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Resumo
Esta pesquisa analisa a representação da morte por sete adolescentes, alunos de uma escola privada do município de São Paulo. Acompanha
longitudinalmente as mudanças ocorridas nesse processo, por intermédio de produções escritas realizadas nas aulas de Língua Portuguesa. A
amostra é composta de 21 redações realizadas em anos alternados, iniciadas na 6ª série do ensino básico, mediadas pela leitura e discussão
do livro A morte tem sete herdeiros, e concluídas no 2º ano do Ensino Médio. As composições mostram: discreta influência do texto literário,
insignificante alteração decorrente do amadurecimento, a força da transmissão sociocultural de ideias e fantasias, a manutenção do conflito
humano entre o natural e o inevitável, a permanência do sentido individual e singular das ressignificações das experiências coletivas e a negação
do aniquilamento, mantida pela crença da reencarnação. Observa-se, ainda, a importância de um espaço escolar de reflexão sobre a morte.
Palavras-chave: Morte, adolescência, escola.
In this work we study the representation of death in seven adolescents. We follow longitudinally the possible changes resulting of such process.
The corpus corresponds to 21compositions carried out in alternate years, by seven students of a private school in S. Paulo city, starting in the
6th. Grade of elementary school, with the reading and discussion of Death has seven heirs, and ending in the second grade of high-school. The
analyses of the productions show: little influence by the literary text and the strength of the socio-cultural transmission of ideas and fantasies on
death. The results also reveal that the human conflict present in the binomial natural/inevitable does not eliminate the individual and singular
sense of the re-attribution of signification to collective experiences and that the denial of annihilation by means of life after death is maintained by
the belief in reincarnation. The importance of school space for reflection on death is considered important.
Key words: Death and dying, adolescence, school.
Esta investigación analiza la representación de la muerte por siete adolescentes, alumnos de una escuela privada del municipio de São Paulo.
Acompaña, longitudinalmente, los cambios ocurridos en este processo, por intermedio de producciones escritas realizadas en las clases de
Lengua Portuguesa. La muestra se compone de 21 redacciones realizadas en años alternados e iniciadas en el 6o año de la enseñanza básica,
mediadas por la leitura y discusión del libro La muerte tiene siete herederos, y concluidas en el 2º año de la Enseñanza Media. Las composiciones
muestran: discreta influencia del texto literario, insignificante alteración a consecuencia de la maduración, la fuerza de la transmisión socio-
cultural de ideas y fantasías, la constancia del conflicto humano entre lo natural y lo inevitable, la permanencia del sentido individual y singular de
las re-significaciones de las experiencias colectivas y la negación del aniquilamiento, mantenida por la creencia en la reencarnación. Se observa
aún, la importancia de un espacio escolar de reflexión sobre la muerte.
Palabras Clave: Muerte, adolescencia, escuela.
Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 15, Número 2, Julho/Dezembro de 2011: 273-281. 273
Adolescência e morte: “afrontar realidades profundas que, justamente, unem ver-
dades aparentemente contraditórias” (p. 64); e o hologramá-
representações e significados tico, no qual “não apenas a parte está no todo mas o todo
está na parte” (p. 65).
A linguagem, compreendida como base e instrumen- Pensar a morte reporta ao limite não aceito. Tratar o
to do acervo coletivo, contempla ideias, mitos, noções e assunto com adolescentes e conhecer suas representações
concepções, tipifica experiências, presentifica algo ausente podem confirmar estudos realizados, revelar novas compre-
espacial, temporal ou socialmente, transcende a realidade ensões e oferecer perspectivas de intervenção.
e expõe seu caráter intersubjetivo, na correspondência
ininterrupta de sentidos e significados (Berger e Luckmann,
1966/1974). O conjunto de conhecimentos compartilhados é Introdução
apreendido como verdade e, ao ser interiorizado, configura
o indivíduo, constitui subjetividades e favorece a ressignifi- A morte tem sido um dos maiores desafios do ho-
cação de vivências coletivas. mem. Presente na vida, é escamoteada pela ciência na
Os fenômenos da morte e da adolescência fazem busca incessante de sobrevida, pelo mito, na intenção de
parte do imaginário sociocultural e são apropriados e repre- proteção e de imortalidade, e pela religião na garantia de um
sentados conforme o contexto, o grupo e a época. renascer, visando controle e superação. Como figura indi-
Na história da civilização ocidental, a morte é o “su- zível da linguagem, apresenta-se na constante contradição
jeito ausente do discurso” (Torres, 1983, p. 1) e o elemento entre o viver e o morrer e, como fenômeno absoluto, não
“ausente do campo da consciência” (Morin, 1951/1970, p. pode ser anulado como evento físico. Carrega certezas e
60), afastada do processo do viver como garantia da dilata- incertezas, ambiguidades e precisões envoltas na penumbra
ção do tempo em vida. E a adolescência é uma identidade do desconhecido.
miticamente posta e determinada como crítica e problemáti- Ao se debruçar sobre os aspectos que envolvem a
ca, sobre a qual pairam desconfianças e temores. relação entre o homem e a morte, Morin (1951/1970) inicia
Esta pesquisa tem por objetivo apresentar as repre- seus estudos por intermédio das sepulturas encontradas
sentações de morte de um grupo de alunos do ensino básico nas comunidades rudimentares, em especial as neanderta-
e acompanhar as possíveis alterações durante o processo lenses e da pré-história do homem. Segundo sua ótica, a
de amadurecimento. Pretende-se conhecer o modo como estreita ligação entre os homens vivos e os mortos é marca-
adolescentes de um determinado segmento social abordam, da pela presença de objetos, instrumentos e alimentos nos
compreendem e expressam a perda concreta e definitiva sepulcros e covas, que afirmam a individualidade do morto
determinada pela morte e a importância da participação da e sugerem reações de ordem emocional, como a negação
escola como espaço de reflexão e acolhimento. As indaga- da perda e a indicação do alongamento da vida. O autor
ções que se colocam são: como o adolescente representa a considera fundamental a compreensão do utensílio e da
morte? A adolescência interfere na representação? A escola “morte na sua presença contraditória e simultânea no seio
pode ajudar em momentos de luto? Como o professor tra- da realidade humana primitiva” (Morin, 1951/1970, p. 24),
balha esse fenômeno? O desvelamento do fenômeno e a observando que, nesses grupos, havia ritualizações e cuida-
aproximação do tema permanecem envoltos em mistério? A dos com o morto, que não era abandonado.
defrontação da realidade e os espaços de reflexão alteram A relação do homem com a morte supõe, como pro-
essa percepção? põe Morin (2001/2005b, p.46), “ao mesmo tempo, a consci-
Entende-se representação como uma tradução cons- ência racional, um trauma mental, originário dessa consciên-
trutiva do real, uma imagem global, subjetivamente apro- cia, e o surgimento de mitos de uma vida além da morte para
priada e sempre percebida como presença objetiva; é um aliviar o trauma”, entendendo que “a mesma consciência
“ato constitutivo idêntico e radical do real e do imaginário” nega e reconhece a morte: nega-a como aniquilamento, re-
(Morin, 1980/2005a, p. 123, grifos do autor). Os fenômenos, conhece-a como acontecimento” (Morin, 1951/1970, p. 26).
fatos ou aspectos da vida, quando interiorizados, apresen- O recalcamento sistemático objetivando a ruptura, a
tam características particulares ao mesmo tempo em que se angústia como resultado da presença-ausência, a facticida-
assemelham às concepções coletivas. Fantasia e realidade de e o não saber facilitam a negação da morte por orien-
complementam-se em seus antagonismos e em elementos tarem a crença na imortalidade. Esta se origina na cons-
comuns que se interpenetram e interferem mutuamente. cientização da finitude e se vê aplacada pela religiosidade
Desse conjunto dialógico surge a integração entre “a experi- e pelas crenças que sustentam os sofrimentos, prometem
ência pessoal e a coletiva/histórica armazenada na cultura e a continuidade da vida e preenchem o vazio do impensável.
redistribuída em cada espírito via educação” (idem, p. 125). Assim, os cerimoniais e as convicções dão sustentação ao
Nessa perspectiva, o processo de representação sofrimento e ao medo, e as fábulas e o folclore, o tom da
recorre aos três princípios fundamentais do pensamento representação da morte, consentindo, indiretamente, que se
complexo moriniano: o recursivo, “no qual efeitos e produtos fale dela. “A formidável brecha aberta, dentro de si mesma,
são necessários à sua produção e à sua própria causação” pela consciência da morte fez surgir as mais grandiosas
(Morin, Almeida, & Carvalho, 2002, p. 64); o dialógico, por
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mitologias que a ocultam, mas sem fazê-la desaparecer” O afastamento da morte imposto pela não aceitação
(Morin, 2001/2005b, p.46). da finitude é apresentado no tradicional estudo de Ariès
Outra questão presente nos estudos a respeito da (1975/1977), que marca esse distanciamento por períodos,
morte é o medo que o cadáver desperta. O temor implica as nomeando-os em referência às atitudes dos homens em
características sobrenaturais que se creem adquiridas depois cada época. No primeiro período, entre os séculos IX e X,
do passamento. A importância do morto determina atitudes, a ideia de morte era constante e revestida pela variedade
comportamentos e projeções de sentimentos revelados nos de exposições, sendo denominado de morte domada. O
poderes a ele atribuídos, que, a depender da intensidade, segundo, nomeado a morte de si mesmo e caracterizado
incrementam as crenças e lhe conferem visibilidade. O culto em meados do século XI, desloca a familiaridade com a
às sepulturas de figuras ilustres exemplifica a importância morte para a preocupação com as particularidades de cada
ou a representatividade que as pessoas tiveram em vida, indivíduo e com os pretensos acontecimentos posteriores. A
fenômeno denominado por Morin (1951/1970) como a indi- morte do outro é a denominação do próximo período, porque
vidualidade do morto. O receio da perda da individualidade o homem passou a se preocupar menos com a sua própria
completa o quadro do traumatismo que a morte provoca por morte por senti-la arrebatadora e a dedicar atenção à morte
relegar a existência ao nada, aniquilando o sujeito. do outro. No século XX, a morte é considerada vergonhosa e
A dificuldade em se pensar a morte está diretamente concebida como derrota que precisa ser ocultada e apartada
relacionada à penosa reflexão da falta, às ideias de ruptura do cotidiano; é identificada como morte invertida, na qual
e desenraizamento, e ao tratamento de um objeto que não o luto é suprimido e os sentimentos e expressões de dor
pertence ao campo das experiências. As formulações são acobertados (Dias, 1991; Kovács, 1992).
depreendidas a partir do outro e não do objeto em si (Kas- O homem, diante da impossibilidade de negação da
tembaum & Aisenberg, 1976/1986), são desenhadas no pro- morte, procura dominá-la como modo de controle da vida
cesso de socialização, apreendidas como verdade objetiva (Kluber-Ross, 1969/2000), mas, ao afastá-la, empobrece
e interiorizadas como realidade subjetiva, despertando um seus aspectos simbólicos pela ausência de espaços de
mosaico de sensações e emoções. reflexão, sobre os quais são construídas imagens e ideias
Análises acerca dos sentimentos humanos diante que criam configurações representativas e estabelecem
da morte espalham-se pela literatura, especializada ou não, relações de cunho afetivo e cognitivo (Kastembaum & Ai-
observando que um dos motivos da desorientação humana senberg, 1976/1986). O mal-estar gerado pelo morrer de-
decorre da necessidade de se colocar a morte à margem da sencadeia sentidos que encaminham espaços obscuros e
vida e observá-la, preferencialmente a distância, como es- não resolvidos do existir humano (Leis, 2003), obliterando a
pectador curioso. Como destaca Carvalho (2009), ninguém possibilidade de reflexão.
espera morrer: “Aceitamos a morte no outro, no anônimo, Nessa perspectiva, Kovács (2005) aponta o despre-
não em nós e nos nossos queridos” (p. 12). paro das escolas em tratar o “fim de nossa existência” (p.
Nesse sentido, Freud (1915/2006), ao analisar as 486) com crianças e adolescentes. Sugere que o assunto
modificações dos sentimentos diante da morte, avaliou que seja abordado, principalmente, porque mudanças repen-
o “homem primevo assumia uma atitude notável em relação tinas podem ocorrer na vida e porque a convivência com
à morte. Longe de ser coerente, era, na realidade, altamente imagens de morte é constante, sendo imperioso o abandono
contraditória” (p. 302), pois não demonstrava objeções e da cultura do silenciamento. Ressalta a autora a importância
nem emoções na morte de adversários ou inimigos, mas, do treinamento de professores em serviço, quando seriam
ao enfrentar a perda de entes queridos, viu-se obrigado a privilegiados tópicos que auxiliassem a elaboração de ati-
defrontar-se com a concretude e os efeitos do acontecimen- vidades pedagógicas pertinentes, a execução de trabalhos
to. Para o autor, a recorrente lembrança dos mortos serviu e atividades abordando situações de perda, e oferecidos
de base para a suposição de outras formas de existência suportes fílmico e bibliográfico como subsídio a prática.
– como a transmigração das almas e a reencarnação – que A proposta não pretende a resolução do abalo emocional
originaram a concepção de vida após a morte. provocado pela morte, mas um auxílio ao educador em sua
A postulação freudiana apresenta e discute as dificul- função e na continência do aluno enlutado.
dades de separação entre vivos e mortos nas conceituações Na mesma direção, Rodriguez (2005, 2008) ressalva
de melancolia – quando toda libido é investida no objeto que o acolhimento da escola e dos educadores pode de-
perdido e permanece nele fixado – e afeto normal do luto volver o controle e a segurança aos educandos. Todavia, é
– condições internas permitem o direcionamento a outros preciso considerar que algumas questões atravessam e/ou
objetos de amor (Freud, 1917/2006). impedem tal acolhimento, como resistências e dificuldades
De acordo com Cassorla (1992), também em uma pessoais ou despreparo teórico- instrumental (Rodriguez,
abordagem psicanalítica, a consciência da morte configura- 2010).
-se como outra ferida narcísica e de caráter terrorífico, que Kovács (2005) especifica, ainda, o tratamento dado
é fantasiada e serve de ancoradouro ao medo que provo- ao trabalho desenvolvido com adolescentes, alertando para
ca. Essa proposição indica ausência de controle e poder, as questões que envolvem esse período do desenvolvimen-
e encaminha a adesão às crenças e rituais que explicam e to. Em vídeo produzido para esse fim, destaca comporta-
garantem o prolongamento do viver. mentos autodestrutivos e traz “cenas de esportes radicais,
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adolescência e apresentar as compreensões e percepções As produções na 8ª série evidenciam uma evolução
de um grupo de alunos do ensino básico privado. no desenvolvimento do assunto, notada tanto na construção
No decorrer de cinco anos, foram obtidas 113 re- textual como na abordagem do fenômeno. Este passa a ser
dações e analisadas 21, referentes às produções de sete tratado com atenção diferenciada, especialmente quando
alunos, cinco do sexo masculino e dois do feminino, que defrontado com a realidade, em associação às manifesta-
participaram das três edições da pesquisa. O número redu- ções emocionais desencadeadas. Nesse momento, abrem-
zido de produções textuais é explicado por transferências de -se espaços reflexivos que interrogam as dificuldades de
escola, retenções e/ou ausências dos alunos. vivenciar o luto, indicando certo amadurecimento dos ado-
O tratamento das redações seguiu as indicações lescentes– A morte é um assunto que não pode ser falado
de Bardin (2004) para análise de conteúdo. Realizou-se, na brincadeira (M.) – e incremento da racionalização – [...]
em primeiro lugar, uma leitura flutuante aberta a “todas só falar que nunca mais quero que aconteça isso não adian-
as ideias, reflexões, hipóteses” (p. 71) e, em segundo, a ta, pois quando tem que acontecer acontece (L.F.). As cren-
identificação e contagem de itens de significação que pos- ças religiosas descritas apresentam argumentações que
sibilitaram conhecer os sentidos subjacentes aos explícitos. procuram, por um lado, confirmar uma vida posterior ou a
A leitura atenta e repetida das produções, acompanhada de reencarnação, mostrando certo avanço quando comparadas
um diálogo constante entre os dados obtidos e a abordagem às realizadas na série anterior, pois tendem a eliminar as in-
conceitual, admitiram a apreensão da relação dinâmica e certezas, firmando-se e convicções aprendidas: Essa teoria
interdependente entre mundo real e sujeito, sujeito e objeto, foi confirmada. Existe vida após da morte (P.), ou Acredito
objetividade e subjetividade (Chizzotti, 1991). em céu, onde os bons vão para lá; um purgatório, onde as
A frequência de determinados temas na construção pessoas são julgadas e encaminhadas, ou para o céu ou
textual indica a força da transmissão sociocultural das ideias para o inferno (S.), ou ainda, [...] o que as pessoas acham ou
e fantasias acerca da morte, e revela sentimentos e emoções pensam da morte varia de acordo com a religião da pessoas
similares aos descritos em adultos e em crianças, a saber: [...] (R.). E, por outro, as dúvidas surgem como ponderação
1 - inevitabilidade da morte: quatro redações na 6ª da própria aprendizagem e das transmissões culturais e reli-
série e quatro na 8ª série do Ensino Fundamental, e quatro giosas: Outras pessoas acham que se a pessoa morre com
no 2º ano do Ensino Médio; muita mágoa e muito ódio, essas pessoas vão para um lugar
2 - crenças religiosas: três na 6ª série, duas na 8ª e escuro, sombrio [...] (R).
quatro no 2° ano; No 2º ano do Ensino Médio houve um nítido desen-
3 - vida pós-morte: duas na 6ª série, quatro na 8ª e volvimento redacional, em que a sintaxe e a língua culta são
uma no 2° ano; observadas com mais cuidado. O raciocínio argumentativo,
4 - vínculos e dúvidas: nenhuma na 6ª série, duas na as considerações e os questionamentos são mais evidentes
8ª e quatro no 2° ano. e as dúvidas têm um caráter desafiador: “Apesar de tudo te-
A leitura do livro na 6ª série influenciou, diretamente, nho as minhas dúvidas sobre a morte, pois, se há vida após
a elaboração de três redações narradas com criatividade, a morte, nós não morremos, nós, na verdade, vamos para
semelhantes ao texto original e com a presença de situa- outro mundo. [...]. Mas há outra coisa; se nós reencarnamos
ções tragicômicas, denotando certo distanciamento da nós formamos um ciclo, ou seja, estamos neste mundo,
questão norteadora, em uma abordagem da morte por vias morremos, vamos para outro mundo e depois voltamos para
marginais e situações periféricas: Tudo começou quando este?” (MM). O mítico e o místico permanecem como refe-
meu caranguejo de estimação morreu (L.); Derrepente pro- rência sociocultural. O temor ao castigo parece relacionado
curando emprego achei um de engavetador do IML (M.); Um às atitudes em vida, embora se distinguam em qualidade
dia, João, Branco, Ricardo e Renato foram ao cemitério, por e complexificação das descritas no início da adolescência.
que eles eram góticos (F.). Outra relata uma situação de luto A participação docente esteve limitada à exploração e
real vivida e descreve o sofrimento causado pela situação: aos ensinamentos dos componentes próprios da disciplina,
Eu não vou contar uma história mas vou contar uma história marcando um desvio da ideia original do projeto educacional
real a 1 mês atrás (P.). As demais expressam a relação entre de oferecimento de um espaço reflexivo sobre a morte.
vida e morte como fato inevitável e indiscutível, associadas à
possibilidade de uma vida posterior melhor – O que é a mor-
te? No dicionário existem vários significado fim da vida” (M.) Discussão
ou A morte está presente na vida de todas as pessoas (R.) -,
adicionando a possibilidade de uma vida posterior melhor – A linguagem humana é o caminho da perpetuação
A morte é uma coisa que acontece com todo mundo. Dizem das culturas e manifesta-se na simplificação e na complexi-
que quando a pessoa morre vai para um mundo melhor (S). dade. Produz objetividade e abstração, marca as pessoas
As experiências de enlutamento marcam as relações vincu- pelas leis, princípios, normas, e/ou pelo misticismo e reli-
lares, associam-se ao temor da perda e justificam crenças giosidade, facilitando, impedindo ou controlando o desen-
religiosas centralizadas no conforto da continuidade da vida volvimento social e particular (Morin, 1908/2005a). Permite
e no reencontro de entes queridos. Não houve expressão ainda, a tradução da emocionalidade das experiências que
de dúvidas. povoam os pensamentos e o ser, e que retroagem sobre
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neste grupo de adolescentes e que a supressão da dor e dos O processo adolescente, aparentemente, não in-
sentimentos está presente no cotidiano, na fantasia e/ou nas fluenciou a apreensão sociocultural da morte, já que as ma-
redes sociais, como morte escancarada. nifestações descrevem os mesmos conteúdos descritos por
Assim, observam-se, na realidade e no imaginário, pesquisadores que se dedicaram a discorrer sobre o tema.
elementos comuns e elementos distintos que se interligam Embora considerado, por parte dos especialistas, período
e se completam mutuamente, que, como mostra Morin conflituoso e tensivo, não se identificou acentuação em
(2001/2005b), são angariados na experiência pessoal e função da adolescência, nem naqueles que viveram perdas
na histórico-coletiva, estão presentes na tradição e são significativas.
construídos pela via da educação. Poucos jovens tiveram As redações cumpriram o propósito de apresentar a
perdas de morte de entes próximos, mas aqueles que as representação de morte em um grupo determinado de ado-
experimentaram parecem tratá-la como vivência, assistida lescentes. Proporcionaram, também, um tempo de manifes-
e sentida pela consciência, até porque, pela própria juven- tação de significados e sentidos, e de problematizações e
tude, não houve tempo de se instalarem como experiência. diálogos com o conhecimento adquirido e com aspectos da
Contudo, a intensidade contida em cada descrição sinaliza realidade, da fantasia, da mitologia, da religiosidade e das
que, de alguma maneira, todos prospectam as emoções crenças.
provocadas por um luto concreto.
Como assinala Freud (1915/�������������������������
2006���������������������
), foram os sentimen-
tos de culpa e ódio que impediram o homem do afastamento Finalizando
da morte, sentindo-a em si mesmo. O conteúdo de alguns re-
latos autoriza a inferência da existência desses sentimentos: A análise das produções aponta para a contradição
Eu pretendo ter uma vida limpa em que eu consiga chegar em existente entre vida e morte, confirmando outros estudos. Os
casa e dormir sem nenhum peso na consciência (F., 2º ano). alunos reafirmam o conflito entre o que é natural e inevitável
Não é possível o estabelecimento de nexos entre a em contraste com o período de descobertas, crescimento e
morte alimentada pela leitura do livro e os lutos infantis an- prospecção de futuro.
unciados por Aberastury e Knobel (�������������������������
1970/��������������������
1980). Pode-se afir- A representação da morte apóia-se na combinação
mar que os adolescentes explicitaram os afetos despertados de ideias e sentimentos que se estendem espacial e tempo-
pelo tema e sugerir que as descrições, em seu conteúdo ralmente. O texto literário teve pouca influência, persistindo
latente, referem-se ao descolamento provocado pelo desen- nas redações a força da transmissão cotidiana e perma-
volvimento e pela separação parental. nente de sentidos, atitudes e comportamentos apreendidos
As produções femininas evidenciaram uma distinção no convívio e por intermédio da cultura. As características
de gênero: as adolescentes mostraram maior distancia- fundantes estão mantidas sem eliminar o sentido individual
mento da temática, associada à reflexão de situações de e singular, havendo uma ressignificação das experiências
morte permeadas por conteúdos racionais. Os adolescentes coletivas. Observa-se a negação do aniquilamento pela
mostraram-se mais emocionais, preocupados com o acolhi- esperança da vida após a morte, presente na chance de
mento e conforto em situações de sofrimento, sem, entre- purificação e reencarnação.
tanto, abandonar a racionalidade, podendo-se supor uma O tema provocou angústias existenciais nos alunos,
desconstrução das imagens pressupostas de fragilidade principalmente quando abordada a passagem do tempo
feminina e frieza masculina frente a situações dolorosas. Ou para si mesmo e para as pessoas próximas, levando-os a
uma demanda interna que mostra “a vida do adolescente empreender uma análise desviada, compensatória e/ou de
pode estar por um fio” (Kovács, 2005, p. 520). negação, visto que a morte permanece como sujeito ausen-
O professor realizou uma análise voltada, exclu- te do discurso e dificulta, impede, ou mesmo os defende do
sivamente, para o conteúdo formal, gramatical e estético contato com o sofrimento antecipado.
das composições, desconsiderando a proposição inicial de A análise das redações sugere que o cotidiano
discussão, reflexão e acolhimento, bem como prejudicando escolar está marcado pela qualidade e intensidade da re-
e fragmentando as indicações de integração e transversali- lação professor-aluno, que pode se configurar como um
dade disciplinar presentes nos PCN. Essa atitude admite a dos elementos que contribuem para o isolamento ou para a
suposição da dificuldade do trato do assunto, exposta pelo aproximação de questões relativas à existência e ao próprio
enclausuramento da morte como forma mágica de apartá- contexto educacional.
-la, e/ou o despreparo na formação dos educadores para A formação do educador especialista tangencia o
questões do cotidiano escolar. O sujeito/educador parece estudo dos fenômenos juvenis e encaminha à cristalização
levar de roldão as narrativas efetivadas na transmissão da ideia de período turbulento, que embarga a aproximação
social, juntamente com as suas, absorvendo as vivências e a compreensão da adolescência como momento produtivo
como força de conhecimento e relegando a morte a lugares e criativo. O professor que integrou este projeto de pesquisa
preservados da consciência. Como aborda Kovács (2005), o deixou dúvidas se o seu distanciamento respondia à adoles-
treinamento docente pode facilitar o contato com a questão cência ou à temática. Todavia, não se pode desconsiderar
da morte, que, por sua vez, facilitará as análises críticas e os a importância vital de sua participação para a realização,
suportes emocionais aos alunos enlutados. coordenação do trabalho e condução da disciplina.
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