A NATUREZA DO SIGNO LINGUÍSTICO: A ARBITRARIEDADE E A LÍNGUA
BRASILEIRA DE SINAIS
Emmanuelle Félix dos Santos1
Resumo
Este estudo tem como objetivo discutir o princípio da arbitrariedade do signo linguístico de
Saussure (2006) e a implicação desta concepção na Língua de Brasileira de Sinais (Libras),
visto a disseminação de que os sinais (signos) são, exclusivamente, icônicos. Esta relação de
iconicidade ao sinal da Libras está associada a ilegitimidade das línguas de sinais, ou seja, a
compreensão social de que a língua dos surdos é pantomímica e, portanto, não possui as
propriedades de uma língua humana. Os estudos linguísticos das línguas de sinais têm
apontado especificidades inerentes à modalidade gesto visual da língua, mas principalmente,
tem comprovado seu status de língua na medida que possui características linguísticas de
qualquer língua natural, inclusive, de que seus sinais são convencionados, ou seja, são
arbitrários, apesar da relação motivada.
Palavras-chave: Arbitrário; Signo; Sinal; Libras; Saussure.
1. INTRODUÇÃO
Historicamente os estudos da língua estavam marcados pelas discussões sobre a relação
da língua e pensamento; pelos estudos gramaticais fundados na lógica; estudos dos textos escritos
pela filologia e os estudos da gramática comparativa, oriundos da descoberta do Sânscrito. É a
partir de Saussure (2006 [1902-1976]) que a língua passa a ser estudada por um novo viés, ou
seja, ele converge os estudos para a estrutura da língua em seu estado atual e a conceitua como um
sistema de signos linguísticos. Assim, se evidencia a possibilidade de estudar a língua como
objeto de uma ciência.
Nesse estudo sistemático da língua, Saussure (2006, p. 81) teoriza o signo linguístico
como"a combinação do conceito e da imagem acústica", ou seja, a relação entre o significado
(conceito) e o significante (imagem acústica). Para ele, "o laço que une o significado do
significante é arbitrário" (SAUSSURE, 2006, p. 81), portanto, o significado não tem
correspondência com a realidade e independe da escolha de quem fala.
Esse conceito é questionado na Libras por identificarem que alguns sinais apresentam
propriedades do objeto a que se refere. Desse modo, consideram que os sinais são, em
predominância, icônicos e não arbitrários, fazendo dicotomia entre ambos termos. Contudo,
na teoria saussuriana, podemos verificar que os sinais podem ser motivados, mas não deixam
de ser arbitrários.
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Prof. Dra. do Curso de Letras Libras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Coordenadora
do Grupo de Pesquisa Análise e Aprendizagem da Língua de Sinais (AnALiSi).
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2. O SINAL DA LIBRAS E A NATUREZA ARBITRÁRIA DO SIGNO LINGUÍSTICO
Para compreendermos o presente estudo, se torna necessário discutir dois conceitos, a
saber, o sinal da Libras e a arbitrariedade do signo. Assim, o texto que segue tenta elucidar
esses termos.
2.1 A composição do sinal da Libras
O sinal na Libras é análogo a palavra nas línguas orais. Ele é a menor unidade
linguística com significado, constituída de unidades menores sem significado. Estas unidades
com e sem significado formam um todo, que é o signo linguístico. Portanto, o sinal é o signo
linguístico que, conforme Saussure (2006), é a união de um conceito e uma imagem acústica.
Por se tratar de uma língua gesto visual, o signo linguístico se dá na relação de um conceito e
uma imagem visual.
Com base nos estudos linguísticos de Quadros e Karnopp (2004), o americano Stokoe
(1960) foi o primeiro linguísta a decompor as unidades mínimas sem significado da Língua de
Sinais Americana (ASL) e pesquisar suas partes constituintes. Ele comprovou que cada sinal
apresenta unidades mínimas denominados de parâmetros: a) Configuração de Mão (CM); b)
Locação de mão (L); c) Movimento da mão (M). Posteriormente à descrição de Stokoe, outros
pesquisadores, tais como Battison (1974) e Bellugi, Klima e Siple (1975) identificaram mais
dois parâmetros: d) Orientação da mão (Or) e e) Expressões Não Manuais (ENM) ou
expressões faciais e corporais (FERREIRA, 2010). Estes parâmetros são os constituintes dos
sinais na Libras, a exemplo do sinal de CASA na Figura 1.
Figura 1: SINAL de CASA
Fonte: Capovilla (2001, p. 371)
Além desta composição dos sinais, a pesquisadora brasileira Lessa-de-Olievira (2015)
tem proposto uma estrutura articulatória hierárquica dos sinais em quatro níveis: a) 1º nível
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dos traços; b) 2º nível de macrossegmentos; c) 3º nível das unidades Mão-Locação-
Movimento (MLMov) e d) 4º nível do sinal. Desse modo, para a autora, os parâmetros são
traços que compõem o primeiro nível e a unidade articulatória básica é o MLMov, que
representa o sinal.
Apesar dos pesquisadores apresentarem estruturas diferentes para a composição do
sinal, podemos perceber que coadunam na concepção de que essa língua é articulada pelas
mãos e possuiu propriedades das línguas humanas como a dupla articulação, criatividade,
versatilidade, arbitrariedade, entre outras. A diferença é que sua representação é gesto visual,
conforme podemos verificar na Figura 1. Portanto, quando um surdo pensa num significante
(conceito), ele naturalmente "tem a impressão psíquica" (SAUSSURE, 2006) das articulações
das mãos e não a representação mental dos sons. Assim, as palavras na Libras são imagens
visuais.
2.2 A arbitrariedade relativa do sinal da Libras
Para Saussure (2006) o princípio da arbitrariedade do signo linguístico é irrefutável.
Portanto, se Libras é língua, seu sinal é arbitrário, ou seja, o significante é imotivado em
relação ao significado. A exemplo o sinal de MÃE na Figura 2 que tem uma representação
diferente em cada país.
Figura 2: Sinais de MÃE.
Fonte: Moore e Levitan (1993 apud GESSER, 2009, p. 12)
Não obstante, devido a modalidade gesto visual da Libras, há uma tendência em
pensar que ela é icônica, ou seja, que seus sinais apresentam propriedades semelhantes ao
referente. Um dos exemplos mais utilizados na propagação dessa crença é o sinal de CASA
(Figura 1) que apresenta a estrutura do telhado de uma casa.
Sobre esse fenômeno Saussure (2006) fundamenta que "o signo pode ser relativamente
motivado" (SAUSURRE, 2006, p. 152), ou seja, evocar termos ou associações de objetos ou
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referentes em sua constituição. Contudo, o linguista adverte que essa motivação é arbitrária
porque é estabelecida convencionalmente e não individualmente, além disso, " [...] em
qualquer língua natural, essa motivação é relativa porque a própria escolha de um aspecto e
não de outro para representar simbolicamente o significado é uma escolha arbitrária" (SILVA,
2016, p. 76). Ademais, com a mudança e evolução do sinal a motivação se torna arbitrária.
Um exemplo é o sinal de MULHER, conforme Figura 3, seu sinal foi motivado pelo
ato de amarrar o chapéu, costume das mulheres em culturas anteriores. Hoje, devido as
mulheres não fazerem uso constante desse objeto, ou seja, não ser habitual, esse sinal é
considerado arbitrário absoluto, conforme pode-se verificar na pesquisa de Oliveira (2017)
que apresentou o sinal MULHER a 10 sujeitos e os mesmos o consideraram arbitrário,
imotivado. Contudo, após apresentar a motivação que originou o sinal, 70% dos sujeitos
considerou o sinal MULHER icônico.
Figura 3: SINAL de MULHER
Fonte: Capovilla (2001, p. 927)
Portanto, "no interior de uma mesma língua, todo o movimento da evolução pode ser
assinalado por uma passagem contínua do motivado ao arbitrário e do arbitrário ao motivado"
(SAUSSURE, 2006, p. 154-155), ou seja, com a evolução da língua as motivações do signo se
perdem, por isso, apesar da relatividade da motivação, o signo é arbitrário.
Klima e Bellugi (1979 apud COSTA, 2014, p. 81) investigaram a questão da
iconicidade nas Línguas de Sinais demonstrando sinais para pessoas que desconhecem a
língua e questionando sobre sua relação com o referente e concluíram que, apesar da
"iconicidade" do sinal, eles são arbitrários, desconstruindo a ambiguidade entre estes termos.
Considerações Finais
O presente estudo permitiu compreender que embora alguns sinais da Libras sejam
motivados, isso não os desqualificam como arbitrários. Desse modo, a "iconicidade não é
oposto de arbitrariedade.
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É evidente que os estudos de Saussure não contemplaram as especificidades das Línguas
Sinalizadas e que em sua época pouco se sabia a respeito dessa modalidade de língua, mas seu
estudo sobre o signo linguístico abrange todas línguas, portanto, compreende também a
Libras. Apesar dessa assimilação, não desconsideramos que a questão da "iconicidade" ou da
semântica na constituição dos sinais da Libras encontre abrigo em outras abordagens teóricas.
Referências
CAPOVILLA, Fernando César; RAPHAEL, Walkiria Duarte. Dicionário Enciclopédico
Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira. Volume I e II. 2 ed. São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2001.
COSTA, Victor Hugo Sepulveda da. Gestualidade e iconicidade nas línguas naturais: a
configuração de mão da Língua Brasileira de Sinais. In: STUMPF, Marianne Rossi;
QUADROS, Ronice Muller de; LEITE, Tarcísio Arentes de. (orgs.) Estudos da língua
brasileira de sinais. Série Estudos da Língua de Sinais. VII. Florianópilis: Insular, 2014. p.
79-101.
FERREIRA, Lucinda. Por uma gramática da Língua de Sinais. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 2010.
GESSER, Audrei. Libras: Que língua é essa? Crenças e preconceitos em torno da língua de
sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009.
LESSA-DE-OLIVEIRA, Adriana S. C. A estrutura articulatória do sinal. In: ______. Escrita
SEL – Sistema de Escrita para Língua de Sinais. [Blog Internet]. Vitória da Conquista,
Brasil, 10 jan. 2015. Disponível em: <[Link] Acesso em: 07 de
agosto 2019.
OLIVEIRA, Adriana Aparecida de. A relação entre o contexto e o plano de expressão no
reconhecimento do sinal “mulher” (Libras) como icônico ou convencional/arbitrário.
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Disponível em <
[Link] Acesso em
23 de Julho de 2019.
QUADROS, Ronice Muller e KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de Sinais Brasileira:
estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 27. Ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
SILVA, Ione Barbosa de Oliveira. Contribuições saussurianas para os estudos linguísticos
da Língua Brasileira de Sinais- Libras. Revista Cenários. Porto Alegre, vol. 2, nº 14, 2016.
p.67-82.