Filosofia -3ºteste-
Estética e arte
Disciplina filosófica que reflete sobre uma das formas de conhecimento humano: a arte.
Arte
Forma de conhecimento específica, pois ela consiste na interpretação que o artista faz do
mundo. A arte mexe com a imaginação, com aquilo que pode acontecer e não com aquilo que
de facto é. Não existe arte verdadeira ou falsa, mas formas diferentes de interpretar o mundo.
Estas formas de interpretar o mundo são múltiplas.
A estética:
-Pretende alcançar um tipo específico de conhecimento: aquele que é captado pelos sentidos.
-Parte de uma experiência sensorial da sensação, da perceção sensível, para chegar a um
resultado que não apresenta a mesma clareza e distinção da lógica e da matemática.
-Tem como principal objeto de investigação, o fenómeno artístico que se traduz na obra de
arte.
A experiência estética resulta:
-Das visitas que fazemos a casas, monumentos, catedrais, etc.
-Do visionamento de filmes, concertos e/ou peças de teatro.
-De passear simplesmente por um jardim e contemplar as suas flores, a arte da sua disposição.
-De ler um livro e/ou ouvir uma música, observar uma pintura ou uma escultura.
Todas estas situações, produzem em nós, um sentimento e um certo alheamento de tudo o
que nos envolve – tudo isto é o resultado da experiência dos sentidos e da beleza que nos
absorve.
O que se entende por experiência?
Tudo o que o sujeito pensa, sente, perceciona, na sua relação com o mundo e consigo próprio,
constitui a experiência. A experiência indica, assim, o contacto formador do eu com as coisas.
Quando podemos ter uma experiência estética?
Ao contemplar os seres e as coisas da natureza: colocado perante a natureza, o ser humano
pode experimentar sentimentos de admiração, de espanto, atingindo nalguns casos uma
autêntica contemplação.
No processo de criação artística: O artista distancia-se da experiência imediata e procura
dominá-la. Ele integra as suas diversas capacidades de modo especial, marcado pela
profundidade, pela sensibilidade, pela riqueza de emoções e pela originalidade na criação de
novas formas.
Ao contemplar uma obra de arte: A experiência estética é, sobretudo, a experiência de uma
emoção perante o belo (natural ou artístico), sendo essa uma emoção pura e desinteressada.
O que distingue a experiência estética dos outros tipos de experiência?
A experiência estética da contemplação é marcada pelo desinteresse utilitário (as obras de arte
não são utensílios, não têm uma função prática ou instrumental – embora as obras de
arquitetura constituam uma exceção). A experiência estética é apenas um prazer meramente
contemplativo.
Teorias essencialistas
As obras de arte partilham alguma característica ou conjunto de características que são
condições necessárias e suficientes para que algo tenha o estatuto de arte, mostrando assim
qual é a essência da arte.
Teoria da arte como imitação
TESE: Tudo o que é arte imita algo.
Platão e Aristóteles foram dos primeiros a pensar sobre a natureza da arte e defendiam que a
arte é imitação.
Platão: por ser imitação, a arte era digna de censura, porque as imitações ao substituírem o
modelo original (a realidade) por meras cópias inevitavelmente imperfeitas, acabavam por nos
afastar da verdade e do conhecimento.
Aristóteles: considerava que as pessoas podiam aprender com as imitações (aprender a lidar
melhor com as emoções imitadas; outros efeitos benéficos, como: efeito catártico: libertação e
purificação emocional).
Tentou classificar e caracterizar diferentes tipos de imitações. Diferentes artes imitam coisas
diferentes ou de maneiras diferentes: a poesia e o teatro imitam ações humanas, só que a
poesia fá-lo por meio da descrição narrativa e o teatro por meio de atores; já a dança imita a
ação humana por meio do gesto, ao passo que a música o faz por meio do som. Seja o que for
e de que maneira for, todas as artes têm em comum imitar algo.
Objeções
-Toda a arte é imitação, mas nem toda a imitação é arte: esta teoria não apresenta condições
necessárias e suficientes para que algo seja arte, apresentando, assim, apenas uma afirmação
relativa à arte (Ex: jovens que imitam os mais velhos);
-Existência de contraexemplos: Existem diversas obras que não procuram imitar algo como as
obras abstratas e as peças de música instrumental.
Teoria da representação
TESE reformulada: tudo o que é arte representa algo.
Para a teoria da imitação resistir a contraexemplos, como os referidos, alguns filósofos
defendem que em vez de imitação, o mais correto é falar de representação, porque a imitação
é apenas um modo de representação: apesar de todas as imitações serem representações,
nem todas as representações são imitações. Assim a teoria torna-se mais abrangente e engloba
coisas que a anterior não englobava como pinturas abstratas e peças de música instrumental.
Objeções
-Teoria demasiado restrita: muitos dos objetos humanos que são considerados arte não são
representações, principalmente no âmbito da arquitetura, da pintura (monocromática) e da
poesia.
Teoria expressivista
TESE: A arte é um veículo para exprimir emoções.
Lev Tolstoi: a sua tese de que algo só é arte quando não só exprime a emoção pessoal do autor,
mas consegue gerar essa emoção no público (teoria da arte como “contágio de emoções”). A
arte une as pessoas nos mesmos sentimentos; a arte é um meio de comunicação entre as
pessoas. O grau de contágio da arte depende do grau da individualidade do sentimento
transmitido, da clareza com que ele é transmitido e da sinceridade do artista.
Robin George Collinwood: salienta a importância do que se passa na mente do artista, onde a
obra é criada. A verdadeira obra é algo puramente mental, que o artista pode concretizar
fisicamente, projetando-a sob a forma de um objeto de arte (a que erradamente costumamos
chamar obra). O artista procura compreender e clarificar para si próprio uma sua emoção
particular através de uma ideia. Ao concretizar, depois, esta ideia num objeto, exprime a
emoção original de modo imaginativo, comunicando essa ideia (a verdadeira obra) a outras
pessoas, embora isso não seja essencial à arte. A tarefa do público é exercitar a imaginação
sobre o objeto, de modo a recriar na sua mente a emoção inicial do artista (a obra).
Objeções
Tolstoi:
-O artista não tem de ser sincero quando produz uma obra de arte: um ator pode ser
considerado bom justamente por conseguir exprimir emoções e sentimentos que não está a
sentir no momento;
-O público não necessita de ser contagiado pelas mesmas emoções do artista: muitas vezes não
é possível saber que sentimentos o artista estava a vivenciar, como é o caso de artistas
anónimos ou falecidos. Nestes casos torna-se impossível saber se o público está a ser
contagiado pelos mesmos sentimentos ou não. Além disso, compreender uma obra de arte
nem sempre implica sentir o que está implícito na mesma.
Collingwood:
-A noção de “verdadeira arte” é demasiado inclusiva: nem sempre a comunicação de pessoas
através de emoções implica a existência de arte, como é o caso da psicoterapia;
-Nem sempre é necessário clarificar as emoções: existem artistas que que transmitem nas suas
obras as emoções no estado bruto, sem tentar clarificá-las antes.
Teoria formalista
TESE (Kant): a beleza de um objeto decorre apenas da sua pura forma.
O que faz de algo uma obra de arte é o facto de possuir uma forma que pode ser apreciada
esteticamente. O que é artístico numa obra não é a sua capacidade para gerar emoções, mas
sim as relações entre as suas qualidades formais: na pintura, as cores e figuras e o seu
equilíbrio; na poesia, os sons, repetições e cadências das palavras; na música, os temas, as
tonalidades, as harmonias e os ritmos; na dança, os movimentos e as figuras.
Clive Bell defendia que o que dava a uma obra o seu caráter de arte era algo de especial nesses
seus aspetos formais, a figura significante (harmonia que existe entre os elementos que
compões a obra-condição necessária e suficiente). Esta propriedade especial da arte provém
do modo como os elementos de uma obra estão relacionados entre si, permitindo que essa
relação seja apreciada em si mesma.
Embora esta teoria pareça demasiado fria e técnica, especialmente quando comparada com a
expressivista, ela tem a vantagem de não fazer depender o estatuto de obra de arte de fatores
demasiado subjetivos e flutuantes, centrando-se antes, segundo os seus defensores, em
propriedades objetivas e autónomas das próprias obras.
Objeções
-Circularidade: na definição de “forma significante” e “emoção estética”. Um conceito é
definido em função do outro: a emoção estética é produzida pela forma significante que, por
sua vez, produz emoção estética;
-A teoria formalista é elitista: Nem todos têm sensibilidade estética para sentir emoções
estéticas e nem todos são capazes de reconhecer a forma significante. (Para Bell apenas
aqueles que concordavam com as suas ideias é que tinham sensibilidade estética).
Teorias não essencialistas
Morris Weitz argumenta que as definições tradicionais de arte falham porque não existem
condições necessárias e suficientes universais que determinem o que é arte. O conceito de arte
é indefinível, pois está em constante transformação com o surgimento de novas formas,
movimentos e expressões artísticas. Assim, a arte é um conceito aberto (sem essência), sujeito
a revisões e ajustes ao longo do tempo. Qualquer tentativa de estabelecer um conjunto fixo de
características essenciais que abranja todas as obras de arte (e somente elas) é inútil.
Há autores que, embora não procurem a essência da arte, consideram que as condições
necessárias e suficientes para que algo seja arte “são relativas ao contexto em que os objetos
se inserem e ao modo como adquirem o estatuto de obras de arte.
Teoria institucional
São ideias acerca da arte e do mundo, e a relação do objeto com elas e com as pessoas que
participam no mundo da arte em cada época que justificam a aceitação de obras radicalmente
inovadoras como arte.
Mundo da arte (Arthur Danto): instituição formada por uma extensa rede que inclui todas as
pessoas que criam, estudam, apreciam, comentam, explicam, conservam, apresentam, avaliam
ou estão ligadas, por mais fino que seja o fio, a obras de arte.
George Dickies: realça a importância do contexto convencional ou institucional que rodeia as
obras, e a relação que os seus autores pretendem estabelecer entre o que criam e o mundo da
arte. Segundo este, para algo ser considerado arte deve ser um artefacto (qualquer objeto que,
de algum modo, foi trabalhado ou modificado através da intervenção humana) e dever ser
atribuído o estatuto de candidato à apreciação (sem a obrigatoriedade de o objeto ser
apreciado). Esse estatuto será atribuído por alguém, um ou mais membros, que faça parte do
mundo da arte, instituição social.
Objeções
-A exclusão de obras que consideramos arte: a teoria exclui obras de arte de artistas que não
pertencem ao mundo da arte (anónimos, isolados e primitivos);
-Falta de autoridade reconhecida: o mundo da arte não tem organização suficiente nem
procedimentos reconhecidos para conferir a algo o estatuto de “obra de arte”.
Teoria histórica da arte
Jerrold Levinson: Algo é uma obra de arte se e apenas se é um objeto acerca do qual uma
pessoa que seja proprietária dele tem a intenção não passageira (duradoura) de que ele seja
visto como uma obra de arte, isto é, visto de qualquer modo (ou modos) como foram ou são
vistas as obras de arte anteriores.
Para que algo seja considerado arte, o autor deve ser o proprietário do objeto ou ter permissão
para usá-lo. Isso evita que qualquer coisa se torne arte apenas por declaração do artista. Além
disso, a obra deve ter uma conexão duradoura com a arte do passado, sendo criada com a
intenção séria de ser apreciada pelo público da mesma forma que as obras históricas. Também
é necessário esclarecer como a nova obra se relaciona com os modos de apreciação da arte ao
longo do tempo.
Objeções
-O problema da primeira obra de arte: tendo em conta a relação existente entre o que é
considerado arte e as obras de arte anteriores, então, o surgimento da primeira obra de arte
torna-se impossível já que esta não apresenta relações com obras anteriores;
-Demasiado abrangente: esta teoria é considerada demasiado abrangente pois considera as
falsificações como obras de arte, já que estas também foram feitas com a intenção de serem
vistas.