti3, Murilo Lacerda Barddal4,
Carlos Vellozo Roderjan5
1
Bióloga, Dra., Curitiba, PR, Brasil - a_bonnet@[Link]
2
Eng. Agrônomo, Dr., Embrapa Florestas, Colombo, PR, Brasil - curcio@[Link]
3
Estatístico, Dr., Embrapa Florestas, Colombo, PR, Brasil - osmir@[Link]
4
Eng. Florestal, Dr., Copel, Curitiba, PR, Brasil - [Link]@[Link]
5
Eng. Florestal, Dr., Depto. de Ciências Florestais, UFPR, Curitiba, PR, Brasil - roderjan@[Link]
Resumo
Um total de 14 espécies de bromeliáceas epifíticas foi registrado na planície do rio Iguaçu, sendo algumas
exclusivas da Floresta Ombrófila Densa, outras da Floresta Estacional Semidecidual e um terceiro grupo
comum às duas unidades fitogeográficas. O número de espécies diminuiu para jusante do rio, em coerência
à equivalente redução na disponibilidade hídrica definida pelos tipos climáticos. As superfícies geomórficas
de degradação apresentaram os maiores índices de diversidade, em conformidade ao seu maior tempo de
formação e presença de solos semi e não-hidromórficos. Em escala local, a largura máxima da planície e a
largura média do rio estão negativamente correlacionadas com a riqueza de bromeliáceas, o que remete à
existência de forte intervenção antrópica. A proximidade dos forófitos com o rio influencia positivamente a
riqueza de bromeliáceas, provavelmente pelo aumento em umidade e luminosidade. Do mesmo modo, os
forófitos com os maiores diâmetros de fuste apresentam maior riqueza de bromeliáceas, indicando,
principalmente, que o tempo de exposição do substrato é importante, o que concorda com a literatura. A
manutenção de florestas próximas aos cursos de água e grandes indivíduos arbóreos é fundamental para a
preservação de bromeliáceas epifíticas nas planícies do rio Iguaçu.
Palavras-chave: Planície fluvial; clima; solos; umidade; diâmetros arbóreos.
Abstract
Relationships of epiphytic bromeliads with environmental factors at Iguaçu river floodplains, Parana,
Brazil. A total of 14 epiphytic bromeliad species have been recorded at Iguaçu river floodplain, some being
exclusive to the Ombrophilous Dense Forest, others to the Semideciduous Seasonal Forest, and one third
group common to the two vegetation types. The species number decreased downstream along the river, in
coherence to the equivalent reduction in the water availability defined by the climatic types. The
degradation geomorphic surfaces presented the highest diversity indexes, which can be associated to the
longest developing time of these geomorphic features and the presence of non-hydromorphic and
semihydromorphic soils. In local scale, the maximum width of the floodplain and the average width of the
river are negatively correlated with bromeliad richness, which is associated to strong anthropogenic
disturbance. The proximity of the phorophytes with the river influenced positively bromeliad richness,
probably, through the humidity and luminosity increment. At the same way, the phorophytes with the
largest diameters presented greater richness of bromeliads, indicating, principally, that the time of
exposition of substrate is important, what agrees with literature. The maintenance of forests close to streams
and large trees is fundamental to epiphytic bromeliad conservation purposes at Iguaçu river floodplains.
Keywords: River floodplain; climate; soils; humidity; arboreal diameters.
INTRODUÇÃO
Área de estudo
O estudo foi realizado em áreas distribuídas nas planícies do rio Iguaçu, estado do Paraná, Brasil,
entre as coordenadas geográficas 25º34’ – 26º17’ S e 49º59’ – 50º53’ W. Para análise das variáveis
ambientais, o rio foi segmentado em 12 compartimentos geológicos (CURCIO, 2006), com o seguinte
ordenamento de montante para jusante: Complexo Gnáissico Migmático Costeiro, no Primeiro Planalto;
Campo do Tenente, Furnas, Mafra/Rio do Sul, Rio Bonito, Palermo, Irati, Serra Alta, Teresina e Rio do
Rasto no Segundo Planalto (Figura 1). No Terceiro Planalto, na área do Parque Nacional do Iguaçu,
foram estabelecidos os compartimentos Serra Geral I e Serra Geral II. O baixo número de
compartimentos no Primeiro Planalto deve-se à grande extensão de áreas, próximas a Curitiba, com leito
retificado e, no Terceiro Planalto, deve-se à inexistência de vegetação fluvial, suprimida por cinco
grandes reservatórios hidrelétricos. No entanto, consideram-se representativas as florestas estudadas, em
função dos curtos trechos de rio com vegetação ainda original nos dois planaltos e do alto nível de
conservação das florestas inseridas no Parque Nacional do Iguaçu.
Figura 1. Localização dos compartimentos estabelecidos nas planícies do rio Iguaçu, PR. 1: GM
Costeiro; 2: Campo do Tenente; 3: Furnas; 4: Mafra/Rio Sul; 5: Rio Bonito; 6: Palermo; 7:
Irati; 8: Serra Alta; 9: Teresina; 10: Rio do Rasto; 11: Serra Geral I; 12: Serra Geral II.
Figure 1. Localization of the compartments established at the Iguaçu river floodplains, PR. 1: GM
Costeiro; 2: Campo do Tenente; 3: Furnas; 4: Mafra/Rio Sul; 5: Rio Bonito; 6: Palermo; 7:
Irati; 8: Serra Alta; 9: Teresina; 10: Rio do Rasto; 11: Serra Geral I; 12: Serra Geral II.
Tabela 1. Variáveis climáticas e geomorfológicas das áreas de estudo na planície do rio Iguaçu, PR.
Cmin = valores mínimos de dias de chuva/ano; Umin = valores mínimos de umidade relativa
média mensal; Pmin = valores mínimos de precipitação média mensal; alti = altitude; Lpla =
largura máxima da planície; Lrio = largura média do rio; Sorg = altura de soerguimento da
margem; Aflu = presença de afluente (●).
Table 1. Climatic and geomorphologic variables of study areas at the Iguaçu river floodplains, PR.
Cmin = minimum days of rain/year; Umin = minimum average humidity/month; Pmin =
minimum average precipitation/month; alti = altitude; Lpla = maximum width of the
floodplain; Lrio = medium width of the river; Sorg = height of river bank; Aflu = presence of
tributary (●).
Cmin Umin Pmin alti Lpla Lrio Sorg
Compartimento Superfície Aflu
(dias) (%) (mm) (m) (m) (m) (m)
agradação 137 69,7 8,8 878 900 35 1,0
GM Costeiro
degradação 137 69,7 8,8 878 900 35 1,7
agradação 137 69,7 8,8 865 100 45 2,1
Campo do Tenente
degradação 137 69,7 8,8 865 100 45 4,0
agradação 137 69,7 8,8 832 350 17,5 1,0
Furnas
degradação 137 69,7 8,8 832 350 17,5 1,0 ●
agradação 137 69,7 8,8 788 400 45 3,5
Mafra/Rio do Sul
degradação 137 69,7 8,8 788 400 45 4,0
agradação 137 69,7 8,8 769 2.375 50 1,8
Rio Bonito
degradação 120 71,1 4,0 769 2.375 50 2,3 ●
agradação 120 71,1 4,0 764 2.125 55 1,0
Palermo
degradação 120 71,1 4,0 764 2.125 55 3,0
agradação 120 71,1 4,0 761 3.500 60 1,5
Irati
degradação 120 71,1 4,0 761 3.500 60 3,5
agradação 120 71,1 4,0 758 5.125 62 1,6
Serra Alta
degradação 120 71,1 4,0 758 5.125 62 3,0
agradação 120 71,1 4,0 756 1.750 130 1,8 ●
Teresina
degradação 120 71,1 4,0 756 1.750 130 3,0 ●
agradação 120 71,1 4,0 753 5.000 250 7,0 ●
Rio do Rasto
degradação 120 71,1 4,0 753 5.000 250 4,5 ●
agradação 99 62,1 2,5 233 875 600 4,5
Serra Geral I
degradação 99 62,1 2,5 233 875 600 6,0
agradação 99 62,1 2,5 219 950 600 5,5
Serra Geral II
degradação¹ 99 62,1 2,5 219 950 600 6,0
Procedimento amostral
Os fatores ambientais foram analisados em diferentes escalas da paisagem e se referem a dados
climáticos, geomorfológicos, pedológicos e espaciais, além de características da floresta e dos indivíduos
arbóreos. Na escala dos compartimentos geológicos (Figura 1), foram registrados os dados climáticos e a
altitude (Tabela 1). As variáveis climáticas foram obtidas a partir dos dados coletados nas estações de
Curitiba, União da Vitória e Foz do Iguaçu, gentilmente cedidas pelo Instituto Tecnológico Simepar (PR),
e representadas pelos valores mínimos de dias de chuva/ano (Cmin), de umidade relativa média mensal
(Umin) e de precipitação média mensal (Pmin). As altitudes (alti) foram registradas com GPS (Garmin
76CSx) e corrigidas com base nas cartas planialtimétricas da região, na escala 1:50.000 (IBGE).
Nas áreas de estudo, foram registradas características geomorfológicas, como a largura máxima
da planície (Lpla) e a largura média do rio (Lrio), além da presença de afluentes (aflu), utilizando-se
fotografias aéreas, escala 1:25.000, ano de 1980 (Tabela 1). Foram anotadas, em campo, as alturas de
RESULTADOS
Tabela 2. Valor de importância epifítico (VIE) das bromeliáceas e Índices de Shannon (H’) e de Pielou
(E) das áreas de estudo estabelecidas nas planícies do rio Iguaçu, com indicação das espécies
registradas apenas no levantamento florístico (●). Acrônimos formados pelas letras iniciais das
áreas de estudo, seguidas por a = superfície de agradação ou por d = superfície de degradação.
Em cada coluna, letras minúsculas distintas indicam índices significativamente diferentes
(p < 0,05), conforme o teste Jackknife.
Table 2. Importance value of bromeliad species (VIE) and Shanon (H’) and Pielou (E) indexes of study
areas of Iguaçu river floodplains, with indication of the species only registered on floristic
survey (●). Acronyms formed by first letters of study areas names, followed by a = aggradation
surface or by d = degradation surface. In each column, distinct small letters indicate
significantly different indexes (p < 0.05), according to Jackknife test.
Unidade Floresta Estacional
Floresta Ombrófila Mista
Fitogeográfica Semidecidual
Espécies/Áreas de SII
GCa GCd CTa CTd FUa FUd MSa MSd RBa RBd PAa PAd IRa IRd SAa SAa TEa TEd RRa RRd SIa SId SIIa
estudo d
Acanthostachys
strobilacea Link, ● 66,7 ●
Klotzsch e Otto
Aechmea
bromeliifolia ●
(Rudge) Baker
Aechmea
distichantha 23,4 6,6 ● 3,9 ● ● 14,6 13,2 5,1 3,0 4,8 8,6 6,2 4,2 ● 25,0 28,6 ●
Lem.
Aechmea
recurvata
4,8 6,4 12,2 6,1 5,6 6,5 3,7 8,7 29,4 12,4 8,3 9,9 14,1 21,9 32,1 54,8 11,2 ●
(Klotzsch) L. B.
Sm.
Billbergia nutans 10
2,4 1,5 10,7 ● 2,2 ● ● ● ● 2,6 75,0 57,1 33,3
H. Wendl. 0
Tillandsia
mallemontii 18,9 29,3 ● 33,8
Glaz. ex Mez
Tillandsia
recurvata 7,8 9,6 7,2 2,4 1,5 1,5
(L.) L.
Tillandsia stricta
50,8 51,8 17,5 5,9 13,5 10,8 16,7 21,3 ●
Sol. ex Sims
Tillandsia
tenuifolia 10,9 3,9 ● 5,5 61,1 20,2 19,6 37,4 22,1 28,5 36,6 28,8 57,7 31,5 39,6 32,5 36,8 35,6 14,3 ●
L.
Tillandsia
usneoides 6,7 9,6 14,7 47,9 60,2 20,2 6,1 44,3 36,1 10,5 47,1 2,7 40,1 47,0 30,1 42,2 31,2 ● ● 21,4
(L.) L.
Vriesea
friburgensis 9,6 33,1 2,5 6,8 29,7 12,1 3,1 15,9 20,9 12,3 2,7 1,5 13,6 2,2 12,2 7,3 25,8 ● 29,2
Mez
Vriesea platynema
● ●
Gaudich.
Vriesea reitzii
Leme e A. F. 11,3 12,7 1,5 2,1 17,5 3,1 ● ● 9,6 4,2 ●
Costa
Wittrockia
cyathiformis ● ● 8,7 ●
(Vell.) Leme
Total de espécies
5 6 7 7 9 6 6 8 6 9 8 7 8 5 6 6 5 6 8 7 3 3 2 6
Índices de 1,1 1,3 1,6 1,2 1,0 1,5 1,1 1,5 1,5 1,5 1,3 1,6 1,2 1,2 0,9 1,2 1,2 1,3 0,8 1,3 0,6 1,0 0,6
0
Shannon cd bc a bc cd ab c ab ab ab bc ab bc bc cd bc bc bc d b e cd de
Índices de Pielou 0,7 0,7 0,9 0,6 0,6 0,9 0,7 0,7 0,9 0,7 0,6 0,8 0,7 0,7 0,6 0,9 0,9 0,9 0,6 0,8 0,8 0,9 0,9
0
cd bc ab d cd a cd cd ab bc d bc cd cd d ab ab ab d ab bc ab a
Figura 2. Dendrograma dos compartimentos da planície do rio Iguaçu, baseado na similaridade das
bromeliáceas epifíticas. I: Floresta Estacional Semidecidual; II: Floresta Ombrófila Mista.
Figure 2. I: Dendrogram reporting relationships among compartments of Iguaçu river floodplain, based
on the similarity of epiphytic bromeliads. I: Seasonal Semideciduous Forest; II: Mixed
Ombrophilous Forest.
Nas áreas de estudo inseridas no Primeiro e Segundo planaltos, onde predomina a FOM, os
maiores forófitos amostrados pertencem às espécies Araucaria angustifolia (Bertol.) O. Kuntze,
Erythrina crista-galli L., Luehea divaricata Mart., Matayba elaeagnoides Radlk. e Vitex megapotamica
(Spreng.) Mold. Sob predomínio da FES, os maiores indivíduos arbóreos nas áreas do Terceiro Planalto
foram Parapiptadenia rigida (Benth.) Brenan, Diatenopteryx sorbifolia Radlk., Chrysophyllum
gonocarpum (Mart. e Eichler ex Miq.) Engl., Nectandra megapotamica Mez, Erythrina falcata Benth.,
Patagonula americana L. e Peltophorum dubium (Spreng.) Taub.
Através de processos interativos de análise de componentes principais, foram selecionadas 16
componentes (Tabela 3), com base nos critérios das comunalidades superiores a 0,7 e autovalores
superiores a 1, segundo Kaiser (1958). Na sequência, a análise de regressão múltipla revelou seis variáveis
ambientais que apresentaram relação significativa (p-valor < 0,0001) com o número de espécies de
bromélias (Tabela 4).
Segundo a análise multivariada, as riquezas de bromeliáceas registradas sobre cada um dos 2.813
forófitos analisados responderam, na planície do rio Iguaçu, a fatores geomorfológicos e estruturais da
floresta. Os resultados mostram que a largura máxima da planície e a largura média do rio estão
negativamente relacionadas com o número de espécies, ou seja, quanto mais largos a planície e o rio
Iguaçu, menor a riqueza de bromeliáceas (Tabela 4). Por outro lado, a proximidade dos indivíduos
arbóreos com o rio está positivamente relacionada com o número de espécies, assim como a presença de
Tabela 3. Comunalidades e cargas fatoriais das variáveis, porcentagem de explicação dos fatores
resultantes da análise de componentes principais. Umin: menor umidade média/mês; Cmin:
valor mínimo dias chuva/ano; Sh: faixa de parcelas em solos semi-hidromórficos; Nh: faixa de
parcelas em solos não-hidromórficos; Lpla: largura máxima da planície; Pmin: valor mínimo
de precipitação média mensal; Rio: faixa de parcelas adjacente ao rio; Dst: faixa de parcelas
distante do rio e de solos hidromórficos; DAP: diâmetro à altura do peito; H: altura total das
árvores; Hidro: faixa de parcelas adjacente a solos hidromórficos; VA: variância acumulada.
Table 3. Comunalities and scoring coefficients of the variables, explanation percentage of the resulting
factors of principal component analysis. Umin: minimum average humidity/month; Cmin:
minimum days of rain/year; Sh: strips of plots at semihydromorphic soils; Nh: strips of plots at
no hydromorphic soils; Lpla: maximum width of the floodplain; Pmin: minimum average
precipitation/month; Rio: strip of plots is adjacent to the river; Dst: strips of plots far from the
river and from hydromorphic soils; DAP: breast height diameter; H: total height from the trees;
Hidro: strips of plots adjacent to the hydromorphic soils; VA: accumulated variance.
Variáveis Comunalidade Fator1 Fator2 Fator3 Fator4 Fator5 Fator6 Fator7
Altitude 0,9925 0,9572 -0,2190 0,1384 0,0060 0,0244 -0,0322 0,0857
Umin 0,9698 0,8761 -0,1590 0,1131 0,3920 0,0061 -0,0411 0,0929
Cmin 0,9800 0,8754 -0,1859 0,0655 -0,4145 0,0308 -0,0163 0,0419
Largura média rio 0,9532 -0,9409 0,1694 -0,1693 0,0290 -0,0097 -0,0113 -0,0968
Índice Shannon 0,9784 -0,2617 0,9267 -0,1595 0,1144 -0,1083 0,0069 -0,0276
Nº espécies árvores 0,8270 -0,1657 0,8548 -0,0638 -0,0586 0,2358 -0,0046 0,0753
Índice Pielou 0,8758 -0,2018 0,8403 -0,1151 0,1832 -0,2815 -0,0022 -0,0535
Sh 0,9779 0,1480 -0,1285 0,9634 -0,0066 0,0227 0,0004 0,1034
Nh 0,9758 -0,1701 0,1417 -0,9525 0,0471 -0,04 0,0076 -0,1251
Lpla 0,9122 0,0739 0,0941 -0,0384 0,9454 0,0142 -0,0203 0,0431
Pmin 0,9434 0,6604 -0,1531 0,0270 -0,6941 0,0349 -0,0006 0,0075
Rio 0,9848 -0,0398 -0,0558 -0,0429 -0,0142 0,8875 -0,0616 -0,4320
Dst 0,9808 -0,1186 0,0451 -0,1428 -0,0246 -0,832 0,0538 -0,4985
DAP 0,7917 -0,0986 -0,0257 -0,0153 0,1250 0,0758 0,8707 -0,0386
H 0,7726 0,0595 0,0258 0,0095 -0,1532 -0,1609 0,8467 0,0449
Hidro 0,9976 0,1644 0,0106 0,1928 0,0402 -0,0494 0,0074 0,9639
Variância - 5,4677 2,0223 1,8681 1,6936 1,5165 1,3424 1,0033
VA (%) - 0,3417 0,4681 0,5849 0,6907 0,7855 0,8694 0,9321
DISCUSSÃO
Tillandsia tenuifolia, apesar de ser uma das espécies com maior valor de importância nas
florestas estudadas sob domínio da FOM, foi registrada nas duas unidades fitogeográficas estudadas
(Tabela 2). O mesmo ocorreu com Billbergia nutans, com grande destaque na FES, mas comum nas
florestas sob domínio da FOM. É provável que essas duas espécies, além de Aechmea distichantha e de A.
recurvata, apesar de não terem sido registradas em todas as áreas estudadas, tenham existido
originalmente em toda a extensão da planície do rio Iguaçu.
Os altos valores de importância de Tillandsia usneoides em grande parte das áreas sob domínio
da FOM, onde ocorreu com exclusividade (Tabela 2), são, provavelmente, relacionados com as amplas
planícies e grande distribuição de solos hidromórficos e semi-hidromórficos que ladeiam esse trecho do
rio. A elevada saturação hídrica dos solos em locais de afloramento do lençol freático, como as bacias de
inundação, associada à maior intensidade lumínica incidente nessas áreas com pouquíssimos indivíduos
arbóreos (CURCIO, 2006) favorecem o crescimento de grandes agrupamentos dessa bromeliácea sobre os
forófitos da floresta aluvial. Considerada heliófila e seletiva higrófita (REITZ, 1983), T. usneoides cresce
em grandes agrupamentos nas árvores que margeiam o curso d’água e margeiam as zonas de maior
hidromorfia dos solos, além dos indivíduos arbóreos que se destacam em altura na floresta.
Os dados indicam que as duas espécies com ocorrência exclusiva na FES, Acanthostachys
strobilacea e Aechmea bromeliifolia, apresentam distribuição geográfica relacionada com essa unidade
fitogeográfica, pois foram registradas sob seu domínio na região norte, centro-oeste e oeste do Paraná
(BORGO et al., 2002; CERVI; BORGO, 2007; DETTKE et al., 2008) e norte e leste de São Paulo
(PINTO et al., 1995; DISLICH; MANTOVANI, 1998).
A variabilidade de espécies encontrada nas planícies do rio Iguaçu deve-se às mudanças
existentes nos atributos bióticos e abióticos das áreas de estudo. A diminuição na riqueza de bromeliáceas
nas áreas sob domínio da FES, evidenciada através das riquezas e dos índices de Shannon (Tabela 2),
corresponde ao gradiente leste-oeste de diminuição de espécies de bromeliáceas, já registrado em Santa
Catarina por Reitz (1983). Do mesmo modo, o valor obtido no cálculo do índice de diversidade beta
(1,12) indica que houve uma clara substituição de espécies de montante para jusante do rio Iguaçu,
equivalente à de 1,06 registrada ao longo de toda a planície costeira do Rio Grande do Sul (WAECHTER,
1992).
No Paraná, o baixo número de espécies na FES registrado pelo presente estudo é ratificado por
levantamentos pontuais, como Bolós et al. (1992), Borgo et al. (2002), Cervi; Borgo (2007) e Dettke et
Tabela 5. Estudos realizados em planícies fluviais no Brasil. Prec.: precipitação média anual; UF:
unidade fitogeográfica (FOM: Floresta Ombrófila Mista; FES: Floresta Estacional
Semidecidual; FED: Floresta Estacional Decidual; EGL: Estepe Gramíneo Lenhosa; FOD:
Floresta Ombrófila Densa); FV: forma de vida (E: epifítica; G: epifítico, terrestre e/ou
rupestre); S: riqueza de bromeliáceas.
Table 5. Studies performed in floodplains in Brazil. Prec.: annual average rainfall; UF: phytogeographic
unit (FOM: Mixed Ombrophilous Forest; FES: Seasonal Semideciduous Forest; FED: Seasonal
Deciduous Forest; EGL: Grassland; FOD: Dense Ombrophilous Forest), FV: life form (E:
epiphytic; G: epiphytic, terrestrial and/or saxicoles); S: bromeliad richness.
Prec.
Localidade Autores UF FV S
(mm)
Curitiba – União da Vitória (PR) Presente estudo 1.452 FOM E 12
União da Vitória – Foz do Iguaçu (PR) Presente estudo 1.798 FES E 6
Araucária – Lapa (PR) Kersten (2006) 1.500 FOM E 16
Araucária (PR) Kersten; Silva (2002) 1.400 FOM E 9
Curitiba (PR) Dittrich et al. (1999) 1.451 FOM E 11
São Mateus (PR) Silva et al. (1997) 1.379 FOM G 8
Marcelino Ramos (RS) Rogalski; Zanin (2003) 1.400 FED E 10
Eldorado do Sul (RS) Giongo; Waechter (2004) 1.310 EGL E 9
Jureia (SP) Fischer; Araújo (1995) 4.200 FOD E 15
CONCLUSÕES
• Há uma maior riqueza em bromeliáceas nas planícies da Floresta Ombrófila Mista do que na Floresta
Estacional Semidecidual, fato atribuído à menor disponibilidade hídrica para as epífitas em direção
ao oeste do estado do Paraná, conforme já havia sido identificado para Santa Catarina.
• Superfícies de degradação apresentam mais bromeliáceas epifíticas, o que, provavelmente, está
relacionado com a menor saturação hídrica dos solos e com o maior porte dos indivíduos arbóreos,
variáveis ambientais positivamente relacionadas com a riqueza de espécies.
• Forófitos que crescem em posição mais próxima ao rio e forófitos de grande porte apresentam maior
riqueza de bromeliáceas epifíticas, sendo sua manutenção fator decisivo para a preservação do grupo
das bromeliáceas nas áreas estudadas.
AGRADECIMENTOS
REFERÊNCIAS
BADER, M.; DUNNÉ J. F.; STUIVER, H. J. Epiphyte distribution in a secondary cloud forest
vegetation; a case study of the application of GIS in the epiphyte ecology. Ecotropica, Ulm, v. 6, p. 181-
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