NUTRIÇÃO E ÉTICA
AULA 4
Prof. Alisson David Silva
CONVERSA INICIAL
Ao longo da trajetória da humanidade, no âmbito das reflexões filosóficas,
a ética emergiu como uma evolução do pensamento voltado para os valores
morais praticados pela humanidade em relação a si mesma, à vida e à natureza.
Filósofos renomados, a exemplo de Sócrates, Platão e Aristóteles, dedicaram
extensos períodos de suas reflexões para responder a questionamentos que
hoje influenciam nossa compreensão ética. Essas ideias e ensinamentos,
posteriormente, foram disseminados e debatidos por outros pensadores, um
legado que perdura até os dias atuais.
No contexto da interseção entre ética e nutrição, o alimento se posiciona
como elemento fundamental na vida humana, apresentando-se como um tema
presente em dilemas profissionais, tanto na área da saúde quanto em outras
esferas. A ética enfrenta esses dilemas, propondo a resolução por meio de
padrões morais. A prática profissional demanda conhecimento e reflexão sobre
questões éticas, a fim de possibilitar que tanto a sociedade quanto os
profissionais envolvidos desempenhem suas funções sem causar danos aos
demais.
Nesta etapa, vamos explorar a ética no contexto histórico e sua
interligação com a prática profissional dos nutricionistas. Abordaremos conceitos
relacionados à história, especialmente no que se refere à alimentação e sua
evolução ao longo do tempo. Esta abordagem visa alicerçar e informar sua
atuação profissional, auxiliando-o a desenvolver critérios éticos relevantes para
o cotidiano.
A ética e a bioética desempenham papéis cruciais no sistema de
regulação das sociedades. Tais conceitos estão intrinsecamente ligados à moral
e aos costumes dos diferentes povos, podendo variar conforme os valores de
cada sociedade, o período histórico e a cultura. Consideremos, por exemplo, um
povoado remoto na Oceania, suas populações e práticas tradicionais. Se
analisarmos questões éticas nesse contexto e as comparamos com as mesmas
questões em nossa localidade, é provável que haja mudanças significativas de
perspectiva, interpretação e julgamento, embora certos valores morais sejam
universais.
Os valores éticos são inerentes à condição humana, e os debates sobre
ética continuam a ser uma preocupação global. Tais discussões visam promover
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o bem-estar social e estabelecer parâmetros éticos mínimos para que as
relações internacionais sejam amplamente aceitas pela sociedade. A definição
de leis e normas reflete essas discussões acerca da ética.
A ética é a expressão dos valores morais adotados pelas diferentes
sociedades, com o intuito de estabelecer diretrizes mínimas para orientar as
ações humanas. Por sua vez, a bioética se concentra na discussão, inserida no
âmbito da ética, das questões ligadas à vida humana e das influências presentes
em todos os processos que a envolvem. Esses valores são extensivamente
debatidos e podem culminar na formulação de documentos, acordos e normas,
como os códigos éticos específicos de diversas profissões.
Por isso, ao final desse material, vamos conhecer as questões de
diferenciação de ética e moral, tanto para com a sociedade, quanto nas questões
que envolvem a alimentação e nutrição.
TEMA 1 – ÉTICA AO LONGO DA HISTÓRIA: ENTENDENDO A ÉTICA E A
MORAL
Quando abordamos a ética, estamos intrinsecamente conectados ao ato
de ponderar e refletir. A singularidade da consciência humana se destaca como
a característica primordial que nos distingue de todas as outras espécies. Somos
capazes de pensar, questionar e ponderar sobre as implicações de nossas
ações, moldando nossas decisões com base naquilo que consideramos
moralmente correto.
Esse exercício reflexivo é o pilar sobre o qual a ética na sociedade se
ergue. Buscamos, de maneira clara e intencional, estabelecer princípios que
sejam não apenas morais, mas também éticos. Esse esforço conjunto visa
orientar nosso convívio de modo a preservar a harmonia social e,
simultaneamente, garantir uma gestão sustentável dos recursos naturais.
A ética, então, se desdobra em um compromisso coletivo para a criação
e manutenção de um sistema de valores e padrões que promovam não apenas
a convivência pacífica entre os seres humanos, mas também um cuidado
responsável e duradouro em relação ao meio ambiente. Esses princípios éticos
não apenas delineiam nossas interações e responsabilidades sociais, mas
também traçam o caminho para a preservação e a sustentabilidade dos recursos
naturais, garantindo um legado duradouro para as futuras gerações.
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Com o advento e progresso das profissões, a ética se estende para mais
um campo de atuação. Envolvimento ativo no mundo profissional requer de cada
indivíduo uma reflexão não apenas sobre o que é considerado certo ou errado,
mas também uma perspectiva coletiva sobre tais questões. Se analisarmos a
situação de forma individual, é possível vislumbrar uma diversidade de
abordagens diante de um mesmo dilema. Tópicos como pena de morte, aborto,
experimentação em animais, redução da maioridade penal, políticas de adoção
e o papel do Estado, entre outros, apresentam uma multiplicidade de
perspectivas a serem abordadas e resolvidas.
No entanto, diante da ausência de parâmetros éticos e morais, essa gama
de soluções pode tornar desafiador definir um comportamento adequado, tanto
no âmbito profissional quanto no social, que seja amplamente aceito pela
sociedade.
Para compreender a formação e a evolução desses valores éticos na
sociedade, é imprescindível explorar a história dos pensadores antigos, cujas
ideias constituem a base da ética contemporânea. Em cada período da história,
surgem questões que demandam reflexões e debates a fim de estabelecer ou
adaptar novos padrões éticos. No entanto, os alicerces éticos sempre se mantêm
presentes nessas discussões, influenciando as decisões sobre questões
contemporâneas, como degradação ambiental, avanços em biotecnologia, bem
como questões socioeconômicas. A constante revisitação aos princípios éticos
se revela crucial para orientar as decisões diante dos desafios emergentes na
contemporaneidade.
TEMA 2 – PILARES FILOSÓFICOS DA ÉTICA
Toda exploração do conceito de "ética" inicia-se pela análise de suas
origens etimológicas e pela sua diferenciação ou semelhança com o termo
"moral". É crucial a busca pela explicação da origem da palavra ethos, pois é de
sua raiz primitiva que encontraremos esclarecimentos para as ambiguidades
terminológicas e as imprecisões conceituais.
A palavra ethos reflete a essência do mundo grego, uma herança cultural
que ecoa em nossa sociedade. Este vocábulo provém do grego e apresenta duas
formas de escrita: ηθοζ (êthos) e εθοζ (éthos). Esta dualidade de grafias não é
meramente acidental, pois abarca uma variedade de significados que, ao longo
do tempo, distanciaram-se do seu sentido original.
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Entender as raízes etimológicas da ética nos conduz a compreender não
apenas sua evolução conceitual ao longo da história, mas também a abrangência
de significados que transcenderam o contexto original da palavra. A noção de
ethos continua a ser um ponto de referência importante para apreciar as nuances
éticas, destacando a evolução dos conceitos ao longo do tempo e sua relevância
em diferentes contextos culturais e sociais. Essa exploração das origens
etimológicas não apenas esclarece a trajetória do termo, mas também enriquece
a compreensão de seu significado e a aplicação atualmente.
Esses termos podem ser interpretados em três significados: morada ou
abrigo, caráter ou índole e hábitos ou costumes. O termo grego ηθοζ (êthos),
quando iniciado com "eta" (η), possui duas interpretações: morada, caráter ou
índole.
O primeiro sentido remete à noção de proteção. É o sentido mais antigo
associado à palavra. Refere-se a morada, abrigo e local de residência.
Inicialmente utilizado na poesia grega, fazia referência a pastagens e locais de
abrigo onde os animais habitavam e eram criados.
O segundo significado do termo êthos adquire uma conotação histórica a
partir da contribuição de Aristóteles, tornando-se o sentido mais prevalente na
tradição filosófica do Ocidente. Esse significado assume um interesse particular
para a ética, por estar mais intimamente relacionado ao que pode ser
compreendido como ética. Êthos denota o modo de ser ou o caráter,
representando as características essenciais que influenciam as ações e os
comportamentos de um indivíduo em seu ambiente social e moral. Esta definição
é fundamental para a ética, pois se concentra na natureza intrínseca e no cerne
das disposições morais e comportamentais. É a partir desse entendimento que
se constrói uma base sólida para a compreensão das questões éticas e morais
que permeiam as interações humanas.
No entanto, esse termo abrange um significado muito mais amplo do que
aquele que atribuímos à palavra "ética". O aspecto ético engloba, primariamente,
as inclinações e atitudes do ser humano em sua vida, sua índole, seus hábitos
e, evidentemente, sua moral. Na verdade, poderia ser interpretado como um
modo de vida em seu sentido mais preciso, diferenciando-se substancialmente
de uma mera maneira de existir.
Os valores podem variar conforme a cultura, as relações políticas e sociais
e diversos fatores, incluindo profissionais, educacionais e familiares. Uma ação
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pode ser considerada apropriada em uma determinada sociedade, mas incorreta
ou imoral em outra; no entanto, é possível afirmar que existem valores morais,
éticos e costumes que são compartilhados por toda a humanidade. Essa reflexão
tem suas raízes na base teórica dos conceitos éticos, discutidos e
fundamentados pelos filósofos da Antiguidade.
TEMA 3 – EXPLORANDO OS FUNDAMENTOS ÉTICOS: LEGADO DOS
GRANDES FILÓSOFOS
Vamos adentrar nesses estudos e explorar o legado dos filósofos para
compreender os alicerces da filosofia e da ética. Iremos nos aprofundar na
compreensão dos três pensadores gregos mais proeminentes: Sócrates, Platão
e Aristóteles.
Nesse contexto, vamos compreender as definições e a construção dos
valores, da moral e da ética, as quais desempenham um papel crucial nesse
panorama. A partir dessas bases, buscamos elucidar as interconexões entre
moralidade e ética, recordando que a ética consiste em uma reflexão acerca dos
princípios morais.
Iniciaremos pelo filósofo Sócrates, nascido em Atenas, Grécia, entre os
anos de 470 e 399 a.C., que conduziu seus ensinamentos de maneira oral,
transmitindo conhecimento aos que frequentavam a Ágora, espaço tradicional
para debates e intercâmbio de ideias na Grécia Antiga. Embora não tenha
deixado escritos, sua filosofia foi perpetuada por seus seguidores. Reconhecido
como um dos pilares da ética, Sócrates empregava diálogos que buscavam
desvendar a verdade fundamental sobre a existência e suas implicações na vida
humana.
O filósofo defendia uma ética fundamentada na razão, enfatizando a
aplicação da razão na prática das virtudes humanas, buscando estabelecer a
ciência do ethos. Em contraposição aos valores físicos enfatizados pela
sociedade ateniense, Sócrates criticava esse modelo, enfatizando a máxima
"conhece-te a ti mesmo", proclamando que o verdadeiro valor residia na alma e
que tais valores deveriam ser mais valorizados.
Para ele, as questões internas tinham uma importância superior às
externas. O indivíduo que conhecia o bem não praticava o mal, já que a
moralidade humana residia na escolha. Na concepção de Sócrates, a sabedoria
de uma pessoa se refletia em sua bondade, enquanto a ignorância conduzia ao
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mal. O enfoque socrático na busca da verdade tinha como objetivo o cultivo do
bem, não para a glória pessoal, mas para agir corretamente, buscando, desse
modo, a sabedoria, a felicidade e o bem-estar de toda a sociedade.
Sócrates enfatizava que a virtude era a base para alcançar a felicidade
plena e que esta representava o bem supremo do ser humano. Na perspectiva
do filósofo, somente o indivíduo justo e virtuoso poderia experimentar a
verdadeira felicidade. A expressão "Só sei que nada sei" resume bem a filosofia
socrática, destacando a importância da reflexão e do pensamento como alicerce
para o desenvolvimento humano.
O próximo filósofo é Platão. Nascido em Atenas, durante o período de 427
a 347 a.C., ele foi profundamente influenciado por Sócrates a partir de seus 20
anos. Os alicerces da ética platônica estão firmados nas ideias de ordem, que
representam um dos princípios éticos fundamentais de seu pensamento. Ele
conecta a ética não somente com a metafísica, mas também com a política e a
cosmologia, um campo da astronomia antiga. Para Platão, a ordem está
intrinsecamente ligada ao conhecimento do que ele define como "bem" e a suas
relações com as ações humanas.
Dentro da ética platônica, a justiça assume um papel de destaque. O
pensador considera a justiça como a virtude que estrutura o conjunto de ações
dos indivíduos na cidade, fornecendo a base para os elementos que moldam a
vida deles. Ela desempenha um papel crucial na sociedade, hierarquizando as
classes na cidade-estado – governantes, guerreiros, artesãos e demais cidadãos
– e definindo a função do homem ao categorizar a hierarquia entre a razão, os
sentimentos e os instintos. Platão também reflete sobre o papel do homem no
universo e a harmonia entre os membros da sociedade. Além disso, considera a
justiça como um bem intrínseco e comum, um valor que independe das
circunstâncias. Ele argumenta que os benefícios da justiça estão
intrinsecamente ligados à função da alma, tornando-se boa e justa à medida que
é praticada.
Em sua busca por uma existência feliz, Platão propõe um modelo ideal de
sociedade, um equilíbrio entre razão e imaginação, destinado a servir como
referência para todos aqueles que buscam reformar costumes e instituições,
visando melhorar a vida humana individual e coletiva. Em relação à moralidade,
Platão descreve que a verdadeira deve abranger as relações entre o indivíduo e
a comunidade em que vive, questões políticas e assuntos da natureza. Ele
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argumenta que o indivíduo por si só não pode atingir a perfeição e a felicidade
isoladamente, sendo necessária a intervenção do Estado ou da comunidade
política, que estabeleceriam leis para ligar o homem à natureza.
Por fim, temos Aristóteles, um outro renomado pensador que
substancialmente influenciou a formação dos conceitos éticos. Originário de
Estagira, Macedônia, Aristóteles viveu entre 384 e 324 ou 322 a.C. e foi discípulo
de Platão, desenvolvendo e expandindo muitas das ideias de seu mentor. Sua
obra abrangeu uma gama de tratados em áreas diversas, desde metafísica,
lógica, física e biologia até antropologia e arte, com incursões na escrita poética.
Aristóteles é creditado como o pioneiro da teoria de que a ética é uma
filosofia prática, isto é, um conhecimento que visa à ação. Seus estudos éticos
estavam focados nas relações humanas, políticas e sociais, direcionados para a
conexão entre o indivíduo e a comunidade. Uma das contribuições marcantes
desse filósofo foi a sistematização classificatória das ciências, sendo três
vertentes: Ciências Teoréticas; Ciências Práticas e Ciências Técnicas.
Os princípios éticos delineados por Aristóteles desdobram-se em quatro
linhas de pensamento:
• Racionalista: nesse âmbito, as virtudes são compreendidas como a
instrução dos instintos, das emoções e das paixões por intermédio da
capacidade intelectual. É a educação desses elementos internos,
promovida pelo uso das faculdades mentais.
• Naturalista: vinculado à essência da estrutura humana, considerando que
tais virtudes são inerentes à própria natureza do ser humano.
• Heterônoma: caracteriza-se pela sujeição a uma lei exterior ou à vontade
de terceiros, resultando na ausência de autonomia.
• Finalista: propõe que todas as ações devem ter como objetivo alcançar o
bem comum.
Aristóteles identificou a prudência como uma das virtudes intelectuais,
distanciando-a de um aspecto moral adquirido pela natureza humana. Segundo
ele, a reflexão proporcionada pela razão se conecta intrinsecamente à ação
humana; a prudência é a virtude que estabelece a justa medida entre os
extremos. Na concepção aristotélica, a prudência nos capacita a discernir, antes
de agir ou tomar decisões, o que é certo e o que é errado, conduzindo-nos ao
equilíbrio.
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Precedendo Aristóteles, Platão e Sócrates associavam a prudência a um
conceito equivalente à sabedoria humana. Esses conceitos têm perdurado até
os dias atuais, ecoando nos pensamentos dos filósofos modernos.
TEMA 4 – ÉTICA E MORAL: FUNDAMENTOS DA CONDUTA HUMANA
Como evidenciamos, a edificação dos valores, da moral e da ética
encontra suas raízes nos pensadores da Antiguidade, constituindo os alicerces
éticos da sociedade ocidental. Essas concepções reverberam ao longo do
tempo, proporcionando-nos subsídios reflexivos para abordar uma variedade de
situações contemporâneas. Por meio das contribuições significativas dos
grandes filósofos, não apenas contextualizamos o significado da existência, mas
também aprimoramos nossa compreensão das interações com outros seres
vivos, adaptando esses princípios às nuances de nossa época e sociedade.
Esses conceitos são moldados em sintonia com as evoluções da
humanidade. Em tempos remotos, os dogmas religiosos exerciam uma influência
significativa na vida de toda uma sociedade, manifestando-se nas ações
individuais. Eles eram indiscutíveis, delineando claramente o que era
considerado certo ou errado. Mesmo diante da contemporaneidade,
caracterizada por uma diversidade de pensamentos, religiões e conceitos,
persistem dogmas que continuam a se refletir nas atitudes dos indivíduos.
Da mesma forma que o termo ethos carrega significados ambíguos, a
palavra "moral" também apresenta uma amplitude de interpretações. Ao explorar
o conceito de moral nos dicionários da língua portuguesa, torna-se evidente a
existência de distinções conceituais relevantes. De acordo com o dicionário
Houaiss (2001):
Moral – refere-se aos bons costumes e à boa conduta, seguindo os
preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade ou por um grupo
específico. Cada um dos sistemas de leis e valores estudados pela
ética (disciplina autônoma da filosofia), caracteriza-se por organizar a
vida das diversas comunidades humanas, diferenciando e definindo
comportamentos proscritos, desaconselhados, permitidos ou ideais.
Essa compreensão expandida de moral revela não apenas uma
orientação para a conduta individual, mas também uma análise mais profunda
dos sistemas éticos que moldam e guiam as múltiplas facetas da convivência
humana.
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No que diz respeito ao emprego da palavra "moral" como adjetivo, a
maioria das expressões está associada à Ética. Nesse contexto, surgem duas
situações específicas:
Moral como antônimo de "imoral": seu uso como termo de reprovação
pressupõe a existência de algum código moral que sirva como referência para a
emissão de um juízo ético. Refere-se a comportamentos contrários às normas
morais vigentes em determinada cultura.
Moral como antônimo de "amoral": empregado para descrever uma ação
que não possui relação com a moralidade. Por exemplo, a conduta dos animais
não está vinculada à moralidade, pois presume-se que eles não são
responsáveis por seus atos. Em contraste, os seres humanos, ao atingirem um
desenvolvimento completo e assumirem o controle de suas ações, adotam uma
conduta moral. "Amoral", portanto, refere-se a uma "ação, atitude, estado ou
caráter que não é nem moral, nem imoral, ou seja, que está além da esfera da
moral".
Ao observarmos essas nuances do termo "moral" como adjetivo,
percebemos que as discussões contemporâneas sobre liberdade individual e
responsabilidade nas ações individuais e coletivas são profundamente
relevantes. Jean-Paul Sartre, um proeminente filósofo contemporâneo, destaca
que o homem é liberdade. Segundo sua perspectiva, cada indivíduo livre detém
o poder de escolha, moldando e revelando seu valor em relação aos outros.
Essas considerações ressoam no contexto atual, no qual as normas morais
emergem como elementos-chave para mitigar a sensação de abandono e
desolação inerente à tomada de decisão, frequentemente solitária. Essas
normas, portanto, estabelecem as bases para uma atuação ética, delineando o
caminho para a consideração das consequências de nossos atos.
Hans Jonas, outro filósofo de destaque na contemporaneidade, dedica-se
à reflexão sobre questões éticas, notabilizando-se pela ética da
responsabilidade. Ele indaga quais valores são essenciais para ser e existir na
civilização tecnológica. Na visão do filósofo, tais valores emergem como uma
necessidade premente da sociedade, resultando na formulação de novos
parâmetros e regulamentações, além de suscitar debates e reflexões coletivas.
Embora os tempos e dilemas evoluam, as questões éticas persistem como
governantes das ações humanas.
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A singularidade de cada ser humano, manifestada por meio de suas ações
e reações diante dos desafios da vida, destaca-se como um elemento
fundamental. Cada reflexão sobre uma situação específica gera uma
multiplicidade de resultados, variando conforme a perspectiva individual. Nesse
contexto, a grandiosidade das relações éticas se revela, permeando tanto a
esfera pessoal quanto a profissional. Estabelecer parâmetros éticos torna-se
essencial para garantir que nossas ações respeitem a dignidade de outros seres
vivos e contribuam para a preservação do planeta, assegurando condições
habitáveis para as futuras gerações.
Na construção moderna da ética, identificamos parâmetros que
fundamentam a conduta humana, promovendo o bem-estar individual e coletivo.
Estes princípios orientadores incluem:
• Altruísmo: expressa a preocupação desinteressada com o bem do outro.
• Moralidade: caracteriza-se pela conduta fundamentada em princípios
como o bem e a honestidade.
• Virtude: refere-se à ação alinhada ao correto e ao desejável.
• Solidariedade: compromisso entre as pessoas em busca do bem comum.
• Consciência: capacidade humana de compreender os aspectos internos
e externos relacionados à existência.
• Responsabilidade ética: obrigatoriedade de prestar contas de suas ações
perante a sociedade.
Esses princípios não apenas norteiam as ações individuais, mas também
estabelecem as bases para uma convivência harmoniosa entre os indivíduos e
as nações, favorecendo o uso sustentável do planeta, que é um espaço comum
a todos. Emerge, assim, a importância desses valores éticos na atual sociedade,
proporcionando um alicerce sólido para interações sociais e responsabilidades
compartilhadas.
TEMA 5 – NUTRIÇÃO E ÉTICA
A profissão de nutricionista emerge com a intrínseca responsabilidade de
promover, preservar e restabelecer a saúde humana no âmbito da alimentação.
Essa missão complexa demanda a aplicação de princípios éticos e morais, visto
que a atuação do nutricionista está intrinsecamente ligada a um dos atos mais
fundamentais da humanidade: alimentar-se. Conscientes de que a alimentação
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transcende a mera satisfação de necessidades biológicas, compreendemos que
ela é um fenômeno multifacetado, exigindo abordagens sensíveis e reflexivas
por parte do profissional. Além disso, o nutricionista lida não apenas com a
dimensão física da alimentação, mas também com aspectos emocionais, sociais
e culturais, ampliando a complexidade e a importância de sua atuação no
contexto da saúde humana. Essa interconexão entre nutrição, ética e saúde
destaca-se como um ponto crucial na construção de práticas profissionais que
respeitem os valores morais e éticos fundamentais. Podemos observar isso na
figura abaixo e iniciar uma reflexão sobre o tópico.
Figura 1 – Questões éticas que envolvem a nutrição e alimentação
Crédito: Visual Generation/Adobe Stock.
Associada a essa abordagem multifacetada, que engloba a alimentação
e suas intrínsecas relações com a cultura alimentar e questões sociais, como o
acesso a alimentos, emerge a interação dos nutricionistas com a sociedade,
pacientes, clientes da alimentação e outros profissionais. A responsabilidade
profissional abarca o compromisso de assegurar que as práticas adotadas no
exercício da profissão se pautem pela ética.
Decidir isoladamente o que é ético no desempenho da profissão
equivaleria a engendrar uma multiplicidade de profissionais distintos, uma vez
que a percepção individual do que é considerado correto e ético pode variar
consideravelmente. Dado que a ética profissional figura como uma das
características mais valorizadas pelo mercado de trabalho, o entendimento dos
padrões éticos pode oferecer suporte ao crescimento e à condução eficaz da
carreira profissional.
Desempenhar as funções de acordo com os padrões morais e éticos de
uma sociedade não apenas facilita a comunicação e as relações
interprofissionais, mas também assegura o bem-estar daqueles que estão sob
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cuidado. Embora moral e ética possam parecer interligadas na prática diária, é
possível discernir que a moral é uma característica intrínseca ao ser humano,
podendo ser subjetiva (originada internamente) e objetiva, ao seguir normas,
costumes e leis. Por outro lado, a ética pode ser estabelecida como um valor
social que emerge a partir dos conceitos morais ou das regras delas derivadas.
Na rotina profissional diária, os princípios éticos assumem uma relevância
ainda maior, uma vez que servem de salvaguarda para a sociedade e orientam
a conduta profissional. Nas diversas profissões sujeitas a regulamentação, existe
o Código de Ética, elaborado pelos respectivos conselhos de fiscalização
profissional. Ressalta-se a importância para os profissionais de compreender e
aderir às diretrizes estabelecidas por esse código, contribuindo, assim, para uma
prática justa e segura, na qual todos possam desfrutar dos benefícios.
Na área da nutrição, o Conselho Federal de Nutricionistas elaborou o
Código de Ética e Conduta do Nutricionista, um documento moldado com a
participação da sociedade. Este aborda uma variedade de temas relacionados
às práticas diárias em ambientes como atendimento clínico, restaurantes de
refeições coletivas, saúde pública, esportes, pesquisas, alimentação escolar,
entre outros. O Código de Ética engloba questões como responsabilidades
profissionais, relações interpessoais, condutas e práticas profissionais, meios de
comunicação e informação, associação a produtos, marcas, serviços, empresas
ou indústrias, formação profissional, pesquisas, relação com entidades da
categoria, infrações e penalidades, além de disposições gerais. Sendo assim,
proporciona aos profissionais e estudantes informações seguras para orientar
suas práticas no mercado de trabalho.
NA PRÁTICA
Imagine que você, na sua atuação profissional, é contratado para atuar
em uma comunidade indígena, onde há casos de desnutrição. Entretanto,
sabemos que os hábitos alimentares são variados e influenciados pelas
gerações anteriores, por questões de tradições culturais. Nesse contexto, o
nutricionista enfrenta o desafio ético de adaptar suas recomendações dietéticas
aos costumes locais ou manter uma abordagem mais universal, baseada em
suas próprias origens culturais.
A questão ética emerge quando o profissional precisa equilibrar a
promoção de hábitos alimentares saudáveis com o respeito à diversidade
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cultural, garantindo que suas orientações sejam culturalmente sensíveis e
acessíveis aos membros da comunidade, sem impor valores alimentares
estrangeiros.
Portanto, considerar apenas nossas próprias reflexões e conclusões
sobre as situações pode acarretar consequências; assim, é imperativo adotar a
ética como referência, assegurando que possamos viver e interagir de forma
harmoniosa com a sociedade. Tanto na esfera pessoal quanto na prática
profissional, é essencial incorporarmos valores morais e éticos para o benefício
coletivo. A discussão de temas éticos deve ser uma preocupação compartilhada
por estudantes e profissionais, visando estabelecer padrões que promovam o
bem-estar de todos.
FINALIZANDO
Nesta etapa, exploramos o tema da ética, destacando a presença dos
valores morais intrínsecos a cada sociedade, fundamentais para a compreensão
dos conceitos éticos. Compreendemos que as questões éticas são variáveis ao
longo do tempo e em diferentes sociedades, desempenhando um papel
essencial na promoção do convívio social e no desempenho profissional.
Ao trilhar as questões éticas, adentramos no universo dos filósofos e
pensadores antigos, cujos diálogos com a realidade estabeleceram questões
aplicáveis à nossa vida cotidiana. A prática de uma existência ética torna-se um
valor intrínseco ao caráter, orientando nossas escolhas entre o bem e o mal,
tanto em nível individual quanto coletivo.
Nesses contextos históricos, filósofos e pensadores revelaram que os
ensinamentos sobre ética têm raízes antigas e continuam relevantes atualmente,
influenciando também os pensadores modernos. Os filósofos da época
abordaram as ciências, oferecendo definições sobre os diferentes tipos de
ciência e os eixos éticos aristotélicos.
Pudemos compreender os significados das palavras “ética” e “moral” e
suas conexões. Analisamos a formação de conceitos relativos à moral, aos
costumes e à ética, abordando os conceitos de liberdade e suas restrições diante
da responsabilidade por suas consequências.
Finalmente, dedicamo-nos a compreender a ética no contexto da atuação
dos nutricionistas, uma profissão intrinsecamente ligada à alimentação e, por
conseguinte, permeada por diversas questões éticas e bioéticas. Essas
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questões são consideradas desde a formação do profissional e culminam no
entendimento do Código de Ética, um documento que orienta as ações de
profissões regulamentadas, como é o caso dos nutricionistas.
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REFERÊNCIAS
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