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Informativo 1168-STF
Márcio André Lopes Cavalcante
ÍNDICE
DIREITO CONSTITUCIONAL
PODER JUDICIÁRIO
▪ É constitucional a Resolução 88/2009, do CNJ, que que disciplina jornada de trabalho e limites para preenchimento
de cargos em comissão, no âmbito do Poder Judiciário.
DIREITO PROCESSUAL PENAL
FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO
▪ A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste mesmo após
o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de cessado seu exercício.
DIREITO CONSTITUCIONAL
PODER JUDICIÁRIO
É constitucional a Resolução 88/2009, do CNJ, que que disciplina jornada de trabalho e limites
para preenchimento de cargos em comissão, no âmbito do Poder Judiciário
ODS 16
É constitucional resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que disciplina jornada de
trabalho e limites para preenchimento de cargos em comissão, no âmbito do Poder Judiciário.
Essa resolução não viola:
• o pacto federativo (arts. 1º e 18, CF/88);
• o princípio da separação e harmonia entre os Poderes (art. 2º, CF/88);
• nem o autogoverno dos tribunais (art. 96, I, CF/88).
STF. Plenário. ADI 4.355/DF, ADI 4.312/DF e ADI 4.586/DF, Rel. Min. Nunes Marques, julgados em
12/03/2025 (Info 1168).
O caso concreto foi o seguinte:
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) possui uma resolução (Resolução n. 88/2009) que dispõe sobre a
jornada de trabalho no âmbito do Poder Judiciário, o preenchimento de cargos em comissão e o limite de
servidores requisitados. Veja:
RESOLUÇÃO Nº 88, DE 08 DE SETEMBRO DE 2009
Art. 1º A jornada de trabalho dos servidores do Poder Judiciário é de 8 horas diárias e 40 horas
semanais, salvo se houver legislação local ou especial disciplinando a matéria de modo diverso,
facultada a fixação de 7 horas ininterruptas.
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§ 1º O pagamento de horas extras, em qualquer dos casos, somente se dará após a 8ª hora diária,
até o limite de 50 horas trabalhadas na semana, não se admitindo jornada ininterrupta na hipótese
de prestação de sobrejornada.
§ 2º Deverão os Tribunais de Justiça dos Estados em que a legislação local disciplinar a jornada de
trabalho de forma diversa deste artigo encaminhar projeto de lei, no prazo de 90 (noventa) dias,
para adequação ao horário fixado nesta resolução, ficando vedado envio de projeto de lei para
fixação de horário diverso do nela estabelecido.
Art. 1º-A O expediente dos órgãos jurisdicionais para atendimento ao público será fixado por cada
tribunal, devendo ocorrer de segunda a sexta-feira, inclusive, atendidas as peculiaridades locais e
ouvidas as funções essenciais à administração da justiça, sem prejuízo da manutenção de plantão
judiciário, presencial ou virtual. (Incluído pela Resolução n. 340, de 8.9.2020)
Art. 2º Os cargos em comissão estão ligados às atribuições de direção, chefia e assessoramento,
sendo vedado seu provimento para atribuições diversas.
§ 1º Os ocupantes de cargos em comissão que não se enquadrem nos requisitos do caput deste
artigo deverão ser exonerados no prazo de 90 dias.
§ 2º Para os entes federativos que ainda não regulamentaram os incisos IV e V do art. 37 da
Constituição Federal, pelo menos vinte por cento dos cargos em comissão da área de apoio direto
à atividade judicante e cinquenta por cento da área de apoio indireto à atividade judicante
deverão ser destinados a servidores das carreiras judiciárias. (Redação dada pela Resolução n. 340,
de 8.9.2020)
Art. 3º O limite de servidores requisitados ou cedidos de órgãos não pertencentes ao Poder
Judiciário é de 20% (vinte por cento) do total do quadro de cada tribunal, salvo se a legislação local
ou especial disciplinar a matéria de modo diverso.
§ 1º Os servidores requisitados ou cedidos deverão ser substituídos por servidores do quadro, no
prazo máximo de 4 (quatro) anos, na proporção mínima de 20% (vinte por cento) por ano, até que
se atinja o limite previsto no caput deste artigo.
§ 2º O disposto no § 1º deste artigo não se aplica aos órgãos em relação aos quais este Conselho,
em análise concreta, já determinou a devolução dos requisitados ou cedidos. (Redação dada pela
Resolução n. 340, de 8.9.2020).
§ 3º Deverão os Tribunais de Justiça dos Estados em que houver legislação local estabelecendo
percentual superior ao do caput deste artigo encaminhar projeto de lei para adequação a esse
limite, ficando vedado envio de projeto de lei para fixação de limite superior.
Art. 4º (Revogado pela Resolução n. 390, de 6.5.2021)
Art. 5º A presente resolução entra em vigor na data de sua publicação.
Foram propostas três ações diretas de inconstitucionalidade contra essa Resolução:
ADI 4.321
Ajuizada pela Associação dos Magistrados Estaduais (Anamages).
A autora sustentou que cabe aos tribunais, e não ao CNJ, a disciplina, mediante projeto de lei, sobre
reserva de percentuais mínimos de cargos em comissão a serem ocupados pelos servidores das carreiras
judiciárias (art. 96, II, “b”, da CF/88).
A entidade argumentou ainda que o CNJ, ao estabelecer percentuais de reserva de cargos e impor
obrigações aos tribunais estaduais, teria violado os princípios da legalidade (arts. 5º, II, e 37, caput), da
separação dos Poderes (art. 2º) e da autonomia do Judiciário (art. 96, I).
A Anamages pediu a declaração de inconstitucionalidade do art. 2º, § 2º, da Resolução nº 88/2009/CNJ.
ADI 4.355
Manejada pela Mesa da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe).
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A autora sustentou que a Resolução n. 88/2009 violava os seguintes dispositivos da Constituição Federal:
• arts. 1º e 18 (pacto federativo);
• art. 2º (princípio da separação entre os Poderes);
• art. 96, I (autogoverno dos tribunais);
• art. 37, II e V (legalidade e provimento de cargos públicos).
A Alepe argumentou que o CNJ, ao impor percentuais para cargos em comissão e limites para servidores
requisitados, teria invadido competências privativas dos Tribunais e do Poder Executivo, além de interferir
na autonomia dos Estados-membros e no processo legislativo local.
Sustentou que o CNJ usurpou atribuições ao determinar que os tribunais encaminhassem projetos de lei
com conteúdos previamente definidos pela Resolução.
ADI 4.586
Proposta pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).
A AMB sustentou que o CNJ teria ultrapassado os limites de sua competência administrativa ao impor
obrigações normativas que, segundo a autora, caberiam exclusivamente aos tribunais ou aos chefes do
Poder Executivo. Alegou violação ao princípio do autogoverno dos tribunais (art. 96 da CF/88), ao princípio
federativo (arts. 1º e 18 da CF/88), ao princípio da separação entre os Poderes (art. 2º da CF/88), bem
como ao princípio da legalidade (arts. 5º, II, e 37 da CF/88).
Argumentou, ainda, que a fixação de percentuais para cargos em comissão e limites para servidores
requisitados configuraria indevida usurpação de competência legislativa.
O STF concordou com os pedidos formulados na ADIs?
NÃO.
STF não conheceu da ADI proposta pela Anamages
O STF não conheceu da ADI 4.312, por ausência de legitimidade ativa ad causam da Anamages.
Essa entidade representa apenas uma fração da magistratura — os juízes estaduais — e, portanto, não
possui representatividade nacional da categoria como um todo, requisito exigido pelo art. 103, IX, da
Constituição Federal para propositura de ação de controle concentrado.
Além disso, mesmo que a legitimidade fosse reconhecida, o Supremo considerou que o objeto da ação
havia desaparecido. Isso porque o dispositivo pela Anamages impugnado sofreu alteração substancial pela
Resolução nº 340/2020/CNJ, que reduziu os percentuais previstos e eliminou a obrigação dos tribunais
estaduais de encaminharem projetos de lei para regulamentar a matéria. Com isso, a redação original que
fundamentava a controvérsia deixou de existir, tornando a análise do mérito desnecessária.
Quanto às outras duas ações, o STF apreciou o mérito e julgou improcedentes os pedidos com base nos
argumentos a seguir expostos:
Competência constitucional do CNJ
O Conselho Nacional de Justiça foi instituído pela Emenda Constitucional n. 45/2004 (art. 103-B da CF/88)
como órgão de controle administrativo, financeiro e disciplinar do Poder Judiciário, sem função
jurisdicional. Com isso, passou a exercer papel central na estrutura administrativa da Justiça brasileira.
A Resolução n. 88/2009 é um ato normativo administrativo legítimo, editado pelo CNJ para disciplinar
temas relacionados à jornada de trabalho, cargos em comissão e servidores requisitados, sem invadir
competências legislativas ou jurisdicionais.
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Respeito aos princípios constitucionais da Administração Pública
A resolução buscou concretizar princípios constitucionais expressos no art. 37 da CF/88, como a
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, além da exigência de concurso público
como regra para investidura em cargos públicos.
Assim, os dispositivos impugnados foram interpretados como instrumentos de aperfeiçoamento da gestão
administrativa dos tribunais, compatíveis com a Constituição Federal.
Atuação do CNJ como órgão de coordenação administrativa nacional
Embora os tribunais estejam formalmente vinculados aos Estados, integram um Poder Judiciário nacional,
dotado de regime orgânico unitário. O CNJ, como órgão de cúpula administrativa abaixo apenas do STF,
exerce papel estratégico de ordenação e controle, inclusive para corrigir práticas administrativas
despadronizadas e ineficientes.
Essa atuação não compromete a autonomia administrativa dos tribunais, mas a organiza e racionaliza,
conforme os parâmetros constitucionais.
Ausência de ofensa ao princípio da separação dos Poderes (art. 2º da CF/88)
A Resolução não violou a separação dos Poderes. O CNJ, por ser órgão interno do Judiciário, não interfere
nos poderes Executivo ou Legislativo. Suas determinações são interna corporis, dirigidas aos tribunais, sem
qualquer obrigação aos demais Poderes.
O Poder Legislativo estadual continua livre para aprovar, rejeitar ou alterar projetos de lei recebidos dos
tribunais — inclusive os mencionados na resolução.
Ausência de violação ao pacto federativo
A resolução não interfere na autonomia dos Estados.
O custeio dos tribunais estaduais pelos entes federados não impede a atuação normativa do CNJ, pois essa
colaboração está em harmonia com o pacto federativo e não configura subordinação.
Ausência de violação à iniciativa legislativa privativa dos tribunais e dos chefes do Executivo (arts. 61 e
96 da CF/88)
A AMB alegava que a Resolução teria “usurpado” a competência privativa dos tribunais e do Executivo
para iniciar projetos de lei sobre organização administrativa.
O STF refutou essa alegação, esclarecendo que os tribunais permanecem competentes para propor
projetos de lei e regulamentar internamente sua estrutura, inclusive a jornada de trabalho, cargos e
funções.
O CNJ, ao editar a resolução, não substituiu essa competência, mas orientou administrativamente o
exercício dela, conforme sua função constitucional.
Em suma:
É constitucional resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que disciplina jornada de trabalho e
limites para preenchimento de cargos em comissão, no âmbito do Poder Judiciário.
Essa resolução não viola:
• o pacto federativo (arts. 1º e 18, CF/88);
• o princípio da separação e harmonia entre os Poderes (art. 2º, CF/88);
• nem o autogoverno dos tribunais (art. 96, I, CF/88).
STF. Plenário. ADI 4.355/DF, ADI 4.312/DF e ADI 4.586/DF, Rel. Min. Nunes Marques, julgado em
12/03/2025 (Info 1168).
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DOD TESTE: REVISÃO EM PERGUNTAS
Quais são os requisitos para que a Associação Nacional de Magistrados Estaduais (Anamages) possua
legitimidade ativa para propor Ação Direta de Inconstitucionalidade?
A Anamages, como entidade de classe de âmbito nacional (CF, art. 103, IX), é legitimada especial e não
universal para propor ADI. Para ter legitimidade ativa, é necessário demonstrar pertinência temática e
representatividade da totalidade da categoria.
No caso analisado, o STF não reconheceu legitimidade à Anamages por representar apenas uma fração da
magistratura (juízes estaduais), e não a totalidade da classe dos juízes, considerando ainda que a
magistratura possui clara fisionomia nacional.
O que caracteriza a pertinência temática para que uma Mesa de Assembleia Legislativa possa propor
Ação Direta de Inconstitucionalidade?
A pertinência temática para uma Mesa de Assembleia Legislativa propor ADI caracteriza-se quando a
norma impugnada atinge prerrogativas constitucionais dos Estados-membros, afetando competências
legislativas e executivas dos seus órgãos políticos. No caso analisado, a Assembleia Legislativa de
Pernambuco argumentou que a pertinência estava presente, pois a Resolução impugnada impunha o
envio de projetos de lei aos Poderes Legislativo estaduais com conteúdo já predeterminado, interferindo
no papel político do Legislativo local.
Qual é a natureza jurídica do Conselho Nacional de Justiça?
O CNJ é órgão interno ao Poder Judiciário, sem função judicante, mas com atribuições de controle
administrativo, financeiro e ético-disciplinar, posicionado abaixo do Supremo Tribunal Federal.
A decisão reafirmou o entendimento fixado na ADI 3.367, destacando que o CNJ possui caráter
exclusivamente administrativo, fortalecendo o conceito de um Poder Judiciário nacional e não violando o
princípio da separação dos Poderes ou o pacto federativo.
Qual o entendimento do STF sobre o poder normativo do CNJ e seus limites constitucionais?
O STF entendeu que o CNJ, como órgão administrativo de cúpula do Judiciário, possui legítimo poder
normativo, explícito ou implícito, para ordenar e controlar os atos administrativos e financeiros dos
demais órgãos do Judiciário, sendo este poder decorrente das atribuições constitucionais conferidas ao
órgão pela EC nº 45/2004.
O exercício dessa competência normativa não implica violação ao princípio da separação dos Poderes ou
ao pacto federativo, desde que o CNJ atue dentro dos limites dos poderes prescritos pela Constituição.
Como o STF abordou a questão da autonomia dos tribunais frente às normas editadas pelo CNJ?
O STF entendeu que o poder de autoadministração dos tribunais não é absoluto, encontrando limites na
Constituição e nos atos de ordenação e controle editados pelo CNJ. A decisão ressaltou que, embora o art.
96 da CF garanta autonomia administrativa aos tribunais, esta deve ser exercida em harmonia com as
normas editadas pelo CNJ, órgão legitimamente criado pelo poder constituinte reformador para exercer
controle administrativo sobre todo o Poder Judiciário nacional.
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 5
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DIREITO PROCESSUAL PENAL
FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO
A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções
subsiste mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam
iniciados depois de cessado seu exercício
Importante!!! ODS 16
Em 2018, o STF fixou uma tese sobre o foro por prerrogativa de função, que se dividia em duas
partes:
1) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o
exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas.
2) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para
apresentação de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será
mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que
ocupava, qualquer que seja o motivo.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).
Em 2025, o STF decidiu alterar parcialmente o entendimento acima fixado.
O item 1 ainda está valendo: O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes
cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas. Isso não
mudou.
O item 2 foi superado.
O que vale atualmente é o seguinte: a prerrogativa de foro para julgamento de crimes
praticados no cargo e em razão das funções subsiste mesmo após o afastamento do cargo,
ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de cessado seu exercício.
Entendimento fixado em 2018:
A autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado Federal etc.) cometeu um crime
funcional durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o delito é do STF; no
entanto, se essa autoridade deixasse o cargo antes do fim da instrução processual, o STF
deixava de ser competente para julgá-la.
Entendimento alterado em 2025 (atual):
A autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado Federal etc.) cometeu um crime
funcional durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o delito é do STF;
mesmo que essa autoridade deixe o cargo a competência para julgá-la continua sendo do STF.
STF. Plenário. HC 232.627/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 12/03/2025 (Info 1168).
NOÇÕES GERAIS
Como podemos conceituar foro por prerrogativa de função?
Trata-se de uma prerrogativa prevista pela Constituição, segundo a qual as pessoas ocupantes de alguns
cargos ou funções somente serão processadas e julgadas criminalmente (não engloba processos cíveis,
como, por exemplo, as ações de improbidade administrativa) por determinados Tribunais (TJ, TRF, STJ,
STF).
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 6
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Razão de existência
O foro por prerrogativa de função existe porque se entende que, em virtude de determinadas pessoas
ocuparem cargos ou funções importantes e de destaque, somente podem ter um julgamento imparcial e
livre de pressões se forem julgadas por órgãos colegiados que componham a cúpula do Poder Judiciário.
Ex: um Desembargador, caso pratique um delito, não deve ser julgado por um juiz singular, nem pelo
Tribunal do qual faz parte, mas sim pelo STJ (art. 105, I, “a”, da CF), órgão de cúpula do Poder Judiciário e,
em tese, mais adequado para, no caso concreto, exercer a atividade com maior imparcialidade.
Ex2: caso um Senador da República cometa um crime, ele será julgado pelo STF (art. 102, I, “b”, da CF).
Foro por prerrogativa de função é o mesmo que foro privilegiado?
Tecnicamente, não.
O foro por prerrogativa de função é estabelecido em razão do cargo ou função desempenhada pelo
indivíduo. Trata-se, portanto, de uma garantia inerente à função. Ex: foro privativo dos Deputados
Federais no STF. Já o chamado “foro privilegiado” é aquele previsto não por causa do cargo ou da função,
mas sim como uma espécie de homenagem, deferência, privilégio à pessoa. Ex: foro privilegiado para
condes e barões.
Todavia, o próprio STF utiliza em seus julgamentos a expressão “foro privilegiado” como sendo sinônimo
de “foro por prerrogativa de função”.
Por essa razão, também utilizarei aqui indistintamente as terminologias como sendo equivalentes.
Onde estão previstas as regras sobre o foro por prerrogativa de função?
• Regra: somente a Constituição Federal pode prever casos de foro por prerrogativa de função. Exs: art.
102, I, “b” e “c” (STF); art. 105, I, “a” (STJ); art. 108, I, “a” (TRFs); art. 96, III (TJs).
• Exceção: o art. 125, caput e § 1º, da CF/88 autorizam que as Constituições Estaduais prevejam hipóteses
de foro por prerrogativa de função nos Tribunais de Justiça, ou seja, situações nas quais determinadas
autoridades serão julgadas originariamente pelo TJ:
Art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos nesta
Constituição.
§ 1º A competência dos tribunais será definida na Constituição do Estado, sendo a lei de
organização judiciária de iniciativa do Tribunal de Justiça.
Vale ressaltar, no entanto, que a previsão da Constituição Estadual somente será válida se respeitar o
princípio da simetria com a Constituição Federal. Isso significa que a autoridade estadual que “receber” o
foro por prerrogativa na Constituição Estadual deve ser equivalente a uma autoridade federal que tenha
foro por prerrogativa de função na Constituição Federal.
Ex1: a Constituição Estadual poderá prever que o Vice-Governador será julgado pelo TJ. Isso porque a
autoridade “equivalente”, em âmbito federal (Vice-Presidente da República), possui foro por prerrogativa
de função no STF (art. 102, I, “b”, da CF/88). Logo, foi respeitado o princípio da simetria.
Ex2: a Constituição Estadual não pode prever foro por prerrogativa de função para os Delegados de Polícia,
considerando que não há previsão semelhante para os Delegados Federais na Constituição Federal (STF
ADI 2587).
Ex3: a Constituição Estadual não pode prever foro por prerrogativa de função para Defensores Públicos e
Procuradores do Estado, considerando que não pode atribuir foro por prerrogativa de função a
autoridades diversas daquelas arroladas na Constituição Federal (ADI 6501 Ref-MC/PA, ADI 6508 Ref-
MC/RO, ADI 6515 Ref-MC/AM e ADI 6516 Ref-MC/AL).
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Hipóteses de foro por prerrogativa de função previstas na CF/88:
AUTORIDADE FORO COMPETENTE
Presidente e Vice-Presidente da República
Deputados Federais e Senadores
Ministros do STF
Procurador-Geral da República
Ministros de Estado
Advogado-Geral da União
STF
Presidente do Banco Central
Controlador-Geral da União
Comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica
Ministros do STJ, STM, TST, TSE
Ministros do TCU
Chefes de missão diplomática de caráter permanente
Governadores
Desembargadores (TJ, TRF, TRT)
Membros dos TER STJ
Conselheiros dos Tribunais de Contas
Membros do MPU que oficiem perante tribunais
Juízes Federais, Juízes Militares e Juízes do Trabalho
TRF ou TRE
Membros do MPU que atuam na 1ª instância
Juízes de Direito
TJ
Promotores e Procuradores de Justiça
Prefeitos TJ, TRF ou TRE
Exemplos de autoridades que dependem da Constituição Estadual (algumas Constituições preveem que a
competência para julgar os crimes por elas praticados é do Tribunal de Justiça):
• Vice-governadores (por simetria ao Vice-Presidente da República;
• Secretários de Estado (por simetria com Ministros de Estado);
• Comandantes Militares Estaduais (por simetria com Comandantes das Forças Armadas).
Se a Constituição estadual não trouxer nenhuma regra, tais autoridades serão julgadas em 1ª instância.
Obs. É inconstitucional norma de Constituição Estadual que crie foro por prerrogativa de função para
Vereadores ou Vice-Prefeitos. Nesse sentido:
A jurisprudência prevalecente neste Supremo Tribunal é contrária à extensão discricionária do rol de
autoridades detentoras do foro por prerrogativa de função, em afronta aos princípios constitucionais da
simetria, da isonomia e do juiz natural.
Procedência da ação direta de inconstitucionalidade para declarar inconstitucional, com efeitos ex nunc,
a expressão “Vice-Prefeitos e Vereadores” constantes da al. d do inc. III do art. 123 da Constituição do
Piauí.
STF. Plenário. ADI 6842, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 21/06/2021.
EM 2018, O STF DECIDIU RESTRINGIR O FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO (AP 937 QO/RJ)
Em 2018, o STF decidiu restringir o foro por prerrogativa de função dos Deputados Federais e Senadores.
A tese fixada pode ser dividida em duas partes:
1ª parte: o foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício
do cargo e relacionados às funções desempenhadas
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 8
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O art. 53, § 1º e o art. 102, I, “b”, da CF/88 preveem que, em caso de crimes comuns, os Deputados Federais
e os Senadores serão julgados pelo STF.
Ocorre que essas normas devem ser interpretadas restritivamente, aplicando-se apenas aos crimes que
tenham sido praticados durante o exercício do cargo e em razão dele.
Assim, por exemplo, se o crime foi praticado antes de o indivíduo ser diplomado como Deputado Federal,
não se justifica a competência do STF, devendo ele ser julgado pela 1ª instância, mesmo ocupando o cargo
de parlamentar federal.
Além disso, mesmo que o crime tenha sido cometido após a investidura no mandato, se o delito não
apresentar relação direta com as funções exercidas, também não haverá foro privilegiado.
Foi fixada, portanto, a seguinte tese:
O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e
relacionados às funções desempenhadas.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).
Em outras palavras, os Deputados Federais e Senadores somente serão julgados pelo STF se o crime tiver
sido praticado durante o exercício do mandato de parlamentar federal e se estiver relacionado com essa
função.
2ª parte: momento da fixação definitiva da competência do STF
Se o parlamentar federal (Deputado Federal ou Senador) estava respondendo a uma ação penal no STF e,
antes de ser julgado, ele deixou de ocupar o cargo (exs: renunciou, não se reelegeu etc), cessava o foro
por prerrogativa de função e o processo deveria ser remetido para julgamento em 1ª instância?
Em 2018, o STF decidiu estabelecer uma regra para situações como essa:
• Se o réu deixou de ocupar o cargo ANTES de a instrução terminar: cessava a competência do STF e o
processo deveria ser remetido para a 1ª instância.
• Se o réu deixou de ocupar o cargo DEPOIS de a instrução terminar: o STF permanecia sendo competente
para julgar a ação penal.
Assim, o STF estabeleceu um marco temporal a partir do qual a competência para processar e julgar ações
penais – seja do STF ou de qualquer outro órgão jurisdicional – não seria mais afetada em razão de o
agente deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo (exs: renúncia, não reeleição, eleição para
cargo diverso).
Segunda parte da tese fixada:
Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação de
alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será mais afetada em razão de o
agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).
De acordo com a segunda parte da tese: se o Deputado Federal ou Senador estava respondendo a um
processo criminal no STF e chegasse ao fim o seu mandato, cessava a competência do STF para julgar esta
ação penal, salvo se a instrução processual já estivesse concluída, hipótese na qual havia a perpetuação
da competência e o STF deveria julgar o réu mesmo ele não sendo mais um parlamentar federal. Foi isso
que vigorou de 03/03/2018 até 12/03/2025.
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 9
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EM 2025, O STF DECIDIU FAZER UMA REVISÃO DA SEGUNDA PARTE DA TESE ACIMA EXPLICADA: AGORA
OS PROCESSOS PENAIS CONTRA AUTORIDADES PERMANECEM NO STF MESMO APÓS SAÍDA DO CARGO
Vimos então que, em 2018, o STF fixou o seguinte entendimento:
1) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo
e relacionados às funções desempenhadas.
2) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação de
alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será mais afetada em razão de o
agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).
Em 2025, o STF decidiu alterar parcialmente o entendimento acima fixado.
O item 1 ainda está valendo: O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos
durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas. Isso não mudou.
O item 2 foi superado.
O que vale atualmente é o seguinte:
A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste
mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de
cessado seu exercício.
STF. Plenário. HC 232.627/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 12/03/2025 (Info 1168).
Entendimento fixado em 2018:
A autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado Federal etc.) cometeu um crime funcional
durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o delito é do STF; no entanto, se essa
autoridade deixasse o cargo antes do fim da instrução processual, o STF deixava de ser competente para
julgá-la.
Entendimento alterado em 2025 (atual):
A autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado Federal etc.) cometeu um crime funcional
durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o delito é do STF; mesmo que essa
autoridade deixe o cargo a competência para julgá-la continua sendo do STF.
Assim, se uma das autoridades listadas no inciso I, “b” e “c”, do art. 102 da CF/88 praticar um crime
funcional durante o exercício do cargo e relacionado às funções desempenhadas, esse crime será julgado
pelo STF não importa o que aconteça depois.
A competência do STF (e dos Tribunais) para julgamento de crimes funcionais prevalece mesmo após a
cessação das funções públicas, por qualquer causa (renúncia, não reeleição, cassação etc.).
Critérios utilizados para a identificação dos crimes alcançados pelo foro especial
Os critérios da atualidade e da contemporaneidade são utilizados para definir a aplicação do foro por
prerrogativa de função.
Esses critérios determinam quando e em que condições o foro especial se aplica:
• o critério da atualidade vincula o foro ao exercício presente do cargo, ou seja, a prerrogativa existe
apenas enquanto o agente estiver formalmente no cargo público;
• o critério da contemporaneidade leva em conta a natureza do crime, exigindo que ele tenha sido
cometido durante e em razão do exercício das funções públicas.
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Regra de ouro para memorizar:
• Atualidade (“olha para o presente”): o foco está no cargo atual do agente.
• Contemporaneidade (“olha para o passado”): o foco está na natureza do crime.
A escolha entre um critério ou outro impacta diretamente quem julga o agente público e quando isso
ocorre, refletindo diferentes interpretações sobre o alcance e a finalidade da proteção conferida pelo foro
especial.
Atualidade Contemporaneidade
Adota um critério material.
Adota um critério temporal.
O foro especial se aplica somente a crimes
O foro por prerrogativa de função permanece
cometidos durante o exercício do cargo e em razão
enquanto o agente estiver ocupando o cargo.
das funções.
Se o crime foi cometido fora do exercício do cargo
Se o agente ocupar o cargo, será julgado pelo (antes da posse ou sem relação com as funções), o
tribunal; se deixar o cargo, o processo vai para a foro não se aplica.
primeira instância, mesmo que o crime tenha sido Mesmo que a pessoa já tenha deixado o cargo, se o
cometido no cargo. crime for funcional, o julgamento continua no
tribunal superior.
Exige que o crime tenha sido cometido no exercício
Começa com a diplomação ou posse no cargo.
e em razão do cargo.
Alcança todos os crimes, mesmo os cometidos Abrange apenas crimes funcionais (relacionados ao
antes da posse e sem relação com o cargo. cargo).
O foro é encerrado com a saída do cargo, e os autos O foro pode ser mantido mesmo após a saída do
são enviados à 1ª instância. cargo, se o crime for funcional.
Foca na posição atual do agente, sem avaliar a Foca na função exercida no momento do crime,
natureza do delito. considerando a relação causal.
Permite manipulação da jurisdição pelos réus, que
Na visão de críticos, amplia excessivamente o
podem renunciar estrategicamente para alterar a
alcance do foro privilegiado
competência
Crítica à segunda parte da tese fixada na AP 937-QO
O entendimento no sentido de que cessa o foro com o fim do exercício do cargo gera instabilidade jurídica
(o chamado “sobe-e-desce processual”).
Além disso, essa interpretação contradiz o próprio fundamento da regra da contemporaneidade, que exige
conexão entre crime e função.
A segunda parte da tese fixada na AP 937 favoreceria estratégias de manipulação de jurisdição por parte
dos réus (como renúncias estratégicas para fugir do STF).
Maior estabilidade
A prática demonstrou que a cessação do foro após o fim do mandato gera atrasos, fragmentação de
processos e até prescrição.
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O novo entendimento (manutenção do foro mesmo após o fim do exercício do cargo) estabiliza a
competência, traz maior eficiência e previsibilidade ao sistema de Justiça penal e reduz os efeitos
deletérios do deslocamento de competência.
Súmula 394 do STF
Em essência, a proposta resgata a Súmula 394 do STF, aprovada em 1964, nos seguintes termos:
Súmula 394-STF: Cometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por
prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele
exercício.
Essa súmula havia sido formalmente cancelada pelo STF, em 1999, no julgamento do Inq 687-QO. Agora,
esse entendimento retorna com a decisão de 2025.
O STF passou por diferentes fases interpretativas:
Inicialmente, adotava o sistema da contemporaneidade, cristalizado na Súmula 394, segundo o qual
bastava que o crime tivesse sido praticado durante o exercício do cargo e em razão dele para manter o
foro especial, mesmo após o agente deixar a função.
Em um segundo momento (Inq. 687-QO e cancelamento da Súmula 394), o STF migrou para o sistema da
atualidade, onde o elemento determinante passou a ser a permanência no cargo - cessada a função,
cessava também o foro privilegiado, independentemente da natureza do crime. A Lei n.º 10.628/2002
tentou restaurar parcialmente a Súmula 394, mas foi declarada inconstitucional na ADI 2.797/DF.
Com o julgamento da AP 937-QO em 2018, o tribunal adotou uma posição intermediária, que a doutrina
denominou "sistema da atualidade limitada ou restrita" (Renato Brasileiro de Lima, Manual de processo
penal, Juspodivm, 2023, p. 507). Esta abordagem híbrida combina elementos dos dois sistemas anteriores:
exige tanto que o crime tenha sido praticado durante o exercício do cargo e em razão dele (critério da
contemporaneidade), quanto que o agente ainda esteja no exercício do cargo (critério da atualidade). Esta
fusão de critérios significou, na prática, que qualquer forma de cessação do exercício funcional - seja por
renúncia, não reeleição, aposentadoria ou outro motivo - resultaria na perda do foro especial, com
exceção apenas dos casos em que a instrução processual já estivesse concluída, hipótese em que ocorreria
a perpetuação da competência.
Com o julgamento do HC 232.627 em 2025, o Supremo Tribunal Federal promoveu uma significativa
mudança de entendimento, retornando ao sistema da contemporaneidade anteriormente consolidado na
Súmula 394. Esta nova orientação estabelece que a prerrogativa de foro para crimes funcionais perpetua-
se mesmo após o término do exercício do cargo, independentemente do momento de instauração do
inquérito ou da ação penal, prevalecendo a natureza do crime (crime praticado durante o exercício do
cargo e em razão dele) sobre o cargo atual do agente.
Confira a tese fixada pelo STF:
A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste
mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de
cessado seu exercício.
STF. Plenário. HC 232.627/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 12/03/2025 (Info 1168).
Essa nova linha interpretativa deve se aplicar imediatamente aos processos em curso, ressalvados todos
os atos praticados e decisões proferidas pelo STF e pelos demais Juízos com base na jurisprudência
anterior, conforme precedentes firmados no QO no INQ 687 e na QO na AP 937.
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 12
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DOD PLUS: MANDATOS CRUZADOS E OUTROS JULGADOS
Mudança de entendimento:
Na vigência do entendimento anterior (AP 937 QO/RJ), a jurisprudência do STF e do STJ havia construído
exceções nas quais seria possível estender a regra do foro por prerrogativa de função para situações
excepcionais, como, por exemplo:
A competência penal originária do STF para processar e julgar parlamentares alcança os congressistas
federais no exercício de mandato em casa parlamentar diversa daquela em que consumada a hipotética
conduta delitiva, desde que não haja solução de continuidade. Desse modo, mantem-se a competência
criminal originária do STF nos casos de “mandatos cruzados” exclusivamente de parlamentar federal. STF.
Plenário. Inq. 4342 QO/PR, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 1º/4/2022 (Info 1049).
Havendo solução de continuidade entre os mandatos, não exercidos de maneira ininterrupta, cessa o
foro por prerrogativa de função referente a atos praticados durante o primeiro mandato. STJ. 5ª Turma.
AgRg no RHC 182.049-DF, Rel. Min. Messod Azulay Neto, julgado em 8/8/2023 (Info 785).
As mesmas garantias e prerrogativas outorgadas aos Desembargadores dos Tribunais de Justiça devem
ser estendidas aos Conselheiros estaduais e distritais, no que se inclui o reconhecimento do foro por
prerrogativa de função durante o exercício do cargo, haja, ou não, relação de causalidade entre a infração
penal e o cargo. STJ. Corte Especial. AgRg na Rcl 42.804/DF, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 16/8/2023
(Info 783).
Compete ao Superior Tribunal de Justiça, para os fins preconizados pela regra do foro por prerrogativa
de função, processar e julgar governador em exercício que deixou o cargo de vice-governador durante o
mesmo mandato, quando os fatos imputados digam respeito ao exercício das funções no âmbito do Poder
Executivo estadual. STJ. Corte Especial. QO no AgRg na APn 973-RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Rel. para
acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 3/5/2023 (Info 775).
O novo entendimento firmado pelo STF no HC 232.627 (2025), ao restabelecer o sistema da
contemporaneidade, tornou superadas essas construções jurisprudenciais excepcionais desenvolvidas
para mitigar os efeitos do critério da atualidade limitada ou restrita.
DOD TESTE: REVISÃO EM PERGUNTAS
O que o STF havia decidido sobre o foro por prerrogativa de função, em 2018, na AP 937 QO/RJ?
O STF fixou a seguinte tese, que tinha duas partes:
1) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo
e relacionados às funções desempenhadas.
2) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação de
alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será mais afetada em razão de o
agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).
O que o STF decidiu sobre o foro por prerrogativa de função, em 2025, no HC 232627? Qual foi a mudança
em relação à tese fixada na AP 937?
A primeira parte da tese de 2018 ainda está valendo: O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas
aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas. Isso não
mudou.
A segunda parte da tese foi superada.
O que vale atualmente é o seguinte: A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo
e em razão das funções subsiste mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação
penal sejam iniciados depois de cessado seu exercício (STF. Plenário. HC 232.627/DF, Rel. Min. Gilmar
Mendes, julgado em 12/03/2025).
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 13
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Entendimento fixado em 2018: a autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado Federal etc.)
cometeu um crime funcional durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o delito é do
STF; no entanto, se essa autoridade deixasse o cargo antes do fim da instrução processual, o STF deixava
de ser competente para julgá-la.
Entendimento alterado em 2025 (atual): a autoridade (ex: Presidente da República, Senador, Deputado
Federal etc.) cometeu um crime funcional durante o exercício do cargo; logo, a competência para julgar o
delito é do STF; mesmo que essa autoridade deixe o cargo a competência para julgá-la continua sendo do
STF.
Colaborou com os comentários:
Marco Torrano. Advogado. Professor e editor do site “Pro Leges” ([Link]).
EXERCÍCIOS
Julgue os itens a seguir:
1) É inconstitucional a Resolução 88/2009, do CNJ, que que disciplina jornada de trabalho e limites para
preenchimento de cargos em comissão, no âmbito do Poder Judiciário, pois a resolução viola o pacto
federativo, o princípio da separação e harmonia entre os Poderes, bem como de autogoverno dos
tribunais. ( )
2) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e
relacionados às funções desempenhadas. ( )
3) A prerrogativa de foro para julgamento de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste
mesmo após o afastamento do cargo, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de
cessado seu exercício. ( )
4) Súmula 394-STF: Cometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por
prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele
exercício. Essa súmula havia sido formalmente cancelada pelo STF, em 1999, no julgamento do Inq 687-
QO. Agora, esse entendimento retorna com a decisão de 2025: A prerrogativa de foro para julgamento
de crimes praticados no cargo e em razão das funções subsiste mesmo após o afastamento do cargo,
ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados depois de cessado seu exercício. ( )
Gabarito
1. E 2. C 3. C 4. C
Citação da fonte:
O Informativo original do STF é uma publicação elaborada Secretaria de Altos Estudos, Pesquisas e Gestão
da Informação da Corte na qual são divulgados resumos das teses e conclusões dos principais julgamentos
realizados pelo STF.
O Informativo comentado do Dizer o Direito tem por objetivo apenas explicar e sistematizar esses julgados.
Vale ressaltar que os argumentos expostos foram construídos nos votos e debates decorrentes dos julgados.
Portanto, a autoria das teses e das razões de convencimento são dos Ministros do STJ e do STF, bem como
de sua competente equipe de assessores.
INFORMATIVO STF. Brasília: Supremo Tribunal Federal, Secretaria de Altos Estudos, Pesquisas e Gestão da
Informação. Disponível em: [Link] servico=informativoSTF.
Informativo 1168-STF (18/03/2025) – Márcio André Lopes Cavalcante | 14