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A dissertação analisa a Rocha da Pena, um local de interesse geológico no Algarve, destacando suas características litológicas e geomorfológicas, além de sua importância como patrimônio geológico. O estudo identifica lacunas estratigráficas e discute a formação do relevo, enfatizando a necessidade de preservação e divulgação do local. A pesquisa também propõe uma vertente educativa para promover a geodiversidade e a geoconservação através de parcerias institucionais.

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Rosa Noronha
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A dissertação analisa a Rocha da Pena, um local de interesse geológico no Algarve, destacando suas características litológicas e geomorfológicas, além de sua importância como patrimônio geológico. O estudo identifica lacunas estratigráficas e discute a formação do relevo, enfatizando a necessidade de preservação e divulgação do local. A pesquisa também propõe uma vertente educativa para promover a geodiversidade e a geoconservação através de parcerias institucionais.

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UNIVERSIDADE DO ALGARVE

FACULDADE DE CIÊNCIAS DO MAR E DO AMBIENTE

Geologia e génese do relevo da


Rocha da Pena (Algarve, Portugal)
e o seu enquadramento educativo

(Dissertação para a obtenção do grau de mestre em


Biologia e Geologia – Especialização em Educação)

Francisco Miguel Viegas Lopes

Faro
(2006)
NOME: Francisco Miguel Viegas Lopes
FACULDADE de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade do Algarve
ORIENTADOR: Doutor Paulo Fernandes
DATA: 15 de Dezembro de 2006
TÍTULO DA DISSERTAÇÃO: Geologia e génese do relevo da Rocha da Pena (Algarve,
Portugal) e o seu enquadramento educativo

JÚRI:
Presidente:
Doutor José Paulo Patrício Geraldes Monteiro, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências do
Mar e do Ambiente da Universidade do Algarve;
Vogais:
Doutor Tomasz Boski, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente
da Universidade do Algarve;
Doutor Paulo Alexandre Rodrigues Roque Legoinha, Professor Auxiliar da Faculdade de
Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa;
Doutor Paulo Manuel Carvalho Fernandes, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências do Mar
e do Ambiente da Universidade do Algarve;
RESUMO
A Rocha da Pena (RP), localizada no centro do Algarve, é um local de reconhecido
interesse multidisciplinar e constitui hoje uma área protegida sob a figura do Sítio
Classificado da RP. A área de estudo abrange terrenos pertencentes ao Maciço Antigo e à
Bacia Algarvia e as unidades litostratigráficas encontradas possuem idades compreendidas
entre o topo do Carbonífero Inferior e o Quaternário, com duas grandes lacunas
estratigráficas – uma entre a base do Carbonífero Superior e o Triásico Superior e outra
entre o Jurássico Inferior e, pelo menos, o Pliocénico. A RP corresponde a um relevo
estrutural e residual que resultou da interligação de condicionantes litológicas,
estratigráficas, tectónicas, geomorfológicas, hidrológicas e climáticas. A fracturação, com
orientação preferencial E-O, controla o alinhamento da rede hidrográfica e do relevo. A
estrutura da RP corresponde a um anticlinal com eixo E-O formado durante o regime
compressivo N-S ocorrido a partir do Cretácico Superior. A RP foi destacada em relação
ao relevo adjacente a partir do Pliocénico Superior através de erosão vertical – resultado
do levantamento da Serra Algarvia que promoveu o encaixe da rede hidrográfica – e de
erosão diferencial – associada às diferentes competências das unidades litostratigráficas. A
RP constitui um relevo cársico conservado ao longo do tempo, devido quer ao
desenvolvimento do fenómeno de imunidade cársica – associado ao carso – quer a
condições paleoclimáticas pouco favoráveis à erosão subaérea (climas pouco húmidos).
Reconhecendo a RP como um geomonumento e um local de elevada
geodiversidade, dadas as suas características de monumentalidade e particularidades a
nível da geologia, sendo sujeita à curiosidade de inúmeros visitantes, esta deve ser
considerada um património geológico que importa valorizar e divulgar, de modo a ser
preservada e legada como herança às gerações futuras. Nesse sentido, foi desenvolvida
uma vertente educativa de valorização e divulgação, efectivada através da produção de
materiais e do desenvolvimento de actividades de cariz científico-educativo a nível dos
domínios da geodiversidade e geoconservação. Essa vertente educativa foi facilitada
através do estabelecimento de parcerias e da articulação de objectivos e iniciativas com
algumas instituições, o que se revelou bastante vantajoso.

Palavras-chave: Rocha de Pena; Bacia Algarvia; relevo; carsificação; divulgação


científica; geoconservação

i
ABSTRACT

Located in central Algarve, the Rocha da Pena (RP) Classified Site constitutes a place of
renowned scientific importance for several disciplines. The study area involves terrains
belonging to the Hesperian Massif and to the Algarve Basin. The ages of the units found in
the study area range from the topmost Lower Carboniferous to the Quaternary, presenting
two major stratigraphic hiatuses – the first between the lowermost Upper Carboniferous
and Upper Triassic and the second between the Lower Jurassic and, at least, the Pliocene.
Several factors, such as the lithology, stratigraphy, tectonics, geomorphology, hydrology
and climate, acted together to produce the RP, which consists of a residual and structural
upland. Fracturing along an E-W direction controlled the alignment of both the
topography and the drainage network in the area. Structurally, the RP consists of an
anticline, which axis bears an E-W trend inherited from the Upper Cretaceous N-S
compressive phase. Vertical fluvial erosion resulting from the uplift of the Algarve Ridge
and differential erosion associated to the uneven resistance of the lithologic units and its
stratigraphic order isolated the RP from the neighbouring terrains during Upper Pliocene
times. The RP constitutes an example of karst topography that has been preserved
throughout the geologic time due to karst immunity phenomena and to a paleoclimatic
setting unfavourable to its erosion.
Given its geologic peculiarities and grandeur, which kindles the curiosity of numerous
visitors, the RP should be considered a valuable piece of geologic heritage and, as such, it
is a legacy that should be promoted and preserved for the future generations. On this
account, several partnerships were forged with a number of institutions in order to
develop scientific and educational material and activities rooted on the fields of
geodiversity and geoconservation.

Keywords: Rocha da Pena; Algarve Basin; topography; karts processes; scientific


promotion; geoconservation.

ii
AGRADECIMENTOS
A todos os que de alguma forma contribuíram, directa ou indirectamente, para a realização
deste trabalho, aqui fica os meus sinceros agradecimentos.
Ao meu Orientador, Professor Doutor Paulo Fernandes, pela disponibilidade, incentivo,
apoio e orientação prestados ao longo de todo o trabalho, pelos ensinamentos e partilha de
conhecimentos.
Ao Professor Doutor João Pais da Universidade Nova de Lisboa pela identificação do
fóssil de estegocéfalo.
Ao Dr. Vítor Correia e ao Dr. António Xavier pelo auxílio prestado a nível da utilização
do programa de Sistema de Informação Geográfica ArcGis 9®.
À Natércia, pela paciência, pela amizade e amor, pelo incentivo e apoio constantes, pelos
incómodos, ausências, privações que este trabalho provocou, pela leitura atenta e pelas sugestões
que propôs para melhorar o texto da dissertação.
À Silvinha, pela amizade, pelo incentivo, pelo apoio e pela disponibilidade na revisão de
texto realizada.
À Patricinha, pela amizade e pelo auxílio na elaboração do abstract.
Ao amigo e colega Tiago Neves pelo incentivo e pelo auxílio na elaboração do abstract.
À mãe, ao mano, aos avós e familiares pela compreensão e disponibilidade e pelas minhas
ausência e indisponibilidade recorrentes durante estes últimos anos.
Aos meus amigos, pelo apoio constante, especialmente nos momentos mais difíceis, e que
apesar das minhas frequentes indisponibilidades e faltas nunca se esqueceram de mim.
Aos meus colegas de licenciatura e de mestrado, pelo interesse demonstrado ao longo do
desenvolvimento do trabalho realizado e que de alguma forma me iam apoiando com incentivos e
estímulos.
À Câmara Municipal de Loulé, representada pela Divisão de Ambiente e Espaços Verdes,
à Associação Almargem e à Associação para a Defesa e Divulgação do Património Geológico do
Alentejo e Algarve (DPGA), pela disponibilidade e abertura demonstradas para articular
objectivos e projectos.

iii
ÍNDICE GERAL

RESUMO ............................................................................................................................... i

ABSTRACT............................................................................................................................ ii

AGRADECIMENTOS ........................................................................................................ iii

ÍNDICE GERAL.................................................................................................................. iv

LISTA DE FIGURAS ......................................................................................................... vii

LISTA DE TABELAS ........................................................................................................ xii

CAPÍTULO 1

1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 2

1.1. Justificação do estudo ................................................................................................ 2


1.2. Objectivos da dissertação ........................................................................................... 6
1.3. Métodos utilizados ..................................................................................................... 7

CAPÍTULO 2

2. ENQUADRAMENTO DA ÁREA DE ESTUDO .......................................................... 11

2.1. Enquadramento geográfico ...................................................................................... 11


2.2. Enquadramento geomorfológico .............................................................................. 11
2.3. Enquadramento geológico ........................................................................................ 13
2.3.1. Maciço Antigo ................................................................................................... 13
2.3.2. Bacia Algarvia ................................................................................................... 15
a) Síntese da evolução geodinâmica da Bacia Algarvia .............................................. 20
2.4. Revisão de conhecimentos sobre a geologia da RP ................................................. 24

CAPÍTULO 3

3. RESULTADOS, DISCUSSÃO E INTERPRETAÇÕES ............................................... 29

3.1. Litostratigrafia e paleogeografia .............................................................................. 29


3.1.1. Carbonífero ........................................................................................................ 31
a) Formação de Mira (Namuriano) .............................................................................. 31

iv
3.1.2. Triásico Superior - Jurássico Inferior ................................................................ 33
a) Arenitos de Silves (Triásico Superior) .................................................................... 33
b) Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Triásico Superior -
Hetangiano) ................................................................................................................. 35
c) Complexo vulcano-sedimentar (Hetangiano - Sinemuriano) .................................. 42
d) Formação de Picavessa (Sinemuriano) ................................................................... 52
3.1.3. Plio-Quaternário ................................................................................................ 57
a) Cascalheiras e areias (Plio-Plistocénico) ................................................................. 57
b) Brechas cársicas e terra rossa (Quaternário) .......................................................... 60
c) Depósitos de vertente (Quaternário)........................................................................ 63
d) Aluvião (Holocénico) .............................................................................................. 65
3.1.4. Lacunas estratigráficas ...................................................................................... 66
3.2. Estrutura e tectónica ................................................................................................. 67
3.3. Geomorfologia ......................................................................................................... 80
3.3.1. Relevo da área de estudo ................................................................................... 80
3.3.2. Morfologia cársica ............................................................................................. 84
3.3.3. Génese da RP e evolução das suas escarpas ...................................................... 91
3.4. História geológica da RP.......................................................................................... 94

CAPÍTULO 4

4. PRODUTOS ................................................................................................................. 101

CAPÍTULO 5

5. CONCLUSÕES ............................................................................................................ 104

5.1. Conclusões gerais ................................................................................................... 104


5.2. Problemas, limitações do trabalho e sugestões para futuros trabalhos .................. 106

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 109

v
APÊNDICES

Apêndice I – Mapa com a localização das fotografias e afloramentos referidos no trabalho

Apêndice II – Mapa geológico da Rocha da Pena e da região envolvente

Apêndice III – Mapa geomorfológico da Rocha da Pena

Apêndice IV – Painel: A Rocha da Pena

Apêndice V – Painel: A morfologia cársica da Rocha da Pena

Apêndice VI – Painel: Formações rochosas da vertente norte da Rocha da Pena

Apêndice VII – Painel: Formações rochosas da vertente sul da Rocha da Pena

ANEXOS

Tabela cronostratigráfica

vi
LISTA DE FIGURAS

CAPÍTULO 1
Fig. 1.1 – Localização geográfica da área de estudo. I – Mapa do Algarve com a localização da área de estudo; II – Parte
da folha 588 da Carta Militar de Portugal, na escala original 1/25.000, do Instituto Geográfico do Exército, com a
delimitação da área de estudo e do Sítio Classificado da RP. ............................................................................................. 3
Fig. 1.2 – Panorâmica da vertente sul da RP (fotografia tirada a partir da vila de Salir)..................................................... 3

CAPÍTULO 2
Fig. 2.1 – Enquadramento geomorfológico do Algarve com a localização da Serra, Barrocal e Litoral (Litoral Ocidental
e Litoral Meridional: Barlavento e Sotavento) e alguns acidentes tectónicos (adaptado de FEIO, 1952; DIAS, 2001). ...... 12
Fig. 2.2 – Mapa geológico da ZSP e enquadramento da área de estudo no Maciço Antigo (modificado de OLIVEIRA,
1990). ................................................................................................................................................................................ 14
Fig. 2.3 – Principais estruturas tectónicas e diapíricas da Bacia Algarvia (adaptado de Manuppella et al., 1988; Ribeiro et
al., 1990). .......................................................................................................................................................................... 15
Fig. 2.4 – Mapa geológico simplificado da região do Algarve (adaptado de MANUPPELLA et al., 1988; OLIVEIRA et al.,
1992; MANUPPELLA, 1992a, b; KULLBERG et al., 1992; TERRINHA, 1998). ....................................................................... 16
Fig. 2.5 – Tabela estratigráfica sintética do Mesozóico do Algarve (adaptado de OLIVEIRA et al., 1992 in DIAS, 2001). 17
Fig. 2.6 – Tabela estratigráfica sintética do Cenozóico do Algarve (adaptado de Pais et al., 2000). ................................ 18
Fig. 2.7 – Correlação entre as unidades litostratigráficas do Triásico-Hetangiano definidas por a) PALAIN (1975), b)
ROCHA (1976) e a correspondência da classificação de Palain (1975) com as terminologias utilizadas na presente
dissertação. ........................................................................................................................................................................ 19
Fig. 2.8 – Reconstrução paleogeográfica e tectónica da evolução da Península Ibérica desde o Carbonífero Superior até
ao presente (adaptado de JABALOY et al., 2002). ............................................................................................................... 21
Fig. 2.9 – Enquadramento geodinâmico da placa Ibérica no contexto da interacção das placas Africana e Eurasiática
(adaptado de VEGAS, 1988). .............................................................................................................................................. 22
Fig. 2.10 – Corte nos relevos do Algarve Central, evidenciando-se a estrutura em mesa da RP destacada por erosão
diferencial, e o contacto por falha das formações mesozóicas com o Maciço Antigo (adaptado de FEIO, 1952). ............. 25
Fig. 2.11 – Esquema ilustrando a circulação subterrânea da água na RP (adaptado de ALMEIDA, 1985). (1) argilitos; (2)
Complexo vulcano-sedimentar; (3) calcários e dolomitos da Picavessa; (4) nascente perene; (5) nascente periódica ...... 26
Fig. 2.12 – Geologia da RP e da área envolvente segundo OLIVEIRA (1992a). I- Mapa geológico da RP e da sua área
envolvente; II- Corte geológico de direcção NNO-SSE, atravessando o sector oriental da RP......................................... 27

CAPÍTULO 3
Fig. 3.1 – Coluna litostratigráfica sintética da RP e área envolvente. ............................................................................... 30
Fig. 3.2 – Bancada de grauvaque tingida de vermelho de atitude N160º,48ºNE com marcas de arraste que indicam a base
da camada (povoação de Alcaria; martelo como escala). .................................................................................................. 31
Fig. 3.3 – Sequência de Bouma completa (entre a Brazieira e a Tameira na barreira esquerda da estrada 503 no sentido
sul-norte; moeda como escala). ......................................................................................................................................... 32
Fig. 3.4 – Bancada de grauvaque amalgamada, a qual resultou da sobreposição de duas sequências de Bouma, em que as
Divisões d e e da sequência de Bouma inferior foram erodidas (entre a Brazieira e a Tameira na barreira esquerda da
estrada 503 no sentido sul-norte; moeda como escala)...................................................................................................... 32
Fig. 3.5 – Afloramento de Arenitos de Silves de atitude N120º,24ºSO (início do caminho Alcaria – RP; martelo, moeda e
lapiseira como escalas). I- Fotografia evidenciando leitos ou bolsadas de conglomerados e brechas intercalados com
arenitos finos a médios de cimento ferruginoso; II- Pormenor de um leito de conglomerado com elevada
heterogeneidade de clastos de grauvaque e quartzo angulosos e subangulosos suportados por uma matriz arenosa e
ferruginosa; III- Pormenor de uma figura erosiva. ........................................................................................................... 34

vii
Fig. 3.6 – Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas. I- Afloramento nas Eirinhas onde se evidencia uma
unidade pelítica predominante de cor avermelhada com níveis e camadas carbonatadas (dolomitos primários) perto do
topo; o afloramento é coroado por uma bancada de material piroclástico do Complexo vulcano-sedimentar; II- Esquema
do afloramento em I; III- Aspecto bicolor (avermelhado e esverdeado) dos pelitos no caminho Brazeira - moinhos da
Pena (martelo como escala).............................................................................................................................................. 36
Fig. 3.7 – Aspecto de uma bancada maciça de dolomitos do termo AB3 de PALAIN (1975) (vertente norte da RP; martelo
como escala)...................................................................................................................................................................... 37
Fig. 3.8 (I e II) – Intraclastos em camadas centimétricas de dolomitos nos Pelitos com evaporitos e intercalações
carbonatadas (sopé da vertente sul da RP, perto das Eirinhas; moeda como escala). ........................................................ 37
Fig. 3.9 – Estruturas sedimentares nas camadas centimétricas de dolomitos intercalados nos Pelitos com evaporitos e
intercalações carbonatadas (sopé da vertente sul da RP, perto das Eirinhas; moeda e martelo como escalas). I e II-
Bioturbação (no caso de II a camada está parcialmente tingida de vermelho); III- Fendas de contracção. ...................... 38
Fig. 3.10 – Nódulos carbonatados (calcrete) nos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (So: N85º,16ºSSO)
(Eirinhas; lapiseira, moeda e martelo como escalas). I- Nódulos associados a camadas de carbonatos no topo da unidade,
formando horizontes; III- Nódulos no seio dos níveis pelíticos vermelhos; III- Pormenor do aspecto exterior dos
nódulos; IV- Pormenor do aspecto interior dos nódulos. .................................................................................................. 38
Fig. 3.11 – Nível carbonatado tingido de cor vermelha com fragmentos de argilitos (Ar), de carbonatos (Ca) e de
conchas (Co) e nódulos circulares cinzentos claros (No) (vertente sul da RP; moeda como escala). ................................ 39
Fig. 3.12 – Fragmento ósseo de estegocéfalo(?) integrado num nível carbonatado com fragmentos de argilitos e nódulos
circulares cinzento claros (vertente sul da RP); I- Vista longitudinal; II- Vista transversal (identificação gentilmente
realizada por J. PAIS da Universidade Nova de Lisboa)................................................................................................... 40
Fig. 3.13 – Gesso dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas. I e II – Gesso nodular no seio de pelitos
vermelhos (no sopé da RP perto das Eirinhas; lapiseira e moeda como escalas); III- Gesso fibroso no seio de pelitos
vermelhos (no sopé da RP perto das Eirinhas); IV- Fragmento de gesso de aspecto brechóide, provavelmente injectado
na falha que limita a sul a RP. ........................................................................................................................................... 40
Fig. 3.14 – Coluna litostratigráfica de um afloramento do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira - moinhos
da Pena)............................................................................................................................................................................. 43
Fig. 3.15 – Sequência métrica de material piroclástico fino da base do Complexo vulcano-sedimentar com estratificação
cruzada e vários níveis erosivos (Fonte do Vale do Álamo). ............................................................................................ 44
Fig. 3.16 – Diversos aspectos do material piroclástico da base do Complexo vulcano-sedimentar (martelo e lapiseira
como escalas). I- Bancada de cor amarelada evidenciando estratificação cruzada e superfícies de descontinuidade (Vale
do Álamo); II- Bancada de tonalidade branca ligeiramente tingida (Eirinhas); III- Bancada tingida de vermelho,
parecendo-se, à vista desarmada, aos Arenitos de Silves (Fonte do Vale do Álamo)........................................................ 44
Fig. 3.17 – Brecha vulcânica do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo e moeda
como escalas). I- Aspecto de uma brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias desde argilitos, carbonatos e
fragmentos de materiais de outros episódios magmáticos, que denotam um alinhamento preferencial (indicado pela seta
branca) concordante com a estratificação das unidades sub e suprajacentes; II- Pormenor da brecha vulcânica,
destacando-se uma inclusão de argilito provavelmente dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas
subjacentes; III- Pormenor da brecha vulcânica, evidenciando-se uma inclusão de material piroclástico de um episódio
explosivo anterior. ............................................................................................................................................................. 45
Fig. 3.18 – Complexo vulcano-sedimentar, evidenciando uma chaminé de brecha a cortar uma intrusão. (estrada 1089,
entre a Penina e a Quinta do Freixo; martelo e lapiseira como escalas). I- Fotografia retratando dois episódios
magmáticos distintos que contactam por falha: uma intrusão magmática cortada por uma chaminé vulcânica – brecha
vulcânica com xenólitos de carbonatos, de argilitos e de material vulcânico de episódios anteriores; II- Pormenor da
brecha vulcânica, englobando diversos xenólitos incluindo fragmentos da intrusão adjacente, o que permite inferir que a
brecha é mais recente que a intrusão. ................................................................................................................................ 46

viii
Fig. 3. 19 – Pormenor de fragmentos de dolomitos do termo AB3 incluídos nas brechas explosivas (caminho Brazieira -
moinhos da Pena; moeda como escala). I- Xenólito marmorizado com uma auréola de alteração; II- Xenólito
marmorizado com zonações causadas por metamorfismo de contacto. ............................................................................ 46
Fig. 3.20 – Piroclastos estratificados S0: N80º,30ºS) (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo e moeda como
escalas); I- Camadas centimétricas de material piroclástico grosseiro; II- Camadas centimétricas de material piroclástico
(Pr) muito grosseiro e muito vesiculado no seio de duas escoadas (Es), destacando-se ainda a existência de um nível
argiloso de tonalidade amarelada (Ar); III- Pormenor de uma camada de material piroclástico muito grosseiro, cujas
vesículas se encontram preenchidas com calcite. .............................................................................................................. 47
Fig. 3.21 – Aspecto de material piroclástico fino de cor amarelada com estratificação N80º,25ºS (caminho Brazieira -
moinhos da Pena; martelo como escala). .......................................................................................................................... 48
Fig. 3.22 – Intrusões do Complexo vulcano-sedimentar (estrada 1089, entre a Penina e a Quinta do Freixo; moeda como
escala). I- Fotografia evidenciando dois episódios magmáticos distintos retratados por uma intrusão magmática (IP) no
seio de uma intrusão anterior (IA); II- Pormenor da intrusão mais recente (IP), realçando-se vesículas esféricas de escape
de gases preenchidas com carbonato de cálcio (Am). ....................................................................................................... 48
Fig. 3.23 – Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo e moeda como escalas). I-
Escoada basáltica com algumas vesículas preenchidas com carbonato de cálcio – amígdalas (S0: N90º,28ºS); II-
Pormenor de uma amígdala fusiforme (Am) que indica o sentido do escape dos gases para o topo da bancada. ............. 49
Fig. 3. 24 – Aspecto de um fragmento de uma intrusão de dolerito do Complexo vulcano-sedimentar, evidenciando uma
textura entre o gabro e o basalto e alguns cristais macroscópicos de olivina, de piroxenas e de hornebleda (vertente norte
da RP; martelo e moeda como escalas). ............................................................................................................................ 49
Fig. 3.25 – Nível argiloso de cor avermelhada de atitude N92º,30ºS, no seio de escoadas basálticas amigdalóides,
rejeitado 50 cm por uma falha inversa N35º,58ºN (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo como escala). .......... 49
Fig. 3.26 – Transição entre material piroclástico grosseiro, à direita, e argilas vermelhas, à esquerda, as quais marcam o
topo do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazeira - moinhos da Pena; martelo como escala). ........................... 50
Fig. 3.27 – Aspecto de alteração de uma intrusão de dolerito (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo como
escala). I- Intrusão de dolerito com o aspecto típico de grande fracturação, evidenciando-se a acção das raízes das
plantas no processo de alteração; I- Disjunção esferoidal – casca-de-cebola. .................................................................. 50
Fig. 3.28 – Algumas litologias de Formação de Picavessa (topo da RP; moeda como escala). I- Calcário dolomítico(?) de
tonalidades rosadas; II- Dolomito sacaróide muito poroso de cor rosada. ........................................................................ 53
Fig. 3.29 – Pormenores das litologias da Formação de Picavessa. I- Calcário pisolítico (perto do topo da RP no caminho
pedestre na vertente sul); II- Fragmento de calcário oolítico, encontrado nos depósitos de vertente (vertente norte da
RP); III- Laminações, provavelmente originadas por microalgas (perto do topo da RP no caminho pedestre na vertente
sul). ................................................................................................................................................................................... 53
Fig. 3.30 – Pormenores das litologias da Formação de Picavessa (moeda como escalas). I- Calcário com pisólitos (Pi) e
fragmentos de gastrópodes (Ga), evidenciando-se um estilólito (Es) a atravessar a amostra (topo da RP); II- Calcário
bioclástico (caminho pedestre na vertente oeste da RP). ................................................................................................... 54
Fig. 3.31 – Aspecto brechóide de uma bancada carbonatada in situ com estratificação N55º,18ºNO (sector central da RP
junto à escarpa sul; martelo como escala). ........................................................................................................................ 55
Fig. 3.32 – Brecha dolomítica (150 m a leste do Vértice Geodésico; martelo e moeda como escalas). I- Aspecto da
brecha com pátina de oxidação a mascarar um pouco o aspecto brechóide. II- Pormenor da brecha dolomítica de textura
sacaróide com clastos subangulosos a muito angulosos. ................................................................................................... 55
Fig. 3.33 – Estilólitos (perto do topo da RP no caminho pedestre na vertente sul; martelo e moeda como escalas). I-
Estilólitos litostáticos paralelos à estratificação (S0: N90º,20ºN); II- Estilólitos tectónicos perpendiculares à
estratificação (S0: N90º,20ºN). .......................................................................................................................................... 55
Fig. 3.34 – Aspecto das cascalheiras e areias de aluviões plio-plistocénicos, destacando-se a sua composição em areias,
seixos e blocos de quartzo, quartzito, grauvaque, xisto e Arenitos de Silves rolados e pouco rolados de dimensão variável
(estrada Tameira - Casa Branca; martelo como escala). .................................................................................................... 58

ix
Fig. 3.35 – Afloramento das cascalheiras e areias de aluviões plio-plistocénicos onde é possível observar paleocanais e
figuras erosivas de canal (estrada Tameira - Casa Branca). .............................................................................................. 58
Fig. 3.36 – Cascalheiras plio-plistocénicas cuja imbricação dos seixos indica uma paleocorrente para leste (indicada pela
seta amarela) (estrada Tameira - Casa Branca; martelo como escala). .............................................................................. 58
Fig. 3.37 – Nódulos, provavelmente provenientes da Formação e Mira, incluídos nos aluviões plio-plistocénicos (estrada
Tameira - Casa Branca; moeda como escala). I- Aspecto exterior dos nódulos; II e III- Pormenor do interior de alguns
nódulos, os quais podiam conter restos de organismos, provavelmente goniatites; no caso de (III) realça-se a existência
de uma estrutura septária. .................................................................................................................................................. 59
Fig. 3.38 – Brechas cársicas na RP associadas à Formação de Picavessa (martelo, moeda e esferográfica como escalas). I
e II- Aspecto de brechas cársicas que preenchem o carso e que se encontram expostas na escarpa sul da RP; III e IV-
Pormenores de brechas cársicas que constituem a escarpa sul da RP no interior de uma cavidade artificial com cerca de 5
m de desenvolvimento horizontal; V- Aspecto da brecha cársica na escarpa norte da RP. ............................................... 61
Fig. 3.39 – Terra rossa com concreções de óxidos de ferro (Co) (no caminho pedestre no topo da RP, perto do Algar da
Caldeirinha; moeda como escala)...................................................................................................................................... 62
Fig. 3.40 – Vertente norte da RP. I- Fotografia evidenciando um bloco de brecha cársica (Br) destacado da escarpa (Es)
e depósitos de vertente (Dv) na base da escarpa. II- Pormenor do bloco destacado de brecha cársica, realçando-se uma
fractura (D1: N148º,90º) subparalela à escarpa possivelmente associada a distensão gravítica......................................... 63
Fig. 3.41 – Depósitos de vertente na vertente norte da RP. I- Depósitos de vertente no sector este da vertente norte; II e
III- Pormenor dos depósitos de vertente na escarpa norte, observando-se uma concentração caótica e uma elevada
heterogeneidade dos calhaus e blocos de calcários e dolomitos provenientes da escarpa. ................................................ 64
Fig. 3.42 – Depósitos de vertente com clastos de carbonato de dimensão variada com uma matriz argilosa (rególito e
terra rossa) na vertente oeste da RP (martelo como escala). ............................................................................................ 64
Fig. 3.43 – Depósitos de vertente (DV) com clastos de diversas litologias, incluindo fragmentos de rochas vulcânicas
piroclásticas, a coroar um afloramento dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (P) (S0: N77º,20ºS), a
norte da aldeia Penina. ...................................................................................................................................................... 65
Fig. 3.44 – Estrutura da RP. I- Mapa geológico com a localização dos cortes geológicos (cartografia do autor e adaptada
de MANUPPELLA, 1992b; base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal à escala 1/25.000 do IGEO); II- Corte
geológico de direcção N-S realizado no sector este da RP; III- Corte geológico de direcção N-S realizado no sector oeste
da RP. ................................................................................................................................................................................ 69
Fig. 3.45 – Modelo conceptual para o comportamento da Falha de São Marcos - Quarteira em S. Bartolomeu de
Messines para explicar a variação de espessura das unidades triásicas e infra-liásicas (adaptado de TERRINHA, 1998). .. 70
Fig. 3.46 – Afloramento da Formação de Mira com camadas em posição normal, evidenciando um dobramento vergente
para SO recortado e deslocado por falhas inversas e com clivagem tectónica moderada associada (S1) (na barreira
esquerda da estrada 503, entre a Brazieira e a Tameira, no sentido sul-norte). I- Fotografia do afloramento; II-
Esquematização do afloramento. ....................................................................................................................................... 71
Fig. 3.47 – Afloramento da Formação de Mira com camadas sub-horizontais (S0) em posição normal (entre a Brazieira e
a Tameira na barreira esquerda da estrada 503 no sentido sul-norte; martelo como escala). I- Fotografia evidenciando
uma clivagem tectónica moderada (S1: N0º,30ºE) num nível argiloso – xistos argilosos; II- Fotografia destacando a
refracção da clivagem – clivagem tectónica oblíqua nos xistos argilosos e quase perpendicular à estratificação nos
grauvaques (Cv). ............................................................................................................................................................... 72
Fig. 3.48 – Modelo digital do terreno com a geologia da RP e área envolvente e com a localização das sete estações de
medição das diáclases (modelo elaborado por Victor Correia). ........................................................................................ 73
Fig. 3.49 – Afloramento de Arenitos de Silves de atitude N120º,24ºSO afectado por 3 famílias de fracturas principais
(D1: N55º,90º; D2: N0º,90º e D3: N100º,90º) (estação 2; caminho Alcaria - RP; martelo como escala). .......................... 76
Fig. 3.50 – Fracturação N80º,85ºS (D1) a afectar o Complexo vulcano-sedimentar (estação 4; caminho Brazeira -
moinhos da Pena; martelo como escala). .......................................................................................................................... 77

x
Fig. 3.51 – Afloramento da Formação de Picavessa (estação 5; perto do topo da RP, no caminho pedestre na vertente sul;
martelo como escala). I- Panorâmica do afloramento; II- Pormenor do afloramento evidenciando-se três famílias de
fracturas principais (D1: N85º,80ºS; D2: N10º,80ºE e D3: N145º,80ºE). .......................................................................... 77
Fig. 3.52 – Afloramento da Formação de Picavessa na escarpa norte no sector nordeste (estação 7; martelo como escala).
I- Área onde foram realizadas a medições das diáclases; II- Pormenor do afloramento evidenciando-se o padrão
ortogonal de duas famílias de diáclases (D1: N172º,72ºE e D2: N82º,55ºS). ..................................................................... 77
Fig. 3.53 – Esquema que retrata a origem de diáclases de tracção associadas a dobramentos, as quais apresentam-se
paralelas ao eixo das dobras (adaptado de JAKUCS, 1977)................................................................................................. 79
Fig. 3.54 – Escarpa norte na parte central da RP, evidenciando-se diversas diáclases subparalelas à escarpa (indicadas
pelas setas amarelas), as quais condicionam o colapso de blocos e o recuo da escarpa; muitas dessas diáclases
encontram-se preenchidas por material brechóide. ........................................................................................................... 80
Fig. 3.55 – Fractura com alinhamento aproximadamente E-O, associada ao abatimento de cavidades cársicas
subterrâneas; abertura com cerca de 50 cm de largura (perto da entrada do Algar dos Mouros). ..................................... 80
Fig. 3.56 – Modelo digital de terreno com a elevação, a hidrografia e o alinhamento dos relevos da área de estudo. ...... 81
Fig. 3.57– Mapa geomorfológico da RP. 1- Topo e base da vertente; 2-Vertente rectilínea (a proximidade dos traços
verticais indica maior declive); 3- Escarpa de falha; 4- Cornija; 5- Falha; 6- Linha de água; 7- Sentido da inclinação da
superfície topográfica; 8- Dolina; 9- Campo de lapiás; 10- Algar (a- Algar da Caldeirinha; b- Algar dos Mouros); 11-
Ponto cotado e Vértice Geodésico (altitude em metros); 12- Povoação; 13- Amuralhamento de cascalheiras do Neolítico;
cartografia realizada com recurso a trabalho de campo e a fotografias aéreas à escala 1:15.000 fornecidas pelo IGEO;
base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal à escala 1/25.000 do IGEO. .................................................... 82
Fig. 3.58 – Vertente norte da RP. I- Panorâmica da vertente norte da RP, evidenciando-se a escarpa com orientação E-O;
II- Pormenor da escapa norte no sector este da RP, observando-se uma zona mais recuada (A) e um grande bloco de
brecha cársica destacado da escarpa (B). .......................................................................................................................... 82
Fig. 3.59 – Vertente sul da RP. I- Panorâmica da vertente sul da RP, evidenciando-se uma escarpa bastante imponente
com orientação E-O; II- Pormenor da escapa sul no sector oeste da RP, observando-se uma zona de abatimento (A) de
uma ou de várias cavidades cársicas e blocos de brecha cársica destacados da escarpa (B). ............................................ 83
Fig. 3.60 – Campo de lapiás (Karrenfeld) semi-enterrado, apresentando algumas arrestas vivas no topo da RP (martelo
como escala)...................................................................................................................................................................... 85
Fig. 3.61 – Alguns exemplos de lapiás na RP (martelo e bússola como escalas). I- Lapiás de arestas vivas, observando-se
a influência das diáclases na delimitação das lâminas (sector noroeste do topo da RP); II- Lapiás onde é notória a
influência da orientação das fracturas (N100º,40ºS), subparalela à escarpa norte (no topo da RP junto à escarpa norte). 86
Fig. 3.62 – Formas menores de corrosão dos lapiás (bússola, lapiseira e martelo como escalas). I- Lapiás com sulcos
rectilíneos sob a influência da fracturação com orientação preferencial N70º, portanto subparalela às escarpas da RP
(escarpa sul da RP); II- Caneluras de largura centimétrica e palalelas (sector este do topo da RP); III- Pia de dissolução
com bordos aguçados e forma rectangular (sector este do topo da RP); IV- Pia de dissolução com forma de poço
desenvolvida numa brecha, o que indica uma evolução cársica polifásica na RP (sector oeste no topo da RP). .............. 86
Fig. 3.63 – Alguns aspectos característicos na superfície dos lapiás (topo da RP; martelo e lapiseira como escalas). I-
Corrosão alveolar em dolomitos com um aspecto ruiniforme; II- Corrosão alveolar em dolomitos cujo aspecto se
assemelha a favos-de-mel; III- Corrosão em dolomitos, que ao sublinhar as fendas e fracturas confere um aspecto
rendilhado tipo pele-de-elefante. ....................................................................................................................................... 87
Fig. 3.64 – Duas dolinas alinhadas na direcção E-O e embutidas numa depressão maior, no sector oeste da RP
(contornos da depressão maior representados com elipse de cor laranja; fundo das dolinas assinalado com elipses de cor
amarela). ........................................................................................................................................................................... 88
Fig. 3.65 – Grutas tipo algar na RP (martelo como escala). I- Abertura do Algar dos Mouros na parte central do topo da
RP; II- Entrada do Algar da Caldeirinha no sector oeste do topo da RP. .......................................................................... 89
Fig. 3.66 – Estruturas típicas do carso subterrâneo expostas nas escarpas da RP (martelo e moeda como escalas). I-
Espeleotemas na escarpa sul; II- Algumas estalactites na escarpa norte; III e IV- Cavidades preenchidas com brechas
cársicas (mistura de fragmentos de calcários e dolomitos e terra rossa) na escarpa sul. .................................................. 90

xi
Fig. 3.67 – Fragmentos de grauvaque no topo da RP (martelo como escala). ................................................................... 92
Fig. 3.68 – Perfil entre o Juncal e a RP ilustrando a continuidade, na orla, da superfície de aplanação do soco Paleozóico
(retirado de ALMEIDA, 1985) ............................................................................................................................................. 92
Fig. 3.69 – Vista da cota 481 m a sudoeste do Barranco-do-Velho para oeste, destacando-se a aplanação que nivela os
cimos do Maciço Antigo e da Orla Algarvia (retirado de FEIO, 1952). A partir da RP já pertencente à Orla Algarvia: à
direita e no primeiro plano, o relevo de xistos da Serra Algarvia (Negros, Juncal); à esquerda, o relevo calcário do
Barrocal Algarvio (Soídos, Cabeço da Areia, Rocha Amarela, etc.); Salir está situado na depressão periférica (margas
hetangianas); na Orla, adivinha-se pela feição do relevo, a inclinação das camadas para sul. .......................................... 92
Fig. 3.70 – Esquema simplificado da evolução das escarpas norte e sul da RP. ............................................................... 94
Fig. 3.71 – Esquema da génese e da estrutura da RP. ....................................................................................................... 96

LISTA DE TABELAS

CAPÍTULO 3
Tabela 3.1 – Quadro síntese da estratificação evidenciada pelas unidades litostratigráficas da RP............... 67
Tabela 3.2 – Síntese das diáclases medidas em sete estações na área de estudo. ........................................... 74

xii
CAPÍTULO 1

– INTRODUÇÃO –

1.1. Justificação do estudo

1.2. Objectivos da dissertação

1.3. Métodos utilizados


Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO

A presente dissertação encontra-se organizada nos seguintes cinco capítulos:

Capítulo 1 – apresenta a justificação do estudo, os objectivos delineados e os métodos

desenvolvidos para a realização de todo o trabalho investigativo, divulgativo, educativo e

de redacção; Capítulo 2 – enquadra de uma forma sucinta a área de estudo no contexto da

região algarvia em termos das suas geografia, geomorfologia, litostratigrafia,

paleogeografia e tectónica e, no final, apresenta alguns dos principais conhecimentos sobre

a geologia da área de estudo; Capítulo 3 – apresenta as observações e os resultados

obtidos, as interpretações e as hipóteses teóricas e, no final, sintetiza a história geológica

da área de estudo; Capítulo 4 – resume as actividades e os produtos desenvolvidos no

âmbito da divulgação do trabalho desenvolvido e nos domínios da alfabetização e

divulgação científicas, nos campos das Geociências e da Educação Ambiental, e da

valorização e divulgação do património geológico, no âmbito da geoconservação;

Capítulo 5 – faz o balanço do trabalho desenvolvido, sintetizando e realçando as principais

conclusões da investigação; referencia ainda algumas das limitações do trabalho realizado

e levanta questões que carecem de um desenvolvimento e uma investigação mais

pormenorizados.

Nos apêndices é apresentado um mapa (Apêndice I) com a localização dos

afloramentos e das fotografias referidas no texto e são apresentados os produtos

construídos no âmbito do trabalho desenvolvido.

Nos anexos encontra-se uma tabela cronostratigráfica, que poderá facilitar o

acompanhamento do texto.

1.1. Justificação do estudo

A Rocha da Pena (RP) (Figs. 1.1 e 1.2), localizada a cerca de 15 km a noroeste de

Loulé, é um local de reconhecido interesse multidisciplinar devido às suas particularidades

geológicas, geomorfológicas, biológicas, paisagísticas e culturais, constituindo

presentemente uma área protegida sob a figura do Sítio Classificado da RP, nos termos do

Decreto-Lei n.º 392/91, de 10 de Outubro.

2
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

N
Alcoutim
Área de estudo
N Odeceixe Martilongo

124
Estrada
Lisboa

Serra de Monchique
Aljezur IC1
Faro Localidades
Monchique 50 km
Serra do Caldeirão
São Bartolomeu A02 503 124
de Messines
Serra do Espinhaço Salir
Alte Castro
de Cão 124 124 Barranco do Velho Marim
124 Benafim 525
Silves Tôr
524
A22
396
S. Brás de Alportel
125 V. R. Sto.
Odiáxere IC1 525
125 António
Boliqueime Tavira
Portimão
A22 Loulé
125 A22
Lagoa Guia
Vila do 125 Lagos 125
Bispo Luz
Albufeira Quarteira
Olhão
Sagres Faro 125
Cabo de
São Vicente
0 20 km
Ponta de

I
Sagres

Limite da área de estudo

Limite do Sítio Classificado


da Rocha da Pena

II 0 1000 m

Fig. 1.1 – Localização geográfica da área de estudo. I – Mapa do Algarve com a localização da área de
estudo; II – Parte da folha 588 da Carta Militar de Portugal, na escala original 1/25.000, do Instituto
Geográfico do Exército, com a delimitação da área de estudo e do Sítio Classificado da RP.

Fig. 1.2 – Panorâmica da vertente sul da RP (fotografia tirada a partir da vila de Salir).

As particularidades da RP atribuem-lhe um estatuto que lhe confere o

reconhecimento suficiente para ser citada nos mais diversos tipos de literatura e meios de

comunicação com um cariz mais científico e investigativo ou de índole meramente

3
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

divulgativa. A título de exemplo desse interesse despertado pela RP pode referir-se:

FEIO (1952, p. 103), no seu trabalho sobre A Evolução do Relevo do Baixo Alentejo

e Algarve, afirma que a RP é «(…) o único relevo verdadeiramente vigoroso de

toda a Orla Algarvia (…)»;

PESSOA (1991, citado por Horta (1996)), no 1.º Congresso do Concelho de Loulé

“O Barrocal e a Serra na perspectiva de conservação-recreio” menciona a RP como

um «(…) maciço calcário imponente, desde sempre referido como um dos pontos

mais notáveis (…) com grande interesse natural e paisagístico (…)»;

HORTA (1996, p. 25), num estudo sobre o património e educação aplicado à aldeia

da Pena no Sítio Classificado da RP, quando localiza geograficamente aquele

relevo fá-lo com entusiasmo e respeito: «Depois de passarmos a vila de Salir em

direcção ao cruzamento com a E.N. 124 que nos leva à aldeia da Pena (…)

avistamos imponente como se fosse uma muralha dum castelo altaneiro de uma

qualquer vila ou cidade portuguesa, a RP, só que esta foi construída pela própria

natureza, o que é mais uma razão para a admirarmos e pensar como devemos

respeitá-la. A natureza legou-nos “uma obra arquitectónica majestosa” que os

homens com toda a ciência e tecnologia tão avançadas dificilmente conseguiriam

concretizar com tanta perfeição, beleza estética, imponência e que marca uma

presença difícil de ignorar vislumbrável a grande distância, sendo um elemento

determinante na paisagem do Sítio Classificado.»;

CRISPIM (1982) e TOMÉ (1996), em estudos sobre a morfologia cársica, citam a RP

como um local a nível regional onde se podem encontrar aspectos cársicos de

importante significado morfológico e genético, descrevendo algumas estruturas

cársicas presentes naquele relevo;

GALOPIM DE CARVALHO (1999), numa reflexão sobre a caracterização e

enquadramento dos geomonumentos num projecto nacional de defesa e valorização

do Património Natural argumenta a favor da musealização dos geomonumentos,

como georrecursos culturais não renováveis, classificando a RP como um dos

4
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

geomonumentos a nível do sítio com interesse nos aspectos da erosão cársica em

calcário;

numa brochura de divulgação da Câmara Municipal de Loulé, a RP é referida como

«(…) um relevo único do Barrocal Algarvio, despertando (…) a atenção de quem

por lá passa (…)» (C.M.L.; p. 2);

também na Internet é possível encontrar algumas páginas Web, nacionais e

estrangeiras, que destacam a RP pelas mais variadas razões, por exemplo, pela

morfologia cársica, pela flora e fauna, por constituir um local agradável para se

realizar passeios turísticos ou por ser um ponto interessante para praticantes de

escalada. Dessas páginas destacamos a página intitulada Geo-Sítios - Inventário de

Sítios com Interesse Geológico (INETI, 2005), disponível à data da consulta

(Março de 2005) em http://www.igm.ineti.pt/egeo/bds/geositios/, a qual resulta de

um projecto com o mesmo nome, iniciado em Maio de 2003, no âmbito das

actividades e competências do, então, Instituto Geológico e Mineiro. Deste modo, e

com o objectivo da criação de uma base de dados de sítios com interesse geológico

no território nacional, é feita nesta página Web uma pequena descrição de alguns

aspectos importantes da RP, sendo destacada a sua elevada importância tectónico-

estrutural, geomorfológica e paisagística a nível regional. Destaca-se ainda a página

intitulada Modelado Cársico no Concelho de Loulé (Lopes e Monteiro, 2004),

disponível à data da consulta (Novembro de 2005) em http://sapiens.no.sapo.pt, a

qual descreve algumas das estruturas cársicas existentes no concelho de Loulé,

nomeadamente a RP como um local onde se pode encontrar uma morfologia cársica

não exuberante, mas pelo menos característica;

não raro é, também, encontrar alguns visitantes de diversas nacionalidades que se

deslocam ao Algarve propositadamente para desfrutar das particularidades da RP e

não menos comum é questionarem sobre a existência de informação que lhes possa

ser disponibilizada e servir como guia.

5
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

Apesar de estarem disponíveis algumas informações sobre a geologia e a

geomorfologia da RP, como será apresentado no capítulo 2, essa informação, proveniente

de observações isoladas, apresenta-se dispersa, é genérica e, além disso, algumas

observações de campo não são totalmente esclarecidas na bibliografia consultada. Por

outro lado, durante a consulta da bibliografia não ficámos com uma ideia esclarecida sobre

a génese e as principais condicionantes responsáveis pela origem daquele relevo nem que

aspectos de interesse geológico, além da morfologia cársica, podem ser encontrados na

área. Além do mais, actualmente para a RP, enquanto local de reconhecido interesse

multidisciplinar e considerado um Sítio Classificado, sujeito à curiosidade e à visita de

turistas e de outros interessados com ou sem formação científica, não existe um suporte

informativo sob a forma de materiais de apoio científico e educativo, como uma brochura,

um cartaz ou outro documento orientador acerca da geologia da área.

Pelas razões acima referidas, a presente dissertação tenta, por um lado, contribuir

para o esclarecimento de algumas das principais condicionantes responsáveis pela génese

da RP e, por outro lado, reunir e produzir informações sobre a geologia daquele relevo e

depois disponibilizá-las através de uma abordagem científico-educativa.

1.2. Objectivos da dissertação

Tendo em conta o âmbito e os objectivos do curso de mestrado em que a presente

dissertação se enquadra e as razões já apontadas para a escolha do estudo, delinearam-se os

seguintes objectivos:

▪ realizar um estudo a nível litológico, estratigráfico, estrutural e geomorfológico

para: i) reunir o máximo de informação possível sobre a geologia e a

geomorfologia da área; ii) determinar as principais condicionantes responsáveis

pela génese do relevo da RP, iii) identificar locais de interesse geológico para a

observação de aspectos interpretativos da geologia local;

▪ estabelecer parcerias e articulações com entidades e instituições como, por

exemplo, a Câmara Municipal de Loulé, a Direcção Regional do Ambiente do

Algarve, a Universidade do Algarve e associações ambientalistas e de conservação

6
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

da Natureza não governamentais, de modo a articular e unir esforços para realizar

projectos com os objectivos comuns de valorizar, divulgar e defender o património

natural, aproveitando as informações reunidas das investigações realizadas;

▪ construir materiais de cariz científico-educativo que reunindo as principais

informações sobre a geologia e a geomorfologia da RP, com texto devidamente

ilustrado e em linguagem acessível à maioria da população, pudessem contribuir

para o desenvolvimento de actividades outdoor1 integradas no ensino formal ou

não-formal2, de modo a promover a valorização e a alfabetização e divulgação

científicas nos domínios da Geologia e da geoconservação;

▪ paralelamente aos objectivos directamente relacionados com o desenvolvimento da

dissertação, o presente trabalho objectivou também proporcionar ao mestrando uma

actualização e promoção do conhecimento científico no âmbito das componentes

das Geociências e da Educação Ambiental.

1.3. Métodos utilizados

Para a concretização da presente dissertação, foram desenvolvidos métodos de

trabalho que permitiram atingir os objectivos propostos. Nesse sentido, os métodos

adoptados versaram actividades de gabinete e de campo, primeiramente numa abordagem

de natureza investigativa e científica, com recurso a técnicas no âmbito das Geociências, e

depois numa abordagem com propósitos divulgativos e educativos.

Numa primeira fase, foi efectuada uma pesquisa bibliográfica com o objectivo de

reunir informação que serviu de base para a planificação de todo o projecto,

1
Actividade outdoor, no sentido aqui empregue, refere-se a uma actividade realizada em ambiente natural como, por

exemplo, o estudo de um afloramento rochoso (ORION e HOFSTEIN, 1994). Contudo, é de realçar que este tipo de

actividade deve ter um carácter holístico e deve ser organizado e desenvolvido por monitores com preparação científica e

académica para o efeito (SALVADOR e VASCONCELOS, 2003).


2
O ensino formal enquadra as actividades curriculares, portanto, no âmbito de um programa curricular de uma

determinada disciplina e de um determinado nível de ensino. Por outro lado, o ensino não-formal engloba as actividades

extra-curriculares, como clubes de ciência, passeios pedestres e outras actividades realizadas no âmbito da divulgação e

da alfabetização científicas (ARAÚJO, 2001; SALVADOR e VASCONCELOS, 2003).

7
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

nomeadamente para se definir o trabalho a desenvolver no campo e posteriormente para a

redacção da presente dissertação. Seguidamente, foi seleccionada e delimitada a área de

estudo, onde foi realizada uma investigação a nível da litologia, estratigrafia, estrutura, e

geomorfologia. Para tal, analisou-se e interpretou-se: i) as cartas geológicas de Portugal

disponíveis, nomeadamente, às escalas 1/500.000 e 1/200.000 (folha 8) e a Carta

Geológica da Região do Algarve à escala 1/100.000 (folhas Ocidental e Oriental),

publicadas pelos Serviços Geológicos de Portugal; ii) as cartas militares à escala 1/25.000

(folhas 587 e 588), publicadas pelo Instituto Geográfico do Exército; iii) as fotografias

aéreas à escala 1/15.000, gentilmente fornecidas pelo Instituto Geográfico do Exército,

com recurso a um estereoscópio e iv) os dados recolhidos no campo. Os resultados obtidos

a partir do trabalho de campo resultaram do levantamento cartográfico a nível geológico e

geomorfológico, da medição sistemática de diáclases em alguns afloramentos e do registo

de informações através de anotações, de esquemas e de fotografias. Na cartografia

geológica e geomorfológica foi utilizada a folha 588 da carta militar à escala 1/25.000, a

partir da qual se obteve, por ampliação, a base topográfica à escala 1/10.000; as medições

da atitude da estratificação foram efectuadas com recurso a uma bússola do modelo Suunto

MC-1. Durante os trabalhos de campo, foram identificados locais de interesse geológico

para o enquadramento litológico, estratigráfico, estrutural e geomorfológico da área de

estudo, tendo sido seleccionados alguns desses afloramentos para uma caracterização mais

pormenorizada, com recurso a materiais clássicos como, o martelo de geólogo, a bússola

de geólogo, a lupa de geólogo de ampliação 10x para a observação de pormenores e a

identificação de minerais, uma solução de ácido clorídrico a 5% para despistagem de

carbonatos, o canivete para testar durezas relativas e o livro-de-campo para registar os

locais, afloramentos e qualquer outro aspecto interessante para o trabalho. As observações

recolhidas no campo foram depois interpretadas e comparadas com as informações

disponíveis na bibliografia consultada, de modo a identificar as características litológicas,

estruturais e geomorfológicas, a elaborar hipóteses e a tirar conclusões que permitissem a

formulação de explicações teóricas.

8
Capítulo 1 – Introdução
_____________________________________________________________________________________________________________

No final, e com o intuito de efectivar a vertente divulgativa e educativa do trabalho,

como resultado da investigação realizada, organizaram-se e compilaram-se as informações

bibliográficas, os resultados, as interpretações e as explicações e modelos teóricos, sob a

forma de diversos produtos de divulgação com cariz científico-educativo.

É de realçar que durante o desenvolvimento dos trabalhos acima descritos foram

estabelecidos contactos com algumas entidades como a Câmara Municipal de Loulé, a

Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território do Algarve, a Associação de

Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve (Almargem) e com a recém-

fundada Associação para a Defesa e Divulgação do Património Geológico do Alentejo e

Algarve (DPGA), no sentido de terem conhecimento do projecto e com o intuito de

estabelecer parcerias com objectivos comuns.

Nas diversas etapas da dissertação foi utilizado diverso software como, por

exemplo: i) XnView V. 1.82.4 (2006) – tratamento de imagens e fotografias; ii) GEOrient

9.2® (R.J.Holcombe, Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Queensland,

Austrália) – diagramas de rosas e projecção estereográfica de dados geométricos;

iv) ArcGIS 9® – elaboração de modelos digitais do terreno (MDT) e análise 3D da

superfície; v) Macromedia FreeHand 10.0® – elaboração de esquemas, blocos diagramas e

mapas; vi) Microsoft Office Word 2002® – processamento de texto; vii) Macromedia

Dreamweaver MX 6.0® – edição da página Web.

A actividade de campo foi executada essencialmente entre Fevereiro e Dezembro

de 2005, durante quatro a seis dias por mês, com uma interrupção de aproximadamente três

meses (Julho, Agosto e Setembro), tendo depois sido feitas até finais de Agosto de 2006

deslocações pontuais para confirmação e esclarecimento de algumas observações.

9
CAPÍTULO 2

– ENQUADRAMENTO DA ÁREA DE ESTUDO –

2.1. Enquadramento geográfico

2.2. Enquadramento geomorfológico

2.3. Enquadramento geológico

2.4. Revisão de conhecimentos sobre a geologia da RP


Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

2. ENQUADRAMENTO DA ÁREA DE ESTUDO

Neste capítulo realizar-se-á, de uma forma sucinta, o enquadramento da área de

estudo no contexto da região algarvia em termos das suas geografia, geomorfologia,

litostratigrafia, paleogeografia e tectónica. No final, far-se-á referência às principais

informações sobre a geologia da RP reunidas por autores que desenvolveram trabalhos de

investigação na região algarvia. Todas as informações mais pormenorizadas para a área de

estudo estão incluídas no capítulo 3.

2.1. Enquadramento geográfico

A área de estudo (Fig. 1.1), com cerca de 21.000 m2, localiza-se no Algarve, no

concelho de Loulé, entre as freguesias de Salir e de Benafim, abrange o Sítio Classificado

da Rocha da Pena e encontra-se no sector sudoeste da folha 588 (Salir) da Carta Militar de

Portugal à escala 1/25.000 do Instituto Geográfico do Exército.

2.2. Enquadramento geomorfológico

Devido às particularidades geológicas, morfológicas, climáticas, e à própria

cobertura vegetal, é usual subdividir o Algarve em três sub-regiões, com características

distintas, de norte para sul (Fig. 2.1): i) Serra Algarvia; ii) Barrocal Algarvio e iii) Litoral

Algarvio (BONNET, 1850). A Serra Algarvia desenvolve-se em terrenos pertencentes ao

Maciço Antigo (MEDEIROS, 2000), enquanto o Barrocal Algarvio e o Litoral Algarvio

desenvolvem-se em terrenos da Bacia Algarvia (TERRINHA, 1998).

A área de estudo localiza-se na transição entre a Serra e o Barrocal, abrangendo a

Serra no sector norte e o Barrocal no sector sul (Fig. 2.1).

A Serra Algarvia, designada Alto Algarve por MEDEIROS-GOUVÊA (1938), é a sub-

região algarvia mais setentrional, constituindo a barreira montanhosa que marca o final da

peneplanície alentejana (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938). Esta sub-região constitui «(…) uma

vasta superfície ondulada, ligeiramente inclinada para SO (…)» (MEDEIROS-GOUVÊA,

1938; p. 22). Os dois conjuntos de relevo que se destacam na Serra Algarvia são a Serra do

Caldeirão, a oriente, e a Serra de Monchique, a ocidente, os quais encontram-se separados

11
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

pela Falha de S. Marcos - Quarteira com orientação hercínica NO-SE (FEIO, 1952).

N
1

Serra de Monchique
Aljezur
500
300

200 2
3
100
4 200
V.R.Sto.
Tavira António
Portimão
Lagos Quarteira
Albufeira
Sagres Faro
Cabo de 0 20 km
São Vicente
Ponta de
Sagres
Litoral Meridional
Barlavento Sotavento

Litoral Algarvio Barrocal Algarvio Serra Algarvia Curvas de nível 1- Falha de S. Marcos-Quarteira
Área de Estudo Limite entre zonas
(equidistância de 50 m) 2- Falha da Eira de Agosto
3- Falha de Alportel
4- Flexura do Algibre

Fig. 2.1 – Enquadramento geomorfológico do Algarve com a localização da Serra, Barrocal e Litoral (Litoral
Ocidental e Litoral Meridional: Barlavento e Sotavento) e alguns acidentes tectónicos (adaptado de FEIO,
1952; DIAS, 2001).

O Barrocal Algarvio, também conhecido por Algarve Calcário (MEDEIROS-

GOUVÊA, 1938), individualiza-se da Serra Algarvia por uma depressão, de orientação E-O,

correspondente ao contacto entre o soco hercínico e a cobertura sedimentar mesozóica

(COELHO et al., 2001). A sul desta depressão periférica desenvolve-se o Barrocal Algarvio

propriamente dito, o qual é principalmente constituído por formações de idade mesozóica

(MANUPPELLA, 1992a, b; COELHO et al., 2001). Face aos alinhamentos do relevo e da rede

hidrográfica observados no Barrocal e na parte adjacente da Serra, FEIO (1952) distingue

três direcções principais de fracturação: i) NO-SE; ii) NE-SO; e iii) E-O. Contudo, a

direcção E-O parece a que maior influência teve sobre o relevo, dado que no Barrocal

Algarvio, principalmente no Algarve Central, os alinhamentos de relevos e os próprios

limites setentrionais do Barrocal Algarvio e da Bacia Algarvia, grosso modo, assumem

essa mesma orientação (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938; FEIO, 1952; CRISPIM, 1982).

O Litoral Algarvio, que BONNET (1850) designou por Beira-mar e que mais tarde

MEDEIROS-GOUVÊA (1938) denominou Baixo Algarve, consiste em uma extensa faixa

12
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

litoral de natureza poligénica e de aspectos fisiográficos variados, subdividindo-se em

Litoral Ocidental e Litoral Meridional (Fig. 2.1) (MANUPPELLA, 1992a, b; MOURA 1998;

Dias, 2001).

2.3. Enquadramento geológico

A RP e a sua área envolvente encontram-se em terrenos pertencentes aos dois

conjuntos morfostruturais que constituem a região algarvia – o Maciço Antigo (MEDEIROS,

2000) e a Bacia Algarvia (TERRINHA, 1998).

2.3.1. Maciço Antigo

O Maciço Antigo, também conhecido por maciço hespérico, soco hercínico, soco

Paleozóico, entre outras designações, corresponde a um soco elevado, constituindo o

núcleo rígido da Península Ibérica, formado por terrenos ante-mesozóicos (TEIXEIRA,

1981; ROSAS et al., 1993; MEDEIROS, 2000). Para o Maciço Antigo peninsular,

suficientemente individualizado e representativo, tem sido também atribuída a designação

de microplaca ibérica (MEDEIROS, 2000).

Na região algarvia, o Maciço Antigo ocupa mais de metade do território e

corresponde à Zona Sul Portuguesa (ZSP), a qual encontra-se limitada a norte pela Zona de

Ossa Morena (ZOM) e a sul pela Bacia Algarvia (Fig. 2.2) (RIBEIRO et al., 1979;

TEIXEIRA, 1981; OLIVEIRA, 1990). A ZSP no Algarve encontra-se representada pela Faixa

Piritosa (ramo sul, Anticlinal de Alcoutim), pelo Grupo do Flysch do Baixo Alentejo e pelo

o Sector Sudoeste (MANUPPELLA, 1992a, b; OLIVEIRA, 1990, 1992b). Na área de estudo, a

ZSP apenas está representada pelo Grupo do Flysch do Baixo Alentejo através da

Formação de Mira (OLIVEIRA et al., 1992).

Em termos paleogeográficos, a ZSP constituiu-se a partir do Devónico Superior

quando se formou uma extensa plataforma siliciclástica, provavelmente, com uma área

continental emersa a sul e uma zona mais profunda a norte, onde existia um mar profundo

e onde ocorria importante actividade vulcânica (Faixa Piritosa) associada a estiramento da

crosta continental (OLIVEIRA, 1992b, 2001). Esse mar profundo no Viseano sofreu inversão

do regime tectónico (orogenia Varisca), tendo-se assim passado a um regime compressivo

13
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

em progressão para SO. Foi neste contexto tectónico que se formaram os turbiditos do

Grupo do Flysch do Baixo Alentejo (OLIVEIRA, 1992b, 2001). Essa compressão orogénica,

que somente no Vestefaliano atingiu o Sector Sudoeste (OLIVEIRA, 1992b; OLIVEIRA,

2001), foi responsável pela elevação da parte da Cadeia Varisca correspondente à actual

ZSP e pela consequente erosão e aplanação desses terrenos durante o Pérmico e grande

parte do Triásico (OLIVEIRA, 2001; GALOPIM DE CARVALHO, 2002). Deste modo, as

colunas litostratigráficas para a região algarvia apresentam um hiato temporal desde o

Pensilvaniense até ao Triásico Inferior a Médio (MANUPPELLA, 1992a, b; OLIVEIRA et al.,

1992).

9º 8º 7º

N
Mt

Beja
38º 38º
Aljustrel

Odemira Mértola
Neves Corvo
Pomarão
Mi Mt
Alcoutim

Aljezur

Br

Bordeira
B ABACIA
C I A AALGARVIA
LGARVIA

Faro
Sagres

37º 37º

9º 8º 7º
Grupo do Flysch do
Baixo Alentejo

Br Formação de Brejeira (Namuriano Médio – Vestefaliano Superior) Cobertura sedimentar meso-cenozóica.


Intrusões peralcalinas de Monchique e
Mi Formação de Mira (Namuriano)
Sines (Cretácico)
Mt Formação de Mértola (Viseano Superior) Falha

Faixa Piritosa (Fameniano Superior – Viseano Médio) Cavalgamento ou carreamento

Ofiolito de Beja – Acebuches (Devónico Inferior?) Limite setentrional do Algarve

Antiforma de Pulo do Lobo (Devónico Inferior? – Tournaisiano Inferior) Localidade

Sector Sudoeste (Fameniano Superior – Vestefaliano Inferior) Área de estudo

Fig. 2.2 – Mapa geológico da ZSP e enquadramento da área de estudo no Maciço Antigo (modificado de
OLIVEIRA, 1990).

14
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

2.3.2. Bacia Algarvia

A Bacia Algarvia constitui uma bacia sedimentar de idade meso-cenozóica com

direcção aproximadamente E-O que se estende, na parte emersa (onshore), desde o cabo de

S. Vicente até um pouco além do rio Guadiana, apresentando cerca de 150 km de

comprimento e 13 a 30 km de largura (Figs. 2.3 e 2.4) (MANUPPELLA et al., 1988;

MANUPPELLA, 1992c). Nesta bacia depositaram-se mais de 4000 m de sedimentos meso-

cenozóicos em discordância angular sobre o soco Paleozóico (MANUPPELLA, 1992c).

O registo estratigráfico da Bacia Algarvia abrange o período compreendido entre o

Triásico Médio a Superior e o Quaternário com uma grande lacuna sedimentar desde o

Cretácico Superior (Cenomaniano) até ao Miocénico Inferior (Burdigaliano) e importantes

desconformidades nas fronteiras Jurássico Inferior - Jurássico Médio, Jurássico Médio -

Jurássico Superior e Jurássico Superior - Cretácico Inferior, bem como durante o

Miocénico (Figs. 2.5 e 2.6) (TERRINHA e RIBEIRO, 1995; TERRINHA, 1998; PAIS et al.,

2000). As desconformidades registadas ao longo do Mesozóico são, de um modo geral,

síncronas com episódios de inversão tectónica de curta duração (tectónica compressiva)

ocorridos no Jurássico Inferior (Carixiano), no Caloviano - Oxfordiano e no Titoniano -

Berriasiano, exceptuando-se a desconformidade na fronteira Jurássico Inferior - Jurássico

Médio (Toarciano - Aaleniano), a qual parece não estar associada a um episódio

compressivo (TERRINHA, 1998; TERRINHA et al., 1998; TERRINHA et al., 2000b).

N Odeceixe

Lisboa

Faro

50 km

Monchique Cachopo
Aljezur

Barranco
do Velho
Salir

Nave do Barão
Castro Marim
Silves Tôr

V. R. Sto.
Loulé S. Brás de Alportel Cacela António
Lagoa
Portimão
Vale Judeu Tavira
Lagos
Moncarapacho
Albufeira
Quarteira
Olhão
Faro
Cabo de
São Vicente
Sagres 0 20 km
Ponta de
Sagres
Alto Fundo de
Sub-bacia Ocidental Budens-Lagoa Sub-bacia Oriental

Soco Paleozóico Bacia Algarvia Sienito de Monchique Diapiro Falha inversa Falha Limite da Localidade Área de estudo 1- Flexura de Algibre
Bacia Algarvia 2- Flexura Sto. Estevão - Mte. Figo - Vale Judeu
3- Falha de Tavira
4- Falha de Faro
5- Falha de S. Marcos-Quarteira
6- Falha de Albufeira
7- Falha de Portimão

Fig. 2.3 – Principais estruturas tectónicas e diapíricas da Bacia Algarvia (adaptado de MANUPPELLA et al.,
1988; RIBEIRO et al., 1990).

15
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

N Odeceixe

Lisboa

Monchique Faro
50 km
Alzejur

Barranco
do Velho
Silves

V. R. Sto.
Loulé António
Tavira
Portimão
Lagos
Albufeira Quarteira
Faro
Cabo de Sagres 0 20 km
São Vicente
Ponta de
Sagres
Alto Fundo de
Sub-bacia Ocidental Budens-Lagoa Sub-bacia Oriental

Algarve Ocidental Algarve Central Algarve Oriental

Holocénico Cretácico Inferior Maciço intrusivo de Monchique (+/- 72 Ma)

Plistocénico Jurássico Superior Falha

Pliocénico Jurássico Médio - Inferior Falha inversa e cavalgamento

Miocénico Hetangiano - Triásico Superior Localidade

Paleogénico Soco Paleozóico Área de estudo

Fig. 2.4 – Mapa geológico simplificado da região do Algarve (adaptado de MANUPPELLA et al., 1988; OLIVEIRA et al., 1992; MANUPPELLA, 1992a, b; KULLBERG et al., 1992; TERRINHA, 1998).

16
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

Arenitos de Silves Arenitos de Silves

Fig. 2.5 – Tabela estratigráfica sintética do Mesozóico do Algarve (adaptado de OLIVEIRA et al., 1992 in
DIAS, 2001).

17
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 2.6 – Tabela estratigráfica sintética do Cenozóico do Algarve (adaptado de Pais et al., 2000).

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Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

Em relação à área de estudo, as unidades litostratigráficas encontradas possuem

idades compreendidas entre o topo do Mississipiense (Namuriano) e o Quaternário, com

duas grandes lacunas estratigráficas: i) entre a base do Pensilvaniense e o Triásico

Superior; e ii) entre o Jurássico Inferior e, pelo menos, o Pliocénico. Destacam-se os

trabalhos de PALAIN (1975, 1977) e de ROCHA (1976) (Fig. 2.7), que dedicam especial

atenção ao estudo das unidades litostratigráficas com idades compreendidas entre o

Triásico e a base do Jurássico Inferior e que afloram na área de estudo.

Dolomitos e calcários
dolomíticos de Espiche

?
”Grés de Silves”
Topo dos

? – >50 m

LIÁSICO

Hetangiano
Complexo
margo-carbonatado
A Hetangiano
de Silves
Termo AB3 0-16m A
Limite cartográfico

80 – 200 m
A Hetangiano
?
Termo AB2
50 – 80 m

mV Triásico

“Grés de Silves”
Triásico superior
TRIÁSICO

Limite cartográfico
MV
MV
A Keuper
10 – 150 m
Termo AB1

10 – 140 m

A
Unidade AA

0 – 100 m

0 – 60 m

Xistos e grauvaques
(Carbonífero)

a) C. PALAIN (1975) b) R. ROCHA (1976)

1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8-

Fig. 2.7 – Correlação entre as unidades litostratigráficas do Triásico-Hetangiano definidas por


a) PALAIN (1975), b) ROCHA (1976) e a correspondência da classificação de Palain (1975) com as
terminologias utilizadas na presente dissertação. 1- Dolomitos e calcários dolomíticos de Espiche; 2- Doleritos e basaltos
doleríticos; 3- Calcários dolomíticos; 4- Pelitos e margas bicolores; 5- Pelitos avermelhados; 6- Arenitos com estratificação oblíqua;
7- Pelitos e depósitos arenítico-conglomeráticos (Argilas de S. B. de Messines); 8- Soco Paleozóico; A- Fósseis animais;
mV- Microfósseis vegetais; MV- Macrofósseis vegetais. Unidade AA ≈ Argilas de S. Bartolomeu de Messines; Termo AB1 ≈ Arenitos
de Silves; Termo AB2 ≈ Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas; Termo AB3 ≈ Calcários e dolomitos do topo dos Pelitos
com evaporitos e intercalações carbonatadas; Topo dos “Grés de Silves” ≈ parte do Complexo vulcano-sedimentar.

19
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

a) Síntese da evolução geodinâmica da Bacia Algarvia

As séries sedimentares meso-cenozóicas que compõem a Bacia Algarvia

correspondem a duas bacias distintas sobrepostas que se desenvolveram principalmente

associadas à fronteira entre as placas ibérica e africana (Fig. 2.8) (VEGAS, 1988; TERRINHA

et al., 2000a). O desenvolvimento da bacia mesozóica algarvia esteve relacionado com a

abertura do oceano Atlântico Norte e a expansão do oceano Tétis para ocidente (Neo-Tétis

Ocidental), com a consequente fracturação do Pangea (TERRINHA, 1998, 2005). A origem

do Atlântico Norte esteve associada ao desenvolvimento dos ramos N-S do ponto triplo a

sudoeste de Portugal (TERRINHA, 1998, 2005) através de movimentos distensivos de

direcção E-O a ONO-ESE na actual fachada ocidental, os quais conduziram à separação

entre a Ibéria e a América do Norte (RIBEIRO et al., 1984; DIAS, 2001). Por sua vez, o

Neo-Tétis Ocidental teve origem em movimentos distensivos NO-SE a N-S na actual

fachada meridional (RIBEIRO et al., 1984; DIAS, 2001), os quais foram controlados pelo

movimento transcorrente transtensivo sinistrógiro da África em relação à Ibéria. Por outro

lado, a origem da bacia cenozóica flexural algarvia, que se sobrepõe à bacia mesozóica,

esteve associada à convergência da África em relação à Ibéria durante o Cenozóico

(TERRINHA, 1998, 2005; TERRINHA et al., 2000a; LOPES, 2002). A fracturação e a

geomorfologia do soco Paleozóico desempenharam também um importante papel na

evolução tectónica e estrutural da Bacia Algarvia (TERRINHA e RIBEIRO, 1995; TERRINHA,

1998; TERRINHA et al., 2000a; LOPES, 2002).

Associados aos movimentos que estiveram na origem da Bacia Algarvia,

nomeadamente aos movimentos distensivos N-S, geraram-se várias flexuras de direcção

aproximadamente E-O (Fig. 2.3), das quais se destacam: i) a Flexura do Algibre, que se

estende desde Vila Real de Sto. António a Portimão, com prolongamento para oeste ao

longo da Falha da Mexilhoeira Grande – Espiche, e ii) a Flexura de Sto. Estêvão - Monte

Figo - Vale de Judeu (MANUPPELLA, 1992a, b, c). Estas flexuras encontram-se

interceptadas por falhas de direcção aproximadamente N-S (MANUPPELLA, 1992a, b, c)

que provavelmente funcionam como zonas de transferência (DIAS, 2001), como acontece

20
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

1) Carbonífero Superior 6) Oligocénico Inferior (Rupeliano)

2) Triásico Superior 7) Miocénico Inferior (Burdigaliano)

3) Jurássico Médio (Caloviano) 8) Miocénico Superior (Tortoniano)

4) Cretácico Inferior (Hauteriviano) 9) Presente

5) Eocénico Inferior (Luteciano)


Terrenos emersos actualmente
Crosta oceânica
Falhas distensivas principais
Falhas compressivas principais
Zona de subducção activa
Eixos activos de crescimento
Eixos inactivos de crescimento
Orientação do campo de tensão

Fig. 2.8 – Reconstrução paleogeográfica e tectónica da evolução da Península Ibérica desde o Carbonífero
Superior até ao presente (adaptado de JABALOY et al., 2002).

21
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

com a Flexura do Algibre, cortada pela Falha de Portimão - Monchique (N-S) e pela Falha

de S. Marcos - Quarteira (NO-SE) (KULLBERG et al., 1992; MANUPPELLA, 1992a, b). Estas

flexuras ter-se-ão mantido activas até o Miocénico Médio e em associação com os

acidentes que as interceptam condicionaram o estilo tectónico da Bacia Algarvia,

determinando a diferenciação de sub-bacias e consequentemente dando lugar a domínios

sedimentares diversificados (MANUPPELLA et al., 1988; KULLBERG et al., 1992;

MANUPPELLA, 1992a, b, c).

Actualmente, em termos de enquadramento geodinâmico, o Algarve (Fig. 2.9)

localiza-se na placa euroasiática, mais concretamente na microplaca Ibérica (VEGAS,

1988; TERRINHA, 1998; DIAS, 2001; DIAS e CABRAL, 2005), junto ao cruzamento da

Margem Continental Oeste Ibérica, de direcção N-S – relacionada com a abertura do

Atlântico Norte –, com a Zona de Fractura de Açores - Gibraltar (ZFAG) disposta segundo

uma direcção E-O correspondente a uma zona de fronteira de placas difusa entre a Eurásia

e a África – relacionada com a evolução do Neo-Tétis Ocidental (CABRAL e RIBEIRO,

1989; DIAS e CABRAL, 2005).

Fig. 2.9 – Enquadramento geodinâmico da placa Ibérica no contexto da interacção das placas Africana e
Eurasiática (adaptado de VEGAS, 1988). 1- Crista Médio-Atlântica; 2- Fronteira de placas Ibéria - Eurásia abandonada; 3- Rift
dos Açores; 4- Zona de fractura da Glória; 5- Zona de deformação distribuída e de rotação de blocos (fronteira de placas difusa);
6- Zona de subducção Tirreniana; P- Pólo de rotação da Ibéria (Eurásia) - África.

22
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

De acordo com GRILLOT e ALMEIDA (1982), KULLBERG et al., (1992), DIAS (2001)

e TERRINHA et al., (2000a, b) pode-se resumir que a Bacia Algarvia, desde o Triásico, foi

sujeita às seguintes fases tectónicas da orogenia Alpina:

1) Sucessivas fases distensivas N-S durante o Mesozóico até ao Cretácico Inferior a

Superior (KULLBERG et al., 1992) intercaladas com curtos episódios compressivos

(TERRINHA et al., 2000b)

2) Distensão aproximadamente E-O durante o Cretácico Inferior (GRILLOT e

ALMEIDA, 1982; KULLBERG et al., 1992);

3) Compressão SSO-NNE a SE-NO durante a inversão tectónica maior (Cretácico

Superior e Paleogénico) (TERRINHA et al., 2000a);

4) Distensão N-S até ao final do Miocénico Inferior e distensão N-S e E-O no

Burdigaliano Superior ou Langhiano Inferior (KULLBERG et al., 1992);

5) Compressão N-S ou NNO-SSE a partir do Miocénico Médio (Fase Bética)

(KULLBERG et al., 1992);

6) Compressão E-O pós-Tortoniano (KULLBERG et al., 1992);

7) Compressão N-S a E-O no Plio-Quaternário (DIAS, 2001).

A halocinese – tectónica salina – desempenhou também um importante papel no

controlo tectónico, estrutural e sedimentar da Bacia Algarvia, adicionando alguma

complexidade à sua história (KULLBERG et al., 1992). De facto, movimentos horizontais

iniciais da cobertura evaporítica hetangiana durante o Jurássico Médio e Superior

controlaram a localização dos depocentros nas sub-bacias mesozóicas, tendo também

condicionado a sedimentação e a inversão da bacia durante o Cretácico Superior e o

Cenozóico devido à reactivação do horizonte salino como um lubrificante para as falhas

(KULLBERG et al., 1992; TERRINHA e RIBEIRO, 1995).

23
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

2.4. Revisão de conhecimentos sobre a geologia da RP

A RP não tem passado despercebida à sociedade civil, em geral, nem à

comunidade científica, em particular, pelo que alguns dos investigadores que

desenvolveram trabalhos científicos na região algarvia em diversas áreas das Geociências,

alguns já supracitados, referem-se às suas geologia e geomorfologia. Numa perspectiva de

enquadrar o conhecimento actual sobre a geologia da RP, citam-se algumas das principais

informações reunidas por alguns autores:

BONNET (1850), no seu trabalho descritivo da geografia e geologia da região

algarvia, faz algumas alusões ao Cerro da Penna, nomeadamente, quando descreve

o relevo e as cavernas do Algarve. Na descrição das cavernas, destaca o Poço dos

Mouros – um dos algares da RP – considerando-o a caverna mais profunda do

Algarve;

MEDEIROS-GOUVÊA (1938), num trabalho intitulado Algarve – aspectos

fisiográficos, refere-se à génese da RP como resultado de erosão diferencial,

afirmando que o desgaste desenvolvido pela «(…) rêde fluvial aliado aos acidentes

tectónicos do pliocénico superior fêz que a erosão atacasse fortemente os arenitos e

margas do triássico e do infra-liássico e assim se criou o sulco profundo entre o

Alto Algarve e o Algarve Calcário que desfez a antiga unidade morfológica» (p.

80); e que essa erosão diferencial «(…) fêz sobressair as “Rochas” [Rocha de

Messines, Rocha dos Soídos e RP], separando-as entre si por vales largos e

profundos (…) no limite dos terrenos do paleozóico» (p. 115). O mesmo autor

evoca ainda o fenómeno de imunidade cársica3 para a conservação das Rochas,

afirmando que «Foi a difusão das águas nos terrenos calcários e nas dolomias (…)

que permitiu a conservação dêstes campos “lapiezados” do liássico» (p. 80);

FEIO (1952, p. 103) descreve a RP como «(…) uma grande superfície estrutural,

3
O termo imunidade cársica aplicado neste contexto significa a manutenção de determinado relevo cársico
devido à reduzida erosão em virtude da ausência de escorrência subaérea nas superfícies plenamente
cársicas, contudo este termo também pode ser empregue como propriedade das rochas que resistem à
corrosão cársica (FÉNELON, 1967).

24
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

com disposição em sinclinal muito aberto, limitada por imponente cornija»,

relatando que o topo daquele relevo estrutural é formado por dolomitos liásicos

assentes em rochas mais brandas do Triásico e do Hetangiano e que o contacto

com o maciço antigo se faz por falha (Fig. 2.10);

Rocha da Pena Cabeço da Areia Nave do Barão Picavessa


(480 m) (377 m)
(317 m)

Fig. 2.10 – Corte nos relevos do Algarve Central, evidenciando-se a estrutura em mesa da RP destacada por
erosão diferencial, e o contacto por falha das formações mesozóicas com o Maciço Antigo (adaptado de
FEIO, 1952). 1- xistos do maciço antigo; 2- Triásico e Hetangiano, constituído por margas (incluem-se também nesta convenção
algumas ofites (doleritos) que não foi possível individualizar); 3- ofites; 4- dolomias e calcários do Liásico.

ROMARIZ et al. (1976 e 1979) em dois artigos sobre estruturas vulcânicas e

episódios vulcano-sedimentares no Algarve, respectivamente, identificam na RP

estruturas e litologias de origem vulcânica representativas e exemplares do

Complexo vulcano-sedimentar;

CRISPIM (1982), no seu trabalho intitulado Morfologia Cársica do Algarve, para

além de identificar algumas formas cársicas na RP, menciona aquele relevo em

termos geomorfológicos como uma mesa, interpretando-o como um relevo cársico

herdado de uma ou de várias fases morfogenéticas anteriores, referindo, também, a

imunidade cársica como um fenómeno decisivo na sua conservação. Para este

autor a RP «… é um carso alcandorado e a aparência de mesa sinclinal (…) poderá

resultar apenas do seu aspecto de concha esvaziada no centro e com bordos

elevados …» (p. 95), realçando ainda, em relação ao tipo de estrutura, que «…

algumas medições efectuadas indicam que a estrutura, em pormenor, não é

simples» (p. 95);

ALMEIDA (1985) na sua tese de doutoramento Hidrogeologia do Algarve Central

além de apresentar um esquema ilustrativo da circulação subterrânea da água na

25
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

RP (Fig. 2.11), tendo em conta a estrutura em sinclinal aberto referida por FEIO

(1952), menciona também algumas observações locais sobre os materiais do

Complexo vulcano-sedimentar e sobre as litologias e estratigrafia da Formação de

Picavessa;

Fig. 2.11 – Esquema ilustrando a


circulação subterrânea da água na RP
(adaptado de ALMEIDA, 1985). (1)
argilitos; (2) Complexo vulcano-sedimentar; (3)
calcários e dolomitos da Picavessa; (4) nascente
perene; (5) nascente periódica

TOMÉ (1996), num artigo intitulado Morfologia Cársica no Concelho de Loulé:

Abordagem Preliminar, além da descrição geomorfológica do carso, acrescenta

que a cornija imponente da RP referida por FEIO (1952) é uma escarpa de falha,

identificando-a na folha 8 da Carta Geológica de Portugal na escala 1/200.000

(OLIVEIRA, 1992a) (Fig. 2.12);

Legenda
N
Aluviões, areias e lodos (Quaternário)
Rocha da Pena
Areias e Cascalheiras de Faro-Quarteira (Plistocénico)

Calcários margosos e margas do Peral; Calcários hidráulicos de


Loulé; Calcários de S. Romão (*) (Jurássico Superior)
Formação de Picavessa (J1 – Dolomitos e brecha dolomítica; (*)
Calcários com Paleodasycladus e calcários com nódulos de
sílex); J1B – Calcários dolomíticos e dolomitos de Boavista
(Jurássico Inferior)
Complexo vulcano-sedimentar básico e dolomitos intercalados
(Jurássico Inferior)
Complexo margo-carbonatado-evaporítico de Silves; (*)
Salgema e gesso (perfil) (Triásico Superior - Jurássico Inferior)
Arenitos de Silves (Triásico Superior)

Formação de Mira (turbiditos) (Carbonífero)

Limite geológico
Falha
2 km
I Falha fotointerpretada

Fig. 2.12– Continua na página seguinte

26
Capítulo 2 – Enquadramento da área de estudo
_____________________________________________________________________________________________________________

Rocha da Pena

II

Fig. 2.12 – Geologia da RP e da área envolvente segundo OLIVEIRA (1992a). I- Mapa geológico da RP e da
sua área envolvente; II- Corte geológico de direcção NNO-SSE, atravessando o sector oriental da RP.

através da análise da Carta Geológica de Portugal à escala 1/500.000 (Oliveira et

al., 1992), da folha 8 da Carta Geológica de Portugal na escala 1/200.000

(Oliveira, 1992a) (Fig. 2.12) e da folha oriental da Carta Geológica da Região

Algarvia na escala 1/100.000 (MANUPPELLA, 1992a), verifica-se que as unidades

litostratigráficas da região da RP encontram-se afectadas por falhas de orientação

aproximadamente E-O, as quais limitam as litologias da Formação de Picavessa,

deduzindo-se que a RP tem um importante controlo estrutural. Observa-se também

que o contacto do soco Paleozóico com as unidades mesozóicas na vertente norte

da RP não é tectónico, ao contrário do que é postulado por FEIO (1952).

27
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

CAPÍTULO 3

– RESULTADOS, DISCUSSÃO E INTERPRETAÇÕES –

3.1. Litostratigrafia e paleogeografia

3.2. Estrutura e tectónica

3.3. Geomorfologia

3.4. História geológica da RP

28
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

3. RESULTADOS, DISCUSSÃO E INTERPRETAÇÕES

Neste capítulo serão apresentadas as observações e os resultados obtidos, assim

como as interpretações e as hipóteses teóricas decorrentes do estudo realizado. De realçar

que as observações e os resultados da investigação desenvolvida serão acompanhados com

observações e conclusões obtidas por outros autores, sempre numa perspectiva de

complemento, comparação e discussão, de modo a esclarecer e dar resposta às hipóteses de

investigação e alcançar os objectivos delineados. Todas as informações sob a forma de

texto, gráficos, figuras ou quadros que sejam total ou parcialmente resultado de outros

trabalhos de investigação serão devidamente referenciadas, de modo a distinguir de forma

inequívoca a sua fonte. No caso das fotografias apresentadas, a sua localização encontra-se

identificada no mapa do apêndice I.

3.1. Litostratigrafia e paleogeografia

Na RP e área envolvente, as unidades litostratigráficas encontradas possuem idades

compreendidas entre o topo do Mississipiense (Namuriano) e o Quaternário, com duas

grandes lacunas estratigráficas: i) entre a base do Pensilvaniense e o Triásico Superior; e ii)

entre o Jurássico Inferior e, pelo menos, o Pliocénico (Fig. 3.1 e Apêndice II).

De seguida serão descritas, das mais antigas para as mais recentes, as unidades

litostratigráficas presentes na área de estudo, referindo as principais características

observadas e interpretando-as em termos paleoambientais. Far-se-á ainda referência a

alguns locais de boa observação tendo em conta a facilidade de acesso, os quais se

encontram representados no mapa do apêndice I.

29
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Unidade litostratigráfica Características litológicas Observações Ambiente geológico

Aluvião Argilas, siltes, areias e A cobrir o fundo dos vales Continental fluvial; actualmente em
seixos rolados que rodeiam a RP fase de assoreamento
Clastos e blocos angulosos A cobrir as vertentes da RP Continental; erosão subaérea;
Depósitos de vertente associados à evolução dos relevos
Quaternário

de rochas da F. de Picavessa carbonatados


Clastos angulosos carbonatados A preencher o carso e as Erosão subaérea associada a
Brecha cársica e com cimento carbonatado; fracturas desenvolvidos na fenómenos de carsificação
terra rossa depósitos argilosos Formação de Picavessa
Cascalheiras e areias Areias, siltes, argilas e seixos Topograficamente acima Continental fluvial; associado ao
Plioc.

rolados dos aluviões actuais rejuvenescimento da rede hidrográfica

Dolomitos, calcários Pisólitos, oólitos, fósseis Plataforma marinha carbonatada de


Formação de Picavessa de corais e de águas quentes e de baixa
dolomíticos, calcários e
>150 m

gastrópodes e laminações profundidade


brecha dolomítica
microbianas; com
dolomitizações
secundárias

v v v
v Materiais piroclásticos
v v
Jurássico Inferior

bem estratificados, alguns


Complexo Piroclastos remobilizados, Actividade vulcânica ora explosiva ora
com granotriagem positiva
Até 150 m

vulcano-sedimentar tufos vulcânicos, brechas efusiva, principalmente subaquática;


v v vulcânicas, escoadas de
e evidenciando fluxos;
associada à primeira fase de
v v níveis de descontinuidade
basaltos e intrusões de riftogénese do Mesozóico
intercalados; elevado grau
v doleritos
de alteração
v
v v
v

Dolomitos com laminações


paralelas e cruzada, fendas
de contracção, intraclastos
Até 210 m

Argilitos, siltitos e arenitos Margino-litoral (tendência marinha


Pelitos com evaporitos e e bioturbados; para o topo da sequência) com pulsos
intercalações carbonatadas finos e intercalações de nódulos carbonatados; regressivos e transgressivos
evaporitos e carbonatos coloração avermelhada,
(calcários e dolomitos) intercalados; clima quente e seco
por vezes, esverdeada; (ambiente tipo sabkha);
fóssil de estegocéfalo(?)
num nível carbonatado
Triásico Superior

Paleocorrentes de N para
Arenitos, siltitos, argilitos e
Até 65 m

Arenitos de Silves S; estruturas de canal; Continental fluvial com episódios de


leitos de conglomerados laminação paralela e enxurradas; clima quente e seco
com cimento ferruginoso entrecruzada
Carbonífero

Sequências de Bouma; Deposição em fundos marinhos


Formação de Mira Xistos argilosos e profundos através de correntes de
tonalidades acastanhadas
grauvaques intercalados turbidez; deformados durante a
e esverdeadas
orogenia Varisca

Argilitos, siltitos e v v v Piroclastos, tufos vulcânicos, brechas Dolomitos, calcários Areias, siltes, argilas e
arenitos finos vulcânicas e escoadas de basaltos dolomíticos e calcários seixos rolados
Conglomerados Dolomitos e calcários Clastos e blocos angulosos
Material argiloso de rochas carbonatadas
Arenitos, siltitos e Clastos e blocos angulosos de rochas
argilitos Gesso Intrusões de doleritos
carbonatadas cimentados, depósito argiloso
Xistos argilosos e
grauvaques Halite Material piroclástico Areias, siltes, argilas e seixos rolados

Fig. 3.1 – Coluna litostratigráfica sintética da RP e área envolvente.

30
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

3.1.1. Carbonífero

a) Formação de Mira (Namuriano)

A Formação de Mira é constituída por uma sucessão alternante de camadas de

xistos argilosos e de grauvaques onde é possível identificar nestas últimas algumas

estruturas sedimentares, tais como, marcas de arraste (Fig. 3.2) e sequências de Bouma

(Fig. 3.3), bem como estruturas erosivas, como é o caso de bancadas de grauvaque

amalgamadas (Fig. 3.4). Estas rochas apresentam tonalidades acinzentadas e acastanhadas

e localmente surgem tingidas de vermelho. Apesar de não terem sido encontrados na área

de estudo, esta unidade possui alguns conglomerados com clastos provenientes da Faixa

Piritosa (OLIVEIRA, 1984, 1992a; OLIVEIRA e OLIVEIRA, 1996) e fósseis de goniatites

(Goniatites granosus) que permitiram datá-la do Namuriano Inferior e Médio (OLIVEIRA et

al., 1979; OLIVEIRA, 1992b, c, 2001; OLIVEIRA e OLIVEIRA, 1996). Esta formação constitui

o substrato das formações mesozóicas algarvias a leste de S. Bartolomeu de Messines

(OLIVEIRA et al., 1992; MANUPPELLA et al., 1992a, b).

Locais de boa observação: ao longo da estrada 503 entre Alcaria e Tameira (sector

oeste da área de estudo).

Fig. 3.2 – Bancada de grauvaque tingida de vermelho


de atitude N160º,48ºNE com marcas de arraste que
indicam a base da camada (povoação de Alcaria;
martelo como escala).

31
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Divisão e (Argilas)

Divisão d (Silte laminado)

Divisão c
(Areias com laminação cruzada)

Fig. 3.3 – Sequência de


Divisão b
(Areias com laminações paralelas) Bouma completa (entre a
Brazieira e a Tameira na
Divisão a barreira esquerda da estrada
(Areias com gradação positiva; base erosiva)
503 no sentido sul-norte;
moeda como escala).

Divisão b

2.ª Sequência de Bouma

Divisão a

Superfície de amalgação
Divisão c

Divisão b
1.ª Sequência de Bouma

Divisão a

Fig. 3.4 – Bancada de grauvaque amalgamada, a qual resultou da sobreposição de duas sequências de
Bouma, em que as Divisões d e e da sequência de Bouma inferior foram erodidas (entre a Brazieira e a
Tameira na barreira esquerda da estrada 503 no sentido sul-norte; moeda como escala)

Os xistos argilosos e os grauvaques da Formação de Mira correspondem a espessas

sequências detríticas constituídas por alternâncias monótonas de argilas e de areias

depositadas através de correntes de turbidez no fundo de um oceano de grande

profundidade – oceano Rheic –, que separava os continentes Gondwana e Laurásia

(OLIVEIRA e OLIVEIRA, 1996; TORSVIK et al., 2002). Nessa altura, o oceano Rheic estava a

fechar-se e os dois continentes aproximavam-se (TORSVIK et al., 2002).

Consequentemente, os sedimentos depositados no seu fundo foram dobrados e fracturados,

todavia a deformação na região da RP apenas foi suficiente para produzir um ambiente

32
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

metamórfico muito incipiente – no máximo atingiu-se a fácies zeolítica (Munhá, 1983) –,

pelo que os xistos argilosos e os grauvaques apresentam uma clivagem tectónica

moderada. Nesse período de tectónica compressiva, do final do Carbonífero Superior até

ao Triásico Superior, ao longo de mais de 70 Ma, deu-se a elevação da Cadeia Varisca e a

consequente erosão e aplanação dos terrenos (GALOPIM DE CARVALHO, 2002), o que

explica a lacuna estratigráfica existente nesse intervalo de tempo.

3.1.2. Triásico Superior - Jurássico Inferior

a) Arenitos de Silves (Triásico Superior)

Os Arenitos de Silves são uma unidade detrítica composta por arenitos, argilitos e

conglomerados vermelhos organizados em sequências positivas (PALAIN, 1975;

MANUPPELLA, 1988). Na área de estudo, os arenitos são de grão médio a fino de cimento

ferruginoso (Fig. 3.5) e apresentam intercalações de leitos de conglomerados e brechas de

cor avermelhada com clastos de grauvaque e quartzo angulosos a subangulosos suportados

por uma matriz argilo-arenítica (Fig. 3.5), cuja proveniência é das formações da ZSP e,

possivelmente, também da ZOM (TERRINHA, 1998). Os arenitos e conglomerados possuem

frequentemente estruturas sedimentares bem preservadas, como figuras de carga,

estratificação entrecruzada, ripple marks e estruturas lenticulares (PALAIN, 1975;

MANUPPELLA, 1988). A passagem para a unidade seguinte faz-se de forma progressiva,

com redução da fracção arenítica e gradual aumento da fracção argilosa (AZERÊDO et al.,

2003).

Locais de boa observação: ao longo do caminho Alcaria – RP; ao longo do caminho

Brazieira de Cima - Brazieira de Baixo.

33
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

OSO ENE

II

III

Fig. 3.5 – Afloramento de Arenitos de Silves de atitude N120º,24ºSO (início do caminho Alcaria – RP;
martelo, moeda e lapiseira como escalas). I- Fotografia evidenciando leitos ou bolsadas de conglomerados e
brechas intercalados com arenitos finos a médios de cimento ferruginoso; II- Pormenor de um leito de
conglomerado com elevada heterogeneidade de clastos de grauvaque e quartzo angulosos e subangulosos
suportados por uma matriz arenosa e ferruginosa; III- Pormenor de uma figura erosiva.

Os Arenitos de Silves são interpretados como depósitos continentais aluvionares

(PALAIN, 1975; MANUPPELLA, 1988). As suas características litológicas e sedimentológicas

sugerem ter sido transportados por uma rede hidrográfica, esporadicamente em regime

torrencial e de enxurrada, com sentido predominante de NE para SO e S associada a

depocentros originados pelo rejogo das falhas variscas sinorogénicas (NO-SE e E-O) que

passaram a funcionar como falhas normais devido às forças distensivas relacionadas com a

fase de pré-riftogénese durante o início da fragmentação do Pangea (PALAIN, 1975, 1977;

TERRINHA, 1998; TERRINHA et al., 2000a). Supõe-se assim que o depocentro triásico se

situava para sudoeste da Margem Continental Portuguesa (TERRINHA, 1998; TERRINHA et

al., 2000a). Esses sedimentos triásicos sugerem ainda ter sido depositados em clima quente

e árido, compatível com a posição geográfica próxima do equador e com a interioridade da

Península Ibérica no continente Pangea (TORSVIK et al., 2002; BUCHDAHL, 1999). Porém,

localmente existiam áreas húmidas a formar charcos onde viviam estegocéfalos, bivalves

34
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

do género Estheria e outros seres aquáticos (AZERÊDO et al., 2003; PALAIN, 1975). Os

leitos de conglomerados e brechas podem ser interpretados como materiais depositados nos

canais fluviais activos, enquanto os materiais mais finos, ricos em óxidos de ferro,

depositavam-se nas planícies de inundação (RAMALHO, 1988). A coloração avermelhada

dos sedimentos deve-se às condições de oxidação e à presença de óxidos de ferro

(NICHOLS, 1999).

b) Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Triásico Superior -

Hetangiano)

A unidade dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas de Silves é

constituída por diversas sequências rítmicas de arenitos finos, siltitos, pelitos

predominantemente ilíticos e calcários folhetados e dolomitos, englobando também

depósitos evaporíticos de sal-gema, gesso e anidrite (MANUPPELLA, 1988; AZERÊDO et al.,

2003). Estes evaporitos, cuja espessura original não é conhecida, apenas ocorrem de forma

significativa a sul da linha tectónica Tavira - Algoz - Sagres (Flexura do Algibre)

(TERRINHA, 1998) sob a forma de domas injectados em estruturas tectónicas

(MANUPPELLA, 1988; TERRINHA, 1998).

Na área de estudo, esta unidade pelítica inicia-se por materiais argilo-siltosos

vermelhos, por vezes violáceos e esverdeados, os quais são o componente mais importante

da unidade (Fig. 3.6).

35
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

SE NO
Falha normal: N28º,66NO

Material piroclástico do Complexo vulcano-sedimentar


NC

NC

Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

2m NC- Níveis carbonatados (dolomitos primários) com nódulos


I carbonatados (S0: N85º,16ºSE)

SE Falha: N28º,66ºNO Falha: N20º,86ºNO


NO

v v v v v v
II v v
v
v
v v
v
v
v v v
v v v v v

So: N85º,16ºSE

Área abrangida pela fotografia em I

v v Material piroclástico do
v Complexo vulcano-sedimentar

intercalações carbonatadas
Pelitos com evaporitos e
Níveis carbonatadas
intercalados nos pelitos

2m
Níveis pelíticos com alguns
nódulos carbonatados dispersos

Fig. 3.6 – Pelitos com evaporitos e intercalações


carbonatadas. I- Afloramento nas Eirinhas onde
se evidencia uma unidade pelítica predominante
de cor avermelhada com níveis e camadas
carbonatadas (dolomitos primários) perto do
topo; o afloramento é coroado por uma bancada
de material piroclástico do Complexo vulcano-
sedimentar; II- Esquema do afloramento em I;
III- Aspecto bicolor (avermelhado e
esverdeado) dos pelitos no caminho Brazeira -
moinhos da Pena (martelo como escala).

No topo da unidade surgem níveis carbonatados de calcários e dolomitos com

espessuras variáveis, de camadas centimétricas a métricas (Figs. 3.6) (PALAIN, 1975;

ROCHA et al., 1979; MANUPPELLA, 1988; TERRINHA, 1998). A continuidade destas

36
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

bancadas carbonatadas em alguns locais, como na estrada Penina - Quinta do Freixo, é

interrompida por materiais vulcânicos do Complexo vulcano-sedimentar (ALMEIDA, 1985).

No caso das camadas mais espessas, estas são bancadas maciças de cor parda a cinzenta

(Fig. 3.7), enquanto as camadas menos espessas normalmente são argilosas de cor branca a

esverdeada e apresentam estruturas sedimentares, tais como laminações, intraclastos (Fig.

3.8), fendas de contracção e bioturbação (Fig. 3.9). Existem ainda nódulos carbonatados –

calcrete – a formar horizontes ou dispersos no seio dos materiais pelíticos (Fig. 3.10). As

bancadas de calcários e dolomitos do termo AB3 de PALAIN (1975), quando presentes e

visíveis, foram utilizadas como limites cartográficos para marcar o contacto entre a

unidade dos Pelitos com evaporitos e o Complexo vulcano-sedimentar (Fig. 3.6).

Fig. 3.7 – Aspecto de uma


bancada maciça de dolomitos do
termo AB3 de PALAIN (1975)
(vertente norte da RP; martelo
como escala).

Topo da camada
Secção da camada

I II

Fig. 3.8 (I e II) – Intraclastos em camadas centimétricas de dolomitos nos Pelitos com evaporitos e
intercalações carbonatadas (sopé da vertente sul da RP, perto das Eirinhas; moeda como escala).

37

III
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

I II

Fig. 3.9 – Estruturas sedimentares nas camadas


centimétricas de dolomitos intercalados nos Pelitos
com evaporitos e intercalações carbonatadas (sopé
da vertente sul da RP, perto das Eirinhas; moeda e
martelo como escalas). I e II- Bioturbação (no caso
de II a camada está parcialmente tingida de

III vermelho); III- Fendas de contracção.

I II

III IV

Fig. 3.10 – Nódulos carbonatados (calcrete) nos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas
(So: N85º,16ºSSO) (Eirinhas; lapiseira, moeda e martelo como escalas). I- Nódulos associados a camadas de
carbonatos no topo da unidade, formando horizontes; III- Nódulos no seio dos níveis pelíticos vermelhos;
III- Pormenor do aspecto exterior dos nódulos; IV- Pormenor do aspecto interior dos nódulos.

38
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Em Eirinhas, na vertente sul da RP, foi encontrado um nível carbonatado com

fragmentos remobilizados de argilitos e carbonatos e com nódulos circulares cinzento-

esverdeados claros, cuja cor original parece ser o cinzento-esverdeada clara sendo a cor

vermelha adquirida (Fig. 3.11); neste nível foi encontrado um fragmento ósseo que parece

pertencer a um estegocéfalo, segundo uma identificação preliminar gentilmente realizada

pelo Prof. JOÃO PAIS da Universidade Nova de Lisboa (Fig. 3.12).

Em relação aos evaporitos (Fig. 3.13), apenas foi encontrado gesso sob a forma

nodular e fibrosa nas Eirinhas, na base sul da RP, e sob a forma de fragmentos

brechificados, na Fonte Feita no alinhamento da falha E-O que atravessa a vertente sul da

RP.

Locais de boa observação: ao longo da base sul da RP, desde a Penina até à Pena;

no caminho na base oeste da RP paralelamente à estrada 1089.

Ar

Co

No

Ca

Fig. 3.11 – Nível carbonatado tingido


de cor vermelha com fragmentos de
argilitos (Ar), de carbonatos (Ca) e de
conchas (Co) e nódulos circulares
cinzentos claros (No) (vertente sul da
RP; moeda como escala).

39
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

2 cm 1,5 cm
I II

Fig. 3.12 – Fragmento ósseo de estegocéfalo(?) integrado num nível carbonatado com fragmentos de argilitos
e nódulos circulares cinzento claros (vertente sul da RP); I- Vista longitudinal; II- Vista transversal
(identificação gentilmente realizada por J. PAIS da Universidade Nova de Lisboa)

I II

III IV

Fig. 3.13 – Gesso dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas. I e II – Gesso nodular no seio de
pelitos vermelhos (no sopé da RP perto das Eirinhas; lapiseira e moeda como escalas); III- Gesso fibroso no
seio de pelitos vermelhos (no sopé da RP perto das Eirinhas); IV- Fragmento de gesso de aspecto brechóide,
provavelmente injectado na falha que limita a sul a RP.

40
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

A sedimentação terrígena fina e a progressiva intercalação de carbonatos

dolomíticos com faunas marinhas, a que se associam evaporitos, sugerem que esta unidade

tenha tido origem num contexto de subsidência progressiva da área deposicional com a

criação de lagoas salgadas margino-litorais ou supramareais de carácter efémero

(MANUPPELLA, 1988; AZERÊDO et al., 2003). Estas condições, associadas ao clima quente

e árido contemporâneo, indiciam ter sido desenvolvido um ambiente sedimentar tipo

Sabkha (TUCKER e WRIGHT, 1990; NICHOLS, 1999; SUGUIO, 2003).

Possivelmente, ocorriam sucessivos pulsos regressivos e transgressivos que podem

explicar a presença das fendas de contracção, nódulos de calcrete e intraclastos associados

aos níveis carbonatados. As fendas de contracção, no caso de serem resultantes de

dessecação, indiciam exposição subaérea (SUGUIO, 2003), o que é possível no contexto do

ambiente sedimentar existente, com pulsos regressivos, e num clima quente e seco. Porém,

estas fendas podem, também, corresponder a gretas de sinérese, formadas

subaquaticamente através de contracção por desidratação espontânea da argila (NICHOLS,

1999; SUGUIO, 2003), não necessitando assim de existir exposição subaérea. Os nódulos de

calcrete encontram-se associados a processos pedogénicos (NICHOLS, 1999),

provavelmente durante fases de regressão marinha – a dispersão dos nódulos de calcrete

indica a imaturidade da evolução do calcissolo; assim os níveis de calcrete que formam

horizontes correspondem a estádios mais avançados de desenvolvimento desses

paleossolos (NICHOLS, 1999). Os intraclastos podem ser explicados como sendo camadas

de carbonatos muito finas que acabaram por ser fragmentadas e remobilizadas: i) por

correntes de maré; ii) durante episódios transgressivos ou iii) originados durante a

dessecação e retracção de finas camadas de lamas carbonatadas, quando expostas ao clima

árido e quente vigente; estes clastos de carbonatos eram depois reintegrados em episódios

de sedimentação carbonatada seguintes. A variação de cores (avermelhadas e esverdeadas)

pode reflectir diferentes estados de oxidação do ferro, núcleos associados a reacções de

oxidação-redução de matéria orgânica ou diferentes tipos de minerais de argila. No caso

dos sedimentos terrígenos, a cor avermelhada deve-se às condições de oxidação do ferro

41
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

(NICHOLS, 1999), enquanto as tonalidades esverdeadas, nalguns casos, parecem

corresponder a manchas de oxidação-redução, podendo ainda estar associadas a ambientes

redutores (desprovidos de oxigénio).

A idade desta unidade é atribuída ao Triásico Superior - Hetangiano, contudo a

presença de estegocéfalos num nível próximo do topo da unidade levanta problemas nesta

datação, pois supostamente estes anfíbios deveriam estar extintos no Jurássico (MELENDEZ,

1986). Estes dados sugerem as seguintes interpretações alternativas: i) o fóssil encontrado

é remobilizado a partir de litologias dos Arenitos de Silves drenados de norte para sul de

acordo com as paleocorrentes locais, o que é possível, pois de facto existe a norte uma

faixa de Arenitos de Silves que no passado seria mais extensa; ii) o fóssil é contemporâneo

dos sedimentos e, neste caso, os Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas são

do Triásico ou iii) ainda existiam estegocéfalos na base do Jurássico Inferior.

c) Complexo vulcano-sedimentar (Hetangiano - Sinemuriano)

O Complexo vulcano-sedimentar corresponde a uma sequência formada por uma

alternância de piroclastos, tufos vulcânicos, brechas vulcânicas, escoadas de basaltos e

intrusões de doleritos (ROMARIZ et al., 1976, 1979; MARTINS, 1991; MANUPPELLA, 1988).

Na vertente este da RP existe um afloramento que retrata bem a sequência do Complexo na

área de estudo, cuja coluna estratigráfica se encontra representada na figura 3.14.

A sequência inicia-se com piroclastos remobilizados de granulometria fina, de

espessura variável, evidenciando em alguns afloramentos estratificação cruzada

interrompida por várias descontinuidades (Figs. 3.15 e 3.16). Estes vulcanoclastitos

apresentam diversas tonalidades (Fig. 3.16), encontrando-se localmente tingidos de

tonalidades avermelhadas, fazendo lembrar as litologias dos Arenitos de Silves. Além

disso, estes materiais vulcânicos, por vezes, encontram-se cimentados por carbonato de

cálcio.

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

?
6m
Material argiloso de cor vermelha (Fig. 3.26)

(3)
(4)
(3)
Escoada basáltica amígdalóide
12 m
(3) (4) Camadas centimétricas de material piroclástico grosseiro e vesicular (1 m de espessura) (Fig. 3.20 – II e III)
(3) Níveis argilosos de tonalidades amareladas (Fig. 3.20 – II)

0,2 m Nível argiloso de cor avermelhada rejeitado 50 cm por uma falha inversa N35º,58ºN; S0: N92º,30ºS (Fig. 3.25)

Escoada basáltica amígdalóide (vesículas preenchidas com CaCO3); com diáclases N34º e N70º;
8m
desligamento esquerdo N130º
(2) base da escoada de textura maciça, fina e pouco vesicular (Fig. 3.23)

(2)
Contacto com direcção N90º,30ºS
4m
Camada de material muito fino de cor avermelhada

Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica e de granolumetria


6m
variável; S0: N82º,30ºS (Fig. 3.20 – I)

3,2 m Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias

1,7 m Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica; S0: N85º,28ºS

9m Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias

0,25 m Tufos vulcânicos de grão fino bem estratificados


Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias (Fig. 3.17)
0,45 m Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica; S0: N88º,50ºS

(1)

25 m Brecha vulcânica com xenólitos de dimensão e litologias diversas – calcários, dolomitos,


argilitos e rochas ígneas –, os quais apresentam alguma ordenação
(1) intrusões, algumas das quais constituem diques com direcção N55º
(1)

Intrusão de dolerito muito fracturada e com disjunção esferoidal (Fig. 3.27)


9m
(1) (1) intrusões posteriores

4,5 m
Material piroclástico de grão fino, cor amarelada (Fig. 3.21)

1m Material piroclástico de grão fino, cor avermelhada, cimento carbonatado; S0: N85º,26ºS
?

Fig. 3.14 – Coluna litostratigráfica de um afloramento do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira


- moinhos da Pena).

43
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.15 – Sequência


métrica de material
piroclástico fino da base
do Complexo vulcano-
sedimentar com
estratificação cruzada e
vários níveis erosivos
(Fonte do Vale do
1m
Álamo).

I II

Fig. 3.16 – Diversos aspectos do material piroclástico da base


do Complexo vulcano-sedimentar (martelo e lapiseira como
escalas). I- Bancada de cor amarelada evidenciando
estratificação cruzada e superfícies de descontinuidade (Vale
do Álamo); II- Bancada de tonalidade branca ligeiramente
tingida (Eirinhas); III- Bancada tingida de vermelho,
parecendo-se, à vista desarmada, aos Arenitos de Silves
(Fonte do Vale do Álamo).
III

Aos materiais piroclásticos finos da base, seguem-se brechas vulcânicas, as quais

correspondem a rochas piroclásticas grosseiras que englobam xenólitos de dimensão

variável provenientes das unidades litológicas subjacentes e do próprio Complexo (Figs.

3.17 e 3.18) (ROMARIZ et al., 1976, 1979). Os xenólitos que compõem as brechas

apresentam-se afectados por metamorfismo de contacto, como é o caso dos carbonatos que

44
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

se encontram marmorizados (Fig. 3.19). Estas brechas, por vezes, estão associadas a fluxos

de material piroclástico, apresentando estratificação e granotriagem; noutros casos parecem

corresponder a chaminés de brecha (Figs. 3.17 e 3.18).

II III

Fig. 3.17 – Brecha vulcânica do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira - moinhos da Pena;
martelo e moeda como escalas). I- Aspecto de uma brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias
desde argilitos, carbonatos e fragmentos de materiais de outros episódios magmáticos, que denotam um
alinhamento preferencial (indicado pela seta branca) concordante com a estratificação das unidades sub e
suprajacentes; II- Pormenor da brecha vulcânica, destacando-se uma inclusão de argilito provavelmente dos
Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas subjacentes; III- Pormenor da brecha vulcânica,
evidenciando-se uma inclusão de material piroclástico de um episódio explosivo anterior.

45
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Xenólito de dolomito Xenólito da intrusão


Falha normal
do termo AB3 adjacente
(N116º,75ºN)

Brecha

Intrusão

1m
I II

Fig. 3.18 – Complexo vulcano-sedimentar, evidenciando uma chaminé de brecha a cortar uma intrusão.
(estrada 1089, entre a Penina e a Quinta do Freixo; martelo e lapiseira como escalas). I- Fotografia retratando
dois episódios magmáticos distintos que contactam por falha: uma intrusão magmática cortada por uma
chaminé vulcânica – brecha vulcânica com xenólitos de carbonatos, de argilitos e de material vulcânico de
episódios anteriores; II- Pormenor da brecha vulcânica, englobando diversos xenólitos incluindo fragmentos
da intrusão adjacente, o que permite inferir que a brecha é mais recente que a intrusão.

I II

Fig. 3. 19 – Pormenor de fragmentos de dolomitos do termo AB3 incluídos nas brechas explosivas (caminho
Brazieira - moinhos da Pena; moeda como escala). I- Xenólito marmorizado com uma auréola de alteração;
II- Xenólito marmorizado com zonações causadas por metamorfismo de contacto.

Associados às brechas vulcânicas, surgem tufos vulcânicos. Apresentam-se

normalmente bem estratificados e concordantes com a estratificação das unidades supra e

subjacentes, evidenciando granularidade variável – alguns são tufos de cinzas (cineritos),

outros constituem tufos de lapili de grão fino, médio ou mesmo grosseiro (Figs. 3.20 e

3.21) (ROMARIZ et al., 1976, 1979). A intercalar com as brechas e os tufos vulcânicos

46
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

existem escoadas de basaltos e intrusões de doleritos (Figs. 3.22, 3.23 e 3.24). As

primeiras, surgem normalmente intercaladas com as camadas piroclásticas; as segundas,

interrompem esses níveis estratificados. Contudo, em determinados afloramentos, ambas

apresentam vesículas de escape de gases geralmente preenchidas com precipitações

carbonatadas (Figs. 3.22 e 3.23). De notar, que no seio das escoadas e dos próprios tufos

vulcânicos identificam-se níveis mais argilosos de tonalidades e texturas diferentes dos

materiais infra e suprajacentes, os quais parecem marcar interrupções dos episódios

vulcânicos (Figs. 3.20 e 3.25). Estes níveis são mais frequentes perto do topo do

Complexo, que termina com um nível de argilas vermelhas (tufos vulcânicos argilosos?)

(MANUPPELLA, 1992a, b) (Fig. 3.26).

Es
Pr

Es

I II Ar

Fig. 3.20 – Piroclastos estratificados S0: N80º,30ºS)


(caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo e
moeda como escalas); I- Camadas centimétricas de
material piroclástico grosseiro; II- Camadas
centimétricas de material piroclástico (Pr) muito
grosseiro e muito vesiculado no seio de duas escoadas
(Es), destacando-se ainda a existência de um nível
III argiloso de tonalidade amarelada (Ar); III- Pormenor de
uma camada de material piroclástico muito grosseiro,
cujas vesículas se encontram preenchidas com calcite.

47
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.21 – Aspecto de material piroclástico fino de


cor amarelada com estratificação N80º,25ºS (caminho
Brazieira - moinhos da Pena; martelo como escala).

IA

IP
1m

Fig. 3.22 – Intrusões do Complexo vulcano-


sedimentar (estrada 1089, entre a Penina e a
Quinta do Freixo; moeda como escala). I-
Fotografia evidenciando dois episódios
magmáticos distintos retratados por uma
Am intrusão magmática (IP) no seio de uma
intrusão anterior (IA); II- Pormenor da
intrusão mais recente (IP), realçando-se
vesículas esféricas de escape de gases
II preenchidas com carbonato de cálcio (Am).

48
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Am

I II

Fig. 3.23 – Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo e moeda como
escalas). I- Escoada basáltica com algumas vesículas preenchidas com carbonato de cálcio – amígdalas
(S0: N90º,28ºS); II- Pormenor de uma amígdala fusiforme (Am) que indica o sentido do escape dos gases
para o topo da bancada.

Fig. 3. 24 – Aspecto de um fragmento de uma intrusão de dolerito do


Complexo vulcano-sedimentar, evidenciando uma textura entre o
gabro e o basalto e alguns cristais macroscópicos de olivina, de
piroxenas e de hornebleda (vertente norte da RP; martelo e moeda
como escalas).

Fig. 3.25 – Nível argiloso de cor avermelhada


de atitude N92º,30ºS, no seio de escoadas
basálticas amigdalóides, rejeitado 50 cm por
uma falha inversa N35º,58ºN (caminho
Brazieira - moinhos da Pena; martelo como
escala).

49
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.26 – Transição entre material


piroclástico grosseiro, à direita, e
argilas vermelhas, à esquerda, as quais
marcam o topo do Complexo vulcano-
sedimentar (caminho Brazeira -
moinhos da Pena; martelo como
escala).

De um modo geral, as rochas que compõem todo o Complexo apresentam um

elevado grau de alteração (Fig. 3.27), o que dificulta a determinação das relações

estratigráficas e a observação mais pormenorizada das suas litologias.

Locais de boa observação: na vertente sul – no Vale do Álamo; na Fonte do Vale do

Álamo e na E.N. 124 entre a Beirada e a Pena; na vertente norte – no caminho que

atravessa a vertente norte e que liga os moinhos da Pena à Quinta do Freixo; na vertente

este – no caminho que liga os moinhos da RP à povoação da Brazeira, e na vertente oeste –

na estrada 1089 (Penina - Quinta do Freixo).

I II

Fig. 3.27 – Aspecto de alteração de uma intrusão de dolerito (caminho Brazieira - moinhos da Pena; martelo
como escala). I- Intrusão de dolerito com o aspecto típico de grande fracturação, evidenciando-se a acção das
raízes das plantas no processo de alteração; I- Disjunção esferoidal – casca-de-cebola.

50
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

O Complexo vulcano-sedimentar corresponde à primeira fase de riftogénese

ocorrida no Mesozóico (MARTINS, 1991), que conduziu à abertura do oceano Atlântico na

actual fachada ocidental e de um braço do mar de Tétis na fachada meridional (TERRINHA

et al., 2000a; LOPES, 2002). Os materiais que compõem o Complexo foram originados por

um magmatismo continental de tipo fissural e de carácter toleítico (MANUPPELLA, 1988;

MARTINS, 1991) que se desenvolveu ao longo do sistema de falhas desenvolvido na

sequência desse processo riftogénico. De um modo geral, o vulcanismo terá sido

relativamente explosivo dado que há predomínio de materiais piroclásticos (brechas e tufos

vulcânicos). Porém, estes episódios explosivos foram intercalados com episódios efusivos

traduzidos por escoadas basálticas, encontrando-se também rochas hipabissais

representadas por intrusões de doleritos. De realçar, que algumas brechas vulcânicas

podem ser interpretadas como partes de chaminés vulcânicas (ROMARIZ et al., 1979;

ALMEIDA, 1985), enquanto outras, como fluxos de lavas viscosas englobando piroclastos e

xenólitos que escoavam ao longo das vertentes dos centros vulcânicos, evidenciado pelo

alinhamento e ordenamento dos seus constituintes. Os materiais piroclásticos na base da

unidade parecem ter sido remobilizados e transportados por um fluxo, aquático ou eólico, e

a sua espessura variável pode ser explicada: i) com a distância aos centros vulcânicos;

ii) como resultado de centros vulcânicos com uma evolução distinta de centros vizinhos, ou

iii) relacionado com paleorrelevos.

A presença de níveis argilosos intercalados no Complexo sugere interrupções dos

episódios vulcânicos, ocorrendo nesses períodos deposição de materiais pelíticos em meio

aquático. Porém, essas descontinuidades podem corresponder a horizontes de paleossolos,

implicando que os terrenos estivessem emersos para a evolução de processos pedogénicos.

Nesse último caso, infere-se que o vulcanismo ocorria em condições subaéreas ou que o

vulcanismo era subaquático e esses processos pedogénicos desenvolviam-se durante

períodos de emersão como resultado de regressões ou da elevação dos terrenos. O topo do

Complexo é marcado pela presença de uma camada argilosa de cor vermelha, cuja origem

pode estar relacionada com a alteração meteórica de material piroclástico fino associada a

51
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

processos pedogénicos. No caso desta camada argilosa constituir um paleossolo,

provavelmente retomado por processos actuais, regista-se uma desconformidade entre o

Complexo vulcano-sedimentar e a Formação de Picavessa. A presença das argilas

vermelhas no topo, provavelmente associadas a processos pedogénicos ainda no

Sinemuriano, o facto de os níveis argilosos (interrupções da actividade vulcânica(?))

referidos se tornarem mais frequentes perto do topo e considerando estes níveis associados

a processos pedogénicos, sugere-se a ocorrência de uma emersão polifásica antes da

grande transgressão no Sinemuriano que conduziu à instalação da plataforma marinha

carbonatada que marca esse período. Deste modo, apesar das elevadas taxas de subsidência

que se postula para a Bacia Algarvia a partir do Triásico Superior e do movimento

transgressivo que marca o Sinemuriano (MANUPPELLA, 1988; TERRINHA, 1998), podem ter

acontecido curtos períodos de emersão, tal como supostamente ocorria durante a formação

dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Triásico Superior - Hetangiano).

De realçar que seria importante confirmar as ideias apresentadas, sendo necessário outras

observações para estabelecer a correspondência dos níveis argilosos com paleossolos.

d) Formação de Picavessa (Sinemuriano)

A Formação de Picavessa encontra-se representada por calcários, calcários

dolomíticos e dolomitos, observando-se, localmente, uma brecha dolomítica na base que

pode passar a conglomerado dolomítico (MANUPPELLA, 1988; MANUPPELLA, 1992b;

AZERÊDO et al., 2003). Esta unidade dolomítica constitui quase todos os relevos

mesozóicos situados a norte da ribeira do Algibre, assumindo deste modo uma grande

importância, principalmente no Algarve Central, pela extensão e pelo papel na morfologia

do Barrocal Algarvio.

Na área de estudo, esta formação surge apenas a coroar os relevos do sector do

Barrocal Algarvio, onde se inclui a RP, sendo constituída, em termos litológicos, por

dolomitos e calcários dolomíticos sacaróides rosados ou brancos, brechas dolomíticas,

calcários oolíticos brancos, calcários pisolíticos e calcários compactos brancos, cinzentos e

rosados com macrofósseis de corais, gastrópodes e outros (Figs. 3.28, 3.29 e 3.30).

52
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Algumas destas litologias foram observadas in situ; outras, apenas foram encontradas sob a

forma de fragmentos nos depósitos de vertente da RP e nas brechas cársicas que

preenchem o carso.

I II

Fig. 3.28 – Algumas litologias de Formação de Picavessa (topo da RP; moeda como escala). I- Calcário
dolomítico(?) de tonalidades rosadas; II- Dolomito sacaróide muito poroso de cor rosada.

I II
Fig. 3.29 – Pormenores das litologias da
Formação de Picavessa. I- Calcário pisolítico
(perto do topo da RP no caminho pedestre na
vertente sul); II- Fragmento de calcário
oolítico, encontrado nos depósitos de vertente
(vertente norte da RP); III- Laminações,
provavelmente originadas por microalgas
(perto do topo da RP no caminho pedestre na
vertente sul).
III

53
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Es

Pi II

Fig. 3.30 – Pormenores das litologias da


Formação de Picavessa (moeda como
Ga escalas). I- Calcário com pisólitos (Pi) e
fragmentos de gastrópodes (Ga),
evidenciando-se um estilólito (Es) a
I
atravessar a amostra (topo da RP); II-
Calcário bioclástico (caminho pedestre na
vertente oeste da RP).

Algumas bancadas carbonatadas apresentam-se brechificadas e as suas fracturas

encontram-se preenchidas com terra rossa (Fig. 3.31). As litologias, aqui denominadas

brechas dolomíticas (Fig. 3.32) estão representadas por materiais que parecem encontrar-se

in situ. O seu aspecto brechóide deve-se aos clastos angulosos a subangulosos na sua

maioria de cor clara – rosada, beje ou branca – os quais encontram-se suportados por uma

matriz de tonalidade rosada. Estas brechas apresentam um aspecto sacaróide. Através de

algumas análises químicas da Formação de Picavessa realizadas por CRISPIM (1982),

infere-se que a dolomitização da unidade parece irregular, sendo em muitos casos

incipiente, parecendo não existir dolomitos s.s. e havendo uma preponderância dos

calcários, que ocupam uma extensão muito maior do que os dolomitos cálcicos. As

bancadas de calcários compactos apresentam frequentemente estilólitos paralelos à

estratificação e mais raramente estilólitos tectónicos perpendiculares à estratificação (Fig.

3.33).

Locais de boa observação: escarpas da RP e afloramentos dispersos no topo da RP.

54
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.31 – Aspecto brechóide de uma


bancada carbonatada in situ com
estratificação N55º,18ºNO (sector central da
RP junto à escarpa sul; martelo como
escala).

I II

Fig. 3.32 – Brecha dolomítica (150 m a leste do Vértice Geodésico; martelo e moeda como escalas).
I- Aspecto da brecha com pátina de oxidação a mascarar um pouco o aspecto brechóide. II- Pormenor da
brecha dolomítica de textura sacaróide com clastos subangulosos a muito angulosos.

I II

Fig. 3.33 – Estilólitos (perto do topo da RP no caminho pedestre na vertente sul; martelo e moeda como
escalas). I- Estilólitos litostáticos paralelos à estratificação (S0: N90º,20ºN); II- Estilólitos tectónicos
perpendiculares à estratificação (S0: N90º,20ºN).

55
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

As rochas que constituem a Formação de Picavessa foram formadas numa

plataforma marinha carbonatada cuja profundidade estaria a aumentar progressivamente,

dado que nessa altura houve uma forte subsidência (Manuppella, 1988; Terrinha, 1998),

que terá promovido uma transgressão. Segundo Manuppella (1992d), os primeiros

sedimentos depositados naquela plataforma são dolomitos penecontemporâneos e as rochas

que se sobrepõem apresentam dolomitização em geral secundária e precose, no entanto em

zonas de fractura a dolomitização é tardia e originou importantes variações laterais. As

litologias e os fósseis encontrados indicam ambientes sedimentares de baixas

profundidades – por exemplo, os oóides (<2 mm) e os pisólitos (>2 mm) são originados

por precipitação química em ambiente de elevada energia e pequena profundidade com

águas quentes saturadas em carbonato de cálcio (Tucker e Wright, 1990). Neste processo,

as bactérias podem desempenhar um papel importante, especialmente em ambientes menos

agitados (Nichols, 1999). Algumas das litologias encontradas nos depósitos de vertente e

nas brechas cársicas, como referido, não foram observadas in situ, sugerindo que as fontes

responsáveis por esses elementos ou foram totalmente desmanteladas ou situam-se noutra

região, verosimilmente a sul, pois de facto, abaixo da Formação de Picavessa, apenas se

conhecem as camadas de carbonatos do termo AB3 de Palain (1975), os quais têm

características diferentes (Almeida, 1985). As brechas dolomíticas encontradas levantam

alguns problemas de interpretação, pois a sua origem não é clara, podendo ser interpretadas

como: i) associadas a fenómenos de brechificação in situ penecontemporânea através da

formação de intraclastos calcários ou dolomíticos originados por dessecação, por correntes

de maré ou pela energia das ondas e retomados em processos de sedimentação posteriores;

ii) ligadas a fenómenos de carsificação que originaram cavidades as quais foram

preenchidas por clastos carbonatados, depois litificados, ou iii) associadas a fenómenos de

dolomitização ou até desdolimitização causadores de variações de volume que

promoveram a fracturação e consequente formação dos clastos, os quais acabaram por

litificar; em qualquer das hipóteses apresentadas, toda a brecha parece ter sofrido pelo

menos uma dolomitização. A estratigrafia e a espessura da Formação de Picavessa na RP

56
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

não são conhecidas, porém a abundância de estilólitos paralelos à estratificação sugere que

a espessura original da unidade foi relativamente elevada, dado que para serem produzidas

aquelas superfícies de dissolução foram necessárias pressões litostáticas elevadas, tensões

essas, apenas conseguidas através de camadas suprajacentes de espessura considerável

(NICHOLS, 1999; JAMICIC, 2002).

3.1.3. Plio-Quaternário

a) Cascalheiras e areias (Plio-Plistocénico)

As Cascalheiras e areias, que segundo MANUPPELLA, 1992a,b correspondem às

Cascalheiras e areias de Faro-Quarteira, constituem uma vasta cobertura na região algarvia,

encontram-se assentes sobre a maioria dos terrenos mais antigos e são constituídos por

areias de grão médio a fino, argilas e cascalheiras com seixos rolados de quartzo, quartzito,

grauvaque e xisto, podendo possuir também blocos de Arenitos de Silves (Fig. 3.34). Em

alguns afloramentos, normalmente nas barreiras dos caminhos que atravessam a unidade, é

possível observar os paleocanais (Fig. 3.35) e até determinar as paleocorrentes (de O para

E), através do imbricamento evidenciado pelos seixos suportados por uma matriz argilo-

arenítica (Fig. 3.36). Em alguns locais encontram-se incluídos na unidade nódulos,

provavelmente provenientes da Formação de Mira, em que no seu interior possivelmente

existiam restos de fósseis de goniatites, contudo estes terão sido alterados, impedindo

assim a sua identificação (Fig. 3.37).

Locais de boa observação: ao longo do caminho Tameira - Casa Branca, no sector

nordeste da área de estudo.

57
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.34 – Aspecto das cascalheiras e areias


de aluviões plio-plistocénicos, destacando-se
a sua composição em areias, seixos e blocos
de quartzo, quartzito, grauvaque, xisto e
Arenitos de Silves rolados e pouco rolados de
dimensão variável (estrada Tameira - Casa
Branca; martelo como escala).

NE SO

1m

Fig. 3.35 – Afloramento das cascalheiras e areias de aluviões plio-plistocénicos onde é possível observar
paleocanais e figuras erosivas de canal (estrada Tameira - Casa Branca).

O E

Fig. 3.36 – Cascalheiras plio-


plistocénicas cuja imbricação dos seixos
indica uma paleocorrente para leste
(indicada pela seta amarela) (estrada
Tameira - Casa Branca; martelo como
escala).

58
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

I II

Fig. 3.37 – Nódulos, provavelmente provenientes


da Formação e Mira, incluídos nos aluviões plio-
plistocénicos (estrada Tameira - Casa Branca;
moeda como escala). I- Aspecto exterior dos
nódulos; II e III- Pormenor do interior de alguns
nódulos, os quais podiam conter restos de
III
organismos, provavelmente goniatites; no caso de
(III) realça-se a existência de uma estrutura
septária.

Estes sedimentos estão associados a um antigo regime fluvial provavelmente desenvolvido

a partir do Pliocénico Superior e que se prolongou pelo Plistocénico na fase de

rejuvenescimento da rede hidrográfica devido à variação do nível de base provocada pelo

levantamento da Serra (CABRAL, 1995; DIAS, 2001). Durante o Pliocénico e o Plistocénico

Inferior o clima, no Algarve, foi favorável ao transporte de grandes quantidades de carga

sólida pela rede fluvial, pois esse intervalo de tempo foi globalmente húmido, apesar de o

Pliocénico ter sido geralmente mais quente do que o Plistocénico Inferior (MOURA, 2001;

MOURA et al., 2006). Contudo, a presença de materiais grosseiros e heterogéneos sugere

afluxos de material em regime torrencial, sendo compatível com o clima árido e com as

chuvas torrenciais concentradas temporalmente que terão ocorrido na passagem ao

Plistocénico Superior (MOURA, 2001; MOURA et al., 2006).

59
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

b) Brechas cársicas e terra rossa (Quaternário)

As brechas cársicas (Fig. 3.38) e a terra rossa (Fig. 3.39), materiais não

individualizados nem incluídos na cartografia geológica realizada, correspondem a

depósitos desenvolvidos na dependência e no interior da Formação de Picavessa, estando

relacionadas com as estruturas cársicas desenvolvidas na RP. No que respeita à terra rossa,

esta trata-se de um depósito argiloso de cor vermelha que preenche as cavidades cársicas e

onde se encontraram algumas concreções de óxidos de ferro (Fig. 3.39). As brechas

cársicas são constituídas por fragmentos calcários e dolomíticos de origem e dimensão

diversas, aglutinados por um cimento carbonatado por vezes rico em terra rossa. As

brechas preenchem impreterivelmente as fracturas. Numa cavidade artificial com cerca de

5 metros de desenvolvimento horizontal e perpendicular à escarpa sul, verifica-se em toda

a sua extensão uma brecha cársica de cimento carbonatado com alguma terra rossa (Fig.

3.38), indicando que a escarpa nesse local é largamente desenvolvida em brecha cársica.

Pelo pouco conhecimento existente sobre as brechas cársicas algarvias e em

especial na RP e pelo facto de existirem indícios de a RP ter sido habitada em tempos pré-

históricos seria importante e interessante, em termos geológicos e histórico-culturais,

efectuar um estudo pormenorizado nesses depósitos. Por exemplo, uma investigação

realizada num preenchimento cársico na Goldra (a SE de Loulé) revelou uma brecha

ossífera com restos de macromamíferos, provavelmente utlilizados na alimentação

humana, indústrias atípicas compatíveis com tipologias do Paleolítico Médio ao

Epipaleolítico e microfauna que sugere a idade interglaciar Riss-Würm ou um dos

primeiros interestádios do Würm (ANTUNES et al., 1986).

Locais de boa observação: Brechas cársicas – nas escarpas da RP, principalmente no sector

oeste da escarpa sul e nos relevos calcários no sector sul da área de estudo; Terra rossa –

topo da RP a preencher as cavidades cársicas.

60
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

I II

III IV

Fig. 3.38 – Brechas cársicas na RP associadas à


Formação de Picavessa (martelo, moeda e
esferográfica como escalas). I e II- Aspecto de
brechas cársicas que preenchem o carso e que se
encontram expostas na escarpa sul da RP;
III e IV- Pormenores de brechas cársicas que
constituem a escarpa sul da RP no interior de
uma cavidade artificial com cerca de 5 m de
desenvolvimento horizontal; V- Aspecto da
V brecha cársica na escarpa norte da RP.

61
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Co

Fig. 3.39 – Terra rossa com concreções


de óxidos de ferro (Co) (no caminho
pedestre no topo da RP, perto do Algar
da Caldeirinha; moeda como escala).

As brechas cársicas e a terra rossa são depósitos cuja origem relaciona-se com o

desenvolvimento de fenómenos cársicos. As brechas cársicas estão associadas ao

abatimento e preenchimento de cavidades e fracturas, enquanto a terra rossa é um solo

residual resultante da acumulação das impurezas contidas nas formações carbonatadas que

sofreram dissolução. De realçar, que a carsificação apenas pode ocorrer em condições

subaéreas, sendo mais intensa durante os períodos de clima húmido, pelo que estas

condições tiverem de se reunir ao longo da história geológica da RP, pois toda ela

corresponde a um relevo cársico, cuja estratigrafia da Formação de Picavessa se complica,

por um lado, devido à estrutura; por outro, devido à geomorfologia muito condicionada por

um carso bem desenvolvido. Em alguns locais nas vertentes da RP encontram-se blocos de

massas rochosas brechóides que parecem corresponder a blocos de brechas cársicas

residuais destacados das escarpas da RP devido ao recuo destas (Fig. 3.40). De realçar que

algumas zonas da RP são constituídas exclusivamente por brechas, o que é testemunhado

sobretudo ao longo do sector oeste da escarpa sul (Fig. 3.38).

62
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Es

Br

Dv

2m
I

D1 Fig. 3.40 – Vertente norte da RP. I- Fotografia


evidenciando um bloco de brecha cársica (Br)
destacado da escarpa (Es) e depósitos de vertente
(Dv) na base da escarpa. II- Pormenor do bloco
destacado de brecha cársica, realçando-se uma
fractura (D1: N148º,90º) subparalela à escarpa
II
possivelmente associada a distensão gravítica.

c) Depósitos de vertente (Quaternário)

Os depósitos de vertente são constituídos por concentrações caóticas de blocos e

calhaus angulosos (Fig. 3.41) de litologias carbonatadas de fácies variadas (calcários

oolíticos, micríticos e recifais, dolomitos sacaróides, entre outros). Encontram-se por vezes

misturados com terra rossa e com o rególito (Fig. 3.42), podendo também ser constituídos

por clastos das outras unidades litostratigráficas existentes na área (Fig. 3.43). Estes

depósitos cobrem as encostas e o sopé dos relevos carbonatados, em geral,

impossibilitando a observação dos contactos geológicos das diferentes unidades

litostratigráficas. Comummente, as cascalheiras apresentam-se como depósitos não

consolidados.

Locais de boa observação: sectores este das vertentes sul e norte da RP.

63
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

E O

1m

II III

Fig. 3.41 – Depósitos de vertente na vertente norte da RP. I- Depósitos de vertente no sector este da vertente
norte; II e III- Pormenor dos depósitos de vertente na escarpa norte, observando-se uma concentração caótica
e uma elevada heterogeneidade dos calhaus e blocos de calcários e dolomitos provenientes da escarpa.

Fig. 3.42 – Depósitos de vertente com clastos


de carbonato de dimensão variada com uma
matriz argilosa (rególito e terra rossa) na
vertente oeste da RP (martelo como escala).

64
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.43 – Depósitos de vertente (DV)


DV com clastos de diversas litologias,
incluindo fragmentos de rochas
vulcânicas piroclásticas, a coroar um
afloramento dos Pelitos com evaporitos
P e intercalações carbonatadas (P)
(S0: N77º,20ºS), a norte da aldeia
Penina.

Os depósitos de vertente estão associados à evolução recente das escarpas e das

vertentes dos relevos carbonatados. A sua génese está essencialmente associada ao

abatimento de cavidades cársicas e ao colapso de blocos das escarpas condicionados pelas

diáclases desenvolvidas nas rochas carbonatadas que constituem a Formação de Picavessa.

d) Aluvião (Holocénico)

Os aluviões actuais são constituídos por areias e argilas e apresentam alguns leitos

conglomeráticos intercalados de calhaus de quartzo, quartzito, grauvaque, arglititos e

Arenitos de Silves. Estes sedimentos cobrem os vales que marcam os contactos geológicos

entre os Arenitos de Silves, os Pelitos com evaporitos e o Complexo vulcano-sedimentar,

ocultando-os, dificultando a cartografia dessas unidades.

Locais de boa observação: ao longo das linhas de água que rodeiam a RP.

Os aluviões actuais encontram-se em cotas abaixo das areias e cascalheiras plio-

plistocénicas e as linhas de água que lhes dão origem dissecam esses materiais fluviais

antigos. As actuais linhas de água são pouco caudolosas e possuem diminuta capacidade

erosiva e de transporte. Encontram-se numa fase de colmatação, resultante quer da actual

subida do nível médio das águas do mar quer da fraca pluviosidade que se faz sentir no

clima actual caracterizado por precipitações com acentuada sazonalidade (MOURA, 2001;

MOURA et al., 2006).

65
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

3.1.4. Lacunas estratigráficas


Na área de estudo, para além da lacuna estratigráfica entre a base do Pensilvaniense

e o Triásico Superior, relacionada com a elevação e consequente aplanamento da Cadeia

Varisca nesse período, existe outra grande lacuna estratigráfica entre o Jurássico Inferior e,

pelo menos, o Pliocénico. A sedimentação marinha carbonatada, na área de estudo, ocorreu

provavelmente até ao final do Jurássico, apenas interrompida por curtos episódios de

compressão tectónica ocorridos entre o Jurássico Inferior e o Cretácico (TERRINHA, 1998;

TERRINHA et al., 2000b). Durante esses períodos, se ocorreu uma emersão das unidades

carbonatadas, estas terão sofrido carsificação. Contudo, é no final do Jurássico Superior

que ter-se-á dado a emersão definitiva dos terrenos, pois a partir do Kimeridgiano Superior

e em toda a Bacia Algarvia estão registadas séries marinhas carbonatadas francamente

regressivas (MANUPPELLA et al., 1988; MANUPPELLA, 1992c) e, segundo a reconstrução

paleogeográfica para o Cretácico Inferior, realizada por Correia (1989), o mar esteve

sempre ausente da área de estudo. Deste modo, a partir do final do Jurássico,

provavelmente desenvolveram-se fenómenos de erosão subaérea e a sedimentação, quando

ocorreu, foi exclusivamente de domínio continental. A partir do Cretácico Superior e no

Paleogénico fizeram-se sentir importantes movimentos tectónicos compressivos,

responsáveis pelo desenvolvimento de uma vasta superfície de erosão subaérea (DIAS,

2001; TERRINHA et al., 2000a), devidos à movimentação anti-horária para NE da África em

relação à Ibéria (TERRINHA, 1998; TERRINHA et al., 2000b). Após esta inversão tectónica

polifásica, ocorreu no Miocénico uma nova transgressão marinha bastante extensa, tendo-

se instalado uma plataforma carbonatada temperada onde teve origem a Formação de

Lagos-Portimão (MANUPPELLA, 1988; ANTUNES e PAIS, 1992; PAIS et al., 2000). Porém,

essa plataforma não deve ter atingido a área de estudo (KULLBERG et al., 1992). A partir do

Pliocénico predominaram os ambientes sedimentares clásticos em domínio continental

(MOURA et al., 1998). De facto, na área de estudo, a partir do Jurássico Superior a

sedimentação, quando ocorreu, foi sempre em domínio continental e associada a variações

climáticas, do nível de base da rede fluvial, geomorfológicas ou ao desenvolvido de

processos de erosão subaérea.

66
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

3.2. Estrutura e tectónica

De modo a reunir informações relativas à estrutura e à tectónica da RP foi realizada

cartografia geológica (Apêndice II) e análise da fracturação em alguns afloramentos

seleccionados, cuja localização e os dados se encontram mais à frente ilustrados.

No que respeita à estratificação (Tabela 3.1, Fig. 3.44 e Apêndice II), as rochas que

constituem a Formação de Mira encontram-se bem estratificados, contudo a atitude da

estratificação é bastante variável, pois a formação encontra-se tectonizada. No caso das

formações mesozóicas, estas encontram-se, de um modo geral, basculadas para sul (OSO a

SE), com ângulos de inclinação variáveis (10º a 50º) e com direcções que variam entre os

N45º e os N154º, como sintetizado na tabela 3.1. Porém, na RP a estrutura complica-se

pois as camadas da Formação de Picavessa estão basculadas para norte, com uma

inclinação entre os 7º e os 41º e com uma direcção que varia entre os N25º e os N104º

(Tabela 3.1). De destacar, que as medições efectuadas na Formação de Picavessa foram

realizadas sobretudo nas rochas calcárias, dado que nas rochas dolomíticas foi muito difícil

determinar os planos de estratificação, bem como a observação de outros critérios que

permitam inferir sobre a natureza da estratificação das camadas.

Tabela 3.1 – Quadro síntese da estratificação evidenciada pelas unidades litostratigráficas da RP.

Unidade litostratigráfica Estratificação

Formação de Mira Bem visível e muito variável, afectada por estruturas tectónicas.
Direcção: N73º a N154º
Arenitos de Silves
Inclinação: 14º a 50º para SSE a OSO
Pelitos com evaporitos e Direcção: N92º a N116º
intercalações carbonatadas Inclinação: 20º a 42º para S a SSO
Direcção: N45º a N116º
Complexo vulcano-sedimentar
Inclinação: 10º a 42º para SE a SSO
Na RP:
Direcção: N25º a N104º
Inclinação: 7º a 41º para NNE a ONO
Formação de Picavessa
Na restante área de estudo (apenas uma medição):
Direcção: N108º
Inclinação: 12º para SSO

67
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Com base na cartografia geológica realizada, foi possível, elaborar dois cortes

geológicos interpretativos (Fig. 3.44) que permitiram compreender melhor a estrutura da

RP.

Mapa Geológico da RP e da área envolvente


I N
XG
Cas

Cas
?
AS
Cas

AL
28
GS 28
AS
Cas
Cas
Cas
Cas Cas Cas XG
? 26
Cas 18
Cas

CVS PV
15 AL
PV Cas PV
Cas 50 CVS PV ?
CVS
AS PV
AL

30
? CVS
XG
PV
20 45
CVS
?
AS
23
Quinta do? CVS 70 32

51
Freixo CVS
35
? PV
BICA
AL 42
? DV
48

DV
25 383
17
PV 33
25
CVS DV CVS
62
DV
CVS

15 41
37
12 Cal 40
DV
22 33
50
20 37
22 17
20 16 30
20
Cal
DV ROCHA
07
DA PENA 479
30 35
18
58
CVS 20
PENA
Int
? DV Int
Int
DV
Gesso
374
23 DV DV 16
25 DV
20 56
CVS
Int
22

14
CVS
10 Gesso
66
DV
Rocha da
CVS DV
Penina 18 25 18
20 16 Pena DV 22 27

70 DV
30 20
33 AS
DV CVS DV
24 PV

18 30
20 48
15 30
Int 14
12 30
17 CVS 19
26
16
27 PV 34
Cal 24
Cas Cas
Cas Cas
ArgV 30
AL
Cal

0 500 m CVS

Pena
ArgV
Cal

1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- 11-
12- 13- 14- 15- 16- 17- 18- 19- 28 20- 21- 22-

1- Aluvião (Quaternário); 2- Depósitos de vertente (Quaternário); 3- Cascalheiras e areias (Plio-Quaternário); 4- Formação de Picavessa
(Sinemuriano); 5- Argilas vermelhas do Complexo vulcano-sedimentar (Sinemuriano); 6- Complexo vulcano-sedimentar (Hetangiano-
Sinemuriano); 7- Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Retiano-Hetangiano); 8- Arenitos de Silves (Retiano);
9- Formação de Mira (Namuriano); 10- Gesso; 11- Intrusão básica; 12- Limite geológico; 13- Falha; 14- Falha normal; 15- Falha inversa;
16- Desligamento; 17- Falha provável; 18- Falha oculta; 19- Atitude da camada (direcção e inclinação); 20- Vértice Geodésico e ponto
cotado; 21- Moinho; 22- Povoação; As linhas com orientação N-S de cores azul e verde correspondem aos cortes geológicos que se
apresentam a seguir.

II Corte geológico de direcção N-S no sector este da RP

N S
500 500

400 400

300 300

200 200

100 100

0 0

-100 -100

-200 -200
0 500 1000 1500 2000 2500 3000
Distância (m)

Fig. 3.44 – (continua na página seguinte)

68
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Corte geológico de direcção N-S no sector oeste da RP


III
N S
500 500

400 400

300 300

200 200

100 100

0 0

-100 -100

-200 -200
0 500 1000 1500 2000 2500 3000
Distância (m)

Formação de Picavessa Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

Argilas vermelhas do topo do Complexo vulcano-sedimentar Arenitos de Silves

Complexo vulcano-sedimentar Formação de Mira Intrusão básica

Fig. 3.44 – Estrutura da RP. I- Mapa geológico com a localização dos cortes geológicos (cartografia do autor
e adaptada de MANUPPELLA, 1992b; base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal à escala
1/25.000 do IGEO); II- Corte geológico de direcção N-S realizado no sector este da RP; III- Corte geológico
de direcção N-S realizado no sector oeste da RP.

De notar que nalgumas das falhas de direcção E-O, como representado na figura

3.44., encontram-se intrusões de rochas básicas de idade indeterminada, tendo-se

encontrado, ainda, gesso brechóide perto da Fonte Feita (Fig. 3.13 – IV), no alinhamento

da falha E-O que atravessa a vertente sul da RP. Esse gesso sugere encontrar-se injectado

na falha referida, o que pode ter acontecido durante os movimentos halocinéticos ocorridos

no Miocénico Médio (RIBEIRO et al., 1979; MANUPPELLA, 1988; KULLBERG et al., 1992),

tendo depois funcionado como lubrificante durante as movimentações ocorridas nessa

falha.

A partir da observação dos cortes rejeita-se desde já a hipótese de a RP constituir

um sinclinal amplo como referido por FEIO (1952) e reiterado noutros trabalhos, como em

Almeida (1985), Feio (1992) e Tomé (1996), pois a estrutura corresponde a um anticlinal

com eixo E-O recortado e deslocado por falhas. Verifica-se ainda que a orientação das

escarpas norte e sul da RP é controlada pelas falhas de direcção E-O que as limitam. Essas

falhas apresentam rejeitos bastante significativos, nomeadamente a falha E-O na vertente

sul no sector oriental, que rejeita mais de 300 m as unidades litostratigráficas, colocando,

69
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

no extremo leste da RP, a Formação de Mira (Carbonífero) a contactar com a Formação de

Picavessa (Jurássico Inferior). Note-se também que na vertente norte da RP, o contacto das

formações mesozóicas com o soco Paleozóico não se faz por falha, ao contrário do que é

sugerido por FEIO (1952) e evidenciado na figura 2.10.

De destacar que os cortes geológicos esquemáticos elaborados, para além de

retratarem de forma bastante satisfatória as observações de campo realizadas, também são

compatíveis com observações de outros autores, como é o caso da circulação subterrânea

de água na RP (Fig. 2.11) apresentada por ALMEIDA (1985), que identifica nascentes na

vertente norte no contacto entre as formações carbonatadas da Formação de Picavessa e o

Complexo vulcano-sedimentar, ou seja, no lado para onde inclinam as camadas da

Formação de Picavessa. Através dos cortes, observa-se também um ligeiro aumento de

espessura dos Arenitos de Silves e dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

de oriente para ocidente, facto concordante com as observações de PALAIN (1975), que

aponta um aumento de espessura no mesmo sentido entre a RP e S. Bartolomeu de

Messines, onde parece ter existido um depocentro triásico relacionado com a Falha de S.

Marcos - Quarteira, cuja movimentação foi esquematizada por TERRINHA (1998) (Fig.

3.45).

Nível de base da bacia


do Triásico

Topo do soco
Paleozóico
Cavalgamento varisco

Falha de S. Marcos - Quarteira Colapso pós-orogénico /


/ Extensão triásica

Fig. 3.45 – Modelo conceptual para o comportamento da Falha de São Marcos - Quarteira em S. Bartolomeu

de Messines para explicar a variação de espessura das unidades triásicas e infra-liásicas (adaptado de

TERRINHA, 1998).

70
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Em relação às características principais do estilo tectónico da Formação de Mira

encontraram-se: i) dobramentos vergentes para SO com um flanco normal longo e com o

flanco inverso curto, normalmente recortado e deslocado por falhas inversas (Fig. 3.46) e

ii) uma clivagem tectónica moderada (Fig. 3.47). As estruturas tectónicas encontradas são

compatíveis com a deformação descrita para a ZSP noutras áreas (OLIVEIRA, 1992b; SILVA

et al., 1992). A unidade contacta com as formações mesozóicas por discordância angular

ou por contacto tectónico (MANUPPELLA et al., 1992a, b).

S N

1m
I

Falha: N45º,81ºS
S N
Falha: N43º ,90º
Falha: N68º ,90º

Falha: N37º,80ºN

S1: N72º,80ºS 1m
II 25 m
Fig. 3.46 – Afloramento da Formação de Mira com camadas em posição normal, evidenciando um

dobramento vergente para SO recortado e deslocado por falhas inversas e com clivagem tectónica moderada

associada (S1) (na barreira esquerda da estrada 503, entre a Brazieira e a Tameira, no sentido sul-norte).

I- Fotografia do afloramento; II- Esquematização do afloramento.

71
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

S0

S1 S0
S0

Cv
S1

S1

10 cm
II III

Fig. 3.47 – Afloramento da Formação de Mira com camadas sub-horizontais (S0) em posição normal (entre a
Brazieira e a Tameira na barreira esquerda da estrada 503 no sentido sul-norte; martelo como escala).
I- Fotografia evidenciando uma clivagem tectónica moderada (S1: N0º,30ºE) num nível argiloso – xistos
argilosos; II- Fotografia destacando a refracção da clivagem – clivagem tectónica oblíqua nos xistos
argilosos e quase perpendicular à estratificação nos grauvaques (Cv).

Foi efectuada uma análise sobre a fracturação das unidades litostratigráficas da área em

estudo, encontrando-se os resultados das medições realizadas reunidos e representados no

mapa geológico no apêndice II e na figura 3.44 (falhas) e na tabela 3.2 (diáclases). A

localização das estações onde foram efectuadas as medições das diáclases encontra-se

representada na figura 3.48.

72
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

N
Estação 6

Estação 7

Estação 4

Estação 1

Estação 2
Estação 3

Estação 5

Aluvião (Quaternário)

Depósitos de vertente (Quaternário)

Cascalheiras e areias (Plio-Quaternário)

Formação de Picavessa (Jurássico Inferior)

Argilas vermelhas do topo do Complexo vulcano-sedimentar (Jurássico Inferior)

Complexo vulcano-sedimentar (Jurássico Inferior)

Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Triásico Superior - Jurássico Inferior)

Arenitos de Silves (Triásico Superior)

Formação de Mira (Carbonífero)

Falha Gesso Intrusão

Fig. 3.48 – Modelo digital do terreno com a geologia da RP e área envolvente e com a localização das sete
estações de medição das diáclases (modelo elaborado por Victor Correia).

73
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Tabela 3.2 – Síntese das diáclases medidas em sete estações na área de estudo.
Interpretação das diáclases por estação
Representação gráfica das diáclases (seta branca indica a direcção de distensão (σ3);
seta preta indica a direcção de compressão (σ1))
Formações

Diagrama de rosas Projecção


simétrico da estereográfica dos Distensão Compressão
frequência das pólos das diáclases (1.º evento) (2.º evento)
diáclases (rede de Schmidt, (σ3- horizontal; (σ1- horizontal;
(Ângulo de sector: 10º; hemisfério inferior) σ1 - vertical) σ3 - vertical)
Escala - traço interno: 5%)
N N
(Estação 1; Medidas: 13)
Formação de Mira

------------- -------------

N N N
(Estação 2; Medidas: 39)
Arenitos de Silves

Extensão NO-SE Compressão NO-SE


N N N N
Pelitos com evaporitos
(Estação 3; Medidas: 34)

Extensão NO-SE Compressão NO-SE


N N N N
vulcano-sedimentar
(Estação 4; Medidas: 43)
Complexo

Extensão NNO-SSE Compressão NNO-SSE


N N N N
Formação de Picavessa
(Escarpa S, Sector E)
(Estação 5; Medidas: 172)

Extensão N-S Compressão N-S

74
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Interpretação das diáclases por estação


Representação gráfica das diáclases (seta branca indica a direcção de distensão (σ3);
Formações seta preta indica a direcção de compressão (σ1))
Diagrama de rosas Projecção
simétrico da estereográfica dos Distensão Compressão
frequência das pólos das diáclases (1.º evento) (2.º evento)
diáclases (rede de Schmidt, (σ3- horizontal; (σ1- horizontal;
(Ângulo de sector: 10º; hemisfério inferior) σ1 - vertical) σ3 - vertical)
Escala - traço interno: 5%)
N N N N
Formação de Picavessa
(Algar dos Mouros)
(Estação 6; Medidas: 91)

Extensão NNO-SSE Compressão NNO-SSE


N N N N
Formação de Picavessa
(Escarpa N, Sector E)
(Estação 7; Medidas: 15)

Extensão N-S Compressão N-S


Tabela 3.2 – Síntese das diáclases medidas em sete estações na área de estudo (continuação).

Na estação 1, a Formação de Mira, apresenta-se afectada essencialmente por duas

famílias de diáclases verticais – NE-SO e ESE-ONO. A interpretação das diáclases que

afectam a Formação de Mira torna-se relativamente complexa, pois esta unidade, regista os

movimentos tectónicos variscos e os alpinos. Todavia, as orientações determinadas podem

ser atribuídas a eventos compressivos ocorridos entre o final da orogenia Varisca e a

extensão do Triásico (RIBEIRO et al., 1979). Desta forma, as diáclases encontradas naquele

afloramento serão tardi-Variscas – um primeiro evento compressivo de direcção

aproximadamente N-S terá gerado, por exemplo, as diáclases NE-SO cuja direcção

coincide com uma das orientações dominantes das falhas tardi-orogénicas; por outro lado,

as fracturas ESE-ONO podem ter sido geradas durante um segundo evento compressivo

com direcção principal E-O (RIBEIRO et al., 1979; TERRINHA, 1998) ou formadas já

durante a extensão N-S mesozóica. Em qualquer um dos casos, estas fracturas terão sido

reactivadas durante os eventos tectónicos posteriores, podendo ter acomodado os

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

movimentos e condicionado a formação de dobramentos e de novas fracturas.

No que se refere às unidades da Bacia Algarvia, os Arenitos de Silves, em Alcaria

(estação 2; Fig. 3.49), apresentam um padrão com três famílias de diáclases verticais

principais – NE-SO, N-S e ESE-ONO –, onde as fracturas NE-SO intersectam as outras

duas famílias, sendo estas últimas consideradas, por isso, mais recentes. No caso dos

Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas, perto das Eirinhas (na estação 3),

estes evidenciam duas famílias de diáclases principais de padrão ortogonal – NE-SO e NO-

SE –, com grandes inclinações. Em relação ao Complexo vulcano-sedimentar, no caminho

Brazieira - moinhos da Pena (na estação 4; Fig. 3.50), este regista duas famílias principais

de diáclases conjugadas com orientação NNO-SSE e E-O, na sua maioria verticais. No que

concerne à Formação de Picavessa verificou-se que: i) na escarpa sul no sector leste

(estação 5; Fig. 3.51) a fracturação apresenta um padrão com três famílias de diáclases – E-

O, NNO-SSE e NNE-SSO –, todas com uma inclinação muito elevada, onde a família de

fracturas E-O intersecta as restantes; ii) na parte central da RP, no Algar dos Mouros

(estação 6), a fracturação observada tem uma orientação dominante muito próxima de E-O,

no entanto as inclinações são menores e variam quer para norte quer para sul; iii) e na

escarpa norte no extremo nordeste da RP (estação 7; Fig. 3.52) a fracturação está

representada por duas famílias de diáclases principais de padrão ortogonal – N-S e E-O.

OSO ENE

D3: N100º,90º

D2: N0º,90º

D1: N55º,90º

Fig. 3.49 – Afloramento de Arenitos de Silves de atitude N120º,24ºSO afectado por 3 famílias de fracturas

principais (D1: N55º,90º; D2: N0º,90º e D3: N100º,90º) (estação 2; caminho Alcaria - RP; martelo como

escala).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

D1: N80º,85ºS
Fig. 3.50 – Fracturação N80º,85ºS (D1) a afectar o Complexo
vulcano-sedimentar (estação 4; caminho Brazeira - moinhos
da Pena; martelo como escala).

O E
ONO ESE

D3 D2

D1

I II

Fig. 3.51 – Afloramento da Formação de Picavessa (estação 5; perto do topo da RP, no caminho pedestre na
vertente sul; martelo como escala). I- Panorâmica do afloramento; II- Pormenor do afloramento
evidenciando-se três famílias de fracturas principais (D1: N85º,80ºS; D2: N10º,80ºE e
D3: N145º,80ºE).

D2

D1
I II
Fig. 3.52 – Afloramento da Formação de Picavessa na escarpa norte no sector nordeste (estação 7; martelo

como escala). I- Área onde foram realizadas a medições das diáclases; II- Pormenor do afloramento

evidenciando-se o padrão ortogonal de duas famílias de diáclases (D1: N172º,72ºE e D2: N82º,55ºS).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

A partir da análise das diáclases que afectam as unidades da área de estudo pode-se

inferir que, de um modo geral, a fracturação com orientação ESE-ONO a NE-SO

corresponde a diáclases formadas em regime distensivo com σ3 (máximo distensivo)

horizontal, enquanto que a fracturação com orientação NNE-SSO a NNO-SSE corresponde

a diáclases formadas em regime compressivo com σ1 (máximo compressivo) horizontal.

Deste modo, as várias unidades litostratigráficas registam dois movimentos tectónicos

principais: i) uma primeira fase de distensão N-S a NO-SE e ii) uma segunda fase de

compressão N-S a NO-SE – evidenciando-se um movimento em harmónio. As diáclases de

orientação aproximadamente E-O terão tido origem durante a extensão N-S ocorrida

durante o intervalo de tempo Triásico-Cretácico, enquanto as diáclases com orientação

aproximadamente N-S terão sido originadas aquando da inversão tectónica da bacia

(tectónica compressiva) que ocorreu a partir do Cretácico Superior e durante o Paleogénico

(GRILLOT e ALMEIDA, 1982; KULLBERG et al., 1992; TERRINHA, 1988; TERRINHA et al.,

2000a). Contudo, tanto as diáclases com orientação E-O como as com orientação N-S terão

rejogado durante os diversos regimes tectónicos durante a orogenia Alpina, pelo que

algumas fracturas E-O inicialmente extensivas terão posteriormente funcionado como

fracturas compressivas. Tal é evidenciado por fracturas regionais como é o caso da Flexura

do Algibre que primeiramente funcionou como falha extensiva e depois em regime

tectónico compressivo, como o actual, foi reactivada, desta vez como falha compressiva

(TERRINHA, 1998; DIAS, 2001). No que se refere à estrutura da RP, o anticlinal com eixo

de direcção E-O foi originado em regime compressivo de orientação N-S, provavelmente

associado à fase de inversão do regime tectónico da bacia que ocorreu no Cretácico

Superior (KULLBERG et al., 1992; TERRINHA e RIBEIRO, 1995; TERRINHA, 1998).

No caso das diáclases E-O, que afectam as unidades litostratigráficas e

principalmente as que se encontram na Formação de Picavessa, estas podem corresponder

a diáclases de tracção (Fig. 3.53) associadas ao dobramento anticlinal com eixo E-O que

constitui a RP. Porém, essas diáclases tanto podem ter tido origem durante o dobramento

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
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como ter-se formado antes, em regime distensivo, tendo depois sido reactivadas na fase

compressiva aquando do dobramento.

Eixo da dobra
Diáclases de tracção

Eixo da dobra

Fig. 3.53 – Esquema que retrata a origem de diáclases de


tracção associadas a dobramentos, as quais apresentam-se
Diáclases de tracção paralelas ao eixo das dobras (adaptado de JAKUCS, 1977).

A variação de direcção da fracturação, que afecta as diferentes unidades litológicas

mesozóicas da área de estudo sugere duas interpretações distintas: i) variação do campo de

tensão máxima ao longo do tempo, o qual terá sofrido uma rotação horária desde NO-SE

até N-S ou ii) diferente comportamento físico face aos tensores máximos (reologia) por

parte das diferentes unidades litostratigráficas – no caso das unidades ante-Formação de

Picavessa, menos competentes e provavelmente ainda não litificadas, durante a deformação

terão fracturado obliquamente à direcção da tensão máxima, quer em compressão quer em

distensão; enquanto a Formação de Picavessa, mais competente e provavelmente já

litificada, terá fracturado perpendicularmente à direcção da tensão máxima de extensão

(σ3) e paralelamente à tensão máxima de compressão (σ1), considerando que os tensores σ1

e σ3 têm orientação horizontal.

De notar que é frequente encontrar, perto dos bordos e nas próprias escarpas norte e sul da

RP, fracturas subparalelas à orientação das escarpas (E-O) (Fig. 3.54). Essa fracturação

evidenciada na RP, condiciona claramente os alinhamentos dos abatimentos das cavidades

cársicas, como se verifica no Algar dos Mouros, onde se observam diversas fracturas,

algumas delas abertas, devido ao colapso de blocos associado à evolução cársica (Fig.

3.55).

79
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.54 – Escarpa norte na parte central da RP,


evidenciando-se diversas diáclases subparalelas à escarpa
(indicadas pelas setas amarelas), as quais condicionam o

2m colapso de blocos e o recuo da escarpa; muitas dessas


diáclases encontram-se preenchidas por material brechóide.

Fig. 3.55 – Fractura com alinhamento aproximadamente E-O,


associada ao abatimento de cavidades cársicas subterrâneas;
abertura com cerca de 50 cm de largura (perto da entrada do Algar
50 cm dos Mouros).

3.3. Geomorfologia

3.3.1. Relevo da área de estudo

O relevo da área de estudo é constituído por dois alinhamentos principais, um no sector

norte e outro no sector central (Fig. 3.56): i) o primeiro, com alinhamento ONO-ESE, é

talhado nos xistos argilosos e grauvaques da Formação de Mira e ii) o segundo, com

orientação E-O, encontra-se essencialmente desenvolvido nas formações mesozóicas da

Bacia Algarvia, apresentando-se no seu extremo leste formado pelos xistos e grauvaques

do Paleozóico. Contudo, a RP propriamente dita corresponde apenas à parte do relevo mais

vigorosa e talhada nas rochas mesozóicas.

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
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Elevação (m)

480m
ROCHA DA PENA
479m 448m

Metros

Fig. 3.56 – Modelo digital de terreno com a elevação, a hidrografia e o alinhamento dos relevos da área de
estudo.

A RP (Figs. 3.56 e 3.57) constitui um relevo de forma tabular cujo eixo maior tem

orientação E-O, afunilado no extremo leste e alargado no extremo oeste. Este relevo

representa uma mesa com cerca de 1850 m de comprimento, 455 m de largura máxima e

uma altitude que varia entre os 440 e os 480 m. O topo do relevo no essencial é aplanado,

inclinando geralmente para sul, à excepção da superfície a norte do Vértice Geodésico (479

m), a qual inclina para norte. As vertentes norte e sul (Figs. 3.58 e 3.59) são simétricas e

bastante íngremes, sendo constituídas por escarpas talhadas nos carbonatos da Formação

de Picavessa, que atingem os 50 m de altura no sector sul; por outro lado, as vertentes este

e oeste são assimétricas, em que a vertente este tem a forma de uma crista que inclina de

forma acentuada em direcção à base do relevo talhada nas formações paleozóicas e a

vertente oeste, a menos inclinada de todas, abre-se e inclina suavemente até ao sopé

talhado nas formações da base do Jurássico. A base da RP situa-se aproximadamente entre

os 240 e os 300 m, apresentando um comando de cerca de 180 a 200 m.

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
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N 267 312

304
Quinta do Freixo

356 468 289


480
459 476
c c b
479 456
448 a
ROCHA DA PENA
PENA374
243
335
Rocha
Penina

311
331
344
0 500 m 328
238
285 Pena
296

c
1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10-a b 11- 12- 13-

Fig. 3.57– Mapa geomorfológico da RP. 1- Topo e base da vertente; 2-Vertente rectilínea (a proximidade dos traços verticais
indica maior declive); 3- Escarpa de falha; 4- Cornija; 5- Falha; 6- Linha de água; 7- Sentido da inclinação da superfície topográfica;
8- Dolina; 9- Campo de lapiás; 10- Algar (a- Algar da Caldeirinha; b- Algar dos Mouros); 11- Ponto cotado e Vértice Geodésico
(altitude em metros); 12- Povoação; 13- Amuralhamento de cascalheiras do Neolítico; cartografia realizada com recurso a trabalho de
campo e a fotografias aéreas à escala 1:15.000 fornecidas pelo IGEO; base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal à escala
1/25.000 do IGEO.

E O

E A O

II
Fig. 3.58 – Vertente norte da RP. I- Panorâmica da vertente norte da RP, evidenciando-se a escarpa com
orientação E-O; II- Pormenor da escapa norte no sector este da RP, observando-se uma zona mais recuada
(A) e um grande bloco de brecha cársica destacado da escarpa (B).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

O E

A
O E

II

Fig. 3.59 – Vertente sul da RP. I- Panorâmica da vertente sul da RP, evidenciando-se uma escarpa bastante
imponente com orientação E-O; II- Pormenor da escapa sul no sector oeste da RP, observando-se uma zona
de abatimento (A) de uma ou de várias cavidades cársicas e blocos de brecha cársica destacados da escarpa
(B).

A RP encontra-se individualizada dos relevos adjacentes por vales (Fig. 3.56): no

sector norte existe um vale onde estão instaladas duas linhas de água principais de

orientação E-O – uma a drenar para oeste – ribeira do Freixo – e outra para leste – ribeira

da Brazieira. A ribeira da Brazieira prolonga-se pelo sector este com um traçado NO-SE,

enquanto a ribeira do Freixo continua para oeste através de um vale de orientação N-S, o

qual interrompe a continuidade do alinhamento E-O da RP com a Rocha dos Soídos; no

sector sul encontra-se um vale principal com direcção E-O, menos amplo que os restantes,

onde se desenvolve uma linha de água para leste, que conflui com a ribeira da Brazieira; no

sector sul encontram-se ainda duas linhas de água de orientação N-S a drenar para sul,

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

cortando os relevos calcários que formam pequenas colinas inclinadas para sul. No

quadrante nordeste da área de estudo observa-se ainda parte de um vale com uma

orientação ONO-ESE, desenvolvido na faixa mais setentrional de formações da base do

Mesozóico. Os sectores norte e este, correspondentes ao Maciço Antigo, exibem uma

superfície mal conservada, apresentando o aspecto característico da Serra Algarvia – cones

de cimos arredondados, próximos e a cotas semelhantes. Por outro lado, os sectores sul e

oeste, correspondentes ao Barrocal Algarvio, estão melhor conservados. De notar que a

orientação preferencial das linhas de água é o alinhamento E-O, tal como a fracturação

local. Além disso, aquelas encontram-se talhadas essencialmente nas formações vulcano-

argilo-areníticas do Triásico e da base do Jurássico Inferior, o que sugere uma erosão

diferencial dada a menor competência destas litologias face aos calcários e dolomitos da

Formação de Picavessa (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938; FEIO, 1952; LOPES e FERNANDES,

2006a, b).

3.3.2. Morfologia cársica

No que respeita à morfologia cársica presente na RP (Figs. 5.57 e 3.60 a 3.65), esta

desenvolve-se nas rochas que constituem a Formação de Picavessa. A RP encerra formas

cársicas que apesar de modestas e pouco exuberantes têm, certamente, um importante

significado morfológico e genético a nível local e regional. Relativamente ao exocarso,

pode-se encontrar um campo de lapiás (Karrenfeld) muito característico (Figs. 3. 57 e 3.60

a 3.63), com lapiás residual, enterrado, semi-enterrado, de arestas vivas e de juntas de

estraficação4, além de microformas de lapiás5 (Figs. 3.61, 3.62 e 3.63 ) (CRISPIM, 1982,

1987; TOMÉ, 1996). No caso das microformas de carso nu, encontram-se caneluras

(Rillenkarren), regueiras (Rinnenkarren) e escudelas de corrosão ou pias de dissolução

(Kamenitza), estas últimas embutidas nas superfícies horizontais dos lapiás. No caso das
4
A classificação apresentada para os lapiás corresponde à adoptada por CRISPIM (1982 e 1987), a qual tenta conciliar o
tipo de cobertura, as condicionantes estruturais e os vários tipos de morfologia lapiar do Algarve, de acordo com a
tipologia clássica.
5
Formas de dimensões decimétricas a decamétricas, cuja tipologia foi construída por vários autores franceses e alemães e
cuja terminologia aqui apresentada é a de CRISPIM (1982, 1987), baseada no Projecto de Léxico Multilingue de
Espeleologia Física e Carsologia de FINK, (1973, citado por CRISPIM (1982)).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

microformas de carso enterrado, encontramos lapiás arredondado (Rundkarren) e

alveolar (Grubchenkarren) associado a perfurações de lapiás (Lochkarren). Estas formas

menores de corrosão dos lapiás conferem aspectos epidérmicos interessantes, os quais

auxiliam no reconhecimento das litologias e texturas, nomeadamente o aspecto pele-de-

elefante desenvolvida em calcários dolomíticos e cuja dissolução sublinha o rendilhado da

fracturação (Fig. 3.63 - III) (CRISPIM, 1982, 1987). A evolução dos lapiás da RP e da

maioria das formações lapiares algarvias pode ser resumida pelo esquema evolutivo

proposto por NICOD (1945, citado por CRISPIM (1982, 1987)): i) o ciclo lapiar inicia-se

com a formação de um lapiás nu; ii) seguem-se fases de destruição e enterramento;

iii) constitui-se um substrato que permite o desenvolvimento de vegetação mediterrânica;

iv) ocorre o arrastamento dos depósitos cársicos para as depressões, facilitado na situação

de ausência de vegetação; v) atinge-se depois o estado actual, com depressões colmatadas,

depósitos de terra rossa englobando calhaus de calcário, e lapiás nús no topo das vertentes.

Fig. 3.60 – Campo de lapiás (Karrenfeld) semi-enterrado, apresentando algumas arrestas vivas no topo da RP

(martelo como escala).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

N65º N120º

I II
Fig. 3.61 – Alguns exemplos de lapiás na RP (martelo e bússola como escalas). I- Lapiás de arestas vivas,
observando-se a influência das diáclases na delimitação das lâminas (sector noroeste do topo da RP); II-
Lapiás onde é notória a influência da orientação das fracturas (N100º,40ºS), subparalela à escarpa norte (no
topo da RP junto à escarpa norte).

I II

III IV
Fig. 3.62 – Formas menores de corrosão dos lapiás (bússola, lapiseira e martelo como escalas). I- Lapiás com
sulcos rectilíneos sob a influência da fracturação com orientação preferencial N70º, portanto subparalela às
escarpas da RP (escarpa sul da RP); II- Caneluras de largura centimétrica e palalelas (sector este do topo da
RP); III- Pia de dissolução com bordos aguçados e forma rectangular (sector este do topo da RP); IV- Pia de
dissolução com forma de poço desenvolvida numa brecha, o que indica uma evolução cársica polifásica na
RP (sector oeste no topo da RP).

86
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

I II

Fig. 3.63 – Alguns aspectos característicos


na superfície dos lapiás (topo da RP;
martelo e lapiseira como escalas).
I- Corrosão alveolar em dolomitos com um
aspecto ruiniforme; II- Corrosão alveolar
em dolomitos cujo aspecto se assemelha a
favos-de-mel; III- Corrosão em dolomitos,
que ao sublinhar as fendas e fracturas
confere um aspecto rendilhado tipo pele-de-
elefante.
III

No carso superficial, destaca-se ainda a presença de várias depressões que podem

ser consideradas dolinas (Figs. 3.57 e 3.64) (Crispim, 1982; Horta, 1996; Tomé, 1996).

Estas estruturas curiosamente concentram-se ao longo do sector sul da RP entre os 440 e os

470 metros de altitude, alongando-se e distribuindo-se umas em relação às outras

geralmente na direcção E-O. Estas estruturas cársicas são normalmente assimétricas,

apresentando forma, dimensões e génese distintas. No sector oriental existem pelo menos

cinco dolinas (Fig. 3.57), destacando-se uma dolina de abatimento em cujo fundo se abre o

Algar dos Mouros, classificada como uma dolina furada (Crispim, 1982). No sector

ocidental encontram-se pelo menos três dolinas (Figs. 3.57 e 3.64), as quais parecem

corresponder a dolinas de dissolução, em termos genéticos, e a dolinas em concha6 em

termos morfológicos. Duas dessas dolinas estão embutidas numa depressão relativamente

grande Fig. 3.64), imediatamente a sudoeste do amuralhamento central de cascalheiras do

6
O termo dolina em concha foi introduzido por MARTINS (1949), correspondendo aos termos doline en auge e bowl-
shaped dolines (CRISPIM, 1982).

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Neolítico (HORTA, 1996), apresentando-se contíguas, em processo de coalescência, mas

não coalescentes, e com o fundo atapetado de terra rossa (TOMÉ, 1996).

S N

Fig. 3.64 – Duas dolinas alinhadas na direcção E-O e embutidas numa depressão maior, no sector oeste da
RP (contornos da depressão maior representados com elipse de cor laranja; fundo das dolinas assinalado com
elipses de cor amarela).

No caso do carso subterrâneo, pode-se salientar a existência de duas grutas de

desenvolvimento essencialmente vertical (Figs 3.57 e 3.65): i) o Algar dos Mouros,

localizado no sector oriental da RP, é uma cavidade do tipo algar-lapa, a qual inicia-se

com uma entrada semi-vertical que dá acesso a uma gruta de desenvolvimento horizontal –

lapa –, formada em toda a sua extensão por um único corredor que comunica com uma

galeria de dimensões consideráveis (BONNET, 1850; TOMÉ, 1996), e ii) o Algar da

Caldeirinha, localizado no sector ocidental próximo da escarpa sul, é uma cavidade com

cerca de 15 m de desenvolvimento vertical, que termina praticamente em fundo-de-saco

(TOMÉ, 1996; MARTINS, 1949). O Algar dos Mouros parece ter surgido à superfície por

processos de abatimento ou decapagem superficial, enquanto o Algar da Caldeirinha pelo

alinhamento e pela morfologia parece ter-se desenvolvido ao longo de uma fractura de

orientação E-O por dissolução.

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

I II
Fig. 3.65 – Grutas tipo algar na RP (martelo como escala). I- Abertura do Algar dos Mouros na parte central
do topo da RP; II- Entrada do Algar da Caldeirinha no sector oeste do topo da RP.

Através de uma análise geral da morfologia cársica presente na RP pode-se

verificar que o tipo, a orientação e a distribuição das formas cársicas são condicionadas

pela litologia, pela estrutura e pela fracturação. A RP é de facto um relevo cársico cuja

carsificação em tempos foi extremamente importante e determinante no desenvolvimento

das formas cársicas encontradas. Contudo, actualmente, ao invés de existir a construção de

novas formas, predomina a degradação das formas herdadas de ciclos carsológicos

anteriores. No caso dos lapiás, esta evolução é evidente, pois hoje apresentam uma

evolução suspensa ou retardada, evoluindo mais no sentido da destruição de formas

adquiridas (CRISPIM, 1982, 1987). A existência de dolinas na RP sugere que durante a sua

génese e evolução existiu uma importante circulação subterrânea e consequente

desenvolvimento de um endocarso que permitiu a evacuação dos materiais residuais,

associada à evolução dessas depressões superficiais (SWEETING, 1972). Por outro lado, o

desenvolvimento do carso subterrâneo na RP esteve na dependência das formas

superficiais que facilitam a infiltração, como é o caso dos lapiás. Contudo, actualmente as

cavidades subterrâneas apresentam um aspecto senil, mostrando que após uma fase

importante de concrecionamento as cavidades e as formações litoquímicas foram sendo

progressivamente degradadas quer por corrosão quer por abatimentos (Fig. 3.66). Tal é

evidente através da presença de cavidades fossilizadas com depósitos de abatimento que,

depois de litificados, originaram as brechas cársicas presentemente expostas nas escarpas

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Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

da RP. Todavia, há evidências de circulação subterrânea actual, pois existem algumas

exsurgências nas vertentes da RP (ALMEIDA, 1985).

I II

III IV

Fig. 3.66 – Estruturas típicas do carso subterrâneo expostas nas escarpas da RP (martelo e moeda como
escalas). I- Espeleotemas na escarpa sul; II- Algumas estalactites na escarpa norte; III e IV- Cavidades
preenchidas com brechas cársicas (mistura de fragmentos de calcários e dolomitos e terra rossa) na escarpa
sul.

A conservação de relevos cársicos herdados de fases morfogenéticas anteriores

pode ser explicada pelo fenómeno da imunidade cársica (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938;

FÉNELON, 1967; CRISPIM, 1982). Neste contexto, quanto mais aptas forem as superfícies

cársicas para manter a ausência de escorrência subaérea tanto maior será a imunidade

cársica. Esta aptidão verifica-se principalmente em superfícies lapiazadas, sobretudo se os

lapiás forem nús, situação em que a infiltração ocorre rapidamente e as taxas de erosão

serão muito reduzidas, dando-se apenas corrosão nas microformas do lapiás, que no seu

todo conserva as formas envolventes (CRISPIM, 1982). Supõe-se também que a imunização

90
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

do relevo é tanto maior quanto mais árido for o clima. Deste modo, pode-se evocar a

imunidade cársica para explicar a manutenção da RP ao longo do tempo (MEDEIROS-

GOUVÊA, 1938; CRISPIM, 1982), pelo que este relevo trata-se de um relevo cársico herdado,

cuja conservação se tem devido, por um lado à infiltração das águas promovida pelas

formas cársicas e consequente reduzida acção corrosiva e, por outro lado, prende-se com a

existência de períodos com climas pouco favoráveis à dissolução dos carbonatos. De notar

que na RP existem brechas cársicas afectadas por fenómenos cársicos (Fig. 3.62 - IV), cuja

presença indica que o carso hoje observado resulta de uma evolução carsológica e

morfogenética polifásica, pois os materiais herdados de uma evolução carsológica anterior,

como é o caso das brechas cársicas, foram retomados em fases posteriores de carsificação.

3.3.3. Génese da RP e evolução das suas escarpas

No topo da RP foram encontrados calhaus de grauvaque e quartzito com

distribuição esparsa mas com relativa abundância (Fig. 3.67) (Crispim, 1982; ALMEIDA,

1985). A presença destas litologias pertencentes ao soco Paleozóico no topo de alguns

relevos do Barrocal Algarvio tem sido relacionada com a existência de uma superfície de

aplanação pliocénica ou anterior da Serra Algarvia, aplanamento este que tinha

continuidade pelo Barrocal Algarvio na sua parte central (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938; FEIO,

1952) e que foi desnivelado e fragmentado através de movimentos verticais e de báscula no

final do Terciário ou no Quaternário pelos acidentes NO-SE e E-O que limitam a Serra do

Caldeirão (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938; FEIO, 1952). Essa superfície única pode ser

reconstituída através do alinhamento dos cimos dos relevos calcários do Barrocal com os

cimos dos relevos da Serra, sendo observável a partir da RP (Figs. 3.68 e 3.69). Todavia,

DIAS (2001) levanta alguns problemas nesta interpretação, dada a presença de sedimentos

neogénicos no sopé dos relevos calcários do Barrocal a cotas muito inferiores àquela

superfície culminante.

91
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

Fig. 3.67 – Fragmentos de grauvaque no topo da


RP (martelo como escala).

SO NE
Juncal
600 m

Rocha da Pena (522)


(470) Vale Mendes
400
200

1 3 5 7 km

Fig. 3.68 – Perfil entre o Juncal e a RP ilustrando a continuidade, na orla, da superfície de aplanação do soco
Paleozóico (retirado de ALMEIDA, 1985)

Desenho de F. Galhano.

Fig. 3.69 – Vista da cota 481 m a sudoeste do Barranco-do-Velho para oeste, destacando-se a aplanação que
nivela os cimos do Maciço Antigo e da Orla Algarvia (retirado de FEIO, 1952). A partir da RP já pertencente à Orla
Algarvia: à direita e no primeiro plano, o relevo de xistos da Serra Algarvia (Negros, Juncal); à esquerda, o relevo calcário do Barrocal
Algarvio (Soídos, Cabeço da Areia, Rocha Amarela, etc.); Salir está situado na depressão periférica (margas hetangianas); na Orla,
adivinha-se pela feição do relevo, a inclinação das camadas para sul.

Segundo CABRAL (1995), a partir do Pliocénico até ao Quaternário a zona

correspondente à Serra do Caldeirão sofreu um levantamento de cerca de 300 m. Se lhes

subtrairmos os 100 m correspondentes ao levantamento geral do Algarve no Quaternário,

deduz-se um levantamento da serra, relativamente à área de sopé, de aproximadamente 200

m (DIAS, 2001), um valor compatível com o comando da RP (180-200 m). Esse

levantamento da serra foi o responsável pela subida da cabeceira da rede hidrográfica e

92
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

pelo seu rejuvenescimento a partir do Pliocénico Superior, pelo que a partir dessa altura

ter-se-á iniciado o encaixe da rede hidrográfica e a erosão vertical que destacou a RP do

relevo adjacente por erosão diferencial. Nos sectores norte e sul da RP, a origem das

vertentes está claramente associada ao encaixe da rede hidrográfica ao longo da direcção

E-O assumida pela fracturação e pelos eixos dos dobramentos locais e regionais. Contudo,

nos sectores este e oeste a génese das respectivas vertentes, apesar de relacionada com a

evolução da rede fluvial, o seu alinhamento e o facto de cortar a continuidade E-O do

relevo – inadaptação da rede hidrográfica – levanta algumas interrogações: i) o seu

alinhamento e encaixe são controlados por fracturas subparalelas a acidentes tectónicos

importantes na região algarvia – falha N-S no sector oeste e falha NO-SE no sector este;

ii) o seu alinhamento e entalhe por erosão reflectem antigas direcções de uma drenagem

herdada a partir de uma fase geomorfológica anterior à individualização do relevo actual;

neste caso, e a partir do Pliocénico Superior, a superfície de aplanação Pliocénica com as

linhas de água encaixadas e em fase de equilíbrio, devido à subida da cabeceira, foi

desmantelada pelo encaixe das linhas de água que por erosão vertical exumaram e

destacaram os relevos, cortando a continuidade do alinhamento E-O do relevo, ou

iii) alternativamente, devido à formação do alinhamento E-O do relevo, as linhas de água

já existentes tiveram de se encaixar e cortá-lo, formando relevos estruturais destacados;

esta situação sugere que o alinhamento E-O de relevos estruturais foi formado ou sofreu

um empolamento após os aplanamentos ocorridos no Paleogénico e no Pliocénico.

Em relação à evolução das escarpas norte e sul da RP, esta está intimamente

relacionada com a litologia, a tectónica e com a evolução carsológica (Figs. 3.70): i) a

elevada competência das litologias da Formação de Picavessa confere uma resistência aos

processos erosivos, favorecendo o desenvolvimento e a manutenção de escarpas

imponentes, as quais se destacam em relação às unidades litológicas subjacentes por

processos erosivos diferenciais; ii) a fracturação – falhas e diáclases – além de controlar o

alinhamento das escarpas (E-O) favorece o colapso de blocos, e iii) a meteorização cársica

ao alargar e aprofundar as fracturas promove o desenvolvimento de cavidades cársicas à

93
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

superfície e em profundidade, cuja evolução carsológica conduz ao abatimento dessas

cavidades e ao consequente recuo das escarpas (LOPES e FERNANDES, 2006a, b).

E As fracturas e as estruturas cársicas


promovem a infiltração da água da chuva,
Lapiás
Dolina pelo que a erosão das rochas à superfície é
pouco significativa – imunidade cársica.
O
Algar
A presença de fracturas com
orientação preferencial E-O
condiciona a direcção das
escarpas.

Depósitos de
Diáclases
vertente
TEMPO

Falha Gruta
Falha

E
O recuo das escarpas é condicionado pela
fracturação, com direcção preferencial E-
O, e pelo abatimento de cavidades
O cársicas.

Associada à evolução recente


das escarpas há a formação
de depósitos de vertente
(clastos e blocos
carbonatados) que cobrem as
vertentes da RP.

Fig. 3.70 – Esquema simplificado da evolução das escarpas norte e sul da RP.

3.4. História geológica da RP

No Carbonífero, na transição do Mississipiense para o Pensilvaniense, associada à

formação e consequente erosão da Cadeia Varisca, em regime compressivo em progressão

para SO, ocorreu, através de correntes de turbidez, a deposição sinorogénica dos

sedimentos que originaram a Formação de Mira (OLIVEIRA et al., 1979; Silva et al., 1992;

OLIVEIRA, 1992b, 2001). A evolução da orogenia Varisca, durante o Pérmico e grande

parte do Triásico, promoveu a deformação e a elevação daqueles turbiditos, os quais foram

erodidos e aplanados (GALOPIM DE CARVALHO, 2002), tendo-se originado uma lacuna

estratigráfica correspondente ao intervalo de tempo compreendido entre a base do

Pensilvaniense e o Triásico Inferior a Médio (OLIVEIRA et al., 1992).

No Triásico (Fig. 3.71), com o início da extensão N-S a NO-SE associada ao

movimento transcorrente transtensivo sinistrógiro da placa africana em relação à placa

ibérica (TERRINHA, 1998; TERRINHA et al., 2000a), as falhas variscas sinorogénicas (NO-

94
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

SE e E-O) rejogaram como falhas distensivas originando o abatimento de blocos do soco

Paleozóico. Estes movimentos conduziram ao rejuvenescimento da rede hidrográfica que

começou a drenar de norte para sul e sudoeste (PALAIN, 1975; TERRINHA, 1998; TERRINHA

et al., 2000a). Assim, num clima quente e seco com chuvas torrenciais esporádicas

concentradas temporalmente, foram depositados, em ambiente continental fluvial, os

Arenitos de Silves – depósitos aluvionares ricos em óxidos de ferro (arenitos, siltitos,

argilitos e conglomerados) que se encontram, em discordância angular, sobre a Formação

de Mira (PALAIN, 1975; MANUPPELLA, 1988, 1992a, b, c).

Associados aos movimentos distensivos N-S, geraram-se várias flexuras de

direcção E-O que conjuntamente com fracturas N-S e NO-SE, controlaram a evolução

tectónica e estrutural da Bacia Algarvia (MANUPPELLA, 1988; TERRINHA, 1998; DIAS,

2001). Donde, neste contexto tectónico e estrutural ocorreu uma elevada subsidência que

promoveu a transição de um ambiente exclusivamente continental para um ambiente

margino-litoral na passagem para o Jurássico Inferior (PALAIN, 1975; MANUPPELLA, 1988;

AZERÊDO et al., 2003). Deste modo, depositaram-se os Pelitos com evaporitos e

intercalações carbonatadas (Fig. 3.71) (argilas, siltitos e arenitos finos de cor vermelha, sal-

gema, gesso, dolomitos e calcários intercalados) em lagoas efémeras salgadas sujeitas a

pulsos transgressivos e regressivos que, em associação a um clima quente e seco, terão

originado ambientes de tipo Sabkha (NICHOLS, 1999; AZERÊDO et al., 2003)

Durante o Hetangiano e o Sinemuriano (Fig. 3.71) ocorreu a primeira fase de

riftogénese propriamente dita, representada por um magmatismo continental de carácter

toleítico (MANUPPELLA, 1988; MARTINS, 1991) com episódios explosivos e efusivos,

principalmente em condições subaquáticas. Nesse contexto, originou-se o Complexo

vulcano-sedimentar (piroclastos, tufos vulcânicos, brechas vulcânicas, escoadas de basaltos

e intrusões de doleritos).

No Sinemuriano (Fig. 3.71), a elevada subsidência da bacia promoveu uma

transgressão generalizada, tendo-se constituído uma plataforma marinha carbonatada de

95
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

N S N S N S

1) TRIÁSICO: Extensão N-S; rejogo das fracturas do soco Varisco; origem de


fracturas E-O; formação dos Arenitos de Silves em ambiente continental fluvial
em clima quente e seco; depositados em discordância angular sobre a Formação de
Mira.
4) SINEMURIANO: Extensão N-S; evolução das fracturas E-O; elevada
subsidência da bacia e consequente transgressão marinha; origem da 7) PRESENTE: A RP em termos estruturais é um anticlinal amplo recortado e
Formação de Picavessa numa plataforma marinha carbonatada de águas deslocado por falhas, constituindo um relevo estrutural e residual herdado de fases
N S quentes e de baixa profundidade. morfonenéticas anteriores, como resultado da interligação de várias condicionantes –
litológicas, estratigráficas, tectónicas, geomorfológicas, hidrológicas e climáticas.
N S

Aluvião Arenitos de Silves

Depósitos de vertente Formação de Mira

Formação de Picavessa Intrusão básica


2) TRIÁSICO SUPERIOR – HETANGIANO: Extensão N-S; evolução das
fracturas E-O; formação dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas Argilas vermelhas
em lagoas salgadas marinhas sujeitas a sucessivos pulsos transgressivos e
regressivos num clima quente e seco (ambiente margino-litoral tipo sabkha). Complexo vulcano-sedimentar

N S Pelitos com evaporitos e carbonatos

5) JURÁSSICO INFERIOR – CRETÁCICO: Extensão N-S; evolução


das fracturas E-O; deposição das unidades jurássicas em plataformas
marinhas carbonatadas; emersão dos terrenos a partir do Titoniano e
consequente carsificação das unidades carbonatadas.

N S

3) HETANGIANO – SINEMURIANO: Extensão N-S; evolução das fracturas E-


O; origem do Complexo vulcano-sedimentar associada a riftogénese continental
com magmatismo toleítico e com episódios explosivos e efusivos intercalados 6) CRETÁCICO SUPERIOR – QUATERNÁRIO: Compressão N-S; rejogo das fracturas
principalmente em condições subaquáticas. pré-existentes e dobramento das unidades litológicas; aplanamento dos terrenos no
Paleogénico e no Pliocénico; soerguimento da Serra a partir do Pliocénico Superior,
consequente instalação da rede hidrográfica preferencialmente ao longo de fracturas E-O, o
que destacou a RP do relevo adjacente por erosão diferencial (calcários e dolomitos
subsistiram aos processos erosivos, enquanto as unidades subjacentes vulcano-argilo-
areníticas foram erodidas; carsificação das unidades carbonatadas principalmente em períodos
húmidos e quentes e desencadeamento de fenómenos de imunidade cársica que conduziram à
preservação do relevo.

Fig. 3.71 – Esquema da génese e da estrutura da RP.

96
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

águas quentes e de baixa profundidade, onde se depositaram as litologias da Formação de

Picavessa (dolomitos, calcários dolomíticos, calcários e brecha dolomítica) (MANUPPELLA,

1988; MANUPPELLA et al., 1988; AZERÊDO et al., 2003).

No período Jurássico Inferior - Cretácico Inferior (Fig. 3.71) perdurou o regime

distensivo N-S iniciado no Triásico, interrompido por curtos episódios de inversão

tectónica que produziram importantes desconformidades. A sedimentação continuou a

ocorrer num clima quente e húmido (tropical) e a ser de carácter carbonatado, por vezes

com alguma componente mais argilosa (MANUPPELLA, 1988; RAMALHO, 1988). Na área de

estudo, pelo menos a partir do Titoniano (final do Jurássico Superior), verificou-se a

emersão dos terrenos (MANUPPELLA et al., 1988; RAMALHO, 1988). Deste modo, no

Cretácico, no caso de ter ocorrido sedimentação, esta ter-se-á resumido a depósitos

continentais (MANUPPELLA et al., 1988; MANUPPELLA, 1992; CORREIA, 1989). Associado à

emersão dos terrenos carbonatados jurássicos, ter-se-ão instalado fenómenos de erosão

subaérea e de consequente carsificação.

A partir do Cretácico Superior e durante o Paleogénico (Fig. 3.71) ocorreu uma

inversão tectónica polifásica da bacia em regime compressivo N-S (KULLBERG et al., 1992;

TERRINHA et al., 2000a) que terá provocado o rejogo das fracturas (diáclases e falhas) pré-

existentes, a formação de diáclases de direcção N-S, NNE-SSO, NNO-SSE, NE-SO e NO-

SE e a formação de dobras com eixo E-O, como é o caso do dobramento anticlinal

recortado e deslocado por falhas que constitui a RP. Nesse intervalo de tempo, pelo facto

de os terrenos estarem emersos, supõe-se que se ocorreu sedimentação, esta foi de carácter

continental, tendo-se desenvolvido processos de erosão subaérea e de carsificação nas

unidades carbonatadas, principalmente durante o Cretácico, pois esse foi um período mais

húmido do que o Paleogénico (RAMALHO, 1988; PEREIRA, 1990; BUCHDAHL, 1999). Desta

forma, principalmente durante o Paleogénico, ter-se-á originado um aplanamento

generalizado dos terrenos (superfície fundamental) (DIAS, 2001).

No Miocénico Inferior e Médio ocorreu um movimento distensivo (N-S e E-O) que

promoveu uma transgressão marinha, possibilitando a instalação de uma plataforma

97
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

carbonatada temperada, que em princípio não se estendeu até à área de estudo (KULLBERG

et al., 1992; PAIS et al., 2000). A partir do Miocénico Médio houve uma fase compressiva

(N-S) (KULLBERG et al., 1992) que além de ter provocado o rejogo das facturas pré-

existente, pode ter reactivado o anticlinal da RP, fazendo emergir os terrenos e

consequentemente promovido a carsificação das unidades carbonatadas. Nessa altura

ocorreram fenómenos de halocinese e a injecção de evaporitos nas falhas (RIBEIRO et al.,

1979; MANUPPELLA, 1988; KULLBERG et al., 1992), tal como ocorre na falha E-O que

atravessa a vertente sul da RP.

O Plio-Quaternário, em termos tectónicos, é caracterizado por um regime

compressivo N-S a E-O e por um levantamento da Serra Algarvia relativamente à área de

sopé de aproximadamente 200 m (DIAS, 2001). A nível das litologias, na área estudo, estão

presentes depósitos continentais atribuíveis ao Quaternário – cascalheiras e areias

(formadas durante o rejuvenescimento da rede hidrográfica em clima húmido); brechas

cársicas e terra rossa (associados a processos de carsificação da Formação de Picavessa);

depósitos de vertente (relacionados com a evolução das escarpas dos relevos

carbonatados); aluviões (ligados às actuais linhas de água em fase de assoreamento).

O destacamento e a evolução do relevo da RP e da área envolvente ter-se-á iniciado

a partir do Pliocénico Superior, aquando o levantamento da Serra Algarvia, o qual

promoveu o desmantelamento da superfície fundamental gerada no Paleogénico e retocada

no Pliocénico e que nivelava os terrenos do Paleozóico e do Meso-Cenozóico (MEDEIROS-

GOUVÊA, 1938; FEIO, 1952; DIAS, 2001). Esse soerguimento da cabeceira conduziu ao

rejuvenescimento da rede hidrográfica que provavelmente se encontrava em estádio de

maturidade. Esse rejuvenescimento foi responsável pelo encaixe das rede hidrográfica e

pela erosão vertical preferencialmente ao longo das fracturas E-O e ao longo de linhas de

água herdadas, o que destacou a RP do relevo adjacente por erosão diferencial associada à

diferente litologia e à estratigrafia das unidades mesozóicas – os calcários e dolomitos da

Formação de Picavessa, mais resistentes, subsistiram aos processos erosivos, enquanto as

rochas subjacentes vulcano-argiloso-areníticas do Triásico-Sinemuriano, menos

98
Capítulo 3 – Resultados, Discussão e Interpretações
____________________________________________________________________________________________________________

competentes, foram erodidas (MEDEIROS-GOUVÊA, 1938; FEIO, 1952; LOPES e FERNANDES,

2006a, b). Por outro lado, a natureza carbonatada da Formação de Picavessa e a sua

elevada fracturação em associação a condições paleoclimáticas favoráveis (climas

húmidos) promoveram o desenvolvimento de um carso que determinou a hidrologia e

desencadeou o fenómeno de imunidade cársica (CRISPIM, 1982, MEDEIROS-GOUVÊA, 1938;

LOPES e FERNANDES, 2006a, b). Esse fenómeno de imunidade cársica associado a

paleoclimas pouco favoráveis à erosão têm conservado ao longo do tempo a RP, sendo esta

um relevo cársico herdado de fases morfogenéticas anteriores (CRISPIM, 1982, LOPES e

FERNANDES, 2006a, b).

No que se refere às escarpas, a sua evolução encontra-se associada à sua litologia, à

tectónica e à evolução carsológica (Fig. 3.70) (LOPES e FERNANDES, 2006a, b). A elevada

competência das litologias da Formação de Picavessa confere uma resistência aos

processos erosivos, favorecendo o desenvolvimento e a manutenção de escarpas

imponentes, as quais se destacam em relação às unidades litológicas subjacentes por

processos erosivos diferenciais, como já foi referido. A fracturação – falhas e diáclases –,

além de controlar o alinhamento das escarpas (E-O), favorece o colapso de blocos que

cobrem as vertentes da RP (depósitos de vertente). Por outro lado, a meteorização cársica

conduz ao alargamento e aprofundamento das fracturas, promovendo o desenvolvimento

do carso à superfície e em profundidade, cuja evolução carsológica conduz ao abatimento

das cavidades cársicas e ao consequente recuo das escarpas.

A RP corresponde assim a um relevo estrutural e residual que resultou da

interligação de várias condicionantes – litológicas, estratigráficas, tectónicas,

geomorfológicas, hidrológicas e climáticas (Lopes e Fernandes, 2006a, 2006b) –

encontrando-se actualmente em fase de conservação pois os processos erosivos – erosão

diferencial e carsificação – encontram-se retardados dada a fraca competência da actual

rede hidrográfica que se encontra em fase de colmatação devido à subida do nível das

águas do mar e aos baixos valores de pluviosidade na região.

99
CAPÍTULO 4

– PRODUTOS –
Capítulo 4 – Produtos
____________________________________________________________________________________________________________

4. PRODUTOS

Como resultado das investigações realizadas, foram criadas condições para o

desenvolvimento de iniciativas e a produção de materiais de cariz científico, pedagógico e

didáctico, com o objectivo de divulgar o trabalho desenvolvido e de promover a

valorização, a alfabetização e a divulgação científicas nos domínios das Geociências e da

Educação Ambiental, tendo como referência o património geológico da área de estudo.

De notar que alguns dos materiais foram criados no âmbito de parcerias e

colaborações estabelecidas com várias instituições que mostraram interesse e

disponibilidade para desenvolver projectos visando a geodiversidade e a geoconservação

do património geológico da RP.

Deste modo, foram elaborados os seguintes materiais, os quais se encontram

incluídos num CD-ROM anexado à dissertação, de modo a poderem ser facilmente

reproduzidos e utilizados:

Mapa geológico da RP e região envolvente (Apêndice II);

Mapa geomorfológco da RP (Apêndice III);

Quatro painéis – A Rocha da Pena (Apêndice IV); A morfologia cársica da RP

(Apêndice V); “Formações rochosas da vertente sul” (Apêndice VI);

“Formações rochosas da vertente norte” (Apêndice VII) – elaborados para a

CML no âmbito da requalificação do percurso pedestre existente no Sítio

Classificado da RP (Maio de 2005; actualizados em Outubro de 2006);

Guia-de-campo: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da

Geodiversidade (Apêndice VIII) – elaborado para a Associação Almargem no

âmbito da preparação de novos percursos interpretativos no Sítio Classificado da

RP (Outubro de 2006);

Folheto A4: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – ao encontro da Geodiversidade

(Apêndice IX);

101
Capítulo 4 – Produtos
____________________________________________________________________________________________________________

Página Web: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da Geodiversidade

(Apêndice X) (disponibilizada em http://rochadapena.no.sapo.pt) – para promover

e divulgar a geologia da RP de uma forma rápida, de baixo custo, fácil,

interactiva e acessível (BRILHA et al., 1999; LEGOINHA et al., 2000).

Paralelamente ao desenvolvimento da presente dissertação e dos materiais acima

referidos tiveram ainda lugar as seguintes iniciativas:

Preparação de uma comunicação no VII Congresso Nacional de Geologia:

Lopes, F. e Fernandes, P. (2006) – Promoção geológica e ambiental: o exemplo

da Rocha da Pena (Algarve) in Mirão, J. Balbino, A. (Coord.) – Livro de resumos

do VII Congresso Nacional de Geologia, vol. III, Pólo de Estremoz da

Universidade de Évora, pp. 953-956;

Preparação de uma saída de campo e do respectivo guia-de-campo sobre os

aspectos geológicos e geomorfológicos da RP no âmbito de uma acção de

formação de professores no I Encontro de Professores de Geociências do Alentejo

e Algarve promovido pela Associação para a Defesa e Divulgação do Património

Geológico do Alentejo e Algarve (Outubro de 2006).

102
Capítulo 5 – Conclusões
____________________________________________________________________________________________________________

CAPÍTULO 5

– CONCLUSÕES –

5.1. Conclusões gerais

5.2. Problemas, limitações do trabalho e sugestões para futuros trabalhos

103
Capítulo 5 – Conclusões
____________________________________________________________________________________________________________

5. CONCLUSÕES

5.1. Conclusões gerais

A RP e a área envolvente localizam-se em terrenos pertencentes ao Maciço Antigo

e à Bacia Algarvia, sendo que as unidades litostratigráficas encontradas possuem idades

compreendidas entre o topo do Carbonífero Inferior (Namuriano) e o Quaternário, com

duas grandes lacunas estratigráficas – uma entre a base do Carbonífero Superior e o

Triásico Superior e outra entre o Jurássico Inferior e, pelo menos, o Pliocénico.

A RP trata-se de um relevo estrutural e residual, resultante da interligação de

várias condicionantes – litológicas, estratigráficas, tectónicas, geomorfológicas,

hidrológicas e climáticas. A estrutura da RP corresponde a um anticlinal, com eixo de

direcção E-O, formado durante o regime tectónico compressivo de direcção N-S ocorrido

a partir do Cretácico Superior e no Paleogénico (TERRINHA, 1998; TERRINHA et al.,

2000a). A tectónica Alpina produziu uma fracturação com orientação preferencial E-O

que desempenha um importante papel no controlo do alinhamento da RP e da rede

hidrográfica da área de estudo. As estruturas tectónicas – frágeis e dúcteis – terão

rejogado durante os vários regimes tectónicos experimentados ao longo da evolução

tectónica e estrutural da Bacia Algarvia. O destacamento da RP em relação ao relevo

adjacente, associado ao levantamento da Serra Algarvia iniciado a partir do Pliocénico

Superior, foi efectivado pela rede fluvial através de erosão vertical – devido ao encaixe da

rede hidrográfica como resultado do seu rejuvenescimento – e de erosão diferencial –

relacionada com as diferentes competências das unidades litostratigráficas. A conservação

da RP ao longo do tempo deve-se, por um lado, ao fenómeno de imunidade cársica –

associado à morfologia cársica desenvolvida na RP – e, por outro, a condições

paleoclimáticas pouco favoráveis à erosão subaérea (climas pouco húmidos).

A evolução das escarpas norte e sul da RP está intimamente relacionada com a

litologia, com a tectónica e com a evolução carsológica. O destacamento e a manutenção

das escarpas norte e sul da RP encontram-se relacionados com o fenómeno de erosão

diferencial, pois as litologias carbonatadas que as constituem são mais competentes

104
Capítulo 5 – Conclusões
____________________________________________________________________________________________________________

relativamente às unidades litostratigráficas subjacentes. O alinhamento das escarpas é

claramente controlado pela fracturação de orientação preferencial E-O e o seu recuo e

evolução estão associados ao desenvolvimento e abatimento de cavidades cársicas.

Em resultado do trabalho desenvolvido foi possível elaborar um mapa geológico e

um mapa geomorfológico da região da RP, e além da componente científica que a

presente dissertação visou, esta foi também desenvolvida no sentido da informação

produzida e reunida não ficar confinada à comunidade académica. Nesse sentido, e

reconhecendo a RP como um geomonumento de elevada geodiversidade, dadas as suas

características de monumentalidade e particularidades a nível da geologia, esta deve ser

considerada um património geológico que importa valorizar e divulgar como um

georrecurso cultural, numa concepção de cultura alargada ao saber científico, não

renovável, e que deve ser preservada e legada como herança às gerações futuras

(GALOPIM DE CARVALHO, 1999; LOPES e FERNANDES, 2006a, b). Deste modo, procurou-

se estabelecer parcerias para a conjugação de intenções e de esforços no sentido de

fomentar condições para disponibilizar a RP como um recurso físico-natural de promoção

geológica, ambiental e de alfabetização científica. Nesse contexto, foi possível, em

colaboração com a Câmara Municipal de Loulé (CML), com a Associação de Defesa do

Património Cultural e Ambiental do Algarve (Almargem) e com a recente Associação

para a Defesa e Divulgação do Património Geológico do Alentejo e Algarve (DPGA),

articular várias iniciativas para a valorização da RP. Para além dos materiais científico-

educativos construídos – painéis, guia-de-campo e panfleto – no âmbito das colaborações

referidas, visando fomentar uma divulgação fácil, rápida e acessível a qualquer cidadão,

foi elaborada uma página Web – Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – ao encontro da

geodiversidade – disponível em http://rochadapena.no.sapo.pt, com as principais

informações produzidas e reunidas sobre a geologia da RP. De destacar que os materiais

científico-educativos produzidos reúnem as principais informações sobre a geologia da

RP em texto devidamente ilustrado e em linguagem acessível à maioria da população, de

modo a cumprir uma das premissas da presente dissertação – contribuir para o

105
Capítulo 5 – Conclusões
____________________________________________________________________________________________________________

desenvolvimento de actividades outdoor integradas no ensino formal ou não-formal, de

modo a promover a valorização e a alfabetização e divulgação científicas nos domínios da

geodiversidade e da geoconservação.

5.2. Problemas, limitações do trabalho e sugestões para futuros trabalhos

Ao longo da presente investigação surgiram algumas limitações e problemas que

dificultaram e atrasaram as tarefas e os trabalhos inicialmente planificados. Esses

problemas surgiram principalmente associados ao trabalho de campo, que acabou por se

alargar mais tempo do que aquele que havia sido previsto inicialmente, pelo facto do

trabalho ter sido dificultado devido aos difíceis acessos associados às características

topográficas e à própria vegetação da área de estudo, e pela inexperiência do investigador,

o que implicou um processo de aprendizagem de técnicas de investigação em Geociências

indispensáveis ao trabalho a desenvolver. Além do mais, houve também razões

profissionais que acabaram por interferir grandemente no desenvolvimento dos trabalhos.

Por outro lado, os resultados da investigação realizada apresentam as limitações

associadas às técnicas e aos recursos utilizados – nesta investigação os recursos

resumiram-se essencialmente à bússola, ao martelo de geólogo, à lupa de geólogo, ao

ácido clorídrico diluído (para despistagem de carbonatos) e a uma base topográfica da

área (parte da folha 588 da Carta Militar de Portugal do IGEO) –, não tendo utilizada

qualquer tecnologia mais sofisticada.

Todavia, pode-se concluir que os objectivos delineados para a presente dissertação

foram alcançados, tendo-se inclusivamente obtido informações relevantes para o

conhecimento da estrutura da base da Bacia Algarvia, pelo menos localmente. No

entanto, qualquer investigação nunca é definitiva nem considerada terminada, pelo que se

levantam algumas questões que carecem, ainda, de um desenvolvimento e de uma

investigação mais pormenorizados, nomeadamente: i) determinar se o alinhamento das

ribeiras do Freixo e da Brazieira, respectivamente nos sectores oeste e este da área de

estudo, é controlado por fracturas ou se resulta de uma inadaptação da rede hidrográfica

ao relevo devido ao dobramento das unidades mesozóicas no limite setentrional da Bacia

106
Capítulo 5 – Conclusões
____________________________________________________________________________________________________________

Algarvia; ii) pouco conhecimento da estratigrafia da Formação de Picavessa bem como

da dolomitização que afecta as suas litologias – no caso da dolomitização secundária

levantam-se algumas interrogações: quais as fontes? qual o processo? qual o grau e qual a

extensão? (a realização de lâminas delgadas, de datações e de análises químicas

auxiliarão esses estudos); iii) pouco conhecimento do Complexo vulcano-sedimentar a

nível das litologias, da distribuição e evolução dos centros vulcânicos, do ambiente –

subaéreo, subaquático ou ambos? – e dos processos geoquímicos associados; iv)

confirmar se os níveis argilosos encontrados no seio e no topo do Complexo vulcano-

sedimentar estão associados a processos pedogénicos; v) determinar se as intrusões

encontradas nas falhas com direcção E-O e algumas que cortam o Complexo vulcano-

sedimentar são contemporâneas dessa unidade ou se têm alguma relação, em termos de

idade, com a instalação do Maciço Subvulcânico de Monchique ou com outra actividade

magmática; vi) nos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas torna-se

necessário realizar um estudo mais pormenorizado no domínio paleontológico,

nomeadamente a nível de microfósseis, para melhor determinar os ambientes

sedimentares e possibilitar eventuais datações, além de se ter tornado importante a

confirmação da presença de estegocéfalos na unidade pelo facto de aí ter sido encontrado

um fóssil desses animais, o que levanta alguns problemas de interpretação da estratigrafia

e na datação das unidades da base do Mesozóico, e vii) estudo do carso, nomeadamente

os depósitos (brechas cársicas, terra rossa e espeleotemas) de modo a determinar a idade

das fases morfogenéticas e os paleoclimas responsáveis pela sua origem e evolução.

No que respeita à componente de geoconservação aludida no presente trabalho, foram

visadas, de forma pouco sistematizada e formal, apenas algumas das tarefas necessárias

para uma estratégia de geoconservação. Deste modo, para efectivar e optimizar uma

verdadeira estratégia de geoconservação e gestão da RP, torna-se importante e necessário

desenvolver uma metodologia de trabalho, propondo-se, por exemplo, a metodologia

apresentada em Brilha (2005, 2006), tendo em conta as orientações e as propostas do

Grupo Português da ProGEO.

107
– REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS –
Referências bibliográficas
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114
– APÊNDICES –
Os materiais que se seguem encontram-se incluídos num CD-ROM, anexado à

presente dissertação, de modo a poderem ser facilmente reproduzidos e utilizados:

Apêndice I – Mapa com a localização dos afloramentos e fotografias referidos no texto

Apêndice II – Mapa geológico da Rocha da Pena e da região envolvente

Apêndice III – Mapa geomorfológico da Rocha da Pena

Apêndice IV – Painel: A Rocha da Pena (miniatura anexada)

Apêndice V – Painel: A morfologia cársica da Rocha da Pena (miniatura anexada)

Apêndice VI – Painel: Formações rochosas da vertente norte da Rocha da Pena


(miniatura anexada)

Apêndice VII – Painel: Formações rochosas da vertente sul da Rocha da Pena (miniatura
anexada)

Apêndice VIII (separata) – Guia-de-campo: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao


encontro da geodiversidade

Apêndice IX – Folheto A4: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da


geodiversidade

Apêndice X – Página Web: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da


geodiversidade
APÊNDICE I MAPA COM A LOCALIZAÇÃO DE AFLORAMENTOS E FOTOGRAFIAS REFERIDOS NO TEXTO

Casa Branca
Tameira

Fig. 3.36

Fig. 3.46

Fig. 3.3; 3.4; 3.47

Brazieira
de Cima
Quinta do Freixo Fig. 3.24

Fig. 3.7

Fig. 3.38-V; 3.41; 3.58

Fig. 3.40
Fig. 3.54; 3.66-II Fig. 3.6 III
Fig. 3.18; 3.22
Fig. 3.61-I
Fig. 3.62-IV Fig. 3.28-I
Brazieira
Fig. 3.52
Fig. 3.29-II
de Baixo
Fig. 3.61-II; 3.62-II Fig. 3.14; 3.17; 3.19; 3.20; 3.21; 3.23; 3.25; 3.26; 3.27; 3.50
Fig. 3.65-I
Fig. 3.64 Fig. 3.55 Fig. 3.60; 3.67
Fig. 3.62-III
Fig. 3.39 Fig. 3.38-I,II
Fig. 3.31 Fig. 3.38-III,IV Fig. 3.63-II
Fig. 3.30-II Fig. 3.30-I
Fig. 3.28-II
Fig. 3.31 Fig. 3.63-I

Fig. 3.65-II
Fig. 3.42
Fig. 3.62-I
Fig. 3.63-III
Fig. 3.13-IV
Moinhos
Fig. 3.66-I,III,IV Fig. 3.59-II Fig. 3.29-I,III
Fig. 3.33; 3.51 da Pena
Fig. 3.43
Fig. 3.9-II; 3.11; 3.12
Fig. 3.13-I,II,III
Fig. 3.16-II
Fig. 3.6-I; 3.8; 3.9-I,III; 3.10

Fig. 3.16-I
Fig. 3.15
Fig. 3.16-III

Fig. 3.2
Alcaria
Fig. 3.5; 3.49

Beirada
1000 metros
EN124

Parte da folha 588 (Salir) da Carta Militar de Portugal na escala original 1/25.000 do IGEO.
APÊNDICE II MAPA GEOLÓGICO DA ROCHA DA PENA E DA ÁREA ENVOLVENTE

Francisco Lopes (2006)

XG

N Cas

Cas
?
AS
Cas

AL
291 GS28 28
AS
Cas
Cas
Cas
Cas Cas Cas XG
? 26
Cas
290
18
Cas

CVS PV
15 AL
PV Cas PV
Cas 50 CVS PV ?
CVS
PV
267 AL
AS

30
? CVS 301
XG
PV
CVS
?
20
304 45
360
AS
23
Quinta do? CVS 70 32

51
299
Freixo CVS
35
? PV
BICA
AL 42
? DV
48

256 DV
25 383
17
PV 33
25
CVS DV CVS
62 468
356 DV 278 266
CVS 480
15 41
37
Cal
471 DV
12
22 473 40 50
33

20 37
22 17
20 16 30
20
Cal
DV ROCHA DA PENA 479 35
18
58
CVS
07 30 20 456 PENA
Int
? DV Int
Int
DV
Gesso
374
264
23 DV DV 16
25 DV
20 56
DV
CVS
Int
22
CVS
10 Gesso
335 Rocha da
CVS 14 66 DV
Penina 18
20 16 Pena DV 22 27

30
25 18
70 20
DV 302
33
DV AS
CVS DV
24 PV

282 317 18 30
331 15 20
Int 14
30
48

30
12 17 CVS 19
26
16
27 PV 34
Cal 24
344 Cas Cas
Cas Cas

337 ArgV 328 30


AL
Cal

0 500 m CVS
296
249
285 Pena
ArgV
Cal

Cartografia do autor e adaptada da folha oriental da Carta Geológica da Região Algarvia, na escala 1/100.000, SGP (1992); base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal na escala original 1/25.000 do IGEO.
LEGENDA

Aluvião

Quaternário
Neogénico Depósitos de vertente

Cascalheiras e areias
Pliocénico
Formação de Picavessa (dolomitos, calcários dolomíticos,
calcários e brecha dolomítica)
Sinemuriano Argilas vermelhas do topo do Complexo vulcano-
sedimentar
Jurássico Inferior Complexo vulcano-sedimentar (piroclastos remobilizados,
tufos vulcânicos, brechas vulcânicas, intrusões de
doleritos e escoadas de basaltos)
Hetangiano
Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas
(argilitos e arenitos finos, calcários, dolomitos e gesso
intercalados)
Triásico Superior Retiano Arenitos de Silves (arenitos, siltitos, argilitos e
conglomerados)

Carbonífero Namuriano Formação de Mira (xistos argilosos e grauvaques)

Falha
Falha normal
Falha inversa
Desligamento
Falha provável
Falha oculta
Limite geológico

28 Atitude da estratificação (direcção e inclinação)

Vértice Geodésico e pontos cotado

Moinho

Povoação

Gesso

Intrusão básica
APÊNDICE III MAPA GEOMORFOLÓGICO DA ROCHA DA PENA
Francisco Lopes (2006)

N 267 312

304
Quinta do Freixo

356 468 289


480
459 476
c
c b
479 a 456
448
ROCHA DA PENA
PENA374
243
335
Rocha
Penina

311
331
344
0 500 m 328
238
285 Pena
296
Cartografia realizada com recurso a trabalho de campo e a fotografias aéreas à escala 1:15.000 fornecidas pelo IGEO; base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal na escala original 1/25.000 do IGEO.
LEGENDA

Topo e base da vertente

Vertente rectilínea (maior proximidade dos traços verticais indica maior declive)

Escarpa de falha

Cornija

Falha

Linha de água

Sentido da inclinação da superfície topográfica

Dolina

Campo de lapiás

Algar (a- Algar da Caldeirinha; b- Algar dos Mouros)


a b
Ponto cotado e Vértice Geodésico (altitude em metros)

Povoação

c Amuralhamento de cascalheiras do Neolítico.


APÊNDICE IV
A Rocha da Pena
As formações rochosas da Rocha da Pena
Corte geológico evidenciando as formações rochosas da Rocha da Pena
A Rocha da Pena é formada por rochas sedimentares carbonatadas Coluna Litostratigráfica Tipos de rochas
Rochas mais resistentes
(calcários, dolomitos e brechas carbonatadas) e a região envolvente é
Rochas menos resistentes ROCHA DA PENA Rochas menos resistentes 0,01 Ma* – Actual Areias, argilas e seixos
constituída por rochas de origem sedimentar e magmática. Esta variedade
500
Sul Norte 500

de rochas indica-nos que nesta área existiram, ao longo do tempo, Depósitos de vertentes – fragmentos de rochas carbonatadas a
400 400 1,81 Ma* – Actual
cobrir as vertentes da Rocha da Pena
ambientes geológicos diversificados. No corte geológico e na coluna 300 300

200
litostratigráfica, que se encontram à direita, é possível observar, de uma 190 – 180 Ma*
200
Calcários, dolomitos e brechas carbonatadas
100 100

forma simplificada, as diferentes litologias que constituem a Rocha da 0 0 v v v


v
v

Pena e a região envolvente.


v
-100 -100 Rochas magmáticas: lavas de basaltos; piroclastos; brechas
195 – 190 Ma*
v
v
v v
-200
0 500 1000 1500 2000 2500 3000
-200 v v
vulcânicas e intrusões de doleritos
v v
v v
Distância (m)

200 – 195 Ma* Argilas com carbonatos e evaporitos intercalados

230 – 200 Ma* Arenitos, algumas argilas e leitos de seixos


Origem da Rocha da Pena e evolução das escarpas
325 – 310 Ma* Xistos argilosos e grauvaques intercalados
* Ma – Milhões de anos
O destacamento da Rocha da Pena em relação ao relevo envolvente parece
estar principalmente associado a uma importante erosão diferencial (erosão
determinada pelas diferentes resistências das rochas) – os calcários e dolomitos,
Esquema simplificado da evolução das escarpas norte e sul da Rocha da Pena O recuo das escarpas é condicionado pela
mais resistentes, resistiram aos processos erosivos, enquanto as rochas vulcano- fracturação, com direcção preferencial este-
oeste, e pelo abatimento de cavidades
argiloso-areníticas, menos resistentes, foram erodidas, como é evidenciado no cársicas.
te te
corte geológico apresentado acima. Por outro lado, a natureza carbonatada das As fracturas e as estruturas Es A presença de fracturas com orientação Es
Algar
cársicas promovem a infiltração Dolina preferencial este-oeste condiciona o alinhamento
rochas da Rocha da Pena, permitiu o desenvolvimento de uma morfologia típica, da água da chuva, pelo que a das escarpas.
Associada à evolução recente das escarpas há a
formação de depósitos de vertente (clastos e
denominada modelado cársico (lapiás, dolinas, algares e grutas). Essa morfologia erosão das rochas à superfície
blocos carbonatados) que cobrem as vertentes
é pouco significativa.
cársica, associada à elevada fracturação das rochas, promove uma rápida
Depósitos de da Rocha da Pena, dificultando a observação
vertente das formações rochosas que as constituem.
infiltração da água da chuva e consequentemente um fraco escoamento superficial, ste ste
Oe Oe
sendo as taxas de erosão das rochas à superfície bastante baixas. Deste modo, a
Rocha da Pena tem sido conservada ao longo do tempo.
A Rocha da Pena a norte e a sul é limitada por escarpas que parecem resultar Fractura
de uma evolução mista – tectónica (falhas e diáclases com orientação preferencial
este-oeste) e por meteorização cársica (dissolução das rochas pela água da chuva Falha
Gruta
e abatimentos de cavidades), como é apresentado no esquema à direita. Falha

TEMPO

A escarpa sul Pormenor de uma parte da escarpa sul


Legenda:
3 3
Panorâmica de uma parte da escarpa sul 1. Rochas carbonatadas, mais resistentes à erosão.
2. Rochas vulcano-argiloso-areníticas, menos resistentes à erosão.
3. Recuos com forma côncava na escarpa, resultantes do abatimento de cavidades cársicas (grutas, algares, dolinas).
4. Zona da escarpa onde as rochas (brechas carbonatadas) resultaram da consolidação de materiais que preencheram
1
uma cavidade cársica.
4 5. Clastos e blocos de dimensão variável de rochas carbonatadas, que resultam da evolução da escarpa – depósitos de
vertente.
As rochas apresentam cavidades e fissuras devido à existência de fracturas que acabaram por ser alargadas e
2 aprofundadas devido à circulação da água da chuva, a qual tem a capacidade de dissolver as rochas carbonatadas.
A coloração da superfície das rochas da escarpa é, normalmente, cinzenta. Contudo, esta cor é resultante da
meteorização química das rochas, por reacção dos seus elementos metálicos com o oxigénio atmosférico. A sua cor
real é, entre outras, branca e bege.
5
Autores: Francisco Lopes e Paulo Fernandes
APÊNDICE V
A morfologia cársica da Rocha da Pena
Características e origem da morfologia cársica
Esquema do processo de dissolução dos calcários

A Rocha da Pena é formada por calcários e dolomitos e apresenta 1 A água da chuva torna-se
estruturas típicas do modelado cársico. Este tipo de paisagem caracteriza-se ligeiramente acidificada por possuir
CO2
pela existência de formas superficiais (lapiás, dolinas, …) e subterrâneas CO2
ácido carbónico, o qual resulta da 2
dissolução de dióxido de carbono A água da chuva adquire ainda maior acidez ao
(grutas), cuja formação se deve a um processo lento e natural denominado CO2 (CO2) atmosférico na água. atravessar o solo que se encontra enriquecido em CO2 e
em outros ácidos provenientes da respiração das raízes
carsificação. Esse processo consiste essencialmente no alargamento e das plantas e da decomposição da matéria orgânica.
CO2
aprofundamento gradual de fracturas e planos de estratificação através da
3
dissolução de rochas carbonatadas, como os calcários e os dolomitos. O Os calcários, maioritariamente compostos por calcite, sofrem dissolução pelo
CO2 ácido carbónico presente na água. Nesse processo de dissolução do calcário,
Fracturas
processo de dissolução dos calcários encontra-se esquematizado na figura à o ácido reage com a calcite formando bicarbonato de cálcio, o qual, dada a
direita. sua propensão de se dissolver na água, é assim fácil e gradualmente
removido pela água que circula através das rochas.

4 Os calcários são assim dissolvidos pela água da chuva acidificada que


Planos de ao circular pelas fracturas e juntas de estratificação alarga-as e
Calcário
estratificação Gruta aprofunda-as gradualmente, originando-se deste modo um modelado
cársico com lapiás, dolinas, grutas, …

Formas cársicas mais comuns na Rocha da Pena

Terra rossa – depósito argiloso de cor Dolinas – Depressões geralmente fechadas, de dimensão variável (da dezena à centena de metros de Algares – Cavidades que se desenvolvem no sentido vertical, mais profundas do
vermelha, resultante da acumulação dos diâmetro), mais largas do que profundas, e com contorno aproximadamente circular ou elíptico. que largas, e que podem comunicar com cavidades subterrâneas (grutas).
resíduos insolúveis presentes nas rochas
carbonatadas (argilas, areia fina e óxidos de
ferro) que ficam retidos como um solo
residual, no fundo dos sulcos, devido à
dissolução dessas rochas.

Terra rossa e fragmentos de calcários


(martelo como escala).

Entrada do Algar da Caldeirinha – cavidade com cerca


Lapiás – Formas escavadas e em relevo esculpidas nas rochas, que afloram à superfície ou que de 15 m de desenvolvimento vertical (martelo como escala).

estão cobertas de solo.

Dolina de dissolução (fotografia tirada a partir do amuralhamento de cascalheiras central, para sudoeste).

Corrosão dos lapiás – corrosão alveolar.

Grutas – Cavidades subterrâneas naturais, simples ou constituídas por


complexas ramificações, podendo apresentar um desenvolvimento
vertical e/ou horizontal. No seu interior pode-se encontrar espeleotemas –
estruturas como as estalactites, estalagmites e colunas – que resultam da
Campo de lapiás semi-enterrado no sector este da Rocha da Pena
(martelo e lapiseiras como escalas).
precipitação de carbonato de cálcio (normalmente calcite).
Corrosão dos lapiás – pia de dissolução.
Entrada do Algar dos Mouros – gruta de desenvolvimento horizontal com
Corrosão dos lapiás – corrosão alveolar. entrada semi-vertical.

Bibliografia: Crispim, J. A. (1982) Morfologia cársica do Algarve. Monografia da Licenciatura de Geologia. Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Lisboa, 172 pp. / Tomé, R. (1996) Morfologia Cársica no Concelho de Loulé: Abordagem preliminar. al-ulyã – Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, n.º 5, Loulé, pp. 217 – 239. Autores: Francisco Lopes e Paulo Fernandes
APÊNDICE VI
Formações rochosas da vertente norte da Rocha da Pena
As rochas são como livros, se as soubermos ler podemos conhecer a sua história. Através das rochas podemos saber quais as condições e os ambientes que existiram durante
Fotografia panorâmica da vertente norte a sua formação e conhecer, ainda, a localização paleogeográfica dos continentes e oceanos onde essas rochas se formaram. Com as rochas existentes na Rocha da Pena e na
região envolvente podemos reconstituir uma parte da história geológica do Algarve (ver quadro e evolução paleogeográfica abaixo).
Sul Norte
1 1. Formação de Picavessa 4. Pelitos com evaporitos e carbonatos Idade
Coluna
litostratigráfica Nome da
2. Depósitos de vertente 5. Arenitos de Silves Milhões de anos Litologia (características e origem das rochas)
(não reflecte a verdadeira Formação
(Ma)
3. Complexo vulcano-sedimentar 6. Formação de Mira espessura das litologias)

Quaternário Rochas: areias, argilas e seixos.


(Holocénico) Aluviões
Origem: materiais depositados pelos cursos de água no seu leito e fora deste durante períodos de cheia.
(0,01 Ma – Presente)

6 Rochas: fragmentos de rochas carbonatadas, angulosos, de dimensão variada, geralmente não consolidados.
Quaternário Depósitos de
(1,81 Ma – Presente) vertente Origem: materiais associados à evolução das escarpas e vertentes da Rocha da Pena, resultantes da
meteorização física das rochas e que se movimentam por acção da gravidade.

5
Pliocénico – Quaternário Cascalheiras e Rochas: fragmentos de grauvaques, xistos e quartzo, de dimensão variável, não consolidados.
4 areias
(2 – 0,01 Ma) Origem: transportados e depositados por antigas redes fluviais.

3
Rochas: carbonatadas (calcários, dolomitos e brechas dolomíticas) de cor clara.
2 Jurássico Inferior Formação de
Picavessa Origem: sedimentação em plataformas marinhas carbonatadas pouco profundas (inferiores a 100 metros) e de
(190 – 180 Ma)
águas quentes.

Mapa geológico simplificado da Rocha da Pena e da região envolvente


v v
v Rochas: lavas de basaltos, piroclastos (materiais sólidos expelidos nas erupções vulcânicas) e intrusões de
Jurássico Inferior v
XG v Complexo doleritos; normalmente, muito alteradas.
N Cas
v
Cas Legenda: (195 – 190 Ma). v vulcano-sedimentar Origem: magmatismo associado à evolução de um rifte continental (vale formado por falhas, na fronteira de
?
AS
v
placas tectónicas divergentes).
Cas

AL
- As diferentes cores representam as diferentes v v
GS

Cas
Cas
Cas
AS
litologias (legenda no quadro do lado direito) v v
Cas Cas Cas XG

Pelitos com
Cas

Rochas: argilas de tonalidade avermelhada, por vezes, violácea e esverdeada, com intercalações de arenitos
Cas

PV

Triásico Superior –
CVS
AL
PV Cas
Limite geológico v v evaporitos e
PV
Cas CVS PV ? v
CVS v finos, carbonatos e evaporitos.
Jurássico Inferior
AS PV

intercalações
AL
? CVS
CVS
? Falha
Origem: sedimentação num clima quente e seco em lagoas marinhas salgadas temporárias.
PV

AS Quinta do? CVS


Freixo CVS ? PV
(200 – 195 Ma) carbonatadas
BICA
? DV
Falha provável
DV
383
CVS
PV
DV CVS
Rochas: arenitos, argilas e alguns leitos de seixos (conglomerados) com coloração avermelhada.
CVS
ROCHA DA PENA
DV
Falha oculta
Triásico Superior Origem: deposição em ambientes fluviais, num clima quente e seco.
Arenitos de Silves
Cal DV

Aglomerado populacional (230 – 200 Ma)


DV ROCHA DA PENA 479
Int
PENA Entre estes sedimentos e a Formação de Mira existe um hiato temporal de cerca de 80 milhões de anos,
Gesso
? DV Int

devido ao levantamento tectónico e à erosão associada que ocorreu nesse período.


DV
Int 374
DV DV

CVS CVS
Gesso DV
Rocha da
DV
Vértice geodésico
Int DV
CVS
Penina Pena DV
DV CVS
DV

DV
PV
AS
Moinho Rochas: camadas alternantes de xistos argilosos e grauvaques com tonalidades acastanhadas, por vezes,
Int acinzentadas e violáceas; rochas dobradas e fracturadas.
Carbonífero
CVS
Cal
PV
Corte geológico
Cas Cas
Cas Cas
Formação de Mira Origem: sedimentação de areias e argilas transportadas para bacias oceânicas profundas, por correntes de
(325 – 310 Ma)
ArgV
AL
Cal

0 500 m
Pena
CVS
Área abrangida pela fotografia turbidez (mistura de água e sedimentos que se desloca sobre taludes submarinos); deformação posterior das
rochas associada à origem de uma cadeia montanhosa.
ArgV

Cartografia realizada pelos autores e adaptada da folha oriental da Carta Geológica da Região do Algarve, 1/100.000, do SGP (1992). Local de onde foi tirada a fotografia
Base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal do IGEO.

Evolução paleogeográfica dos continentes e oceanos


Corte geológico evidenciando a vertente norte da Rocha da Pena
4 5
1 2 3 Associado a esse rifte formaram-
Os processos que produziram A evolução do rifte levou 6
Durante a formação O supercontinente se lagoas salgadas temporárias A evolução desse rifte originou o
Área abrangida na fotografia a Cadeia Varisca originaram a ao afastamento dos
do supercontinente Pangea ao onde sedimentaram os Pelitos oceano Atlântico e juntamente com
deposição e posterior continentes e originou
Pangea originou-se a fragmentar-se com evaporitos e carbonatos; e outros riftes foi determinada a
deformação da Formação de mares. Nas margens
cadeia montanhosa originou zonas de vulcões que originaram o distribuição dos continentes e
Mira. A erosão dessa cadeia continentais desses
500
Sul Norte 500 Varisca rifte continental. Complexo vulcano-sedimentar. oceanos actuais.
originou os sedimentos dos mares depositaram-se
400 400 Arenitos de Silves. calcários, como os da
Formação de Picavessa
300 300

Há 240 Há 180
200 200
milhões de milhões de
América
do Norte Eurásia
100 100 anos atrás anos atrás América Presente
Oceano do Norte Eurásia
Pantalassa África
Índia
0 0 0º Equador 0º Equador 0º Equador
África América
-100 -100 Território do Sul
português América
Território
Austrália
-200 -200 do Sul
Índia
português
0 500 1000 1500 2000 2500 3000
Austrália
Distância (m)
Antártida Antártida

Bibliografia: Manuppella, G. (1988) Litoestratigrafia e Tectónica da Bacia Algarvia. Geonovas, Lisboa, Vol. 10, pp. 67 – 71 / Manuppella, G. (1992) Mesozóico. Carta Geológica de Portugal. Notícia Explicativa da Folha 8, escala 1/200 000. Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa, pp. 51 – 63 Autores: Francisco Lopes e Paulo Fernandes
APÊNDICE VII
Formações rochosas da vertente sul da Rocha da Pena
As rochas são como livros, se as soubermos ler podemos conhecer a sua história. Através das rochas podemos saber quais as condições e os ambientes que existiram durante
Fotografia panorâmica da vertente sul a sua formação e conhecer, ainda, a localização paleogeográfica dos continentes e oceanos onde essas rochas se formaram. Com as rochas existentes na Rocha da Pena e na
Sul 1
Norte região envolvente podemos reconstituir uma parte da história geológica do Algarve (ver quadro e evolução paleogeográfica abaixo).
Vértice geodésico
1. Formação de Picavessa 3. Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas Coluna
Idade
2. Depósitos de vertente 4. Complexo vulcano-sedimentar litostratigráfica Nome da
Litologia (características e origem das rochas)
Milhões de anos
(não reflecte a verdadeira Formação
(Ma)
espessura das litologias)

1 2
4 3 Quaternário Rochas: areias, argilas e seixos.
(Holocénico) Aluviões
Origem: materiais depositados pelos cursos de água no seu leito e fora deste durante períodos de cheia.
(0,01 Ma – Presente)

Rochas: fragmentos de rochas carbonatadas, angulosos, de dimensão variada, geralmente não consolidados.
Quaternário Depósitos de
(1,81 Ma – Presente) vertente Origem: materiais associados à evolução das escarpas e vertentes da Rocha da Pena, resultantes da
meteorização física das rochas e que se movimentam por acção da gravidade.

Pliocénico – Quaternário Cascalheiras e Rochas: fragmentos de grauvaques, xistos e quartzo, de dimensão variável, não consolidados.
(2 – 0,01 Ma) areias Origem: transportados e depositados por antigas redes fluviais.

Rochas: carbonatadas (calcários, dolomitos e brechas dolomíticas) de cor clara.


Jurássico Inferior Formação de
Picavessa Origem: sedimentação em plataformas marinhas carbonatadas pouco profundas (inferiores a 100 metros) e de
(190 – 180 Ma)
Mapa geológico simplificado da Rocha da Pena e da região envolvente águas quentes.

XG

N Cas

v v
?
Cas Legenda: v Rochas: lavas de basaltos, piroclastos (materiais sólidos expelidos nas erupções vulcânicas) e intrusões de
Jurássico Inferior v
doleritos; normalmente, muito alteradas.
AS
Cas

- As diferentes cores representam as diferentes v v Complexo


vulcano-sedimentar
AL
GS

Cas
Cas
Cas
AS
litologias (legenda no quadro do lado direito) (195 – 190 Ma). v Origem: magmatismo associado à evolução de um rifte continental (vale formado por falhas, na fronteira de
Cas XG
Cas
Cas Cas
Cas v
CVS
AL
PV
v v placas tectónicas divergentes).
PV
Cas
Cas PV
CVS PV ? Limite geológico
AL
AS
CVS
PV v v
? CVS
PV
CVS
? Falha Pelitos com Rochas: argilas de tonalidade avermelhada, por vezes, violácea e esverdeada, com intercalações de arenitos
AS Quinta do? CVS Triásico Superior – v
v v evaporitos e
Freixo CVS ? PV
BICA v finos, carbonatos e evaporitos.
? DV

383
Falha provável Jurássico Inferior intercalações
DV

CVS
PV
DV CVS
(200 – 195 Ma) carbonatadas Origem: sedimentação num clima quente e seco em lagoas marinhas salgadas temporárias.
CVS
ROCHA DA PENA
DV
Falha oculta
Cal DV

DV ROCHA DA PENA 479 Aglomerado populacional Rochas: arenitos, argilas e alguns leitos de seixos (conglomerados) com coloração avermelhada.
Triásico Superior
PENA
Origem: deposição em ambientes fluviais, num clima quente e árido.
Int
Gesso
? DV Int DV

Arenitos de Silves
Int 374
DV DV
DV
Vértice geodésico (230 – 200 Ma)
Entre estes sedimentos e a Formação de Mira existe um hiato temporal de cerca de 80 milhões de anos,
DV
CVS
Int
CVS
Gesso
Rocha da DV
CVS
Penina Pena DV
DV

Moinho devido ao levantamento tectónico e à erosão associada que ocorreu nesse período.
DV AS
CVS DV
PV

Int
CVS
Cal
PV

Cas Cas
Cas Cas
Corte geológico Rochas: camadas alternantes de xistos argilosos e grauvaques com tonalidades acastanhadas, por vezes,
ArgV
AL

acinzentadas e violáceas; rochas dobradas e fracturadas.


Cal

0 500 m CVS
Área abrangida pela fotografia
Pena Carbonífero
ArgV Formação de Mira Origem: sedimentação de areias e argilas transportadas para bacias oceânicas profundas, por correntes de
Local de onde foi tirada a fotografia (325 – 310 Ma)
Cartografia realizada pelos autores e adaptada da folha oriental da Carta Geológica da Região do Algarve, 1/100.000, do SGP (1992). turbidez (mistura de água e sedimentos que se desloca sobre taludes submarinos); deformação posterior das
Base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal do IGEO.
rochas associada à origem de uma cadeia montanhosa.

Corte geológico evidenciando a vertente sul da Rocha da Pena Evolução paleogeográfica dos continentes e oceanos
4 5
1 2 3 Associado a esse rifte formaram-
Os processos que produziram A evolução do rifte levou 6
Durante a formação O supercontinente se lagoas salgadas temporárias A evolução desse rifte originou o
Área abrangida na fotografia a Cadeia Varisca originaram a ao afastamento dos
do supercontinente Pangea ao onde sedimentaram os Pelitos oceano Atlântico e juntamente com
deposição e posterior continentes e originou
Pangea originou-se a fragmentar-se com evaporitos e carbonatos; e outros riftes foi determinada a
Norte deformação da Formação de mares. Nas margens
500
Sul 500
cadeia montanhosa originou zonas de vulcões que originaram o distribuição dos continentes e
Mira. A erosão dessa cadeia continentais desses
Varisca rifte continental. Complexo vulcano-sedimentar. oceanos actuais.
400 400
originou os sedimentos dos mares depositaram-se
300 300 Arenitos de Silves. calcários, como os da
Formação de Picavessa
200 200
Há 240 Há 180
100 100 milhões de milhões de
América
do Norte Eurásia
anos atrás anos atrás América Presente
0 0 Oceano do Norte Eurásia
Pantalassa África
Índia
0º Equador 0º Equador 0º Equador
-100 -100
África América
Território do Sul
-200 -200 português América
Território
Austrália
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 do Sul
Índia
português
Distância (m)
Austrália
Antártida Antártida

Bibliografia: Manuppella, G. (1988). Litoestratigrafia e Tectónica da Bacia Algarvia. Geonovas, Lisboa, Vol. 10, pp. 67 – 71 / Manuppella, G. (1992). Mesozóico. Carta Geológica de Portugal. Notícia Explicativa da Folha 8, escala 1/200 000. Serviços Geológicos de Portugal, Lisboa, pp. 51 – 63 Autores: Francisco Lopes e Paulo Fernandes
GUIA-DE-CAMPO

Francisco Lopes

2006
ÍNDICE

1. Introdução..................................................................................................................................................................... 1

2. Enquadramento geográfico e geomorfológico.............................................................................................................. 2

3. Enquadramento geológico............................................................................................................................................ 4

4. Alguns locais de interesse geológico na RP................................................................................................................. 7

Local A – Estrada 503, entre a Brazieira e a Tameira (panorâmica da vertente norte da RP; afloramentos da
Formação de Mira)……………………………………………………………………………………………......... 7
Local B – Caminho Brazieira - moinhos da Pena (afloramento do Complexo vulcano-sedimentar; falha E-O que
atravessa a vertente sul da RP e põe a contactar a Formação de Mira com a Formação de Picavessa)... 10
Local C – Alcaria, caminho Alcaria - RP (afloramento dos Arenitos de Silves; zona perto do contacto entre a
Formação de Mira e os Arenitos de Silves)………….. …………………………………………………………. 14
Local D – A oeste das Eirinhas, no caminho Eirinhas - RP (afloramento de Pelitos com evaporitos e intercalações
carbonatadas; panorâmica da vertente e da escarpa sul da RP)…………………………………………....... 15
Local E – Fonte do Vale do Álamo (afloramento de material piroclástico da base do Complexo vulcano-
sedimentar)…………………………………………………………………………………………………………... 17
Local F – Subida ao longo da vertente sul (escarpa sul da RP; brechas cársicas e afloramentos da Formação de
Picavessa)…………………………………………………………………………………………………………… 18
Local G – Miradouro norte (panorâmica da vertente norte) e LOCAL H – Vértice Geodésico 479 m (panorâmica
da vertente sul)…………………………………………………………………………………………………....... 19
5. Morfologia cársica…………………………………………………………………………………………………………….... 20

6. Estrutura, génese e evolução da RP e das suas escarpas……………………………………………………………….. 23

7. Referências Bibliográficas........................................................................................................................................... 26

8. Anexos........................................................................................................................................................................ 27
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

1. INTRODUÇÃO

A Rocha da Pena (RP) (Fig. 1) é um local de reconhecido interesse multidisciplinar devido às suas particularidades
geológicas, geomorfológicas, biológicas, paisagísticas e culturais, constituindo presentemente uma área protegida sob a figura do
Sítio Classificado da RP, nos termos do Decreto-Lei n.º 392/91 de 10 de Outubro. As suas particularidades atribuem-lhe um estatuto
que lhe confere o reconhecimento suficiente para ser citada nos mais diversos tipos de literatura e meios de comunicação com um
cariz mais científico e investigativo ou de índole meramente divulgativa. Por exemplo, M. FEIO (1952, p. 103), no seu trabalho sobre
“A Evolução do Relevo do Baixo Alentejo e Algarve” refere-se à RP como «(…) o único relevo verdadeiramente vigoroso de toda a
Orla Algarvia (…)».
Reconhecendo a RP como um geomonumento e um local de elevada geodiversidade, dadas as suas características de
monumentalidade e particularidades e a nível da geologia, esta deve ser considerada um património geológico que importa valorizar
e divulgar como um georrecurso cultural, numa concepção de cultura alargada ao saber científico, não renovável, e que deve ser
preservada e legada como herança às gerações futuras [1, 2]. Nesse sentido e tendo em conta a elevada geodiversidade e a boa
acessibilidade que a RP apresenta, esta constitui um local com elevado interesse científico-educativo passível de uma exploração
em actividades outdoor1 integradas no ensino formal ou mesmo no ensino não-formal2, onde, por exemplo, durante uma Saída de
Campo os visitantes poderão, na perspectiva das Geociências e da Educação Ambiental, explorar diversos aspectos geológicos e
geomorfológicos, tais como:
i) Enquadramento geológico – litologias, respectivos ambientes geológicos e estruturas não-tectónicas (estruturas
sedimentares), realçando o facto das rochas e das estruturas por elas evidenciadas representarem testemunhos da
história geológica da Terra;
ii) Estrutura, génese e evolução da RP e das suas escarpas – estruturas tectónicas (fracturas, dobras) e condicionantes
responsáveis pela origem e evolução da RP;
iii) Morfologia cársica – génese e algumas formas cársicas presentes na RP.

O E

Fig. 1 – Panorâmica da vertente sul da RP, evidenciando-se uma escarpa imponente com orientação E-O.

1 Actividade outdoor, no sentido aqui empregue, refere-se a uma actividade realizada em ambiente natural como, por exemplo, o estudo de um
afloramento rochoso [4]. Contudo, é de realçar que este tipo de actividade deve ter um carácter holístico e deve ser organizado e desenvolvido por
monitores com preparação científica e académica para o efeito [5].
2 O ensino formal enquadra as actividades curriculares, portanto, no âmbito de um programa curricular de uma determinada disciplina e de um
determinado nível de ensino. Por outro lado, o ensino não-formal engloba as actividades extra-curriculares, como clubes de ciência, passeios
pedestres e outras actividades realizadas no âmbito da divulgação e da alfabetização científicas [5, 6].

1
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

2. ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO E GEOMORFOLÓGICO

A RP localiza-se no Algarve, no concelho de Loulé, a oeste da vila de Salir (Fig. 2), encontrando-se na transição entre a
Serra Algarvia e o Barrocal Algarvio, abrangendo a Serra no sector norte e o Barrocal no sector sul (Fig. 3). Este relevo, juntamente
com outros relevos a oriente, como a Rocha dos Soidos e a Rocha de Messines, constitui o alinhamento E-O mais setentrional de
relevos carbonatados [3] do Barrocal Algarvio e da Bacia Algarvia no Algarve Central.

N
Alcoutim Rocha da Pena
Área de estudo
N Odeceixe Martilongo

124
Estrada
Lisboa

Serra de Monchique
Aljezur IC1
Faro Localidades
Monchique 50 km
Serra do Caldeirão
São Bartolomeu A02 503 124
de Messines
Serra do Espinhaço Salir
Alte Castro
de Cão 124 124 Barranco do Velho Marim
124 Benafim 525
Silves Tôr
524
A22
396 125 V. R. Sto.
Odiáxere IC1 525 S. Brás de Alportel
125 António
Boliqueime Tavira
Portimão
A22 Loulé
125 A22
Lagoa Guia
Vila do 125
Lagos 125
Bispo Luz
Albufeira Quarteira
Olhão
Faro 125
Cabo de
São Vicente
Sagres
0 20 km

I
Ponta de
Sagres

Limite da área de estudo

II
Limite do Sítio Classificado
0 1000 m da Rocha da Pena

Fig. 2 – Localização geográfica da RP. I – Mapa do Algarve com a localização da RP; II – Parte da folha 588 da Carta Militar de Portugal, na escala
original 1/25.000, do Instituto Geográfico do Exército, com a delimitação do Sítio Classificado da RP.

2
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

N
1

Serra de Monchique
Aljezur
500
300

200 2
3
100
4 200
V.R.Sto.
Tavira António
Portimão
Lagos Quarteira
Albufeira
Sagres Faro
Cabo de
São Vicente
0 20 km
Ponta de
Sagres
Litoral Meridional
Barlavento Sotavento

Litoral Algarvio Barrocal Algarvio Serra Algarvia Curvas de nível 1- Falha de S. Marcos-Quarteira
Área dedaEstudo
Rocha Pena Limite entre zonas
(equidistância de 50 m) 2- Falha da Eira de Agosto
3- Falha de Alportel
4- Flexura do Algibre

Fig. 3 – Enquadramento geomorfológico da RP, com a localização da Serra, Barrocal e Litoral (Litoral Ocidental e Litoral Meridional: Barlavento e
Sotavento) e alguns acidentes tectónicos (adaptado de [3, 7]).

A RP (Fig. 4) constitui um relevo de forma tabular cujo eixo maior tem orientação E-O, afunilado no extremo leste e
alargado no extremo oeste. Este relevo representa uma mesa com cerca de 1850 m de comprimento, 455 m de largura máxima e
uma altitude que varia entre os 440 e os 480 m. O topo do relevo no essencial é aplanado, inclinando geralmente para sul. As
vertentes norte e sul são simétricas e bastante íngremes, sendo constituídas por escarpas, que atingem os 50 m de altura no sector
sul, talhadas nas rochas carbonatadas da Formação de Picavessa,.

Elevação (m)

480m
ROCHA DA PENA
479m 448m

Metros

Fig. 4 – Modelo digital de terreno com a elevação, a hidrografia e os alinhamentos do relevo na RP e na área envolvente.

A RP (Fig. 4) encontra-se individualizada dos relevos adjacentes por vales talhados essencialmente nas formações
vulcano-argilo-areníticas do Triásico e da base do Jurássico Inferior. No sector norte, desenvolve-se um vale de orientação E-O onde
estão instaladas a ribeira da Brazieira e a ribeira do Freixo – a ribeira da Brazieira prolonga-se pelo sector este com um traçado NO-

3
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

SE, enquanto a ribeira do Freixo tem continuidade para oeste através de um vale de orientação N-S, o qual interrompe a
continuidade do alinhamento E-O da RP com a Rocha dos Soídos. No sector sul, encontra-se um vale principal com direcção
também E-O, menos amplo que os restantes, onde se desenvolve uma linha de água para oriente que conflui com a ribeira da
Brazieira. No sector sul, encontram-se ainda duas linhas de água de orientação N-S a drenar para sul, cortando os relevos calcários
que formam pequenas colinas inclinadas para sul.
Sendo a RP formada por rochas carbonatadas, é um local propenso à instalação de fenómenos cársicos, apresentando
consequentemente estruturas como lapiás, dolinas, algares e grutas.

3. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO

A RP e a área envolvente localizam-se em terrenos pertencentes ao Maciço Antigo (soco Paleozóico) e à Bacia Algarvia
(Fig. 5). O Maciço Antigo, na Península Ibérica, corresponde a um aplanamento da cadeia montanhosa Hercínica, que foi arrasada
pela erosão durante o Pérmico e parte do Triásico antes da fragmentação do Pangea [8]. Na área considerada, as formações
rochosas do Maciço Antigo pertencem ao Grupo do Flysch do Baixo Alentejo, uma das unidades litostratigráficas da Zona Sul
Portuguesa [9]. As restantes unidades pertencem à Bacia Algarvia, de idade meso-cenozóica, cuja estruturação esteve relacionada
com a abertura do oceano Atlântico Norte e a expansão do oceano Tétis para ocidente (Neo-Tétis Ocidental) e a consequente
fracturação do Pangea [10, 11]. Esta estruturação e evolução da Bacia Algarvia decorreram desde o Triásico Médio até meio do
Cretácico, tendo na fachada meridional estado essencialmente associada a movimentos distensivos NO-SE a N-S controlados pela
deriva diferencial da placa africana em relação à placa ibérica [7, 10, 11]. A Bacia Algarvia foi sujeita a um regime compressivo
polifásico de orientação N-S (inversão tectónica) durante o Cretácico Superior e o Cenozóico [10, 11].

N Odeceixe

Lisboa

Monchique Faro
50 km
Alzejur

Barranco
do Velho
Silves

V. R. Sto.
Loulé António
Tavira
Portimão
Lagos
Albufeira Quarteira
Faro
Cabo de Sagres 0 20 km
São Vicente
Ponta de
Sagres
Alto Fundo de
Sub-bacia Ocidental Budens-Lagoa Sub-bacia Oriental

Algarve Ocidental Algarve Central Algarve Oriental

Holocénico Cretácico Inferior Maciço intrusivo de Monchique (+/- 72 Ma)

Plistocénico Jurássico Superior Falha

Pliocénico Jurássico Médio - Inferior Falha inversa e cavalgamento

Miocénico Hetangiano - Triásico Superior Localidade

Paleogénico Soco paleozóico Rocha da Pena

Fig. 5 – Mapa geológico simplificado da região do Algarve (adaptado de [10, 12, 13, 14, 15, 16]).

4
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

Na RP e na área envolvente as unidades litostratigráficas encontradas possuem idades compreendidas entre o topo do
Carbónico Inferior (Namuriano) e o Quaternário, com duas grandes lacunas estratigráficas (Fig. 6 e 7): i) entre a base do Carbónico
Superior e o Triásico Superior; e ii) entre o Jurássico Inferior e, pelo menos, o Pliocénico.

Mapa Geológico da RP e da área envolvente


N
XG
Cas

Cas
?
AS
Cas

AL
28
GS 28
AS
Cas
Cas
Cas
Cas XG
? 26
Cas
Cas Cas 18
Cas

CVS PV
15 AL
PV Cas
Cas 50
PV
CVS PV ?
CVS
AS PV

30
? CVS AL

XG
PV
20 45
CVS
?
AS
23
Quinta do? CVS 70 32

Freixo CVS
35
? PV
51

BICA
42
AL
? DV
48

DV
25 383
17
PV 33
25
CVS DV CVS
62
DV
CVS

15 41
37
12 Cal 40
DV
22 33
50
20 37
22 17
20 16 30
20
Cal
DV ROCHA DA PENA 07 479
30 35
18
58
CVS 20
PENA
Int
? DV Int
Int
DV
Gesso
374
23 DV DV 16
25 DV
20

Rocha da
56
22 10 Gesso DV
CVS CVS
Int 66
Pena DV
CVS 14 DV
Penina 18 25 18
20 16 22 27

70 DV
30 20
33
DV AS
CVS DV
24 PV

18 30
20 48
15 30
Int 14
30
12 17 CVS 19
26
16
27 PV 34
Cal 24
Cas Cas
Cas Cas
ArgV 30
AL
Cal

0 500 m CVS

Pena
ArgV
Cal

1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- 11-

12- 13- 14- 15- 16- 17- 18- 19- 28 20- 21- 22-

1- Aluvião (Quaternário); 2- Depósitos de vertente (Quaternário); 3- Cascalheiras e areias (Plio-Quaternário); 4- Formação de Picavessa (Sinemuriano); 5- Argilas
vermelhas do Complexo vulcano-sedimentar (Sinemuriano); 6- Complexo vulcano-sedimentar (Hetangiano-Sinemuriano); 7- Pelitos com evaporitos e
intercalações carbonatadas (Retiano-Hetangiano); 8- Arenitos de Silves (Retiano); 9- Formação de Mira (Namuriano); 10- Gesso; 11- Intrusão básica; 12- Limite
geológico; 13- Falha; 14- Falha normal; 15- Falha inversa; 16- Desligamento; 17- Falha provável; 18- Falha oculta; 19- Atitude da estratificação (direcção e
inclinação); 20- Vértice Geodésico e ponto cotado; 21- Moinho; 22- Povoação; A linha com orientação N-S de cor verde corresponde ao corte geológico que se
apresenta na figura 23.

Fig. 6 – Mapa geológico simplificado da RP e da região envolvente (cartografia do autor e adaptada da folha oriental da Carta Geológica da Região
do Algarve, à escala 1/100.000, do SGP (1992); base cartográfica: folha 588 da Carta Militar de Portugal do IGEO).

5
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

Unidade litostratigráfica Características litológicas Estruturas sedimentares, Ambiente geológico


paleocorrentes, fósseis,
coloração, …
Aluvião Argilas, siltes, areias e A cobrir o fundo dos vales Continental fluvial; actualmente em
seixos rolados que rodeiam a RP fase de assoreamento
Clastos e blocos angulosos A cobrir as vertentes da Continental; erosão subaérea;
Depósitos de vertente associados à evolução dos relevos
de rochas da F. de Picavessa RP carbonatados
Quaternário

Clastos angulosos com A preencher o carso e as Erosão subaérea associada a


Brecha cársica e cimento carbonatado; fracturas desenvolvidos na fenómenos de carsificação
terra rossa depósito argiloso Formação de Picavessa
Cascalheiras e areias Areias, siltes, argilas e seixos Topograficamente acima Continental fluvia;l associado ao
Plioc.

rolados dos aluviões actuais rejuvenescimento da rede hidrográfica

Dolomitos, calcários Pisólitos, oólitos, fósseis Plataforma marinha carbonatada de


Formação de Picavessa dolomíticos, calcários e de corais e de águas quentes e de baixa
>150 m

brecha dolomítica gastrópodes e laminações profundidade


microbianas; com
dolomitizações
secundárias

v v v
v Materiais piroclásticos
v v
Jurássico Inferior

bem estratificados, alguns


Complexo Piroclastos, tufos vulcânicos, Actividade vulcânica ora explosiva ora
com granotriagem positiva
Até 150 m

vulcano-sedimentar brechas vulcânicas, escoadas efusiva; principalmente subaquática;


v v de basaltos e intrusões de
e evidenciando fluxos; por
associada à primeira fase de
v v vezes remobilizados;
doleritos riftogénese do Mesozóico
níveis de descontinuidade
v intercalados; elevado grau
v de alteração
v v
v

Dolomitos com laminações,


Argilitos, siltitos e arenitos Margino-litoral (tendência marinha
Até 210 m

Pelitos com evaporitos e fendas de contracção,


intercalações carbonatadas finos e intercalações de intraclastos e bioturbados; para o topo da sequência) com pulsos
evaporitos e carbonatos nódulos carbonatados; regressivos e transgressivos
(calcários e dolomitos) coloração avermelhada, por intercalados; clima quente e seco
vezes, esverdeada (ambiente tipo sabkha);
Triásico Superior

Paleocorrentes de N para
Arenitos, siltitos, argilas e
Até 65 m

Arenitos de Silves S; estruturas de canal; Continental fluvial com episódios de


leitos de conglomerados laminação paralela e enxurradas; clima quente e seco
com cimento ferruginoso entrecruzada
Carbónico

Sequências de Bouma; Deposição em fundos marinhos


Formação de Mira Xistos argilosos e profundos através de correntes de
tonalidades acastanhadas
grauvaques intercalados turbidez; deformados durante a
e esverdeadas
orogenia Varisca
Dolomitos, calcários Material piroclástico Gesso Arenitos, siltitos e
dolomíticos e calcários argilitos

Material argiloso v v v Piroclastos, tufos vulcânicos, brechas Halite Conglomerados


vulcânicas e escoadas de basaltos
Argilitos, siltitos e Xistos argilosos e
Intrusões de doleritos Dolomitos e calcários arenitos finos grauvaques

Fig. 7 – Coluna litostratigráfica sintética da RP e da área envolvente.

6
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

4. ALGUNS LOCAIS DE INTERESSE GEOLÓGICO NA RP

Dentre a elevada geodiversidade que a RP encerra, foram seleccionados 8 locais (Fig. 8) devido às suas características
representativas de algumas particularidades existentes naquele geomonumento. Deste modo, nesses locais poder-se-ão realizar
actividades de campo com o objectivo de observar e discutir alguns aspectos geológicos e geomorfológicos relacionados com as
unidades litostratigráficas aflorantes e com a estrutura, a génese e a evolução do relevo da RP. Para melhor enquadrar no tempo e a
paleogeografia da área de estudo encontra-se em anexo uma tabela cronostratigráfica (Anexos, Quadro 1) e uma reconstituição
paleogeográfica global (Anexos, Fig. 43) para o intervalo de tempo compreendido entre o Carbónico e o Quaternário.

N D
H F
E G

B
A
C

Aluvião (Quaternário)
Depósitos de vertente (Quaternário)
Areias e cascalheiras (Plio-Quaternário)
500 m Formação de Picavessa (Jurássico Inferior)
Argilas vermelhas (Jurássico Inferior)
Complexo vulcano-sedimentar (Jurássico Inferior)
Pelitos com evaporitos e carbonatos (Jurássico Inf. – Triásico Sup.)
Arenitos de Silves (Triásico Superior)
Formação de Mira (Carbónico)
Falha Gesso Intrusão básica

Fig. 8 – Modelo digital do terreno com a geologia da RP e da área envolvente e com a localização dos oito locais de interesse geológico
seleccionados (modelo elaborado por Vítor Correia).

LOCAL A – Estrada 503, entre a Brazieira e a Tameira (panorâmica da vertente norte da RP; afloramentos da Formação de
Mira)
Descrição geral: O local A encontra-se em terrenos pertencentes à Serra Algarvia, com litologias da Formação de Mira
(325 a 310 Ma3) do Grupo de Flysch do Baixo Alentejo da Zona Sul Portuguesa (soco Paleozóico). Neste local é possível obter uma
panorâmica da vertente e da escarpa norte da RP (Fig. 9). Nas barreiras da estrada 503, encontram-se afloramentos da Formação
de Mira – o substrato das unidades mesozóicas da Bacia Algarvia a leste de S. Bartolomeu de Messines –, que corresponde a
sequências de grauvaques e xistos argilosos intercalados com tonalidades acinzentadas e acastanhadas. Estas rochas tiveram
origem no Carbónico, há cerca de 325 a 310 Ma, durante a orogenia Varisca (período de compressão tectónica) no fundo de um
oceano profundo para onde ocorria o aporte de materiais siliciclásticos (areias, siltes e argilas) através de correntes de turbidez [9,
14, 15, 17, 18, 19] – os sedimentos mais grosseiros originaram os grauvaques e os mais finos os xistos argilosos. A evolução da
orogenia Varisca, durante o Pérmico e grande parte do Triásico – ao longo de mais de 70 Ma – promoveu a deformação e a

3 Ma = milhões de anos

7
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

elevação daqueles turbiditos, originando a cadeia montanhosa Varisca, que foi erodida e aplanada [8], tendo-se originado uma
lacuna estratigráfica correspondente a esse intervalo de tempo [13, 14, 15]. Essas rochas turbidíticas apresentam estruturas
sedimentares típicas de correntes de turbidez (sequência de Bouma) (Fig. 10) e estruturas tectónicas relacionadas com a orogenia
Varisca (dobras, fracturas, filões e clivagem) (Figs. 11 e 12).

E O

E A O

II
Fig. 9 – Vertente norte da RP. I- Panorâmica da vertente norte da RP, evidenciando-se a escarpa com orientação E-O; II- Pormenor da escapa
norte no sector este da RP, observando-se uma zona mais recuada (A) e um grande bloco de brecha cársica destacado da escarpa (B).

Divisão e (Argilas)

Divisão d (Silte laminado)

Divisão c
Fig. 10 – Sequência de Bouma completa;
(Areias com laminação cruzada) as divisões a, b, c correspondem a uma
bancada de grauvaque e as divisões d, e
Divisão b
(Areias com laminações paralelas) correspondem aos xistos argilosos (entre
a Brazieira e a Tameira na barreira
Divisão a (Areias com gradação positiva; base erosiva)
esquerda da estrada 503 no sentido
sul-norte; moeda como escala).

8
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

S N

1m
I

Falha: N45º,81ºS
S N
Falha: N43º / vertical
Falha: N68º / vertical

Falha: N37º,80ºN

S1: N72º,80ºS 1m
II 25 m
Fig. 11 – Afloramento da Formação de Mira com camadas em posição normal, evidenciando dobramentos, falhas e clivagem tectónica (S1).
I- Fotografia do afloramento; II- Esquematização do afloramento.

Xistos argilosos
S1
Grauvaques

Cv

S0

S1

Xistos argilosos

Fig. 12 – Afloramento da Formação de Mira com camadas sub-horizontais (S0) em posição normal evidenciando uma clivagem tectónica moderada
(S1: N0º,30ºE) nos xistos argilosos e a respectiva refracção da clivagem – clivagem tectónica oblíqua nos xistos argilosos (S1) e quase
perpendicular à estratificação nos grauvaques (Cv) (martelo como escala).

9
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

LOCAL B – Caminho Brazieira - moinhos da Pena (afloramento do Complexo vulcano-sedimentar; falha E-O que atravessa a
vertente sul da RP e põe a contactar a Formação de Mira com a Formação de Picavessa)
Descrição geral: O percurso entre o local A e o local B estabelece a passagem de terrenos pertencentes ao Maciço Antigo,
de idade paleozóica, para terrenos da Bacia Algarvia, de idade mesozóica. Deste modo, desde o local A até ao local B os visitantes
passam da Formação de Mira (325 a 310 Ma; local A) para os Arenitos de Silves (230 a 200 Ma) e destes para os Pelitos com
evaporitos e intercalações carbonatadas (200 a 195 Ma) até chegar ao Complexo vulcano-sedimentar (195 a 190 Ma; local B). É
possível assim nesse percurso observar alguns aspectos associados às litologias dessas unidades da base da Bacia Algarvia.
Contudo, os Arenitos de Silves e os Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas podem ser melhor observados,
respectivamente, nos locais C e D. De notar que, por vezes, o contacto entre as diferentes unidades não é visualizado porque estes
encontram-se cobertos por depósitos de vertente associados à evolução das vertentes e das escarpas da RP.
No caso do Complexo vulcano-sedimentar, trata-se de uma sequência formada por uma alternância de piroclastos
remobilizados, tufos vulcânicos, brechas vulcânicas, escoadas de basaltos e intrusões de doleritos (Figs. 13 a 22) [20, 21, 22, 23]
em elevado grau de alteração. A origem destas litologias esteve associada ao magmatismo continental de tipo fissural e de carácter
toleítico da primeira fase de riftogénese do Mesozóico [23], que conduziu à abertura do oceano Atlântico na actual fachada ocidental
e de um braço do mar de Tétis na fachada meridional [11]. De um modo geral, o vulcanismo terá ocorrido principalmente em
condições subaquáticas e terá sido relativamente explosivo dado que há predomínio de materiais piroclásticos (piroclastos
remobilizados, tufos vulcânicos e brechas). Porém, esses episódios explosivos foram intercalados com episódios efusivos traduzidos
por escoadas basálticas, encontrando-se também rochas hipabissais representadas por intrusões de doleritos (rochas magmáticas
com composição química idêntica à do gabro e do basalto e com textura entre esses dois tipos de rocha).
No local B, após o afloramento do Complexo vulcano-sedimentar, perto do final do caminho que conduz até aos moinhos
da Pena, encontra-se novamente a aflorar a Formação de Mira (325 a 310 Ma), a qual contacta com a Formação de Picavessa (190
a 180 Ma). Esta situação é possível graças a uma falha de direcção E-O que atravessa a vertente sul da RP e que rejeita as
unidades litostratigráficas mais de 300 m na vertical (Fig. 23).

10
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?
6m
Material argiloso de cor vermelha (Fig. 22)

(3)
(4)
(3)
Escoada basáltica amígdalóide
12 m
(3) (4) Camadas centimétricas de material piroclástico grosseiro e vesicular (1 m de espessura)
(3) Níveis de descontinuidade de tonalidades amareladas (Fig. 21)

0,2 m Nível argiloso de cor avermelhada rejeitado 50 cm por uma falha inversa N35º,58ºN; S0: N92º,30ºS (Fig. 20)

Escoada basáltica amígdalóide (vesículas preenchidas com CaCO3); com diáclases N34º e N70º;
8m
desligamento esquerdo N130º
(2) base da escoada de textura maciça, fina e pouco vesicular (Fig. 19)

(2)
Contacto com direcção N90º,30ºS
4m
Camada de material muito fino de cor avermelhada

Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica e de granolumetria


6m
variável; S0: N82º,30ºS (Fig. 18)

3,2 m Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias

1,7 m Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica; S0: N85º,28ºS

9m Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias

0,25 m Tufos vulcânicos de grão fino bem estratificados


Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias (Fig. 17)
0,45 m Tufos vulcânicos de grão fino, formando camadas de espessura centimétrica; S0: N88º,50ºS

(1)

25 m Brecha vulcânica com xenólitos de dimensão e litologias diversas – calcários, dolomitos,


argilitos e rochas ígneas –, os quais apresentam alguma ordenação
(1) intrusões, algumas das quais constituem diques com direcção N55º
(1)

Intrusão de dolerito muito fracturada e com disjunção esferoidal (Fig. 16)


9m
(1) (1) intrusões posteriores

4,5 m
Material piroclástico de grão fino, cor amarelada (Fig. 15)

1m Material piroclástico de grão fino, cor avermelhada, cimento carbonatado; S0: N85º,26ºS (Fig. 14)
?

Fig. 13 – Coluna litostratigráfica de um afloramento do Complexo vulcano-sedimentar (caminho Brazieira – moinhos da Pena).

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Fig. 14 – Material piroclástico de cor avermelhada com cimento carbonatado


(S0: N85º,26ºS) da base do Complexo vulcano-sedimentar (martelo como escala).

Fig. 15 – Aspecto de material piroclástico fino de cor amarelada com estratificação


N80º,25ºS (martelo como escala).

Fig. 16 – Aspecto de alteração de uma intrusão


de dolerito. I- Aspecto típico de grande
fracturação, evidenciando-se a acção das raízes
das plantas no processo de alteração;
II- Disjunção esferoidal (casca-de-cebola)
I II (martelo como escala).

Fig. 17 – Brecha vulcânica com xenólitos de diversas litologias


(argilitos, carbonatos e fragmentos de materiais de outros episódios
magmáticos), os quais denotam um alinhamento preferencial
(representado pela seta branca) concordante com a estratificação
das litologias sub e suprajacentes (martelo como escala).

12
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Fig. 18 – Tufos vulcânicos em camadas centimétricas (S0: N80º,30ºS) (martelo como


escala).

Fig. 19 – Escoada basáltica. I- Base da escoada


basáltica com algumas vesículas preenchidas
com carbonato de cálcio (amígdalas) (S0:
N90º,28ºS); II- Pormenor de uma amígdala
fusiforme que indica o sentido do escape dos
gases para o topo da bancada (martelo e moeda
I II como escalas).

Fig. 20 – Nível argiloso de cor avermelhada de atitude N92º,30ºS, no seio de


escoadas basálticas amigdalóides, rejeitado 50 cm por uma falha inversa N35º,58ºN
(martelo como escala).

Es
Pr

Fig. 21 – Camadas centimétricas (N80º,30ºS) de material piroclástico (Pr)


Es
grosseiro e vesicular no seio de duas escoadas (Es), destacando-se ainda a
Ds existência de uma superfície de descontinuidade (Ds) (martelo como escala).

Fig. 22 – Transição entre material piroclástico grosseiro, à direita, e argilas


vermelhas, à esquerda, as quais marcam o topo do Complexo vulcano-sedimentar
(martelo como escala).

13
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N S
500 500

400 400

300 300

200 200

100 100

0 0

-100 -100

-200 -200
0 500 1000 1500 2000 2500 3000
Distância (m)

Formação de Picavessa Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

Argilas vermelhas do topo do Complexo vulcano-sedimentar Arenitos de Silves

Complexo vulcano-sedimentar Formação de Mira Intrusão básica

Fig. 23 – Corte geológico de direcção N-S realizado no sector este da RP, passando pelo ponto cotado de 473 m (miradouro norte).

LOCAL C – Alcaria, caminho Alcaria - RP (afloramento dos Arenitos de Silves; zona perto do contacto entre a Formação de
Mira e os Arenitos de Silves)
Descrição geral: Os Arenitos de Silves (230 a 200 Ma) assentam em discordância angular sobre o soco Paleozóico,
consistindo em arenitos, argilitos e conglomerados avermelhados (Fig. 24) [22, 24], organizados em sequências positivas, que
correspondem a depósitos aluvionares transportados de NE para SO e S para depocentros (zonas mais abatidas) originados por
forças distensivas na fase de pré-riftogénese associada à formação do oceano Atlântico Norte e do Neo-Tétis Ocidental e
consequente fragmentação do Pangea [10, 11, 24]. Os leitos de conglomerados podem ser interpretados como materiais
depositados nos canais fluviais activos, enquanto os materiais mais finos se depositavam nas planícies de inundação [24, 25]. A
coloração avermelhada dos sedimentos deve-se às condições de oxidação e à presença de óxidos de ferro [26]. Esses sedimentos
triásicos sugerem ainda ter sido formados num clima quente e árido compatível com a posição geográfica próxima do equador e com
a interioridade da Península Ibérica no continente Pangea [27, 28]. No local C, a unidade encontra-se afectada por 3 famílias de
diáclases principais (N55º,90º; N0º,90º e N100º,90º) (Fig. 25).

14
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OSO ENE

II

III

Fig. 24 – Afloramento de Arenitos de Silves com atitude N120º,24ºSO. I- Fotografia evidenciando leitos e bolsadas de conglomerados e brechas
intercalados com arenitos finos a médios de cimento ferruginoso; II- Pormenor de um leito de conglomerado com elevada heterogeneidade de
clastos de grauvaque e quartzo angulosos e sub-angulosos suportados por uma matriz arenosa e ferruginosa; III- Pormenor de uma figura erosiva
(martelo, moeda e lapiseira como escalas)

OSO ENE

N100º,90º

N0º,90º

Fig. 25 – Afloramento de Arenitos de Silves com atitude


N55º,90º N120º,24ºSO afectado por 3 famílias de diáclases principais
(N55º,90º; N0º,90º e N100º,90º) (martelo como escala).

LOCAL D – A oeste das Eirinhas, no caminho Eirinhas - RP (afloramento de Pelitos com evaporitos e intercalações
carbonatadas; panorâmica da vertente e da escarpa sul da RP)
Descrição geral: No local D é possível ter uma panorâmica sobre a vertente e a escarpa sul da RP, para além de se
observar uma sequência dos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (200 a 195 Ma). Essa unidade é representada por
uma sequência de argilitos, siltitos e arenitos finos de cor avermelhada, com dolomitos argilosos laminados e evaporitos intercalados
(Figs. 26 a 28) [22, 29, 30]. Os dolomitos constituem bancadas de espessura variável e são normalmente argilosos, de cor branca a
esverdeada, apresentando estruturas sedimentares, tais como laminações, intraclastos, fendas de contracção e bioturbação (Fig.
27). Podem ainda ser encontrados nódulos carbonatados pedogénicos (calcrete) (Fig. 28) a formar horizontes ou dispersos no seio
dos materiais pelíticos. Esses nódulos de calcrete encontram-se associados a processos pedogénicos, provavelmente durante fases
de regressão marinha – os níveis de calcrete que formam horizontes correspondem a estádios mais avançados de desenvolvimento

15
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desses paleossolos [26]. Esta unidade teve origem em lagoas salgadas marinhas sujeitas a sucessivos pulsos transgressivos e
regressivos num clima quente e seco (ambiente margino-litoral tipo sabkha) [22, 24, 26, 30], durante a fase de pré-riftogénese
associada à fracturação do Pangea.

SE NO
Falha normal: N28º,66NO

Material piroclástico do Complexo vulcano-sedimentar


NC

NC

Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

2m NC- Níveis carbonatados (dolomitos primários) com nódulos


carbonatados (S0: N85º,16ºSE)

Fig. 26 – Afloramento de Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas, nas Eirinhas, onde se evidencia uma unidade pelítica predominante
de cor avermelhada com níveis e camadas carbonatadas (dolomitos primários) perto do topo; o afloramento é coroado por uma bancada de
material piroclástico do Complexo vulcano-sedimentar;

I II III

Fig. 27 – Nódulos de carbonatos e gesso nodular nos Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas. I- Nódulos de calcrete formando
horizontes associados a camadas de carbonatos no topo da unidade; II- Pormenor do aspecto interior de um nódulo carbonatado; III- Gesso
nodular no seio de pelitos vermelhos (lapiseira e moeda como escalas).

16
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Topo da camada

I II

Fig. 28 – Estruturas sedimentares nas camadas centimétricas de


dolomitos intercalados nos Pelitos com evaporitos e intercalações
carbonatadas. I- Intraclastos; II- Bioturbação; III- Fendas de

III contracção (moeda e martelo como escalas).

LOCAL E – Fonte do Vale do Álamo (afloramento de material piroclástico da base do Complexo vulcano-sedimentar)
Descrição geral: No local E é possível observar o contacto entre os Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas
(200 a 195 Ma) e o Complexo vulcano-sedimentar (195 a 190 Ma). A base do Complexo vulcano-sedimentar é marcada por uma
bancada com mais de 4 m de espessura de materiais piroclásticos de grau fino (Fig. 29), os quais apresentam tonalidades amarelo-
torradas, estratificação cruzada, parecendo ter sido remobilizados por um fluxo – aquático ou eólico –, encontrando-se no seu seio,
com alguma abundância, mineralizações, provavelmente de óxidos de ferro.

Fig. 29 – Sequência métrica de material


piroclástico fino da base do Complexo vulcano-
sedimentar, com estratificação cruzada e vários
1m
níveis erosivos (Fonte do Vale do Álamo).

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LOCAL F – Subida ao longo da vertente sul (escarpa sul da RP; brechas cársicas e afloramentos da Formação de
Picavessa)
Descrição geral: Ao longo da subida da vertente sul até ao topo é possível observar diversos aspectos relacionados com
as litologias da Formação de Picavessa (190 a 180 Ma) e a evolução do relevo da RP. Em termos litológicos, a escarpa sul da RP
pode ser dividida em dois sectores: i) sector oeste, formado por brechas cársicas (clastos e blocos de carbonatos cimentados, que
preenchem as cavidades cársicas como grutas e algares; 1,8 Ma até ao presente) (Figs. 30 e 31), e ii) sector leste, constituído por
rochas carbonatadas da Formação de Picavessa (calcários, calcários dolomíticos, dolomitos e brechas dolomíticas [15, 22]) bem
estratificadas (N80º,20ºN). Associada à evolução e ao recuo das escarpas há o abatimento de cavidades cársicas e a queda de
blocos que acabam por cobrir as vertentes (depósitos de vertente), encontrando-se em alguns locais massas rochosas de material
brechificado destacadas da escarpa. No caso das rochas carbonatadas da Formação de Picavessa, que constituem as escarpas da
RP, pode-se encontrar perto do topo no sector este litologias indicadoras de que aqueles materiais tiveram origem em plataformas
marinhas carbonatadas de águas quentes e de baixa profundidade [26, 31], sendo frequente encontrar pisólitos, laminações
microbianas e macrofósseis de corais, gastrópodes e outros (Fig. 32).

I II

Fig. 30 – Brechas cársicas na RP associadas à Formação de Picavessa. I e II- Aspecto de brechas cársicas que preenchem o carso e que se
encontram expostas na escarpa sul da RP (martelo e moeda como escalas).

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O 2 2 E

Fig. 31 – Pormenor da escapa sul no sector oeste da RP; (1) toda a escarpa na área representada na fotografia é constituída por brechas cársicas,
identificando-se essas brechas em alguns locais mesmo à distância; (2) zonas de abatimento de cavidades cársicas, que constituem locais de
recuo com forma côncava na escarpa; (3) clastos e blocos carbonatados de dimensão variável que resultam da evolução da escarpa e que cobrem
a vertente – depósitos de vertente; as rochas apresentam cavidades e fissuras devido à existência de fracturas que acabaram por ser alargadas e
aprofundadas devido à circulação da água da chuva, a qual tem a capacidade de dissolver as rochas carbonatadas; a coloração da superfície das
rochas da escarpa é, normalmente, cinzenta; contudo, essa cor é resultante da meteorização química das rochas, por reacção dos seus elementos
metálicos com o oxigénio atmosférico; a sua cor real é, entre outras, branca e bege.

I II

Fig. 32 – Pormenores das litologias da Formação de Picavessa. I- Calcário pisolítico; II- Laminações, provavelmente originadas por microalgas
(perto do topo da RP no caminho pedestre na vertente sul; lapiseira e moeda como escalas).

LOCAL G – Miradouro norte (panorâmica da vertente norte) e LOCAL H – Vértice Geodésico 479 m (panorâmica da vertente
sul)
Descrição geral: Os locais G e H são privilegiados para a observação da disposição espacial e da relação estratigráfica
das unidades litológicas que afloram na RP, além do alinhamento E-O das escarpas e dos vales que destacam a RP do relevo
adjacente (Figs. 33 e 34). Deste modo, estes dois locais possibilitam a discussão de particularidades e aspectos sobre a génese, a
evolução e a estrutura da RP e das suas escarpas norte e sul. Por outro lado, as escarpas e o topo da RP constituem áreas onde é
possível a observação e a discussão de aspectos inerentes à morfologia cársica. Assim, o percurso entre o local G e o local H torna-
se muito interessante a nível do modelado cársico.

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Sul 1 Norte

1. Formação de Picavessa 3. Pelitos com evaporitos e carbonatos Vértice geodésico


2. Depósitos de vertente 4. Complexo vulcano-sedimentar

1 2
4 3

Fig. 33 – Panorâmica a partir da vertente sul da RP (Vértice Geodésico), evidenciando-se a distribuição espacial das diferentes unidades
litostratigráficas.

Sul Norte
1. Formação de Picavessa 4. Pelitos com evaporitos e carbonatos
1 2. Depósitos de vertente 5. Arenitos de Silves
3. Complexo vulcano-sedimentar 6. Formação de Mira

4
3

Fig. 34 – Panorâmica a partir da vertente norte da RP (miradouro norte), evidenciando-se a distribuição espacial das diferentes unidades
litostratigráficas.

5. Morfologia cársica
A natureza carbonatada das litologias da Formação de Picavessa, em associação com condições paleoclimáticas
favoráveis (climas húmidos), promoveu a instalação de fenómenos de carsificação (Fig. 35). Deste modo, a RP encerra várias
formas cársicas que apesar de modestas e pouco exuberantes têm, certamente, um importante significado morfológico e genético a
nível local e regional. Relativamente ao exocarso, pode-se encontrar um campo de lapiás (formas escavadas e em relevo esculpidas
nas rochas, que afloram à superfície ou que estão cobertas de solo) (Fig. 36) muito característico com diversas formas de corrosão
(Fig. 37) e várias dolinas (depressões geralmente fechadas, de dimensão variável – da dezena à centena de metros de diâmetro –,

20
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mais largas do que profundas, e com contorno aproximadamente circular ou elíptico) (Fig. 38). O carso subterrâneo encontra-se
representado por grutas tipo algar (cavidades que se desenvolvem no sentido vertical, mais profundas do que largas, e que podem
comunicar com outras cavidades subterrâneas) (Figs. 39) [32, 33, 34]. Através de uma análise geral da morfologia cársica presente
na RP, pode-se verificar que o tipo, a orientação, a localização e a distribuição das formas cársicas são condicionadas pela litologia,
pela estrutura e pela fracturação. A RP é de facto um relevo cársico cuja carsificação em tempos foi extremamente importante e
determinante no desenvolvimento das formas cársicas encontradas. Todavia, actualmente, ao invés de existir a construção de novas
formas, predomina a degradação das formas herdadas de ciclos carsológicos anteriores [35].

1 A água (H2O) da chuva torna-se ligeiramente


acidificada por possuir ácido carbónico (H2CO3)
resultante da dissolução de dióxido de carbono
(CO2) atmosférico na água [H2O + CO2 → H2CO3].

CO2
CO2 2 A água da chuva adquire, ainda, maior
CO2 acidez, ao atravessar o solo que se
CO2
encontra enriquecido em CO2.

Fracturas 3 Os calcários, maioritariamente compostos


por calcite (CaCO3), sofrem dissolução pelo
ácido carbónico presente na água [CaCO3 +
2+
Planos de H2CO3 → Ca + 2HCO3]. Assim, à medida
estratificação que a água da chuva acidificada circula pelas
Calcário fracturas e planos de estratificação, estes
são gradualmente alargados e aprofundados,
Gruta
originando-se deste modo um modelado
cársico, com lapiás, dolinas, grutas, …

Fig. 35 – Esquema do processo de carsificação em rochas carbonatadas [adaptado 35].

Fig. 36 – Campo de lapiás (Karrenfeld)


semi-enterrado, apresentando algumas
arrestas vivas no topo da RP (martelo
como escala).

21
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I II

III IV
Fig. 37 – Alguns aspectos característicos na superfície dos lapiás. I- Corrosão alveolar em dolomitos com um aspecto ruiniforme; II- Corrosão
alveolar em dolomitos cujo aspecto se assemelha a favos-de-mel; III- Corrosão em dolomitos que ao sublinhar as fendas e fracturas confere um
aspecto rendilhado tipo “pele-de-elefante”; IV- Pia de dissolução com bordos aguçados e forma rectangular (topo da RP; martelo e lapiseira como
escalas).

S N

Fig. 38 – Duas dolinas alinhadas na direcção E-O e embutidas em uma depressão maior, no sector oeste da RP (contornos da depressão maior
representados com cor laranja; fundo das dolinas assinalado com cor amarela).

22
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I II
Fig. 39 – Grutas tipo algar na RP. I- Abertura do Algar dos Mouros na parte central do topo da RP; II- Entrada do Algar da Caldeirinha no sector
oeste do topo da RP (martelo como escala).

6. Estrutura, génese e evolução da RP e das suas escarpas


A RP corresponde a um relevo estrutural e residual que resultou da interligação de várias condicionantes – litológicas,
estratigráficas, tectónicas, geomorfológicas, hidrológicas e climáticas [2, 35].
A estrutura da RP (Figs. 23 e 40) corresponde a um anticlinal recortado e deslocado por falhas. As falhas principais foram
geradas durante o Triásico (250 - 200Ma) e o Cretácico Inferior (145 – 100 Ma), em regime distensivo, tendo depois rejogado como
inversas durante a fase compressiva ocorrida durante o Cretácico Superior (100 - 66 Ma) e o Cenozóico (66 Ma - presente). O
dobramento anticlinal que se vislumbra terá sido gerado durante a fase de tectónica compressiva do Cretácico Superior. No
Pliocénico (5,3 – 1,8 Ma) ou anteriormente, durante um período erosivo, terá sido gerada uma superfície fundamental que nivelava
os terrenos do Paleozóico e do Meso-Cenozóico (Fig. 41) [3, 36]. Porém, a partir do Pliocénico Superior (3 Ma) até à actualidade a
Serra Algarvia terá sofrido relativamente à área de sopé um levantamento de cerca de 200 m [7], que promoveu o encaixe das rede
hidrográfica e a erosão vertical que destacou a RP do relevo adjacente por erosão diferencial associada à diferente litologia e à
estratigrafia das unidades mesozóicas – os calcários e dolomitos da Formação de Picavessa, mais resistentes, subsistiram aos
processos erosivos, enquanto as rochas subjacentes vulcano-argiloso-areníticas do Triásico-Sinemuriano (230 – 190 Ma), menos
competentes, foram erodidas [2, 3, 36]. Por outro lado, a natureza carbonatada da Formação de Picavessa e a sua elevada
fracturação em associação a condições paleoclimáticas favoráveis (climas húmidos) promoveram o desenvolvimento de um carso
que determinou a hidrologia e desencadeou o fenómeno de imunidade cársica [2, 32, 36] – manutenção de determinado relevo
cársico, devido a taxas de erosão baixas em virtude da ausência de escorrência subaérea nas superfícies plenamente cársicas [37].
Esse fenómeno de imunidade cársica associado a paleoclimas pouco favoráveis à erosão (climas pouco húmidos) tem conservado
ao longo do tempo a RP, sendo esta um relevo cársico herdado de fases morfogenéticas anteriores [2, 32, 35].
Em relação à evolução das escarpas, esta está intimamente relacionada com a litologia, com a tectónica e com a evolução
carsológica (Fig. 42) [2, 35]: i) a elevada competência das litologias da Formação de Picavessa confere uma resistência aos
processos erosivos, favorecendo o desenvolvimento e a manutenção de escarpas imponentes, as quais se destacam em relação às
unidades litológicas subjacentes por processos erosivos diferenciais, como já foi referido; ii) a fracturação (falhas e diáclases), além
de controlar o alinhamento das escarpas, favorece o colapso de blocos, e iii) a meteorização cársica ao alargar e aprofundar as
fracturas promove o desenvolvimento de cavidades cársicas à superfície e em profundidade, cuja evolução carsológica conduz ao
abatimento dessas cavidades e ao consequente recuo das escarpas.

23
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N S 1 TRIÁSICO – CRETÁCICO INFERIOR


Regime distensivo
N-S; deposição das unidades
litostratigráficas triásicas e jurássicas;
formação de falhas normais de
orientação preferencial E-O.

N S 2 A PARTIR DO CRETÁCICO SUPERIOR


Regime compressivo N-S; rejogo das falhas
como inversas e dobramento das unidades
litológicas; instalação de linhas de água com
direcção preferencial E-O e erosão diferencial
(calcários e dolomitos subsistiram aos
processos erosivos, enquanto as unidades
subjacentes vulcano-argilo-areníticas foram
erodidas); carsificação das unidades
carbonatadas, principalmente, em períodos
húmidos e desencadeamento do fenómeno de
imunidade cársica que conduziu à preservação
do relevo.

N S

3 PRESENTE
A RP é um relevo
estrutural e residual
herdado de fases
morfogenéticas
anteriores.

Aluvião Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas

Depósitos de vertente Arenitos de Silves

Formação de Picavessa Formação de Mira

Argilas vermelhas do topo do Complexo vulcano-sedimentar Intrusão básica

Complexo vulcano-sedimentar

Fig. 40 – Génese e estrutura da RP (adaptado de [35]).

24
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

SO NE
Juncal
600 m

Rocha da Pena (522)


(470) Vale Mendes
Cota
400
200

1 3 5 7 km
Distância

Fig. 41 – Perfil entre o Juncal e a RP ilustrando a continuidade, na orla, da superfície de aplanação do soco Paleozóico (adaptado de [38]).

E
As fracturas e as estruturas cársicas
Lapiás promovem a infiltração da água da
Dolina chuva, pelo que a erosão das rochas
à superfície é pouco significativa –
imunidade cársica.
O
Algar
A presença de fracturas com
orientação preferencial E-O
condiciona a direcção das escarpas.

Depósitos de vertente
Diáclases

T Falha
Gruta
Falha
E
M
P
O E
O recuo das escarpas é condicionado pela
fracturação, com direcção preferencial E-O,
e pelo abatimento de cavidades cársicas.

O
Associada à evolução recente das
escarpas há a formação de
depósitos de vertente (clastos e
blocos carbonatados) que cobrem as
vertentes da Rocha da Pena.

Fig. 42 – Esquema simplificado da evolução das escarpas norte e sul da RP (adaptado de [35]).

25
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[26] Nichols, G. (1999) – Sedimentology and Stratigraphy, Blackwell Publishing, UK, 355 pp.
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Environment, Information Programme, aric, Manchester Metropolitan University, Manchester, 99 pp.
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Geociências do Alentejo e Algarve, Universidade do Algarve, Faro, CD-ROM, 18 pp.
[36] Medeiros-Gouvêa, A. (1938) – Algarve: aspectos fisiográficos, Tese de Doutoramento, Universidade de Coimbra, Instituto para a Alta Cultura, Lisboa, 160 pp.
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CNRS, pp. 13-68.
[38] Almeida, C. A. (1985) – Hidrogeologia do Algarve Central. Tese de Doutoramento, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Lisboa, 333 pp.

26
Guia-de-campo: «Rocha da Pena (Loulé, Algarve): ao encontro da geodiversidade»

8. ANEXOS

Fig. 43 – Reconstituição paleogeográfica desde do Carbónico até ao presente (retirado de [27]).

Quadro 1 – Tabela cronostratigráfica desde o Carbónico até ao Quaternário (modificado de Internacional Stratigraphic Chart of ICS, 2006)
Eonotema/Éon Eratema/Era Sistema/Período Série/Época Andar/Idade Idade (Ma)
Holocénico
Quaternário 0,01
Plistocénico
1,8
Pliocénico
Neogénico 5,3
Cenozóico Miocénico
Oligocénico 23,0
33,9
Paleogénico Eocénico
55,8
Paleocénico
65,5
Superior
Cretácico 99,6
Inferior
Superior 145,5
Médio 161,2
Toarciano 175,6
Fanerozóico Jurássico
Pliensbaquiano
Inferior
Sinemuriano
Mesozóico Hetangiano
199,6
Retiano
Superior Noriano
Carniano
228,0
Triásico Ladiniano
Médio
Anisiano
245,0
Olenequiano
Inferior
Induano
Pérmico 251,0
Paleozóico Pensilvaniano 299,0
Carbónico 318,1
Mississipiano
359,2

27
EVOLUÇÃO DAS ESCARPAS NORTE E SUL MORFOLOGIA CÁRSICA

Sendo a Rocha da Pena formada por rochas carbonatadas, é um local


Esquema da evolução das escarpas da Rocha da Pena propenso à instalação de fenómenos cársicos, apresentando
consequentemente estruturas como lapiás, dolinas, algares e grutas.

As fracturas e as estruturas cársicas


Esquema do processo de dissolução dos calcários
promovem a infiltração da água da chuva,
te
Es pelo que a erosão das rochas à superfície
1
é pouco significativa – imunidade cársica.
2
Lapiás
Dolina CO2
st e CO2
Oe A presença de fracturas com
Algar CO2
orientação preferencial este-
oeste condiciona a direcção CO2
das escarpas.
TEMPO

CO2
Diáclases
Planos de 3
Depósitos estratificação
Falha
Gruta de vertente
Falha
Calcário
Fracturas 4
Gruta
O recuo das escarpas é
te
Es condicionado pela fracturação,
com direcção preferencial este-
oeste, e pelo abatimento de 1 A água da chuva torna-se ligeiramente acidificada por possuir ácido carbónico, o qual resulta
cavidades cársicas. da dissolução de dióxido de carbono (CO2) atmosférico na água.
st e
Oe
Associada à evolução 2 A água da chuva adquire ainda maior acidez ao atravessar o solo que se encontra
recente das escarpas há enriquecido em CO2 e em outros ácidos provenientes da respiração das raízes das plantas
a formação de depósitos
e da decomposição da matéria orgânica.
de vertente (clastos e
blocos carbonatados)
que cobrem as vertentes
da Rocha da Pena. 3 Os calcários, maioritariamente compostos por calcite, sofrem dissolução pelo ácido
carbónico presente na água. Nesse processo de dissolução do calcário, o ácido reage com
a calcite formando bicarbonato de cálcio, o qual, dada a sua propensão de se dissolver na
água, é assim fácil e gradualmente removido pela água que circula através das rochas.

Os calcários são assim dissolvidos pela água da chuva acidificada que ao circular pelas
4
fracturas e juntas de estratificação alarga-as e aprofunda-as gradualmente, originando-se
Vertente norte da Rocha da Pena, evidenciando-se a escarpa e os deste modo um modelado cársico com lapiás, dolinas, grutas, …
depósitos de vertente na base da escarpa cobrindo a vertente
(fotografia tirada de oeste para este).
Entrada do Algar da Caldeirinha – cavidade com
cerca de 15 m de desenvolvimento vertical
(martelo como escala).
Escarpa Pia de dissolução desenvolvida na
superfície horizontal de um lapiás
(lapiseira como escala).
Depó
Depósitos de vertente

Outubro 2006
Outubro 2006

AUTOR: Francisco Lopes / REVISÃO CIENTÍFICA: Paulo Fernandes


A ROCHA DA PENA ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO

A Rocha da Pena é um Sítio Classificado nos termos do As rochas e as paisagens geológicas são como livros, se as Coluna litostratigráfica da Rocha da Pena
Decreto-Lei n.º 392/91 de 10 de Outubro e localiza-se no Algarve, no soubermos ler podemos conhecer a sua história e assim saber quais as Idade Coluna litostratigráfica
concelho de Loulé, a oeste da vila de Salir. Este relevo, encontra-se na condições e os ambientes que existiram durante a sua origem. Milhões de anos (Ma) (não reflecte a verdadeira Descrição da Formação
espessura das litologias)
transição entre a Serra Algarvia e o Barrocal Algarvio, abrangendo a
Serra no sector norte e o Barrocal no sector sul. A Rocha da Pena, Modelo digital do terreno e geologia da Rocha da Pena Quaternário Aluviões: areias, argilas e seixos; ambiente continental
(0,01 Ma – Presente) fluvial.
juntamente com outros relevos a ocidente, como a Rocha dos Soídos
e a Rocha de Messines, constitui o alinhamento este-oeste mais N Depósitos de vertente: fragmentos de rochas carbonatadas
Quaternário
geralmente não consolidados; associados à evolução das
setentrional de relevos carbonatados do Barrocal Algarvio e da Bacia (1,81 Ma – Presente)
escarpas e vertentes da Rocha da Pena.

Algarvia no Algarve Central. Areias e cascalheiras: fragmentos de grauvaques, xistos e


Plio-Quaternário
quartzo de dimensão variável; transportados e depositados por
(2 – 0,01 Ma)
antigas redes fluviais.

Formação de Picavessa: calcários, dolomitos e brechas


Modelo digital do terreno com a elevação, a hidrografia Jurássico Inferior
dolomíticas de cor clara; sedimentação em plataformas
marinhas carbonatadas de águas quentes e de baixa
e o alinhamento do relevo na Rocha da Pena (190 – 180 Ma) profundidade (inferior a 100 metros).
Complexo vulcano-sedimentar: escoadas de basaltos,
piroclastos (materiais sólidos expelidos nas erupções
Elevação (m) v
v v
vulcânicas) e intrusões de doleritos; normalmente muito
v
v v alteradas; magmatismo associado à evolução de um rifte
Jurássico Inferior v continental (vale formado por falhas, na fronteira de placas
500 m (195 – 190 Ma)
v
v v tectónicas divergentes).
v v

v
v v
v Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas:
Aluvião (Quaternário) argilitos de tonalidade avermelhada, por vezes esverdeada,
com intercalações de arenitos finos, carbonatos e evaporitos;
480m Depósitos de vertente (Quaternário) Triásico Superior – sedimentação num clima quente e seco em lagoas marinhas
ROCHA DA PENA
479m 448m Areias e cascalheiras (Plio-Quaternário) Jurássico Inferior salgadas temporárias.
(200 – 195 Ma)
Formação de Picavessa (Jurássico Inferior) Arenitos de Silves: arenitos, argilas e alguns leitos de seixos
(conglomerados) com coloração avermelhada; deposição em
Argilas vermelhas (Jurássico Inferior) ambientes fluviais, num clima quente e seco.
Triásico Superior
Complexo vulcano-sedimentar (Jurássico Inferior) (230 – 200 Ma)
Formação de Mira: camadas alternantes de xistos argilosos e
Metros Pelitos com evaporitos e intercalações carbonatadas (Triásico Superior – Jurássico Inferior) Carbonífero grauvaques com tonalidades acastanhadas, por vezes,
(325 – 310 Ma) acinzentadas e violáceas; sedimentação de argilas e areias
Arenitos de Silves (Triásico Superior) transportadas para bacias oceânicas profundas, por correntes
Formação de Mira (Carbonífero) de turbidez (mistura de água e sedimentos que se desloca
sobre taludes submarinos); rochas dobradas e fracturadas por
Falha Gesso Intrusão forças tectónicas associadas à origem de uma cadeia
A Rocha da Pena constitui um relevo de forma tabular cujo eixo montanhosa.
maior tem orientação este-oeste, afunilado no extremo leste e
alargado no extremo oeste, representando uma mesa com cerca de
1850 m de comprimento, 455 m de largura máxima e uma altitude que GÉNESE E ESTRUTURA DA ROCHA DA PENA
varia entre os 440 e os 480 m. O topo do relevo no essencial é
2
A PARTIR DO CRETÁCICO SUPERIOR (99 Ma)
aplanado, inclinando geralmente para sul. As vertentes norte e sul são Regime compressivo N-S; rejogo das falhas como compressivas e
1 3 PRESENTE
simétricas e bastante íngremes, apresentando escarpas que atingem dobramento das unidades litológicas; instalação de linhas de água com
A Rocha da Pena é um relevo estrutural e
TRIÁSICO (250 Ma) – CRETÁCICO INFERIOR (100 Ma) direcção preferencial E-O e erosão diferencial (calcários e dolomitos
no sector sul os 50 m de altura e que são talhadas nas rochas Regime distensivo N-S; deposição das unidades subsistiram aos processos erosivos, enquanto as unidades subjacentes residual herdado de fases morfogenéticas
litostratigráficas triásicas e jurássicas; formação de falhas vulcano-argilo-areníticas foram erodidas); carsificação das unidades anteriores, o qual tem sido conservado ao
carbonatadas da Formação de Picavessa. distensivas de orientação preferencial E-O. carbonatadas, principalmente, em períodos húmidos e desencadeamento do longo do tempo geológico
fenómeno de imunidade cársica que conduziu à preservação do relevo.
Reconhecendo a Rocha da Pena como um geomonumento e um
N
local de elevada geodiversidade, dadas as suas características de N N S
S
S
monumentalidade e particularidades a nível da geologia, esta deve
ser considerada um património geológico que importa valorizar e
divulgar como um georrecurso cultural, numa concepção de cultura
alargada ao saber científico, não renovável, e que deve ser
preservada e legada como herança às gerações futuras.
(Legenda na coluna litostratigráfica acima)
Apêndice X

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– ANEXOS –
Capítulo 3 – Resultados, Discussão, Interpretações
_____________________________________________________________________________________________________________

O material que se segue encontra-se incluído num CD-ROM, anexado à presente


dissertação, de modo a poder ser facilmente reproduzido e utilizado:

Anexo – Tabela cronostratigráfica


Eonotema
Tabela de Divisões Cronostratigráficas

Eonotema

Eonotema

Eonotema
Glaciação

Glaciação

Glaciação

Glaciação
Eratema

Eratema

Eratema

Eratema
Sistema

Sistema

Sistema

Sistema
Período

Período

Período

Período
Andar

Andar

Andar
Época

Época

Época
Idade

Idade

Idade

Idade

Idade

Idade

Idade
(M.a.)

(M.a.)

(M.a.)

(M.a.)
Série

Série

Série

IEPG
Eon

Eon

Eon

Eon
ELG

ELG

ELG

ELG
Era

Era

Era

Era
145,5 ± 4,0 359,2 ± 2,5 542
* Holocénico Titoniano Fameniano Ediacárico
0,0115 150,8 ± 4,0 Superior 374,5 ± 2,6 Neo- 630
Superior Superior Kimeridgiano Frasniano Criogénico
0,126 155,0 ± 4,0 385,3 ± 2,6 proterozóico 850

Devónico
Pleistocénico Médio Oxfordiano Givetiano Tónico
0,781 161,2 ± 4,0 Médio 391,8 ± 2,7 1000

Proterozóico
Inferior Caloviano Eifeliano Sténico
1,806 164,7 ± 4,0 397,5 ± 2,7 Meso- 1200
Gelasiano Batoniano Emsiano Ectásico

Jurássico
2,588 Médio 167,7 ± 3,5 407,0 ± 2,8 proterozóico 1400
Neogénico

Pliocénico Piacenziano Bajociano Inferior Praguiano Calymmico


3,600 171,6 ± 3,0 411,2 ± 2,8 1600
Zancleano Aaleniano Lochkoviano Stathérico
5,332 175,6 ± 2,0 416,0 ± 2,8 1800

Pré-Câmbrico
Messiniano Toarciano Pridoli Orosírico

Mesozóico
Paleo-
7,246 183,0 ± 1,5 418,7 ± 2,7 2050
Tortoniano Pliensbaquiano Lufordiano proterozóico Rhyácico
11,608 Inferior 189,6 ± 1,5 Ludlow 421,3 ± 2,6 2300
Serravaliano Sinemuriano Gorstiano Sidérico
Cenozóico

Miocénico 13,65 196,5 ± 1,0 422,9 ± 2,5 2500

Silúrico
Langhiano Hetangiano Homeriano
15,97 199,6 ± 0,6 Wenlock 426,2 ± 2,4 Neoarcaico
Burdigaliano Retiano Sheinwoodiano
20,43 203,6 ± 1,5 428,8 ± 2,3 2800

Fanerozóico
Aquitaniano Superior Noriano Telichiano

Paleozóico
23,03 216,5 ± 2,0 436,0 ± 1,9 Mesoarcaico

Arcaico
Chatiano Carniano Llandovery Aeroniano
Triásico
Oligocénico 28,4 ± 0,1 228,0 ± 2,0 439,0 ± 1,8 3200
Rupeliano Ladiniano Rhudaniano
33,9 ± 0,1 Médio 237,0 ± 2,0 443,7 ± 1,5 Paleoarcaico
Fanerozóico

Fanerozóico

Priaboniano Anisiano Hirnantiano


37,2 ± 0,1 245,0 ± 1,5 445,6 ± 1,5 3600
Paleogénico

Bartoniano Olenequiano Superior


Eocénico 40,4 ± 0,2 Inferior 249,7 ± 0,7 455,8 ± 1,6 Eoarcaico

Ordovícico
Luteciano Induano
48,6 ± 0,2 251,0 ± 0,4 460,9 ± 1,6
Ipresiano Changhsingiano Darriwiliano
55,8 ± 0,2 Lopingiense 253,8 ± 0,7 Médio 468,1 ± 1,6
Tanetiano Wuchiapingiano
58,7 ± 0,2 260,4 ± 0,7 471,8 ± 1,6 Tendo como base a sucessão de espécies fósseis identifi-
Paleocénico Selandiano Capitaniano cadas no registo estratigráfico, pode estabelecer-se uma
61,7 ± 0,2 265,8 ± 0,7 Inferior 478,6 ± 1,7 divisão do tempo geológico em tempos relativos, de apli-
Daniano Guadalupiense Wordiano Tremadociano cação global, desde o Ediacárico até aos nossos dias. Os
Pérmico

65,5 ± 0,3 268,0 ± 0,7 488,3 ± 1,7 limites de alguns Andares englobados no Eonotema Fa-
Maastrichtiano Roadiano nerozóico (– 542 M.a. até à actualidade), bem como a base
70,6 ± 0,6 270,6 ± 0,7 Furongiano
Campaniano Kunguriano Paibiano do Andar Ediacárico, são definidos com base no estabele-
83,5 ± 0,7 275,6 ± 0,7 501,0 ± 2,0 cimento de Estratotipos de Limite Global (ou Global

Câmbrico
Santoniano Arstinsquiano Standard Section and Points). Um ELG (ou GSSP) correspon-
Paleozóico

Superior 85,8 ± 0,7 Cisuraliense 284,4 ± 0,7 Médio de ao limite inferior de um determinado Andar, sendo o
Coniaciano Sakmariano limite superior desse Andar coincidente com o estabeleci-
89,3 ± 1,0 294,6 ± 0,8 513,0 ± 2,0 mento do limite inferior do Andar seguinte. Cada estrato-
Turoniano Asseliano
Mesozóico

tipo de limite é assinalado na tabela cronostratigráfica


Creatácico

93,5 ± 0,8 299,0 ± 0,8 Inferior


Cenomaniano Gzeliano através de um prego dourado (golden spike, ) que, no ca-
Mississipiense Pensilvaniense

99,6 ± 0,9 Superior 303,9 ± 0,9 542,0 ± 1,0 so concreto do Bajociano, corresponde à base de uma ca-
Albiano Kasimoviano mada definida na praia da Murtinheira (cabo Mondego).
112,0 ± 1,0 306,5 ± 1,0
Carbonífero

As unidades inferiores ao Sistema Ediacárico são estabelecidas com base em datações radiométricas, sendo, por isso, definida uma Idade
Aptiano Médio Moscoviano
125,0 ± 1,0 311,7 ± 1,1 Estratigráfica Padrão Global (Global Standard Stratigraphic Age).
Barremiano Inferior Bashkiriano Esta escala cronostratigráfica mundial de referência fornece uma visão global das diversas unidades crosnostratigráficas, as suas
Inferior 130,0 ± 1,5 318,1 ± 1,3 designações e as suas durações. As unidades cronostratigráficas só têm validade formal depois de aprovadas pela União Internacional de
Hauteriviano Superior Serpukoviano Ciências Geológicas (IUGS).
136,4 ± 2,0 326,4 ± 1,6
Valanginiano Médio Viseano Uma vez que esta tabela tem por base o registo estratigráfico, não aparecem representadas unidades cronostratigráficas correspondentes ao
140,2 ± 3,0 345,3 ± 2,1 tempo que antecedeu a solidificação crustal e a formação das primeiras rochas terrestres (Eon Hádico).
Berriasiano Inferior Turnaciano
145,5 ± 4,0 359,2 ± 2,5 As cores de cada uma das divisões apresentadas na tabela são as definidas pela Commission for the Geological Map of the World.
Adaptado de: International Commission on Stratigraphy (ICS) e Porto Editora * Quaternário; idade informal e a aguardar ratificação
Capítulo 3 – Resultados, Discussão, Interpretações
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CD-ROM

Conteúdo:

Apêndice I – Mapa com a localização dos afloramentos e fotografias referidos no texto


Apêndice II – Mapa geológico da Rocha da Pena e da região envolvente
Apêndice III – Mapa geomorfológico da Rocha da Pena
Apêndice IV – Painel: A Rocha da Pena
Apêndice V – Painel: A morfologia cársica da Rocha da Pena
Apêndice VI – Painel: Formações rochosas da vertente norte da Rocha da Pena
Apêndice VII – Painel: Formações rochosas da vertente sul da Rocha da Pena
Apêndice VIII – Guia-de-campo: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da geodiversidade
Apêndice IX – Folheto A4: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da geodiversidade
Apêndice X – Página Web: Rocha da Pena (Loulé, Algarve) – Ao encontro da geodiversidade
Anexo – Tabela cronostratigráfica

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