Pedro de Freitas Pereira, Lucas Enzo Pacheco Lima. 9°Periodo.
EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DA VARA DO TRABALHO DE
BELO HORIZONTE – MINAS GERAIS
Ângela de Jesus, nacionalidade X, estado civil X, cozinheira e arrumadeira,
portadora da cédula de identidade RG nº XXX, inscrita no CPF/MF sob o nº XXXX,
residente e domiciliada na Rua XXXX, Belo Horizonte-MG, CEP XXXX, endereço
eletrônico XXX, por seu advogado infra-assinado (procuração anexa – Doc. XXXX]),
com escritório profissional situado à XXXX, onde recebe intimações e
notificações, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, propor a
presente
RECLAMAÇÃO TRABALHISTA
Em face de ANA LUÍZA CARDOSO, nacionalidade X, médica, divorciada, portadora
da cédula de identidade RG n° XXX, inscrita no CPF/MF sob o nº XXXX, residente e
domiciliada no endereço, Rua Floripa, nº 200, apto 201, Bairro Sion, Belo
Horizonte-MG, CEP XXXX, endereço eletrônico desconhecido, pelos fatos e
fundamentos jurídicos a seguir expostos:
I. DA SÍNTESE DO CONTRATO DE TRABALHO
A Reclamante foi admitida pela Reclamada em 02 de julho de 2019, para exercer
as funções de cozinheira e arrumadeira, mediante remuneração mensal de R$
1.518,00 (um mil quinhentos e dezoito reais).
Sua jornada de trabalho era exaustiva, cumprida de segunda a sexta-feira, das
07h00 às 20h00, com apenas um pequeno e insuficiente intervalo para refeição.
Aos sábados, a Reclamante laborava das 07h00 às 14h00, sem qualquer intervalo
para descanso ou alimentação.
Durante o pacto laboral, a Reclamante gozou férias nos meses de agosto dos anos
de 2020, 2021, 2022 e 2023, sempre pelo período de 02 a 26 de agosto.
No início do mês de agosto de 2024, a Reclamante tomou conhecimento de que
estava grávida. Em 27 de agosto de 2024, a Reclamante foi dispensada sem justa
causa, sob a alegação da Reclamada de que seu salário estaria muito alto.
Importante frisar que a Reclamada já tinha ciência da gravidez da obreira.
Ao ser dispensada, a Reclamante recebeu apenas o saldo de salário, não lhe
sendo pagas as demais verbas rescisórias devidas. Ademais, a Reclamada
entregou o carnê previdenciário com quitação até julho de 2024, e não procedeu à
devida baixa na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) da Reclamante.
Diante da flagrante ilegalidade da dispensa e do não pagamento das verbas que
lhe são de direito, não restou alternativa à Reclamante senão socorrer-se da tutela
jurisdicional.
II. DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS
II.1. DA ESTABILIDADE PROVISÓRIA DA GESTANTE – NULIDADE DA DISPENSA E
REINTEGRAÇÃO OU INDENIZAÇÃO SUBSTITUTIVA
Conforme narrado, a Reclamante foi dispensada em 27 de agosto de 2024,
quando já se encontrava grávida, fato de conhecimento da Reclamada.
O Art. 10, II, “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da
Constituição Federal de 1988, veda a dispensa arbitrária ou sem justa causa da
empregada gestante, desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o
parto.
No mesmo sentido, a Súmula nº 244 do Tribunal Superior do Trabalho (TST):
> Súmula nº 244 do TST GESTANTE. ESTABILIDADE PROVISÓRIA (redação do item
III alterada na sessão do Tribunal Pleno realizada em 14.09.2012) – Res. 185/2012,
DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012
> I – O desconhecimento do estado gravídico pelo empregador não afasta o direito
ao pagamento da indenização decorrente da estabilidade (art. 10, II, “b” do ADCT).
> II – A garantia de emprego à gestante só autoriza a reintegração se esta se der
durante o período de estabilidade. Do contrário, a garantia restringe-se aos
salários e demais direitos correspondentes ao período de estabilidade.
> III – A empregada gestante tem direito à estabilidade provisória prevista no art.
10, inciso II, alínea “b”, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,
mesmo na hipótese de admissão mediante contrato por tempo determinado.
>
Assim, a dispensa da Reclamante é nula de pleno direito, fazendo jus à sua
imediata reintegração ao emprego, com o pagamento dos salários e demais
direitos do período de afastamento. Caso a reintegração não seja possível ou
recomendável, requer-se a conversão da obrigação em indenização substitutiva,
correspondente aos salários e demais direitos do período estabilitário (da data da
dispensa até 5 meses após o parto).
II.2. DAS HORAS EXTRAORDINÁRIAS E REFLEXOS
A Reclamante laborava de segunda a sexta-feira, das 07h00 às 20h00, totalizando
13 horas diárias, e aos sábados, das 07h00 às 14h00, totalizando 7 horas. A
jornada semanal perfazia 72 horas (13h x 5 dias = 65h + 7h = 72h), extrapolando
consideravelmente o limite legal de 44 horas semanais e 8 horas diárias (Art. 7º,
XIII, CF/88 e Art. 58 da CLT).
Desta forma, são devidas como extras as horas laboradas além da 8ª diária e da
44ª semanal, com adicional de, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) sobre o
valor da hora normal (Art. 7º, XVI, CF/88).
As horas extras habitualmente prestadas devem integrar o salário da Reclamante
para todos os efeitos legais, refletindo em DSR (Descanso Semanal Remunerado),
aviso prévio, férias + 1/3, 13º salários e FGTS + multa de 40%.
II.3. DO INTERVALO INTRAJORNADA SUPRIMIDO E REFLEXOS
Conforme exposto, de segunda a sexta-feira, a Reclamante usufruía de um
intervalo para refeição e descanso inferior ao mínimo legal de 1 (uma) hora,
previsto no Art. 71 da CLT, para jornadas superiores a 6 horas. Aos sábados, não
havia qualquer concessão de intervalo, embora a jornada fosse de 7 horas.
A não concessão ou a concessão parcial do intervalo intrajornada mínimo implica
o pagamento total do período correspondente, com acréscimo de, no mínimo,
50% sobre o valor da remuneração da hora normal de trabalho (Art. 71, § 4º, da
CLT).
Este valor possui natureza salarial e, portanto, deve gerar reflexos em DSR, aviso
prévio, férias + 1/3, 13º salários e FGTS + multa de 40%.
II.4. DAS VERBAS RESCISÓRIAS INADIMPLIDAS
A Reclamante foi dispensada sem justa causa e não recebeu as verbas rescisórias
a que tem direito, com exceção do saldo de salário. São devidas:
* Aviso Prévio Indenizado: Proporcional ao tempo de serviço, nos termos da Lei nº
12.506/2011 e Art. 487, §1º da CLT. Considerando o período de 02/07/2019 a
27/08/2024 (mais de 5 anos), a Reclamante faz jus a 45 dias de aviso prévio.
* Férias Vencidas e Proporcionais + 1/3:
* Férias vencidas do período aquisitivo 2022/2023 (se não integralmente gozadas
ou pagas corretamente, considerando que gozou de 02/08 a 26/08/23, o que
equivale a 24 dias, faltando o pagamento do restante e a verificação do terço
constitucional sobre o total).
* Férias integrais do período aquisitivo 2023/2024 + 1/3.
* Férias proporcionais do período de 2024 (contando o aviso prévio) + 1/3.
* 13º Salário Proporcional de 2024: Referente aos meses trabalhados no ano da
rescisão, incluindo a projeção do aviso prévio.
* FGTS + Multa de 40%: Depósitos de FGTS de todo o contrato de trabalho,
acrescidos da multa de 40% sobre o montante, em virtude da dispensa imotivada.
Requer-se a expedição de alvará para saque.
II.5. DA BAIXA NA CTPS
A Reclamada não procedeu à baixa na CTPS da Reclamante, o que lhe causa
prejuízos na busca por nova colocação no mercado de trabalho. Requer-se que a
Reclamada seja compelida a efetuar a devida anotação de baixa, com a data do
término do aviso prévio projetado.
II.6. DA INDENIZAÇÃO DO SEGURO-DESEMPREGO
Em razão da dispensa imotivada e do preenchimento dos requisitos legais, a
Reclamante faz jus ao seguro-desemprego. Caso a reintegração não ocorra ou as
guias não sejam fornecidas em tempo hábil, requer-se a condenação da
Reclamada ao pagamento de indenização substitutiva correspondente.
II.7. DA JUSTIÇA GRATUITA
A Reclamante declara, sob as penas da lei, que não possui condições de arcar
com as custas processuais e honorários advocatícios sem prejuízo do seu
sustento e de sua família, fazendo jus aos benefícios da Justiça Gratuita, nos
termos do Art. 790, §§ 3º e 4º da CLT e Art. 98 do CPC.
II.8. DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS
Requer-se a condenação da Reclamada ao pagamento de honorários advocatícios
sucumbenciais, no percentual de 15% (quinze por cento) sobre o valor que
resultar da liquidação da sentença, nos termos do Art. 791-A da CLT.
III. DOS PEDIDOS
Diante do exposto, requer a Reclamante:
a) A concessão dos benefícios da Justiça Gratuita, nos termos da fundamentação;
b) A citação da Reclamada para, querendo, apresentar defesa na audiência a ser
designada, sob pena de revelia e confissão quanto à matéria de fato;
c) O reconhecimento da nulidade da dispensa e a consequente reintegração da
Reclamante ao emprego, em razão da estabilidade gestante, com o pagamento
dos salários e demais direitos desde a data da dispensa até a efetiva reintegração,
sob pena de multa diária a ser arbitrada por Vossa Excelência;
d) Subsidiariamente, caso não seja possível ou recomendável a reintegração, a
condenação da Reclamada ao pagamento de indenização substitutiva
correspondente aos salários e demais direitos do período estabilitário (da data da
dispensa até 5 meses após o parto);
e) A condenação da Reclamada ao pagamento das horas extraordinárias
laboradas, com adicional de 50%, e seus reflexos em DSR, aviso prévio, férias +
1/3, 13º salários e FGTS + multa de 40%;
f) A condenação da Reclamada ao pagamento do intervalo intrajornada
suprimido, com adicional de 50%, e seus reflexos em DSR, aviso prévio, férias +
1/3, 13º salários e FGTS + multa de 40%;
g) A condenação da Reclamada ao pagamento das seguintes verbas rescisórias:
g.1) Aviso prévio indenizado (45 dias);
g.2) Férias vencidas do período 2022/2023 (se houver diferença não paga) + 1/3;
g.3) Férias integrais do período 2023/2024 + 1/3;
g.4) Férias proporcionais de 2024 (incluindo projeção do aviso prévio) + 1/3;
g.5) 13º salário proporcional de 2024 (incluindo projeção do aviso prévio);
h) A condenação da Reclamada a efetuar os depósitos de FGTS de todo o período
contratual, acrescidos da multa de 40%, e a liberação das guias para saque ou
pagamento de indenização correspondente;
i) A condenação da Reclamada a proceder à baixa na CTPS da Reclamante, com
data de término do aviso prévio projetado, sob pena de a Secretaria da Vara o
fazer;
j) A condenação da Reclamada ao fornecimento das guias para habilitação no
seguro-desemprego ou, subsidiariamente, ao pagamento de indenização
substitutiva;
k) A condenação da Reclamada ao pagamento de honorários advocatícios
sucumbenciais no percentual de 15% sobre o valor da condenação.
l) Que sejam todos os valores apurados em liquidação de sentença, com juros e
correção monetária na forma da lei.
IV. DOS REQUERIMENTOS FINAIS
Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos,
especialmente pelo depoimento pessoal da Reclamada, sob pena de confissão,
oitiva de testemunhas, juntada de novos documentos, perícias e tudo mais que se
fizer necessário para o deslinde da causa.
Dá-se à causa o valor de R$ XXXXX.
Termos em que,
Pede Deferimento.
Belo Horizonte, XXX
Advogado XXXX
OAB/[UF] n°XXXX