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Esta pesquisa investiga a representação da morte entre sete adolescentes de uma escola privada em São Paulo, analisando 21 redações ao longo de seu desenvolvimento escolar. Os resultados mostram que a influência do texto literário é discreta e que a crença na reencarnação contribui para a negação do aniquilamento, destacando a importância de um espaço escolar para reflexão sobre a morte. A pesquisa revela a complexidade das percepções adolescentes sobre a morte, mediadas por fatores socioculturais e experiências coletivas.

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Esta pesquisa investiga a representação da morte entre sete adolescentes de uma escola privada em São Paulo, analisando 21 redações ao longo de seu desenvolvimento escolar. Os resultados mostram que a influência do texto literário é discreta e que a crença na reencarnação contribui para a negação do aniquilamento, destacando a importância de um espaço escolar para reflexão sobre a morte. A pesquisa revela a complexidade das percepções adolescentes sobre a morte, mediadas por fatores socioculturais e experiências coletivas.

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Adolescência e morte: representações e significados

Elaine Teresinha Dal Mas Dias

Resumo

Esta pesquisa analisa a representação da morte por sete adolescentes, alunos de uma escola privada do município de São Paulo. Acompanha
longitudinalmente as mudanças ocorridas nesse processo, por intermédio de produções escritas realizadas nas aulas de Língua Portuguesa. A
amostra é composta de 21 redações realizadas em anos alternados, iniciadas na 6ª série do ensino básico, mediadas pela leitura e discussão
do livro A morte tem sete herdeiros, e concluídas no 2º ano do Ensino Médio. As composições mostram: discreta influência do texto literário,
insignificante alteração decorrente do amadurecimento, a força da transmissão sociocultural de ideias e fantasias, a manutenção do conflito
humano entre o natural e o inevitável, a permanência do sentido individual e singular das ressignificações das experiências coletivas e a negação
do aniquilamento, mantida pela crença da reencarnação. Observa-se, ainda, a importância de um espaço escolar de reflexão sobre a morte.
Palavras-chave: Morte, adolescência, escola.

Adolescence and death: representation and meaning


Abstract

In this work we study the representation of death in seven adolescents. We follow longitudinally the possible changes resulting of such process.
The corpus corresponds to 21compositions carried out in alternate years, by seven students of a private school in S. Paulo city, starting in the
6th. Grade of elementary school, with the reading and discussion of Death has seven heirs, and ending in the second grade of high-school. The
analyses of the productions show: little influence by the literary text and the strength of the socio-cultural transmission of ideas and fantasies on
death. The results also reveal that the human conflict present in the binomial natural/inevitable does not eliminate the individual and singular
sense of the re-attribution of signification to collective experiences and that the denial of annihilation by means of life after death is maintained by
the belief in reincarnation. The importance of school space for reflection on death is considered important.
Key words: Death and dying, adolescence, school.

Adolescencia y muerte: representaciones y significados


Resumen

Esta investigación analiza la representación de la muerte por siete adolescentes, alumnos de una escuela privada del municipio de São Paulo.
Acompaña, longitudinalmente, los cambios ocurridos en este processo, por intermedio de producciones escritas realizadas en las clases de
Lengua Portuguesa. La muestra se compone de 21 redacciones realizadas en años alternados e iniciadas en el 6o año de la enseñanza básica,
mediadas por la leitura y discusión del libro La muerte tiene siete herederos, y concluidas en el 2º año de la Enseñanza Media. Las composiciones
muestran: discreta influencia del texto literario, insignificante alteración a consecuencia de la maduración, la fuerza de la transmisión socio-
cultural de ideas y fantasías, la constancia del conflicto humano entre lo natural y lo inevitable, la permanencia del sentido individual y singular de
las re-significaciones de las experiencias colectivas y la negación del aniquilamiento, mantenida por la creencia en la reencarnación. Se observa
aún, la importancia de un espacio escolar de reflexión sobre la muerte.
Palabras Clave: Muerte, adolescencia, escuela.

Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 15, Número 2, Julho/Dezembro de 2011: 273-281. 273
Adolescência e morte: “afrontar realidades profundas que, justamente, unem ver-
dades aparentemente contraditórias” (p. 64); e o hologramá-
representações e significados tico, no qual “não apenas a parte está no todo mas o todo
está na parte” (p. 65).
A linguagem, compreendida como base e instrumen- Pensar a morte reporta ao limite não aceito. Tratar o
to do acervo coletivo, contempla ideias, mitos, noções e assunto com adolescentes e conhecer suas representações
concepções, tipifica experiências, presentifica algo ausente podem confirmar estudos realizados, revelar novas compre-
espacial, temporal ou socialmente, transcende a realidade ensões e oferecer perspectivas de intervenção.
e expõe seu caráter intersubjetivo, na correspondência
ininterrupta de sentidos e significados (Berger e Luckmann,
1966/1974). O conjunto de conhecimentos compartilhados é Introdução
apreendido como verdade e, ao ser interiorizado, configura
o indivíduo, constitui subjetividades e favorece a ressignifi- A morte tem sido um dos maiores desafios do ho-
cação de vivências coletivas. mem. Presente na vida, é escamoteada pela ciência na
Os fenômenos da morte e da adolescência fazem busca incessante de sobrevida, pelo mito, na intenção de
parte do imaginário sociocultural e são apropriados e repre- proteção e de imortalidade, e pela religião na garantia de um
sentados conforme o contexto, o grupo e a época. renascer, visando controle e superação. Como figura indi-
Na história da civilização ocidental, a morte é o “su- zível da linguagem, apresenta-se na constante contradição
jeito ausente do discurso” (Torres, 1983, p. 1) e o elemento entre o viver e o morrer e, como fenômeno absoluto, não
“ausente do campo da consciência” (Morin, 1951/1970, p. pode ser anulado como evento físico. Carrega certezas e
60), afastada do processo do viver como garantia da dilata- incertezas, ambiguidades e precisões envoltas na penumbra
ção do tempo em vida. E a adolescência é uma identidade do desconhecido.
miticamente posta e determinada como crítica e problemáti- Ao se debruçar sobre os aspectos que envolvem a
ca, sobre a qual pairam desconfianças e temores. relação entre o homem e a morte, Morin (1951/1970) inicia
Esta pesquisa tem por objetivo apresentar as repre- seus estudos por intermédio das sepulturas encontradas
sentações de morte de um grupo de alunos do ensino básico nas comunidades rudimentares, em especial as neanderta-
e acompanhar as possíveis alterações durante o processo lenses e da pré-história do homem. Segundo sua ótica, a
de amadurecimento. Pretende-se conhecer o modo como estreita ligação entre os homens vivos e os mortos é marca-
adolescentes de um determinado segmento social abordam, da pela presença de objetos, instrumentos e alimentos nos
compreendem e expressam a perda concreta e definitiva sepulcros e covas, que afirmam a individualidade do morto
determinada pela morte e a importância da participação da e sugerem reações de ordem emocional, como a negação
escola como espaço de reflexão e acolhimento. As indaga- da perda e a indicação do alongamento da vida. O autor
ções que se colocam são: como o adolescente representa a considera fundamental a compreensão do utensílio e da
morte? A adolescência interfere na representação? A escola “morte na sua presença contraditória e simultânea no seio
pode ajudar em momentos de luto? Como o professor tra- da realidade humana primitiva” (Morin, 1951/1970, p. 24),
balha esse fenômeno? O desvelamento do fenômeno e a observando que, nesses grupos, havia ritualizações e cuida-
aproximação do tema permanecem envoltos em mistério? A dos com o morto, que não era abandonado.
defrontação da realidade e os espaços de reflexão alteram A relação do homem com a morte supõe, como pro-
essa percepção? põe Morin (2001/2005b, p.46), “ao mesmo tempo, a consci-
Entende-se representação como uma tradução cons- ência racional, um trauma mental, originário dessa consciên-
trutiva do real, uma imagem global, subjetivamente apro- cia, e o surgimento de mitos de uma vida além da morte para
priada e sempre percebida como presença objetiva; é um aliviar o trauma”, entendendo que “a mesma consciência
“ato constitutivo idêntico e radical do real e do imaginário” nega e reconhece a morte: nega-a como aniquilamento, re-
(Morin, 1980/2005a, p. 123, grifos do autor). Os fenômenos, conhece-a como acontecimento” (Morin, 1951/1970, p. 26).
fatos ou aspectos da vida, quando interiorizados, apresen- O recalcamento sistemático objetivando a ruptura, a
tam características particulares ao mesmo tempo em que se angústia como resultado da presença-ausência, a facticida-
assemelham às concepções coletivas. Fantasia e realidade de e o não saber facilitam a negação da morte por orien-
complementam-se em seus antagonismos e em elementos tarem a crença na imortalidade. Esta se origina na cons-
comuns que se interpenetram e interferem mutuamente. cientização da finitude e se vê aplacada pela religiosidade
Desse conjunto dialógico surge a integração entre “a experi- e pelas crenças que sustentam os sofrimentos, prometem
ência pessoal e a coletiva/histórica armazenada na cultura e a continuidade da vida e preenchem o vazio do impensável.
redistribuída em cada espírito via educação” (idem, p. 125). Assim, os cerimoniais e as convicções dão sustentação ao
Nessa perspectiva, o processo de representação sofrimento e ao medo, e as fábulas e o folclore, o tom da
recorre aos três princípios fundamentais do pensamento representação da morte, consentindo, indiretamente, que se
complexo moriniano: o recursivo, “no qual efeitos e produtos fale dela. “A formidável brecha aberta, dentro de si mesma,
são necessários à sua produção e à sua própria causação” pela consciência da morte fez surgir as mais grandiosas
(Morin, Almeida, & Carvalho, 2002, p. 64); o dialógico, por

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mitologias que a ocultam, mas sem fazê-la desaparecer” O afastamento da morte imposto pela não aceitação
(Morin, 2001/2005b, p.46). da finitude é apresentado no tradicional estudo de Ariès
Outra questão presente nos estudos a respeito da (1975/1977), que marca esse distanciamento por períodos,
morte é o medo que o cadáver desperta. O temor implica as nomeando-os em referência às atitudes dos homens em
características sobrenaturais que se creem adquiridas depois cada época. No primeiro período, entre os séculos IX e X,
do passamento. A importância do morto determina atitudes, a ideia de morte era constante e revestida pela variedade
comportamentos e projeções de sentimentos revelados nos de exposições, sendo denominado de morte domada. O
poderes a ele atribuídos, que, a depender da intensidade, segundo, nomeado a morte de si mesmo e caracterizado
incrementam as crenças e lhe conferem visibilidade. O culto em meados do século XI, desloca a familiaridade com a
às sepulturas de figuras ilustres exemplifica a importância morte para a preocupação com as particularidades de cada
ou a representatividade que as pessoas tiveram em vida, indivíduo e com os pretensos acontecimentos posteriores. A
fenômeno denominado por Morin (1951/1970) como a indi- morte do outro é a denominação do próximo período, porque
vidualidade do morto. O receio da perda da individualidade o homem passou a se preocupar menos com a sua própria
completa o quadro do traumatismo que a morte provoca por morte por senti-la arrebatadora e a dedicar atenção à morte
relegar a existência ao nada, aniquilando o sujeito. do outro. No século XX, a morte é considerada vergonhosa e
A dificuldade em se pensar a morte está diretamente concebida como derrota que precisa ser ocultada e apartada
relacionada à penosa reflexão da falta, às ideias de ruptura do cotidiano; é identificada como morte invertida, na qual
e desenraizamento, e ao tratamento de um objeto que não o luto é suprimido e os sentimentos e expressões de dor
pertence ao campo das experiências. As formulações são acobertados (Dias, 1991; Kovács, 1992).
depreendidas a partir do outro e não do objeto em si (Kas- O homem, diante da impossibilidade de negação da
tembaum & Aisenberg, 1976/1986), são desenhadas no pro- morte, procura dominá-la como modo de controle da vida
cesso de socialização, apreendidas como verdade objetiva (Kluber-Ross, 1969/2000), mas, ao afastá-la, empobrece
e interiorizadas como realidade subjetiva, despertando um seus aspectos simbólicos pela ausência de espaços de
mosaico de sensações e emoções. reflexão, sobre os quais são construídas imagens e ideias
Análises acerca dos sentimentos humanos diante que criam configurações representativas e estabelecem
da morte espalham-se pela literatura, especializada ou não, relações de cunho afetivo e cognitivo (Kastembaum & Ai-
observando que um dos motivos da desorientação humana senberg, 1976/1986). O mal-estar gerado pelo morrer de-
decorre da necessidade de se colocar a morte à margem da sencadeia sentidos que encaminham espaços obscuros e
vida e observá-la, preferencialmente a distância, como es- não resolvidos do existir humano (Leis, 2003), obliterando a
pectador curioso. Como destaca Carvalho (2009), ninguém possibilidade de reflexão.
espera morrer: “Aceitamos a morte no outro, no anônimo, Nessa perspectiva, Kovács (2005) aponta o despre-
não em nós e nos nossos queridos” (p. 12). paro das escolas em tratar o “fim de nossa existência” (p.
Nesse sentido, Freud (1915/2006), ao analisar as 486) com crianças e adolescentes. Sugere que o assunto
modificações dos sentimentos diante da morte, avaliou que seja abordado, principalmente, porque mudanças repen-
o “homem primevo assumia uma atitude notável em relação tinas podem ocorrer na vida e porque a convivência com
à morte. Longe de ser coerente, era, na realidade, altamente imagens de morte é constante, sendo imperioso o abandono
contraditória” (p. 302), pois não demonstrava objeções e da cultura do silenciamento. Ressalta a autora a importância
nem emoções na morte de adversários ou inimigos, mas, do treinamento de professores em serviço, quando seriam
ao enfrentar a perda de entes queridos, viu-se obrigado a privilegiados tópicos que auxiliassem a elaboração de ati-
defrontar-se com a concretude e os efeitos do acontecimen- vidades pedagógicas pertinentes, a execução de trabalhos
to. Para o autor, a recorrente lembrança dos mortos serviu e atividades abordando situações de perda, e oferecidos
de base para a suposição de outras formas de existência suportes fílmico e bibliográfico como subsídio a prática.
– como a transmigração das almas e a reencarnação – que A proposta não pretende a resolução do abalo emocional
originaram a concepção de vida após a morte. provocado pela morte, mas um auxílio ao educador em sua
A postulação freudiana apresenta e discute as dificul- função e na continência do aluno enlutado.
dades de separação entre vivos e mortos nas conceituações Na mesma direção, Rodriguez (2005, 2008) ressalva
de melancolia – quando toda libido é investida no objeto que o acolhimento da escola e dos educadores pode de-
perdido e permanece nele fixado – e afeto normal do luto volver o controle e a segurança aos educandos. Todavia, é
– condições internas permitem o direcionamento a outros preciso considerar que algumas questões atravessam e/ou
objetos de amor (Freud, 1917/2006). impedem tal acolhimento, como resistências e dificuldades
De acordo com Cassorla (1992), também em uma pessoais ou despreparo teórico- instrumental (Rodriguez,
abordagem psicanalítica, a consciência da morte configura- 2010).
-se como outra ferida narcísica e de caráter terrorífico, que Kovács (2005) especifica, ainda, o tratamento dado
é fantasiada e serve de ancoradouro ao medo que provo- ao trabalho desenvolvido com adolescentes, alertando para
ca. Essa proposição indica ausência de controle e poder, as questões que envolvem esse período do desenvolvimen-
e encaminha a adesão às crenças e rituais que explicam e to. Em vídeo produzido para esse fim, destaca comporta-
garantem o prolongamento do viver. mentos autodestrutivos e traz “cenas de esportes radicais,

Adolescência e morte * Elaine Teresinha Dal Mas Dias 275


violência, amor, sexo, uso de drogas, acidentes e tentativas plexidade, necessita ser compreendida de uma perspectiva
de suicídio, buscando trazer uma visão realista da situação, multidisciplinar (Queiroz & Combinato, 2006).
mostrando como a vida do adolescente pode estar por um
fio” (p. 520).
O grande número de mortes entre adolescentes visi- Método
bilizadas no cotidiano atesta a frágil separação entre o viver
e o morrer, e justifica a introdução de eventos escolares/ Esta investigação foi realizada no município de São
educacionais que permitam trocas de experiências e exa- Paulo, em uma instituição privada de ensino que apresen-
mes reflexivos da temática. As indicações dos Parâmetros tava, em seu Projeto Pedagógico, ações educativas crítico-
Curriculares Nacionais (PCN), em seu capítulo referente aos -reflexivas, de cunho interdisciplinar de abordagem do fe-
Temas Transversais, auxiliam essa indicação ao observa- nômeno. Estruturavam-se em dois momentos: (a) leitura e
rem a necessidade de “uma tomada de posição diante de análise do livro “A morte tem sete herdeiros - a noite em
problemas fundamentais e urgentes da vida social, o que que Agatha Christie visitou Jacuruçunga”, de autoria de
requer uma reflexão sobre o ensino e a aprendizagem de Ganymedes José e Stella Carr (1990); (b) realização de uma
seus conteúdos: valores, procedimentos e concepções a redação intitulada “O que é a morte”.
eles relacionados” (Brasil, 1998, p. 35). As ações foram incorporadas à metodologia. A leitura
O adolescente é entendido, neste trabalho, como do livro como mobilizador da temática e o segundo porque
um ser que caminha no sentido da emancipação, é singu- os relatos escritos permitem a expressão das concepções
lar, desempenha papéis diversificados, procura desvelar as pessoais de crenças, sentimentos, valores e opiniões, coin-
nuances socioculturais, reflete sobre as condições para o cidindo com os objetivos deste estudo (Luna, 2002).
convívio, transforma-se e constitui-se na alterização1 envol- A implantação do projeto de investigação foi prece-
vido pelas condições de vida e pelos lutos fundamentais dida da apresentação das metas, dos procedimentos e dos
(Aberastury & Knobel, 1970/1980). possíveis benefícios aos membros da direção, coordenação,
O luto pelo corpo infantil escancara as alterações docentes, pais e alunos. Deliberada a presença da pesqui-
pubertárias e submetem o sujeito às transformações físicas, sadora na escola, ficou também acordado que os resultados
conferindo-lhe outro lugar que não mais o infantil. O luto pelo do estudo estariam à disposição dos envolvidos.
papel e identidade infantis refere-se às perdas dos privilégios O professor de Língua Portuguesa foi designado
e à renúncia à dependência familiar, que os lança no futuro como coordenador das atividades, especialmente, pela re-
misterioso e incógnito repleto de responsabilidades e situ- gência da disciplina, o bom relacionamento com os alunos
ações desconhecidas. E o luto pelos pais da infância, que e por organizar outras ações do programa institucional. A
são persistentemente retidos na memória, na tentativa de adesão a esta proposta se deu pelos mesmos motivos e por
reencontrar a proteção e os suportes necessários para um seu interesse em discutir a questão. Cabe informar que o
caminhar, de idas e voltas, dirigido ao ancoradouro familiar. referido docente participou de todas as etapas do estudo.
O desenvolvimento impele o jovem para frente e As redações foram realizadas em anos alternados
essa rota dificulta o vislumbrar do fim, seja por seu po- com a finalidade de captação de possíveis mudanças ou
tencial desafiador como por seu desejo de avançar, acen- alterações nas representações. Nesta perspectiva, progra-
tuando a angústia básica de morte (Calligaris, 2000), que mou-se a execução de três redações por participante, sendo
significa impotência em tempo de concretização e interdição a primeira na 6ª série do Ensino Fundamental, a segunda
em lugar de prescrição do devir. A “característica da ado- na 8ª série e a terceira no 2º ano do Ensino Médio, com a
lescência é viver como se a morte não existisse ou não fosse mesma questão norteadora.
ocorrer com jovens porque são fortes, poderosos, inteligen-
tes” (Esslinger & Kovács, 1998/2004, p. 32).
A morte neste século pode ser interpretada como um Participantes
fenômeno escancarado, “que invade, ocupa espaço, pene-
tra na vida das pessoas a qualquer hora. Pela sua caracte- O primeiro contato ocorreu antes da leitura e discus-
rística de penetração dificulta a proteção e controle de suas são do livro, momento em que se efetivou formalmente o
consequências: as pessoas ficam expostas e sem defesas” convite de participação. Inscreveram-se 21 alunos de duas
(Kovács, 2003, p. 141). Nesses momentos, escola e família salas de 6ª série, com idade variando entre 12-13 anos no
têm grande importância quanto ao manejo dessa situação início do estudo e 16-17 anos na conclusão, de ambos os
(Domingos e Maluf, 2003; Kovács, 2005) e, dada sua com- sexos, residentes na região metropolitana da cidade e pro-
venientes de famílias de renda média alta.
1 Cf Ciampa (1993): “com esse termo, alterização, se
quis expressar a ideia de uma mudança significativa - um
salto qualitativo - que resulta de um acúmulo de mudanças
quantitativas, às vezes insignificantes, invisíveis, mas Resultados
graduais e não radicais. Assim, o que se está considerando
é a conversão de mudanças quantitativas em mudanças Enfatiza-se que esta pesquisa limitou-se a fazer um
qualitativas” (p.184). recorte das possibilidades de representação da morte na

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adolescência e apresentar as compreensões e percepções As produções na 8ª série evidenciam uma evolução
de um grupo de alunos do ensino básico privado. no desenvolvimento do assunto, notada tanto na construção
No decorrer de cinco anos, foram obtidas 113 re- textual como na abordagem do fenômeno. Este passa a ser
dações e analisadas 21, referentes às produções de sete tratado com atenção diferenciada, especialmente quando
alunos, cinco do sexo masculino e dois do feminino, que defrontado com a realidade, em associação às manifesta-
participaram das três edições da pesquisa. O número redu- ções emocionais desencadeadas. Nesse momento, abrem-
zido de produções textuais é explicado por transferências de -se espaços reflexivos que interrogam as dificuldades de
escola, retenções e/ou ausências dos alunos. vivenciar o luto, indicando certo amadurecimento dos ado-
O tratamento das redações seguiu as indicações lescentes– A morte é um assunto que não pode ser falado
de Bardin (2004) para análise de conteúdo. Realizou-se, na brincadeira (M.) – e incremento da racionalização – [...]
em primeiro lugar, uma leitura flutuante aberta a “todas só falar que nunca mais quero que aconteça isso não adian-
as ideias, reflexões, hipóteses” (p. 71) e, em segundo, a ta, pois quando tem que acontecer acontece (L.F.). As cren-
identificação e contagem de itens de significação que pos- ças religiosas descritas apresentam argumentações que
sibilitaram conhecer os sentidos subjacentes aos explícitos. procuram, por um lado, confirmar uma vida posterior ou a
A leitura atenta e repetida das produções, acompanhada de reencarnação, mostrando certo avanço quando comparadas
um diálogo constante entre os dados obtidos e a abordagem às realizadas na série anterior, pois tendem a eliminar as in-
conceitual, admitiram a apreensão da relação dinâmica e certezas, firmando-se e convicções aprendidas: Essa teoria
interdependente entre mundo real e sujeito, sujeito e objeto, foi confirmada. Existe vida após da morte (P.), ou Acredito
objetividade e subjetividade (Chizzotti, 1991). em céu, onde os bons vão para lá; um purgatório, onde as
A frequência de determinados temas na construção pessoas são julgadas e encaminhadas, ou para o céu ou
textual indica a força da transmissão sociocultural das ideias para o inferno (S.), ou ainda, [...] o que as pessoas acham ou
e fantasias acerca da morte, e revela sentimentos e emoções pensam da morte varia de acordo com a religião da pessoas
similares aos descritos em adultos e em crianças, a saber: [...] (R.). E, por outro, as dúvidas surgem como ponderação
1 - inevitabilidade da morte: quatro redações na 6ª da própria aprendizagem e das transmissões culturais e reli-
série e quatro na 8ª série do Ensino Fundamental, e quatro giosas: Outras pessoas acham que se a pessoa morre com
no 2º ano do Ensino Médio; muita mágoa e muito ódio, essas pessoas vão para um lugar
2 - crenças religiosas: três na 6ª série, duas na 8ª e escuro, sombrio [...] (R).
quatro no 2° ano; No 2º ano do Ensino Médio houve um nítido desen-
3 - vida pós-morte: duas na 6ª série, quatro na 8ª e volvimento redacional, em que a sintaxe e a língua culta são
uma no 2° ano; observadas com mais cuidado. O raciocínio argumentativo,
4 - vínculos e dúvidas: nenhuma na 6ª série, duas na as considerações e os questionamentos são mais evidentes
8ª e quatro no 2° ano. e as dúvidas têm um caráter desafiador: “Apesar de tudo te-
A leitura do livro na 6ª série influenciou, diretamente, nho as minhas dúvidas sobre a morte, pois, se há vida após
a elaboração de três redações narradas com criatividade, a morte, nós não morremos, nós, na verdade, vamos para
semelhantes ao texto original e com a presença de situa- outro mundo. [...]. Mas há outra coisa; se nós reencarnamos
ções tragicômicas, denotando certo distanciamento da nós formamos um ciclo, ou seja, estamos neste mundo,
questão norteadora, em uma abordagem da morte por vias morremos, vamos para outro mundo e depois voltamos para
marginais e situações periféricas: Tudo começou quando este?” (MM). O mítico e o místico permanecem como refe-
meu caranguejo de estimação morreu (L.); Derrepente pro- rência sociocultural. O temor ao castigo parece relacionado
curando emprego achei um de engavetador do IML (M.); Um às atitudes em vida, embora se distinguam em qualidade
dia, João, Branco, Ricardo e Renato foram ao cemitério, por e complexificação das descritas no início da adolescência.
que eles eram góticos (F.). Outra relata uma situação de luto A participação docente esteve limitada à exploração e
real vivida e descreve o sofrimento causado pela situação: aos ensinamentos dos componentes próprios da disciplina,
Eu não vou contar uma história mas vou contar uma história marcando um desvio da ideia original do projeto educacional
real a 1 mês atrás (P.). As demais expressam a relação entre de oferecimento de um espaço reflexivo sobre a morte.
vida e morte como fato inevitável e indiscutível, associadas à
possibilidade de uma vida posterior melhor – O que é a mor-
te? No dicionário existem vários significado fim da vida” (M.) Discussão
ou A morte está presente na vida de todas as pessoas (R.) -,
adicionando a possibilidade de uma vida posterior melhor – A linguagem humana é o caminho da perpetuação
A morte é uma coisa que acontece com todo mundo. Dizem das culturas e manifesta-se na simplificação e na complexi-
que quando a pessoa morre vai para um mundo melhor (S). dade. Produz objetividade e abstração, marca as pessoas
As experiências de enlutamento marcam as relações vincu- pelas leis, princípios, normas, e/ou pelo misticismo e reli-
lares, associam-se ao temor da perda e justificam crenças giosidade, facilitando, impedindo ou controlando o desen-
religiosas centralizadas no conforto da continuidade da vida volvimento social e particular (Morin, 1908/2005a). Permite
e no reencontro de entes queridos. Não houve expressão ainda, a tradução da emocionalidade das experiências que
de dúvidas. povoam os pensamentos e o ser, e que retroagem sobre

Adolescência e morte * Elaine Teresinha Dal Mas Dias 277


a própria linguagem. As produções dos alunos denunciam a constatação de uma realidade que atinge narcisicamente
a dependência do contexto em que vivem ao tratarem o o homem (Cassorla, 1992).
ignorado como algo acessível e manipulável, e certa auto- Os mitos, as crenças e as religiões fazem parte da
nomia ao buscarem se desvencilhar do lugar comum que a memória e do acervo coletivo que se difundem nas individu-
temática contempla. alidades e são projetados no exterior como síntese cognitiva
Destarte, as redações cumpriram o propósito de e, nesse sentido, mostram-se como representação: “ato
apresentar a representação de morte em um grupo de constitutivo idêntico e radical do real e do imaginário” (Mo-
adolescentes, traduzidas em imagens subjetivamente rin, 2001/2005b, p. 123, grifos do autor). Os adolescentes
apropriadas. Proporcionaram, também, a manifestação de descrevem suas convicções, mesmo que temporárias – Eu
significados e sentidos na problematização, no diálogo com também não acredito na vida após a morte, como acreditam
o conhecimento adquirido, formal ou informalmente, e na pessoas de outras religiões, eu acredito que depois da morte
confrontação dialógica entre realidade e fantasia. não existe mais nada (M. A., 8ª série); Apesar de tudo eu
A difícil tarefa de conceituar a morte reside na impos- tenho minhas dúvidas sobre a morte, pois se há vida após
sibilidade de apreensão do objeto, que se realiza apenas a morte, nós não morremos, nós na verdade vamos para
via transmissão experencial e determina afirmações decor- outro mundo (M. P., 2º ano) – e mostram que, no processo
rentes de trocas de informações - Não sabemos dizer o que de amadurecimento, novos conhecimentos são adquiridos,
é a “morte” (S., 8ª série); Acredito em céu, onde os bons vão facilitando o empreendimento de um diálogo que encaminha
para lá (S., 8ª série); A morte ainda hoje é um grande misté- à compreensão, à aceitação e/ou à inconformação.
rio que a humanidade tenta desvendar (F., 2° ano); A morte A conscientização da inevitabilidade da morte físi-
não é castigo de Deus (P., 2° ano); A morte não é castigo ca pode gerar tanto resistências e defesas contra o terror
de Deus (L., 6ª série); Na verdade, acho que ninguém sabe despertado como posicionamentos definidos e irredutíveis,
da morte (S., 2° ano); do empobrecimento dos aspectos como resultado de avaliação desprovida de fantasia e finca-
simbólicos captados no meio sociocultural e fixados como da na realidade – O que é a morte? No dicionário existem
verdades absolutas que interceptam as dúvidas e as incerte- vários significados como: fim da vida, ato ou efeito de morrer
zas, e como reflexo da ausência de espaços problematiza- […] na minha opinião a morte é apenas o fim da vida (M., 6a
dores, indicando a necessidade de abertura (Kastembaum & série); A morte vem quando menos se espera (M. P., 8ª sé-
Aisenberg, 1976/1986). rie); Não é preciso ter medo da morte, pois todas as pessoas
Os princípios do pensamento complexo são verifica- irão morrer um dia, e quando chegar a hora, não tem jeito, a
dos na articulação constante entre produto e causa e entre pessoa morre mesmo (M., 6ª série.).
o todo e as partes. O acompanhamento longitudinal das As redações revelam a estranheza dos adolescentes
redações, por série e por alunos, indica uma circularidade em conciliar vida e finitude, não como dúvida, mas como
temática que faz da morte produto e produtora da vida reve- incerteza do devir. Como propõe o pensamento moriniano,
ladas em assertivas calcadas na esperança da eternização tal inconciliação remete à circularidade dos afetos e emo-
e na manutenção dos vínculos familiares – […] é estranho a ções, na qual as causas se revelam nos efeitos e nos pro-
gente viver eternamente aqui, na terra. É estranho também a dutos necessários à sua produção e na união de verdades
gente morrer e não acontecer mais nada. Acredito, um pou- contraditórias. As afirmações e questionamentos sobre a
co, que depois da morte a gente volta para a Terra, ou seja, reencarnação como modo de purificação expressam esse
um ciclo (S., 8ª série); A morte para muitas pessoas é o fim. movimento – Nosso corpo, matéria, é que fica na terra em
Mau sabem elas que existe vida após a morte” (P., 8ª série); decomposição. Nossa alma, espírito, é que volta ao começo
Gostaria de viver aqui eternamente com meus pais, minha para reiniciar um novo ciclo de vida (P., 2º ano).
irmã e toda minha família” (S., 8ª série). A imaginável chance de viver novamente pare-
Colocar a morte como parte da vida mostra também ce aplacar a incerteza e a angústia que o tema desperta,
uma conscientização que busca o controle (Cassorla, 1992; pois a morte se confronta com o desenvolvimento e com a
Kluber-Ross, 1969/2000) com a pretensão de descaracteri- perspectiva de futuro. É um estancamento do fluxo da vida
zar a submissão ao desconhecido: – Todos um dia morrerão. que assusta por não apresentar condições de reposição.
(M. A., 8ª série); Não é preciso ter medo da morte pois todas A reencarnação, por sua vez, leva à ideia de lugares mais
as pessoas um dia morrerão (M, 2º ano); Esta é a única cer- agradáveis de (con)vivência, sugerindo proteção contra
teza de nossas vidas (M. P., 2° ano); A morte é inevitável sentimentos incômodos e dolorosos, e apropriadas dos des-
(R., 8ª série); A morte está presente na vida de todos (R., 6ª colamentos das religiões que pregam a vida pós-morte, que,
série); A morte é o único fato que, um dia, irá acontecer com de certo modo, reduzem a dificuldade de aceitação do fim.
todos (M., 2º ano). A consideração de fenômeno inevitável, Nesse aspecto, poder-se-ia pensar também na influência da
ao ser simplificado e colocado objetivamente no exterior, tradição religiosa que dá contornos à constituição subjetiva.
dilui seus efeitos impactantes, concede o afastamento do O tratamento das redações mostra atos constitutivos
provável constrangimento desencadeado pelo tema, sinaliza idênticos e radicais do real e do imaginário, evidenciando
os entraves ao tratar dos sentimentos relacionados à per- antagonismos e complementaridades ao destacarem o co-
da, indica a não aceitação do fim (Ariès, 1975/1977; Freud, nhecido e o desconhecido que se entretecem e se separam,
1915/2006; Morin, 2001/2005b), ou simplesmente confirma mostrando que a morte invertida apresenta outros matizes

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neste grupo de adolescentes e que a supressão da dor e dos O processo adolescente, aparentemente, não in-
sentimentos está presente no cotidiano, na fantasia e/ou nas fluenciou a apreensão sociocultural da morte, já que as ma-
redes sociais, como morte escancarada. nifestações descrevem os mesmos conteúdos descritos por
Assim, observam-se, na realidade e no imaginário, pesquisadores que se dedicaram a discorrer sobre o tema.
elementos comuns e elementos distintos que se interligam Embora considerado, por parte dos especialistas, período
e se completam mutuamente, que, como mostra Morin conflituoso e tensivo, não se identificou acentuação em
(2001/2005b), são angariados na experiência pessoal e função da adolescência, nem naqueles que viveram perdas
na histórico-coletiva, estão presentes na tradição e são significativas.
construídos pela via da educação. Poucos jovens tiveram As redações cumpriram o propósito de apresentar a
perdas de morte de entes próximos, mas aqueles que as representação de morte em um grupo determinado de ado-
experimentaram parecem tratá-la como vivência, assistida lescentes. Proporcionaram, também, um tempo de manifes-
e sentida pela consciência, até porque, pela própria juven- tação de significados e sentidos, e de problematizações e
tude, não houve tempo de se instalarem como experiência. diálogos com o conhecimento adquirido e com aspectos da
Contudo, a intensidade contida em cada descrição sinaliza realidade, da fantasia, da mitologia, da religiosidade e das
que, de alguma maneira, todos prospectam as emoções crenças.
provocadas por um luto concreto.
Como assinala Freud (1915/�������������������������
2006���������������������
), foram os sentimen-
tos de culpa e ódio que impediram o homem do afastamento Finalizando
da morte, sentindo-a em si mesmo. O conteúdo de alguns re-
latos autoriza a inferência da existência desses sentimentos: A análise das produções aponta para a contradição
Eu pretendo ter uma vida limpa em que eu consiga chegar em existente entre vida e morte, confirmando outros estudos. Os
casa e dormir sem nenhum peso na consciência (F., 2º ano). alunos reafirmam o conflito entre o que é natural e inevitável
Não é possível o estabelecimento de nexos entre a em contraste com o período de descobertas, crescimento e
morte alimentada pela leitura do livro e os lutos infantis an- prospecção de futuro.
unciados por Aberastury e Knobel (�������������������������
1970/��������������������
1980). Pode-se afir- A representação da morte apóia-se na combinação
mar que os adolescentes explicitaram os afetos despertados de ideias e sentimentos que se estendem espacial e tempo-
pelo tema e sugerir que as descrições, em seu conteúdo ralmente. O texto literário teve pouca influência, persistindo
latente, referem-se ao descolamento provocado pelo desen- nas redações a força da transmissão cotidiana e perma-
volvimento e pela separação parental. nente de sentidos, atitudes e comportamentos apreendidos
As produções femininas evidenciaram uma distinção no convívio e por intermédio da cultura. As características
de gênero: as adolescentes mostraram maior distancia- fundantes estão mantidas sem eliminar o sentido individual
mento da temática, associada à reflexão de situações de e singular, havendo uma ressignificação das experiências
morte permeadas por conteúdos racionais. Os adolescentes coletivas. Observa-se a negação do aniquilamento pela
mostraram-se mais emocionais, preocupados com o acolhi- esperança da vida após a morte, presente na chance de
mento e conforto em situações de sofrimento, sem, entre- purificação e reencarnação.
tanto, abandonar a racionalidade, podendo-se supor uma O tema provocou angústias existenciais nos alunos,
desconstrução das imagens pressupostas de fragilidade principalmente quando abordada a passagem do tempo
feminina e frieza masculina frente a situações dolorosas. Ou para si mesmo e para as pessoas próximas, levando-os a
uma demanda interna que mostra “a vida do adolescente empreender uma análise desviada, compensatória e/ou de
pode estar por um fio” (Kovács, 2005, p. 520). negação, visto que a morte permanece como sujeito ausen-
O professor realizou uma análise voltada, exclu- te do discurso e dificulta, impede, ou mesmo os defende do
sivamente, para o conteúdo formal, gramatical e estético contato com o sofrimento antecipado.
das composições, desconsiderando a proposição inicial de A análise das redações sugere que o cotidiano
discussão, reflexão e acolhimento, bem como prejudicando escolar está marcado pela qualidade e intensidade da re-
e fragmentando as indicações de integração e transversali- lação professor-aluno, que pode se configurar como um
dade disciplinar presentes nos PCN. Essa atitude admite a dos elementos que contribuem para o isolamento ou para a
suposição da dificuldade do trato do assunto, exposta pelo aproximação de questões relativas à existência e ao próprio
enclausuramento da morte como forma mágica de apartá- contexto educacional.
-la, e/ou o despreparo na formação dos educadores para A formação do educador especialista tangencia o
questões do cotidiano escolar. O sujeito/educador parece estudo dos fenômenos juvenis e encaminha à cristalização
levar de roldão as narrativas efetivadas na transmissão da ideia de período turbulento, que embarga a aproximação
social, juntamente com as suas, absorvendo as vivências e a compreensão da adolescência como momento produtivo
como força de conhecimento e relegando a morte a lugares e criativo. O professor que integrou este projeto de pesquisa
preservados da consciência. Como aborda Kovács (2005), o deixou dúvidas se o seu distanciamento respondia à adoles-
treinamento docente pode facilitar o contato com a questão cência ou à temática. Todavia, não se pode desconsiderar
da morte, que, por sua vez, facilitará as análises críticas e os a importância vital de sua participação para a realização,
suportes emocionais aos alunos enlutados. coordenação do trabalho e condução da disciplina.

Adolescência e morte * Elaine Teresinha Dal Mas Dias 279


Em uma das raras referências à educação, Freud Cassorla, R. (1992). Reflexões sobre a Psicanálise e a Morte. Em M.
(1910/2006) afirma que uma escola de Ensino Médio deve J. Kovács, Morte e desenvolvimento humano (pp. 90-110). São
dar aos seus alunos “o desejo de viver e devia oferecer-lhes Paulo: Casa do Psicólogo.
apoio e amparo numa época da vida em que as condições
de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus vín- Chizzotti, A. (1991). Pesquisa em ciências humana e sociais. São
culos com a casa dos pais e com a família” (p. 243). Embora Paulo: Cortez.
a instituição tenha como proposição a continência de seus
alunos, ainda não alcançou esse estágio. Ciampa, A. da C. (1993). A estória de Severino e a história de
A identificação de uma instituição de ensino que se Severina, um ensaio de Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense.
preocupa em discutir questões relativas à morte anuncia um
avanço considerável às práticas rotineiras e uma tentativa Dias, M. L. (1991). Suicídio: testemunhas do adeus. São Paulo:
de evitar a mesmice, ao oferecer apoio aos educandos em Brasiliense.
momentos de dor e/ou dificuldades, independentemente do
período do desenvolvimento. Mas as ações não podem vir Domingos, B., & Maluf. M. R. (2003). Experiências de perda e de
isoladas. É fundamental considerar a formação em serviço, luto em escolares de 13 a 18 anos. Psicologia: Reflexão e Crítica,
apoio ao professor, consistência às reflexões do alunado e a 16(3), 577- 589.
influência da subjetividade.
Os estudos e pesquisas efetuados por Freud Esslinger, I., & Kovács, M. J. (2004). Adolescência: vida ou morte?
(1917/2006), Ariès (1975/1977), Cassorla (1992), Aberastury (2a ed.). São Paulo: Ática. (Texto original publicado em 1998)
e Knobel (1970/1980), Morin, (1951/1970, 1980/2005a), Ko-
vács (1998, 2005), entre outros, mostram que o homem con- Freud, S. (2006). Luto e melancolia (Vol. XIV). Edição Standard
temporâneo – e o mesmo pode-se dizer dos adolescentes Brasileira das Obras Psicológicas Completas. (J. Salomão,
que participaram desta investigação – não enfrenta a morte Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1910)
com facilidade, mas busca formas de compreendê-la e apre-
ender o inevitável. Diante desse quadro, entende-se que a Freud, S. (2006). Reflexões para os tempos de guerra (Vol. XIV).
escola tem a função de abrir-se à discussão sobre a morte e Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas.
a finitude, alargando os domínios restritos à sistematização (J. Salomão, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original
do conhecimento. publicado em 1915)

Freud, S. (2006). Contribuições para uma discussão acerca


Referências do suicidio (Vol. XI). Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas. (J. Salomão, Trad.). Rio de Janeiro:
Aberastury, A., Knobel, M. (1980). Adolescência normal (S. M. Imago. (Texto original publicado em 1917)
G. Ballve, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas. (Texto original
publicado em 1970) Ganymédes J., & Carr, S. (1990). A morte tem sete herdeiros - a noite
em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga. São Paulo: Moderna.
Ariès, P. (1977). História da morte no Ocidente (P.V. de Siqueira,
Trad.). Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Texto originalmente Kastenbaum, R., & Aisenberg, R. (1986). Psicologia da morte. (A.
publicado em 1975) P. Lessa, Trad.). São Paulo: Pioneira. (Texto original publicado
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Recebido em: 21/06/2010


Reformulado em: 03/04/2011
Aprovado em: 24/10/2011

Sobre a autora

Elaine Teresinha Dal Mas Dias ([email protected])


Universidade Nove de Julho

Endereço para correspondência:


Avenida Caxingui, 231, apto 52. Vila Pirajussara, São Paulo/SP - CEP: 05579000

Adolescência e morte * Elaine Teresinha Dal Mas Dias 281

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