Mito e Imagem nas
Representações Contemporâneas
Mito, imagem e imaginação são expressões reabilitadas quanto e alegorias do mundo real, corporificadas em formas para compreen
ao prestígio do emprego e densidade de significações no mundo são e assimilação humanas. Hoje, a publicidade, a propaganda, o
atual. marketing são instrumentos técnico-comunicacionais que largamente
A ciência, na pós-modernidade, vem revelando dimensões da exploram o potencial representativo das estruturas míticas para
vida imaginativa, do desconhecido, do infinito, com explorações alardear, vender e persuadir no mercado capitalista de consumo, os
psicanalíticas, históricas, lingüísticas, antropológico-culturais, seus objetos de difusão, junto a numerosos públicos-alvo.
sociológicas, educacionais... descortinando um mundo de símbolos O mito “faz falar”, de modo figurado, conteúdos manifestos,
que povoam o inconsciente e as ações conscientes do Homem, num latentes, mascarados, do pensamento, da emoção, de um
esforço de decifrar ou decodificar os sonhos, as fantasias, os desejos, comportamento.
os medos que revelam a simbologia de uma civilização sensorial. Embora JUNG, considere “o símbolo uma imagem apropriada
Imagem, som, léxicos visuais, jogos simbólicos indicam para designar, da melhor maneira possível, a natureza, obscuramente
diferenciações culturais e sociais, ordenações semiológicas de fatos pressentida do Espírito” (in CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A.
e narrativas, o múltiplo no uno, virtualidade figurativa, holografias, p. XXII), divergindo das designações “alegoria” e “signo” como
matizes artísticos da criatividade humana. possíveis sinônimos; o símbolo integra ou realiza facetas de um mito,
Um conhecimento científico dos símbolos está na razão direta do que é pluridimensional composto de significações existenciais.
desenvolvimento geral do conjunto das ciências humanas e sociais. A perspectiva exploratória, de investigação e análise, do mito
O pensamento simbólico é como um fio de Ariadne a desvelar e da imagem, não está circunscrita às funções pedagógico-tera
horizontes dos labirintos imagéticos passíveis de inúmeras pêuticas tradicionais, no âmbito do presente periódico.
explorações e interpretações, sobretudo no campo da Comu A psicanálise, a sociologia e a semiologia intercambiam de modo
nicação, pois o símbolo é uma via de comunicação, é expressão, é complementar com as ciências evocadas pelos articulistas, de forma
manifestação. a aprofundar e dar ressonância a novos modos de “olhar”, num
Um inventário do imaginário, dos mitos, dos ritos no psiquismo autêntico “devenir” comunicacional e educacional.
humano, possibilita a percepção de uma valiosa dimensão da STEPHEN LARSEN (PhD, professor de Psicologia e psicotera
realidade cultural da sociedade: onde os símbolos são signos peuta em Nova York) narra em seu primeiro livro THE SHAMAN’S
portadores de sentidos, num vastíssimo campo dos múltiplos DOORWAY (A Porta do Xamã) que lançou a expressão “imaginação
significados possíveis. mítica”, a importância e o uso da chamada sabedoria xamânica
As tecnologias da comunicação espelham e difundem mitos para os homens modernos a fim de “re-estabelecer” suas ligações
e arquétipos através de relações de imagens, que evocam idéias, com o seu passado ou raízes mitológicas. LARSEN compõe uma
emoções e sensações em receptores-emissores cada dia mais psicologia onírica aprendendo com a história (dos ancestrais de
interativos. sociedades tradicionais e dos modernos xamãs yoga-sutras de
As imagens sintetizam e concretizam estímulos. Relações Pantajali, iroqueses e senóis) desejando revitalizar processos de
históricas são rapidamente evocadas e estabelecidas através de criatividade e cura de modo intemporal, e onde EROS e TANATOS
sínteses simbólico-imagéticas (se assim pudermos designar) e que (divindades simbólicas da vida e da morte entre gregos e egípcios)
a televisão, o cinema e o computador (para exemplificar) emitem e assumem o poder de integrar as maravilhas interiores humanas,
realimentam através de mensagens contínuas, sedutoras e incidiosas numa espécie de “arqueologia do espírito”. Fragmentos míticos,
junto a públicos diversificados, diariamente. comportamentos atávicos “primitivos”, “pedaços de deuses” (como
Freud, Jung, Lacan, Piaget, Lévi-Strauss, Bachelard, Durand, no mito do deus Osíris assassinado por seu irmão Set, tendo o seu
Adorno, Eco, são alguns notáveis e notórios nomes que se corpo desmembrado em quatorze partes, e é restituído, re-membrado
debruçaram sobre a semântica psicanalítico-antropológico- pela mulher e deusa Ísis) simbolizam a restauração da unidade, da
semiológico-educacional do fundamento, da estrutura, do integração, e o re-conectar de estruturas (físico-mental-emocional)
dinamismo organizador da imaginação, da força do símbolo e da através da integridade e da totalidade do ser pela recordação (a
representação, e as ressonâncias formadoras e deformadoras de lembrança) da IMAGEM de unicidade ontológica, a restituição
realidades pessoais e universais. do ser (analogia mental - remembração físico-gestáltica, no mito
A idéia (eidos) no nível intelectual de eleger a temática MITO exemplificador).
e IMAGEM para o presente número da LOGOS é dar continuidade A IMAGEM é uma versão do mundo holístico, da vida de
ao conjunto de reflexões transdisciplinares que o periódico vem relação no âmbito social, da ligação do indivíduo com o mundo
apresentando, numa simbologia arquetípica de ligação do universal “maior”. Reunificar imagens pode ser um momento da individuação
ao individual. fundamental do tornar-se pessoa.
O mito condensa uma multiplicidade de imagens e de A significação ou a linguagem que manifesta o sentido de uma
elaborações subjetivas-objetivas que indicam estruturas simbólicas, imagem nos estados oníricos, nas divagações noturnas, por exemplo,
LOGOS
têm estreitas conexões e amplos usos na medicina, ao longo da A Semiologia de Umberto ECO é outro perfil de contribuição
história, no estudo de processos fisiológicos e/ou patológicos. reflexiva acerca dos ícones e signos da “irrealidade cotidiana, da
Inúmeros testemunhos clínicos relatam dinâmicas curativas do corpo estrutura ausente, da obra aberta, dos apocalípticos e integrados”.,
através de explorações bem conduzidas de imagens com o seu poder e inclusive, “Em nome da rosa”, que comunicam imagens ao
de evocar visualizações de saúde e bem estar. Alguns periódicos imaginário densas de verossimilhanças e simulacros. E então, eis
científicos apontam pesquisas rastreadas como: THE JOURNAL OF a potencialidade mítica pós-moderna: onde encontrar a verdadeira
MENTAL IMAGERY (Marquette University) e IMAGINATION “pérola da noite” (das sagas sapienciais orientais)?
COGNITION and PERSONALITY (Yale University).
No Tibete, na Índia, na África, entre os esquimós e os índios O presente número não poderia deixar de dar boas vindas ao
americanos, há milênios as imagens são terapêuticas importantes colega-editor Prof. Dr. Ricardo Ferreira Freitas que se reintegra após
e educativas. Na Europa, na Inglaterra e nos Estados Unidos, doutoramento na Sorbonne, onde desvendou a pós-modernidade
principalmente, na França, na Alemanha e na Itália os métodos de em tempos de shopping centers, e das eleições – bem sucedidas – à
evocação, formação e interpretação de imagens são aliados bem direção da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.
sucedidos para a compreensão ou decodificação de símbolos, em E ainda há de se apontar e agradecer a parceria na revista dos
questões adaptativas, em tratamentos de doenças físicas e mentais, professores e profissionais de Comunicação: Jornalista Ricardo Sil
na ativação da imaginação apoiando a renovação de convicções e na va de Hollanda e Relações Públicas Manoel Marcondes Machado
tarefa de autopreservação da pessoa. Neto.
Articular MITOS e IMAGENS com competência (respon Ao professor Paulo Sergio Magalhães Machado, atual vice-
sabilidade, força, autoridade ...) e liberdade representa um exercício diretor da FCS, agradecemos a acolhida e presença nas reuniões da
de abertura e arejamento de CANAIS de COMUNICAÇÃO do revista.
indivíduo e do grupo, em níveis internos e externos, pois há uma Aos consultores interinstitucionais, a nossa confiança num
pluralidade arquetípica identificada em diversos mitos e ritos sócio- trabalho de aperfeiçoamento editorial e conjugação de talento
culturais. analítico com muita criatividade.
JEAN PIAGET ao estudar o “mundo mágico” da criança Aos consultores editoriais Luís Monteiro e Eneida Leão parceiros
organizou uma morfologia mítica da consciência, através do exame competentes e atuantes em todo o processo de produção.
ano-a-ano do egocentrismo infantil até a evolução para estágios À Professora Maria Thereza Lopes Leite, a quem devemos o
de abstração e inserções sociais (no decorrer do crescimento e da agradecimento pelo apoio e a diligência nas questões administrativo-
maturação), legando uma contribuição valiosa (temática , científica financeiras da UERJ.
e humana) capaz de apontar a vitalidade contida nos mitos, ritos e Assentando bases, caminha cientificamente LOGOS: Comu
imagens para elucidações educacionais e suas complementaridades nicação e Universidade.
comunicacionais.
Os estudiosos da chamada ESCOLA DE FRANKFURT, quando
analisam os efeitos massivos da INDÚSTRIA CULTURAL na Coordenação do PMC/Revista LOGOS
modernidade, evocam largamente e com profundidade o uso
dos mitos para gerar processos de identificação e consumo na
sociedade.