0 notas 0% acharam este documento útil (0 voto) 244 visualizações 196 páginas Jornadas 1parte
O documento apresenta as conferências da Fase I das Jornadas de Direito Criminal, destacando a importância do novo Código Penal Português e sua interpretação. O discurso do Ministro da Justiça enfatiza a relevância da discussão pública sobre as mudanças legislativas e a crítica ao sistema punitivo, defendendo a necessidade de um equilíbrio entre prevenção geral e a reabilitação dos delinquentes. A análise sugere que a severidade das penas não é o principal fator de dissuasão criminal, mas sim a certeza de punição e a legitimidade das leis.
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Centro de Estudos
Judiciarios
JORNADAS
DE
DIREITO CRIMINAL
O Novo Cédigo Penal
Portugués
e
Legislagéo Complementar
is
FASE ICom a publicagéo do presente volume, o Centro
de Estudos Judicidrios divulga 0 texto das conferéncias
Proferidas na Fase I das Jomadas de Direito Criminal
© presta, do mesmo passo, homenagem aos autores dos
Primeiros trabalhos de interpretagio e elaboracéo
dogmatica, realizados sobre 0 novo Cédigo Penal
¢ legislagao complementar.
LISBOA, ABRIL DE 1983
"~__) SOMFOSTO E IMFRESSO Na ESCOLA THOGRARGA
DO INSTITUTO PADRE ANTONIO DE OLIVEIRA ~ CAXIASSenhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiga,
Senhor Provedor de Justia,
Senhor Secretério de Estado da Justica,
Senhor Procurador-Geral da Reptblica,
Senhor Professor Doutor Eduardo Correia,
Senhor Director do Centro de Estudos Judiciérios,
Senhoras e Senhores *
Em primeiro lugar desejo manifestar o meu agrade-
cimento ao Senhor Professor Doutor Eduardo Correia
por ter acedido a proferir a primeira palestra nestas Jor-
nadas de Direito Criminal. A sua contribuigao decisiva
para a elaborac’o do novo Cédigo Penal impunha que
Ihe pertencesse 0 «lugar de honra» e dai a minha satis-
fac&o por estas Jornadas poderem vir a ser (necessaria-
mente assim aconteceré) mais do que a c
de um Jurista eminente, a exaltagéo de uma Escola que
© Professor Eduardo ‘Correia soube criar e desen-
volver.
* Discurso proferido, em $ de Novembro de 1982, pelo Minstro da Justia, Dr. José
‘Menéres Pimentel, na sessio de abertura das Jornadas de Direito Criminal, realizada
‘na Aula Magna da Reitoria da Universidade Classica de Lisbos.A direccaio do Centro de Estudos Judiciarios recebeu
com entusiasmo a minha sugestio de 0 novo Cédigo
Penal ser estudado e divulgado em sessdes piblicas
a realizar a partir da data da sua publicagao. A organi-
zagio das Jornadas de Direito Criminal corresponde
cabalmente ao desenvolvimento eficaz de tal sugestéo
€ traduz 0 bom empenhamento do Centro de Estudos
Judicidrios. A anuéncia dos conferencistas, cuja cate-
goria cientifica é indesmentivel, a adestio de tao nume-
Tosa assisténcia que se compoe na sua maior parte
de proximos aplicadores do Cédigo Penal, é a manifes-
tagdo mais inequivoca da utilidade e' da bondade
desta realizagao. Por tudo isto, seja-me permitido mani-
festar 0 meu apreco por quantos se empenharam e se
empenham nas Jornadas que ora se iniciam e o meu
agradecimento aos docentes universitarios e aos juristas
que decidiram proferir as conferéncias a que iremos
estar atentos.
Nao se estranharé que a publicagaio do novo Cédigo
Penal, pela relevancia das mudangas que a sua aplica-
40 acarreta, tenha sido acompanhada de criticas ¢ tenha
encontrado alguns detractores. O estudo atento e sério
que 0 espago e o tempo destas Jornadas possibilitam con-
duzira certamente ao desmantelamento de muitas dessas
ctiticas ¢ ao esclarecimento dos detractores que revelem
disponibilidade e abertura para o didlogo.
Gostaria nesta altura de me pronunciar sobre uma
dessas criticas dada a sua frequéncia e a sua relevancia
pratica.
Com efeito, ouve-se repetidamente dizer que 0 novo
Cédigo consagra um sistema punitivo que por tradu-
zir-se num sensivel abrandamento das penas de pris4o
representaré, pelo menos, uma imprudéncia grave
e injustificada.
‘A afirmaco assim produzida entronca, afinal, na
geral problemdtica dos objectivos essenciais da lei penal
€ da justiga criminal. O que esta em causa é ainda a falsa
convicgao de que a existéncia das sansdes penais, e mais
do que isso, a severidade delas, constitui um instrumento
fundamental da prevengao criminal, na medida em que
seria elemento fortemente dissuasor de futura delin-
quéncia.
‘A primeira metade do nosso século coincidiu com
uma nitida manifestacao do acrescido interesse pelo
estudo da prevencdo especial enquanto objectivo fun-
damental do direito e da justica penais.
Porém, apés este desenvolvimento na pesquisa cien-
tifica e na politica criminal no sentido da busca demedidas penais e terapéuticas acentuadamente indivi
dualizadas destinadas a evitar a reincidéncia dos deli
quentes, assiste-se, hoje em dia, no prosseguimento
duma tendéncia que teve 0 seu nascimento hd cerca
de vinte anos, a uma renovada preocupacdo pelo objec-
tivo da prevencao geral. Na base desta mudanga signi-
ficativa estar a conclusio de que as medidas preven-
tivas especiais gizadas e aplicadas nos iltimos tempos
nao teriam logrado obter a eficdcia esperada e desejada.
O exame de varios trabalhos cientificos e de acgdes
de politica criminal empenhados e muito onerosos teriam
redundado numa descrenga palpavel na possibilidade
de combater a criminalidade através dum tratamento
especifico e comleto dos individuos que j4 delinquiram.
Do mesmo passo e compreensivelmente as atengdes
voltaram-se para uma perspectiva de prevengao geral,
pesando a viabilidade de transformar o sistema penal
em instrumento de influéncia benéfica e conseguida
de motivar aqueles que nunca cometeram qualquer
infracgao.
Note-se, entretanto, que o acrescer da atengao sobre
a problemitica da prevengio geral veio a traduzirse
na conclusio cientificamente adquirida de que, ao versar
esta matéria nas suas diversas atinéncias, se toca um
campo vasto e multiforme composto de realidades diver-
sas € sobre o qual existem postulados que nao resistiram
a uma critica aprofundada.
Neste sentido aponta um importante estudo efec-
tuado no Ambito do Conselho da Europa cujas conclu-
soes finais se contém num relatério produzido em 1980
pelo «Comité européen pour les problémes criminels».
Foi verificado que o resultado do efeito da preven-
Go geral nfo radica apenas na existéncia do conjunto
das disposigdes do direito penal e da ameaga decorrente
do estabelecimento abstracto de sangdes respectivas.
O mais importante nesta matéria € a aplicaco concreta
da lei através do funcionamento efectivo do sistema
judicidrio, especificadamente da justiga criminal.
Nesta perspectiva, a aplicacdo das leis penais actua-
liza 0 efeito preventivo que ‘se encontra latente, em
poténcia, em qualquer preceito que preveja e sancione
um ilicito criminal.
‘Além disso, as pesquisas realizadas puseram em di-
vida_um dos postulados basicos do entendimento
clissico da tese da prevengao geral, precisamente 0 pos-
tulado consistente na afirmagao de que a severidade
das penas ¢ 0 risco de ser descoberto teriam um efeito
pratico de intimidagio mais ou menos equivalente.De facto, alguns tém admitido que o efeito da diminui-
¢40 do risco de se ser descoberto poderia ser compen-
sado por um aumento da severidade das penas comi-
nadas, mas a concluso deverd ser a de que € desejavel
manter um mesmo grau de intimidagao num sistema
em que a introdugaio de penas mais benévolas seja asso-
ciado a um aumento de risco de se ser descoberto,
As mesmas pesquisas conduzem a conclusio de que
a certeza subjectiva de se ser punido, que existe acima
de tudo em fungao do risco consciente de se ser des-
coberto, desempenha um papel mais importante no
esquema da intimidaco do que a severidade das sancdes
abstractamente estabelecidas.
Os estudos sobre a atitude dos delinguentes e sobre
a atitude da populagao em geral face @ aplicagao da lei
tendem a provar que o temor de se ser descoberto
€ mais importante do que qualquer outro elemento do
processo de aplicagao da lei penal.
Além disso, esses mesmos estudos concluem ainda
no sentido de que, observado 0 efeito das sangdes penais
sobre a taxa de criminalidade em geral e sobre a fre-
quéncia de certas infraccdes, nao existe correlagao entre
a severidade das penas e a intimidagio. Pelo contrario,
tem-se confirmado a justeza da tese segundo a qual
© efeito da intimidagao aumenta com o risco de se ser
descoberto. Dito de outra forma, parece que na maior
parte dos dominios a melhor maneira, talvez a tnica,
de reforgar 0 efeito da intimidagio consiste em aumentar
© risco conhecido de se ser descoberto afigurando-se,
pelo contrério, indtil agravar simplesmente as penas.
Mas existe e este ponto nao € despiciendo, muito
pelo contrario, uma correlagdo estreita entre a gravidade
da pena e a condenaciio moral do comportamento deli-
tuoso, na medida em que a lei e a pena sejam conside-
radas justas © legitimas. Se se considera ilegitima uma
lei, porque se contesta autoridade ou a competéncia do
Estado ou dos agentes encarregados de aplicar a lei e de
administar a justia penal, tanto em geral, como em par-
ticular, a mais grave das sangdes nio chegara a tornar
moralmente condenavel o comportamento em questio;
pelo contrario, a condenacao moral pode voltar-se contra
08 responsaveis deste género de leis e de sangdes. Acon-
tece o mesmo em relagdo as leis e 4s penas que sio
consideradas extremamente injustas, quer porque existe
contradigao evidente entre a importancia ou a gravidade
do acto, tal como é geralmente considerado, ¢ a severi-
dade (ou a benevoléncia) da pena, quer porque se veri-
fica que 0 acto & cometido por um grande nimerode pessoas, das quais s6 uma pequena parte, ¢ mesmo
assim apenas esporadicamente, € descoberta e punida,
Ora uma andlise desapaixonada verificard que
a medida das penas cominadas no Cédigo publicado
em Setembro iltimo se adequa ao sentir profundo
da comunidade portuguesa e & prética da nossa jurispru-
déncia. Alids, a aceao do Ministério da Justica, através
das medidas jé efectivadas, e, mais ainda, mediante a exe-
Cugao prética das reformas em curso, das quais desta-
carei_a relacionada com a publicagéo de um cédigo
le proceso penal e a consistente na reformulagdo
da actual organizacao judicidria, tende a obter uma maior
eficacia na referida descoberta e na perseguigdo pro-
cessual das condutas criminosas.
Acentuarei, por fim, que as afirmagdes precedentes
hao significam que no’ ponto dos objectivos essenciais
da justiga criminal se seja exclusivista e unilateral,
Pelo contrério, acreditase na necessidade de repro.
vacao ética do delinquente © aposta-se na sua reitser.
¢40 social,
Nestes termos, declaro abertas as Jomadas de Direito
Criminal ¢ solicito a palavra ao Senhor Professor Doutor
Eduardo Correia.
AS GRANDES LINHAS
DA REFORMA PENAL
PELO PROF. DOUTOR EDUARDO CORREIA1. O Direito Criminal aparece, de muitos lados, posto sob sursis,
est colocado sob «condenagao condicional».
E, assim, que, por exemplo, se fala com cepticismo na possibilidade
de ressocializagéo ou de Teinsercao social dos delinquentes: — Como
se fosse possivel, no que tange a penas varidveis de privacdo de liber-
dade, excluir tal finalidade, transformando a execugdo da pena~em
mero depésito preventivo: como se a aboligao, constitucionalmente
consagrada, da pena de morte e das penas perpétuas (n.° [Link] art. 24.°
© art. 30.° da Lei Fundamental), nao radicasse na esperanga, na
capacidade de réabilitagdo de todos, todos os homens; como se o di-
reito comparado (p. ex., 0 italiano e o espanhol) a nio consagrasse
constitucionalmente, como fim de toda a Punicdo, como se um tal
cepticismo nio comportasse 0 perigo de regresso a defesa da pena
de morte e das penas perpétuas.
Reclama-se, por outro lado, a prioridade da prevengdo geral:
— Como se isso nfo envolvesse a Possibilidade de transformar
© direito penal em direito de terror; como se fosse possivel fixar
‘com precisdo 0 seu quantum intimidativo; e o seu Préprio conceito
nao visse a variar de ameaca Psicolégica — custos, beneficios —,
assim se materializando ¢ violando a dignidade humana, principio
constitucional, positivado (art. 1.°).2 Jornadas de Direito Criminal
Todos, alis, sabem —j4 KANT e HEGEL o sublinhavam —
que a prevencao geral € como o pau ou o cajado com que se ameagam
os homens. Por sua vez, a aboligéo da culpa na fundamentagio
do direito penal tiraria aos aparethos do Estado toda a legitimidade
para punir. A culpa, partindo da dignidade humana, ter4, antes, que ser
sempre fundamento, ou, ao menos, limite da pena.
A finalidade ou utilidade que alguns apregoam, bem poderia criar
aquele perigo de que se falava no verso de SCHILLER: «Desconfiai,
nobre senhor, no julgueis justa qualquer medida, s6 porque ela 6 itil
a0 Estado».
De todo 0 modo, continua a lutar-se, no direito penal, «entre um
realismo» que faz ressurgir a teoria medieval dos universais, e um nomic
nalismo, voluntarismo ou pragmatismo, que conduz a possibilidade
de violagio dos direitos fundamentais.
Como sublinhava EXNER, que 0 nosso saudoso mestre BELEZA.
DOS SANTOS parafraseava: «os homens continuam sem desinimo
@ discutir o fim das penas sem nunca deixarem, todavia, de as infligim,
Ciclicamente, desde os pré-socraticos aos sofistas, dos tempos me-
dievais ao humanismo, no quadro das grandes escolas idealistas,
subjectivas ou objectivas, pasando pelo utilitarismo de um BEN-
THAM, STUART MILL e SPENCER, da ontologia de HUSSERL
a ética de SCHELER, do existencialismo de SARTRE ao de HEI-
DEGGER, do estruturalismo aos funcionalismos modernos, das cri-
ticas de um FOUCAULT aos modemos defensores da retribuicao,
que, segundo KELSEN, esté sociologicamente na origem da propria
causalidade — desde sempre, e ndo queremos alongar-nos, se vai es-
quecendo © equilibrio apregoado por um V. LISZT, hoje redivivo,
‘a0 escrever: «hi pessoas que 56 conhecem tese e antitese, corpo e alma,
natureza e espirito, realidade ¢ valor, poder e dever, ou como quer que
the chamem». Elas podem gabar-se do seu método puro, dos seus con-
ceitos clissicos, da sua argumentagto segura. Pelo contrério, aquele
que, para além das antinomias, procura, tacteando, uma unidade
superior, ndo tem nenhum guia a protegé-lo, contra passos errados,
Mas s6 ele pode esperar que uma hora feliz Ihe possa abrir caminho
Para o ponto alto, do qual, na sintese criadora de uma concepeo uni-
téria do mundo, se superem todas as aparentes antinomias.
As Grandes Linhas da Reforma Penal 2
2. Mais preocupante do que tudo isto, 6, porém, a pretensio
de substituir, como jé alvitrava RADBRUCH, 0 direito penal por coisa
melhor e diferente.
Ensaiando esse caminho, fala-se de «ndo intervengo» ou de «di-
verso», que em larga perspectiva se faz coincidir com uma dejuris-
dicionalizacdo, aconselhando uma nao interven¢ao dos Orgdos judi-
ciais; entregando a sociedade, a ela propria, aos seus grupos
€ comunidades, a fungdo de resolver todos os seus contflitos, mesmo
ue possam ter ressondncia penal, mediante conciliagdes e mediacdes,
no controladas pelos tribunais.
Ora, esta negagio da regra, que FEUERBACH, lapidarmente, for-
mulava no brocardo nulla poena sine juditio, viola, afinal, toda a lege-
lidade e todo o Estado de direito. Com a pretensio de se furtar ao
controlo judicial, ¢ de remeter para a sociedade, contra o art. 206.°
da Constituicdo, a solugdo dos seus conflitos (penais), nao se consegue,
afinal, evitar 0 estigma e o labéu que, sociologicamente, acompanha
sempre o crime e marginaliza os seus agentes, € permite composicdes
€ mediagdes usurérias ou violentas. E, desta sorte, se vem a consentic
— como a histéria nos ensina — que seja a forga a impor-se, negando
© principio que, nos seus versos, CICERO aconselhava cedant arma
t0gae 7
Como se a toga, a veste da justiga, nao fosse, afinal, o pressuposto
da seguranca, da legalidade, do respeito das garantias e direitos funda-
mentais dos homens. Sem tribunais ou fora deles, a decisio dos
conflitos sociais, nomeadamente penais, perde toda a forga da sobe-
rania que Ihe empresta a propria Constituigao.
E nem o estigma se evita, como se disse. Ele ¢ o labéu sempre se
seguirdo, sociologicamente, aos comportamentos criminalmente des-
viantes, sendo certo, por outro lado, que 0 novo Cédigo Penal
(art. 65.°) consagra o principio, jé tornado constitucional (art. 30.°,
n° 4), de que «nenhuma pena envolve, como efeito necessério,
a perda de direitos civis, profissionais ou politicos».
Pelo caminho apontado nada se ganha, assim, no que tange a0
labéu © lesa-se 0 principio da legalidade do Estado democritico,
segundo 0 qual os tribunais devem senipre resolver os conflitos de
interesses com ressondncia criminal. Os juizes, todos os que traba-
Tham nas decisdes judiciais penais, s&0, deste modo, essenciais para
garantia do Estado de direito. Honra thes seja e daqui os satido2 Jornadas de Direito Criminal
© cumprimento efusivamente pela nobreza da fungéio que desem-
penham.
3. Mas, dando como boas estas ideias, que direito é esse que o novo
‘Cédigo Penal vem consagrar?
Naturalmente que um direito que hé-de ser conforme as normas
da Lei Fundamental.
Dai que as restrigées as liberdades e garantias fundamentais dos
individuos que esse direito comporta, hdo-de ter sempre um fundamento
constitucional e, portanto (n.° 2 do art. 18.°), limitar-se ao necessério
para salvaguardar direitos constitucionalmente protegidos.
Num Estado democritico, como 0 nosso, devem, assim, os limites
‘méximos do Ambito da legislagdo penal (art. 28.° ¢ seg. da Constitui
G0), aferirse no sentido jt apontado por BECCARIA, pela sua neces:
sidade.
___Nesse quadro, a afirmagao criminalmente protegida de certos bens
juridicos, hé-de por ela limitarse. Sé que essa necessidade de defesa
€ protecgdo nao deve ser arbitréria, ou de qualquer tipo conceitual,
como seria a que partisse da ideia de um minimo ético JELLINEK),
de saiide piblica (BECCARIA), ou da sua particular importancia para
8 organizagto da vida em sociedade. Ela deve antes ser, desde logo,
limitada materialmente, pela maior coincidéncia possivel com uma
concepeao maioritéria ¢ obtida através dos Srgios constitucionais
competentes (art. 168.°). Até porque, deste modo, se reduzirao ao mt
rnimo 0s conflitos entre a visto do Estado e a dos particulares, entre
a lei penal e a consciéncia de cada um, limitando, até um limite
ossivel, os chamados crimes de consciénci
42) Por isso, também, a vantagem da descriminalizagao, que o novo
Cédigo Penal adopta, sensibilizada pela hipertrofia dos casos subme
dos aos tribunais, hipertrofia que the retira, em larga medida, a sua
dignidade funcional.
Descriminalizacéo que, alids — note-se —, nao significa a
e, +n iprovacdo
ou aplauso. Ainda que eticamente censuriveis, as violagdes de certos
interesses ou valores,o Estado, por razdes de politica criminal, entende
preferivel ficar neutro e nao as punir.
AA isso se juntam a dispensa dos custos dos sistemas jurisdicionais,
a destigmatizagio juridica que Ihe corresponde e a conveniéncia
de evitar a selectividade dos aparelhos do Estado,
AAs Grandes Linkas da Reforma Penal 23
b) A redugao do circulo de proteceao de bens juridicos, pode, aliés,
também fazer-se pela limitago dos meios de ofensa, como pelos meca-
nismos da queixa ou da isengio da pena, que o novo Cédigo larga-
mente ilustra.
c) O mesmo se diga relativamente aos elementos constitutivos
de certos crimes sexuais. Como, de uma maneira geral, o precisar
da tipicizagao dos crimes contra o Estado pode conduzir a uma des-
criminalizagao pratica,
4. Ora, todo este caminho de fixagdo material e formal da ilicitude
criminal foi seguido, como veremos, pelo novo Cédigo Penal. Ai est
© principio da legalidade ou da tipicidade, que a Constituigao garante
(art. 29.°) e 0 novo Cédigo Penal consagra (art. 1.°), integrado, aliés,
pelo principio da lei mais favordvel, que vai ao ponto de mandar
aplicar, em certos casos (art, 6.°) a lei estrangeira.
Obrigatoriamente testada pela lei constitucional competente, a vio-
lagdo de bens juridicos, que podem ser abrangidos pelo direito cr
minal, v8 por vezes © seu Ambito limitado pela ponderagao de inte-
resses, pela teoria dos chamados elementos negativos ou causas de ex-
clusio de ilicitude. E nesta matéria o novo Cédigo, numa inovagao da
maior importincia e relevo, dispOe no seu art. 31.°: «0 facto ndo ¢ cri-
minalmente punivel quando a sua ilicitude for exclufda pela ordem
juridica considerada na sua totalidade».
E logo exemplifica com a legitima defesa; 0 exercicio de um direito;
‘ocumprimento de um dever imposto pela lei ou a ordem juridica da au-
toridade, € com 0 consentimento do titular do interesse ofendido.
(O que, naturalmente, nao impede que outras circunstancias, como
a realizagio de legitimos interesses, o risco permitido, etc., largamente
completem.
A ponderagao da ordem juridica no seu conjunto, como limite da
ilicitude criminal objectiva, tem, por um lado, a vantagem de garantir
aunidade total do direito. S6 que a indicagdo tipificada de alguns casos
de exclusio da ilicitude, poe em relevo a autonomia que esta ponde-
ragdo ou caréncia de interesses pode implicar. Assim, por exemplo,
6 manifesto ser mais amplo o conceito de estado de necessidade no
novo Cédigo Penal, do que no Cédigo Civil.
Fala-se, neste, (art. 339.°), em acgaio que destréi ou danifica coisa
alheia, 0 que manifestamente parece excluir 0 sacrificio de interessesPessoais. Jé assim no & porém, no art. 34.° do Cédigo Penal, que
admite o sacrificio de bens pessoais, nao distinguindo a natureza dos
interesses em estado de necessidade, embora guardando as reservas
Previstas nas alineas a), b) ¢ e) do mesmo artigo,
Por outro lado, quando se consagra a autonomia do conflito de
deveres nos termos em que é feita (art. 36.°), pode serse conduzido
4 solugdes da maior importneia em certos problemas de direito penal,
‘Ao contritio, a ndo referéncia a obrigacao de indemnizago no es.
tado de necessidade (art. 34°), levantara o problema da sua integragao
pelo n.° 2 do art. 339.° do Cédigo Civil, iluminado pelas regras
Contidas na Constituigéo (art. 62.°).
_ Sem querer alargar esta matéria da ilicitude ¢ sua exclusio, néo
deixaremos ainda de apontar o consentimento, que altera os termos em
que o problema era colocado no direito anterior.
5. Mas se, por um lado, assim, se limita o Ambito de ordenagdo dos
bens juridicos, logo, por outro lado, ele se alarga, quando se regulam
08 crimes de comissio por omissao (art. 10.°)..
© dever de auxilio, previsto no art. 219.°, em manifesta conexio
‘com a teoria dos crimes de comissio por omissio, exprime uma ideia
de solidariedade social que, no actual Cédigo Civil se consagra, ¢ que,
a0 contrario do Cédigo de Seabra, ndo se acentua no actual Cédigo
Civil $6 h& que lembrar os possiveis problemas de concurso apa-
rente que se suscitem.
O alargamento das formas de violagao dos bens juridicos envolve,
‘como se disse, um aumento dos limites do direito criminal. J4, por outro
lado, isso milo nos parece acontecer relativamente as formas do crime
de (tentativa, comparticipagio e concurso — arts. 21.° a 30°). E que
cessas formas de comportamento so dominadas pela ideia de causa-
lidade relativamente & violagio ou perigo de violagéo de bens juridicos
criminalmente protegidos.
6 Alargamento que, porém, jé se verifia na Parte Especial
(arts. 253° © seg), pela punicdo dos crimes de perigo comum, con-
‘eretos ou abstractos, que, ligados a actividades ditadas pelo progress
pela técnica, impdem que se preveja a sua puniglo, a titulo de dolo ou
negligéncia, ds respectivas formas de aovdo que, repetimos, sendo por
vezes necessirias, io a um tempo perigosas. Punem-se, em suma,
108 excess0s de risco calculado.
Ke
‘As Grandes Linhas da Reforma Penal [®
1
7. Ao contratio do que pretendia BECCARIA, uma violagdo ou pe-
tigo de violagao de bens juridicos nao pode desprender-se das suas for-
‘mas de imputagao subjectiva, da responsabilidade, culpa ou censura,
que Ihe correspondem.
Enneste dominio tem-se verificado uma evolugao que seguramente
no nos cabe aqui, nem possivel, desenvolver.
Essa solugdo esté, de resto, ligada a0 quadro que se vem tendo
do homem, as necessidades da sociedade que o integra, ads fins das
penas a que se adira e & solidariedade que se deve a todos, ainda que
criminosos.
8, De qualquer maneira, que ela se nao baste como uma pura
relagdo psicol6gica, € coisa que parece indiscutivel. Todos sabem que,
na filosofia do nosso Cédigo, se optou por uma culpa conereto-
-normativa, Isto quer dizer que, em principio, o legislador se decidiu
pela necessidade de um suporte relacionado com a personalidade
do delinquente, integrado pelas necessidades de proteccao e defesa
da sociedade.
9. Antes de tudo, e porque a culpa, partindo de uma censura ética
pressuposta pela dignidade humana, recusa-se a instrumentalizar 0s ho-
‘mens, e tlai que a responsabilidade hé-de ser, em principio,individual
(art. 11.°), Mas logo se completa pela responsabilidade de actuagdio em
nome de ontrem (art. 12.) ¢ por uma definicao rigorosa e material das
formas de pertinéncia, de suita, do facto ao agente: dolo directo,
necessirio ou eventual, e, em casos contados, a negligéncia que
também se define no art. 15.°
10. Por outro lado, nessa visio material de culpa, toma-se posicao,
arrancando de uma moral inata ou fruto de aprendizagem sobre os efei-
tos do erro na factualidade (art, 16.°), sobre a ilicitude, limitando-se
agravagio pelo resultado, pela possibilidade da sua imputacdo
a titulo de negligéncia.
= FIBLIOTEC26 Jornadas de Direito Criminal
11, No que toca a imputabilidade como pressuposto da culpa ou da
censura penal, continua o novo Cédigo a fixi-la formalmente nos
16 anos.
Mas, a um tempo, ¢ considerando os particulares aspectos da cri-
minalidade dos 16 aos 21 anos, tomaram-se medidas, (nos termos do
art. 9.° do Codigo Penal ¢ por forga do Decreto-Lei n.° 401/82,
de 23 de Setembro), que vao ao seu encontro: a atenuagdo da pena
(art. 4.°); a capacidade subsidiaria da legislacao de menores (art. 5.°);
imposicao de detencdo obrigatbria em vez de prisio (art. 8.°);
© internamento em curta detengao (arresto?); as regras especiais
de execucdo da prisio, etc., matéria altamente de saudar.
12, Por outro lado ainda, admitiu-se uma nogdo material de impu-
tabilidade relacionada com a culpa (n.° 1 do art. 20.°) que abrange
a imputabilidade sensivelmente diminuida (n.° 2 do art. 20.°),
S6 que — e isso € uma singular particularidade [Link] Cédigo —,
arrancando-se dessa perspectiva, nao deixou de se considerar a impu.
tabilidade vista pelo lado da prevenco geral e da ressocializagao,
E, assim, a comprovada incapacidade do agente para ser influen-
ciado pelas penas (v. g., incorrigibilidade — art. 20.°,
ser indice da inimputabilidade.
Transita-se, desta maneira, de uma concepcio — ligada ao funda-
mento ético da punigéo — em que 0 poder de avaliar a ilicitude
do facto e de agir de harmonia com essa avaliagio, pressuposto
basico, para uma ideia de inimputabilidade baseada em néo ser
susceptivel de intimidagdo ou de se reinserir socialmente, através
de penas.
13. E com isso toca-se um problema fundamental no nosso ramo
de direito: a transigtio de um direito penal, baseado na culpa, para um
direito de seguranga, cura ou tratamento, em suma, um direito
de defesa social.
14, Reconheceu-se, por outro lado, para os inpputaveis, a exclusto
da culpa resultante da impossibilidade razodvel do agente actuar
de outra maneira,
$6 que, nao como cléusula geral, mas como forma tipicizada
de exclusto da culpa,
‘As Grandes Linhas da Reforma Penal a
B, emim, que a clhusula 36 se refere a certos bens juridicos: vida,
integridade fisica, honra ou liberdade. Relativamente a outros bens
juridicos, a pena pode ser atenuada ou o agente isento de pena, se se
verificarem os restantes requisitos da nio exigibilidade.
Eevidente que a exigéncia da razoabilidade de se nao poder ex
um outro comportamento, segundo as circunstancias, tira a tal causa
da exclusio da culpa, a natureza de um direito, como queria
MAURACH,
A razoabilidade, segundo as circunstincias, de se exigir um outro
comportamento, nao seré, pois parece-nos, construida sob o homem
conereto, como queria FREUDENTHAL. Isso conduziria, como ja se
disse, a um amolecimento dsseo do direito penal — mas de um homem
integrado socialmente, no sentido de que, tirante essas circunstancias,
ele ndo praticaria o crime. Nao é, pois, uma culpa na cabeca do juiz,
mas uma culpa referida as exigéncias de defesa da sociedade, vilida
para um homem médio.
E se se argumentar que, assim, se regressa a uma culpa objectiva,
‘a uma culpa por viver em sociedade, bem se pode dizer que a alinea f)
do art. 72.° Ihe responde, ao considerar a culpa pela nao formacao
da personalidade como elemento da medida da pena dentro da mol-
dura penal do facto.
Os perigos de imprecisoes na medida dessa culpa, no serdo, aliés,
maiores do que os que se verificam no quadro do Spielraum, na culpa
pelo facto, € possibilita afastar, através de uma ndo exigibilidade
razodvel, uma imputagao de responsabilidade objectiva.
ci
15, Mas, se na parte dogmética, 0 novo Cédigo consagra as solu-
‘ges que parecem as mais equilibradas, como largamente ja aceites
pela ciéncia e jurisprudéncia portuguesas, no dominio da penologia,
© sistema punitivo revela, em nosso entender, grande progresso ¢ mo-
demidade,
‘Vejamos: como é sabido, o novo sistema, no que € acompanhado
pelos sistemas punitivos de direito comparado, arrancou da ideia28 Jornadas de Direito Criminal
de que nio 6, por enquanto, possivel preseindir das penas privativas
de liberdade. Elas so, por toda a parte, a ultima ratio dos sistemas
Punitivos.
Mas se assim é por um lado, no deixou também de se terem
Dresentes togos os males que envolvem. Dai a ideia de as fazer regular
de forma a que esses males se reduzam ao minimo: se transformer em
males estritamente necessdrios. E o primeiro passo para isso foi redusir
8 seus limites minimos e méximos (art. 40.°), embora em grau menos
extenso do que se propunha,
Na verdade, continuamos ligados a méxima que j& MONTES.
QUIEU sublinhava —e a moderna ciéncia confirma — «Qu’on exa:
‘mine la cause de tous les relachements, on vera qu’elle vient de limpu.
nité des crimes et non de la modération des peineso: mais que a gravit
dade das penas, intimida © tem uma alta funcdo pedagégica o grau
de probabilidade de clas virem a ser aplicadas,
16. Em relagdo a isto, poder& dizer-se que, ao menos os limites
‘minimos e méximos da pristo, néo sao teoricamente muito rigorosos,
Tem de aceitar-se que nao seria possivel ex abrupto reduzir todo o si
{ema punitivo a penas cuja medida ndo estaria em conexio com a par.
\icular gravidade de certos crimes e, por outro lado, que aideia de pre-
Yeneo geral a que em certos casos nio & possivel renunciar, exige
ue se mantenham como reacgdes de choque certas penas,
Mas, © novo Cédigo obviou a determinados desses males pela
consagragdo da prisio por dias livres (art. 44.°); pela substituigao
lessas penas por multa (art. 43.°); pelo regime de semidetencae
(art. 45.°); pela suspensdo da pena (art. 48.°); pela organizagao do
regime de prova (art. 53.2); quanto a penias ameagadas por tempo
nio superior a trés meses, pela admoestacao (art. 59.2); pela pres
{avio de trabalho a favor da comunidade (art, 60.°); pela libprdade
condicional © até pela dispensa de pena (art. 75.°); tudo na senda
de recomendagdes do Conselho da Europa,
For outro lado, a liberdade condicional (art. 61.°) funciona, em cer
tas hipoteses, de forma obrigatéria (art. 61.°, n.° 2),
17. Deve ainda acentuarse que o legislador, fixando o limite
maximo de forma, por vezes, rigorosa, parte de um limite minimo
muito baixo, © que dé grande maleabilidade a moldura penal,
As Grandes Linhas da Reforma Penal 29
18, Observe-se também que a multa é largamente utilizada. Para
além de tudo isto, o Cédigo, alis, em consondncia com a Constituicao,
fez desaparecer 0 efeito infamante das penas, ndio See
efeito automatico a perda de direitos civis, politicos e profissi
art. 65.9). | ;
: ‘Temos, assim, que todo o labéu, todo o estigma juridico, se dilui,
ficando apenas a possibilidade aut6noma ou paralela de cominar penas
art, 66.° © seg.
Tp aaieabtiieds destas, a ideia que a demissio nao pode ter por
contetido a perda do direito a aposentacdo, a possibilidade da sua i
bilitagio antecipada ou condicional (art. 70.°), torna essas penas ac
sbrias de carécter punitivo, antes que infamante,
19. O mesmo se diga da interdigio de profissdes como medidas
de seguranga, com efeito, sobretudo, de incapacitagio.
20. De qualquer mania, inaugurowse um sistema, que a Const
tuigio aplaude, de que a pena de prisio tem natureza unitéria,
rifvel na sua duracao.
21, Ha, porém, uma negra, no novo Cisigo Penal, da maior impor
tincia relevo, que importa também subliar sauder: @ que
de forma obrigntéria,depoe que, endo aplicivels penas pivativas
de liberdade ¢ outras nao institucionais, a preferéncia deve dar
Se ee ar ee
mento, que ja SCHLITER aconselhava: o de esvariar as prisde
(art. 71.°).
22. £, por outro lado, mister lembrar que mesmo quando se api
quem penas de prist, a sin exeoueto, nos termes do art. 42°,
conjugado com o DecretoLei n° 258/79, de 1 de Agosto ¢ regu
por um sistema que, resalvando os dietosfundamentais do eclus,
0 tena resscilizar ou reinseresocalmente, luz de um plano ind
vidual de resuperago,desnado no a uma rogenerasio itera, mas,
meramente, &-sua reforma legal, como se exprimia 7
no sentido de o preparar para ndo praticar futuros crimes.30. Jornadas de Direito Criminal
E seguramente uma intervencdo do Estado que nio poe pro-
Dlema de fazer do réu um sAbio, um santo ou um herd, que ndo lhe tive
© direito de ser diferente, que n8o 0 quer obrigar a aderir as con.
cepedes do Estado, mas tdo-s6 que vem reforgar 0 seu modo de ser,
Para fugir & tentagdo de reiterar o crime no futuro,
E tudo isto, olhando-o como sujeito, como colaborador, até onde
Sela Possivel, no processo da sue reinsereao social, Alias, essa inter.
Yenglo € uma agressio na esfera dos particulares, no sentido resso-
lalizador, que se destina a evitar a reincidéncia,
23, Nao podemos, neste rpido excurso, desenvolver estas ideias,
Mas, seguramente, o que fica dito nao é contrariado pela conclusio
Pessimista de FOUCAULT, no seu lio Surveller et Punir, que julga,
esteriotipar o gesto © o comportamento dos delinquentes para esterio.
Lipar @ sua alma, A reinsereo & um principio de adesdo voluntaria,
© quando assim nfo suceda mal vai ao delinquente, porque entice
2 prisio ter mero efeito preventivo, baseado na intimidagio desses
estipidos monumentos de pedra que sio as prisdes sobretudo fechades,
‘A ressocializacao €, por sua vez, tonificada por uma assistencia de tra,
balhadores sociais, que se procura organizar (Decreto-Lei n.° 319/89,
de 11 de Agosto), descentralizada e desligada dos Servigos Prisionais,
com uma orientagio tanto quanto possivel controlada jurisdicio.
nalmente.
24. Por outro lado, a possibilidade de substituir a multa (art 46°),
Zaceao no institucional por natureza, fixada em dias e correspon.
Gants & um valor de 200 a 10.0005, fixada em fungio da situayao
Pnanceira do condenado ¢ dos seus encargos sociais por dias de man
balho, como jé v. LISZT recomendava, o deferimento, a redugaoe ae
Asencio do seu pagamento (art. 47.°), so outros tantos caminhos para
Assegurar a sua flexibilidade e justiga relativa,
25. A larga maleabilidade desta pena, como de todas as outras, ndo
Pode, aliés, encontar 0 seu quantum conereto, a sua medida teal, om
fara discricionaridade, fonte dos maiores abusos na individualizacao
Gas sangdes. Os elementos da sua medida, indicados no art. 72., pelo
Contririo, devem, nos termos do n.° 3 do art, 72.°, ser expressamnente
referidos e fundamentados na sentenga,
As Grandes Linhas da Reforma Penal 31
Ficam os juizes mais conscientes das suas fungdes e deveres; obri-
gados a repensar os problemas concretos, com Sos ee
idei A 10.° da Cons Li
ig |. Por sua vez, a ideia que no n.° 1 do art. d
eee ooeenteiags
toda a matéria que envolve, além do mais, a privagdo total ou parci
da liberdade.
26, Net dominio das inovages fundamentals de Parts Geral no
weremos deixar de referir © conceito da reincidéncia (do art. 9)
due se procura resolver materimente,evitando o problema da plu:
riocasionalidade.
27, Sem poder fazer uma descrigao exaustiva da Parte Geral
das suas novidades, nfo deixaremos de chamar a atengdo para
6 modo como o nove Cd Penal tenta resolver o problema da per”
gosidade especial. Févlo, na verdade, no quadro da chamada pena
Telatvamente indeterminada (a. 83° © 9g)
Apletvel patina de oerice preemposos formas, igoronamento
integrados pela exigéncia de revelarem acer
naplo pom oct, o seu bmblo vose na verdade entromamente
imitado. : ;
"por euro Ind, tendo como ites um mximo ¢ um nino
combinados com um processo de execuedo mals apurado, toma-se
impossivel qualquer arbitrariedade dos Servigos Prisionais, na medi¢
tnt que o quantum da sua duragao definitive 6 controladojursticio
nalmente.
i sua aplicagio aos casos de al
28. A figura, como stb, alg a sua aplicaso as casos dea
coblicos ¢ equiparados, que sejam imputiveis, orientando-se
ceoto da respeciva pena to Sntgo de combter a sua tendencis pas
abusar de bebidas alcoblicas ¢ de estupefacientes.
smento, visam parti-
idas de seguranca, cura ou tratamento,
colament os nimpuives mister, por, cama «eng para
is aspectos das coisas neste dominis. ; i
port um lado eamtowe a Theraglo do inimpotvel su
de ensaio, o que corresponde a possibilidade de um tratamento ambu-
latério (art. 94.°).32. Jornadas de Direito Criminal
De grande relevo © importincia sto, por outro lado, os limites
do primeiro internamento (n.° 2 do art. 92,°), em que se aceita, até
certo ponto, um risco caleulado,
30. E igualmente de considerar que, por razdes de economia
© conveniéncia, se prevé a possibilidade de internar imputveis por-
tadores de anomalias psiquicas em estabelecimentos destinados a inim-
putdveis (art. 103.9),
31, Relativamente a perda de coisas ou direitos relacionados com
© crime, admite-se um deferimento do pagamento das prestagies que
Ihe correspondam, j4 previsto também para o pagamento de multa
(art. 110.°),
32. Regula-se @ matéria de extingdo de procedimento criminal
€ das penas, ¢ acentuase que as agravantes ¢ atenuantes especiais
(art. 117.°, n.° 2) no contam para os prazos fixados.
33. Inova-se, por sua vez, a proposta de criagdo de um seguro social
ara a indemnizagao do lesado, que nao pode ser satisfeita pelo
delinquente (art. 129.°). E para ja a possibilidade de a poder fazer sait
do valor dos objectos perdidos a favor do Estado e, em certos easos-
vlimite, que cla saia das multas aplicadas,
‘As mais exemplares ideias da vitimologia, encontram aqui, em larga
medida, satisfagao.
IV
34. S6 duas palavras mais sobre a Parte Especial
Nela se tipiciza © quadro de valores com ressondncia criminal que
importa afirmar.
Parte ela dos crimes contra as pessoas numa concepciio persona-
ta e humanista, que poem o homem ¢ os seus direitos fundamentais
como ponto de partida de todo o direito.
Mas logo — e por isso mesmo — se considera que importa defender
@ paz entre os homens'e o valor transpessoal da humanidade,
As Grandes Linhas da Reforma Penal 33
‘Transpessoal ao jeito de GADAMER, que entende que o estar
‘com os outros em sociedade, como ja ensinava num plano politico
-socioldgico ao encontrar os fundamentos da liberdade do homem
KELSEN — «Tat twam asiv — & ndo s6 estar com eles, mas té-los
dentro de si num todo.
Dito isto resumidamente, importa fazerthe algumas notas.
35. A primeira, como jé se disse, seria uma tendéncia geral para
© abaixamento da puni¢do dos crimes. Vale aqui o j4 referido pensa-
mento de MONTESQUIEU.
E nem isso serd benevolencia ou relaxamento: a acelerago da
toria corresponde a uma acelerago do contetido de tempo.
A privacdo ou limitagdo das vivencias de um s6 dia sao seguramente
maiores hoje do que eram ontem. © homem dilata-se como nunca em
cada momento, pelo que a sua carga psicolégica e concreta de cada
hora sera mais larga e miltipla. Dai também que a perda de um s6 dia
corresponde de muitos no passado.
36. Anotaremos, antes de mais, que nos crimes contra a vida néo
se despenalizou o aborto. Talvez. que 0 Estado nao tivesse tido a cora-
gem para sacrificar essa maravilha misteriosa que é a vida do homem.
Hi, porém, que considerar que, a um tempo, se ndo pune a guerra
justa, fonte de trégicas conturbacdes, nem a morte em legitima defesa,
mesmo de interesses patrimoniais, quando (nico meio para a sua
defesa. S6 a evolucdo das coisas poder permitir a exacta ponderagio
de interesses que dominam o problema.
37. No que toca as ofensas corporais, haverd particularmente que
notar ter-se resolvido negativamente 0 problema de saber se as inter-
vengdes médicas constituem um tipo de crime (art, 150.°),
Por outro lado, criminalizam-se os maus tratos, sobrecarga de me-
nores, subordinados e conjuges (art. 153.°). A ideia de um direito vitae
ac necis nao pode tranformar os afectos € dependéncia familiares
em fonte de agressao.
Nao pode deixar de ter relevancia a ideia de que a liberdade das,
pessoas constitui um direito fundamental. Dai que a sua violagio
directa ou indirecta deva ser punida (art. 155.° e seg.).Jornadas de Direito Criminal
‘Como punido deve ser quem empregar a técnica cirirgica contra
a liberdade de, como escrevia MIGUEL TORGA, «cada um poder
morter a sua propria morteo.
Sequestro, escravidio, rapto, so outros comportamentos que © Co-
digo, em nome da liberdade, nao podia deixar de punir.
38. A honra e a dignidade humana sfo direitos fundamentais,
‘A sua defesa deve, pois, ser protegida criminalmente. Sé que
os arts. 164.° e seg. alteraram o contetido e a tradicional distingao entre
a difamagio e a injiria, Agora trata-se de distinguir se a ofensa se faz
na presenga ou na auséncia do ofendido (art. 164.° e seg.). Por sua vez
alarga-se 0 direito de prova como o dever de informagao. A defesa
da honra dos vivos junta-se, por sua vez, a protecgaio 4 meméria
da pessoa falecida (art. 169.°).
39. A privaticidade e a intimidade é um direito que a Constituicao
protege © cuja violacdo tem para todos alta ressondncia criminal.
Nao pode, porém, deixar de considerarse a relagtio entre esse valor
e anccessidade social de, por varios meios, pelos mass media, informar
a sociedade, até como fungio pedagégica.
40. A institucionalizagio inteiramente nova no nosso direito
6 @ punigdo dos crimes contra a paz e a humanidade.
‘A possibilidade de subtrair violentamente a proteccdo que the d&
a lei portuguesa & outro comportamento de grande gravidade demo-
erética, cuja punigéo se contempla (art. 191.°).
‘Também se alarga a ideia da proteccdo ecologica que se estende
40s monumentos culturais e hist6ticos destruidos ou danificados, em
tempo de guerra.
41. No Titulo IIT prevéem-se crimes contra os fundamentos ético-
-sociais da vida em sociedade, como a familia, subtracgao de meno-
res, etc. (arts. 193.° ¢ seg.). Mas 0 fenémeno, no novo Cédigo Penal,
mais sensivel da tutela contra os crimes sexuais e costumes, é a sua
larga descriminalizagao.
Para além da homossexualidade, cujo Ambito se reduz, limitam-se
‘8 pressupostos do estupro, que tem vindo a ser objecto de tantas
extorsdes e chantagens, e visa antiquados direitos de pureza que a pro-
miscuidade actual contratia.
As Grandes Linhas da Reforma Penal 35
Por sua vez, a idade nio & considerada condigtio objectiva de puni-
bilidade, mas em certas condigées téo-sé motivo de atenuagao.
A inseminagdo artificial & outra novidade do Cédigo que & aper-
feigoada nos seus contornos.
42. A violagéo do dever social de solidariedade, com os outros em
desgraga, é também, como se disse, ponderado (art. 219.°).
43. A liberdade religiosa conduz & punigéio de quem a ofende,
a escarnece ou impede (art. 220.° € seg)
44, Para além da falsificagao de documentos, moedas, pesos ¢ me-
didas (arts. 228.° € seg.), acrescenta'se a violagaio de certos meios
de prova (falsificagao de notas técnica).
45. Mas a maior novidade da Parte Especial ¢, como dissemos,
criminalizagdo dos crimes de perigo comum, a que atras ja resumi-
damente nos referimos.
46. Sem poder esgotar esta matéria, que exigiria um tratamento
especial ou um curso auténomo, importa referir as alteragdes que
sofreram os crimes contra 0 patriménio.
Por um lado abandonow-se 0 critério dos escalées que, para além
de minimizar aspectos subjectivos intercorrentes, nfo contém a infla-
do galopante da moeda, que constantemente os desajustam.
Parte-se, antes do furto simples que se pune numa moldura penal
de um més a trés anos, moldura que contrasta com a dos crimes
contra as pessoas.
Mas nio deixa de se prever uma qualificagdo especial, consa-
grada no art, 217.°, que eleva a pena de um a dez anos.
E aqui apareceré, com particular relevo, a importancia do valor
consideravelmente elevado como elemento para essa qualificacao.
Por outro lado, a insignificdncia do valor da coisa afasta-a. Trata-se
de conceitos abertos que s6 a jurisprudéncia fixart em cada caso.
De qualquer forma, € mais razodvel que o tradicional critério dos
escaldes que rouba ao juiz toda a liberdade de individualizagao da pena
a maleabilidade da moldura penal. Esta solugdo combinada com36 Jornadas de Direito Criminal
© dever de fundamentacao j4 referido, tornando o problema parti-
cularmente dificil, mas enobrecendo a um tempo os tribunais e os seus
juizes.
Nao pode, por outro lado, perder-se de vista a regra da restitui¢ao
(art. 301.°), que cria um importante estimulo para o equilfbrio social
€ vai ao encontro das recomendagoes da vitimologia.
47. Criminaliza-se a infidelidade (actuagao sem vantagem patri-
monial para o agente), para casos especiais ¢ com penas particular-
mente benévolas. Quer-se, assim, acautelar o instituto da represen-
tacdo legal ou voluntéria
Na burla (art. 313.°), hd que notar uma sensivel descriminalizagao,
na medida em que o mero aproveitamento do erro deixou de ser
elemento tipico suficiente para a sua verificagao.
48, No iltimo Titulo, descreveram-se com 0 maior rigor os crimes
classicamente chamados de traigdo a Pétria e os outrora designados
de lesa magestatis.
Pretendeu-se defender o Estado contra agressdes estranhas e fazer
funcionar livremente os Srgaos politico-constitucionais.
Sao, aliés, no fundo, mais que contra o Estado, crimes contra a de-
mocracia.
49, Entra-se depois nos crimes contra a autoridade piblica pela
autoridade péblica e, além de outros, contra a realizagao da justica,
de modo a defenderse a legalidade ¢ 0 Estado de direito.
Nao podemos, naturalmente, entrar em detalhe na descri¢ao destes
€ outros crimes. S6 em comentarios ow lig&es especiais poder ser feito,
50, Em todo 0 caso, notaremos que se consideram certos crimes
contra a economia das empresas piblicas ¢ privadas (art. 332.°).
direito penal econémico, em geral, nao foi contemplado, dado
© seu carécter pontual ¢, em larga medida, a necessidade da sua
despenalizacéo, ou substituigéio por outras formas de ilicito.
51. O que nos leva para a problemética das formas de ilicitude,
Allei de aprovacao do Codigo Penal (Decreto-Lei n.° 400/82, de 23
de Setembro), mantém em vigor o ilicito contravencional. Por seu
‘As Grandes Linhas da Reforma Penal x
tumno, o Decreto-Lei n.° 232/79, de 24 de Julho, inaugurou a teoria
de um novo ilicto, os da contra-ordenacdes, que inicialmente continha
6 ilicito contravencional.
0 Decreto-Lei n.° 411-A/79, de 1 de Outubro, entendeu revogé-lo
nesta parte.
Sé que, reafirmado esse ilicito das contra-ordenagdes pelo Decreto-
Lei n.° 433/82, de 27 de Outubro, dele se exclui a matéria de contra-
‘vengées, mantendo em vigor a legislagao contida no antigo Cédigo
Penal (art. 6.° do Decteto-Lei n.° 400/82, de 23 de Setembro).
Temos, assim, no nosso direito, um ilicito criminal, um outro con-
travencional e ainda outro de contra-ordenagdes sociais.
Julgamos, porém, que esta visio tripartida das coisas nao corres-
ponde a realidade.
52: 0 ilicito das contraordenagdes sociais — como o confirma
1 exposigao de motivos do novo diploma sobre essa matéria — arranca
do aumento de condutas desviantes, fruto da intervencao social do Es-
tado, e pretende, além do mais, restringir a hipertrofia das fungdes dos
tribunais (violagdes ligadas ao Estado social, sem ressondncia criminal),
onde se poderio agrupar, além das infraccdes de perigo comum, certas
violagdes de normas econémicas (v. g., concorréncia desleal), protec
‘gio dos consumidores, etc. $6 que, poderia também, cum grano sali
abarcar as contravencoes.
‘Ainda que elas se possam considerar bagatelas, formas longinquas
de violagdo em relagio ao direito penal, essa mesma insignificdncia
poderia modificar a qualidade do ilicito num aliud, permitir 0 seu
enquadramento nas normas de contra-ordenago social.
‘Conseguir-se-ia, assim, ao menos, uma unidade de tratamento ¢ de
processos, que ndo parece deyer diversificar-se, pulverizando o direito.
Esperemos que a reflexdo sobre as coisas, conduza a solugdo que
propomos e propusemos, de forma a que um pequeno sendo néo
empane o brilho ¢ a modemidade da Reforma que o Senhor Ministro
da Justia — Dr, MENERES PIMENTEL — e aqui the renovamos
as nossas homenagens —, soube com inteligéncia e perseveranca im-
plementar, preenchendo uma lacuna na evolucao do direito criminal
portugués, com um novo Cédigo, cujo contetido e virtualidade alar-
{garam e prospectivaram o nosso patriménio legislative, prestando-se,
assim, um alto servico ao Pais.
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RUI MEDEIROS LINO TORGAL, “Artigo 84.º”, in Jorge Miranda Rui Medeiros, Constituição Portuguesa Anotada, Volume II, 2ª edição revista, atualizada e ampliada, Universidade Católica Editora, 2018, pp. 80-85
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