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Matricialidade Sociofamiliar

O artigo analisa a matricialidade sociofamiliar da Assistência Social, questionando se a centralidade dessa abordagem realmente se dá na família ou na mulher. A reflexão sugere que a Política Nacional de Assistência Social (PNAS) de 2004 tem adotado uma perspectiva familista, priorizando intervenções voltadas à mulher-mãe em detrimento dos demais membros familiares. O estudo busca provocar uma reflexão crítica entre profissionais sobre a prática no Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
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Matricialidade Sociofamiliar

O artigo analisa a matricialidade sociofamiliar da Assistência Social, questionando se a centralidade dessa abordagem realmente se dá na família ou na mulher. A reflexão sugere que a Política Nacional de Assistência Social (PNAS) de 2004 tem adotado uma perspectiva familista, priorizando intervenções voltadas à mulher-mãe em detrimento dos demais membros familiares. O estudo busca provocar uma reflexão crítica entre profissionais sobre a prática no Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
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MATRICIALIDADE SOCIOFAMILIAR: centralidade na família ou na mulher?

MATRICIALIDADE SOCIOFAMILIAR: centralidade na família


ou na mulher?

Thiago Prisco1*

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo analisar a matricialidade


sociofamiliar da Assistência Social, para isso realiza uma breve
contextualização acerca do debate contemporâneo sobre famílias
para, em um segundo momento, problematizar a questão da
centralidade dessa matricialidade. Sendo assim, busca refletir se
a almejada centralidade da Assistência Social é de fato sobre a
família. A reflexão que se apresenta indica que a Política Nacional de
Assistência Social – PNAS de 2004 e os seus agentes tem adotado
uma abordagem familista no trato com as famílias e tem privilegiado,
principalmente, em suas intervenções à mulher-mãe em detrimento
dos demais membros do grupo familiar. 155

Palavras-chave: Assistência Social. Famílias. Matricialidade


sociofamiliar. Gênero.

MATRICIALIDAD SOCIAL FAMILIAR: centralización en la


familia o en la mujer?

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo analizar la matricialidad social


y familiar de la Asistencia Social, para ello realiza una breve
reseña sobre el debate contemporáneo sobre las familias para,

* Graduado em Serviço Social pelo Centro Universitário UMA. Pós-graduando em


Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade Federal de Viçosa
– UFV. Analista de políticas públicas da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e
conselheiro do Conselho Regional de Serviço Social - CRESS/MG.

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Thiago Prisco

en una segunda etapa, discutir el tema de la centralidad de este


matricialidad. Por lo tanto, trata de reflexionar si la centralidad
deseada de la Asistencia Social es de hecho sobre la familia. La
reflexión que aparece indica que la Política Nacional de Asistencia
Social - PNAS 2004 y sus agentes ha adoptado un enfoque familista
en el trato con las familias y se ha centrado principalmente en sus
intervenciones a la madre en detrimento de los otros miembros de
grupo familiar.

Palabras clave: Asistencia Social. Familias. Matricialidad social


familiar. Género.

FAMILY SOCIAL MATRIX: centrality in the family or


woman?

ABSTRACT

This article aims to analyze the social and family social matrix of
156
Social Assistance, for it performs a brief background about the
contemporary debate on families to, in a second stage, discuss the
issue of the centrality of this family social matrix. The text makes
a brief picture that contemporary debate on families and the state
forward posture to this question, in order to support the discussion on
the aforementioned centrality. The reflection that appears indicates
that the Política Nacional de Assistência Social – PNAS of 2004 and
its agents have taken a familista approach in dealing with families
and has focused mainly on their approaches to woman-mother to the
detriment of other members of the group family.

Keywords: Social Assistance. Families. Family social matrix.


Gender.

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MATRICIALIDADE SOCIOFAMILIAR: centralidade na família ou na mulher?

1 INTRODUÇÃO

O estudo sobre famílias não é algo novo e nem ausente de


complexidade, principalmente por haver uma infinidade de meios
e de abordagens metodológicas possíveis. Todavia, realizar tal
discussão se torna cada vez mais urgente para os profissionais que
atuam no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), ainda mais
levando em consideração a diretriz da matricialidade sociofamiliar e
seus desdobramentos na Assistência Social.

Este artigo realiza uma contextualização do tema na tentativa de


compreender o debate contemporâneo sobre famílias e, mais
especificamente, avalia a questão da centralidade na família posta
pela Assistência Social como um dos mecanismos de organização
essenciais e imprescindíveis a este sistema.

Outrossim, busca-se atingir um objetivo de ordem prática, qual seja:


conduzir profissionais à reflexão crítica, uma vez que não é possível 157
ter uma prática profissional coerente se a teoria não fornecer um
bom embasamento.

Deste modo, buscou-se realizar uma reflexão crítica a partir de


referências reconhecidas neste campo de estudo, apresentando os
principais elementos questionáveis da matricialidade sociofamiliar,
projetada e operacionalizada no contexto do Sistema Único de
Assistência Social (SUAS).

Espera-se que tal debate possa inquietar os leitores deste trabalho


a ponto de fazê-los refletir sobre a sua prática profissional e que
essa reflexão adentre seu modus operandi, possibilitando uma nova
forma de trabalhar com famílias, que tente reduzir as diversas formas
de opressão e que respeite e valorize os seus diversos modos de ser.

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2 UM BREVE RETRATO ACERCA DO DEBATE CONTEMPORÂNEO


SOBRE FAMÍLIAS

É recorrente na sociedade o uso de designações estigmatizantes


para famílias que não se adaptam ao modelo hegemônico e instituído
socialmente. Tais famílias são designadas como desorganizadas,
disfuncionais, desestruturadas, incompletas, patológicas, doentes,
anormais, etc. Essas designações surgem da não correspondência
de parcela significativa dos grupos familiares ao modelo funcionalista
e estruturalista, que concebe um modelo único e ideal de família.
Muitas famílias são situadas fora do padrão de normalidade uma vez
que não correspondem ao modelo ideal tão veiculado pelos meios
de comunicação de massa. Logo, as famílias que não correspondem
ao modelo nuclear são desconsideradas como famílias harmônicas.
(CALDERÓN; GUIMARÃES, 1994).

Ainda sobre essa questão, Mioto avalia que a prática de categorizar


158
famílias “[...] se encontra fortemente arraigada tanto no senso comum
como nas propostas dos políticos e dos técnicos responsáveis pela
formulação de políticas sociais e organização de serviços”. (MIOTO,
2004, p. 51).

O modelo conversador de família ganhou força e legitimidade com o


apoio e com a organização de setores conservadores da sociedade,
tornando-se defensores incontestes da estrutura familiar nuclear,
inclusive de forma atemporal e com intensa negação dos processos
históricos e sociais pelos quais passaram e passam as famílias no
Brasil e no mundo. Desta maneira, como alerta Neder (1994):
Parte-se, portanto, da idéia de que não existe,
histórica e antropologicamente falando, um mo-
delo - padrão de organização familiar; não existe
a família regular. Menos ainda que o padrão euro-
peu de família patriarcal, do qual deriva a família
nuclear burguesa (que a moral vitoriana da so-
ciedade inglesa no século XIX atualizou historica-

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mente para os tempos modernos), seja a única


possibilidade histórica de organização familiar a
orientar a vida cotidiana no caminho do progresso
e da modernidade. (NEDER, 1994, p. 28).

Deste modo, há o reforço de um modelo dicotômico de família,


estruturalmente maniqueísta, que em nada respeita o pluralismo e
a diversidade em que se apóiam os grupos familiares, quais sejam:
família regular X família irregular.

Por conseguinte, uma das formas que o Estado encontrou, ao longo


do tempo, para interferir nas famílias ditas irregulares foi a “[...]
difusão de uma cultura de especialistas nos aparatos policialescos
e assistenciais do Estado destinados especialmente às classes
populares” (MIOTO, 2010, p.45). Consequentemente, surgem, deste
modo, instâncias de policiamento das famílias com vistas a puni-
las ou corrigi-las por apresentarem características mais próximas ao
modelo irregular do que ao regular.
159

Refletindo sobre essa abordagem, Sawaia (2010) informa acerca do


[...] risco da culpabilizar e sobrecarregar a família
como negociadora, provedora, cuidadora, avan-
caladora, lugar do acolhimento. E não se pode
esquecer também do perigo das idealizações e
dos estereótipos sobre a vida em família [...].
(SAWAIA, 2010, p. 45).

Nesta linha de raciocínio, o modelo tradicional de família,


compreendido como funcional, é aquele que possui papéis definidos
e inalterados. Logo, neste caso, o homem é tido como o provedor
da família, ocupando o espaço da produção social, e a mulher,
inversamente, o lugar da reprodução, ficando a seu cargo o cuidado
dos filhos, do marido e da casa. Modelo este que é uma assimilação
ao padrão físico-biológico e que remonta aos tempos antigos.

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Nesta perspectiva, Esping-Andersen (1995) afirma que o modelo


convencional de família, que tem o homem como provedor, está
em declínio em razão da diversidade e alteração estrutural que vem
sofrendo o ciclo de vida.

Por sua vez, Mioto (2004), discorrendo sobre famílias, expõe que
apesar das mudanças na estrutura, a expecta-
tiva social relacionada às suas tarefas e obriga-
ções continua preservada. Ou seja, espera-se um
mesmo padrão de funcionalidade, independente-
mente do lugar em que estão localizadas na linha
da estratificação social, calcada em postulações
culturais tradicionais referentes aos papéis pater-
no e, principalmente, materno. (MIOTO, 2004, p.
53).

Diante disso, torna-se evidente a confusão que muitos segmentos


constroem em torno do debate sobre famílias, revelando uma clara
“[...] dificuldade de romper com o modelo idealizado e naturalizado
160
acerca dessa instituição [...].” (SARTI, 2010, p. 26).

Na atualidade, a concepção de arranjos familiares traz em si uma


nova forma de ver e de existir como família. Isso quer dizer que para
se ter o status de família não é necessário corresponder ao paradigma
nuclear e, tampouco, que este grupo seja formado por pessoas do
mesmo sangue/hereditariedade. Com isso, pode-se entender que
não existe um protótipo de família, mas que, simplesmente, existem
famílias e que estas são formadas por diversos arranjos, superando
os modelos elencados por muitos estudiosos, podendo ou não
oferecer proteção aos seus membros. Logo, a garantia da proteção
social ao conjunto de indivíduos de uma família está para muito além
da forma em que se organizam. Como menciona Sarti (2010, p. 25),
“[...] a família contemporânea comporta uma enorme elasticidade”.

De acordo com esta autora, é imprescindível que as famílias


contemporâneas, especialmente aquelas em situação de

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vulnerabilidade social, sejam pensadas para além da ideia de núcleo


familiar, propondo, assim, pensá-las como rede, uma vez que sua
mobilização cotidiana supera os limites da casa. (SARTI, 2010).

E é nesse horizonte de pensar a família como rede que emerge o


debate contemporâneo sobre a inserção das famílias nas políticas
públicas, já que, desta forma, o espaço do domicílio deixa de ser
aquele tradicionalmente privado, cuja ideia remonta da Grécia
Antiga, para se compor com o público.

Esping-Andersen (1991) infere que a escolha do Estado pelas famílias


surgiu de forma mais contundente no Estado de Bem-Estar Social,
e, mais especificamente, entre os welfare estate residuais. Neste
modelo, o Estado assume a responsabilidade, prioritariamente,
sobre as famílias que compõem os grupos marginalizados em razão
do mercado e da família não conseguirem garantir a proteção social.
Desta forma, configura-se como uma abordagem que corresponde
161
ao princípio da subsidiariedade, ou seja, “[...] o Estado só interfere
quando a capacidade da família servir seus membros se exaure”.
(ESPING-ANDERSEN, 1991, p. 109).

A partir desse esclarecimento, são apresentadas duas abordagens


centrais em termos de políticas públicas para as famílias, quais sejam:
familismo x desfamiliarização. Passos colabora com a explicação
dessas terminologias, ao afirmar que
pode-se continuar internalizando o cuidado no
âmbito privado e aumentar a responsabilização
da família na função de cuidar (familismo), ou
pode-se externalizar os cuidados do âmbito do-
méstico através da provisão pública ou de merca-
do dos serviços de cuidados (desfamiliarização).
(PASSO, 2015, p. 2-3).

Essas duas abordagens, por vezes, aparecem conjuntamente na


execução de uma mesma política, por outras contrapostas. Os

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rebatimentos de ambas as práticas sobre as famílias são inúmeras


e ainda se constituem como uma arena de conflitos entre os
pesquisadores do tema e não é o objetivo deste trabalho aprofundar
nessa discussão.

3 O DEBATE SOBRE FAMÍLIAS NO SUAS: centralidade na


família ou na mulher?

O debate sobre a matricialidade sociofamiliar e a centralidade na


mulher, nos últimos tempos, vem aparecendo de forma permanente
nas publicações de pesquisadores e profissionais da área. Inclusa
neste debate está a questão do suposto familismo presente na
política pública de Assistência Social.

De acordo com Mioto, “[...] a Assistência Social estabelece-se


ou aparece no momento em que a família fracassa na provisão
do bem-estar social para os seus membros” (2011, p. 110, 111),
162 configurando-se, desta maneira, como uma política de ajuda pública,
logo, familista. Assim sendo, “[...] no momento em que o Estado que
sair da arena da provisão de bem-estar social, chama-se a família,
novamente, para entrar em ação”. (MIOTO, 2011, p. 113).

Nesta concepção, a família assume o papel de pilastra da


proteção social e o Estado surge para ajudá-la a dar conta dessa
responsabilidade, uma vez que, supostamente, ela fracassou nessa
função. Como alertam Castilho e Carlotto, nesse modelo de proteção
social “ela é o pilar central da proteção social” (2010, p. 18), e mais,
“[...] é o pilar central na tríade composta também pelo Estado e o
mercado”. (CASTILHO; CARLOTTO, 2010, p.13).

A Política Nacional de Assistência Social – PNAS (2004) é contundente


ao enumerar a centralidade na família como um das diretrizes do
Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Tal diretriz cumpre duas
funções, uma de natureza ideológica (concepção) e outra prático-

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operativa (implementação), ao afirmar a “centralidade na família para


concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e
projetos” (BRASIL, 2004, p. 33). Isso quer dizer que essa diretriz deve
estar presente na definição de agenda, formulação, implementação e
avaliação da política de Assistência Social.

Ao discorrer sobre a matricialidade sociofamiliar, a Política Nacional


de Assistência Social (PNAS) (BRASIL, 2004) confere centralidade à
família nas ações da política de Assistência Social por compreendê-la
como sujeito de direitos. Reconhece, como família, um conjunto de
pessoas que se acham unidas por laços consanguíneos, afetivos e ou
de solidariedade.

Destarte, é muito explícito que a Política Nacional de Assistência


Social (PNAS) recorra ao critério da ajuda pública em seu texto,
quando aponta ser o objetivo central da Assistência Social dar
condições à família de tornar-se preventiva, protetora e promovente
163
de seus membros, a fim de alcançar condições de sustentabilidade.
(BRASIL, 2004).

Mioto (2011) avalia que a Assistência Social, segundo esta concepção,


acontece de forma temporária e compensatória. Desta maneira,
quando a família atingir padrões desejáveis de prevenção, proteção
e promoção, o Estado pode adotar outra atitude em face dela.

O texto da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), como já


observado, carrega um forte conteúdo familista, e, com isso, não
se pretende retirar o mérito desta política por avanços significativos
que promoveu no interior da Assistência Social, principalmente
ao reconhecer a pluralidade dos modelos de famílias e possibilitar
a participação do Estado no enfrentamento às situações de
vulnerabilidade e risco que enfrentam.

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Mas, se pretendia garantir proteção às famílias pelo Estado, parece


ocorrer o contrário, ou seja: as famílias precisam convencê-lo de
serem capazes de garantir a proteção social aos seus membros. E é aí
que surge o grande problema: dentro da matricialidade sociofamiliar
parece ter se elegido uma matricialidade sociofeminina, em que a
mulher é responsável por garantir o sucesso ou o fracasso da proteção
familiar. Isso ganha força com a publicação da Lei 13.014, de 21 de
julho de 2014, Art. 1º A, que altera a Lei 7.842, de 07 de dezembro
de 1993, incluindo o Art. 40-A, que reza: “Os benefícios monetários
decorrentes do disposto nos arts. 22, 24-C e 25 desta Lei serão
pagos preferencialmente à mulher responsável pela unidade familiar,
quando cabível”. (BRASIL, 2014). Tal publicação coloca a mulher,
mais uma vez, no lugar de gestora do lar e de responsável por dar
respostas ao Estado sobre o sucesso ou fracasso de sua família, por
mais que a tentativa tenha sido de empoderá-la mediante a renda.

164 Se a questão da centralidade na família já traz problemas analíticos


à Assistência Social, a centralidade na mulher, certamente, traz
discussões ainda mais complexas. Carloto e Mariano (2008) identificam
que as mulheres são o principal alvo da política de Assistência
Social, sendo elas as principais interlocutoras para a titularidade
no Programa Bolsa Família e também por responder a quaisquer
implicações que este programa venha a ter. As autoras observam
que “[...] a mulher-mãe ainda é e continua sendo a interpelada para
a participação nas atividades desenvolvidas pelo cumprimento dos
critérios de permanência nos programas”. (CARLOTO; MARIANO,
2008, p. 153).

Carloto e Mariano (2008) apresentam que há aspectos positivos


e negativos nessa titularidade dada às mulheres nos programas
sociais. Como ponto positivo, apontam a valorização das mulheres
ao permitir o acesso à renda e ao crédito. Por outro lado, inferem
que “a centralidade na mulher-mãe reforça estereótipos sobre a

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condição feminina dentro de um viés biologicista que coloca como


predisposições naturais a função de boa cuidadora no âmbito privado/
doméstico”. (CARLOTO; MARIANAO, 2008, p. 161).

Desta forma, de modo prático, o que se chama de família na


Assistência Social não corresponde à perspectiva de família,
apontada nos documentos do Ministério do Desenvolvimento Social
e Combate à Fome (MDS), já que as ações estão concentradas sobre
uma única pessoa, a mulher. O que não deixa de ser um reforço ao
modelo matrilinear de família e à desresponsabilização do homem
pelo cuidado e pela reprodução social. Em tese,
[...] perante a política de assistência social, a fa-
mília é identificada pela figura da mulher, e não
pela do homem. E a mulher, por sua vez, é con-
siderada com base nas funções maternas, o que
fixa e essencializa o sujeito mulher, vinculando-o
à maternidade. (CARLOTO; MARIANO, 2009, p.
907).
165
Tampouco, quando se dá a existência de homens na família, inclusive
chefiando-a, a responsabilidade é compartilhada entre ele e a
mulher. O que aponta mais uma deficiência da Assistência Social em
torno do debate sobre a matricialidade sociofamiliar, configurando-se
como uma política para mulheres, sem atingir a transversalidade de
gênero. Assunto este urgente no cenário contemporâneo.

Mioto (2010) elabora uma reflexão acerca desse tema ao dizer que
[...] os serviços continuam se movimentando a
partir de expectativas relacionados aos papéis tí-
picos de uma concepção funcional de família, em
que a mulher-mãe é responsável pelo cuidado e
educação dos filhos e o homem-pai, pelo provi-
mento e exercício da autoridade familiar. Assim, o
desempenho dessas funções está fortemente vin-
culado a julgamentos morais, principalmente em
relação à figura materna. Sobre esta recai toda
a sobrecarga da função de provimento quando a

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figura paterna é ausente”. (MIOTO, 2010, p. 53-


54).

Para além dessas questões, algo importante a observar é o próprio


uso da palavra matricialidade para indicar a centralidade na família na
Assistência Social. O que vem a ser matricialidade? Qual sentido tem
o radical desta palavra? Ela indica algo essencialmente feminino! E
curioso é que assim tem se dado na implementação dessa política. O
feminino tem sido a centralidade da Assistência Social, mas de forma
a reproduzir as desigualdades de gênero que afligem as mulheres na
vida em sociedade.

Um exemplo claro e prático desta problemática é o cadastramento


familiar realizado nos Centros de Referência de Assistência Social
(CRAS), em que se tem a opção por cadastrar a mulher como
referência familiar, por mais que, em muitas famílias, de forma
prática, ela não ocupe este lugar. O que se realiza de forma corrente
166 na Assistência Social ocorre de forma diferenciada nas pesquisas do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nas quais a
informação surge a partir da indicação da mulher, pelo grupo familiar,
como pessoa de referência da família, logo, ocupa este espaço de
forma legitimada. É cediço que são as mulheres que procuram o
Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), na maioria das
vezes, para realizar o cadastro, entretanto parece não haver interesse
da Assistência Social em investigar e analisar de forma crítica o
porquê dessa busca, com frequência, partir delas. À primeira vista o
que parece é que isso é algo óbvio demais para ser questionado e
tornar-se objeto de pesquisa.

Outra questão elementar é que muitos dos técnicos e gestores que


atuam nesta política acabam reproduzindo o pensamento do senso
comum sem realizar reflexões que problematizem essas questões e
deem novos rumos à matricialidade sociofamiliar da Assistência Social.
Além disso, parece haver uma ausência de aprofundamento sobre

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as especificidades do trabalho social com famílias, operacionalizado


por meio do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família
(PAIF), tais como: famílias, gênero, raça, etc.

Como bem observam Couto, Yazbek e Raichelis (2011),


[...] as metodologias de atendimento às famílias
precisam ser revistas. Apesar dos avanços teó-
ricos na compreensão desta temática, o padrão
burguês de funcionamento familiar continua a
pautar a forma de compreender a tarefa de aten-
der as famílias. Há um forte caráter moralista e
disciplinador que intervém nas formas de pensar
as famílias que deve ser eliminado do trabalho do
Suas. Mas isso não se faz apenas pelo enuncia-
do teórico, uma vez que reiteradamente aparece
essa característica, que se enraizou no ideário do
debate sobre o trabalho com famílias nas políticas
sociais. (COUTO; YAZBEK; RAICHELIS, 2011, p.
56-57).

Para superar essas dificuldades, é preciso que sejam criadas 167


condições institucionais a fim de que nasçam novos espaços na
estrutura do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e sejam
fortalecidos os já existentes, para debates e reflexões, compostos
não apenas por técnicos, mas também por gestores e usuários, de
forma a serem qualificados a desenvolverem um pensamento crítico
sobre o assunto.

4 PARA ENCERRAR

O debate sobre família, como apontado na introdução deste


artigo, é algo complexo e antigo, além disso, passível de diversas
interpretações e abordagens metodológicas.

Neste trabalho adotou-se a compreensão de que a instituição família


é ricamente plural, não podendo se limitar a um único modelo aceito
pela sociedade, nem se reduzir a funções preestabelecidas, como a
realidade e os estudos neste campo têm provado.

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Duas questões merecem ser levantadas para encerrar este


debate: familismo e centralidade na mulher. Primeiramente, ao
tratar do familismo não se quer dizer que a família deva deixar
de ter centralidade na política de Assistência Social, mas que esta
centralidade deve alcançar, de fato, famílias, independentemente de
como se encontram organizadas, respeitando a autonomia de cada
uma delas para responderem ou não às expectativas e/ou intervenções
do Estado, sem com isso aumentar a sua responsabilidade no
desempenho do cuidado de seus membros. Diante disso, faz-se
importante reafirmar que o termo família abrange uma infinidade de
possibilidades e formatos, o que significa abarcar, inclusive, aquelas
pessoas que decidem por viver fora de núcleos.

Em segundo lugar, merece destaque a questão da centralidade na


mulher em lugar da centralidade na família e o quesito gênero que
está implícito nesta questão. É salutar para a Assistência Social
168 não ser uma política somente para as mulheres, isso a reduziria
sobremaneira. Seria um erro gravíssimo, além de uma desconstrução
da categoria gênero. Focalizar a abordagem da Assistência Social
em mulheres não significa cumprir a transversalidade de gênero,
uma vez que essa categoria se constrói a partir das imbricações
surgidas nas relações entre os sexos. Esse conceito tem sentido
como categoria analítica e explicativa das relações desiguais entre
homens e mulheres na sociedade. Desta forma, a focalização nas
mulheres da Assistência Social, de forma alguma se configura como
uma estratégia de empoderamento, uma vez que deixa de lado
intervenções com atores (homens), gerando impactos significativos
sobre o cotidiano das mulheres.

Nesta perspectiva, fica evidente que operacionalizar a matricialidade


sociofamiliar não se resume ao trabalho com mulheres. É insuficiente
que o poder público focalize a sua proteção sobre um único membro

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da família. Faz-se fundamental que a abordagem sobre a mulher seja


parte da abordagem à família, e não substituta desta.

Ao mesmo tempo, não se pode negar que a centralidade na mulher


cumpre um importante serviço ao familismo, ao exigir dela as
respostas para a superação das vulnerabilidades vivenciadas pela
família.

Por fim, pode-se dizer que o problema da diretriz “matricialidade


sociofamiliar” é de natureza metodológica, devido a sua adoção pelo
familismo e pela forma equivocada como operacionaliza essa diretriz,
reduzindo a abordagem a um único membro do grupo familiar, a
mulher, e, consequentemente, sobrecarregando-a.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei Nº 13.014, de 21 de julho de 2014. Altera as Leis no
8.742, de 7 de dezembro de 1993, e no 12.512, de 14 de outubro
de 2011, para determinar que os benefícios monetários nelas
169
previstos sejam pagos preferencialmente à mulher responsável pela
unidade familiar. Diário Oficial da União, Brasília, 22 jul. 2014.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
Política Nacional de Assistência Social PNAS. Brasília, 2004.
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CASTILHO, Cleide de Fátima Viana; CARLOTO, Cássia Maria.
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Thiago Prisco

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Recebido: 20/02/2015
Aprovado: 20/05/2015

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