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Cenas, Cartas e Contos

O documento é uma coletânea de textos de Caio Ábner, incluindo cenas, cartas e contos que refletem sua visão de mundo e experiências pessoais. O prefácio apresenta o autor e seu estilo de escrita, enquanto as partes subsequentes exploram diálogos e narrativas que abordam temas como identidade, relações e questões sociais. A obra é marcada por um tom informal e reflexivo, revelando a vida e os dilemas contemporâneos.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Cenas, Cartas e Contos

O documento é uma coletânea de textos de Caio Ábner, incluindo cenas, cartas e contos que refletem sua visão de mundo e experiências pessoais. O prefácio apresenta o autor e seu estilo de escrita, enquanto as partes subsequentes exploram diálogos e narrativas que abordam temas como identidade, relações e questões sociais. A obra é marcada por um tom informal e reflexivo, revelando a vida e os dilemas contemporâneos.
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Cenas, Cartas

e Contos.
Por Caio Ábner

Agradecimentos dedicados

a você que está com esse exemplar em mãos.


Sumário:
Prefácio.

Parte 1 - Cenas:
A entrevista.
Rogai por nós.
Questões: Chico Assis recebe Pedro Giliarde.
Café da tarde.
Questões: Chico Assis Recebe Viviane Garcia.
O que vamos comer hoje à noite?

Parte 2 - Cartas:
Perdoa a demora.
Sei que não
Por falar em saudade.
Quanto tempo…
Louco, não?
Pra dizer que te amo.
O senhor e a horta.

Parte 3 - Contos:
O Gato.
O diário do Poeta.
O diário do Poeta - pt. 2
O diário do poeta - pt. 3
O diário do poeta - pt. 4
O diário do poeta - Fim.
Cigarro na varanda.
Dolphin Tank.
Uní-vos.
Consequências.
Venceremos.
Ela está em tudo.
Sumiu.
A Escritora do quarto 106.
Jorginho, o latinazi.
José.
Prefácio.

Opa, bão?
Segundo Seu Edson, pai do Irmão do Jorel, todo livro precisa de um texto
desinteressante no início. Então esse é o meu prefácio! Que foi escrito por mim
mesmo, pois não seria narcisista ao ponto de pedir para alguém fazer um texto
falando sobre minha pessoa. Pensando bem, não seria de má ideia pedir a uma
pessoa aleatória para escrever sobre mim, dando total liberdade criativa para ela.
Com certeza iria sair algo mais interessante do que eu sou.
Certo, vou me apresentar.
Muito prazer, me chamo Caio Ábner, como você leu na capa. No momento que
escrevo isso tenho 19 anos. Quer características físicas? Pois imagine! Isso é um
livro.
Como logo vai notar, sou de Belo Horizonte e trago muito de minha cidade nas
histórias (fazemos aniversário no mesmo dia, veja você), gosto de música chata,
filme europeu e torço para o Galo (Atlético MG). Acho que isso é o principal.
Ao embarcar nessa leitura, você vai viajar pelos universos, personagens,
diálogos e dilemas vindos diretamente da minha cabeça. Vou te levar em um
breve passeio, então aperte os cintos... não, puta que pariu, não acredito que
meti essa. Que primeira impressão você vai ter de mim?
Vai ser um bom passeio? Provavelmente não. Mas dê uma colher de chá, estou
perdendo minha virgindade literária no momento em que você lê essas páginas.
Porém, meu querido leitor, o problema é se você gostar. Aí, meu lindo, você
está fodido. Porque vai ir atrás das próximas coisas que eu escrever e a chance
de rolar uma decepção é muito grande.
Certo, vai chegando ao fim esse prefácio. Espero que não perceba que eu estou
te enrolando. Enfim, pode passar de página.
E até que eu escrevo direitinho, bobo. Cê vai ver.
Parte 1 - Cenas.
A Entrevista

— Como se chama?
— Paulo Augusto Machado.
— Sua profissão.
— Sou historiador, trabalho no Museu de Artes e Ofícios de BH.
— E por que acha que merece essa vaga?
— Por que mereço. Tenho boa dicção, sei me dar bem com pessoas, sou
extrovertido e tenho uma fascinação diferenciada pelo Egito Antigo, então vou
encher todo visitante de informações; também sou perfeccionista, gosto muito
de conversar, principalmente com os mais jovens, quando vejo um menino ou
uma menina com uns dezoito, vinte anos, eu me vejo naquela idade e o quanto
eu gostava de tudo aquilo que aconteceu há centenas de anos. Mas sou bem
preguiçoso, não posso ver uma cadeira que quero me sentar, fumo muito, então
sempre devo voltar do horário de almoço cheirando a cigarro.
— Certo… me fala mais sobre você.
— Como?
— Diga quem você é.
— Nossa, que difícil. Acho que sou tanta coisa, quando vejo o que fiz, o que
estou pra fazer, o que quero fazer. Mas quando me sento no meu canto percebo
que não sou nada, não sirvo pra nada, não sei nem o motivo de ter nascido,
porra, eu nem queria ter nascido, ia evitar tanta coisa.
— É… se você fosse um bicho, qual seria?
— Eu já sou um bicho, mas um bicho racional. Só que nem tanto, porque
quando fico bêbado, entro no contato dela pra ficar vendo a foto. Ela me
bloqueou no Whatsapp? Bloqueou. Mas tem o Telegram. Eu nem tinha o
Telegram, aí tive que baixar porque um grupo que eu faço parte usa lá direto,
daí eu vi lá o contato dela, nem sabia que ela tinha Telegram. Eu fico entrando
lá pra ver a porra da foto de perfil, ela cortou o cabelo curtinho, puta que pariu,
ficou linda demais. E sabe qual é o pior? Eu nem queria estar com ela mais, eu
que terminei e não tô arrependido, mas tô carente demais, puta merda. Achei
que ia sair comendo uma galera, mas não tô, não tá indo. Olha que eu sou bom
de papo, sei flertar, mas puta que pariu, ninguém me quer. E esse trem de Tinder
não serve pra mim, fico perdidinho toda vez que entro. Eu vou pra uns
pagodinhos, umas baladas, mas só tem um pessoal mais jovem, que tem fôlego
para virar a noite, eu não sou velho, sou animado, mas nem tanto, tudo tem um
limite.
— E o animal?
— Ah, sei lá. Põe um peixe.
— Por quê?
— Porque peixe esquece das coisas e tudo que eu queria era esquecer um pouco.
Esquecer que tô vivo. Acho que tô até morto por dentro, quem tá falando com
você é o meu corpo.
— Então… esse é o seu perfil?
— Não sei.
— Como não?
— Acabei de te falar, eu não sei quem sou eu, não sei qual porra de perfil eu
tenho. Não sei nem se você deve me contratar. Eu vou ser um ótimo
profissional, vou tratar todo mundo bem, mas vou ficar deprimido assim que
bater seis horas, ir pra casa pensando nas maneiras mais sádicas de matar o
gerente. Gosto da ideia de empalar, gosto de fazer um corte e deixar ele
sangrando até morrer, mas nu e pendurado de ponta cabeça; usar ele como alvo
pra treino de tiro. Vai ser do caralho trabalhar aqui, mas não sei nem se vou
estar vivo daqui meia hora. Me contrata, me manda embora, não, você não pode
mandar embora, né? Nem tô contratado. Mas me humilha, me bate, me
sodomiza, faz o que quiser. Não me importo mais não.
— Vou ficar de ligar pra avisar se você passou, tá bom? Só mais uma coisa,
sobre sua raça, como se identifica?
— Ah, eu me identifico com tudo, mas não me identifico com nada...
Rogai por nós

— Queria falar comigo, Bispo João?


— Sim, Padre Paulo. — O padre chega na capela, vendo o bispo de costas,
virado para a imagem de Jesus crucificado. — Chegou até mim que o senhor
rezou uma missa no assentamento ontem. É verdade?
— Rezei sim, senhor.
— Não se cansa de trazer problema pra igreja não, padre?
— Não sei qual é o problema, senhor.
O Bispo se vira para encarar o Padre.
— Não vê problema em ir apoiar o MST?
— Não vejo.
— Aquilo lá é um bando de invasor, Padre Paulo. E pior, esse assentamento fica
onde era uma das fazendas do Osório, um dos que mais espalham a palavra da
capela.
— Se é um assentamento, é porque o governo autorizou o povo a ficar lá. Tô
fazendo tudo dentro da lei.
— Mas não é o governo que ajuda a gente, é o… — O Bispo coçou os olhos,
cansado de bater de frente com o Padre. — Como que chama esse assentamento
mesmo?
— Assentamento Che Guevara.
— Padre Paulo, Padre Paulo. O senhor sabe quem foi esse assassino?
— Sei sim.
— E vai em um lugar que ostenta o nome dele?
— Os grandes comandantes devem ser homenageados. Os verdadeiros, não os
que estão ao lado da tirania, se o senhor soubesse quem foi Duque de Caxias,
com certeza seria contra todas as ruas e praças em sua homenagem, e esse é só
um exemplo. Já o Che está do lado de Zumbi, de Lampião, de Manuel Balaio,
de Osvaldão, do lado certo, que mataram sim, mas quem estava do lado dos
senhores, e morreram por lutar do lado do povo. Todos esses mortos pelos
poderosos, pela tirania.
— Tava tão do lado dos pobres que naquela ilhazinha só tem pobreza.
— O senhor já andou no centro? Já foi na Praça da Estação? Já viu algum
viaduto de Belo Horizonte? A diferença, Bispo João, é que lá, mesmo sem
recurso nenhum, o governo cuida da população, sabe. Aqui no Brasil tem muito
dinheiro e…
— Tá, você tem as suas convicções e o povo gosta do jeito que você fala. Não
quero te expulsar da igreja, mas o senhor vai ter que tomar jeito. — O Bispo se
aproxima do padre e toca seu ombro. — O deputado Arthur já me ligou, falou
que o cabeça da CML tá furioso contigo, porque o senhor fica ajudando os
mendigos do bairro e isso afasta clientes, que era pra eu botar rédeas no senhor.
— Eu tô nessa Terra pra agir como Jesus, Bispo João. Não me importo com o
que dono de construtora vai achar.
— Mas eu me importo, Padre Paulo, eu me importo. E não só eu, a igreja
também. — Ele finge tranquilidade na fala. — O deputado Arthur Brandão vai
vir aqui no domingo pra anunciar campanha. Vê se se comporta direitinho até
lá, só isso que eu te peço.
— Comportar?
— É, não mexe com esse povo aí que você tanto gosta, não traz eles pra dentro
da capela como o senhor fez daquela vez, aqui é lugar de gente… cheirosinha,
sabe?
— Desculpa, Bispo…
— Não, eu que peço. — O Bispo segurava o braço do padre. — Eu te entendo,
Padre, juro que entendo. Também já fui jovem e tinha essas ideias
revolucionárias, mas com o tempo eu fui vendo que é bobeira.
— Posso ter a idade que for que vou continuar seguindo a palavra de Cristo, e
tenho certeza que ele não...
— Não tô aqui pra discutir, Padre. O certo é que até domingo você não pode ir
na distribuição de marmita, nessas "cozinhas solidárias" — Ele faz aspas com os
dedos — Pelo menos até esse domingo, acho que o senhor consegue se segurar.
E deixa a polícia tirar aqueles drogados da rua, isso não é um pedido, Padre
Paulo, da última vez deu um bafafá desgraçado.
— Não vou ver alguém tomando porrada e ficar calado…
— Padre Paulo, estamos conversados.

*** ***
No domingo, a missa estava lotada, vários carros estacionados na rua da igreja,
câmeras da imprensa, do jeito que o Bispo João gostava de celebrar. Na cadeira
da frente, o deputado Arthur Brandão, dois ou três vereadores do partido,
Ulisses Guimarães, o idoso dono da CML, entre outras personalidades que iriam
dar apoio a campanha de Arthur.
No final da missa, o Bispo estava se despedindo dos convidados especiais,
quando viu uma movimentação estranha e ouviu um pequeno burburinho.
Andou até a entrada da igreja e xingou diversos palavrões mentalmente.
Na rua, vários moradores de rua estavam enfileirados, indo em direção a uma
van, de onde saíam com pratos de sopa, cujo cheiro de tempero de carne de
panela enchia toda a rua. Empunhavam cartazes, dentre eles, o degenerado
Padre Paulo, manchando a batina sagrada da capela no meio daquelas pessoas.
Nos cartazes, lia-se "Sou filho de Deus".
Questões: Chico Assis
recebe Pedro Giliarde

— Questões! Tá no ar outro Questões. E essa é uma data especial, veja só


você, estamos sustentando esse programa ridículo há cinco anos. Cinco anos é
uma vida, mas esse assunto não me apetece, a vida, prefiro sua concorrente. —
Chico Assis diz olhando para a câmera. Um velho, que estava mais perto da
morte do que se alcançar os pés, como o mesmo gostava de se descrever, pele
preta e enrugada, os cabelos brancos perfeitamente cortados, mas já em falta,
um nariz maior do que o habitual e um corpo acima do peso, que lhe
prejudicava na saúde e nos movimentos. — Morte. Eu questiono a você que está
me assistindo agora: o que é a morte? Não tem respostas? Ótimo. A morte é a
grande incógnita da humanidade, mais confusa até do que entender como o
capitalismo perdura até hoje. Só seremos realmente leves quando encararmos a
morte, por isso me sinto leve. Não devo ter mais cinco anos de vida e estou
trabalhando em um programa que ninguém assiste. Sou um imbecil, mas um
imbecil leve, e que assinou um contrato.
Ele toma um gole d'água.
— Meu ilustre, ou não, convidado que veio para celebrar o aniversário de cinco
anos do Questões, é um jovem músico, mas mesmo com vinte e poucos anos,
alcançou um sucesso que muitos guitarristas geniais jamais vão chegar perto.
Um líder, um frontman, polêmico, com temperamento explosivo e um símbolo
sexual para meninos e meninas adolescentes de todo o país. Pedro Henrique
Giliarde dos Santos, ou somente Pedro Giliarde.
— Acho que vou ter que discordar do senhor antes mesmo de agradecer o
convite. — Pedro falou, exibindo a cabeleira lisa que lhe batia nas costas, pele
branca e bronzeada, uma tatuagem tribal no pescoço que aparecia pela gola da
blusa, propositalmente aberta para mostrar mais do peitoral. — Não me vejo
como um símbolo sexual.
— Não? Tenho certeza que um menino ou uma menina está se masturbando
pensando em você agora mesmo.
— Se estiver é por um gosto particular, mas sou um artista, o pessoal vai atrás
da banda porque gosta das músicas, das minhas composições, do nosso show.
Não porque eu ou o Guilherme ou a Teresa somos bonitos.
Chico ficou encarando Pedro.
— Pedro, como eu ia dizendo, se você não quiser me interromper de novo, se
apresente sem falar sua profissão ou seu curso.
— Hum. — Ele entrelaça os dedos no cabelo e aproxima os fios dos lábios. —
Sou um consumidor de toda forma de arte, principalmente da literatura e da
música, e uso essa influência para fazer o melhor que posso na banda.
— O que mais?
— É… — Tenta desesperadamente pensar em algo. — É mais isso mesmo, essa
banda é tudo o que eu tenho, tudo que eu acredito, o que conquistei.
— Já entendi que você é raso. Quando começou a fazer música?
— Então, acho que aprendi a cantar antes mesmo de aprender a falar, meu avô
tinha um grupo de samba amador, daí quase todo domingo eu estava nas rodas
de samba, ele que me ensinou a tocar violão, fazer uns batuques, me ajudou
muito quando eu comecei a compor também. — Tentou ignorar o fato de ter
sido chamado de raso.
— Você é mineiro, certo?
— Isso, de Belo Horizonte.
— Estive lá umas três ou quatro vezes, mas acho que todas antes de você nascer.
Depois que voltei pro Brasil, minha rota foi São Luiz - São Paulo, São Paulo -
São Luiz. Poucas vezes saí disso.
— E o senhor voltou só com a anistia?
— Legalmente sim.
— Nossa. — Pedro sorri um sorriso inocentemente bobo. Limpa a garganta. —
Mas não, Chico. Lembro de uma vez que o senhor estava dando autógrafos em
uma livraria na Savassi, eu era menino, aí pedi pra minha mãe me levar.
— Saiu com seu autógrafo?
— Saí, fez a alegria do Pedro menorzinho.
— E qual é a influência que a sua cidade te traz?
— Nunca parei pra pensar nisso, sabia. Acho que os pontos bonitos. Uma das
primeiras músicas que eu fiz com o Guilherme, nós estávamos lá na Praça da
Liberdade, vendo toda aquela paisagem urbana, mas com as árvores em
contraponto. Na cena também, recentemente eu fui nas batalhas de rap que tem
no Santa Tereza.
— Você em uma batalha de rap? Te aceitaram lá mesmo vendo essa carinha de
menino mimado?
— Me senti deslocado, mas não pude deixar de ir ver. — Ele ri e toca o rosto,
quase inconscientemente.
— Por quê?
— Ah, eu amo a arte, sabe, amo toda manifestação cultural, sou artista por isso.
Me senti deslocado porque não é a minha realidade, mas adorei ver tudo aquilo,
foi muito enriquecedor.
— Como é ser um objeto da indústria?
— Como?
— Usam do seu rosto, voz e corpo para vender. Se acha que ficou famoso por
talento ou mérito, está muito enganado.
— Mas tive certo mérito, tive que ter uma banda, compor…
— Se seus pais não tivessem dinheiro para te dar uma guitarra, onde estaria?
— Acho que ainda seria um músico, mas não gosto do termo "se".
— Onde estaria?
— Não sei…
— Então você não tem mérito algum. — Chico sobe os óculos pelo nariz. —
Quais são suas referências, Pedro?
— É… — Pedro quase gagueja, mas se concentra em estalar os dedos. — Nessa
época que eu tava te falando, das rodas de samba, eu ouvia muito Cartola,
Benito di Paula, minha mãe era apaixonada pelo Belchior, então aquele
"Coração selvagem" da capa rosinha não saia da vitrola. Mas quando eu entrei
numa loja de discos e tava tocando Black Sabbath, minha cabeça explodiu,
depois fui atrás de outras bandas até mais pesadas, Sepultura, Sarcófago.
— De Belchior aos irmãos Cavalera, inspirações muito diferentes. — Chico
parecia desinteressado. — Uma coisa que chama atenção nas suas músicas, acho
que a única, são as letras. Onde a poesia apareceu na tua vida?
— Com um livro seu. — Pedro ri e olha para cima. — Hidelberto e o Monte
Sagrado, o senhor escreveu ele em Cuba, né?
— No Panamá. — Chico corrige. — Passei por vários países antes de firmar
estadia em Cuba. Os milicos não deixaram eu planejar meu cronograma de
viagens.
— Pode falar disso? Eu só li, ouvir da sua boca ia me deixar muito feliz.
— Comecei com um livro de Friedrich Engels, que tive que traduzir do inglês
britânico, e quando me dei por conta já estava segurando um revólver atirando
nos camburões da traseira de um fusca. Vieram me procurar em alguns
sindicatos do ABC, mas eu já estava atravessando a fronteira da Bolívia. De lá
fui subindo a serra. Mas o convidado é você, não falo de mim aqui.
— Certo. — Pedro tentou esconder a empolgação. — Começou com o livro que
comentei, inclusive tenho ele até hoje e trouxe para o senhor autografar, pode
fazer isso? — Ele pega do bolso um pequeno livro velho de capa vermelha.
Chico pede uma caneta, recebendo uma Bic preta da diretora. Abre na primeira
folha, lê as informações da edição, repara no ano, 1987, a primeira reedição no
pós censura.
Escreve "Para o meu convidado mais desinteressante. Com amor, Chico Assis."
— Só poderá ver quando o programa acabar.
— A ansiedade vai me matar. — Pedro responde.
— Que mate, Pedro Giliarde, que mate. — Chico diz antes que Pedro pudesse
contrapor. — Quem te compra?
— Como?
— Quem deixa sua gravadora milionária usando seu
rosto?
— Ah. — Pedro ri com a explicação. — É um público adolescente em maioria,
mas pela densidade das minhas letras, muitos adultos nos escutam. Acho que é
mais feminino também.
— Você fala das suas letras com orgulho, posso saber o motivo?
— Tenho orgulho por tê-las escrito, principalmente as
desse segundo disco.
— Eu ainda não tive o prazer de ouvir o seu último disco…
— O senhor tá sendo irônico?
— Acha que eu estou?
— Não sei, é que o jeito que o senhor fala faz parecer que não tem uma vírgula
que não seja irônica.
— Como eu ia dizendo, não tive tempo de ouvir o disco, mas li algumas letras e
"Um recado póstumo" e "Cartas para ela" chamaram minha atenção. O que você
mais lê de poesia?
— Um tal de Chico Assis. — Pedro brinca, mas fica sem graça ao ver que
Chico não esboçou reação. — Castro Alves, Casimiro de Abreu, Álvares de
Azevedo, Carlos Sampaio Filho, Gregório Frazão, os ultraromânticos em geral.
Também amo todos os que fizeram a semana de arte moderna. Cecília, Anita,
sou aficionado por essa data.
— Destes nomes que você citou, conheço uma pessoa que põe todos eles no
bolso. — Chico não espera que Pedro termine.
— Carlos Drummond de Andrade?
— João Silva e mais um ou dois sobrenomes que ele não se lembra.
— Não conheço esse poeta.
— É um mendigo alcoólatra e analfabeto de São Paulo. Parei meu carro no
semáforo e ele veio me pedir algumas moedas, isso quando eu conseguia dirigir,
ele me disse que a vida só tem razão quando estamos bêbados, pois esse é o
momento onde estamos vivendo de verdade. Faz sentido?
Pedro arrumou o cabelo, tirando os fios teimosos da testa.
— Acho que faz.
— Não faz sentido algum, a bebida é uma fuga, mas fugas não são capazes de
alterar a triste realidade. Você é de esquerda ou de direita?
— Que quebra. — Pedro não sabia onde pôr as mãos. — Acho que de esquerda,
não sei na verdade, nunca li o Marx, não sei nada sobre a China ou sobre a
União Soviética, não sei nem porque ela acabou. Mas também não acredito
nesse negócio de livre mercado, esse trem só serve pra deixar quem é rico mais
rico. Então não sei, Chico. Acho que tô no centro.
— Ou você tá no centro ou é de esquerda, se decide. Porque quem está em cima
do muro sempre cai pra direita, tome cuidado. — Chico olha para a câmera e
chama o intervalo. Se joga na cadeira, perdendo toda a postura que tinha no
início do programa, aliviando a tensão das costas, massageia o pescoço com
as mãos, tira os óculos do rosto e pede um pano para limpá-lo. — Na quinta da
semana que vem, vai fazer um ano que não coloco um cigarro na boca.
— Que notícia boa, Chico. Parabéns. — Pedro estende a mão para
cumprimentar o velho, mas é ignorado.
— Nunca fiquei tão tenso e deprimido, mas também devem ser sintomas da
obesidade e da depressão, da pressão alta também. — Recebe o pano e limpa as
lentes. Volta a falar assim que recebe um "ok" da diretora. — Se você soubesse
a idade com que vai morrer, estaria vivendo diferente?
— Poxa, deixa eu respirar, é uma porrada atrás da outra. Alguém me traz água,
por favor. — Pedro procura algum conforto com os olhos, mas só vê a diretora
vindo com um copo d'água. — Deixa eu ver se entendi, é como se eu viesse
com a data da minha morte na certidão de nascimento?
— Você entendeu perfeitamente.
— Talvez eu não pedisse tantas desculpas.
Pela primeira vez, Chico fica contrariado, mas não deixa transparecer.
— Acha que seu maior erro é o arrependimento?
— Juro que não é arrogância, mas se eu usasse o tempo que eu passei me
desculpando, encarando os meus erros, talvez eu saberia o que te responder
agora.
— Imaginemos uma cena trágica: você sai do estúdio e tem que atravessar a rua
para chegar ao seu carro, neste trajeto, um ônibus te atropela, você morre na
ambulância indo para o hospital. Durante esse curto período de tempo, onde
você está ensanguentado no chão, esperando a ambulância chegar, tudo o que
você já fez iria passar pela sua cabeça. Sua vida valeu a pena?
Pedro ri, mas por não conseguir conter as lágrimas que estavam ameaçando
descer.
— Ah, eu acho que sim, fiz muita coisa boa pra mim e pra muita gente.
— Então porque hesita em me responder?
— Eu não sei, não sei de nada agora. — Ele começa a limpar os olhos e o nariz.
— Chore, por favor. Pedro, o que queria que eu tivesse te perguntado?
— Não sei! Queria que você deixasse eu adaptar um poema seu, tenho uma
cozinha muito boa pra vários de seus textos, compus a linha vocal, tudo, tudo.
— Como eu posso deixar um texto meu em suas mãos, Pedro? Você vem aqui e
cita dez nomes difíceis para o grande público, diz que ama a cultura, mas não
sabe responder o mínimo que é o seu posicionamento, exala uma falsa
intelectualidade, quando é apenas um rostinho bonito da indústria que é
superficial em tudo. Não sabe se a sua vida está valendo a pena. Você é tosco e
propaga sua tosquidão. Aproveite sua influência para incentivar, verdadeirizar,
politizar.
Pedro usa a gola da blusa para limpar o rosto.
— Eu não esperava que fosse assim.
— Sem lamentos por aqui. Pra fechar, vou te fazer a última pergunta. O que é a
vida?
Pedro tenta se recompor, ajeitando a blusa e a postura.
— A vida é o quanto você consegue conquistar o que sonhou.
— O que é a vida?
— A vida é você conseguir ficar tranquilo, com gente que te ama.
— Pedro Giliarde, o que é a vida?
Pedro põe a cabeça na mesa, aos prantos.
— Me dá uma resposta, pelo amor de Deus.
— Certo, te dou sua resposta. — Chico se volta para a câmera, põe a mão na
cabeça de Pedro e alisa seus cabelos com os dedos. — Estamos de volta no dia
de sempre, na hora de sempre, próxima terça, às vinte e uma horas. Caso queira
ver a reprise, será transmitida no sábado, às dezoito. E não se esqueça, a falsa
paz só é benéfica para nossos inimigos. Até!
Café da tarde

– Não, meu irmão não bebia nessa época ainda não. Ele era alto, bonito, forte
pra caramba. Aí era eu, ele e minha mãe.
– Onde que era?
– No Boa Vista. Lembro que lá não tinha nada, como mudou, né. Eu andava por
aquela avenida… como que é o nome mesmo… Mende Sá? Não, não é Mende
Sá não… é lá pro lado de vocês ali.
– Waldomiro Lobo?
– Não, a outra.
– Ah, a Saramenha?
– Isso, Saramenha, sempre confundo ela com a Mende Sá. Aí eu andava por
aqueles canto tudo. Ia muito pro Horto pra trocar revista. A mamãe ia pedindo
roupa pra lavar, batia de casa em casa, conseguia pagar o aluguel. Mas meu
irmão, nó, meu irmão você tinha que ver. Os vizinhos falavam que tinha uma
moça em casa, de tão educado que ele era. E o negócio dele era ir no cinema,
porque na época era só pra quem era bacana, e ele ia todo arrumado, só andava
elegante.
– Quais filmes que passavam?
– Era mais faroeste. Dos bonzino contra os índio, engraçado que os índios
sempre eram os do mal.
– De filme brasileiro tinha o Zé do Caixão, né?
– Não, o Zé do Caixão veio depois. De filme brasilerio tinha o Costinha.
– A Dercy é dessa época também?
– Acho que era. Mas aí como que as coisas mudam, hoje em dia você vai lá no
Boa Vista e só tem casa, só rua. Eu e meu irmão brincava de ficar pegando
passarinho no mato, hoje em dia não tem mais mato nenhum. Até o futebol
mesmo, quando eu trabalhava na banca, o Reinaldo passava lá direto, era
baixinho, mas patotinha assim, sabe? O jogador de antigamente não era rico
como de hoje, só os mais famoso.
– Foi bacana demais o Galo ter feito aquela homenagem no título.
– Nem fala, porque o Reinaldo só não ganhou o brasileiro porque não deixaram.
No Brasileiro de 77, ele fez 28 gols em 18 jogos, até hoje é recorde. Aí a CBF
tirou ele do jogo contra o São Paulo, porque ele fechava a mão pra comemorar
os gols. É protesto. E do jeito que ele tava jogando, com certeza ia fazer pelo
menos um gol. No jogo também não deram um pênalti claro pro Atlético, o
Mineirão todo viu menos o juiz.
– Fazia o punho cerrado, é um protesto contra o racismo.
– Hoje em dia todo mundo faz, mas na época o bicho pegava. Ele saiu da
seleção cedo por conta disso também, além de ter brigado com o Telê.
Um breve silêncio.
– Aí meu irmão começou com a bebedeira, mas não guardo mágoa não, sou
feliz demais com o que tenho hoje, com vocês. Nunca foi fácil, e não é muito
não, mas graças a Deus deu pra conquistar isso aqui.
Questões: Chico Assis
recebe Viviane Garcia

— Questões! Acaba de começar mais um Questões. Esse programa que


deveria ser censurado, porque seu único motivo é trazer o desconforto, a
tristeza. Seus realizadores deveriam ser torturados, porque somos depravados,
libertinos, trazemos incômodo àquela família importada da Europa. Imagine um
velho de mais de oitenta anos, acima do peso, pendurado nos porões do DOPS,
recebendo choques e objetos sendo introduzidos no seu orificío anal. Não, não
imagine isso. – Chico Assis não sabia para qual câmera olhar, havia se
esquecido, mesmo com mais de dez anos de programa, cada vez mais a idade
cobrava o preço dos anos setenta. – Agora, iremos falar com a convidada de
hoje, que é uma poetisa. Veja só, há mais gente dando continuidade a essa arte
falida. Viviane Garcia de Oliveira, vinda de Salvador, lançando seu terceiro
livro “Curvas virgens”. Viviane, se apresente sem falar sua profissão e seu
curso.
— Minha mãe me nomeou como Viviane, sou uma mulher preta, da Bahia, que
tenta alcançar as pessoas através do que escreve.
— E quando começou a escrever?
— Primeiro, eu quero falar que não tinha nem roupa pra te ver, Chico…
— A produção não te deu…
— Não, não é isso. – Viviane ri. Era alta, com os cabelos trançados caindo na
frente dos ombros e diversos brincos na orelha direita. – Eu tô lisonjeada em te
conhecer…
— Eu não sou importante, a convidada é você.
— Tá bom. – Ela cruza as pernas e tenta ficar com a postura correta, vendo
Chico jogado na poltrona. — Eu comecei a escrever ainda adolescente, por
causa do menino que eu era apaixonadinha na escola. Era o sofrimento de quem
não precisava ajudar em casa, mas logo fui lendo e gostando cada vez mais de
fazer minhas rimas, de ler poesia, mostrava o que escrevia para minhas amigas,
minha mãe.
— Você não nasceu em berço de ouro como a maioria dos meus convidados.
Como conseguiu publicar seu primeiro livro?
— Ganhei um concurso de escrita lá de Salvador.
— Continue a falar do processo.
— Eu já tinha tudo pronto, aí paguei a editora com o dinheiro da premiação e
lancei o livro. Esse livro, o “Canto para ela” ficou bem conhecido entre o
círculo das faculdades, lembro que fui para São Luíz, a sua terra, pra Maceió,
Belém, depois desci pra Vitória, Belo Horizonte, Rio, daí desci mais ainda pra
Porto Alegre. E era sempre esse pessoal que vinha me ver, na faixa dos vinte e
um aos vinte e cinco, cabelo pintado, essa galera.
— Em Belo Horizonte você encontrou com aquele infeliz?
— Sim, fui chamada pro show de despedida da Tríade, inclusive o Pedro me
convidou pro camarim, fiquei me sentindo toda importante.
— Ele não para de encher meu saco, vive ligando pra minha filha pra perguntar
sobre meu estado de saúde, sempre que vem a São Paulo me visita sem avisar,
já falei que não vou mais abrir o portão. – Chico tenta mudar de posição na
cadeira. – Mas fala da polêmica com aquele pastor.
— Isso é até recente. Porque publiquei um poema no meu site, onde ele
retratava, de forma bem erótica até, duas mulheres fazendo sexo. Daí esse pastor
pegou um trecho, fez um vídeo dando a entender que era destinado para
crianças… Difícil, mas já tá resolvido.
— Eu também tive minhas desavenças com aquele embuste.
— Mas o senhor falou que… que… — Ela se censura.
— Pode falar, aqui não tem amarras. Eu disse que queria que a igreja fosse
incendiada com ele lá dentro. E quem perdeu dinheiro no processo foi a
emissora, então não me importo. Agora, diga-me as suas maiores inspirações.
— Hum. — Viviane coça a orelha. — Conceição Evaristo, o senhor, Mano
Brown, isso na parte engajada da minha arte, mas na beleza das palavras, os
clássicos, né, Machado de Assis, Cecília Meireles, Clarice Lispector. Esses que
são os mestres, eu sou só uma pupila.
— Quando você escreve, quando produz tua arte, pelo o que está lutando?
— Acho que pela nossa liberdade, de ser quem tu é, amar quem tu quer…
— Que luta merda.
— Não acho.
— Não existe liberdade quando a sua única escolha é se vender ou morrer de
fome. A escravidão actual não está nos navios negreiros e sim nos ônibus
lotação. Eu, por exemplo, passei dos oitenta e continuo dando audiência para o
dono dessa emissora, que conseguiu ter o mérito de tê-la herdado do pai.
— Mas por que o senhor assinou o contrato? Era só ter ido pra outra.
— Que outra? Eu não tinha nada quando retornei ao Brasil, meus livros foram
censurados e não havia circulação deles há uns dez anos. Voltei a dar aula, mas
minha saúde não me deixava ir a semana inteira. Foi aí que a TV me apareceu
com uma oferta. Já falei milhares de vezes que odeio falar de mim. Ah! Já estou
perdendo a paciência com você, vamos ir para o intervalo logo.
A diretora diz "corta".
Chico pede um cigarro, recebendo olhares furiosos de sua filha, que estava
presente no estúdio. Sempre acompanhava o trabalho do pai após a cirurgia e o
acidente doméstico. Não contente, o velho toma um gole de suco de laranja sem
açúcar e tosse em seco.
— Velhice, minha filha. — Chico diz para Viviane. — Chegue saudável aos
setenta ou morra antes, esse é o único conselho lúcido que eu posso te dar.
— Mas o senhor consegue continuar?
— Já estou aqui, de que adianta ir embora?
Ele pede para o homem que segurava o refletor diminuir a intensidade, o mesmo
rebate dizendo que não pode fazer a primeira metade do programa de uma
forma e a segunda de outra. Chico concorda e limpa os óculos na manga da
blusa. Pergunta baixinho se pode dar sequência ao programa.
— Estamos com ela, talvez a melhor poetisa desta geração… — Chico toma
outro gole do suco, tentando se lembrar do nome da convidada. Sente os pontos
da última cirurgia. O médico não foi tão gentil daquela vez. — Como é ter uma
questão sobre você no Exame Nacional do Ensino Médio?
— A questão não era sobre mim, tinha um poema meu e os alunos tinham que
interpretar.
— Como é o sentimento?
— Meio que de dever cumprido, Chico. Uma prova de que tu está fazendo um
bom trabalho. Poxa, logo depois tinha uma questão com um texto do Gregório
de Matos e saber que eu tô no mesmo ambiente, assim por dizer, que esses caras
me deixa muito feliz. Espero que os alunos tenham conseguido o ponto. Sem
falar do carinho que recebo dos professores.
— Você é de esquerda ou direita?
— Ah, de esquerda. Votei no Lula nas duas vezes, na Dilma agora.
— Você fala muito de política nos seus poemas, percebo isso quando você traz
personagens do mesmo sexo transando. Na minha época eu não podia. — Chico
ri, se lembrando da juventude. — Eu não publicava, ficava fazendo aviãozinho
com várias cópias e jogava do alto de prédios, das lojas, no final a gente entrava
nos carros e saia correndo. Na adolescência era com o filho da puta do Vargas,
na vida adulta vieram aqueles malditos pau mandados da burguesia, não era
fácil. — Chico abre os olhos, percebendo o olhar fascinado de Viviane e o olhar
irritado da diretora. — Vamos caminhar para o encerramento.
— Já? Nem tô chorando ainda.
— Acalme-se, minha linda, ainda dá tempo. Imaginemos que você sofra um
acidente de carro logo após sair do estúdio. Um carro bate no seu e você fica
presa nas ferragens. Nesse período de sofrimento, você sente que sua vida valeu
a pena?
— Valeu sim, olhando de onde eu saí e onde eu cheguei.
— Por mérito ou sorte?
— Mérito.
— Sorte. Lembre-se que assinou um contrato com a editora, não é dona nem
mesmo do que produziu. E se não fosse alfabetizada não seria escritora. Vou
repetir. Sua vida valeu a pena?
— Acho que tenho que viver mais um pouco pra te responder.
— Não tem uma opinião, mulher?
— Tenho, mas isso é difícil de pensar. E parece que fica mil vezes mais difícil
na sua frente.
— Responda qualquer coisa. Já perdi a esperança de tirar algo de bom desta
pergunta.
— Valeu sim, Chico. Tive muitos momentos de felicidade.
— Mas a maioria desses momentos foram de tristeza?
— Sim.
— E ainda diz que sua vida valeu a pena?
— Mas se eu ficar só reclamando também não vai mudar.
— Se você me vier com esse papinho mais uma vez, eu te expulso daqui.
— Mas a vida é complicada mesmo…
— Por quê? Qual foi o deus que definiu isso?
— Não sei.
— Então nos foi imposto. Se você soubesse quanto tempo irá viver, o que
estaria fazendo de diferente?
— Teria trabalhado mais.
— Tire essa lógica da cabeça, minha filha! Você não ganha nada pelo seu
trabalho. Eu devo morrer daqui uns meses e tudo que eu queria era ter escrito
metade dos livros, das peças, dos roteiros, de tudo que eu fiz!
— Eu ganho reconhecimento, Chico.
— De que vale o reconhecimento se você não vive?
— Talvez pra ter meu nome marcado, conseguir dar condições melhores pra
minha mãe.
— Vamos trocar? Te dou meu nome e você me dá a sua idade.
— Feito.
— Como vocês são burros. — Chico coça a cabeça. — O que é a vida, Viviane?
— Vim pra cá pensando no que te responder, mas ainda não sei. Acho que é o
que fica para os outros quando tu se vai.
— Responda-me: o que é a vida.
— São os prazeres que temos.
— Vai resumir a vida a alguns momentos?
— A vida é essa balança de momentos ruins e bons.
— Balança essa que cai sempre para a tristeza.
— Talvez caia.
— A vida é isso?
— Não. — Viviane cruza as pernas e apoia as mãos nos joelhos, tentando
respirar com calma.
— Vai deixar um velho decrépito te tirar a segurança?
— O senhor não é…
— O que é a vida?
— E-eu não sei. Deve ser uma passagem.
— Passagem árdua que leva até que lugar?
— Não sei, não faço a mínima ideia. Deve ser…
— Sem chutes, afirme!
— A vida é uma grande interrogação. Não sei te responder. — Viviane sente as
lágrimas ardendo no fundo dos olhos.
Chico olha para uma das câmeras.
— Estamos de volta com o Questões na próxima terça, no horário que você está
acostumado. — Se volta para a convidada. — Dê-me um abraço, mas não me
faça levantar. Tô com medo desses pontos, médico filho de uma boa puta esse...
A tela escurece.
Surge uma foto mostrando Chico Assis, quatro anos após a gravação daquele
programa, na entrada da um hospital, sentado em uma cadeira de rodas, junto a
todos os que faziam parte da produção do programa, do faxineiro a diretora,
com uma legenda na parte inferior central:
"Francisco José Borges de Assis. 1928-2015"
Escurece novamente e um letreiro surge:

“Cresci lendo o Chico e conhecê-lo foi uma das


experiências mais incríveis que já tive. Só tenho a
agradecer pela oportunidade de ver de perto um dos
patronos da literatura em português. O Chico sempre
vai estar vivo nos livros didáticos e em nossos
corações.”
Viviane Garcia.

“Eu poderia falar de sua biografia, que é a mais


incrível que já li, de sua luta, de sua atuação
política, de todos os seus escritos políticos,
filosóficos, poemas, contos, seus romances, peças,
de como Chico era genial em tudo que escrevia, de
como as palavras se transformam ao saírem de suas
mãos. Mas, perdoem-me pelo egoísmo, vou resumir na
saudade que estou sentindo daquele velho
desgraçado.”
Pedro Giliarde.
O que vamos comer hoje à
noite?

Henrique desligou o notebook. Já com uma forte enxaqueca, foi à cozinha e


tomou algumas gotas de dipirona. Se dirigiu à sala, onde Tais movia o cursor da
Netflix, com uma tremenda indecisão se queria um filme ou uma série.
“O que vamos comer hoje à noite?"
“O que você quer comer?”
“Sei lá. Estamos em São Paulo, aqui tem de tudo.”
“Tem tanto que não tem nada.”
“Como?”
“Nada não.”
Tais levantou-se e dirigiu-se ao banheiro.
Henrique selecionou um filme que ficou disponível na semana passada, mas
devido à falta de tempo, não pôde assistir. Quando voltou, Tais pegou o celular e
ficou no lado oposto ao dele no sofá.
“Já decidiu?”
“Pensei que você ia escolher.”
“Nem tô com fome, o que você escolher tá bom.”
“Cólicas?”
“Não, hoje não.”
Um silêncio breve que foi quebrado por ele.
“Gostou de ir no MASP?”
“É um prédio, só isso.”
“Tem uma certa beleza.”
“Isso você tem, eu tenho.”
“Você tá legal, Tais?”
“Só não quero que você fique me perguntando de São Paulo. Você sabe muito
bem o que sinto em relação a essa cidade.”
“Vamos voltar pra Beagá semana que vem.”
“Não é sobre isso.”
“Então é sobre o quê?”
“Sobre não querer estar aqui.”
“Eu também não acho que essa cidade é a mais perfeita do mundo, mas temos
tudo que precisamos aqui.”
“A Larissa tá em Minas, minha mãe tá em Minas.”
“Estou falando de eu e você. É óbvio que eu quero ter a minha filha perto de
mim, mas estamos realizados aqui e não posso voltar atrás.”
“Como você pode falar por mim? Queria saber onde você me vê realizada aqui.
Porque, Henrique, meu salário diminuiu quando eu fui pro home office, não
tenho mais contato com ninguém que eu conhecia antes.”
“Mas você não assiste a RuPaul em chamada com suas amigas?”
“Não é a mesma coisa que passar o sábado na casa da Fabi enchendo a cara de
vinho barato e comendo merda.”
“Semana que vem você vai repetir esse ritual.”
“Não quero esperar até semana que vem. Não tô mais afim de passar oito horas
dentro de um carro.”
“Podemos ir de avião.”
“Não quero passar nem quinze minutos dentro de qualquer veículo. Não vou
mais ficar esperando suas férias ou folga pra ver minha família, não dá mais.
Aqui eu só fico dentro de casa, quando saio não consigo me enturmar, o povo
aqui é tudo mal encarado, não sei o que acontece. Quero ir ver um show no
parque municipal, ir em um copo sujo com o pessoal na sexta.”
“Mas como que eu vou largar tudo aqui? Entende o meu lado, Tais. Eu virei o
comentarista principal da rádio, o principal colunista do site. Consegui
entrevistar o Ronaldinho Gaúcho. Você tem noção do quanto isso é importante?
E você acha que eu queria estar distante da adolescência da Larissa justamente
nesse período? De experimentar bebida, perder a virgindade, fumar pela
primeira vez. É lógico que dói em mim, mas eu preciso ter a minha carreira em
foco.”
“Não tô te julgando, Henrique. Eu juro que entendo. Mas você tem 42 anos e eu
28, você já se casou, divorciou, tem uma filha, tem uma carreira consolidada e
eu tô igual uma louca pra terminar o mestrado. Eu quero ter uma experiência de
vida também e aqui eu sinto que tô presa por umas grades invisíveis.”
“Nos casamos amanhã se você quiser. Começamos a tentar ter um filho hoje
mesmo.”
“Não é isso. Se você me perguntasse isso três meses atrás, eu ia falar sim, sem
sombra de dúvidas. Mas hoje tô pendendo muito mais pro não.”
“Você não se imagina tendo uma família comigo?”
Ele fechou as pálpebras com a maior força que pôde, mas ainda sem conseguir
conter as lágrimas que faziam de tudo para descer, subiu os pés no sofá e
agarrou os joelhos.
“Hoje não.”
Ela, diferentemente dele, conseguiu se manter fria, mas só em sua cabeça.
“Eu me vejo, daqui cinco ou seis anos, conseguindo ter umas realizações
pessoais bem maiores do que tudo que tenho hoje.”
“E você me vê como um integrante dessas realizações?”
“Eu amo sua família e amo o jeito como você trata a minha. E eu sei que não
sou a mãe dela, mas queria estar com você quando a Larissa te trouxesse as
questões que você pôs agora mesmo. Mas também tenho que pensar em mim,
não quero te seguir para qualquer canto que você for.
“Fala, por favor, Tais.”
“Não, Henrique. Eu não acho que tenha mais espaço para você na minha vida.
Mas entende que eu te amo, por favor,”
“Ia ser egoísmo insistir com você. Não te quero infeliz. Então eu vou dar uma
volta por aí, quando voltar durmo na sala.”
Ela quase arranca uma mecha inteira de cabelo de tanto que a entrelaça no dedo.
“Vou arrumar minhas coisas, amanhã de manhã mesmo eu vou embora."
“Tá bom.”
Sem condições de levantar o olhar, ele foi ao quarto, se trocou e pegou a
carteira.
Retornou para a sala e eles trocaram um último olhar. Henrique saiu e fechou a
porta levemente.
Tais escutou o barulho da fechadura, abraçou uma almofada e se dispôs a chorar
o quanto fosse necessário.
Parte 2 - Cartas.
Perdoa a demora

De: Bruno César Vicente Lopes


Para: Luiz Theodoro Fonseca

Belo Horizonte, MG, 4 de Janeiro de 2022

Porra, cara. Já começo me desculpando por não ter respondido antes. Esse final
de ano foi bem doido pra mim, só lembrei que tinha celular ontem à noite.
Também te desejo um feliz natal (talvez um pouco atrasado) e um próspero ano
novo, que Deus abençoe você a sua família.
E a Julinha, como tá? Nossa, ela cresceu demais desde a última vez que você
veio. Tá muito linda. E você não inventa de colocar camisa do Cruzeiro nela
não, hein. Tadinha, não faz ela passar pelo o que você passou. Até porque ela
vai ver o Galo ganhando tudo de novo e vai mudar de lado
E como tá aí em Ravena? Chovendo muito? Aqui tá aquele caos que você
conhece. Tive que passar pela Tereza Cristina ontem e puta que pariu, foi tenso.
E não, cara. Ainda não tive coragem de ir no Mineirão, até marquei com um
amigo meu de ir no jogo de entrega da taça, mas desisti no último momento. Vai
ser difícil voltar a ver tanta gente junta, principalmente depois da minha mãe.
Depois que ela morreu, eu tive crise de ansiedade até quando fui no metrô, tô
gastando um dinheirão de gasolina pra ir pro trabalho, velho, tá foda. Filho da
puta desse Paulo Guedes, agora toda vez que eu ver um liberal vou dar é
paulada.
Pra você ter uma ideia, só fui sair pra passear agora, levei meu sobrinho pra
assistir esse Homem Aranha novo e fui passar o natal e réveillon em um sítio
que uns amigos arrumaram. Bebi pra caralho. Devia ter me lembrado que não
tenho mais vinte, minha cabeça tá explodindo até hoje.
Fui curtir um pouco a solteirice, o meu namoro com a Paula durou demais, seis
anos é tempo, tinha me esquecido que pode ser legal aproveitar a sua própria
companhia.
Na verdade, fui forçado a fazer isso. Pandemia chegou justo no primeiro ano de
solteiro.
Esses dois últimos anos foram loucura, cara.
Home office, zoom, meet, engordar, perder as bermudas, faz dois anos que não
compro camisa, nem lembrava como é calçar sapatos.
E sei que tô devendo uma visita, não precisa me cobrar.
Vamos fazer uma coisa? Tô tirando um semestre sabático até entrar na empresa
nova. O dono já falou que vai fazer uma reformulação lá no meio do ano e conta
comigo. Tô vivendo do seguro desemprego agora, obrigado, CLT. Aí eu vou
nessa segunda, pode ser? Tô com saudade demais de você.
Até mais!
Sei que não

De: Maria Conceição Farias Dias…


Maria Conceição Dias
Para: Leonardo Gaspar Farias

Belo Horizonte-Curitiba, 23 de Junho de 1983

Sei que posso parecer romântica às vezes. Não do sentido amoroso do termo, do
sentido literário, do sentido Lispectoriano.
Não sei quando você vai achar essa mensagem, nem sei quando você retorna do
trabalho, mas saiba que não estarei mais aqui nessa casa. Torço para que esse
lápis seja capaz de segurar essa fina folha de papel nesse gaveteiro.
Estou indo para a rodoviária agora mesmo, o sul me espera.
Retornar a Curitiba depois desses anos em Minas vai ser estranho.
Apesar de estar com os documentos do divórcio já em preparo, não quero ficar
mais um segundo nesta cidade, não por ter ódio dela, por mim, visitaria a
pampulha todos os dias, mas porque tudo nela me remete diretamente a você.
Tudo, tudo, tudo, do cheiro do café a forma rápida e embolada com que vocês
falam.
E lembrar-me de ti causa-me tanta tristeza.
Porém, Leonardo, por mais inconcebível que isso possa parecer, eu não tenho
raiva de ti.
Não tenho raiva de quando tu foi a Curitiba resolver aquelas burocracias da vida
de um jovem homem engravatado, de quando me encontrou naquele
estabelecimento, tenho certeza que seus olhos julgaram-me por estar vestida
com aquela roupa tão curta (tinha que trabalhar naquele restaurante noturno para
completar a renda de casa. Sei que você jamais passou ou vai passar por algo do
tipo. A roupa era motivo do fetiche do dono do local, que ia se tocar no
banheiro depois de ver suas garçonetes com as pernas à mostra). Meu ódio não
vai àquela noite, a primeira, em que passamos juntos. Desflorar aquela jovem e
bela garçonete deve ter feito bem ao seu ego. Não me arrependo de nada dos
primeiros dois anos.
Não. Não consegui te dar filhos, por causa de uma má formação no útero, mas
óbvio que eu não esperava que você entendesse a minha anatomia. Queria um
filho para provar sua fertilidade. Espero que consiga com essa moça, ela é
alguns anos mais jovem, creio que não vai ser tão difícil.
Mas Deus sabe o que faz. Se fosse para ter um filho, não seria com um pai como
o que você vai vir a ser.
E sim, sei dessa nova moça, moça nova. Ela é linda. Se acha que eu estou com
rancor, está tremendamente errado. Minha indiferença consegue ser maior.
Ainda como tua esposa, ainda com teu sobrenome legalmente no meu nome,
não consigo sentir nada por ti. Nada, uma bela dose de nada.
Agora pouco te falei que eu era linda. Tive que me esforçar para lembrar de que
sou linda. Tive que colocar aquele disco dos Mutantes que você tanto reclama,
sambar levemente sem tirar meus pés do chão, parar na frente do espelho, soltar
os cabelos, deixá-los livres para encobrir meus ombros, lembrar que minhas
bochechas ficam vermelhas ao pegar sol, assim como a ponta do nariz, e eu
acho um charme sem tamanho, vestir aquela calça e aquela blusa com decote,
sem sutiã, sempre me incomodaram, e andar pela rua, sentar-me em algum bar
da bohemia belorizontina, flertar olhares com algum rapaz, um mais jovem,
apesar de sentir atração por homens grisalhos, precisava de um que fosse saciar
minha vontade com o vigor que eu necessitava.
Fazer isso em vez de te esperar chegar com o perfume de outra é tão
revigorante.
Estou me vendo livre de ti por completo. Retornarei a minha cidade, as minhas
antigas amizades, aos meus tios, primos, pais, irmão.
Fique bem e seja feliz com sua nova mulher.

Com indiferença, Maria.


Por falar em saudade

De: Pedro Henrique Giliarde dos Santos


Para: Maria Luíza Silveira de Assis

Belo Horizonte, 11 de Dezembro de 2011

Olá, Luiza. Tudo bem com você?


Sei que dei uma sumida, mas é que esse fim de ano á foda. Se pudesse te dar
uma dica, seria: não inventa de terminar uma banda pra seguir carreira literária,
dá muito trabalho.
E como que o velho tá?
Assisti ontem o Questões que ele fez com a Viviane. Ainda bem que vocês
conseguiram acabar com o programa, o Chico tá bem debilitado e me dói o
coração dizer isso. Se vocês quiserem continuar com a ideia de processar a
emissora, saiba que eu posso pagar os advogados e tô super de acordo em levar
aquele bando na justiça.
Tô terminando de passar o som pro show de aniversário de BH hoje à noite e
nossa! Não aguento mais essa rotina, quero descansar os dedos e a garganta um
pouco, sei que nem cheguei nos 40, mas minha alma é de um idoso. Tô doido
pra pendurar a guitarra e focar na máquina de escrever.
O Chico leu a cópia que eu mandei? Sei que ele deve estar sem saúde e
paciência para ler o romance de um iniciante e tenho um pouco de medo da
opinião que ele vai dar, tanto quanto estou ansioso.
Então vou me despedindo de você, Luiza. Dê um beijo na Alice e no Theodoro
por mim e fala pra Alice que eu não esqueci de ensiná-la a fazer pão de queijo,
mas o tio tá ocupado nesses dias.
Um beijo, Luíza. Até!

Passa esse resto de e-mail pro Chico, por favor.

Fala, velho. Está melhor?


Vou te falar uma coisa e guarda isso no fundo do seu coração, se você não
resistir a essa cirurgia de agora, eu vou ir atrás de você até no último círculo do
inferno, pra te encher o saco e te pedir dicas para terminar meus romances.
Aliás, terminei o primeiro.
Foi bem complicado, não vou negar. Fiquei com dúvidas, principalmente na
hora de fazer os diálogos, como uma conversa entre duas pessoas fictícias pode
parecer crível?
Impressionante como estou orgulhoso disso aqui, obviamente que não é a
mesma emoção do primeiro disco da Tríade, porque aquela emoção eu
compartilhei com outras duas pessoas.
Por falar nisso, a personagem principal chama-se Teresa.
Uma pequena homenagem para ela.
Sinto tanta saudade.
Já passei da fase de ficar remoendo, negando, “eu devia ter feito isso, devia ter
feito aquilo”, espero estar entrando na fase de aceitação. Nos distanciamos no
momento em que éramos mais próximos, a rotina de estúdio e show era muito
intensa, graças a Deus isso vai acabar. Chega.
Uma amizade que começou com uma opinião comum, a de que Megadeth é
melhor que Metallica, e terminou por um contrato mal feito. Mal feito não, eu
sabia que iria receber mais, caí no papo do empresário e me fodi.
Ao menos mantenho contato com o Guilherme, mas é doloroso. Ele me lembra
ela. O Guilherme virou professor de bateria lá em Sete Lagoas, abriu uma
lojinha pra manter a renda, trabalha quando quer, a esposa dele é gente boa pra
caramba, a filinha também.
Engraçado, ele entrou na banda só porque tinha uma bateria em casa, fomos
ficando amigos ao longo do tempo.
Sou uma pessoa tão ruim, Chico. Não sei como recebi todos esses holofotes,
não merecia nem um terço daquilo. Eu que fiz a Tereza cheirar pela primeira
vez, em uma brincadeira de extremo mal gosto. Ainda dou um tiro de vez em
quando, não tô totalmente limpo.
E por falar em saudade, como anda você?
Acho que mês que vem eu vou poder descansar, daí vamos para algum lugar.
Até Chico, mal posso esperar pra te ver sem esses tubos outra vez.
Quanto tempo…

De: Maria Clara Gueirós Castro


Para: …

Santa Luzia, MG, 13 de Fevereiro de 2022

Oi, papai. Como o senhor está?


A minha psicóloga falou que seria interessante manter um contato maior
contigo. Falou que eu tô tentando suprimir o luto tentando te esquecer. Então
vou te escrever essa cartinha.
No céu tem Correios?
E eu nunca tentei te esquecer, tá? É que os meninos sentiram demais a sua ida e
eu tive que me manter um pouco mais forte.
O Guilherme ainda come biscoito de maizena com leite às 17 em ponto, como
vocês faziam. O mais engraçado é que ele não olha a hora, só vai no armário e
pega os biscoitos, acho que tá no relógio natural.
O Lucas cresceu muito, tá até gordinho. Também fica perguntando do vovô dele
toda hora. Pra ele tá sendo mais difícil de lidar, eu tenho que sentar e conversar
quase todo dia, falo que o vovô recebeu um chamado do papai do céu, que ele
teve que ir, que ele tava sentindo muita dor e agora não tá sentindo mais nada,
só o alívio, que o vovô finalmente pôde reencontrar a bisa.
Mas pra mim tá foda também, o senhor não imagina como as coisas estão caras.
Tive que pegar umas aulas particulares pra ganhar uma renda extra. A pensão do
Mariano é um respiro, mas não cobre nem o dedo mindinho de todas as
despesas.
E dar aula de casa é um trem que desgraça qualquer um.
Por falar nele, os meninos gostam da madrasta, óbvio que ela é quinze anos
mais nova, mas trata eles com carinho, dela eu não tenho nada o que reclamar
não, graças a Deus.
Já em relação ao Diego… o Lucas gostou de ter uma irmãzinha, a Sofia é da
mesma idade dele e eles se dão bem. O Guilherme, por outro lado, não
conseguiu se encontrar com o Diego.
Uma vez eles foram para o Independência juntos, um é atleticano e outro
cruzeirense, aí eles foram em um jogo do América mesmo. O Guilherme disse
que foi legal, quase matei o Diego porque ele deu uma cerveja pro Guilherme.
Mas foi só ali que eles se bateram mesmo.
Quando o Diego tá aqui, o Guilherme não sai do quarto, fecha a porta e fica lá,
sei que é coisa da idade, mas não deixa de incomodar.
Eles ainda vão se dar bem, o Diego tenta, fala daqueles desenhos japoneses,
daqueles cantores de Rap cheios de tatuagem, mas coitado, o Guilherme é
teimoso demais, igualzinho o senhor.
E o baterista do Rolling Stones morreu. Quando vi a notícia fiquei lembrando de
quando era pequena e era obrigada a ouvir porque não saia da vitrola. Aprendi
com o senhor que "aqueles meninos de Liverpool são bons, mas não são os
Stones."
Era Rolling Stones e The Doors, até hoje sei cantar todas as músicas daquele
disco que tem a cara do Jim Morrison grandona na capa.
E o Guilherme se interessou por política também, pegou o seu Ideologia Alemã,
que tava todo comido pelas traças e leu em duas sentadas. Falou que ia fazer
uma tatuagem do Fidel no braço, mas aí eu cortei as asinhas dele. Ele ficou
apaixonado pelo fato de que o senhor era líder sindical. Sei que era nosso
segredo, mas tive que contar pra ele o que o senhor fez com aquele fura greve,
ele ficou todo empolgado “nó, quem vê o vovô velinho daquele jeito não pensa
que ele era tão foda.”
E eu nem falei nada, ele foi por esse caminho sozinho.
Acho que o senhor ia gostar de ver como eles cresceram, os dois estão lindos.
Mas eu continuo sem ter uma noção do que fazer, perdi meu norte, só queria
que o senhor me falasse alguma coisa. Aqueles cafés da tarde que eu me sentia
uma criança perto da sua experiência. O senhor me acostumou mal, sempre me
ouvindo e sabendo o que dizer.
A partir de agora vou vir aqui com mais frequência pra te falar o que está
acontecendo, principalmente com os meninos. Mas já peço desculpas de uma
vez, vou continuar te contando os meus problemas, como eu fazia quando o
senhor estava aqui.
O senhor não faz ideia da saudade que eu tô sentindo, nunca pensei que ia sentir
tanta falta, mesmo com todo esse tempo eu ainda não consegui me acostumar
que não vou receber seu bom dia, não vou te ouvir xingar, não vou te ouvir falar
do Marx, nem das histórias do Keith Richards.
Um beijo pro senhor. Até a próxima. Te amo.
Louco, não?

De: Diógenes Silveira Guadalupe de Oliveira


Para: Boris Armando Caetano da Silva

Santana do Livramento, RS, 13 de junho de 1976

Meu querido amigo! Há tanto não nos falamos que a saudade não cabe em meu
peito.
Queria que você estivesse comigo aqui no extremo sul, nesse lugar há várias
possibilidades de nada para se fazer, bem do jeito que eu almejava.
O ódio que eu tenho do seu caráter é impronunciável! Você não pode nem
abandonar esposa, emprego e filho para partir em uma jornada com seu
camarada de tão longa data!
Se você estivesse aqui, iria aproveitar o passeio, fiquei brincando de pular a
fronteira, feito uma criança. É tanta branquitude que me cega e eu preferiria
falar em libras em vez de ouvir o sotaque dos locais, mas eu que busquei por
isso, devo arcar com as consequências.
Queria te mostrar meu novo esboço de romance. Sim! Tirei as ideias do papel!
Será que o motivo de minhas palavras se manterem escondidas era o cheiro de
feijão tropeiro?
Esse romance conta a história da minha querida Amélia, uma jovem que acabou
de descobrir os agouros do sexo. Bela moça, como todas as minhas
protagonistas, Amélia se vê perdidamente apaixonada pelo professor de
Medicina da Católica de Minas Gerais, João Napolitano Silvério. Sim, coloquei
nele um nome propositalmente jocoso. Mas Amélia tem o entrevero da esposa
de João, que mantém uma relação extraconjugal com sua aluna morena de pele
branca feito clara de ovo.
Tadinha de nossa querida Amélia, passa por desventuras, dentro de casa,
principalmente com o rebelde irmão mais novo e ainda tem que carregar o peso
de ser uma amante.
Porém, meu novo livro não é o motivo dessa carta, queria te contar de alguns
acontecimentos que marcaram essa viagem.
Estava fumando meu charuto, deitado na rede que trouxe de casa, curtindo a
sombra, gozando da tranquilidade que um homem pode exigir de Deus, quando
Paula me aparece. A mesma, meu querido, a sedutora dançarina da boate Canto
do Céu, Paula.
Você a conhece, eu não preciso descrevê-la, basta usar o que está no livro:
“Mulata sem tirar nem pôr, corpo de uma brasileira, seios que cabem às mãos,
corpo magro, pernas fortes, de quem aguentaria sambar por horas e bunda
tipicamente tupiniquim.”
Ela fez comigo como fizera com o Coronel Vieira Peixoto, me seduziu com seu
andar de afrodite mulata, nos deitamos e eu tive a melhor experiência que minha
genitália já me proporcionou.
Depois foi embora, levando meu dinheiro e ameaças de chantagem na bolsa.
Se ao menos fosse só ela a me visitar.
Antônio Sem-Vocação foi o segundo. De tantos personagens que minha mente
proporcionou, precisava ser aquele?
Sem-Vocação sentou-se à minha frente, contou seus depoimentos que matariam
o mais sábio dos monges de tédio. Oh! Homem que gosta de reclamar, moço
insuportável! Sei que já nasci de um pecado e não parei de cometê-los ao longo
da vida, mas Deus resolveu se divertir sadicamente com a minha pessoa.
Em qual momento eu pensei em criar o Sem-Vocação?
Entendo Maria Clara, eu teria largado aquele homem depressivo e nojento nos
primeiros cinco minutos. Cinco!
Porém, o pior nem era ele. O Maldito Pablo aparceu assim que Sem-Vocação se
foi, após a quinta xícara de café e o centésimo lamento.
Medo? Óbvio que tive, o assassino de Francisco Pena estava bem à minha
frente!
“Mata com frieza de cobra, é sujo feito porco, ruim como onça. O melhor
jagunço que ocê vai achar poraí”
Lembrei-me das palavras do fazendeiro Gabriel e me tremi todo.
O arrependimento de ter escrito um faroeste no interior de Minas finalmente
veio.
Maldito Pablo me pediu um charuto e ficou afiando a peixeira que trouxe na
bolsa, contou da última morte, cortou o pescoço do cabolo com aquela peixeia e
foi fazer prece pra Nossa Senhora depois de enterrar o corpo.
Ele bocejou, me fazendo sentir seu hálito de queijo, cachaça e cachimbo,
colocou o revólver na mesa e disse que aceitava negociar. Bastava eu dar-lhe
uma grande quantia de cruzeiros que ele me deixava atravessar a fronteira pro
Uruguai vivo.
Lógico que eu não tinha a quantia que ele pediu.
Meu único pedido era pra morrer logo, fiquei pensando no que ele fez com o
Mário da farmácia, o medo foi me consumindo e assim que ele cansou de me
enrolar e me atravessou diversas vezes com a peixeira.
Louco, não?
Foi tão real.
Pra dizer que te amo

De: Flávio Vieira dos Santos


Para: Rafaela Souto Gomes

Belo Horizonte, MG, 7 de Outubro de 2021

Olá. Não vou perguntar o seu estado, espero que esteja bem.
Entregar-lhe-ei esse e-mail feito uma carta, você sabe que sou um admirador do
que é clássico.
E não quero resposta. Se responder, saiba que não vou ler.
É a terceira ou quarta vez que escrevo isso, aquela cachaça barrigudinha, que eu
tomava sempre antes de te conhecer, me deu coragem que precisava. Foi um
hábito agradável de ter de volta, dormir embriagado na solidão.
Essas palavras são fruto de minha covardia, queria ter a última fala, dar o ponto
final, pois meu orgulho infantil não me permite aceitar aquele fim. Orgulho não,
sejamos sinceros, você me conhece até mais do que eu gostaria, é fraqueza
mesmo.
Venho pra dizer que queria, mas não te esqueci. Creio que isso é bom, prova de
que não estou pulando nenhuma fase do luto. Entretanto, se tornou
desconfortante pensar em ti, pois não consigo mais lembrar de quando era bom,
se algum dia foi bom, os pensamentos que me vêm à mente sempre remetem
aquela fase final de um curto e desgastado relacionamento, porém, sempre me
pego divagando nos nossos momentos mais íntimos. Sim, aquilo era bom. O
sexo que só um verdadeiro relacionamento opcionalmente monogâmico
permite. Na verdade não sei se era realmente bom ou eu só sinto falta porque
você aceitava tudo que eu propunha.
Ah, odeio me contradizer, não consigo encontrar sua química em outra moça.
Mais uma vez me contradizendo, sinto falta dos apelidos. Sim, sei que os neguei
de início, mas você me ganhou, sempre me pego lembrando da sua voz
pronunciando-os em baixo tom. Sinto falta ainda de massagear seus ombros, seu
pescoço, seus pés, de receber um cafuné à sua maneira antes de ir dormir, te
contar como os músicos de certa banda se conheceram, até mesmo assistir os
musicais que você colocava, principalmente aquele queer, que eu fingia que não
gostava, mas sim, acho interessante. Esse era um preconceito que eu me
orgulhava de ter, não assistir musicais.
Não espero que você siga pensando em mim, talvez ser mais sentimental pode
ser seu trunfo, talvez você tenha sofrido mais na primeira semana e eu a longo
prazo. Realmente não sei e não me importo.
Te escrevo isso não para remoer o passado, mas para te lembrar da importância
que você teve nesse período de tempo, para o molde de quem sou hoje, te falar
que, apesar de tentar, não consigo pensar em ti com e sem rancor.
Te desejo tudo de positivo, você merece ser feliz mais do qualquer outra pessoa
que conheço. Mais até do que eu mesmo.
Me debruço neste teclado pra falar do sentimento remanescente, do amor que
me resta, que é em forma de gratidão e torcida para sua felicidade.
Espero nunca mais te encontrar e temo pela data que os nossos caminhos se
cruzem de novo.
Escrevo pra dizer que te amo.
O senhor e a horta

De: Fabrício Vieira Cruz.


Para: Darílio Sacramento da Costa.

Belo Horizonte, 3 de Fevereiro de 2022.

Boa tarde. Me reuni com Vitor na manhã de hoje para ouvir a história do
Valdemar, como te falei na quinta. Vou deixar a íntegra abaixo, depois você
corta o que tiver que cortar.

"Ah, essa horta aí é presente de um de nossos moradores mais queridos. Hoje,


quem cuida dela é o seu Júlio, porque o seu Valdemar foi tratar de outros
assuntos.
Mas tudo começou com o seu Valdemar mesmo, minha avó contava que
ninguém gostava dele, o meu pai mesmo, era um dos que ficava julgando,
fazendo piadinha com o seu Valdemar.
Chamavam ele de vagabundo, drogado, cheirador. E ele era mesmo, coitado. Vi
uma foto dele na época, magrelo pra caramba.
E tinha um lote vago, um lugar onde o pessoal jogava lixo e ficava lá, a
prefeitura não vinha recolher, na real, não vem até hoje. Eles falava que era um
fedorzão do cacete. O pior é que tinha dono, um velho riquinho que comprou ali
há vários anos, mas deixou, nunca usou pra nada.
Na conversa que tive com seu Valdemar, ele disse que ia lá para cheirar
escondido, porque tinha vergonha de cheirar em casa. Daí, lembrou de quando
plantava na hortinha do avô dele. Ele aprendeu muita coisa nessa época, a fazer
adubo, pegar os que não prestava mais e fazer a mãe terra dar valor para aquilo.
Ele disse que Deus tem razão em tudo que faz, até uma casca de banana e o
cocô de cachorro, faz a terra que ele criou usar aquilo de alimento. Já os homens
ruins, aqueles que vêm aqui para enriquecer, esses são jogados no lixo pela mãe
terra. Por isso que uma garrafa de refrigerante não decompõe, só polui.
O seu Valdemar começou catando o lixo que tinha ali. O pessoal julgava, óbvio,
falava que ele ia vender pra comprar pó. Mas o seu Valdemar criou calo daquilo
tudo, sempre que ouvia um comentário desse tipo, fazia questão de
comprimentar a pessoa, dar bom dia, perguntar dos menino, essas coisa tudo.
Demorou, mas ele conseguiu catar o lixo quase todo, juntou tudo em uns saco
grande que conseguia na construção, deixou na esquina e esperou até o lixeiro
passar.
E lógico que dava bicho, né. O seu Valdemar ia com um pedaço de madeira para
matar os escorpião, rato, quebrar ovo de cobra.
Agora era tirar aquele matagal todo, nu, era mato demais da conta. Ele ia com a
enxada e capinava, com o sol torano nas costas dele ou a chuva molhando ele
todo. Não desistiu de deixar aquilo bom pra plantar. Ia deixar, tinha que deixar.
Pronto, deixou tudo lisinho, mas liso mesmo, tão liso que não dava nem pra
plantar. Depois de tanta exposição, o solo estava muito pobre.
Mas o seu Valdemar não via a hora de chegar naquele ponto, tava doido pra
aplicar o que aprendeu com o vô. Só que ao mesmo tempo foi a parte mais
humilhante, quando o povo mais julgou. Ele batia de porta em porta pedindo
lixo. Lógico que só lixo orgânico, só o que dava pra virar adubo, o que servia de
alimento pra mãe terra.
Aqui que o seu Júlio entra na história. Ele começou a fazer uns comentários
ruins e maldosos sobre o seu Valdemar, falou pro povo todo que ele não ia
manter a horta, que tudo aquilo era uma grande palhaçada, isso e aquilo.
Mas o seu valdemar não ficou abatido não, pelo menos por fora. Continuou
batendo de porta em porta.
E o trem foi dando certo, foi indo e indo até a terra ficar boa novamente, depois
o seu Valdemar arrumou umas minhocas e deixou lá pra afofar a terra.
Me contam que era bonito demais ver como que tava florescendo tudo aquilo de
novo. Assim, florescendo sem flor, só de verdura mesmo. Foi dando alface,
cebolinha, almeirão, hortelã. Depois ele começou a plantar os pezinhos, era pé
de goiaba e manga.
O seu Valdemar ficava lá vigiando o local, toda vez que alguém perguntava se
podia entrar pra pegar, ele respondia “Vai me pagar? Se for me pagar não pode,
agora se quiser entrar e pegar pode.”
O mais legal era ver o povo cuidando, todos tinham uma consciência de guardar
uma sementinha ou uma mudinha pra ir lá e panter de novo.
Mas nada que é de pobre dá certo. O dono do terreno surgiu do mundo dos
mortos e decidiu que ia querer o local de novo. Apresentou um alvará ou sei lá o
quê. Só sei que ele bateu lá com um monte de pm, de início só o seu Valdemar
estava cuidando do lugar, fazendo a proteção, disse que não ia sair de lá nem
morto.
E o povo foi juntando, foram indo ajudar o seu Valdemar e não deu outra.
Ninguém tirou ninguém dali.
Até o MGTV foi lá pra fazer a reportagem, um monte de gente deu entrevista,
falaram que era um absurdo o que tava acontecendo ali. Tudo verdade, né. Eles
tavam é de sacanagem também.
Mas meio que era cutucar a onça com a vara curta, porque era os moradores
contra a prefeitura. Até que rodou um burburinho de que eles iam conseguir
levar pra justiça e lá eles venceriam o processo.
O sobrinho do seu Júlio era advogado e ele fez de tudo pro moço pegar esse
caso.
Depois de um bate boca judicial, a horta ficou com a gente.
No final das contas, o seu Valdemar se afastou pra cuidar da saúde, hoje ele é
um senhorzinho tão gente boa, conversar com ele é uma experiência que eu
recomendo a qualquer um. E o sei Júlio toca a hortinha.
Esse final foi feliz.
Parte 3 - Contos
O Gato

Ele chegou era umas seis ou sete da noite. Moço bonito, bem
arrumado, cabelo cinza com gel pra trás, roupa branca que nem sujou com o
vermelho da terra, bota de couro de verdade, material bom que eu nunca vou ver
na vida. Chamavam ele de Seu Sebastião. Tinha papo de prefeito, tipo de gente
que tem firmeza na fala, conquistou o papai na hora. A mamãe ficou com o pé
atrás, não queria sair de casa e ir morar em outro lugar, mas o papai convenceu
ela, nós não tinha nada aqui e pelo menos ia ter emprego em outro lugar.
Uma van, três ônibus, uma balsa e uma carroça, cinco dias de viagem, só tinha
mato. Nunca tinha nem saído de casa e fui logo pro Amazonas, fiquei com
medo das cobras gigantes, das aranhas peludas, das onça, mas o Seu Sebastião
falou que elas não mexem com gente não.
Chegamos lá e tinha uma casinha maior que a antiga, com um quintal onde dava
pra plantar, tinha tamanho suficiente para o pai, a mãe, eu, meus três irmãos e
minha irmãzinha bebê.
A gente não levou nada, né. Só a força de vontade, trabalho e a fé em Deus, mas
dinheiro não.
Pra deixar nós mais calmo, o Seu Sebastião falou desse jeitinho pro pai: "Vai lá
no mercadinho da esquina e avisa que é amigo meu. O dono vai anotar no
caderninho e eu acerto com ele mais tarde."
O primeiro mês foi bom demais da conta. O pai ia antes de amanhecer e voltava
tarde da noite da fazenda com um sorriso no rosto, trabalhava plantando soja,
falou que é uma plantação que vai até a fronteira com os Estados Unidos de tão
grande que é, que tem gente de todo lugar, da Bahia, do Ceará, do Mato Grosso,
mas nenhum outro mineiro.
A mãe cuidava da casa e da minha irmã, ela nasceu muito magrinha, tinha que
ter um carinho diferente, mais especial. Meus irmãos iam namorar as moças que
ficavam naquela boate e anotavam na conta do Seu Sebastião. Uma vez me
levaram lá, vi um monte de senhor barrigudo e moça de roupa curta, todas com
cara de cansada, deixavam os moço ficar passando a mão nelas, devia ser muito
ruim, e tava frio pra ficar quase pelada como elas tava. Não gostei não e fui
embora pra casa, aquele lugar era pra gente velha. Eu ia pro bar de tarde na
terça e na quarta, porque passava jogo da Europa, podia ver o Cristiano
Ronaldo, meu irmão mais velho me deu uma camisa dele quando ganhou o
primeiro dinheiro jogando bola, ainda na casa antiga, eu não tirava ela do corpo,
de branca ficou amarela. Já me contaram que ele sabe falar português, mas eu
não acreditei muito, ele é europeu.
Chegou o quinto dia do segundo mês, o papai não recebeu salário. O Seu
Sebastião foi até lá em casa, dessa vez nem aceitou o cafezinho da mamãe,
acendeu um cigarro de paia, pegou um caderno do bolso e começou a falar tudo
que nós tinha gastado, que a gente estava em dívida, eu nem sabia o que era
dívida. Ele falou que ia levar meus irmãos pra trabalhar também, a dívida tava
alta.
No terceiro mês, meu irmão mais velho voltou sem o dedinho da mão esquerda,
falou que tinha feito corpo mole no trabalho e um jagunço cortou com uma faca
velha. Perguntei o que era um jagunço e ele me deu um tapa na cara.
Só que nós tinha que comer, tinha que pegar comida no mercadinho e isso
aumenta a dívida, a terra do quintal era seca toda vida, até dava alface e couve,
mas nada demais e não dá pra almoçar só folha. Uma vez meu irmão do meio
fez essa piada, nós tava dividindo o peixe e ele disse que ia pedir pro papai Noel
pra virar uma girafa, aí nós só ia comer folha, meu irmão mais velho disse que
pedir uma pistola, pra encher o Seu Sebastião de bala. Achei a segunda mais
engraçada.
No quarto mês, Seu Sebastião falou que minha mãe tinha que trabalhar também,
a filha dele ia casar e tava procurando cozinheira, ia ajudar a pagar a dívida. Eu
fiquei cuidando da minha irmã magrela. Mamãe chegou do dia do casamento
cansada, se jogou no sofazinho e dormiu por ali mesmo. Depois, ouvi ela
conversando com o papai, ela falava que tinha comida demais ali, que sobrou,
que eles tiveram que jogar fora um monte, que só tinha gente bem vestida com
roupa chique, mas ela tava com tanta raiva que nem reparou na festa, ficou em
pé o tempo todo no calor da cozinha, falou que pedia desculpa a Deus, mas que
tava com ódio do Seu Sebastião.
No sexto mês, meu pai não voltou pra casa, meus dois irmãos também não, meu
irmão mais velho falou que eles não cumpriram a meta do dia, então ficaram a
noite também, ele só veio porque tinha que ver como a gente tava. Falou que
tava fazendo de tudo pra eu não ter que trabalhar também, que a dívida só tava
aumentando. Ali que eu reparei no meu irmão mais velho, estava diferente,
antes tinha a pele marrom escura, agora estava com a pele descascando, o
cabelo de índio lisinho tava feio, cheio de falha, era alto e forte, jogava bola,
sempre que fazia gol tirava a camisa pra mostrar a barriga pra quem estava
assistindo, agora só estava alto mesmo, magricela, mais osso que tudo, ele
falava que ia pro Rio ou pra São Paulo, jogar no Flamengo ou no Corinthians,
depois ia pra Europa jogar no Real Madrid ou no Manchester, por cem milhões
de reais, que ia dar casa confortável pro pai e pra mãe, carrão pro meus irmãos e
escola boa pra mim. É, acho que não aconteceu.
No sétimo mês, os irmãos voltaram chorando pra casa, falaram que o pai tinha
infartado e morrido ali mesmo na plantação, os jagunços só levaram o corpo pra
um canto e jogaram fogo. A mãe tava triste, não conversava, só ficava com
minha irmã no colo, acho que nem reparou que ela não era mais bebê e só ficava
mais magrela, ainda mais depois da diarréia.
No oitavo mês, minha irmã morreu de magreza.
No nono mês, a mãe ficou no trabalho, meu irmão mais velho avisou que ela
misturou os remédios da filha do Seu Sebastião, não sei se foi sem querer ou foi
de propósito, a moça tomou o remédio errado e perdeu o neném, o Seu
Sebastião mandou que matassem a mãe.
No décimo mês, só meu irmão mais velho voltou pra casa mais tarde, com a
cara séria e a voz distante, falou que os outros dois tinha tentado fugir pela
mata, cada um levou três tiros nas costas, disse que foi contra aquilo tudo, que
tentou impedir, mas era tarde, que os dois era burro pra caralho, nem arma tinha,
nem rota tinha, nem mapa tinha, que mesmo que fugisse ia parar na barriga
duma sucuri. Ele tava com os olhinho vermelhinho de choro.
Ele tinha um revólver, falou que tinha um caminhão saindo pra Belém, que
levava gente na caçamba.
Nós saiu naquela hora mesmo. Estava frio e começou a chover. Meu irmão me
levou até onde o caminhão ia sair, tentei não olhar para os bichos, me davam
medo, mas não consegui, percebi as aranha grandona subindo nas árvore, as
cobra se arrastano pelo chão lamacento, as formiga cabeçuda tudo desorientada
com os pingos de água. Andamos por uns minutos, até eu ouvir o motor do
caminhão, mais alguns passos pra frente pude ver o farol.
Meu irmão me pegou no colo, me colocou na caçamba e saiu andando, vi alguns
homens lá, tudo igual, mesma cor de pele, tipo a nossa, mesma roupa, tudo
rasgada e suja, mesma cara de cansaço com medo e desespero. Senti falta de um
menino da minha idade lá.
Depois, eu ouvi a voz do meu irmão gritando, não sei com quem ele tava
falando "Mete o pé, caralho" "Quero saber de nada disso não, porra" nunca
tinha ouvido ele gritar com tanta raiva.
O caminhão começou a andar, meu irmão pulou na caçamba, os pneus
começaram a arrastar a lama. Ele me abraçou e prometeu que as coisas iam
melhorar, mas nem ele mesmo acreditava naquilo.
O diário do poeta

Caderno diário de anotações, preciso urgentemente te dar outro


nome.
Peço, caderno, que não se preocupe, logo vou te abandonar em um
canto qualquer, não irá ficar muito tempo em minhas mãos.
Não vai ficar, pode ter certeza.
Hoje é vinte de fevereiro de mil oitocentos e sessenta e dois,
aniversário de minha irmã.
Mas não o passei com ela. Voltei recentemente de um bar, estou
bêbado e fedendo. Tenho medo de olhar minha letra amanhã.
Bem, essa é a primeira página, então vou dizer quem eu sou.
Meu nome é Carlos Pereira Sampaio Costa Filho, nascido
em Ouro Preto, alguns idosos ainda chamam de Vila Rica,
acho engraçado.
Uma vez, eu estava andando pela praça onde penduraram a cabeça
de Tiradentes, era noite e a lua cheia iluminava o céu, então, um
senhorzinho olhou na janela e gritou "Tenham cuidado com o
lobisomem, ele está em Vila Rica!" Será que lobisomens
existem? Meus amigos riram, meus dois amigos, Chávare e
Constantino. O Chávare é mais quieto, não sei como ele aguenta
manter toda aquela cabeleira cacheada que lhe cai os ombros, chega
até as costas e quase alcança a bunda. Ele é o mais pobre de nós,
usa sempre as roupas surradas, feias, até mesmo rasgadas, eu tinha
que esconder de meu pai que eu era amigo de Chávare, ele tinha a
pele de índio e não acreditava em lobisomem. Já o Constantino,
esse sim era louco, tinha a pele branca como a minha e os cabelos
raspados com uma navalha, lembro da primeira vez que ele apareceu
com a cabeça raspada, seu couro cabeludo estava todo machucado,
ainda havia sangue seco, lhe perguntei porque ele havia feito aquilo,
ele disse que estava com vontade, que os cabelos lhe caíam nos olhos,
falei que bastava cortar a franja, ele riu e falou "ah, verdade."
Nunca mais vi Constantino com um fio de cabelo na cabeça.
Não sei se gostou da minha história inicial, caderno, podia dar
sequência a essa, porém o sono me enforca e me vence. Perdoe-me.
Existem lobisomens?
O diário do poeta - Pt. 2

Caderno, como anda?


Fiquei uma semana sem te ver, mas foi por um bom motivo, eu
juro. Passei essa semana entregando meus poemas. Recebi elogios,
mas não sei lidar com eles, então fazia piadas com quem elogiava.

"Um dos poemas mais belos que já li."


"Tu precisa ler mais."

"Um poema tão belo para um autor tão jovem."


"Um elogio tão forçado para alguém tão velho."

"Belo, belo, belo! Que melancolia deliciosa de se ler. Tu irá


muito longe!"
"Discordo, logo estarei morto."
Odeio bajulação, não que eu receba muita, mas às vezes ela vem e eu
odeio quando vem. Recentemente, ela ficou mais frequente, desde
que meus textos foram para o Rio de Janeiro, alguns bajuladores
apareceram.
Recebi uma carta de uma garota carioca, caderno, fiquei sem
reação, ela era direta, disse-me que minhas palavras lhe despertaram
desejos. Mas porra! Eu escrevi um poema com teor erótico, um!
Não é possível que pessoas de outros estados sejam idiotas ao ponto
de ler apenas esse, mandei cerca de dez ou quinze.
Tampouco, digo que não gosto de escrever poemas eróticos, comecei
ainda quando era virgem e os seios de minha vizinha me fizeram ter
uma sensação diferente entre as pernas.
Acho que finalmente minha vida vai caminhar, estou bem
próximo de morar sozinho, com obras publicadas e em estágio
avançado de solidão interna.
Meu peito é uma explosão de sentidos, caderno. Sinto um gelo no
lugar do coração, tenho a impressão de que algo vai dar errado e
convivo com isso. Eu só queria saber o que vai dar errado! O pior é
quando esse gelo sobe para meus braços e eu não tenho vontade de
movimentá-los, desde para minhas pernas e eu não tenho vontade
de andar.
É uma agonia acordar todos os dias com esse gelo, tu tens
dificuldade para respirar, seu coração acelera e bate como se tivesse
vontade própria, martelando para sair do seu peito, dói. Sinto meu
coração querendo explodir, eu só queria tirá-lo do meu tórax e
livrá-lo da caverna que é viver comigo.
Falando sério, caderno, é desesperador, sinto uma dor absurda no
peito quando meu coração dispara, não tenho como fazer nada,
apenas tentar respirar devagar e divagar. Posso ouvi-lo bater
contra os ossos, é uma dor interna.
Falando de outra agonia, lembrei que hoje encontrei um presente
que Maria Graça Lousada havia me dado há uns meses, estava
jogado no quintal. Não sabe quem é Maria? Vou resumir
dizendo que é o ser humano pelo qual eu sou perdidamente
apaixonado, mas sei que nunca vou tê-la, pois falhei com ela, tal
erro que é irremediável e inconciliável. Continuando. Quando vi o
objetivo fiquei paralisado, foi como um susto, mas doeu, não senti
apenas a dor psicológica do susto, foi física, como se um tiro houvesse
acertado meus pulmões e a sensação que citei acima veio. Fiquei
encarando o objeto por um tempo, vendo se a sensação iria passar,
mas só me dava vontade de tocar o objeto, mesmo sabendo que me
faria mal. Eu o peguei, mas para arremessar na rua. Com aquilo,
fiquei na cama o resto do dia, ao menos escrevi magistralmente.
É… talvez lembrar dessa sensação tenha me deixado deprimido.
Vou recortar o poema que fiz mais cedo.
Até outra hora, escrever em ti não é uma boa experiência
O diário do poeta - pt. 3

Ora, caderno, veja se não sou eu novamente! Voltei em menos de


um pôr do sol, pois comemore, homem!
Sentiu saudades, ó entidade de papel?
Espero que não, contar comigo não é uma boa ideia. Sou como um
pai ausente.
Encontrei com Maria no caminho do jornal para casa, ela
elogiou meus poemas que estão sendo publicados, o que me deixou
feliz. Mas falar com ela é ambíguo, vê-la é excelente e péssimo ao
mesmo tempo, a enxergo com angústia, mas ainda tem um forte
sentimento. Me sinto culpado por amá-la, só que eu não posso
controlar, ele é como um encosto que vive a me atormentar.
Foi um enorme alívio sentir o toque dela novamente, ouvir sua
voz, ver seu rosto, sentir seu cheiro, tudo, tudo, tudo.
Mas foi um fardo me lembrar que nunca vou ter aquela mulher
para mim e que ela não se importa com a minha existência.
Dito isto, meu querido caderno, venho lhe dizer que estou
completamente bêbado, mas preciso de mais quantidades de álcool.
Deixe-me explicar o que aconteceu: eu estava escrevendo em suas
folhas quando recebi um convite para beber, foi de uma moça que se
diz entusiasta da minha escrita.
Nos beijamos. Muito me espanta que eu tenha conseguido fazer
isso sem vomitar em sua boca, devido à quantidade de álcool que
havia consumido.
É uma bela moça, cabelos cacheados caindo nos ombros, corpo
robusto, pele branca feito papel, baixa, pés pequenos, olhos cor de
fezes, a mesma cor do cabelo.
Estávamos aos beijos, ela me levou para a parte de trás do bar, em
uma rua deserta, recitou um verso erótico de um poema meu e me
beijou.
Não sei o que as pessoas iriam dizer dela caso eu contasse. Sorte
que eu não direi nada.
Queria me embebedar mais, meu querido caderno, a quantidade de
álcool que ingeri até agora só serviu para causar uma queimação no
estômago.
Mate-me.
Não sei se agradei àquela mulher, não sei se me importo. Ela
descobriu o meu endereço, veio até minha casa, me embebedou e me
beijou. Não irei reclamar, mas ela ter descoberto o meu endereço
me deixou um pouco assustado, talvez ela tenha o feito apenas porque
meu pai é um homem conhecido na cidade e ter um filho poeta, não
é conveniente para sua reputação.
Aaquele
" autor que publica os pernas depressivos no jornal é filho do
capitão Pererira Samooia."
O álcool faz efeito em minha cabeça, meu olhos ardem, minha
cabeça dói e minha boca sente um gosto horrivelmente horrível.
Deus, ajude seu filho! Vire meu pai de verdade! Por que me
deixaste nas mãos deste desgraçado!
A música agitada que um violinista tocava no bar ainda está em
minha cabeça.
Humhumparapapa
Papatamtamtampararapararaparara
O que eu estou fazendo de minha vida inútil? Escrevendo
onomatopeias em um caderno velho. Desculpe-me, caderno, mas tu
és velho. Caso fosse um humano, estaria com os poucos cabelos que
lhe restam na cabeça já grisalhos.
Neste momento, caderno, estou jogando no chão, nu. Tu estás na
frente do meu rosto e eu estou escrevendo sem olhar para a folha,
espero que eu consiga ler isto algum dia. Não retorno nas minhas
anotações, não vejo motivos para fazê-lo.
A música falava sobre uma festança que acabava com eu lírico
encontrando sua amada, a mulher mais bela da festa, da cidade, do
país, do mundo. Ela podia ser tudo aquilo, mas nunca irá ser mais
bela do que minha ruiva amada Maria.
Essa mulher só vive para me deprimir e fazer de minha existência
um inferno.
Não! É injusto botar a culpa de minha tristeza pgofunga em
alguém.
O diário do poeta - pt 4

Ora, caderno. Sou eu. Após a última vez que nos falamos,
confesso que senti medo de tocar as suas páginas novamente.
Por alguma razão que nem Deus explica, resolvi ler meu último
escrito e fiquei com as entranhas se revirando em vergonha. Sorte
que ninguém vai ver.
Mas venho lhe contar outra história, mostrando como a vida dá as
suas reviravoltas e me deixa como um homem que acabou de ser
pisoteado por vários cavalos a galope.
Fui à uma cachoeira com meu amigo Chávare, o mesmo que falei
na primeira página, o que possui uma cabeleira. Por sorte, estava
vazia. Eu tenho medo de animais selvagens, mas ele me acalmou.
Bebemos vinho furtado, ficamos rindo e jogando conversa fora,
conversa essa que se passou pela minha família, a dele, meu amor
pela ruiva Laura, meus poemas desconhecidos e seus escritos. Ele
queria ser um autor de romances. Seria um dos mais geniais
romancistas de nossa língua.
A literatura que nos aproximou, caderno, eu sempre admirei a
habilidade dele em construir personagens e seus dramas, que sempre
tinham um caráter sentimental e melancólico. Seu romance
principal era sobre um amor que não se concretizou pois a moça
morreu e o moço vive em amargura, na boemia das noites de Belo
Horizonte, procurando em outras moças a que havia falecido.
Até achar uma que é idêntica, mas só na cabeça dele.
O desgraçado era um gênio, uma letra dele vale mil vezes qualquer
poema de minha autoria!
À medida que a conversa tomava seu andamento, a bebida descia
em nossas gargantas e a quantidade de álcool aumentava em nosso
sangue. Tristeza.
Estávamos debaixo de uma pedra, vendo a água límpida abaixo de
nós, era um ótimo esconderijo, tanto dos outros visitantes quanto do
mundo. De tudo, caderno, era o meu ombro para chorar, meu forte
que servia como fuga, mas, meu querido caderno, não era o lugar, era
ele.
Chávare me encarou, vi suas pupilas pretas tão perto, e me
perguntou se poderia me beijar. Eu aceitei. Foi ótimo.
Veja, caderno, essa seria uma história feliz se não contasse com a
minha presença. Um jovem casal embriagado em uma cachoeira,
apenas usufruindo da juventude e dos hormônios que ela traz.
Ele teve a brilhante ideia de pular de cima de uma pedra, o poço
era fundo, aguentava. Eu poderia ter negado, era pra ter negado,
mas o maldito álcool inibia meus pensamentos, não devia ter bebido
tanto.
Quando analiso a situação hoje, vejo que foi exagero roubar quatro
garrafas de vinho.
Chávare foi subindo pelo mato, com os passos cambaleantes típicos
de um bêbado, obviamente algo ia dar errado...
Chegamos ao topo, era alto, alguns vários metros de altura. Ele
observou lá embaixo e se virou para falar algo comigo. Me lembro
perfeitamente daquele olhar, ele tinha um sorriso nos lábios, os
cabelos grudados no rosto pelo suor, então escorregou. Era um lugar
muito úmido devido à queda d'água, o lodo não dava nenhuma
firmeza às pedras.
Ele caiu, eu pude ouvir de longe o som de sua cabeça se chocando a
uma pedra.
Não pensei, apenas pulei. Tirei o corpo do poço, vendo a linha de
sangue romper a hegemonia límpida da água. O corpo humano é
tão frágil, caderno, o crânio deveria ser o osso mais forte, ao menos
ser mais resistente que uma pedra que estava ali há milhares de anos.
Quando o tirei da água já não havia pulso.
Espero que eu tenha conseguido suprir a sua fome sádica de se
aproveitar de minha melancolia, ó velho caderno. Suas páginas
amarelas estão sujas com minhas lágrimas, já ficaram molhadas
com minha saliva da última vez que nos encontramos, vamos ver
qual o próximo fluido corporal que irei despejar sobre ti.
Sim, estou deprimido, lembrar dessa história me traz sentimentos
que não são agradáveis.
Matou sua curiosidade?
Ótimo, agora deixe-me sozinho.
O diário do poeta - Fim

Estou de volta, caderno. Não minta dizendo que sentiu minha


falta. Teu sentimento deve ser como o de uma prostituta que se
apaixona por um cliente casado e não o vê todos os dias, apenas nos
momentos em que o homem decide abandonar suas duas famílias e
viver momentos de prazeres momentâneos.
Odeio-te, entidade de papel.
Amo-te, obrigado por me ouvir. Ou ler.
Agora, por exemplo, estou preparando as malas para me mudar.
Estou prestes a conhecer o território carioca. O Rio de Janeiro
me parece um ótimo mercado para minhas obras, ainda mais que eu
ganhei uma oportunidade de publicar num jornal de lá.
Aparentemente, meu ídolo na escrita, Gregório Frazão, leu um
poema de minha autoria e ficou impressionado, como o mesmo disse.
Às vezes, me sinto orgulhoso do meu trabalho, caderno, mas só às
vezes mesmo, bem de vez em quando, quase nunca.
Como agora. Agora me sinto honrado e realizado por ter meus
escritos reconhecidos por uma pessoa tão importante, que eu tanto
admiro.
Porém, como tu já deve ter se acostumado, a felicidade não é o
sentimento predominante em minha vida.
Vamos falar de tristeza!
Fui dar a notícia a minha família, estavam todos reunidos na
sala, pai, mãe, irmã, irmã e irmão. Sim, meu pai, aquele
capitãzinho, umas das pessoas mais desprezíveis que já pisaram nessa
Terra, falo com a propriedade de ter convivido os vinte anos de
minha vida com ele.
Obviamente, ele negou, dizendo que eu deveria arranjar um emprego
de verdade, não ficar escrevendo coisas tristes e receber uns trocados
por isso. Lembro que um dos momentos mais constrangedores da
minha vida foi justamente quando tive minha primeira publicação,
que ele leu e repudiou. Trogloditas imbecis não entendem a arte,
jamais vão entender.
Porém, me mantive firme, afirmei que iria e que já estava com as
malas prontas, a mala. Meus irmãos vieram me abraçar e deram
adeus, um adeus solene e melancólico, deles eu ia sentir falta, do meu
pai não.
O capitãzinho me colocou para baixo, obviamente, com suas
palavras ásperas sobre minha altura, minha inutilidade no mundo e
questionando minha arte. Aquilo eu não pude aceitar, endireitei a
coluna e mudei o tom de voz.
"Sou um poeta. Ortodoxo, anormal e, até certo ponto, melancólico,
mas ainda sim um poeta. Exijo respeito pelo meu trabalho como
um artista das palavras, um arquiteto da alma."
A sala ficou em silêncio.
Logo depois, todos riram de mim.
Mas não sentia um pingo de arrependimento ao despejar aquelas
palavras, pelo extremo oposto, nunca havia me sentido tão leve em
toda a minha vida.
Basta arrumar a mala e ir em diante com meu sonho. Em breve
estarei no Rio, caderno, mas não irei te levar.
Posso dizer que a única certeza de todo ser humano é a morte e eu
sei que a minha não vai demorar a chegar, mas devo aproveitar o
pouco tempo que me resta, curtir a boemia, o calor humano, o sexo, a
poesia, a embriaguez, as brigas, as fugas, as feridas, as amarguras.
Quem diria, caderno. Terminamos em bom tom.
A tristeza que me abraça na maior parte do tempo não me tem em
seus braços por enquanto. Devo aproveitar? Mas é lógico!
Lógico que não.
Até, meu querido caderno. Tu foste uma boa companhia,
perdoe-me pelas palavras ofensivas que despejei contra ti.
Logo tu irá estar em uma lixeira, torço para que ninguém te ache.
Se alguém ler essas palavras, irei me sentir profundamente exposto.
É isso, caderno, chegou ao fim nossa história. Cuide-se.
Cigarro na varanda

Sentou-se à varanda, vendo os carros passando na rua, encostou o braço na


grade de proteção e observou aquela samambaia que descia até o chão. Bento, o
gato preto de peito branco veio lhe encher, passou o corpanzil nas pernas dela,
deixando o rabo elegantemente apontado para cima.
O que mais aquele bicho queria? O pote bordado estava com a ração quase no
topo e Melissa ligou a torneira para ele beber água há cinco minutos.
Bento era engraçado, quando queria água durante o dia, subia na pia e ficava
miando até alguém lhe atender. Ele miava agora, mas não por sede, o pote do
leite estava vazio. Mas Danilo tinha que ir ao supermercado comprar mais leite,
o que tinha em casa acabou ontem de noite.
Ofélia, a senhora que deixava a vida passar naquela varanda, cruzou as pernas,
percebendo que estava na hora de trocar aquelas havaianas surradas, e tirou um
maço de cigarros do bolso do vestido escuro, com leve cor floral.
Afeta seu humor, mas ela já não tinha muito mesmo. Facilita o aparecimento de
cáries, mas ela já usava dentaduras. Te torna brocha, mas ela não transa. Dá
câncer, mas se ele não veio em mais de 40 anos de fumante, não ia ser agora que
iria vir. E se viesse, só ia adiantar o processo natural.
Sentia-se triste naquele momento. Sempre que isso acontecia, ela ia pra varanda
fumar, e acontecia duas ou três vezes por dia. Ofélia se achava uma inútil por
aquilo, não tinha como dar certo descontar a tristeza acumulada por 78 anos em
um pobre cigarrinho.
Bento cansou de pedir leite e foi brincar com a samambaia. Esse era o único
motivo para ter um gato: ele era engraçadinho de vez em quando.
Voltou seus olhares à rua, onde um moço estacionava o carro próximo à
esquina. Era um moço forte e pretinho, como um namoradinho que ela teve, o
primeiro a lhe tirar a calcinha. E aquele menino era tão charmoso, mas ela não
podia apresentá-lo aos pais, porque ele era pretinho.
E ela nem era tão branca assim.
Quando o assunto era pessoas pretas, ela logo se lembrava do avô, aquele velho
maldito que atormentou toda a sua infância. Ele dizia que pessoas pretas têm
maior propensão a cometer crimes por conta do tamanho do crânio. Mas o
crânio não é um só, gente? Crânio só serve pra proteger o cérebro, mais nada.
Mas como argumentaria com o avô?
O pai tentava ser mais compreensivo, mas não conseguia. Já a mãe falava com
raiva, puxou de tudo do avô, desde a cor dos olhos aos pensamentos. O avô
morreu ainda antes dos onze anos de Ofélia, só que sua figura peregrinava sobre
a casa e atormentava os pais e os cinco irmãos. Só foi passar quando ela se
casou, aos 17.
Casamento esse ruim toda vida. Levou o primeiro tapa ainda na lua de mel,
onde João de Barros, não viu a marca de sangue no lençol. Talvez se ela tivesse
feito um corte na mão com um caco de vidro, deixado a cama como uma cena
de crime, aquele tapa não viria a acontecer. Ao menos ele trouxe uma lembrança
daquela noite com Cícero, o pretinho charmoso.
João de Barros, esse já falecido, graças a Deus. Se envolveu em um acidente na
BR 381 ainda em 84. Um capotamento triplo. O desgraçado ainda levou duas
pessoas com ele.
Ela nunca contou às filhas como o pai era de verdade, deixava-as guardar uma
memória meio afetiva, pois João com certeza conseguiu estragar grande parte
do amor que elas viriam a sentir. Não contou que ele culpava-a por não lhe dar
um menino, nem quando Ofélia teve de bater o pé afirmando não querer um
terceiro filho, fazendo até uma greve de sexo, o período que João ficou mais
violento.
Ofélia criou as duas meninas com um salário baixo e uma pensãozinha do
governo. Foi difícil desde de sempre, mas ela foi dando um jeito.
A pequena Melissa apareceu na varanda com aquela blusinha vermelha da
Mafalda que ganhou de natal de Ofélia. Ela agarrou Bento, o gato não reagiu,
apenas olhou para frente com um olhar desinteressado.
“Vovó, o almoço tá pronto.”
"Tô indo já, filha.”
“Mas é macarrão, vai esfriar.”
“Deixa esfriar.”
“Aí fica ruim.”
“Eu tô fumando, Melissa.”
A menina resmungou alguma coisa e levou o gato pra dentro com ela.
Depois dela, foi a vez de Pedro aparecer. Esse era mais velho, tinha 20.
“Bença, vó.”
“Vai pra onde?”
“Pra casa de um amigo meu.”
“Já almoçou?”
“Comi sim,”
“Mas o coisa ficou pronto só agora.”
“Eu esquentei o arroz de ontem e passei um bife.”
“Vê se toma juízo lá.”
Ele riu e lhe deu um beijo na testa, depois saiu.
Pedro era um menino bom, mas teimoso toda vida. Ofélia lembra como ontem
de quando Danilo achou aquele baseado de maconha no quarto dele.
A tristeza havia passado? Não. Talvez ela precisasse de outro cigarro.
Ofélia não se sentia em casa naquele apartamento, foi convidada a morar com
Maria Júlia, sua filha mais nova, há dois anos, depois daquela queda no
banheiro, em que ela ficou sem ninguém pra chamar e ficou caída até um
entregador aparecer.
Mas Maria Júlia puxou a teimosia do pai, não deixava Ofélia sair para nenhum
lugar, nem pra pracinha lá em cima. Mas Ofélia ia escondida, depois que Maria
Júlia ia trabalhar e antes que Melissa voltasse da escola.
E quando ela morresse? A morte não está tão longe, não é? 78 já. Ela pensou
que seria abandonada em um asilo, contando apenas com a companhia dos
enfermeiros e dos outros velhinhos. E como a morte iria chegar? Talvez com ela
dormindo mesmo, onde se deitaria com o tercinho enrolado na mão direita e
nunca mais acordaria. Ou em outra queda, mas em vez de bater o quadril bateria
a cabeça, e o crânio dela não era tão resistente mais. E por que ela viveu tanto?
A maioria da humanidade não chegou nem aos 70, o que ela tem de especial
para beirar 80? E o corpo tem uma data de validade, o cigarro só adiantou ela, o
de Ofélia não funcionava direito há uns 10 anos. Se lembrava de como o seu
corpo era ajustadinho aos 30, mesmo com dois partos, tudo ficou de pé. Agora?
Agora estava daquele jeito, nem conseguia segurar um maldito cigarro sem
tremer.
E a morte vai demorar a vir? Ela pedia para que não.
Encostou-se na grade outra vez, agora sem o cigarro, e se pôs a pensar onde
estaria aquele pretinho charmoso do Cícero. Será que ele continua bonito? Com
certeza ele estava casado e nem se lembrava mais dela.
Ofélia queria continuar morando sozinha, mas a solidão amenizava um pouco
quando seus familiares estavam em casa. Porém agora ela estava tão forte, se
uniu a tristeza e formou essa coisa que angustia o peito de Ofélia.
Daí a vida seguia naquela dialética.
“Vovó, a mamãe mandou te chamar.”
Melissa voltou com a blusa cheia de pelos pretos.
“Vamos comer.”
Dolphin Tank

O empreendedor andou pelo corredor, chegando na sala principal, onde havia


a logo do Dolphin Tank e os quatro investidores ficavam em poltronas
separadas.
— Olá, golfinhos. Me chamo Fuinho e essa é a Agiot Content. Muitas pessoas
passam por dificuldades financeiras e precisam pegar dinheiro emprestado, mas
não conseguem por uma série de motivos e o mais comum é o fato de ter o
nome sujo. O que a Agiot Content oferece é justamente isso, a oportunidade de
pegar dinheiro sem passar pelas burocracias dos bancos, pagar com os juros
flexíveis e um pouco maiores. A minha proposta é de setecentos mil por vinte e
cinco por cento. Então, golfinhos, vamos ajudar as pessoas sem passar pelas
burocracias?
Marcos Boça, dono da empresa de óculos Grão Malagueta, usando um colete
amarelo e quatro óculos diferentes no rosto, é o primeiro a falar.
— Pô, mêo, me fala, quanto você faturou desde que você começou.
— Cerca de quinhentos mil, comecei em 2019 e em 2020 com a pandemia os
faturamentos dobraram.
— Mas como você chegou nessa oferta de setecentos mil? — Disse Joaquim
Apolônio, dono da empresa Aposhow, ao seu lado, havia uma panela
antiaderente, uma fritadeira que não usa óleo e uma esteira.
— Eu preciso investir mais e agora não tenho o capital. E com a demanda que
está chegando, eu preciso de mais grana pra investir mesmo. Pagar meus
colaboradores, além do próprio dinheiro para empréstimo.
— Maix quanto você cobra de jurox? — Perguntou Cláudia Andorinho,
especialista em investimentos, que tinha um computador no colo, um
equilibrado na cabeça e outros três no chão, acompanhando os riscos da bolsa.
— Depende da quantidade que a pessoa precisa. Por exemplo, cinco mil reais,
eu cobro quinze por cento ao mês a juros compostos.
— Mas é uma quantidade bem alta. — Disse Carmem Pfizer. Logo depois, um
de seus celulares vibrou. — Aí, meu. Outro otário perdeu dinheiro.
— É assim que a gente lucra.
— O mêo, você percebe que tem uma dor? — Marcos põe outro óculos no
rosto.
— Tem sim, ultimamente tem muitos endividados, ainda mais com a pandemia.
— E como você cobra? Porque parece que é muito fácil te enganar, você diz que
é sem burocracia, mas isso facilita que alguém te passe a perna. — Apolônio
limpa o suor do rosto com o novo lançamento da Aposhow, uma toalha
descartável, que mantém a maciez de uma toalha e é leve como um lenço.
— Ah, não passa não. — Fuinho anda até a mesa ao lado e pega uma caixinha, a
abrindo e mostrando o conteúdo para os golfinhos. — Esse é o dedo da irmã de
um cliente que atrasou o pagamento. Também já matei uns três cunhados e um
monte de cachorro.
— Então você tem como garantir o pagamento? — Carmem tira o terceiro
celular do bolso e dá um soco no ar. — Como tem trouxa no mundo.
— Tenho toda uma equipe que cuida disso.
— Fuinho. Eu goxtei muito do seu negócio e ia te fazer uma propoixta se você
fosse empoderada. Não é segredo pra ninguém que eu gosto de mulherex e você
não me apresenta esse perfil. Eu goixto meixmo de quem me garante que vai ser
empoderada pra humilhar uma outra mulher, deixar a trabalhadora chorando,
sem auto estima nenhuma e sem grana, porque o salário é ruim. Você não me
oferece isso, por esse motivo eu tô fora. — Cláudia jogou um computador no
chão e pegou outro.
— Muito obrigado.
— Eu tenho uma proposta também. Seu negócio em uma panela elétrica. Você
oferece o dinheiro e já vende a penela junto. — Apolônio tira do bolso uma
panela elétrica e a joga em Fuinho, que é obrigado a desviar.
— Olha, meu, então eu gostei muito do seu negócio. Ainda mais que você
humilha pobre e isso me agrada muito. — Carmem falava enquanto olhava para
cinco celulares. — A minha proposta é os setecentos mil pelos vinte e cinco por
cento, mas você vai incluir um curso de trade no serviço.
— Aí você foi baixa. — Disse Apolônio.
— Não, só fiz uma outra proposta.
— Acha que um curso vende mais que uma panela elétrica que não agarra?
— Pelo menos o curso me garante crescimento, já que vai ter mais gente
entrando no mercado.
— Mêo, a minha proposta é melhor que a deles. — Marcos sobe na poltrona e
fica sentado, apoiando os calcanhares nas nádegas. — Você vai oferecer o
seuproduto e se a pessoa não pagar, ela tem que ficar vendendo óculos até cobrir
o valor dos juros.
— Mas aí a pessoa não vai receber?
— Não, e é a melhor parte, mêo, gente trabalhando de graça pra mim.
— Posso pensar por um minuto?
— Claro, vai lá.
Fuinho deixou a sala e voltou para o cerredor.
Assim que retornou, viu uma cena estranha. Apolônio estava ocorrendo atrás de
Carmem, com uma panela em mãos, enquanto a mulher fugia olhando para dois
celulares, acompanhando o faturamento. Marcos Boça tentava acertá-los
arremessando óculos.
— Tenho minha decisão. — Diz Fuinha, parando a confusão. — O que houve
com a Cláudia?
A mulher estava jogada por cima do computador, convulsionando, babando,
com sangue escorrendo pelo chão. A hemorragia foi causada por um ferimento
da haste de um óculos que estava alojada na lateral do seu pescoço.
— Ah, mêo, não esquenta com isso. Vamos falar de negócios. — Marcos Boça
pede para todos se sentarem.
Apolônio bate com a panela na cabeça de Carmen, que perde a consciência na
hora.
— Andei pensando bem e decidi que vou aceitar a proposta do Marcos.
— Isso daí, mêo. — Ele anda até Fuinha e coloca um óculos em seu rosto. —
Faremos muito dinheiro.
— E vamos ter muita mão de obra…
— Uma penela minha vende mais que todos os seus óculos juntos, Marcos! —
Apolônio arremessa uma fritadeira elétrica, que não utiliza óleo, antiaderente,
que é mais saudável, perfeita para fazer carne, batata, entre diversos alimentos.
E os primeiros trinta que ligarem irão receber um livro de receitas exclusivo.
Marcos pula para o lado, tirando um óculos do bolso e dando um arremesso
perfeito, fazendo a haste entrar pelo pomo de Adão de Apolônio e matar o velho
na hora.
— Mêo, negócio fechado?
— Fechado!
A parede do fundo explode.
Um helicóptero se aproxima dos escombros, uma escada é jogada e o estúdio é
invadido por golfinhos de terno preto, com um chapéu circular da mesma cor.
Começam a fazer uma dança coreografada com as nadadeiras traseiras, indo de
um lado para o outro, girando em torno do próprio eixo e mexendo as
nadadeiras dianteiras.
É possível ouvir o som de trovão. Começa a chover cópias de Marcos Boça,
todos repetiam "mêo, mêo, mêo, mêo, mêo, mêo, mêo" ao cair do céu.
Carmem Pfizer acorda do desmaio, vê toda aquela situação e assume sua forma
verdadeira, a de reptiliano.
Uní-vos

Cassiano arrumava a gaveta, facilitando para a enfermeira fazer a contagem


dos objetos quando o turno acabasse. O paletó ficava dobrado na mesa, o calor o
impedia de usá-lo, até o estetoscópio deixava sua nuca suada, junto com os
cabelos lisos que caiam pelo pescoço. Bebeu um gole d'água, que ficou quente
em vinte minutos, logo iria pedir ao estagiário para que trocasse.
Olhou na lista do dia, faltava apenas um paciente, que vinha fazer o
acompanhamento do ferimento na barriga que havia infeccionado. Cassiano
teve que fazer um pequeno procedimento cirúrgico, no paciente e agora tinha
que tirar os pontos. Ao menos era o último, ficou ansioso para chegar em casa,
tomar um banho, ligar o videogame e esquecer da vida. Começou a lavar as
mãos, colocar a máscara e as luvas, voltando o paletó para o corpo.
Batidas na porta.
— Tá aberto.
— Doutor, boa tarde, é boa noite já? — Rafael olha o celular no bolso. — Não,
boa tarde mesmo. Como vai o senhor?
— Tirando esse calor, tamo indo. Senta ali na maca, por favor.
Rafael caminha até a maca e se senta no colchão fino.
— Só vou chamar a enfermeira, já já a gente começa, tá.
— Não. Quero enfermeira não, doutor.
— Mas é o procedimento, Rafael.
— Você dá conta sozinho. — Ele falou seriamente, de forma que amedrontou
Cassiano.
Rafael tira a corrente de prata do pescoço e a camisa na sequência, tinha a pele
preta, com tatuagens no braço esquerdo, que subiam para o pescoço, os cabelos
crespos eram maiores que de costume, penteados para cima.
— Minha mãe veio aqui anteontem.
— Como ela chama? — Cassiano preparava os instrumentos para o pequeno
procedimento.
— Lúcia.
— Ah, a Dona Lucinha?
— Isso, uma baixinha, com os braços do tamanho de um touro.
— A saúde dela também, não parou de falar do filho que passou pra engenharia,
mas decidiu fazer história.
— Ela diz isso desde que eu passei no vestibular. A sorte dela é que meu irmão
quer fazer medicina. Ela chegou em casa rasgando elogios pro senhor.
— Por quê? — Cassiano tocou o ombro de Rafael e o deitou na maca.
— Falou que o senhor foi o único médico desse postinho que encostou nela.
— Só tô fazendo meu trabalho.
— E essas pichação na parede lá fora?
— Isso daí. — Cassiano ri e leva a tesoura a até o ferimento já cicatrizado. — A
prefeitura sempre apaga as pichações, né. Aí eu chamei os meninos da escola
aqui do lado e um cara que ficava pichando na madrugada, que me confessou
em uma consulta, aí ele fez o desenho no papelão, recortou e os meninos
pintaram. Foi a maior festa, os meninos começaram a jogar tinta uns nos outros,
em mim.
— Tá bonitão. Mas não corre risco de mandar apagar?
— Uns dois militar veio encher a porra do saco já, mas vai apagar não.
— E é a primeira vez que você lida com pobre, doutor?
— Como assim?
— Você não é daqui. Certeza que é do Gamaleão.
— Não, morava no Coronel Pimenta.
— Aí, sabia. Essa bochechinha rosa te entrega, doutor.
— Mas acho que tô fazendo o sirviço bem feito.
— De você ninguém tem nada pra reclamar, mas dos outros, puta que pariu. E
era tudo playboyzinho que nem o senhor.
— Mas tá errado é lá de cima, Rafael. Vou ser sincero com você, minha
intenção inicial era trabalhar em hospital caro, porque até na faculdade a gente
aprende a cagar pro serviço público, mas quando eu cheguei aqui, minha
percepção de mundo mudou.
— Se você pudesse fazer algo pra mudar o nosso país pra melhor, você faria?
— Faria, mas o quê?
— Preciso da sua ajuda, doutor.

*** ***
Cassiano os morros da Comunidade Seu Jorge ao lado de Rafael, acenando para
vários rostos conhecidos de pacientes, principalmente as mulheres mais idosas.
Rafael parou em uma casa pequena, na subida de um morro, pequena, mas com
uma bela entrada com plantas de vários tipos, e com uma porta de metal com
uma abertura de vidro. Rafael abriu a porta e Cassiano tomou um susto, havia
um rapaz jogado no sofá, sem camisa, com o ombro erroneamente enfaixado, o
vermelho do sangue cobria toda a faixa.
— Meu Deus! Você é louco? — Cassiano corre até o rapaz, mexendo levemente
o braço direito, onde o ombro estava ferido. — Temos que levar pro hospital.
— Não, doutor. Tira a bala aqui mesmo.
— Pode dar muito errado, se essa bala tiver alojado… isso tem quanto tempo?
— Tomei o tiro ontem à noite, doutor.
— Me fala o que você precisa, doutor. — Rafael fica ao lado de Cassiano.
— Primeiro precisamos deixar ele dopado.
— Tem cachaça aqui.
— Traz lá, por favor. Você é maior de idade?
— Que se foda isso, doutor. — O rapaz responde.

*** ***

Thiago, o rapaz baleado estava desacordado no mesmo sofá, a cirurgia


improvisada havia sido um sucessor, por sorte dele, não foi difícil para Cassiano
remover a bala.
— Cê pode me falar como que isso aconteceu?
— O tiro? Ah, foi no assalto de ontem. — Rafael responde, molhando os lábios
com o café recém preparado. — Aceita um cafezinho, doutor?
— Por favor. — Cassino pega o copo, ainda com as mãos trêmulas e toma um
gole. — E me chama pelo nome, gosto dessa coisa de doutor não. Mas você é
daquela gangue que saiu no jornal ontem? Do assalto ao Banco.
— Gangue não. Movimento, guerrilha.
— Tem muita gente?
— Estamos no processo de expansão das nossas ideias.
— Você que é o fundador?
— Eu e outra camarada.
— Ela mora aqui também?
— Não. Mas agora quem pergunta sou eu, Cassiano. Estamos com um novo
plano, vamos atacar a rádio 98.7 durante a madrugada e devemos trocar tiro
com os cara durante a saída. Vou precisar de você de novo.
— Eu posso negar?
— Claro que pode, mas aí de que vai adiantar? Tô ligado que você é de família
rica, mas sabe que é pouca gente que vive como você. A gente luta para que
todos tenham acesso a uma vida digna, sem essa porra de governo que só serve
pra matar, seja de fome, seja de bala. A gente luta com a nossa classe e contra a
burguesia.
— Eu entendo, juro que entendo, mas tenho família...
— Eu também, porra. O Thiago tem, a Helena também tem. Nós tudo tem, a
diferença é que a gente não vive que nem o senhor. Você consegue botar a
cabeça no travesseiro sabendo que tem gente sendo morta a todo momento?
Você já viu como o exército atua? Deixa eu te contar uma coisa, doutor, tenho
uma foto da minha formatura e daqueles trinta moleques que formaram comigo,
só eu tô vivo até hoje.
— Cê tem quantos anos?
— Vinte e cinco. E eu sei que não vou viver muito, não devo passar dos
quarenta, mas vou viver muito mais do que quem vive oitenta anos se omitindo.
Consigo deitar a cabeça no travesseiro sabendo que tô fazendo a minha parte.
— Tá, vou pensar direitinho e te dou a resposta. — Cassiano batia os
calcanhares no chão, tentando disfarçar o nervosismo.
— O ataque é na quarta da semana que vem.
— Pra esse ataque você pode contar comigo. — Ele fala quase sem pensar.
— Sabe usar arma?
— Não.
— Vai precisar estudar também. Temos que vencer no campo da porrada e das
ideias. Vou te emprestar alguns livros que eu tenho, são de fácil entendimento e
tem anotações minhas também. Sem preguiça.
— Tá bom, vou fazer uma maratona.
— Companheiro? — Rafael estende a mão.
— Sim, companheiro. — Cassiano aceita o aperto.
Consequências

Cassiano fumava um cigarro, encostado em uma vitrine de loja. O centro era


pouco movimentado durante aquele período das três da tarde, ainda mais em
uma quarta feira pacata. Quatro carros estavam estacionados ao final da rua,
dois de cada lado, mantendo certa distância. A frente dos carros, havia cinco
motos, cujo os pilotos conversavam na calçada.
Ajeitou o boné, colocou uma piranha no cabelo, fazendo um rabo de cavalo
improvisado. Um carro cinza estava estragado a uma rua antes do cruzamento,
impedindo a passagem, o motorista havia colocado um triângulo vermelho a dez
metros do veículo e ficava sinalizando para os motoristas que queriam passar
para subir duas rodas na calçada.
O celular dele vibrou, era um Nokia de vinte anos atrás.
— E aí, Juan? — Era a voz de Rafael.
— Por enquanto nada, Vinicius.
— Daqui uns dois minutos ele chega, fica esperto aí.
Barulho de veículo pesado. O carro forte virou a esquina e entrou na rua do
carro estragado.
— Tá aqui.
Cassiano não percebeu, um um pedestre estava prestes a atravessar a rua, antes
que o carro viesse.
— Ei! — Cassiano correu até o homem e tocou seu ombro. — Me segue por
favor, amigo.
— Mas por…
Cassiano levantou a blusa, mostrando o revólver na cintura.
— Vem cá, por favor. — Ele conduz o homem até a vitrine onde estava
inicialmente, escondendo o rosto com o boné. — Como você se chama?
O motorista do carro forte desceu do veículo, indo conversar com o motorista
do automóvel estragado, visto que o carro forte não teria tamanho para passar
entre o carro e o poste de luz logo a frente.
— Marcos.
— Onde você mora?
— Não vou…
— Fala logo, caralho! — Cassiano tentava não transparecer que estava nervoso.
— No Operários, rua Afonso Augusto, cinquenta e dois. Eu sou trabalhador...
— Eu também.
O motorista do carro estragado lançava olhares ansiosos para Cassiano.
— Se você contar pra alguém... já sabe.
— Sei sim.
— Agora, se quiser saber sobre a gente. — Cassiano entrega um folheto
dobrado, de cor vermelha. — Continua olhando pra baixo, anda até a esquina,
como se nada tivesse acontecido, aí você vira pra direita e corre como se sua
vida dependesse disso.
— Pode deixar.
— E a gente já se falou alguma vez?
— Não, nunca te vi na vida. — Marcos recebe um toque na cintura e começa a
andar.
Cassiano fez o número um com o dedo, indicando para o motorista, que estava
tirando a paciência do guarda do carro forte.
— Um… — O motorista do carro forte estava discutindo com o do veículo
estragado, que tentava manter-se calmo. — Dois… — Cassiano tira um objeto
do bolso, uma espécie de controle. — Vai! — Pressiona o botão e o motorista
pula para trás.
Uma explosão emerge do chão. O carro forte é arremessado para cima, caindo
de lado, o guarda é jogado para a calçada. O motorista do carro se levantou
limpando a roupa e tirou uma pistola da cintura.
Cassiano correu até a porta onde o dinheiro estava guardado, aproveitou que
estava amassado para puxar, recebendo ajuda dos pilotos das motos e dos
motoristas. Com certa dificuldade, a porta abre e eles são recebidos a tiros.
Cassiano, no reflexo, puxa revólver e atinge um dos seguranças no pescoço,
vendo o outro levar dois tiros no rosto.
A guerrilha vai juntando todo o dinheiro em mochilas, na maior velocidade
possível, até a sirene das viaturas ficar audível a uma altura considerável.
Eles saem do carro forte, cada um corre para um veículo de fuga, Cassiano vai
para o carro da frente juntamente ao seu motorista.
— Conseguimos, comandante.
— Sem comemorar antes da hora, companheiro. — Som de pneu cantando.
*** ***

Cassiano se despediu de uma paciente, lhe desejando um bom feriado e ficou


atualizando os dados dos pacientes no computador, que travou, era a terceira vez
naquela semana que isso acontecia e era terça. Cassiano deu um soco na tela,
xingando, e foi tirar o fio do aparelho da tomada.
O próximo paciente era Seu Vicente Morais, o zelador do colégio ao lado do
postinho, tinha que ir com certa frequência ao encontro do médico para
acompanhar o tumor no pós cirurgia.
Passaram-se cinco minutos e ninguém entrou.
Cassiano saiu da sala, escutando um falatório vindo da sala de espera. Atravessa
o corredor e chega na entrada, vendo três policiais, dois fardados com uma farda
preta e um de terno, com um crachá de identificação no peito.
— O que tá acontecendo? — Cassiano vê todas aquelas pessoas assustadas,
sentadas no banco duro que ficava pendurado na parede.
— Estamos à procura do Cassiano Magalhães Neto. Ah, é o senhor, doutor.—
Diz o policial de terno. Ele tinha cheiro de perfume misturado com cigarro, com
os cabelos grisalhos na cabeça e no bigode.
— Sou eu mesmo, mas só vou te acompanhar quando o turno acabar. — Ele vê
um dos policiais fardados obrigando um rapaz a ficar de pé e o mandando
esvaziar os bolsos. — Ou! Aqui você não pode fazer isso não. — Ele tira a mão
do policial do ombro do rapaz.
— Cê tá achando que é quem, doutor?
— Não pode ter abordagem aqui dentro. O mínimo que cê devia saber era isso.
— Cassiano, só segue a gente e não complica mais as coisas pro seu lado.
— Não, vocês não podem deixar o posto sem médico. — Ele puxa o braço do
toque do policial de terno, que leva a mão ao coldre da arma e puxa uma pistola.
— Você vai apontar uma arma pra alguém que tá desarmado?
— Vai andando, doutor.
— Não vou deixar o pessoal…
O policial dispara, acertando a barriga de Cassiano, que perde o equilíbrio,
sendo pego e algemado pelos outros dois policiais.

*** ***
Na viatura, Cassiano tentava ignorar a dor e o desespero que aquele
sangramento estava lhe causando. O projétil acertou a lateral de sua barriga,
próximo ao osso da cintura.
— O que você estava fazendo na tarde do dia dezoito de agosto,
especificamente do meio-dia às cinco horas? — Pergunta o policial de terno,
Cassiano podia ler "coronel Fahur" no crachá.
— Foi minha folga, eu tava na chácara da família da minha namorada. Só ligar
pra ela que você vai ter a confirmação.
— Sem enrolação, doutor. — Fahur deixa o revólver apontado para Cassiano.
— Fala onde cê tava.
— Na chácara da família…
Fahur põe o dedo na ferida do tiro. Cassiano berra de dor.
— Liga pra ela, porra!
— Não sei o telefone.
— Eles tão de planinho armado. — Um dos policiais diz.
— Acha que eu não sei? Cassiano, uma confissão pode diminuir sua pena.
— Vou confessar que estava fazendo um churrasco na porra da chácara…
Fahur desfere um soco no rosto de Cassiano.
— Vou perguntar de novo, doutor. — Onde você estava no dia dezoito de
agosto, do meio dia às cinco da tarde?
— Eu estava — Respondia pausadamente. — Na chácara da família da minha…
— Esse é dos difíceis. Acha que vai sair herói.
— Vamos levar ele pro mato. — Fahur ordena e o carro continua em uma
velocidade maior que a permitida em lei, com as sirenes ligadas. — E qual o seu
envolvimento com o Vinícius Lopes?
Cassiano demorou para raciocinar.
— Irmão da Tereza?
— Anota aí que ele tem irmã. — Fahur ordena. — O que você tem com ele?
— Lembro de ter atendido a irmã dele.
— O que mais?
— Só isso.
— A gente sabe que você tá envolvido na porra do roubo do carro forte, no
assassinato do coronel Viera Souza, na invasão do décimo terceiro batalhão.
— Só fiquei sabendo disso pelo jornal, trabalho o dia todo, chego em casa e só
quero ler meu livro e fumar meu cigarro. Cês confundiram.
— Pode ir deixando ele mais macio pra falar. — Fahur vai para o canto,
enquanto os outros dois se aproximam de Cassiano.
O primeiro põe o dedo na ferida do tiro, empurrando a bala e o segundo lhe
acerta um soco na boca.

*** ***

Após uns cinquenta minutos de tensão, o carro para em um matagal na estrada,


onde havia uma pá jogada no chão. Os policiais descem do carro, levando
Cassiano junto.
Ele não havia visto de início que ao lado da pá tinha um buraco na terra, com
tamanho para caber um corpo. Mal conseguia se mover, não sentia o gosto de
sangue na boca, respirava calmamente, pois a dor na lateral do corpo indicava
uma costela quebrada.
Fahur colocou o médico de frente para o buraco e Cassiano sentiu o cano da
arma em sua nuca, ouvindo também o barulho dela sendo destravada.
— Agora você vai me falar onde estava na porra do dia dezoito e o seu
envolvimento com Vinicius Lopes.
— Uma vez eu antendi a irmã dele. — Cassiano fechava os olhos com força,
torcendo para aquilo terminar logo, não importando se fosse um final bom ou
ruim.
Ouve um som de tiro e é empurrado na cova.
or um minuto, acreditou que tinha morrido. Tocou o corpo, ainda com as
algemas. Percebe a viatura indo embora.

*** ***

— Cê vai sair de cena por um tempo. — Diz Rafael.


— Não, agora tô com ódio redobrado. — Cassiano toma um gole da vodka de
Rafael, apoiando o peso do corpo na bengala que pegou emprestada de dona
Lucinha segurando o gelo no lábio superior.
— Eu seguro as pontas, tira um tempinho pra cuidar do corpo. — Helena diz,
uma morena alta, com o cabelo curto em uma franja.
— Vou nem tirar licença do trabalho, Helena.
— Vai trabalhar recuperando de uma cirurgia?
— Recebi um email do filho da puta do secretário da saúde, iam colocar um
estagiário do meu lugar, um cara que nem formado é. Eu vou ficar auxiliando
ele.
Um silêncio fica na sala, interrompendo pelo som do isqueiro de Helena, que
acendeu o cigarro de Rafael.
— E agora? Já estão chegando na gente.
— Agora vamos ir com tudo. É vida ou morte. — Rafael põe o cigarro na boca.
— Temos uma puta base. — Helena fala. — A comunidade tá toda com a gente,
os camaradas no sindicato, nas universidades, os secundaristas. Viu a escola
ocupada no norte? Um dos meninos carregava a nossa bandeira.
— Vai todo mundo morrer. — Cassiano senta no sofá. — Agora eles vão atirar
antes e perguntar depois.
— E quando que fizeram diferente? — Rafael se junta a Cassiano.
— Então tá decidido que eu fico?
— Vão te pegar de novo, seu imbecil. Depois do ataque na segunda vão ir atrás
de você e cê vai tá na chácara do Fessô. — Apelido do professor da
universidade que Helena e Rafael foram alunos, que aderiu ao movimento.
— Tô com a chave pra te dar. A camarada Gabi vai ir contigo.
— Põe ela em risco também, estão de parabéns. — Cassiano provoca.
— Você prefere estar pendurado de cabeça pra baixo, com as mãos e pés
amarrados, pelado, levando choque e com uma barra de ferro enfiada no seu
rabo? Ah, já sei. Cê quer que eles peguem um rato, põe o bicho numa panela e
deixa na sua barriga, certo? Aii eles colocam fogo na panela e o bicho vai te
roendo até entrar dentro do seu estômago. Ou você prefere…
— Já entendi, já entendi. — Cassiano tenta ficar de pé, mas uma dor estridente
toma conta de seu corpo, não devia ter forçado o músculo do abdômen. — Me
dá a chave agora então, pelo menos vou aproveitar a praia.
— E postinho?
— Vou direto do trabalho pra chácara.
Venceremos

O âncora falava olhando para a câmera, lendo um papel. Atrás dele, uma arte
mostrava Rafael Torres a frente de Cassiano Magalhães e Helena Chagas, atrás
deles havia sangue escorrendo.
— Na madrugada desta sexta-feira, o quartel do exército, da rua Geisel, foi
atacado e saqueado. Os cinco soldados que faziam a vigia foram mortos com
armas brancas, dentro do quartel, os soldados que dormiam foram feitos de
reféns durante os saques. Dinheiro, armas e uniformes foram roubados. O grupo
terrorista intitulado Movimento Quatro de Novembro assumiu a autoria do
ataque pela figura de seu líder, Rafael Torres. O General João Fonseca repudiou
os ataques e afirmou que a violência será recíproca.

*** ***

O âncora segura a força com as folhas, olhando para a câmera. Seus lábios
estavam trêmulos.
— Chegou-se a um acordo entre os militares e os terroristas do Movimento
Quatro de Novembro. Os três empresários estrangeiros, que vieram para os
leilões da Bolsa de Higienópolis, e estavam sendo mantidos em cativeiro,
ficando até sem comida, segundo fontes, serão libertados pelos terroristas em
troca da
liberdade de trinta e sete guerrilheiros que estavam presos. Uma das líderes do
movimento, a cientista social Helena Chagas foi fazer a negociação
acompanhada de guerrilheiros fortemente armados. O General João Fonseca
falou à nossa reportagem, mas não quis ser gravado. Abre aspas: “ Se os
terroristas pensam que vão sair vitoriosos em sua empreitada sanguinária, estão
muito enganados. Contamos, inclusive, com tecnologia da grande potência do
Norte, os aliados do mundo no combate ao terror. Garanto a todas as famílias
que não precisam se preocupar, o exército está a frente das investigações e irá
garantir a segurança de todos. Mas peço aos pais que monitorem o conteúdo que
chega aos nossos jovens, temos vários relatos de escolas sendo ocupadas por
estudantes adolescentes carregando bandeiras do movimento terrorista, também
exigimos a troca de professores em todas as universidades, devido às suspeitas
do envolvimento de vários destes com o líder terrorista Rafael Torres. Como foi
decretado, o fim do movimento estudantil nas universidades públicas e privadas,
é imediato, pois estudantes vagabundos compartilham e fazem propaganda da
aberração que o livro 'Como contribuir com a revolução' escrito pela terrorista
Helena Chagas. Os sindicatos estão temporariamente na ilegalidade, com a
nossa última investigação, descobrimos o amplo contrabando de armas dentro
das sedes, os líderes sindicais identificados estão foragidos."

*** ***

O âncora olhava para a folha, sem conseguir encarar a câmera.


— Notícia de última hora. O homem apontado como braço direito de Rafael
Torres, o médico Cassiano Magalhães, foi preso na sede do sindicato dos
trabalhadores da educação do Centro Oeste. Agentes confirmaram que o
terrorista estava fazendo uma espécie de palestra para diversos trabalhadores e
estudantes, incluindo menores de idade. Houve uma confusão na hora da prisão,
os presentes no local tentaram impedir que o médico fosse levado, quatro tiros
foram disparados, mas nenhum ferido. Entraremos ao vivo agora com Henrique
Sodré.
O repórter falava de dentro de um helicóptero, mostrando uma enorme
aglomeração em frente ao presídio.
— Boa tarde a todos que nos acompanham. O que aconteceu foi que todos os
que estavam no sindicato vieram para o presídio e quando a notícia da prisão foi
veiculada, os estudantes da UFCO saíram da universidade e vieram pra cá.
Agora… — Ele põe a mão na orelha. — A informação que chega é que ônibus
escolares estão vindo de diversas escolas públicas trazendo estudantes e
professores.
Três ônibus chegam na rua em frente ao presídio e alunos jovens saem dos
veículos, vestindo uniformes, e complementam a aglomeração.
— Atenção, atenção. — O repórter pede, ainda segurando a orelha. — Está
acontecendo uma revolta no presídio, os presos que estavam no banho de sol
não deixaram que Cassiano fosse conduzido. Policiais foram feitos de reféns e
há um grande tumulto... Filma lá, filma.
A câmera aponta para a entrada do presídio, vários seguranças tentavam impedir
a entrada de manifestantes que conseguiram invadir o local, derrubando o as
grades. Cada vez mais gente entrava no presídio, pouco tempo depois, todos
saíram, com os rostos tapados pelas blusas.

*** ***

— Boa noite. E o terror não para no nosso país. A bolsa de Higienópolis foi
invadida e vandalizada, três investidores foram mortos no processo. Temos
imagens da cena.
O vídeo mostrava três homens de termo sendo pendurados por guerrilheiros
com a blusa do Movimento Quatro de Novembro, de ponta cabeça do alto de
um prédio espelhado, com cerca de vinte andares. Abaixo da cena, havia uma
multidão cantando gritos de guerra.
A transmissão é interrompida, a tela vira um borrão em preto e branco. Logo
depois, um vídeo entra no lugar do jornal.
Rafael Torres falava, vestindo a camisa símbolo do movimento, camuflada das
cores cinza e vermelho. Carregava um fuzil pendurado nas costas e olhava para
frente.
— Esse é um aviso para o cada trabalhador, trabalhadora e estudante que está
assistindo. Não caia na mentira que a mídia, controlada pelos grandes
monopólios, espalha. Não somos terroristas, somos revolucionários. Nossas
ações mais violentas não se comparam com um dia de ação do exército nas ruas.
A guerrilha popular está do lado do povo e jamais iremos apontar a arma para
um trabalhador. Lutamos contra a ditadura burguesa que se arrasta pelos últimos
anos, contra o imperialismo do Grande do Norte, não aceitaremos a
interferência deles em nosso território. Cada patriota deve ter sua arma e estar
fortalecido tanto ideologicamente quanto fisicamente, peço que cada patriota
tenha o interesse de contribuir com a revolução, procure uma célula da guerrilha
popular de libertação nacional, que, apesar de clandestina, é de fácil acesso ao
povo. Porque, juntos, organizados e centralizados, iremos alcançar o poder
popular. E não se esqueçam, companheiros, aos nossos, levaremos a paz, aos
senhores, levaremos a guerra! — Rafael ergue o punho cerrado acima da
cabeça. — Venceremos!
Ela está em tudo

O que se deseja ao dizer a palavra saudade?


Palavra essa que só está disponível para consumo na riquíssima língua
brasileira.
I miss you so much é bonito de se dizer, mas não é um: “Puta que pariu, que
saudade que eu tô dessa filha da puta.”
Tu me manques pode soar lindo ao sair da boca, mas não chega aos pés de um:
“Ela tirou tudo de mim, desde meu mínimo sorriso até a minha vontade de
viver. Só se esqueceu de levar essa maldita saudade.”
Paulo resolveu sair do tradutor, se jogou no chão e pensou em pedir outra
cachaça barata no delivery, da mais vagabunda mesmo, só para se esquecer que
estava vivo e que teria que trabalhar amanhã.
Chegar no escritório com os olhos murchos e vermelhos, com os cabelos tão
desgrenhados que deixariam o Robert Smith com vergonha. Lembrar de The
Cure era uma má ideia, ela gostava tanto.
O quarto dele tinha a cara dela, como se fosse pensado exclusivamente por
aquela mulher. E não foi?
Ela dava a cara dela em tudo, como naquele espelho ao lado da escrivaninha,
que ainda tinha a marca de batom. A parede com o papel verde escuro, que deu
um charme ao quarto. Até o guarda roupas; sim, quando deu aquela infestação
de cupins no guarda roupas antigo e ele foi obrigado a trocar, ela rodeou vários
sites com ele e até o ajudou a pagar, porque escolheu um que estava fora do
orçamento dele, mas ela tinha razão, aquele era tão lindo.
Ao menos ele foi forte o suficiente para colocar novamente na parede aquele
quadro do Star Trek, onde mostrava o capitão Spock da década de sessenta. Ela
havia falado que um quadro de um personagem fictício na parede era algo
infantil. E ela tinha razão. Paulo amava Star Trek, mas tinha vinte e sete anos,
com uma calvície ameaçando começar, o boleto da Claro atrasado porque o
desgraçado do dono da empresa resolveu parcelar o pagamento. A empresa
passava por dificuldades e seus colaboradores deviam estar cientes de que
aquela época seria de vacas magras.
Foda-se o caralho do problema! Nem foi no setor dele que descobriram o desvio
de dinheiro. A Cemig e a Copasa não seriam complacentes com a crise interna
de gestão.
Abriu o guarda roupa, aquele mesmo que ela ajudou a pagar e a escolher, e
pegou uma blusa branca, no fundo da gaveta. Quisera ele ser uma calcinha, mas
ao menos era uma blusa velha dele que ela sempre usava de pijama. Ficou
cheirando o tecido de algodão, ainda tinha muito do aroma dela, tão adocicado,
suave, mas ao mesmo tempo forte devido ao suor seco. É normal gostar do
cheiro do suor de alguém?
A data mais comum para o sexo dos dois era a sexta a noite, quando ela saída da
academia e ia direto para a casa dele. Muitas vezes ele não tinha nem voltado do
trabalho, mas ela tinha uma cópia da chave. Ah, aquela cópia. Ele deu para ela
juntamente a um chaveiro do snoopy abraçando um coração.
Hoje parece tão ridículo, mas ela ficou tão feliz com aquilo no dia… ele mais
ainda.
Saiu do quarto e chegou na sala, vendo a mureta que a separava da cozinha. Se
sentou no sofá e ligou a TV, às vezes estava passando um jogo do campeonato
inglês na ESPN e ele se desligava do mundo por noventa minutos. Deu direto no
YouTube, com o show acústico do Nirvana pausado nos trinta e sete minutos.
Ela gostava tanto de Nirvana. Ele amava quando eles estavam na casa dos pais
dela e seu ex cunhado, um menino de uns doze anos, pedia para que ela tocasse
violão para eles. As bochechas dela ficavam ruborizadas, odiava ser o centro
das atenções, mesmo que de cinco pessoas, ela sempre tocava All Apologies ou
Polly.
Uma vez, ela contou-lhe o significado da letra de Polly. Era sobre um caso real
de uma moça que foi sequestrada. Ele sempre achou que a letra falasse sobre um
loro qualquer.
Sem perceber, as lágrimas voltaram a cair de seu rosto, ele nunca mais queria
ver o Kurt Cobain com aquela jaquetinha verde, segurando um violão.
Sim, colocar as músicas que ele gostava era uma boa ideia para esquecer de
tudo.
Venom - Welcome to hell.
Pronto, agora podia tirar um tempo de paz.
Com os passos desalinhados, foi à cozinha para preparar a comida da semana,
afinal de contas, a vida tinha que continuar, mesmo se ele não quisesse que isso
acontecesse.
Viu a pia limpinha. Seu toque com organização e limpeza foram um problema
na relação? Está tudo bem não querer arrumar a cama em um domingo de
manhã, ele não precisava ir lá e dobrar a roupa de cama toda vez. Pegou a
panela, colocou a água, ligou o fogo, indo pegar o arroz no armário ali ao lado,
mas ao se abaixar, não queria mais levantar.
Sentiu um toque nas pernas, era Jeremias, o gato preto e gordo. Jeremias pulou
na pia e começou a encarar Paulo, julgando o moço com aqueles olhinhos
amarelos, cheios de raiva.
Nem Jeremias agia como antes, ele não tentava derrubar o pote com ração de
cima do armário, muito menos subia na mesa para brincar com qualquer objeto
que pudesse jogar no chão, nem mesmo subia na janela e tentava atravessar a
tela de proteção. Seu miado era encorpado, com uma grande potência vocal,
mas agora ele não fazia questão de sair dos leves gemidos.
Era apenas um gato preto e triste.
Paulo deveria ligar?
Ao menos assumir a derrota pode trazê-la de volta. Mas qual derrota? Se
humilhar em um telefonema não ia fazê-la reconsiderar, nem ele mesmo queria
aquilo.
Cinco anos é um bom tempo, muitas pessoas morrem antes mesmo de chegar a
essa idade. Que mórbido. Pensar nessas coisas não iria ajudar. Será que é culpa
do Venom?
Às vezes um terror trash ajuda. Desde os quinze é fã de Evil Dead, mas nunca
viu os três filmes da trilogia na sequência.
Puta merda, o arroz!
Não, não queimou ainda. Esse imbecil inútil do Paulo estava agindo como um
acéfalo nos últimos dias, mas não a esse ponto, ainda não.

Após terminar na cozinha, foi se deitar, ainda às seis da tarde. Não queria fazer
nada, muito menos procurar algo pra fazer. Jeremias o seguiu e se deitou na
ponta da cama, em uma de suas raras e peculiares demonstrações de carinho.
Ela não ia voltar e não era para aquilo acontecer.
… Essa semana vai ser longa.
Sumiu

20.000 pés do chão.


Essa contagem começou na Inglaterra com um rei, cujo tamanho do pé era de
aproximadamente 30,48 cm.
Luan achava isso engraçado, o fato de um rei ser tão egocêntrico ao ponto de
tirar os sapatos e medir uma distância com o tamanho de seus pés.
Será que ele fazia longos caminhos, tendo que parar passo a passo para riscar
chão e não afetar a contagem? Ou talvez ele fosse andando feito penguin,
colocando um pé logo na frente do outro.
E o rei percorria toda uma viagem daquele jeito, com o soldado encarregado de
sua segurança pensando: “Puta que pariu, velho do caralho. Depois eu que vou
ter que limpar o pé desse arrombado ainda. Sou Jesus não.”
Reis, devia ser bom nascer com sangue azul naquela época. Você podia fazer
umas orgias, não tinha preservativo, mas não precisava assumir o filho também,
seria anacrônico um Ratinho medieval fazer o DNA. O porém era ter que casar
com a irmã ou com a prima.
Mas Luan não devia se preocupar com reis, orgias ou incesto para manter a
linhagem. Estava a 20.000 pés do chão em um teco teco.
Um avião dos anos 60 que ainda voava. Ele só teve que dar um tapa nas hélices
dianteiras para que elas começassem a girar e apertar dois parafusos
enferrujados das asas. Mentira, a vida real não era pegue o pombo, infelizmente.
Aquela viagem era por um nobre motivo: Dar uma resposta a FAB.
Como Luan, um cara que passou várias noites de sexta estudando, não foi
aprovado?
O infeliz que passou no lugar dele devia estar dando para um oficial de alta
patente, com certeza.
Porém aquilo não desanimou Luan, ele foi criado como um guerreiro pela avó,
não era um militarzinho que iria decidir o que ele poderia ou não seguir de
carreira.
Sem contar que estava com 21, quase 22 e nem arrumou estágio, tinha que parar
de se sentir culpado nos almoços de domingo.
Mas hoje é quinta à noite e a formatura é neste sábado. Faltava muito pouco
para que ele virasse um piloto comercial. Estava voando ali para ganhar
quilometragem e tempo de voo.
Justamente sobre a região de Varginha.
Ouvia histórias diversas sobre o ET de Varginha. O Gugu era mestre em reprisar
reportagens sobre o caso. “Reportagens.” Alguns diziam que era um mendigo
aleijado e retardado que vivia ali, as meninas que viram acredivam ser o próprio
demônio ali no matagal, mas o mais estranho era o policial que morreu e o fato
da força aérea dos EUA ter entrado em contato com a FAB para avisar a
presença de um OVNI nos céus tipiniquins. Não um OVNI disco voador, com
etezinhos verdes dentro, um verdadeiro objeto voador não identificado, poderia
ser um avião de um riquinho aventureiro ou um ataque terrorista.
Mas o Brasil nunca tentou levar a democracia aos países do Oriente Médio, por
que um Bin Laden da vida iria atacar nosso território?
E outra, o que um ET faria em Varginha? Assistir aos jogos do Boa no
campeonato mineiro?
Mas o teco teco de Luan não era nada fácil de controlar, era um idoso teimoso,
aquele que não queria se vacinar por medo de um chip chinês estar sendo
implantado em seu cérebro. Velhos são teimosos por essência, Freud explica.
Mas aquele velho que Luan controlava estava especialmente chato, pois ele já
tinha pilotado ele diversas vezes antes aquela aeronave e ela não apresentou
tanta resistência.
Um vento extremamente forte bateu contra a lateral do teco teco. Luan foi
jogado para a esquerda sem ter chances de tentar controlar o avião. Ele, ainda
atordoado, tentou recobrar a consciência e sair daquela direção, mas
inutilmente.
Um círculo gigante emergiu acima de Luan, era verde escuro, com preto ou
cinza, as cores eram iguais e diferentes ao mesmo tempo. Uma espécie de
escotilha se abriu e Luan foi sugado para dentro.

Após acordar, ele se viu nu em um tipo de maca, com amarras em seus joelhos e
pescoço, mas uma maca com uns quinze metros de diâmetro, Luan parecia
ridiculamente pequeno perante aquilo.
Tentou se soltar, mais uma tentativa falha, pois sentiu uma dor aguda na região
anal.
O quarto era branco, mas ao mesmo tempo vermelho, verde, azul, amarelo? Era
uma mistura psicodélica de cores nunca vista pelo homem.
Aquilo era um quarto? As aberturas que pareciam ser de entrada ou saída eram
feitas de formas geométricas emaranhadas umas nas outras.
Um ser entrou por aquela “porta” desfigurada composta por um retângulo com
um círculo no meio e um triângulo em volta.
Porém, mais estranho que a porta, era o ser que saiu dela. Uma lagosta com
olhos de águia, pernas de polvo, só que mais lisas, sem qualquer tipo de
materialidade; chifres de demônio na cabeça de ornitorrinco.
Outra dor começa do ânus e sobe por todo o corpo. Luan perde a consciência.

Em Varginha, um cartaz é posto na estátua do ET na praça da cidade. Nele


continha uma foto de Luan e o letreiro de “desaparecido.”
A escritora do quarto 106

o já muito abordado tema do bloqueio criativo se tornou datado à medida que


a literatura caminha. Talvez fosse maçante ao público ler uma outra obra sobre
uma autora que se hospedou em um lugar no interior de Minas Gerais e pensou
nos personagens principais de seu romance enquanto cortava as unhas das mãos.
Um moço de família abastada de Belo Horizonte que viaja à Curitiba
representando a empresa do pai e lá, em uma saída com um amigo, conhece
uma garçonete que vestia uma saia curta, muito chamativa, desnecessariamente
chamativa, o que o irritou e nele subiu uma vontade de protegê-la, tê-la para si.
E ela, coitada, caiu nas graças do moço bonito, mas o casamento não deu certo e
ela fugiu dele, já cansada de repetidas traições.
O público não ia gostar, era isso o que Elisa pensava.
Elisa Silveira, a grande romancista que ganhara o prêmio Jabuti no ano
retrasado, estava com bloqueio criativo.
Mas como podia a moça? A mesma apontou acertadamente grandes colocações
sociais em sua personagem Ana Theodoro e cativou o público com a
carismática e amável Silvéria, sua ama. Há dois anos, só dois aninhos atrás, 730
dias. De lá pra cá, Elisa não conseguiu colocar uma palavra sequer no papel.
Elisa dos Santos Silveira, 34 anos, logo logo os 40 chegariam, se formou no
Ensino Médio no Colégio Pedro II, se graduou em letras na UFMG. Órfã de
mãe, mas o pai era seu maior ídolo. Com um relacionamento recém terminado,
cujo ela ainda entrava na conta dele por um perfil fake e talvez, só talvez, tenha
stalkeado sua atual namorada. Ela era linda, não tinha a barriguinha de cerveja
de Elisa, mas não era um charme? Por que aquele filho da puta do Rafael a
trocou por uma moça de barriga chapada? Aquela foto de biquíni é photoshop,
certeza. E a menina tinha o padrãozinho que ele gostava mesmo, cabelo grande
e lisinho, o pescoço longo, peito grande, bunda não, na bunda era reta, coxas de
academia, até o pé era pequenininho.
Mas Elisa não precisava ficar se remoendo por aquela moça que ela nem
lembrava mais o nome. Sophia.
Foi ao refeitório, pegou um café, sem açúcar, nutri Leonardo, um pedaço de
melancia e uma banana. Segurou a vontade de pegar um pãozinho de queijo,
que aparentemente tinha acabado de sair do forno, só um não ia fazer falta.
Pegou cinco, não conseguira segurar o ímpeto do sabor de queijo Minas
quentinho com polvilho, parmesão… e farinha branca.
Cruzou os braços, apertando a blusa de lã contra o corpo, tentando se manter
distante do frio de fim de ano que o interior mineiro proporciona. Observou as
pessoas ali presentes, estava mais cheio do que o habitual por ser época de férias
escolares.
Deixou os olhos recaírem sobre uma família comum. Mais do que comum. Um
pai, uma mãe, um avô ou tio e dois filhos, um na casa dos 13 anos e outro na
casa dos 16. Mas eles não conversavam, nem uma tentativa de assunto sobre o
jogo do Atlético de logo mais ou o que eles acharam da música ao vivo da janta
de ontem. Aquela família não estava bem, o garotinho de 16 anos tinha o
semblante fechado, será que ele tinha pêgo recuperação na escola? Sim, foi isso,
enquanto o mais novo debochava da cara do mais velho por isso. Mas em qual
matéria? Ele tinha cara de quem era bom com números e não entendia o motivo
de se estudar os mares, o interior da Terra ou mapas. Ficou próximo do total em
matemática e pegou recuperação em geografia. E o senhor grisalho parecia
incomodado, apenas passava o guardanapo no bigode e encarava o horizonte.
Ele não se dava bem com o genro, era por isso que não falavam do jogo do
Atlético. O casamento dos dois era bom, mas tinha seu maior entrave na figura
do pai da moça. Ela tentou unir os dois em uma viagem de fim de ano, mas o
plano não estava dando certo, os dois já discutiram por uma fala do senhor. Sim,
era isso que aconteceu com eles.
E aquele casal quatro mesas depois da família? Esses riam e conversavam, mas
algo parecia estranho, mecânico. O moço ria para não parecer totalmente
indiferente, uma risada de meia boca, pois só queria se concentrar no café. E a
moça parecia nervosa, abaixo da mesa, podia-se ver suas pernas cruzadas e ela
balançava o pé direito de um lado para o outro, em um claro sinal de
nervosismo. Ele estava pensando no emprego, estava prestes a perdê-lo, mas
ainda não queria contar à mulher e tinha que terminar de pagar a fatura da Black
Friday, não era hora de comprar aquela AirFryer, ele sabia daquilo, mas quando
viu a promoção e os olhos da mulher não teve outra resposta a não ser o sim. A
viagem tradicional de fim de ano, será que foi a ideia mais certa? E o salário
dela não era tão alto, por quanto tempo aguentaria manter a casa? Ele tomava o
café muito rápido, não se importando se iria queimar a língua ou não. Queria
esconder o hálito de cigarro. Para a moça, ele não fumava há três anos, para o
moço, ele não fumava há cinco minutos. E a moça, qual seria o motivo de seu
nervosismo? Ela trocou olhares com o homem da mesa de trás. Hum, aí tem
coisa. Eles foram namorados durante um curto período de tempo e não tiveram
um término decente, pois ela foi trabalhar no Rio assim que trancou a faculdade
de Administração na Católica. Ela sentia falta dele, principalmente entre as
pernas.
E o moço de trás? Ele não seria cara de pau o bastante para deixar seu novo
número de telefone para a moça assim que o marido dela fosse ao banheiro ou
na varanda fumar novamente por consequência da ansiedade. Era só esperar
aquele cara se levantar por alguns minutos, talvez se o caldo da melancia caísse
em seu colo. Mas não, ele estava com seu filho ali, eram raras as oportunidades
de passar um tempo com o menino, principalmente depois do divórcio.
Só Elisa que estava sozinha?
Ela perdeu a fome ao pensar naquilo, só comeu mais um pão de queijo.
Levantou-se e se dirigiu até a área da piscina, sentiu a temperatura da água e
ficou com vontade de entrar. Mas não, não podia só entrar assim, tinha que
passar o protetor e colocar o maiô. O topless não é muito bem visto socialmente,
até chamam de crime.
Andando para o quarto, percebeu algo engraçado na recepção: As chaves
estavam em ordem crescente, mas não havia o 105. Pulava direto do 104 para o
106 e o mais engraçado é que havia espaço com o número 105, mas nada de
chave e aquele quarto não tinha nenhum hóspede, ela não ouviu nenhum som de
porta sendo destrancada, muito menos ouviu alguém entrando ou saindo.
Por que não havia quarto 105?
Explicações rasas e prováveis como uma janela quebrada, um chuveiro em
manutenção ou problemas com a encenação não faziam sentido.
Se Elisa fosse uma escritora de suspense, poderia trar uma ótima história do
porquê aquele maldito quarto estava fechado, mas não! A burra, em vez de ter
um pouquinho mais de paciência com os suspenses de Agatha Christie, foi se
inspirar em Cecília Meireles, Machado de Assis.
Decepcionada por não ser uma suspencista, Elisa se trancou no quarto, querendo
apenas ouvir Banda do Mar e esperar a comida digerir, pelo menos ali poderia
fazer topless.
E aquele quarto 105 ficou permeando sua mente, não mais do que a editora
tentando rescindir o contrato mediante multa ou a tal da Sophia, mas ficou. Ela
pôs-se a pensar, tirar uma história daquele quarto não seria muito difícil, né?
Pelo menos um conto deveria sair daquela cabeça.
Sim, um conto.
Elisa abriu o computador, colocou no word e esperou a mágica de uma escritora
vencedora de um Jabuti poderia fazer. Esperou e esperou.
Desistiu no segundo cigarro. Sim, ela voltou a fumar por conta da ansiedade,
que se intensificou depois que o bloqueio se instaurou de vez.
Uma palavra ao menos ela seria capaz de escrever.
“O quarto 105”
Um título! Agora era só desenvolver o desenrolar da história.
Resolveu contar a história da mestrando em biologia Paola e do Professor
universitário Luan. Eles eram um casal? Eram irmãos? Primos? Não, apenas
colegas. Mas ele tinha uma paixão escondida por ela.
Escreveu meia página, uma página, uma página e meia. Apagou tudo. Aqueles
eram personagens de mais de 30 anos, não adolescentes. E qual o sentido de um
moço convidar uma moça comprometida para passar um fim de semana em um
hotel no interior? E ela aceitou ainda por cima,mesmo sabendo que o atual
namorada era meio ciumento.
O bloqueio que a impedia de continuar, os julgamentos com suas próprias
histórias eram muito mais pesados do que os que ela fazia para histórias alheias.
E se aquele quarto fosse um centro de algo? Mas de quê?
O dono do hotel tinha uma certa linha de pensamento, ela não conhecia o moço,
mas sabia que tinha. A família que estava em delito iria aparecer lá às três da
manhã em ponto, assim como casal e o moço da mesa de trás. O casal de pais
apresentaria os filhos aos outros convidados e o dono do hotel iria chegar.
O idoso abriria a porta. O quarto tinha a luz amarelada, iluminado por velas nas
paredes, um círculo estava desenhado no chão, com um pentagrama dentro. À
frente deles, ao fundo do quarto, havia uma estátua de um homem, mas não um
homem qualquer, esse usava apenas uma tanga para cobrir os genitais, era
excessivamente magro, com a cabeça enorme, desproporcional ao corpo, com
uma auréola em volta dos cabelos de pano velho. Seu rosto era cartunesco, com
olhos grandes, dois risquinhos para o nariz e um maior para a boca.
Os pais levaram o menino mais velho até a estátua e o deixaram ali.
“Entrego a ti um novo hospedeiro homem, saudável e jovem, lorde Paimon”
Quando o menino parou de encarar a estátua, virou-se e notou que todos os
outros presentes estavam ajoelhados no chão, com os braços acima da cabeça.
Começaram a repetir em coro:
“Salve, Paimon” “Salve, Paimon”
Elisa deveria escrever um terror ou suspense?
Decidiu que deveria cochilar, pois acordou cedo para a viagem.
Jorginho, o latinazi

Essa era a rotina de Jorginho: Acordar, café, trabalhar, comer, casa, ler, falar e
dormir. Dentre as pausas do dia, destilava ódio na internet, mas tudo dentro de
sua liberdade de expressão.
Graças a Deus não estamos em regimes totalitários e podemos falar o que bem
pensamos. E Jorginho pensa muita coisa, diz que falar “fogo nos racista” é
racismo, e eles eram burros mesmo, não? Mal sabem usar o plural.
Jorginho, com 32 anos, comia o café que mamãe preparava, com as proteínas
pro menino enfrentar os perigos do mundo lá fora bem saudável.
Mas Jorginho não falava só pra ele, havia muita gente que concordava, contava
com o palanque de uma TV que recebe verba estatal. Era um crítico contumaz,
mas só dos malditos vermelhos, aqueles que acham que a pobreza vai acabar
quando acabarem os ricos, porque os ricos, teoricamente, exploram pessoas.
Quanta burrice. Óbvio que, se a pessoa herdou um monopólio do pai, foi porque
ela mereceu, se tira seis meses de férias nas Maldivas foi porque trabalhou para
aquilo, se troca de carro enquanto os funcionários não conseguem nem trocar a
fralda dos filhos, é porque a meritocracia prevaleceu.
Por falar em trabalho, viu um mendigo na rua, ele passava carro por carro
pedindo com veemência para alguém comprar aquelas halls que ele vendia. Af!
Mendigos, raça maldita, poluíam a rua com sua vagabundez contagiante.
Jorginho ajudou um grupo de amigos a localizar um mendigo semana passada.
Atearam fogo no homem.
Não, homem não. Jorginho sim era homem. Branco, heterosesual, cis, rico,
calvo. Não era tão rico, mas tinha o sobrenome mais famoso da cidade de
interior de onde veio. E aquilo era uma sub raça, que agregava aqueles com
cabelo crespo, que têm mais melanina, são mais pobres.
Chegando na TV, Jorginho fez o comprimento comum a todos os apresentadores
e funcionários que ganham mais de um salário mínimo e meio, um breve Sieg
Heil. Apresentava o crachá, onde na foto três por quatro, estava com um capuz
da KKK, aqueles guardiões dos valores ocidentais. Jorginho fez o programa
com seus parceiros de bancada, uma norte-coreana de centro, extremamente
equilibrada, que não sabia ao certo se seu sotaque era coreano, espanhol ou
inglês, mesmo morando no Brasil os 24 anos de sua vida, ainda não havia feito
essa escolha muito difícil. Às vezes fala “pero que los comunas” às vezes era
“porrrque a esquerrrda, Jorginho”, e seu equilíbrio na fala se comprova em
várias situações, como na vez em que trouxe aquela socióloga no programa e,
como não sabia contra argumentar, se dispôs a puxar fatos inverídicos sobre o
passado da moça.
Também tinha o ultraliberal, que era a favor da venda de órgãos, até fez uma
proposta pelo rim de um funcionário, mas não pôde concretizar a compra
porque o maldito Estado nterviu em sua liberdade pessoal.
No programa, debateram sobre o caso de um bastião da liberdade que defendeu
a existência de um partido Nazi. Falou o que Jorginho queria falar, mas tinha
medo de perder o salário altíssimo, pago pelo governo e empresas com CNPJ
fixo.
Jorginho defendeu o bastião da liberdade, claro!
Porém, cometeu um ato falho ao fazer o Seig Heil antes do programa acabar.
E aquilo viralizou, óbvio. Mas Jorginho ainda não sabia do ato falho. Para ele,
os créditos já haviam subido.
Ele foi comer tranquilamente naquele restaurante com catraca no centro.
Almoçou um peixe, sem fazer bagunça, como sua mãe ensinou.
Saiu tranquilamente e entrou no Uber.
Mal ele sabia que o motorista não o levaria para o destino correto e sim para um
beco.
Nesse beco, havia um grupo de cinco pessoas, todas vestidas de vermelho,
pretas, até tinha uma mulher. Jorginho engoliu a seco, devia ter se ligado na cor
da pele do motorista.
O ato durou cerca de uma hora e meia e, ao final, desenharam com um canivete,
uma suástica na testa de Jorginho.

Infelizmente, Jorginho estava vivo,


Mas o relatório do médico foi de alívio para todos, ele ficaria sequelado para o
resto da vida. O resultado do ato foi lindo: cegueira do olho direito, perda de
dezoito dentes, um braço quebrado e outro teve que ser amputado, uma perna
ainda poderia andar, já a outra deve os ossos do joelho dilacerados, quatro
costelas quebradas, um nariz torto para a direita, surdez parcial, além de não ter
mais as orelhas, concussão com lesões no cérebro, dedos das mãos quebrados
um a um, e, claro, a suástica na testa.
A TV demitiu Jorginho após perder os patrocinadores. A coreana foi visitá-lo no
hospital, mas só para avisar que aquele bastião da liberdade assumirá o lugar de
Jorginho no programa. E o ultraliberal fez uma proposta pelo rim de Jorginho.
José

José puxou sua cadeira, se juntando à mesa com os três senhores.


— Pra começá, eu peço que todo mundo aqui dê um cortezin. — O moço puxou
uma garrafa listrada do bolso da calça.
— Eu num acredito no cê de jeito nium. — Vocifera Fagundes, um homem na
casa dos setenta, com uma camisa de botões aberta exibindo o peito peludo, o
cabelo era visível apenas na lateral da cabeça, estava sempre com um cigarro na
boca e não tinha parte da orelha direita.
— Porra, Seu Fagundes. — José abre os braços, espalhafatoso. — Quantas vez
que eu já enganei ocê, véi?
— Quando o assunto é ocê, José, eu prefiro cunfia até no diabo. — Diz o
Baiano, um idoso, que vestia una camisa social azul e ficava com um chapéu de
palha na cabeça, mesmo sendo noite.
— Eu sugeri que a gente bebesse pru jogo ficá animado, uai.
— Bebe intão ocê. — Fabinho diz de forma impaciente. Na casa dos sessenta,
estava sem camisa, exibindo a barriga volumosa que caía no colo, os cabelos
grisalhos já em falta e tinha a blusa vermelha pendurada no ombro.
José levou a garrafinha aos lábios, usando a língua para tapar a abertura e
engolindo a seco, para o seu pomo de Adão se mover.
— Pronto? — Deixou a voz propositalmente mais aguda.
— Me dá essa merda aí. — Fagundes toma a garrafinha da mão de José, dando
um longo gole. — Mas tá doido, sô. Que qui cê pôs aqui, José?
— Cachaça da tia Delinha, mió num tem.
— Fagundes, cê é é froxo. — Fabinho pega a garrafa, também dando um gole e
fazendo uma careta. — Mas agora essa velha se superô, José, issaqui é gasolina
purinha.
— Receita de tia Delinha.
— Mas ocês são é bobo demais, té parece que não conhece a peça.
— Só falta ocê, Baiano.
— Eu num tomo nem morto.
— Vamo jogá. — Fabinho pega o baralho da mesa e o embaralha. Estava de
frente para Fagundes, sua dupla.
Fabinho dá o baralho para Baiano cortar, em seguida distribui três cartas para
cada jogador.
— Vinte pra cada um? — José propõe.
— Começô. — Fabinho.
— Só jogo se for sério.
Fagundes tira vinte reais da carteira e põe na mesa, José faz o mesmo.
— Vou ir de tudo ou nada, tinha só isso aqui pro resto do mês. — Baiano coloca
a surrada nota de vinte no bolo.
Os três olham para Fabinho.
Xingando, ele coloca o dinheiro na mesa.
— Truco! — José grita.
— Cê nem viu suas carta, ô fiadaputa. — Fagundes se desespera.
— Eu confio no meu parcero. Cês vai correr ou ir?
— Vamo intão nessa porra. Bate carta aí. — Fabinho diz.
José joga um três na mesa, ganhando a primeira rodada. Em seguida, joga uma
carta virada para baixo, deixando a dupla rival levar a segunda rodada. Na
última, joga o zap.
— Tô falano que meu parceiro é bão demais. — José puxa três feijões, sem
ninguém perceber, pois estavam distraídos juntando as cartas e xingando José.
— Cê vai votar ni quem, Fabinho? — Puxa assunto e tirar a atenção dos outros
jogadores da carta.
— Eu só voto no Lula.
— Purquê cê é bobo. — Fagundes responde. — Votar em ladrão.
— Nunca provaro nada contra o homi, no dia que me apresentá um documento
sério, falando que ele roubou, eu acredito, mas até lá, eu só voto treze.
— Mas ele tava preso.
— Por causa dessa porra de Sérgio Moro, juizin do cu de Curitiba, serve nem
pra fazer vagabundo pagar pensão e quer inventar de prender alguém.
— Se foi preso é ladrão.
— Onde que tá a prova? Mas e ocê, Fagundes, vai votá no Bolsonaro de novo?
— Isso.
— Me ajuda aí, sô. Votá ni militar vagabundo, ficou trinta ano como deputado e
num fez porra niuma. Ó o preço das coisa, tá tudo caro por culpa dele, num
comprô as vacina quando era pra comprá. Fizeram até esquema de propina com
vacina, com vacina! Enquanto tinha esse tanto de gente morreno.
— Mas só tem ele, Fabinho, pelo menos num é ladrão.
Durante a discussão, José devolve a carta que estava em seu bolso para o
baralho e guarda novamente o zap.
— O Lula é trabalhador. O único trabalhador que chegou na presidência, o resto
era tudo rico ou militar.
— Vamo continuar essa merda aqui. — Baiano bate carta.
José saiu com uma mão fraca, mas pôs o espadilha na dobra dos joelhos, só
tinha que aproveitar um momento de distração para pegá-lo. O momento veio
quando Baiano ficou engasgado com a cerveja após José fazer uma piada com o
corpo de um homem acima do peso que passou pela rua, mas em vez dos outros
sentados à mesa irem ajudar, caíram em gargalhadas. Ele pegou a carta e ficou
com a mesma na mão.
Após Baiano ficar calmo, o jogo seguiu. A primeira rodada foi da dupla de
Fabinho, Baiano fez a segunda.
— É truco aí então! — Berra José.
— Taca, sô! — Fabinho estava com a voz alterada.
José bate a mão na mesa.
— Mata, agora eu quero vê matá.
— Ah, toma no oio do cu também. Esse cara tá roubando, uai. Né pussivel não.
— Fagundes joga a sua carta, Fabinho tinha um três, mas nada que permitisse
vencer a partida.
— Mais essa e cabô, eu levanto cedo amanhã. — José avisa enquanto recebe as
cartas.
— Rumô trabaio? — Fabinho pergunta.
— Vão ver, né. Eu vou fazer uma entrevista lá em São João.
— Sai daqui quantas horas?
— Umas seis. O Fagundes, mas uma coisa séria agora. E o Galo?
— O Galo ganhô…
— Ah, repete.
— O Galo ganhô. Aí vamo contá comigo. Cês tem que ganhá mais dois
brasilero, quatro copa do Brasil ainda, mais uma libertadores.
— Vai demorá não, o que vai demorá mesmo é ocês voltá pra serie A. —
Fabinho completa.
— Ano que vem o Cruzeiro sobe. Cum Ronaldo sobe.
— Cês tão achano que o Ronaldo Fenômeno vai entrá em campo, né. Ó o time
dele na Espanha, sô, só briga pra num caí.
— Mas o time da Espanha num tem metade do tamanho do Cruzeiro. Esse ano
volta pra série A.
— Vamo apostá? — José zomba. — Num sobe por mais uns três ano.
— Tamo apostano demais já, cê num acha não?
Após ver suas cartas, José decide jogar.
— Tem nada aqui. — Fagundes joga um cinco. — Os cara ganhô já.
Na última rodada, José concretiza a vitória com um três e pega o dinheiro,
dando cem reais para Baiano, vendo os efeitos da bebida no rosto de Fabinho e
Fagundes.
— Tô indo embora, tchau pro cês.

*** ***

Chegando na casa velha, pequena, de tinta rachada nas paredes, porta de metal
enferrujada, no meio de um pequeno matagal, José vê Gabriel sentado no
degrau que dá acesso à entrada, um menino de treze anos, magro, pele parda,
com os cabelos lisos caindo sobre os olhos, estava sem camisa e com uma cueca
samba canção, por causa do calor.
— Como que tá a mãe?
— Ainda dormino.
— Melhorou alguma coisa?
— Não, a mesma coisa de ontem.
José passa pelo menino e faz um pequeno cafuné em sua cabeça, dá três passos,
chegando na terceira porta e entrando no quarto da mãe, vendo a cama da idosa
vazia, imaginando como ela estaria no hospital.
Voltando para o seu quarto, tira os sapatos e a camisa, Gabriel se junta a ele.
— Conseguiu quanto hoje?
— Uns cento e vinte.
— Tá bom, uai.
— Do jeito que as coisa tão, Gabriel. — Ele suspira. — Pelo menos dá pra
garantir o almoço da semana.
— Pode comprar carne amanhã?
— Posso sim.
Gabriel sorri.
— E cê vai pra São Paulo mesmo?
— Se tiver que ir eu vou.
— Aí a gente vai no jogo do Galo?
— Um dia nós vai, Gabriel. Mas o dinheiro que eu tô indo buscar é pra comprar
os trem aqui pra casa e os remédio que a mãe vai precisar.
— Eu sei, eu sei. E o Hulk vai tá jogando quando a gente fô?
José se deita.
— Vai. Se num tivé, nós tira ele da casa dele e bota ele no campo.
— Se cê for, eu vou ficar com a tia Delinha?
— Isso.
— Ela é chata.
— Chatéocê, minino. Agora vai comer um pão pra dormi, tá tarde já.

*** ***

José estava sentado na sala de espera, vendo os mosquitos aleluia ficarem


embriagados com as lâmpadas, ao seu lado, seis homens parecidos com ele. A
sala era pequena e não ventilada, com uma janela ao fundo e um porteiro com a
camisa aberta no peito e fumando um cigarro.
— José Abreu. — Uma moça abre a porta à esquerda.
José fica de pé e anda até ela, a seguindo por um corredor estreito e parando em
uma porta ao seu lado direito. Dentro da sala, havia outra moça sentada atrás de
uma mesa com um computador, José se senta à sua frente.
— José Abreu de Jesus.
— Isso mesmo.
— Tô olhando aqui, você já trabalhou de um tanto de coisa. — A moça estava
lendo a tela do computador.
— É. Servente de pedreiro, porteiro, segurança, vendedor...
— Mas tem passagem.
— Tenho sim, mas até saí antes por bom comportamento.
A moça lhe olha e confirma com na cabeça.
— Vinte e sete anos, um e oitenta e quatro, bom porte físico. Se identifica
como?
— Como?
— Preto, pardo, indigena.
— Ah, sempre fui pretinho.
— Tem disponibilidade para morar na casa do empregador?
— Tenho sim.
— Tem como ir até Bananal?
— Sim, senhora.
— Já trabalhou como caseiro?
— Não, mas pode mandar, eu mato no peito e saio jogano. Tô aceitando
qualquer coisa. Mas o salário seria de quanto?
— Aí vai de acordo com o empregador, mas tem um mínimo de mil e cem.
— Bom demais.
— Você pode falar com o empregador na quarta?
— Quantas horas?
— Às oito.
— Posso sim.
— Então é isso, José. Muito obrigada.
— Eu tô contratado?
— Você vai ter que conversar com o empregador primeiro.
— Mas e seu eu chegar lá e ele não quiser?
— Aí você volta.
— Certinho, moça. Muito obrigado.

*** ***

José andava pela pela estrada, com seus pés queimando por conta do sol da
manhã. Estava andando há três horas, com uma mochila pesada nas costas,
contendo seus pertences, e as roupas coladas no corpo pelo suor. Tinha apenas
dois nomes na cabeça, que repetia diversas vezes para não esquecer: Maria da
Graça e Gilberto.
Viu a entrada no condomínio ao seu lado e logo agradeceu, sua boca era areia
pura e os joelhos pediam clemência.

*** ***

Ele chega na casa dos, prováveis, futuros patrões, após enfrentar uma pequena
burocracia com o porteiro para conseguir entrar.
O portão era cinza fosco, deixando a casa ao fundo perceptível, devia ter uns
três andares, José estranhou uma casa daquele tamanho, era incomum até
mesmo as outras do condomínio.
Tocou o interfone e logo o portão foi aberto, ele se deparou com um jardim bem
cuidado, montes de grama faziam corredores que indicavam a passagem, com
pisos de pedra ali dentro. Entrou no corredor de arbustos e foi em direção à
porta, encontrando uma empregada, uma mulher meia idade, baixa, robusta,
pele parda e com os cabelos presos por uma rede.
— Oi, como cê tá?
— Tô bem, grazadeus. Como a senhora chama?
— Gláucia. Aceita uma água?
— Vou querer sim.
Ele entra na casa e fica de pé na porta, vendo o piso de madeira refinada, de um
marrom bem escuro, uma mesa com garrafas de whisky e outras bebidas que
José não sabia o nome, havia um aro a direita e outro a esquerda. O da esquerda
dava para uma sala. O da direita dava para a cozinha, onde José podia perceber
uma bancada de pedra, com o fogão chique atrás. A sua frente, havia uma
escada.
Gláucia volta com um copo e uma garrafa d'água, José bebe num só gole, vendo
uma mulher caminhar pelo corredor no segundo andar, devia estar na casa dos
sessenta anos, cabelos loiros claramente pintados, usava um roupão de banho,
descia descalça a escadaria até chegar perto de José.
— Você que é o novo caseiro?
— Tomara Deus que sim, senhora. Vim falá com seu Gilberto.
— Ele tá nas fazendas, volta só dez horas.
— Eu espero.
— Enquanto isso, cê já vai me ajudando. Gláucia, mostra pra ele onde tá as
coisa da piscina. Aquele jardineiro, nossa! Eu falo pra ele colocar uma lona
enquanto corta a… — Ela sai andando.

*** ***

José estava na borda da piscina, tendo que limpar o suor do rosto a cada dois
minutos, tirava as folhas da água e as deixava em um canto, para recolhê-las
depois.
— Ô Dona Maria, cês tão procurando um caseiro tem muito tempo? — Ele
tentou puxar assunto.
— Desde que o último morreu, acho que faz umas três semanas. — Maria
estava deitada em uma cadeira de praia feira de madeira, lendo um livro
pequeno de capa verde. Vestia apenas um biquíni azul, exibindo o corpo
definido.
— Desculpa a pergunta, mas o último caseiro morreu de quê?
— Esse lugar onde a gente mora é estranho. Era pra ser seguro, porque é
condomínio, mas toda hora tem um bandidinho entrando.
José se calou e continuou a limpar a piscina, pegando o cloro.
— Você é de onde?
— Uma cidadezinha que chama Conceição Das Minas.
— Nunca ouvi falar.
— Fica ali, perto de São João Del Rei. Uns quarenta minuto de carro.
— Continuo sem saber.
— E as fazenda do Seu Gilberto, são longe daqui?
— Um pouco.
— Esse povo que tem fazenda é meio engraçado, um montão de terra desse, fico
perguntando como que conseguiro isso tudo.
— É da família do Gilberto.
— Tem gente que nasce sortudo, né. — José passou os olhos pela mulher e os
olhares se cruzaram, logo percebeu o que havia saído de sua boca. — Mas tô
querendo dizer nada não. Até porque, né, cês só ia ter uma casa desse tamanho
todo com muito trabalho.
— Gilberto trabalha muito. Aí ó, só falar no diabo. Chegou até mais cedo. —
Ela aponta com os olhos para a porta de vidro.
Um homem sai do corredor e chega na área da piscina, vestia calça jeans,
camisa social verde clara, que não escondia a robustez do corpo, estava na casa
dos setenta, com os cabelos grisalhos em falta.
— Bom dia, rapaz. Cê que é o José?
— Isso mesmo, senhor.
— Bom ver que já começou, estava mesmo querendo um caseiro que fosse
ativo, diferente daquele preguiçoso. Mas venha cá, precisamos resolver as
burocracias.
José acompanhou Gilberto até a sala de TV, onde havia uma folha de papel em
uma mesinha.
— Tem alguma doença?
— Tenho não, senhor.
— Toma remédio controlado?
— Também não.
— Tem alergia?
— Tenho não.
Gilberto entrega uma caneta azul para José, que a apoia no papel, desenhando as
letras de seu nome, tentando fazer o tamanho da letra caber entre a linha e as
palavras digitadas acima.
Ele termina e deixa o papel na mesa.
— Seu sobrenome.
José dá um sorriso amarelo e começa a desenhar as letras, com as mãos suadas e
trêmulas, sentindo os olhares do casal sobre ele. Termina de desenhar o s de
Jesus e devolve o papel e a caneta a Gilberto, que analisa a assinatura, tentando
esconder o riso.
— Vou te mostrar a casa. — O homem diz, dobrando o contrato e o guardando
no bolso da camisa. — Essa é a sala.
José passeia os olhos no cômodo, vendo a TV plana e grande atrás de um painel
de madeira, com nichos que continham fotos da família, o carpete era vermelho
escuro, com uma mesa de centro e o sofá branco de parede a parede logo atrás.
Gilberto atravessou um corredor com alguns quadros nas paredes, todos eles
continham formas geométricas coloridas colocadas de forma estranha, José
achou todos horrorosos.
— Aqui tem um banheiro. —Ele mostra uma porta fechada.
Ao final do corredor, havia o primeiro ambiente que José conheceu, estava de
frente para a cozinha, eles subiram as escadas, à esquerda havia uma porta.
— Lá é o meu escritório.
À direita, havia outras quatro portas, duas em cada parede.
— Ali é os quarto e tem outro banheiro. Agora vou te mostrar onde que cê vai
dormir.
Desceram os degraus, indo em direção da sala de TV, abrindo a porta de vidro e
saindo na área da piscina. Havia uma churrasqueira à esquerda da piscina, com
uma cobertura por cima, onde também via-se uma mesa de sinuca, ping pong e
outra TV acima da pia. Abaixo da área da piscina, descendo pequeno lance de
dez degraus, percebia-se um cômodo, com uma janela acima da porta e um
gramado seco no chão ao redor.
Aproveita e descansa, vou precisar que você fique de vigia pra mim
— Sim, senhor.
– Já usou uma arma…
— Já, senhor.
— Porque essas bandas andam meio perigosas.
— A Dona Maria tava me contano disso.
— A vigia começa nove horas, tem um revólver no gaveteiro ai dentro, mas se
você quiser a espingarda, é só me pedir.
— Tá bom, senhor.
José entra no quarto, era mais espaçoso do que o de sua casa, tinha uma cama
colada à parede ao fundo, um gaveteiro ao lado e um pequeno guarda roupa no
canto.

*** ***

Às oito e cinquenta, José sai com o revólver na cintura, pega uma cadeira de
plástico da área da piscina e se senta no portão, ficando de olho nos arredores,
tira do bolso seu celular antigo, tenta conectar a internet, consegue com certa
dificuldade, pega os fones e começa a ouvir as conhecidas vozes dos radialistas
mineiros, deixou o som baixo e ficou atento.
Sentiu um tapa na nuca, virou-se em um pulo, com a mão no cabo do revólver.
— Tira essa porra desse fone! — Era Gilberto.
— Só tava ouvino o Caixa, senhor.
— Que caixa? Não quero saber, só tira isso aí.
— Certo, senhor. — Ele retirou os fones e os guardou no bolso. — A Dona
Maria falou que mataram o último vigia.
— Pois é, esse bando de vagabundo que acha que pode ficar invadindo terra dos
outros.
— Mas como eles sabem onde o senhor mora?
— Esse é o único condomínio dessa região e o prefeito mora aqui também,
devem ter vindo atrás dele e confundiram a casa. — Gilberto vira de costas e
começa a caminhar de volta para a casa. — Se eu ver você com esse fone de
novo, eu arranco a sua orelha.

*** ***

A primeira quinzena se passou. José conhecia a casa, acostumando-se a ser o faz


tudo da família do fazendeiro, feliz por estar perto da data do pagamento e
finalmente poder transferir o dinheiro para o irmão. Tentava manter contato com
o garoto, mas na maioria das vezes que ligava, ele já estava dormindo.
Batidas na porta atrapalham o momento reflexivo de José.
— Oi, Seu Gilberto. — Ele atende.
— Tava dormindo?
— Tava não.
— É que eu tenho que te contar algumas coisas sobre essa casa, o que acontece
aqui.
— Pode falar.
— Na sexta que vem vai ter uma confraternização entre eu e uns amigos aqui da
região. Queria que você ficasse de segurança.
— Fico sim.
— Tem um terno?
— Tenho não.
— Eu arranjo um pra você, mas tem outro assunto — Ele ajeita a postura. — Eu
quero que você come minha esposa.
José quase cai pra trás com a proposta.
— Como assim, seu Gilberto? Posso fazer isso com o senhor não.
— Eu que tô pedindo. Cê só tem que deixar eu ver.
José, de mãos atadas, acompanha Gilberto até a casa, indo para o quarto. Maria
estava de camisola na cama, exibindo as pernas, Gilberto se senta na poltrona no
canto, abaixando a calça do pijama. Maria chama José com o dedo.
Ele vai até ela timidamente, Maria pega na abertura da camisola e a sobe
lentamente, ficando nua.

*** ***

José olhava todos aqueles carros luxuosos, a maioria pretos como a noite, se
perguntou quanto que custaria cada um e ficou fazendo esse jogo mental e
solitário. Tinha que manter a pose de sério, com a coluna ereta, os joelhos
doendo de tão esticados e a cabeça em pé.
Após algumas horas de festa, um garçom levou salgados e refrigerante para
José, que começava a se entregar ao frio.
— Acredita que não iam mandar nada pra ti? — Disse o garçom, um moleque
alto, magro, de dezesseis ou dezessete anos, com a pele preta e os cabelos em
tranças, caindo-lhe os ombros.
— Por que não?
— Porque é rico, raça de filho da puta.
— Onde cê pegou esses salgados então?
— Da cozinha, vi que tu tava aí há um tempão e não te trouxeram nada.
— Mas não vai dar problema?
— Tu tem que ver o tanto de coisa que tem lá. Nunca vi tanta comida diferente.
Chamo Sávio e tu?
— José.
— Tu veio de onde?
— Sou de Minas.
— Eu sou da Bahia. Meu pai trabalha aqui, é o jardineiro
— Ah, cê é filho do Welito?
— Isso mesmo. Viemos pra esse cu de mundo quando ele conseguiu esse
emprego.
— E tem quanto tempo isso?
— Uns três anos.
— E cê gosta de São Paulo?
— Gosto nada. Ficam perguntando pra qual time de São Paulo eu torço, eu sou
Bahia porra, lá e aqui. E aqui tem o maior número de rico do Brasil, não tem
como gostar.
— E por que essa raiva toda?
— É por causa deles que nós é pobre. Esses desgraçado já nasce rico e continua.
Eu gosto demais do Marighella por isso, rico tem que acabar. Assim como quem
fica do lado deles, os militar, os governante. Mas aí, o prefeito desse cu de
mundo tá na festa, junto com os fazendero, o delegado.
— Marighella?
— Tu nunca viu o filme não?
— Tem tanto tempo que eu não vejo filme.
— O único ruim dele é que ele torcia pro Vitória, tirando isso, o caba era
embaçado. Pegou em armas na época da ditadura, era preto por fora e vermelho
por dentro. Tem uma cópia do filme no barraco, quer assistir? Peço pro papai
trazer.
— Uai, se não for dar trabalho.
— Mas mineiro é educadinho demais.
— Não, bobo, é que eu num quero dar mais trabalho pro seu pai.
— Vai dar não, tu vai gostar demais dele inclusive, o negão é bom de papo.
— Tô ligado, Zé. Já falei com ele. Vi quem cê puxou.
— Ir atrás de quem lutou é legal. Eu queria ser assim um dia, montar os
Capitães da Areia da vida real, imagina. — Sávio ficava empolgado ao falar. —
Vou ser o Pedro Bala negão.
— Eu num sei de quem cê tá falano, minino.
— Te empresto o livro também. Tu sabe ler? — Perguntou ao ver a expressão
que José fez.
— Sei, mas bem pouquinho.
— É bom que te ajuda. Jorge Amado, o cara que escreveu o livro, ajudava
Marighella. Mas, José, tenho que voltar pra festa e aguentar aquele povo me
mandando cortar o cabelo. Prazer te conhecer.
— Vai lá, Sávio, o prazer foi meu. E mineiro com baiano combina direitinho,
diferente de paulista.
Sávio sorriu e voltou trotando para a casa.
Livros, José sempre os achou interessante, mesmo sem nunca ter pegado
nenhum pra ler, sua única experiência com a literatura era com os almanaques
da Turma da Mônica.
Comunista, o que é um comunista? José ouviu falar deles no período em que
estava preso, pois um parceiro de cela se reivindicava como tal, mas nunca
conversou com o homem, estava preocupado em contrabandear cigarros e não
mexer com o líder da quadrilha. Também ouviu falar do termo na TV em um
jornal que assistia com a mãe, lembrava que o apresentador falou uma notícia
sobre a China.
As palavras de Sávio ficaram permeando sua mente. "Por causa deles que nós é
pobre". Realmente, não queria ter que trabalhar tanto por mil e poucos reais,
imaginava o quanto Gilberto lucrava com as fazendas. Ouviu o patrão falar de
invasores nas terras, não foi contra, se não tivesse responsabilidade, iria ser um
deles, se morrer morreu, não queria viver num mundo onde uns nascem com
tudo e outros com a lábia.
Percebeu-se muito distraído, era o único segurança na parte da frente, se bem
que o condomínio havia reforçado a segurança para a noite, mas mesmo assim.
Apertou o cano da arma e olhou para cima, mastigando um salgado do pratinho.

*** ***

José chegou na página setenta, começou a ler o livro para sanar o tédio da noite,
e gostou da história, queria saber qual seria o destino dos meninos abandonados
liderados por Pedro Bala, seguia lendo com dificuldades, muitas vezes repetindo
as palavras em voz alta.
Porém, uma discussão de casal o atrapalhava na leitura. Se perguntava o motivo
do casal não discutir no segundo andar ou na cozinha, os dois tinham que estar
na sala, próximos a área da piscina, onde os gritos e xingamentos desciam as
escadas e adentravam os ouvidos de José.
As vozes pararam, apreciam ter chegado a um acordo ou desistido da briga. José
agradeceu e se concentrou naquele diálogo, mas logo ouviu a porta do quartinho
ser quase esmurrada.
Abriu e viu Maria, que já chegou entrando.
— Tava dormindo?
— Não, senhora.
— Hoje vamos fazer aqui mesmo, não quero aquele desgraçado enchendo o
saco.
— O que aconteceu?
— Ah, José. — Ela pega um cigarro do bolso do roupão e o acende. — Tá
achando ruim que eu fui cobrar o prefeito. A gente emprestou dinheiro para
aqueles folgados há mais de um ano, aí eu falei que ia ter juros, porque foi uma
quantia grande.
— O prefeito precisava de dinheiro?
— Eles estavam quebrados, aquele imbecil investiu em furada, caiu em golpe.
— Quanto dinheiro ele perdeu?
— Quase setecentos mil. Mas a família dele é quatrocentona, tem fundos e tudo
mais, só que eles são tão burros que iam quebrar se não fosse o empréstimo.
— E quanto que vocês emprestaram.
— Seiscentos mil.
José ficou pensando nas cifras.
— E agora?
— Agora eles podem mandar gente atrás de nós. Gilberto está surtado com isso,
mas é muito difícil que aconteça, somos amigos de longa data.
— Mas tem chance?
— Chance tem, mas tem chance até de um meteoro cair na Terra. E isso tem
tempo, eu só cobrei eles na festa. — Ela sobe no colo dele. — Eu só tô aqui pra
transar mesmo, José.
— Tá bom, senhora.
Ficou pensando no que faria com seiscentos mil no bolso e o medo abateu sobre
seu corpo. Iria ser o primeiro se o filho da puta do prefeito mandasse alguém,
sabia que Gilberto e Maria iam usar ele de escudo.
Lembrou-se de Sávio.
"Raça de filho da puta."
*** ***

Maria estava por cima, com as unhas no peito de José, o suor descendo na testa,
os cabelos grudados no pescoço e nas costas, gemia baixo, mordendo os lábios.
José admirou a disposição física da mulher, estavam naquela posição há certo
tempo e ela não perdia o fôlego.
A função dele era ficar deitado e segurar a cintura de Maria, pois sua cabeça
estava em outro lugar. A madeira da cama se chocava contra a madeira do
guarda roupa, os pés da cama deixavam marcas na cerâmica do chão, era
questão de tempo até o estrato ceder.
E a mulher estava empolgada, pegou a mão de José e a colocou nos seios. Ele
não as manteve ali, juntou a ponta dos dedos médio e polegar e ficou dando
petelecos no mamilo dela.
Maria, não satisfeita, segurou a mão dele outra vez, a colocando no pescoço.
Agora ele ficou animado. Queria enforcá-la, ver aquela porra de pele branca
ficando vermelha, depois roxa, os olhos vermelhos por conta dos vasos terem se
rompido, ela arranhando seus braços, numa tentativa desesperada de se soltar,
usando o que lhe restava de oxigênio para fazer uma investida desesperada para
se manter viva, tentando usar as unhas nos olhos de José. Mas o tamanho
corporal e a força física eram muito desproporcionais, ele iria segurá-la com
mais afinco, podia fazer aquilo por horas, até vê-la perder a força nos braços, o
corpo ficar molenga, o peito parar de subir e descer, os lábios roxos, então só ia
jogar o corpo no chão e dormir.
Maria geme alto, saindo de cima de José e se deitando ao lado dele.
— Me parece que cê não tá muito animado, quer que eu faça alguma coisa? —
Ela falava ofegantemente. — É só pedir.
— Quero te bater.
— Eu gosto.
— Te espancar.
— Eu deixo.
— Aí perde a graça.
Ele se virou e subiu o cobertor até a cintura.

*** ***
— Ô Seu Gilberto. — José voltava da vigia, precisava dela redobrada, enquanto
o homem ia para a fazenda. — Desculpa a pergunta, mas como que tá o rolo
com o prefeito? A Dona Maria tava me contano.
— Eu dei um jeito de esfriar as coisas, falei que não tinha nada de juros e que
ele paga quando puder.
— Ah, entendi. É que eu tava meio preocupado, sabe?
— Pode ficar tranquilo, José. Nossos pais eram amigos, avós também, não tem
motivo pra quebrar isso.

*** ***

Era madrugada, mas José não conseguia dormir, o medo tomou o lugar do sono
nos últimos dois dias. Não confiava em Gilberto.
Fechava os olhos, esperava o sono vir, logo sentia o coração bater mais forte, a
respiração ficar ofegante, uma agonia indescritível no peito. Se questionou por
ter aceitado o emprego naquele lugar, com aquela família, com aqueles
problemas.
Passaram-se quarenta minutos desde que tentou pegar no sono. Ficou de pé,
acendeu o abajur branco e pegou o livro, havia passado da metade. Ele se via,
quando jovem, como um integrante dos Capitães da Areia. Sobrevivia de
pequenos furtos, cujo dinheiro era destinado às melhorias domésticas, seu único
arrependimento era de mentir para a mãe, dizendo que estava capinando um
lote.
Um barulho alto rompe o silêncio do quarto, vinha de longe, mas era o
inconfundível som de tiro. A porta foi esmurrada, José abriu e Gilberto entrou
desesperado.
— Aquela vagabunda, burra do caralho, vagabunda… — Repetia os
xingamentos carregando a espingarda, que entrega a José.
Gilberto manda ele pegar o revólver no gaveteiro e os dois fazem a troca.
— Vamos pro segundo andar, já devem ter matado o vigia. Cê vai primeiro.
José tomou a frente, carregando a espingarda na frente do rosto, andando
lentamente, com as mãos trêmulas e suadas.
A lua dominava o céu, os dois andavam com lentidão e cuidado. Abre a porta de
vidro e um vento frio sopra em sua nuca suada.
José vê uma movimentação na porta dianteira e para de andar, ficando ajoelhado
atrás da parede, até a silhueta sair de seu campo de visão. Andou mais um
pouco, vendo que o homem estranho havia entrado no banheiro, ele tira a chave
da porta e a fecha lentamente, trancando-a. Porém, Gilberto não compartilhava
da mesma calma, quase atropela José e vai para as escadas. Sem cuidado algum,
os dois sobem as escadas correndo, escutando dois tiros vindo em sua direção.
No segundo andar, eles dão de cara com um homem vestido de preto e armado
com uma pistola, mirando na direção dos dois, José tenta conversar, mas é
surpreendido por uma pressão nas costas, Gilberto havia o empurrado na
direção do homem e saído correndo. José cai por cima do homem e consegue
chutar a arma do inimigo para longe. Os dois entram em um confronto corporal,
José acerta uma joelhada entre as pernas do homem e consegue jogá-lo de cima
da proteção de madeira, vendo o corpo cair.
Vai em disparada para o quarto de Gilberto e tranca a porta.
Gilberto vai em direção à parede e a abre, chamando José. Os dois entram no
quarto escondido, onde Carmem estava encolhida no canto.
José olha em volta, havia algumas malas com dinheiro, aquele que Gilberto não
conseguiu lavar, ficou espantado com a quantidade de notas azuis que tinha
naquele cômodo.
Som de chutes na porta, depois de madeira caindo. José olha para aquelas
pessoas que estão com ele no quarto secreto e compartilham do mesmo medo.
Se ficasse ali só ia ter mais chances de morrer, era questão de tempo até os
capangas acharem o cômodo, já que estavam vasculhando o quarto inteiro.
José olha para Gilberto, deixa o ódio transparecer no olhar, aponta a arma na
direção do homem e dispara, explodindo sua barriga.
Maria urra de susto, com sangue por todo o seu corpo e um pedaço do intestino
do recém cadáver no seu cabelo. Mas o susto passou rápido, ela logo é atingida
por uma bala, tendo seu peito dilacerado.
José abre uma fresta da porta
— Ei! É eles que cês qué. Já fiz o sirviço. — Um dos homens abre a porta e
puxa José para fora, ele é colocado de joelhos e fica olhando para baixo, com o
cano da arma em sua nuca. — Eu sou só o caseiro.
— Cê que matou eles? — Um homem pergunta.
— Isso mesmo, tô do lado de ninguém não, só quero sai vivo.
— Temo que matar ele também. — Outra voz diz.
— Não, espera. Cê viu o rosto de alguém?
— Vi não, sinhô. Cês deixa eu ir e eu sumo.
— É muito arriscado. — Diz o mais impaciente.
— Deixa o cara, matou os patrões pra sair vivo, eu faria o mesmo.
— Eu num gostava deles não, aquele seu Gilberto me fazia comê aquela velha,
ela era gostosa, mas puta que pariu tinha dia que eu só quiria deitá pra lê meu
livrin e lá vinha ela, toda safada pro meu lado. E eles não me pagava bem,
atrasava o pagamento, dava essas festança e eu não podia pegar um salgadinho,
gastava que nem sei o que e...
— Nós já entendeu.
— Não, deixa eu contá. Ou, cê cridita que uma vez, ele…
— Cala a porra da boca. — O impaciente diz. — E nós mata ele mesmo?
— Não, já basta o coitado do vigia. Pega os corpo, pessoal.
José ficou com a cabeça baixa e os olhos fechados enquanto os homens
recolhiam os corpos.
Após a movimentação acabar e os sons de passos ficarem muito distantes, ele
pega a mochila, que havia escondido no móvel no canto do cômodo, e sai
correndo.

*** ***

José falava de um dos raros orelhões que restavam na cidade.


— Alô? — Era a voz de sono de Thiago.
— Sou eu, Thiago.
— A essa hora, José. Aconteceu alguma coisa?
— Não… na verdade, conteceu sim. Agora nós tem dinheiro pra levar a mamãe
pra tratar em BH.
— Sério? — A empolgação exalava na voz.
— Pois é. E tem outra coisa, o Galo joga contra quem no domingo?
— Domingo é Galo e América.
— Sabe de onde cê vai ver o jogo?
— Uai, no barzin do…
— Não, domingo nós vai no Mineirão.

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