TEORIA GERAL DO ESTADO – CIÊNCIA POLÍTICA.
APOSTILA 07
CONCEITO DE PODER.
A concepção do poder vem sendo atribuído desde os primórdios do
tempo, consignado pelo conceito de dominantes e dominados. No
passado mediante coação física e com o processo de evolução da
sociedade, avançamos também para coação moral e social. Neste
sentido nos ensina o professor José Geraldo Brito Filomeno.
Vejamos;
“Conforme a clara e precisa definição do prof. Salvetti Netto, “poder
é a imposição real e unilateral de uma vontade.” . No caso, é
dirigida a alguém, que fica impossibilitado de reagir. Diz ainda que
tal imposição se faz mediante coação física ou moral. No primeiro
caso, estaríamos diante do que os romanos chamavam de vis
corporalis e, no segundo, de uma vis compulsiva. Como exemplos,
poderíamos citar o ‘poder de polícia’, o econômico, o ‘social’,
genericamente considerado, ‘familiar’, ‘religioso’, ‘carismático’ etc.1
Com o evoluir da sociedade se percebeu que o ‘poder’ para ter mais
eficácia na sua aplicação, deveria ser munido da consignação da
força e de um consentimento que praticamente induziria a sua
implementação também pelo dominado. Neste sentido, na evolução
da sociedade se impunha um papel especial por vezes para a igreja
outras para a filosofia que consignava narrativas necessárias para a
plena implementação do poder. Vejamos novamente o ensinamento
e citações do professor José Geraldo Brito Filomeno;
“Já Maquiavel, conforme assinala Gilberto Dupas, “dizia que o
poder se exerce por uma combinação de consentimento e coerção”.
Com efeito, pondera: “Para ele, o exercício duradouro de poder
pressupunha, portanto, a existência de interesses comuns entre
protetor e protegido, senhor e vassalo. Ao contrário da pura tirania,
com vida curta, o poder consentido tinha de implicar vantagens
reconhecidas pelos dominados. Os romanos foram os grandes
mestres nesse assunto. A longa vida de seu imenso império só se
explica pela habilidade com que eles aliaram força à proteção
desejada”. Para Georges Burdeau, “o poder repousa, outrossim, em
uma idéia oriunda da consciência coletiva existente no grupo; com
efeito assevera: ‘Em sua profunda essência, é o poder a
encarnação dessa idéia, que representa, no grupo, a ordem social
desejável; é uma força nascida da consciência coletiva e destinada
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Filomeno, José Geraldo Brito, 1947 – Manual de Teoria Geral do Estado e Ciência Política – 5.ed. – Rio
de Janeiro, Forense Universitária, 2003, pg. 127
a assegurar a perenidade do grupo, a conduzi-lo na procura do que
é considerado útil e hábil, a impor aos membros a atitude que
comanda esta procura; esta definição evidencia os dois elementos
do poder: uma força e uma idéia’. Ora, para ser legítimo, deve o
poder ser consentido pelos destinatários do mando.”2
O PODER DE ESTADO;
O Estado cumpre um papel de organização coletiva. Com cunho
instrumental, ele deveria organizar a sociedade dentro de suas
demandas na vida cotidiana coletiva. Assim, tem o condão da
representação da coletividade na organização coletiva em geral.
Assim nos ensina o Professor Paulo Bonavides;
“Elemento essencial constitutivo do Estado, o poder representa
sumariamente aquela energia básica que anima a existência de
uma comunidade humana num determinado território, conservando-
a unida, coesa e solidária. Autores há que preferem defini-lo como
‘a faculdade de tomar decisões em nome da coletividade’ (Afonso
Arinos).3
Porém, resta claro, que por vezes a sociedade, para o exercício do
Poder, encarrega-se de expedientes necessários, conforme o grau
2
Filomeno, José Geraldo Brito, 1947 – Manual de Teoria Geral do Estado e Ciência Política – 5.ed. – Rio
de Janeiro, Forense Universitária, 2003, pg. 128 – Cf. artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo,
ed. 22.02.97, p. A-2, sob o título “Liderança, Hegemonia e Coerção”.
3
Ciência Política – Paulo Bonavides – 10. Edição, revista e atualizada, 6. Tiragem, Malheiros Editores, pg.
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de participação e consentimento coletivo. Para isto, consigna-se
novamente a força e/ou a competência, para a despersonalização
das pessoas e o fortalecimento das Instituições, valendo-se de
imposições ou de pactuações para a constituição da necessária
unidade estatal. Vejamos novamente o ensinamento do Professor
Paulo Bonavides;
“Com o poder se entrelaçam a força e a competência,
compreendida esta última como legitimidade oriunda do
consentimento. Se o poder repousa unicamente na força, e a
Sociedade, onde ele se exerce, exterioriza em primeiro lugar o
aspecto coercitivo com a nota da dominação material e o emprego
frequente de meios violentos para impor a obediência, esse poder,
não importa sua aparente solidez ou estabilidade, será sempre um
poder de fato. Se, todavia, busca o poder sua base de apoio menos
na força do que na competência, menos na coerção do que no
consentimento dos governados, converter-se-á então num poder de
direito. O Estado moderno resume basicamente o processo de
despersonalização do poder, a saber, a passagem de um poder de
pessoa a um poder de instituições, de poder imposto pela força a
um poder fundado na aprovação do grupo, de um poder de fato a
um poder de direito.”4
A despersonalização do Poder;
Na estruturação moderna de Estado, sua atribuição tem ênfase na
despersonalização do poder, pois, ressignifica a vontade coletiva,
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Ciência Política – Paulo Bonavides – 10. Edição, revista e atualizada, 6. Tiragem, Malheiros Editores, pg.
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através de expedientes e instituições que instrumentalizam as
atividades do poder, não mais por pessoas, mas sim, pela
representatividade estatal. Vejamos o ensinamento do Professor
Paulo Bonavides;
“Se, todavia, busca o poder sua base de apoio menos na força do
que na competência, menos na coerção do que no consentimento
dos governados, converter-se-á então num poder de direito. O
Estado moderno resume basicamente o processo de
despersonalização do poder, a saber, a passagem de um poder de
pessoa a um poder de instituições, de poder imposto pela força a
um poder fundado na aprovação do grupo, de um poder de fato a
um poder de direito.”5
Mas estes conceitos tem no seu bojo a semelhança ao pensamento
e cultura coletiva, para que, possam se organizar para estabelecer-
se as regras gerais, quais sejam, as leis, alcançando princípios
latentes para sua validação, entre eles, os princípios da legalidade,
da legitimidade e da soberania. Vejamos o que nos ensinou o
professor Paulo Bonavides;
“Com respeito ao poder do Estado, urge considerá-lo através dos
traços que lhe emprestam a fisionomia costumeira, alguns dos
quais comportam intermináveis debates relativos ao seu caráter
contingente e absoluto. Esses traços são: a imperatividade e
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Ciência Política – Paulo Bonavides – 10. Edição, revista e atualizada, 6. Tiragem, Malheiros Editores, pg.
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natureza integrativa do poder estatal, a capacidade de auto-
organização, a unidade e indivisibilidade do Poder, o princípio de
legalidade e legitimidade e a soberania.” 6
Como, podemos entender, o direito é um instrumento de poder,
portanto, o estabelecimento da instrumentalidade deste poder, é
central para sua atribuição. Neste sentido, as regras normativas
para sua criação, sua execução e aplicação, necessariamente estão
estabelecidas na constituição deste Estado, que se torna a
organização da sociedade. Neste sentido o professor José Geraldo
Brito Filomeno nos ensina;
“Como já se pode verificar pela própria conceituação de Estado, é
ele o senhor absoluto de sua ordem jurídica, à medida que, por
intermédio dos seus órgãos competentes, cria, executa e aplica seu
ordenamento jurídico, visando ao bem comum. E nesse mister é
que podemos dizer que o Estado positiva, isto é, revela ao corpo
social as normas que cria, dotando-as de sanção, cujo objeto
imediato é seu efetivo cumprimento, na hipótese de violação, e
mediato a manutenção da ordem para melhor consecução de seus
fins.”7
A organização do Poder Estatal;
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Filomeno, José Geraldo Brito, 1947 – Manual de Teoria Geral do Estado e Ciência Política – 5.ed. – Rio
de Janeiro, Forense Universitária, 2003, pg. 78
O Estado possui o monopólio do Poder, através de regras,
expedientes e instituições, para ao fim organizar, pacificar e
representar a sociedade, através de suas estruturações, que em
seu bojo carregam a legalidade, a legitimidade e a soberania, como
elementos essenciais, para respectiva aprovação da sociedade
representada, e portanto, imposição de suas proposituras a todos
os seus partícipes.
“Que traço essencial resta assim para separar o Estado, como
organização de poder, das demais sociedades que exercem
também influência e ação sobre o comportamento de seus
membros? Inquestionavelmente, esse traço fundamental se cifra no
caráter inabdicável, obrigatório ou necessário da participação de
todo indivíduo numa sociedade estatal. Nascemos no Estado e ao
menos contemporaneamente é inconcebível a vida fora do
Estado.”8
Poder do Direito e o Ordenamento Jurídico;
Se o Direito organiza, rege, pacifica a sociedade, então sua
materialidade se dada, com o diálogo de fontes em busca da justiça
coletiva ou da utópica justiça. Lembrando ainda que sua
interpretação se dá através de suas imputações e organizações das
fontes do direito, quais sejam, fontes formais; leis, princípios gerais
do direito, analogia, jurisprudência vinculantes ou não e fontes
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materiais, quais sejam as fontes meta-jurídicas, teoria do
conhecimento vulgar ou popular, conhecimento científico e
conhecimento filosófico, e seu ambiente econômico, político,
antropológico, sociológico, filosófico, etc. . Vejamos o ensinamento
do professor José Geraldo Brito Filomeno.
“Ordenamento jurídico, porém, não deve ser confundido com uma
só norma, como, por exemplo, a Constituição de um determinado
Estado, mas, sim, o conjunto de normas por ele ditadas e de
variedade complexa e abrangente. Por isso é que, ao tratar
exatamente do ordenamento jurídico como a universalização das
normas jurídicas positivas pelo Estado, Norberto Bobbio ensina
que, “na realidade, as normas jurídicas nunca existem
isoladamente, mas sempre em um contexto de normas com
relações particulares entre si (e estas relações serão em grande
parte objeto de nossa análise); e será bom observarmos, desde já,
que a palavra ‘direito’, entre seus vários sentidos, tem também o de
‘ordenamento jurídico’, por exemplo, nas expressões ‘Direito
romano’, ‘Direito canônico, ‘Direito italiano’, ‘Direito brasileiro’, etc’”9
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Filomeno, José Geraldo Brito, 1947 – Manual de Teoria Geral do Estado e Ciência Política – 5.ed. – Rio
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