Artigo. Factores
Artigo. Factores
Resumo
Introdução: A filariose linfática é uma doença parasitária negligenciada que afeta milhões de pessoas em regiões
tropicais e subtropicais, sendo um dos principais desafios de saúde pública em áreas endêmicas. A transmissão
persistente da doença está associada a fatores ambientais, socioeconômicos, comportamentais e à eficácia das
intervenções de controlo. A presença de vetores altamente competentes, condições precárias de saneamento e
falhas na adesão às estratégias de prevenção dificultam a erradicação da doença, tornando sua eliminação um
objetivo desafiador para os sistemas de saúde. Objetivo: Esta revisão tem como propósito analisar criticamente os
fatores que contribuem para a persistência da transmissão da filariose linfática, identificando barreiras que
impedem o sucesso das estratégias de eliminação. Metodologia: Foram pesquisados artigos científicos publicados
nos últimos 10 anos nas bases de dados MEDLINE/PubMed e LILACS-BIREME, priorizando estudos que abordam os
determinantes epidemiológicos, ambientais e sociais da transmissão contínua da filariose linfática. Resultados: As
evidências apontam que a continuidade da transmissão da filariose está relacionada à presença de vetores
eficientes, cobertura insuficiente do tratamento em massa com ivermectina e albendazol, falta de infraestrutura
sanitária adequada e baixa adesão às medidas preventivas. Fatores socioeconômicos, como pobreza e dificuldade
de acesso aos serviços de saúde, também desempenham um papel central na persistência da doença. Conclusão: A
revisão destaca que a erradicação da filariose linfática exige estratégias integradas que combinem controlo vetorial
eficaz, ampliação da cobertura de tratamento em massa e melhorias nas condições socioeconômicas e ambientais
das populações afetadas. A implementação de políticas públicas sustentáveis e a mobilização comunitária são
essenciais para reduzir a transmissão e avançar na eliminação da doença.
Abstract
Introduction: Lymphatic filariasis is a neglected parasitic disease that affects millions of people in tropical and
subtropical regions, representing one of the major public health challenges in endemic areas. The persistent
transmission of the disease is associated with environmental, socioeconomic, and behavioural factors, as well as
the effectiveness of control interventions. The presence of highly competent vectors, poor sanitation conditions,
and failures in adherence to prevention strategies hinder disease eradication, making its elimination a challenging
goal for health systems. Objective: This review aims to critically analyse the factors contributing to the persistent
transmission of lymphatic filariasis, identifying barriers that prevent the success of elimination strategies.
Methodology: Scientific articles published in the last 10 years were searched in the MEDLINE/PubMed and LILACS-
BIREME databases, prioritising studies that address the epidemiological, environmental, and social determinants of
the continuous transmission of lymphatic filariasis. Results: Evidence indicates that the continued transmission of
filariasis is related to the presence of efficient vectors, insufficient coverage of mass drug administration with
ivermectin and albendazole, inadequate sanitation infrastructure, and low adherence to preventive measures.
Socioeconomic factors, such as poverty and limited access to healthcare services, also play a crucial role in the
persistence of the disease. Conclusion: The review highlights that the eradication of lymphatic filariasis requires
integrated strategies that combine effective vector control, expansion of mass treatment coverage, and
improvements in the socioeconomic and environmental conditions of affected populations. The implementation of
sustainable public policies and community mobilisation is essential to reduce transmission and advance towards
the elimination of the disease.
1
1. Introdução A associação desses fatores torna o controlo da
A filariose linfática é uma doença parasitária filariose linfática um desafio contínuo para os
crônica causada por nematódeos do gênero sistemas de saúde pública. A compreensão dos
Wuchereria e Brugia, transmitidos por mosquitos elementos que favorecem a transmissão
vetores como Culex, Anopheles e Aedes. A persistente é essencial para o desenvolvimento
infecção pode levar a manifestações clínicas de estratégias mais eficazes de intervenção.
severas, incluindo linfedema, elefantíase e Nesse sentido, este estudo tem como objetivo
hidrocele, afetando significativamente a analisar os principais fatores associados à
qualidade de vida dos indivíduos acometidos manutenção da transmissão da filariose linfática,
(WHO, 2021). destacando aspectos epidemiológicos, ambientais
Considerada uma das principais doenças tropicais e sociais que dificultam a erradicação da doença.
negligenciadas, a filariose linfática persiste como
um grave problema de saúde pública em diversas Nesse contexto, este estudo tem como objetivo
regiões da Ásia, África e América Latina. Em 2020, analisar os fatores associados à transmissão
estimava-se que mais de 51 milhões de pessoas persistente da filariose linfática. Serão destacados
estavam infectadas globalmente, com aspectos ambientais, como a presença de vetores
aproximadamente 893 milhões vivendo em áreas altamente competentes e condições inadequadas
endêmicas e necessitando de intervenções de saneamento. Além disso, serão abordados
preventivas (CDC, 2021). fatores sociais, incluindo pobreza e baixa adesão
A transmissão ocorre quando mosquitos às medidas preventivas.
infectados depositam larvas infectantes na pele
humana durante a picada, permitindo a migração Também serão analisadas questões operacionais,
dos parasitas para o sistema linfático, onde se como desafios na cobertura do tratamento em
desenvolvem e causam danos irreversíveis. O massa e limitações no acesso aos serviços de
longo período assintomático da infecção contribui saúde. A compreensão desses fatores é essencial
para sua disseminação silenciosa e contínua. para o desenvolvimento de estratégias eficazes de
controlo e erradicação da doença.
O Programa Global para a Eliminação da Filariose
Linfática, liderado pela Organização Mundial da 2. METODOLOGIA
Saúde (OMS), tem como estratégia principal a A pesquisa foi conduzida utilizando os bancos de
administração periódica de medicamentos dados MEDLINE/PubMed e LILACS-BIREME, com o
antiparasitários em massa (MDA) para populações objetivo de identificar artigos científicos
em risco. relevantes publicados nos últimos 10 anos sobre
os fatores associados à transmissão persistente
No entanto, diversos países enfrentam da filariose linfática.
dificuldades na interrupção da transmissão, A busca abrangeu uma combinação dos seguintes
devido a fatores como a presença de vetores termos: 1. filariasis; 2. transmission factors; 3.
altamente competentes, falhas na cobertura do lymphatic filariasis; 4. persistent transmission. Os
tratamento e barreiras socioeconômicas que critérios de inclusão focaram em artigos que
limitam o acesso aos serviços de saúde. Além investigassem fatores relacionados à transmissão
disso, condições ambientais inadequadas e baixa contínua da doença, a fim de garantir a
adesão às medidas preventivas contribuem para a pertinência da pesquisa para os objetivos da
persistência da infecção. revisão.
3
Apesar dos esforços globais para erradicar a mosquitos vetores estão mais ativos (Molyneux et
filariose, a transmissão persiste em várias áreas al., 2017).
devido à resistência dos vetores a inseticidas e à
complexidade dos fatores sociais e ambientais Essas microfilárias no sangue humano
que influenciam a propagação da doença. representam a forma infectante para o mosquito,
e quando um mosquito pica um hospedeiro
3.2. Ciclo de vida do agente etiológico infectado, ele ingerirá as microfilárias.
O ciclo de vida da filariose linfática é complexo, A partir daí, o ciclo recomeça, com as microfilárias
envolvendo dois hospedeiros: o mosquito vetor e se desenvolvendo no mosquito e, eventualmente,
o ser humano. O agente etiológico da doença é sendo transmitidas para outro humano. Esse ciclo
um nematoide filariforme, principalmente contínuo entre o mosquito e o ser humano
Wuchereria bancrofti, que é responsável pela permite a manutenção da transmissão da filariose
maioria dos casos de filariose linfática, mas linfática nas áreas endêmicas (Babu et al., 2010).
também inclui Brugia malayi e Brugia timori
(Petersen et al., 2017). O ciclo de vida da filariose linfática pode ser
interrompido com intervenções no controle de
O ciclo de vida desses parasitas ocorre em várias vetores, como o uso de mosquiteiros tratados
etapas, tanto no mosquito quanto no hospedeiro com inseticidas e programas de eliminação de
humano. O ciclo começa quando um mosquito criadouros de mosquitos.
infectado, geralmente dos gêneros Culex,
Anopheles ou Aedes, pica uma pessoa infectada Além disso, tratamentos com medicamentos
com filariose. antiparasitários como albendazol, ivermectina e
diethylcarbamazine (DEC) são utilizados para
Durante a alimentação, o mosquito ingerirá reduzir a carga parasitária nos humanos,
microfilárias (formas imaturas dos parasitas) que interrompendo a produção de microfilárias e,
circulam no sangue humano. Essas microfilárias se assim, prevenindo a transmissão da doença
desenvolvem no interior do mosquito, passando (WHO, 2021).
por várias fases de maturação. Primeiramente,
elas se transformam em larvas, e, após cerca de 3.3. Distribuição geográfica e prevalência da
10 a 14 dias, atingem a forma infectante, filariose linfática
conhecida como larvas L3 (Larvas de Estágio 3), A filariose linfática é uma doença tropical
que se localizam nas glândulas salivares do negligenciada que afeta milhões de pessoas em
mosquito (Bockarie et al., 2009). várias regiões do mundo. A sua distribuição
geográfica é predominante em áreas tropicais e
Quando o mosquito pica outra pessoa, as larvas
subtropicais, principalmente na África, Ásia,
L3 são transmitidas para a corrente sanguínea
Pacífico, América Latina e algumas regiões do
humana através da saliva do mosquito. Uma vez
Oriente Médio (World Health Organization
no organismo humano, as larvas L3 migram para
[WHO], 2021).
os vasos linfáticos, onde se desenvolvem em
vermes adultos. Os vermes adultos podem viver Estima-se que mais de 120 milhões de pessoas em
no sistema linfático por vários anos, onde se 73 países sejam afetadas pela filariose linfática,
alimentam, se reproduzem e produzem novas com uma prevalência particularmente alta em
microfilárias. áreas rurais e de difícil acesso, onde o controle de
vetores é mais desafiador (Bockarie et al., 2019).
Essas microfilárias são liberadas na corrente
sanguínea do hospedeiro e estão presentes Na África, a filariose linfática é endêmica em
principalmente durante a noite, quando os diversos países, especialmente nas regiões da
4
África subsaariana. Os países mais afetados de vetores. As áreas endêmicas de filariose
incluem Nigéria, Gana, República Democrática do linfática geralmente têm uma população
Congo, e Camarões, com altas taxas de vulnerável devido à falta de acesso a cuidados
prevalência, especialmente nas zonas rurais e médicos e educação sobre medidas preventivas,
periurbanas. Em algumas áreas da África, até 40% como o uso de mosquiteiros tratados com
da população pode estar infectada com inseticidas (WHO, 2021). Além disso, mudanças
microfilárias, o que contribui para a disseminação climáticas e urbanização crescente podem alterar
contínua da doença (Molyneux et al., 2017). os padrões de distribuição dos mosquitos vetores,
Embora a doença seja menos prevalente em ampliando as áreas de risco e dificultando o
regiões urbanizadas, ainda há riscos significativos controlo da doença.
de transmissão devido à movimentação de
pessoas e a presença de mosquitos vetores. Embora as taxas de prevalência variem de acordo
com as regiões e as condições locais, os esforços
Na Ásia, a filariose linfática também está globais de erradicação, incluindo programas de
amplamente disseminada, com casos tratamento em massa com medicamentos e
significativos em países como Índia, Bangladesh, controle de vetores, têm mostrado progresso
Indonésia, Filipinas e Nepal. A Índia, em significativo.
particular, concentra um grande número de
pessoas infectadas, sendo uma das principais A Organização Mundial da Saúde (OMS)
áreas endêmicas do mundo (Petersen et al., estabeleceu metas ambiciosas para a eliminação
2017). Em muitas dessas regiões, a falta de da filariose linfática como problema de saúde
infraestrutura de saúde, a resistência dos pública até 2030, com base na implementação de
mosquitos aos inseticidas e as condições estratégias de controlo integradas, incluindo
ambientais favorecem a persistência da tratamento preventivo, educação comunitária e
transmissão da doença, dificultando os esforços monitoramento de populações em risco (Bockarie
de erradicação. et al., 2019).
7
Portanto, os programas educativos que enfatizam A conscientização também deve ser expandida
a importância de cobrir reservatórios de água, para o controle dos mosquitos vetores, não
limpar ralos e evitar o acúmulo de lixo podem apenas no nível individual, mas também em nível
reduzir os focos de proliferação dos mosquitos comunitário e institucional. O apoio
(Petersen et al., 2017). Essas ações simples, governamental e a colaboração com organizações
quando implementadas de forma consistente, não governamentais podem facilitar o
podem ter um impacto significativo na redução da estabelecimento de políticas públicas eficazes,
transmissão da filariose. como a distribuição de mosquiteiros, o controle
de criadouros e o monitoramento contínuo da
Além disso, a educação sobre a adesão ao prevalência da filariose.
tratamento preventivo em massa, como o uso de
medicamentos antiparasitários para eliminar A educação comunitária, aliada a uma ação
microfilárias e reduzir a carga de infecção, é coordenada entre autoridades de saúde,
essencial. organizações locais e a população, é fundamental
para alcançar a eliminação da filariose como
Além disso, o envolvimento das escolas em problema de saúde pública (Molyneux et al.,
atividades comunitárias de limpeza e controle de 2017).
mosquitos pode fortalecer a conscientização e
melhorar os resultados das campanhas de Por fim, a educação contínua e a conscientização
prevenção (WHO, 2021). sobre a filariose devem ser uma prioridade nas
áreas endêmicas, com programas de
A utilização de meios de comunicação, como sensibilização periódicos para garantir que o
rádio, televisão e plataformas digitais, também conhecimento sobre a doença seja mantido
pode ser um canal eficaz para disseminar atualizado e amplamente disseminado.
informações sobre a filariose e as estratégias de
prevenção, especialmente em áreas remotas com 3.7. Efeito da presença de infecção crônica
difícil acesso a centros de saúde. ou coinfecções no aumento da transmissão
As infecções crônicas, como a própria infecção
Essas ferramentas têm o poder de alcançar uma
filarial, alteram o sistema imunológico do
ampla audiência e reforçar as mensagens de
hospedeiro, tornando-o mais susceptível à
prevenção. Campanhas multimídia que incluem
infecção por outros patógenos. Quando a filariose
vídeos educativos, entrevistas com especialistas e
linfática é associada a outras doenças, como a
histórias de sucesso podem engajar a população e
malária ou o HIV, a capacidade do corpo de
incentivá-la a adotar comportamentos
combater o parasita da filariose pode ser
preventivos (Babu et al., 2010).
comprometida, permitindo uma maior carga
Além disso, os líderes comunitários e parasitária e favorecendo a disseminação dos
organizações locais desempenham um papel filários através dos mosquitos vetores (Bockarie et
essencial na educação e conscientização, al., 2019).
ajudando a disseminar informações de forma
A coinfecção com outras doenças parasitárias,
culturalmente sensível. O envolvimento de líderes
como a esquistossomose ou a leishmaniose, pode
locais, como chefes de aldeias, grupos religiosos e
resultar em uma carga parasitária mais elevada,
outras figuras respeitadas, pode aumentar a
facilitando a transmissão ao vetor (Molyneux et
credibilidade das mensagens educativas e garantir
al., 2017). Quando os indivíduos coinfectados têm
que elas sejam bem recebidas pela população.
uma maior carga de microfilárias no sangue, a
probabilidade de um mosquito se infectar e,
8
subsequentemente, transmitir o parasita para O tratamento simultâneo de filariose e outras
outros hospedeiros aumenta significativamente, infecções pode exigir estratégias mais complexas
perpetuando o ciclo de transmissão da filariose. e a implementação de regimes terapêuticos
combinados, que possam atacar múltiplos
A infecção crônica pela filariose também pode patógenos ao mesmo tempo. Isso se torna um
causar um estado de imunosupressão, no qual o desafio adicional para os programas de saúde
sistema imunológico do hospedeiro não responde pública em áreas endêmicas, onde os recursos
adequadamente à infecção, permitindo que os são limitados e a adesão ao tratamento pode ser
filários se multipliquem e se espalhem pelo corpo. comprometida por múltiplas complicações de
Esse estado de imunossupressão pode tornar os saúde (Babu et al., 2010).
indivíduos mais vulneráveis a outras infecções, o
que agrava a situação de saúde e aumenta a A prevalência de coinfecções também pode
disseminação dos parasitas. aumentar a resistência aos tratamentos,
especialmente em áreas onde o controle de
O aumento da prevalência de infecções crônicas, doenças como a malária ou a tuberculose é difícil.
especialmente em áreas endêmicas da filariose, A resistência do parasita da filariose a
cria um ciclo vicioso de transmissão, no qual os medicamentos, como o ivermectina, pode ser
indivíduos infectados se tornam mais propensos a exacerbada pela presença de outras infecções,
adquirir outras infecções, contribuindo para um que alteram a farmacocinética e a eficácia dos
aumento na carga de doenças e na disseminação tratamentos. A resistência do parasita pode
de parasitas (Petersen et al., 2017). prolongar a transmissão, tornando o controle da
filariose mais difícil e comprometendo os esforços
A interação entre a filariose e outras infecções globais para erradicar a doença (Molyneux et al.,
pode ser ainda mais complexa em regiões 2017).
tropicais e subtropicais, onde várias doenças
infecciosas coexistem e os fatores ambientais Em termos de prevenção, a presença de
favorecem a proliferação de mosquitos vetores. coinfecções exige uma abordagem integrada, que
Em ambientes onde a malária, por exemplo, é leve em consideração a necessidade de tratar e
endêmica, a presença de coinfecções pode prevenir várias infecções ao mesmo tempo.
exacerbar a transmissão de filariose, pois os Estratégias de saúde pública devem incluir a
mosquitos que transmitem a malária, como o distribuição de medicamentos para controlo de
Anopheles, também são vetores de filariose. filariose juntamente com intervenções para
outras infecções prevalentes, como malária, HIV e
Assim, a presença simultânea dessas infecções esquistossomose. A coordenação entre
pode aumentar a densidade de vetores e a programas de controlo de várias doenças pode
probabilidade de transmissão, dificultando os ajudar a reduzir a transmissão e melhorar a saúde
esforços de controlo e erradicação da doença geral da população (WHO, 2021).
(WHO, 2021).
Por fim, a interação entre infecções crônicas e
Além disso, a coinfecção pode afetar a resposta coinfecções é um fator importante a ser
ao tratamento, uma vez que pacientes com considerado no controle da filariose linfática. A
múltiplas infecções podem não responder presença dessas infecções pode aumentar a carga
adequadamente às terapias, devido à interação parasitária, dificultar a resposta imunológica e
entre os parasitas ou ao efeito imunossupressor afetar a eficácia do tratamento, prolongando a
de uma infecção crônica. transmissão e a prevalência da doença. O manejo
integrado das infecções e a conscientização sobre
9
as interações entre elas são essenciais para ocorre porque o sistema imunológico, após anos
interromper o ciclo de transmissão e reduzir a de exposição ao parasita, pode se tornar
carga de doenças nas populações afetadas. tolerante ou menos eficaz na eliminação das
microfilárias, facilitando a manutenção da
3.8. Impacto da Carga Parasitária nos infecção e o aumento da carga parasitária.
Hospedeiros Humanos e na Capacidade de
Transmissão Essa tolerância imune pode resultar em um ciclo
A carga parasitária nos hospedeiros humanos vicioso, onde o hospedeiro continua a fornecer
desempenha um papel fundamental na dinâmica um ambiente propício para a multiplicação e
da transmissão da filariose linfática, influenciando transmissão do parasita, mesmo na ausência de
tanto o quadro clínico dos infectados quanto a sintomas agudos (Molyneux et al., 2017). Além
capacidade dos vetores de se infectarem e disso, a carga parasitária elevada pode complicar
transmitirem o parasita. A presença de uma carga o tratamento, tornando os pacientes mais
elevada de microfilárias no sangue de um resistentes à terapia antiparasitária.
indivíduo infectado aumenta significativamente a
probabilidade de que um mosquito vetor, como o A ivermectina, que é uma das principais drogas
Culex ou Anopheles, se infete durante a picada. usadas no tratamento da filariose, pode ser
menos eficaz em indivíduos com carga parasitária
A quantidade de microfilárias circulantes é, muito alta, devido à dificuldade do sistema
portanto, um determinante chave da capacidade imunológico em lidar com uma quantidade tão
de transmissão da doença, pois é nesse estágio grande de parasitas. Isso pode levar a um
que o parasita é transmitido para novos tratamento prolongado e à necessidade de
hospedeiros (Bockarie et al., 2019). regimes combinados de medicamentos, o que
pode ser desafiador em contextos de saúde
Quando a carga parasitária é alta, o risco de pública com recursos limitados (Babu et al.,
transmissão aumenta consideravelmente, já que 2010). O tratamento inadequado de cargas
há uma maior disponibilidade de microfilárias nos parasitárias elevadas também pode resultar em
fluidos sanguíneos do hospedeiro, tornando-os recaídas e maior risco de transmissão,
mais suscetíveis à picada dos mosquitos. A carga comprometendo os esforços de controlo e
elevada também está associada a uma maior eliminação da filariose.
persistência de infecção, com microfilárias
circulando no sangue por períodos mais longos, o O impacto da carga parasitária também se reflete
que prolonga o tempo em que o indivíduo pode nas estratégias de prevenção, como o tratamento
servir como fonte de infecção para os vetores. preventivo em massa (MDA). A eficácia do MDA
pode ser reduzida em áreas com alta carga
Além disso, em infecções crônicas, a presença de parasitária, onde os indivíduos já apresentam
cargas parasitárias elevadas pode levar ao uma resistência parcial ao tratamento. Isso pode
desenvolvimento de complicações clínicas, como resultar em uma diminuição na eficácia do
linfedema e elefantíase, que são consequências tratamento, levando a falhas no controle da
de obstrução dos vasos linfáticos (Petersen et al., transmissão. Portanto, a avaliação da carga
2017). parasitária nas populações é essencial para
planejar intervenções de controlo mais eficazes,
A variação na carga parasitária também pode ajustadas às necessidades específicas das
afetar a resposta imunológica do hospedeiro, com comunidades afetadas (Bockarie et al., 2019).
uma maior carga parasitária frequentemente
associada a uma resposta imune subótima. Isso
10
Em termos de saúde pública, o controle da carga Por fim, a carga parasitária nos hospedeiros
parasitária é uma prioridade para reduzir a humanos é um fator crítico na transmissão da
transmissão da filariose. Estratégias eficazes filariose linfática. Indivíduos com uma alta carga
incluem a monitorização regular da carga de microfilárias representam fontes primárias de
parasitária nas populações em risco, o que pode infecção para os mosquitos, que, ao se infectar,
ajudar a identificar indivíduos com infecções de transmitem o parasita para novos hospedeiros,
alta carga que são os principais responsáveis pela perpetuando o ciclo de transmissão. O controlo
transmissão. A abordagem centrada no da carga parasitária, por meio de tratamento e
tratamento em massa, juntamente com medidas prevenção adequados, é essencial para
de controlo de mosquitos, pode ser mais eficaz se interromper esse ciclo e reduzir a propagação da
direcionada a áreas com alta carga parasitária, doença.
onde o risco de disseminação da doença é maior.
A redução da carga parasitária nas populações
tem o potencial de diminuir substancialmente a
transmissão da doença e acelerar os esforços de 3.9. Consequentemente, sobre a Transmissão da
eliminação (WHO, 2021). Filariose
As variações climáticas e ambientais
A carga parasitária elevada também pode ter desempenham um papel crucial na distribuição e
efeitos negativos no bem-estar geral dos abundância de mosquitos vetores, que são
indivíduos infectados, além das complicações responsáveis pela transmissão da filariose
clínicas associadas à doença. Pacientes com alta linfática. O ciclo de vida dos mosquitos é
carga de parasitas podem experimentar maiores altamente dependente de fatores climáticos,
níveis de incapacidade funcional, incluindo como temperatura, precipitação e umidade, que
linfedema crônico, dor e desconforto. Isso pode afetam sua sobrevivência, reprodução e
afetar a qualidade de vida dos indivíduos, atividade.
contribuindo para um ciclo de sofrimento
contínuo e maior estigma social. O impacto social Estudos demonstraram que o aumento da
e econômico de uma alta carga parasitária temperatura pode acelerar o desenvolvimento
também deve ser considerado ao desenvolver dos parasitas no mosquito vetor, enquanto as
programas de saúde pública, pois indivíduos mudanças nas precipitações influenciam os locais
afetados podem ser incapazes de trabalhar ou de reprodução, como águas paradas em áreas
participar plenamente na comunidade, úmidas (Lacaux et al., 2019). Assim, variações
exacerbando os efeitos econômicos da doença climáticas podem aumentar a densidade de
(Molyneux et al., 2017). mosquitos vetores e, consequentemente, o risco
de transmissão da doença.
16