Capítulo Extra:
O relógio analógico no final do corredor bateu meia-noite.
O tilintar macabro ecoou pelas paredes vazias do
apartamento. No entanto, Dalila sequer percebeu. Estava ocupada
demais deslizando os dedos agilmente pelas teclas do laptop,
respondendo a um e-mail de seu editor.
Pelo canto do olho, capturou um movimento incomum em sua
visão periférica.
Xandinha está correndo pela casa como uma maluca de
novo, ela cogitou. Ou é a Carmen sendo inconveniente como
sempre, supôs.
Até que uma sombra espessa se deslocou da parede e tomou
a forma de um homem esguio, de cabelos tão prateados quanto a
luz do luar que espreitava pelas persianas.
Samael entrou na sala como uma mudança brusca de
temperatura. Uma nuvem escura trazendo uma tempestade.
— A que devo a honra da sua presença diabólica nesta
quinta-feira à noite? — Dalila perguntou, com a voz abafada pelo
cigarro pendendo dos lábios. O maço jazia vazio sobre a
escrivaninha. Ela vinha fumando mais do que nunca nos últimos
tempos, consequência do trabalho puxado com seu último livro e
da ansiedade excruciante que esmagava seu peito.
Não desviou os olhos da tela azul do notebook. Porque toda
vez que olhava para Samael, sabia que o entregava poder sobre
ela. Como se ele precisasse de mais do que já possuía.
— Suponho que já não seja mais quinta-feira no calendário
dos mortais, Dalila.
— Só é sexta quando eu dormir e acordar no dia seguinte —
respondeu, dando de ombros, despretensiosa.
— Isso lhe dá a ilusão de que tem mais do que cinco dias de
vida ao seu alcance? — A pergunta foi tão cortante quanto seriam
suas garras cravadas em seu coração. Escárnio gotejava como
veneno nas palavras. — Imaginei que sim.
Os dedos de Dalila estagnaram no teclado.
Rapidamente, seus olhos voaram para o calendário na tela.
Pois não confiava em nada que saísse daquela boca profana.
Para seu infortúnio, descobriu que o demônio estava certo.
Faltava menos de uma semana para o dia em que soltaria
seu suspiro final.
Ultimamente, sua rotina estava tão agitada que às vezes se
esquecia até mesmo da sua própria data de validade.
Mas lá estava Samael, tendo o prazer de ajudá-la a se
lembrar.
Ela xingou baixinho, entre os dentes. Apagou o cigarro no
cinzeiro na escrivaninha e girou a poltrona até parar de frente para
ele, braços cruzados sobre o peito.
O sorriso convencido que espreitava nos lábios de Samael
era desconcertante como sempre, mas o brilho vulgar em seus
olhos azuis conseguiu ser ainda mais ao encontrar os dela.
— Então veio até aqui só pra esfregar isso na minha cara, ou
o quê? — disparou.
— Pensa tão baixo de mim, querida?
— Você não quer saber o que eu penso de você. — Ela se
remexeu na cadeira, cruzando as pernas, inquieta. Sua postura
revelando o que sua boca jamais diria. — Confie em mim.
— Soa como um convite para eu querer exatamente isso.
Dalila revirou os olhos.
— O que você quer de verdade, Samael? Me perturbar?
— O contrário disso, Dalila. — Ele saiu de onde estava e
caminhou deliberadamente até ela, mãos enfiadas nos bolsos da
calça. — Vim levá-la para sair.
— Para sair? — ela repetiu, só para ter certeza de que ouviu
corretamente. — Quer me levar para mais uma das reuniões da
sua seita, é?
Uma risada rouca e grave escapou do peito dele, ressoando
no apartamento. Seu sorriso se alargou com um conhecimento
obscuro.
— Para onde vou levá-la, seremos só nós dois.
— Um encontro, então.
— Você quem está dizendo, não eu.
Dalila estava brincando com ele, é claro, mas suas próprias
bochechas coraram como se não. Acabou se envergonhando
como uma idiota na frente dele. Ela fincou os dentes no lábio
inferior, uma tentativa de descontar o constrangimento na dor.
— Para onde pretende me levar? — perguntou, intrigada.
— Para onde você quiser ir.
— Cuidado, Samael. Essa é uma resposta perigosa. — Ela
apontou um dedo acusador para ele. — Muito abrangente. Sou
uma mulher de gostos refinados. E se eu quiser viajar ao redor do
mundo?
— Então vou levá-la para onde você quiser ir antes de coletar
sua alma, Dalila.
Ela soltou uma risada descrente, amarga, seca como seus
pulmões. Balançou a cabeça para os lados. Aquilo era impossível.
Devia ser mais uma de suas provocações. Samael não podia estar
oferecendo esse presente para ela. Havia alguma pegadinha ali,
tinha que haver. Do contrário, era bom demais para ser verdade.
— Não está falando sério. Por que faria algo assim por mim?
Ele pareceu se divertir com a pergunta. Os cantos de seus
lábios se repuxaram ainda mais. Parou diante dela, entre suas
pernas, de modo que ela precisou erguer a cabeça para o alto para
olhá-lo nos olhos.
— Piedade.
Ela teve que morder a língua para não mandá-lo para um
lugar onde seus chifres não alcançariam.
— Não preciso da sua pena — ralhou.
— Já olhou para si mesma no espelho? Você está
definhando.
Contra sua vontade, ela se atreveu a espiar o próprio reflexo
na janela.
Olheiras escuras se formavam sob seus olhos tingidos de
sangue por passar madrugadas acordada. Sua camisola de cetim
estava amassada ao redor do seu corpo. Seus cachos pareciam
um ninho de pássaros selvagens, cheios de frizz.
Ela molhou os lábios secos com um gole de vinho da taça
sobre a escrivaninha.
— Que exagero. Estou ótima.
— Nem você acredita nisso.
— Perdão se estive ocupada demais trabalhando para me
arrumar antes das suas visitas, querido. Tenho mais o que fazer do
que esperar por você.
— Você não devia cuidar de si por mim. Devia fazer isso por
você, Dalila. Quando foi a última vez que se divertiu?
Ela abriu a boca para responder, mas a fechou quando
percebeu que não saberia o que dizer. Já que não se lembrava.
Em algum momento entre aqueles quatro anos, ela havia se
perdido no que fazia por hobby e o que era seu trabalho.
E ele pareceu perceber isso.
— Diga-me os lugares que você quer conhecer antes de
morrer, Dalila. E eu a levarei a cada um deles nas cinco noites
antes de tomar sua alma.
A parte racional do seu cérebro quis retrucar dizendo que era
impossível viajar o mundo em tão pouco tempo.
Mas nada era impossível para Samael.
Não quando ele era seu próprio deus, e ditava suas próprias
regras.
— Vou chutar que não posso escolher sua biblioteca no
inferno, não é? — Ela fez graça.
Ele balançou a cabeça em negação.
— Ainda não. Vou levá-la lá quando o momento certo chegar.
Qualquer lugar na Terra, Dalila.
— Beleza, beleza... — Aquilo não seria difícil. Afinal, quando
não havia magia em sua vida, ela trabalhou por meses em uma
agência de viagens, ganhando um salário miserável. Passava os
dias conhecendo o mundo inteiro através da tela de um
computador. Teve tempo de sobra para imaginar aquele cenário.
Cinco últimos roteiros de viagem antes de morrer. Sabia o que
fazer, e escolheria bem. — Quero ver arte e cultura. Sempre quis
visitar o Museu do Louvre... mas, a essa hora, acho que já deve
estar fechado por causa do fuso...
— Levante-se.
— Por quê?
— Vai ser menos pior se você estiver de pé. Acredite.
— Do que você está falan... — ela começou a perguntar
enquanto se levantava receosamente.
Mas mal ficou de pé, e Samael já agarrava seus pulsos,
puxando-a junto dele.
Dalila tropeçou. Seu rosto colidiu contra o peito sólido dele.
Ouviu Xandinha latindo atrás dela, protetora, pronta para defendê-
la se fosse preciso.
Mas logo as bordas do mundo ao seu redor se turvaram,
como uma pedra caindo nas águas escuras de um rio. Tudo
escureceu por um instante. A temperatura do seu quarto
despencou, arrepiando os pelos em seus braços um por um. Ela
foi tomada por um mal-estar, uma vertigem tenebrosa, quando
piscou, e os móveis ao seu redor foram substituídos por fileiras e
mais fileiras de quadros de arte dispostos em longos corredores
com colunas de mármore. Um teto tão alto que seu pescoço
estalou ao tentar acompanhar.
Em um assopar de sua respiração, ela havia cruzado
continentes e um oceano com Samael ao seu lado.
E eles estavam sozinhos no Museu do Louvre.
— É real. Estamos mesmo aqui — disse, atônita, virando-se
para ele com os pés descalços, vestindo apenas sua camisola.
Sentia-se meio tonta, mas não se importava, não quando estava
em um lugar que sempre sonhou visitar. — Como você faz isso?
Samael deu de ombros, com elegância.
— Magia, minha querida.
— É claro.
A vastidão do Louvre se estendia diante deles como um
santuário. Os lustres estavam adormecidos, mas raios de luz
avermelhada e quente do amanhecer irrompiam pelas janelas
amplas no teto. O silêncio era absoluto ali, exceto pelo eco de seus
próprios passos pelo mármore frio.
Dalila rodopiou, querendo engolir tudo com os olhos.
Respirou fundo, como se para absorver toda a beleza ao redor, e
voltou-se para ele. Samael estava ao seu lado, silencioso, mas
observando-a como uma das esculturas em volta deles. Olhos
cintilando como estilhaços de vidro na escuridão.
Dalila e Samael estavam em um museu repleto de obras de
arte.
Ainda assim, ele só tinha olhos para ela.
— Obrigada — A voz de Dalila se perdeu num sussurro. —
De verdade. Esse é um dos lugares mais lindos que já vi na vida.
Samael apenas deu de ombros. Ele a trouxera ali com um
mero pensamento, arrancando-a das amarras do espaço e tempo,
e agora agia como se o que fizera não fosse nada. Apenas mais
uma sexta-feira para ele.
Eles caminharam juntos pelos corredores enquanto Dalila
observava avidamente cada obra.
— Mesmo que passássemos um ano inteiro aqui, não
conseguiríamos ver tudo — murmurou Samael.
Ela não duvidava disso. Era um dos maiores acervos de arte
do mundo, afinal.
— Sempre que vejo uma pintura, fico me perguntando o que
os pintores viam quando as criaram — murmurou, distante em
seus pensamentos. — O instante exato em que foi sonhada,
pintada, terminada, sabe?
Samael parou ao lado de uma tela. Seu sorriso se alargou
lentamente, quase perigoso.
— Você pode.
Os olhos dela se arregalaram.
— Como?
— Há um feitiço para isso. Pode atravessar a pintura e
vislumbrar como ela nasceu.
Dalila sentiu um arrepio de expectativa percorrer sua pele.
— Me ensina — pediu.
— Feche os olhos.
Dalila fez como ele disse e encontrou a escuridão atrás de
suas pálpebras.
— Agora, repita minhas palavras — murmurou Samael. —
Tempus susurrat, et ego audire volo.
Dalila já estudara latim o suficiente para entender parte do
feitiço e deixar que seu cérebro preenchesse o restante.
O tempo sussurra, e eu quero ouvir.
Ela repetiu e, hesitante, ergueu a mão para tocar uma tela à
sua frente. No instante em que seus dedos roçaram a superfície
da pintura, um choque elétrico subiu por seu braço. Seus dedos
foram sugados para dentro da obra.
O Louvre desapareceu, e diante dela surgiu um campo
dourado sob o sol, pinceladas frenéticas capturando o vento sobre
os trigais. Ela estava ali, dentro do momento exato em que a arte
nascia.
— Eu… eu posso ver — sussurrou, assombrada.
Recuando, tocou outro quadro e foi lançada a outro tempo,
outro lugar. Uma moça vitoriana em um ateliê escuro, sendo
replicada em traços e sombras.
— Consegui ver o que os pintores viram. Como em um…
— Filme?
— Sim — ela assentiu, afobada. — Exatamente como em um
filme.
— Bem, eu lhe ensinei o que sei — disse ele. — Agora é hora
de me mostrar o que aprendeu com o Liber Tenebrarum, Dalila.
Ela mordeu o lábio, hesitante.
Só havia conseguido conjurar feitiços simples para dormir,
acender velas, apagar imperfeições indesejadas de seu rosto e
criar pequenas manipulações visuais que só testara com Lena.
Peças para olhos humanos. O que, por motivos óbvios, temia que
não funcionasse com Samael.
Havia uma grande chance de passar vergonha na frente dele
novamente, se tentasse. Mas seria ainda pior se deixasse o medo
assumir o controle e dissesse que não sabia fazer nada.
No fim, Dalila acabou oferecendo uma mão para ele com
expectativa. Um pedido silencioso.
Ele entrelaçou as garras nos dedos dela. A palma dele quente
contra a sua.
Ela o conduziu até a Galeria de Apolo.
A grandiosidade do salão reluzia em ouro e detalhes
sofisticados, mas Dalila ignorou as paredes e inclinou o rosto para
o alto.
— Olhe para cima — pediu.
Samael não perguntou o motivo; apenas obedeceu.
A linha de sua mandíbula se tornou quase letal quando
ergueu os olhos para o teto adornado com pinturas de deuses e
anjos.
Dalila respirou fundo e murmurou um dos feitiços retirados
das páginas empoeiradas do Liber Tenebrarum. A energia pulsou
ao seu redor, uma vibração sutil espalhando-se pelo ar.
Acima deles, algo na pintura mudou.
No meio das nuvens celestiais, entre as figuras divinas, o
rosto de Samael emergiu como um dos anjos.
Uma provocação. Porque ela não seria ela se não fizesse
isso.
Samael não disse nada de imediato. Apenas continuou
fitando a ilusão até que ela se desfez, e a pintura voltou ao que
era.
— O que achou? — Dalila perguntou com a voz baixa, quase
insegura. — Gostou?
Antes que pudesse prever o movimento, ele a puxou pelo
aperto que ainda mantinha em seu pulso. Ela acabou em seus
braços, quase como se estivessem no meio de uma dança.
— Você se acha muito engraçada, não é, Dalila? — Samael
arqueou uma sobrancelha, mas falhou em esconder a diversão em
sua voz. Ele havia gostado. — O que devo fazer com você?
Inconscientemente, o olhar de Dalila caiu para a boca dele.
Lembranças importunas de uma fantasia invadiram sua
mente.
Ele a deitando em um altar de uma igreja, rasgando a saia do
seu vestido. Sua cabeça platinada entre as pernas dela. Seus
dedos apertando seu pescoço, mergulhando em sua boca, no
espaço entre suas coxas. Suas presas marcando sua pele
enquanto ele a estocava profundamente, levando-a ao limite.
Um sonho que ela jamais deveria ter tido.
Mas foi o suficiente para fazê-la tremer em seus braços e
sentir seu baixo ventre se apertar desejosamente.
Ela não percebeu que ofegava até ouvir o som da própria
respiração entrecortada ecoando no silêncio do museu. Dalila
quebrou o contato visual, tentando se recompor antes que fosse
tarde demais e ele percebesse.
Seu olhar pousou na parede atrás de Samael, onde a sombra
dos dois tremulava. A dele exibia longos chifres crescendo
ameaçadoramente acima de sua cabeça, embora não estivessem
visíveis naquela noite. Um contraste brutal com a forma humana
dela ao seu lado.
Mortal. Demônio.
Um lembrete que ela deveria levar em consideração, mas
não conseguia. Não quando ele a segurava com tanta delicadeza
em seus braços, quando ele a fitava como se ela fosse mais
valiosa do que todas as obras de arte dispostas naquele museu.
Quando ele a tratava como se fosse seu amante, e não seu
futuro executor.
Se pudesse escolher, o que queria que ele fizesse com ela?
— Mostre-me mais — Dalila pediu, propositalmente evitando
esclarecer o que exatamente queria.
— Eu vou mostrar — respondeu ele, sorrindo como se
soubesse exatamente o que ela queria dizer, e escolhesse brincar
com o duplo sentido nas palavras. — Na próxima noite. Descanse,
minha querida, e pense em qual será o nosso destino amanhã.
Quando ele a colocou de pé novamente e a soltou de seus
braços, Dalila estava de volta em seu quarto.
E, como prometido, à meia-noite em ponto do dia seguinte,
Samael voltou.
E no próximo dia. E em todos os outros que se seguiram
durante a semana.
Ele não precisava dizer nada, bastava um arquear de sua
sobrancelha escura.
Dalila já tinha o roteiro deles na ponta da língua. Passava os
dias sonhando acordada, imaginando para onde iriam quando
anoitecesse. Vestia suas melhores roupas e ficava à espera por
ele.
No segundo dia, Samael a levou para visitar as pirâmides
imponentes e os lençóis de areia no Cairo.
No terceiro, a aurora boreal, no norte da Noruega, onde o céu
acima deles ganhava vida, dançando com luzes verdes e violetas.
Seu casaco não foi suficiente para aquecê-la do frio
avassalador, e Dalila acabou abraçando os próprios braços com
força, tremendo. Sentiu uma movimentação às suas costas
quando Samael, sem dizer nada, tirou o próprio agasalho e o
colocou sobre seus ombros. Ela puxou o tecido para si, sentindo o
aroma almiscarado e denso dele preencher seus sentidos. E
tentou não pensar muito no que aquele gesto dele significava.
Para Samael, provavelmete não era nada.
No quarto dia, ela pediu para ser levada até o alto do Cristo
Redentor.
O vento forte fazia seus cachos chicotearem suas
bochechas. Dalila olhou para baixo, vendo o brilho das luzes do
Rio de Janeiro espalhadas como estrelas no céu noturno.
— Você nasceu nesta cidade e nunca veio aqui? — Samael
perguntou, incrédulo.
Ela negou com a cabeça, rindo.
— Morei aqui a vida toda, mas nunca subi. Acho que não senti
que precisava... até agora.
Samael serviu vinho em taças que haviam surgido sobre a
mesa conjurada por ele. Dalila pegou a sua, observando o líquido
girar antes de dar um gole.
No último dia de suas viagens, assim que Samael apareceu
em seu quarto, ela se apressou em dizer:
— Quero visitar Veneza.
Ele tomou sua mão e a levou exatamente para onde ela
queria.
A gôndola deslizava devagar sobre a água escura. Dalila
observava a cidade refletida no canal. Construções antigas, muros
úmidos, pontes arqueadas, o amanhecer ascendendo no
horizonte. A brisa salgada tocava sua pele. As águas altas
invadiam as ruas.
Era dolorosamente bela.
E era nítido que estava prestes a desaparecer.
— Sempre quis ver Veneza antes que fosse tarde demais e
o mar a engolisse.
— Gosta de lugares que estão à beira do fim?
Ela virou a cabeça para Samael, um meio sorriso nos lábios.
— Talvez eu me identifique. — Deu de ombros. — Pareceu
apropriado, dado ao momento atual e tudo mais.
Samael passou as garras pela superfície da água. Nenhum
dos dois remava a gôndola, e ainda assim ela seguia suavemente
pelos canais.
— O peso dos séculos, da ganância dos homens, a fúria do
mar. Tudo isso se acumulou e está afundando a cidade. Muito em
breve, não restará mais nada. — disse ele.
Dalila imitou o gesto, passando os dedos pela água fria e lisa.
Pequenas ondas se espalharam ao redor de sua mão.
— É uma pena. A cidade é linda. Agora entendo por que os
turistas gostam tanto daqui.
— Talvez seja a própria efemeridade que a torne tão bela e
romântica.
Dalila absorveu aquelas palavras, contemplativa. A forma
como ele falou de Veneza, como se ela fosse mais do que uma
cidade, fez Dalila se perguntar como Samael seria se amasse
alguém. Se é que ele era capaz disso.
Com os olhos fixos na água, sem coragem de encará-lo, ela
disse baixinho:
— Você já se apaixonou, Samael?
Ele desviou o olhar para o canal e, por um momento, pareceu
distante. Como se buscasse uma resposta que não poderia ser dita
em voz alta.
— Sim. — A palavra saiu baixa, quase um sussurro. — Há
muito, muito tempo, Dalila.
Ela franziu a testa, intrigada com a escuridão que
subitamente se apossou da voz dele.
— O que aconteceu? — ela se viu perguntando, quase sem
pensar.
Samael ficou em silêncio por um longo instante, como se
receoso se deveria mesmo responder. Quando finalmente falou,
sua voz carregava um peso doloroso:
— Eu a perdi para o destino, assim como Veneza vai se
perder um dia.
Ele não completou a história.
Dalila também não o pediu para se aprofundar. Descobriu
que não queria saber.
Porque, por algum motivo desconhecido, um aperto
sufocante se fechou em torno de seu peito e garganta ao ouvir
Samael falar sobre um amor do passado.
Estúpida, ela xingou a si mesma em pensamento. Ele é um
ser ancestral com milhares de anos, é obvio que já se apaixonou
antes.
Agora ela havia se machucado por culpa da sua própria
curiosidade. Não deveria ter o perguntado merda nenhuma.
— E você, Dalila? Já se apaixonou? — Samael questionou.
Ela pensou nas conexões momentâneas que passaram por
sua vida, nomes dos quais mal conseguia se lembrar. Nenhum
deles valia espaço em sua memória.
Não como os momentos que compartilhava ao lado dele.
Ela já havia se apaixonado? Não sabia dizer.
Só sabia que "paixão" parecia um termo banal, superficial
demais para descrever o caos irrefreável que ele incendiava em
seu peito.
— Não sei. Talvez — sua voz saiu mais trêmula do que
gostaria. Apesar disso, Dalila se forçou a encontrar o rosto dele
quando murmurou: — Mas não por quem eu deveria.
Um lampejo de curiosidade iluminou os olhos azuis de
Samael.
— Seria uma tragédia escrever sobre o amor sem jamais tê-
lo vivido antes de morrer.
— Seria, não é? — ela concordou, com um aceno fraco. —
Mas acho que tragédias e eu andamos lado a lado.
— Seu tempo está acabando.
— Eu sei.
— Não me refiro a isso, Dalila. Mas aqui, comigo. O sol está
nascendo. Tenho que levá-la de volta em breve. Você tem um
compromisso importante hoje. Precisa de tempo para se preparar.
Ela realmente tinha. O compromisso que valeu o seu pacto,
os anos perdidos que entregou da própria vida. Porém, nada
daquilo parecia ter importância real agora.
Ele fez menção de tirá-los dali, mas Dalila o segurou pelo
pulso.
— Espera.
Samael se virou para ela com o cenho levemente franzido.
— Antes de irmos, queria te fazer uma pergunta — ela
balbuciou, ansiosa, de repente. Muito conciente de como suas
bochechas começaram a arder, mas preferiu culpar o sol da
manhã.
Havia algo que pensava há muito tempo. E a conversa fizera
isso emergir com força em sua mente. Precisava perguntar agora
ou morreria sem saber a resposta.
— Uma pergunta?
— Sim, mas você precisa me prometer que será tão honesto
quanto um coroinha.
Um sorriso travesso se abriu no rosto dolorosamente belo do
demônio à sua frente.
— Eu prometo, minha querida.
Dalila mordeu o interior da bochecha até sentir o gosto
metálico de sangue na língua.
— Um dia, no passado, você me disse que eu possuo algo
que você anseia e que não vai me deixar em paz até tomar isso de
volta. — Ela puxou o ar fundo para dentro dos pulmões. — O que
é?
Samael se inclinou para frente e embalou o rosto dela em sua
palma. Dalila sentiu como se estivesse se equilibrando numa corda
bamba. Um movimento em falso, e ela cairia de uma altura da qual
jamais se recuperaria.
— Dalila, Dalila. — Sua voz era um fio de seda e trevas a
envolvendo. — Sempre curiosa demais para seu próprio bem. Tem
certeza de que quer mesmo saber?
— Quero. — Por favor, ela completou, silenciosamente.
O rosto dele pairou a centímetros do dela. O amanhecer
banhava suas feições, e seus olhos tinham o mesmo tom do céu
acima deles. Ela se perdeu ali.
Os cílios de Dalila tremularam. Seus lábios se entreabriram
por instinto e desejo.
— Eu não quero apenas sua alma — Samael sussurrou, tão
próximo, que ela pôde sentir as palavras perdurarem em sua pele.
Até que, no último segundo, ele virou o rosto e confessou
suavemente contra sua orelha: — Quero seu coração.
Então, plantou um beijo lento no canto da boca dela.
No futuro, eles se encontrarão em posições opostas.
Sua consciência, carne, corpo, tudo o que a tornava quem
era, se reduziria a nada. E o que restaria dela seria apenas sua
essência, entregue nas palmas das mãos de Samael.
Mas aqui, agora, neste instante, Dalila fechou os olhos e
fingiu que as consequências sombrias do amanhã jamais a
alcançariam.
Quando os abriu novamente, Samael havia partido. A magia
do momento se perdera.
E ela estava de volta à sua solitude.