Desenvolvimento Ruralrevisão
Desenvolvimento Ruralrevisão
Referencing this:
LEITE, M. J. H.. Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica.
Agriculturae, v.4, n.1, p.1-15, 2022. DOI:
http://doi.org/10.6008/CBPC2674-645X.2022.001.0001
DOI: 10.6008/CBPC2674-645X.2022.001.0001
©2022
®Companhia Brasileira de Produção Científica. All rights reserved.
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
INTRODUÇÃO
Ao longo dos últimos anos, o espaço rural tem sofrido várias alterações. São, por isso, evidentes sinais
de declínio e a existência de um acentuado dualismo rural/urbano. Estas transformações traduzem-se numa
diferenciação cada vez mais acentuada das zonas rurais. Para amenizar tal situação, em meados dos anos 90,
o governo brasileiro criou incentivos municipais por meio de projetos e programas locais baseados em
conceitos e funções empreendedoras com o intuito de estimular o crescimento econômico1.
Atualmente, o cenário brasileiro da agricultura tem dado importância à novos termos da atualidade,
como por exemplo: empreendedorismo, inovação e desenvolvimento. Nesse cenário, o empreendedor rural
é reconhecido como o responsável pelas mudanças e é aquele que vê a agricultura como uma potência de
negócio rural, tendo em vista que estratégias empreendedoras podem auxiliar a evolução da propriedade
rural resultando no seu crescimento e desenvolvimento econômico.
Estudar empreendedorismo é mais do que ajudar os empreendedores atender as necessidades
pessoais de seus negócios, é auxiliar na contribuição econômica de novos negócios aumentando a renda
nacional e atuando como uma força positiva no crescimento do país relacionando a inovação e seu
desenvolvimento com o mercado (MENDES, 2009). Hoje, o meio rural pode ser caracterizado como um novo
negócio para a economia, atuando de forma positiva através das novas formas de empreender para enfrentar
um ambiente de competividade e de transformação constante, seja a transformação pelas inovações
tecnológicas ou pelas mudanças climáticas.
A crescente competitividade no meio rural, tem provocado a necessidade de se rever paradigmas de
gestão e formas de inserção num ambiente turbulento e mutável que influencia todos os setores da
economia. Esses novos paradigmas de gestão no meio rural estão atrelados ao empreendedorismo, pois é
com o desenvolvimento de novas oportunidades e novos negócios, que o produtor rural poderá sentir-se
mais seguro e motivado em relação às mudanças no ambiente externo.
Na busca pela inovação e desenvolvimento econômico, o produtor pode desenvolver inúmeras
técnicas relacionadas ao cultivo como, à introdução de uma nova variedade, à modificação de outros
produtos, à agregação de valor no serviço ou produto, entre outras (CELLA, 2002). Para isso, é necessário que
o mesmo avalie o mercado com uma visão sistêmica, aplicando as novas formas de gestão e desenvolvendo
seu lado empreendedor. Como a produção é dependente da natureza e do conhecimento do empreendedor,
este associado à inovação tecnológica proporciona maior rentabilidade a empresa. Na atualidade, o
empreendedor rural vem trabalhando diretamente na fabricação e comercialização de seus produtos, tendo
como resultado novas oportunidades de trabalho e renda e o desenvolvimento da economia.
De maneira geral, a principal contribuição do empreendedor para a economia local baseia-se no seu
papel de desenvolvimento econômico, social e tecnológico criado por características, que impulsionam para
a inovação de serviço, produto, e processo produtivo. De acordo com Dornelas (2001), o desenvolvimento
econômico gerado por uma gestão empreendedora está baseado nas forças exógenas (fatores externos,
1 https://polis.org.br/publicacoes/pesquisa-aspectos-economicos-das-experiencias-de-desenvolvimento-local/
Agriculturae P a g e |2
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
ambientais e sociais), bem como nas forças endógenas (ambiente interno da empresa) e/ou somatório de
todos esses fatores (exógenos e endógenos), fatores considerados críticos para o surgimento e o crescimento
de uma nova empresa.
O empreendedorismo atrelado a inovação e ao desenvolvimento rural visa o alcance de mudanças
socioeconômicas e ambientais a fim de melhorar renda, qualidade de vida e bem-estar das populações no
espaço rural, determinantes que tem se destacado como temática a ser discutida e compreendida tanto em
espaços acadêmicos quanto nos diversos ambientes da sociedade, visto como um elemento potencial e
contributivo no desenvolvimento econômico (SCHNEIDER, 2004).
MATERIAIS E MÉTODOS
Os artigos foram selecionados, após busca em plataformas de publicações científicas como, por
exemplo, os periódicos da CAPES. Foram procuradas as palavras chaves “empreend” e “rural” e então
selecionados. Os artigos que fazem parte da amostra e as citações foram replicadas de modo a caracterizar
o ambiente no qual o empreendedorismo rural brasileiro está inserido. As conclusões foram compiladas a
partir de experiências e intensa reflexão sobre o tema e são nada mais que um apanhado de impressões
percebidas pela autora.
Para Terluin (2003), o estudo teórico das forças sobre o desenvolvimento nas áreas rurais necessita
de uma disciplina específica, por isso é necessário recorrer a outras disciplinas que tratam do
“desenvolvimento econômico em regiões rurais”, como a economia regional e o campo multidisciplinar dos
estudos rurais (economia rural, sociologia rural, geografia rural, demografia, etc.). Mas, o desenvolvimento
das áreas rurais dificilmente pode ser explicado satisfatoriamente por apenas uma das teorias desses
diversos campos de estudo. No campo dos estudos rurais, por exemplo, três enfoques podem ser
identificados: o do desenvolvimento exógeno, o enfoque do desenvolvimento endógeno e uma combinação
dos dois.
No primeiro enfoque, o desenvolvimento rural é imposto por forças externas e implantado em certas
regiões. Exemplo emblemático é o das políticas de modernização da agricultura como forma de estimular o
desenvolvimento rural. O enfoque do desenvolvimento endógeno centra-se no desenvolvimento local,
gerado por impulsos locais e baseado predominantemente em recursos locais, em que os atores e as
instituições desempenham papel crucial; o caso típico é o dos modelos dos distritos industriais.
Finalmente, o desenvolvimento rural pode ser visto como uma combinação de forças internas e
externas à região, em que os atores das regiões rurais estão envolvidos simultaneamente em um complexo
de redes locais e externas que podem variar significativamente entre regiões. O desenvolvimento rural incide
nas áreas rurais e nas suas populações, pretendendo melhorar as suas condições de vida, à criação de
empregos, redução das disparidades existentes ao nível dos rendimentos médios e garantia de um acesso
satisfatório aos serviços essenciais, tais como saúde, educação, segurança, entre outros.
Agriculturae P a g e |3
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
Vale destacar que, o desenvolvimento rural foi interpretado, em alguns momentos da evolução
histórica do Brasil, como um passo para o alcance do desenvolvimento industrial e consequente crescimento
econômico. Com o desenvolvimento do ambiente rural e o fenômeno da globalização, algumas atividades
urbanas (indústria, lazer e telecomunicações) passaram a também ser desenvolvidas dentro do ambiente do
campo (STEGE, 2011).
Diante desse contexto, dificilmente pode-se determinar uma linha divisória entre o que é urbano e o
que é rural. Contudo, quanto ao ambiente rural, há um consenso de que ele possui as seguintes
características: a) não é sinônimo de agrícola; b) é multissetorial e multifuncional devido a diversidades de
atividades desenvolvidas nesse espaço e às funções desenvolvidas tais como produtiva, ambiental, ecológica
e social; c) possui densidade populacional relativamente baixa; e d) não há uma divisão concentrada e
absoluta entre e o que é espaço rural e o que é espaço urbano.
Dessa forma, o desenvolvimento rural pode ser entendido como um processo de ações articuladas
com o objetivo de proporcionar mudanças sociais, econômicas e ambientais no espaço rural para melhorar
aspectos da população rural como a renda, a qualidade de vida e o bem-estar (SCHNEIDER, 2004). Além disso,
pode ser visto como uma combinação de forças externas e internas nos quais estão envolvidos tanto os
atores das regiões rurais como as redes locais e externas das regiões. Assim, é um movimento que busca um
novo modelo para o setor agrícola, por meio de objetivos que visem à valorização das economias de escopo
em detrimento das economias de escala e ao fortalecimento da preservação dos ecossistemas locais (PLOEG
et al., 2000).
Dessa maneira, mesmo com a ausência de uma definição exata sobre desenvolvimento rural, bem
como diferentes abordagens metodológicas sobre o tema, o desenvolvimento rural tem como objetivo
principal abordar os aspectos de melhoria do bem-estar do ambiente e da população do espaço rural
(NAVARRO, 2001). Além disso, alguns elementos principais para o desenvolvimento das áreas rurais
englobam o maior acesso à educação e à terra, uma atividade agropecuária diversificada, uma maior
concentração de atividades e um conjunto de instituições consolidadas a fim de proporcionar a valorização
territorial. Fica evidenciado, portanto, o caráter multidimensional do desenvolvimento rural. Dessa forma, as
dimensões que comumente são relacionadas ao desenvolvimento rural são: social, demográfica, político-
institucional, econômica e ambiental (CONTERATO et al., 2010).
O desenvolvimento rural apenas pode ser viável se assentar numa estratégia que invoque os
princípios da descentralização e da parceria/contratualização e acautele o envolvimento e a
responsabilização das entidades públicas, privadas e suas associações e cívicas na formulação das políticas e
dos programas de desenvolvimento integrado e na respetiva implementação, acompanhamento e avaliação.
De acordo com o Programa de Desenvolvimento Rural 2007-2013, o desenvolvimento rural teria de
assentar-se numa atividade agrícola e florestal economicamente competitiva, ambientalmente equilibrada e
socialmente atrativa. Tal implica um aumento da competitividade dos setores agrícola e florestal, num
correto ordenamento do espaço rural e gestão sustentável dos recursos naturais, e, ainda, na melhoria da
qualidade de vida e diversificação da economia nas zonas rurais, que emergem, como objetivos
Agriculturae P a g e |4
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
inquestionáveis de uma estratégia de desenvolvimento rural sustentável. Isto significa que atualmente não
podemos dissociar o desenvolvimento da sustentabilidade, sendo necessário aliar os dois conceitos.
O atual programa de apoio ao desenvolvimento rural (PDR2020) pretende garantir a promoção do
setor agroflorestal e o desenvolvimento territorial equilibrado. Desta forma, busca melhorar a produção
alimentar viável, a criação de emprego em todo o território nacional, a gestão sustentável dos recursos
naturais e o combate às alterações climáticas.
Observa-se que, as preocupações não se centram exclusivamente na agricultura e no seu
desenvolvimento como outrora, mas sim num conjunto de aspetos que englobam todos os descritos acima,
o que torna o conceito de desenvolvimento rural mais complexo e abrangente.
Ainda não foi encontrada uma fórmula ou receita para fazer desenvolvimento rural. Talvez seja uma
tarefa impossível de executar, já que se trata de ações que buscam transformar interesses particulares em
coletivos, ou melhor, subordinar interesses particulares aos coletivos.
Trata-se de uma complexidade submersa num determinado contexto social mediado pelas relações
de poder, consequentemente envoltas em imposições que visam resguardar interesses particulares.
Resumindo, subordinar os interesses particulares dos que possuem maior porção de poder (pressupondo-se
relações de poder assimétricas), transfigurando os interesses particulares, dos que detém maior parcela de
poder, em coletivos.
Essa transfiguração, talvez manipulação, por vezes é facilitada pela fragilidade das organizações dos
atores sociais de base (neste caso, representação dos agricultores familiares de determinada região –
associações, cooperativas, etc.).
O desenvolvimento rural, não é só a questão tecnológica, é a questão de quebra de dependência a
rotas de insumos, sobre as quais a gente não tem controle. É a diversificação de matriz produtiva para não
ficar na dependência de poucas grandes culturas, que quando uma ou duas entram em crise toda a economia
desanda. É potencializar os mercados locais. É potencializar uma relação mais solidária entre produtores e
consumidores. É rediscutir essa relação sociedade com a natureza.
Nessa visão, o desenvolvimento rural pode ser alcançado pela diversificação da atividade de
produção agrícola para abastecer mercados locais e regionais, vislumbrando uma relação de confiança entre
produtor e consumidor (comprometimento entre ambos, agricultor forneça produtos de qualidade e
consumidor priorize estes), e que a sociedade repense sua relação com a natureza.
Uma perspectiva de desenvolvimento rural com viés agrícola, já que, aparentemente, oculta uma
possível complementaridade entre setores da economia local. Olvidar tal complementaridade é justificável,
primeiro pela relação direta da organização que representa com o rural, e, segundo, pela própria indução do
questionamento, já que esse estava voltado para o desenvolvimento do rural.
A limitação ou dependência, por vezes imposta ou estimulada pelo poder público, resulta em
populações sem personalidade e autonomia para conduzir seu desenvolvimento. Por conseguinte, as
Agriculturae P a g e |5
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
populações ficam suscetíveis aos ditos “pacotes prontos”, já que as organizações públicas precisam justificar
sua existência, seja por demanda (ideal) ou imposições.
Existem comunidades mais desenvolvidas que atendem as comunidades, com pessoas mais
instruídas, pessoas que veem os problemas e procuram solucionar. E outras comunidades que não tem
aquela condição de conhecimento e de desprendimento para o desenvolvimento. O desenvolvimento pode
ser taxado, pode ser alicerçado por pessoas lideres, por lideranças que procuram enxergar num todo a sua
comunidade.
Agriculturae P a g e |6
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
social.
A ideia central de desenvolvimento rural é buscar, através da diversidade presente no meio, a
construção de um espaço que oportunize as relações interpessoais, formas que possam determinar a
conquista de melhorias nas condições de vida da população rural. O desenvolvimento rural busca planejar
de forma coletiva, integrando os diferentes atores da sociedade em torno de planos que gerem uma dinâmica
econômica capaz de promover o desenvolvimento social e econômico, preservando o meio ambiente,
levando em conta as gerações futuras, através de ações que sejam sustentáveis.
Busca, ainda, considerar a relação que é estabelecida entre os membros de uma comunidade ou do
território municipal e que possa proporcionar condições para a definição e a criação de um planejamento
com visão de futuro e de inclusão das pessoas em situação de pobreza, valorizando seus costumes e saberes.
Diante disso, busca-se reconhecer indicadores que possam apontar para as prioridades da
comunidade, levando em conta as fraquezas e potencialidades, assim como os recursos necessários para
atender essas demandas. Isso passa a ser um processo de construção permanente, em que os agentes
públicos (gestores) compartilham com os demais atores das entidades organizadas, tanto da sociedade civil
como das públicas, responsabilidades na gestão dos recursos públicos e na execução das ações junto à
comunidade.
Desta forma, pode-se afirmar que o desenvolvimento rural surge como forma de aglutinar forças
locais com poderes, para o estabelecimento de estratégias capazes de influenciar na melhoria das condições
de vida da população local, assim como proporcionar a inclusão de setores da sociedade historicamente
excluídos do processo de desenvolvimento e dos resultados positivos gerados por esse.
A compreensão dessa estratégia de desenvolvimento em que os diversos atores sociais locais têm
sua participação garantida, com certeza, é o mais saudável para uma sociedade que busca estabelecer outras
relações de convivência e de acesso aos produtos resultantes do desenvolvimento por ela gerado. E aí está
incluída toda a parcela da população que, notadamente, ao longo da história, foi marginalizada, em
decorrência de uma política de desenvolvimento que não era capaz de oportunizar a participação desses
atores nos resultados positivos desse desenvolvimento.
Dessa forma, destaca-se quatro questões importantes para o processo de desenvolvimento rural que
são: 1) conhecer a realidade; 2) reconhecer e valorizar o agricultor; 3) saber quais as vontades; e 4) motivação
dos agricultores para o desenvolvimento.
Talvez seja esta uma possível indicação ou pista para o desenvolvimento. Das quatro questões, três
estão sob responsabilidade das organizações que pensam a problemática do desenvolvimento rural e a
quarta, mas talvez a mais importante, está nas mãos do agricultor.
Entretanto, em todas essas há a necessidade da participação de todos (num processo dinâmico,
relacional e interdependente), ou seja, organizações e agricultores. Conhecer a realidade é deve das
organizações que estão trabalhando pelo desenvolvimento rural, mas quem mais conhece a própria
Agriculturae P a g e |7
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
realidade é o agricultor.
Reconhecer também são deveres das organizações e da sociedade como um todo, mas o agricultor
tem que se fazer reconhecer e valorizar. Identificar as vontades dos agricultores ou da população rural
também é responsabilidade das organizações, mas expressar ou facilitar a identificação das vontades é dever
dos agricultores. Por fim, a motivação, para um processo de transformação, precisa estar presente no
agricultor, através, principalmente, do sentimento de segurança na sua capacidade e do reconhecimento de
sua importância para do processo de transformação.
A segurança na sua capacidade e o reconhecimento de sua importância não está exclusivamente sob
responsabilidade do agricultor, mas das organizações no sentido de articular meios para fomentar os
sentimentos de segurança e reconhecimento.
Também considerado de extrema importância formação e qualificação dos agricultores para o
debate sobre desenvolvimento. Sem qualificação e autoridade o agricultor continuará a margem do pensar
desenvolvimento.
Esses aspectos também são necessários para motivar o agricultor a pensar desenvolvimento, além
de estimular o espírito crítico que contribuirá para enriquecer o debate sobre desenvolvimento rural. O novo
rural brasileiro que se desenha a partir do início da última década, não pode ser mais entendido como apenas
aquele espaço voltado à atividade agropecuária propriamente dita. Está assumindo uma nova dimensão
socioeconômica, cuja principal inovação está por conta da oferta de bens considerados como não tangíveis
e de novos produtos, não necessariamente novos em descobertas.
Tais mudanças trazem consigo um conjunto de exigências sobre o agente no processo de decisão-
ação, quer seja na condução do negócio agropecuário, quer na exploração de novas oportunidades que
surgem a partir de uma dinâmica campo-cidade.
Como fato concreto dessa situação, cita-se que como principal obstáculo desenvolvimento no meio
rural brasileiro é a existência de um ambiente educacional incompatível com a noção de desenvolvimento.
Mas não se trata apenas de educação formal. O meio rural brasileiro conserva a tradição escravista que
dissociou em nossa formação histórica o conhecimento do trabalho, de maneira que quem trabalha não
conhece e quem conhece não trabalha.
Dessa forma, no que tange o meio rural, a modernização da agricultura acentuou a diferenciação
social, o desenraizamento de agricultores ocasionando numa perda de identidade, sendo preciso procurar
meios para reconstruir suas relações sociais e de trabalho numa sociedade refratária à oferta de empregos e
mão de obra (BRANDENBURG, 1999).
Assim, pode-se dizer que o desenvolvimento rural passa a se configurar como uma alternativa para
mudar o rumo dos processos de desenvolvimento se utilizando novos meios para enfrentar a desigualdade
e promover a sustentabilidade. E, para acelerar esse processo, evidencia-se a importância de cursos que
proporcionem a busca de conhecimento teórico no que tange o gerenciamento de pequenos
empreendimentos agrícolas, que posam servir de base para tomada de decisão frente a eventuais barreiras
que possam prejudicar o sucesso do negócio e de seu crescimento.
Agriculturae P a g e |8
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
Agriculturae P a g e |9
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
necessidade. Relativamente à oferta, constata-se que esta está fortemente dependente das condições
climáticas, apesar dos esforços empreendidos no sentido de se desenvolverem tecnologias que tornem este
setor cada vez menos dependente do clima, da sazonalidade, e do período de realização e maturação dos
investimentos.
Os agricultores, em termos sazonais, estão sujeitos aos ciclos culturais das culturas, confrontando-se
com épocas de colheitas em que os preços são relativamente baixos e com outras em que os preços sobem,
havendo sempre a possibilidade de se resolver esta questão com a armazenagem. No entanto, é preciso
ponderar, sempre, a perecibilidade dos produtos e os custos com a armazenagem e imobilização de capital,
visto que, por vezes, poderão não ser compensados pela evolução dos preços. Por outro lado, quando um
agricultor investe, num pomar por exemplo, está dependente de período de realização, tal como nos outros
setores da Economia, mas também do período de maturação, ou seja, do espaço de tempo necessário até o
investimento começar a dar proveitos.
Dadas as especificidades do setor agrário, antes referidas, torna-se sempre necessário criar um
conjunto de medidas destinadas a conjugar, da melhor forma, as particularidades deste setor, através do
estabelecimento das chamadas políticas agrárias de preços e mercados e das políticas agrárias de estruturas.
As primeiras destinam-se a regulamentar os mercados de forma a que se consiga ajustar as particularidades
da oferta e da procura destes produtos. As políticas agrárias de estruturas visam, de certa forma,
complementar as políticas de preços e mercados, promovendo um conjunto de investimentos e a melhoria
da formação e informação dos agricultores, modernizando as estruturas agrárias, tornando o setor
competitivo e capaz de se afirmar nos mercados.
A PAC foi criada em 1958 na Conferência de Stressa, logo no início da construção da UE (União
Europeia), com o objetivo de se fazer face aos problemas que se faziam sentir na altura, nomeadamente a
falta de alimentos. Nessa época havia, também, a necessidade de garantir alimentos aos consumidores a
preços acessíveis e de assegurar o rendimento dos agricultores.
Por isso, foram criadas, logo no seu início, um conjunto de medidas de preços e mercados por
produto agrário, que foram reunidas no que se designou por OCM (Organização Comum de Mercado), e que
visava colmatar os problemas antes identificados, atuando ao nível dos preços, do que decorreu a criação
dos preços institucionais; ao nível das ajudas diretas à produção; e ao nível das trocas, criando-se
mecanismos, no âmbito das importações e das exportações, de proteção dos agricultores.
As políticas estruturais estão atualmente integradas nos QCA, e a política de preços e mercados foi
profundamente alterada com a Reforma da PAC em 1992. As principais alterações, introduzidas com a
Reforma da PAC na política de mercados, visaram adaptar uma política criada numa época de crise, com falta
de alimentos, a uma época em que se verificavam problemas com excedentes de produtos agrários, com o
ambiente e com a necessidade de diversificar as atividades agrárias. Começando-se nesta altura a falar com
mais força num conceito mais amplo, o de Economia Rural.
Assim, com esta Reforma efetuaram-se alterações nas OCMs, ao nível das ajudas e dos preços.
Exemplos disso são: o aparecimento das ajudas diretas ao rendimento dos agricultores, desligadas da
Agriculturae P a g e | 10
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
produção, pelo fato de se terem reduzido os preços institucionais dos cereais, das oleaginosas, das
proteaginosas, do leite e da carne de bovino, como forma de desincentivar a produção e resolver os
problemas dos excedentes e da agricultura intensiva; o controle da produção interna pelo recurso a medidas
que limitam a utilização dos fatores de produção (ao mesmo tempo que são mantidas as regulamentações
existentes) e o volume de produção sob regime de garantia, tais como as quotas para o leite; e o
aparecimento das medidas de acompanhamento, de certa forma complementares das políticas estruturais,
onde se incluem as medidas agroambientais, de modo a reduzir os problemas ambientais derivados de uma
agricultura intensiva em face das ajudas diretas à produção, as ajudas à cessação da atividade agrária com
reforma antecipada, de forma a rejuvenescer a população agrária e as ajudas à diversificação das atividades
agrárias com incentivos à florestação de terrenos sem aptidão agrícola, com o objetivo de reduzir alguns
problemas ambientais e de criar mais postos de trabalho.
Este conjunto de políticas saídas da Reforma da PAC, com particular relevância para as medidas de
acompanhamento, aliadas às políticas estruturais dos QCA, são o reflexo, pelo menos em teoria, da vontade
de se promover, de uma forma integrada, o Desenvolvimento Rural como um todo.
Muitos têm sido os autores que, com o surgimento desta questão, têm escrito e se têm pronunciado
sobre o desenvolvimento rural, com análises diversas do mundo rural, uns na perspectiva de que este pode
ser encarado de forma uniforme e outros que são da opinião que as realidades no mundo rural são imensas
e, como tal, devem considerar-se vários mundos rurais, bem como diferentes abordagens do conceito de
desenvolvimento rural.
Uns creem que o desenvolvimento tem de se processar pelo ajustamento (referem-se à
modernização agro comercial da exploração ou empresa agrícola, em consequência de critérios de preço,
qualidade e tempo que a concorrência, interna e internacional, tarde ou cedo, acaba por impor). Outros
acreditam que o desenvolvimento deve ser processado através da diversificação em setores com importância
acrescida (trata-se de produzir território atraente e atrativo, sendo que não existem soluções universais para
este efeito, uma vez que cada território reúne caracteres, ocorrências e recursos muito variados e em estado
de aproveitamento muito diverso).
Em resumo, interessa referir que realmente temos uma problemática de acentuação do fosso entre
o rural e urbano e, por isso, urge olhar para ela com olhos de ver e implementar medidas capazes de
solucionar esta questão. Do que lemos e investigámos, pensamos que o desenvolvimento rural terá de
efetuar-se na perspectiva de que as realidades nos meios rurais são imensas, tanto em termos económicos,
como sociais, estruturais e institucionais.
Como tal, ter-se-á de apostar na análise de cada caso e procurar formas de atuação adequadas,
havendo com toda a certeza em comum a necessidade de diversificar as atividades em meios rurais, onde a
agricultura é uma atividade a preservar não só por questões económicas, mas também sociais.
A diversificação de atividades em meios rurais, torna-se possível na medida em que tudo está
Agriculturae P a g e | 11
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
praticamente por explorar, é vantajosa para a criação de postos de trabalho e para a melhoria das condições
de vida dos que lá residem, permitindo assim a fixação das populações libertadas pela agricultura em face do
processo de crescimento económico e da Reforma da PAC.
Há, também, a necessidade de formar mais agentes de desenvolvimento rural, o que é cada vez mais
possível, visto que em cada estado há praticamente uma Instituição de Ensino Superior que ministra cursos
relacionados com as realidades rurais. De salientar, ainda, a importância de se desenvolverem projetos de
cooperação transnacional, no sentido de se trocarem experiências tão importantes no desencadear de um
processo de desenvolvimento de meios com características tão específicas como são os mundos rurais e de
se procurar acabar com a separação entre o rural e o urbano e entre o campo e a cidade.
É importante fazer conciliação das atividades agrárias com outras que podem ser desenvolvidas em
meio rural (artesanato, turismo rural, turismo de habitação e atividades ambientais) permitirá garantir
rendimentos e fixar as populações nos mundos rurais, encarando o desenvolvimento destes meios em
termos globais, diversificando desta forma as atividades económicas e preservando.
O desenvolvimento agrário “faz-se com agricultura, isto é, os produtos vendem o território que
utilizam, mas não se preocupam tanto com a reprodução do “contexto” que consomem; é, essencialmente,
um ato comercial, que origina, quase sempre, várias externalidades negativas”.
Já o desenvolvimento rural “faz-se com agro cultura, isto é, os produtos vendem os territórios, tanto
quanto os territórios vendem os produtos; ambos se reproduzem no ato de venda; para além de ser um ato
comercial é, também, um ato cultural cujo fundamento radica nos princípios da agricultura multifuncional e
na produção de externalidades positivas, isto é, na ‘produção de contexto’”.
Fatores de bloqueio ao desenvolvimento rural prendem-se com o fato de este desenvolvimento não
constituir uma prioridade política, de o mercado fundiário não funcionar de forma a permitir e incentivar a
entrada de novos empresários rurais, assim como a ausência de normas e de fiscalização sobre o uso da terra
e também a não existência de um associativo representativo constituem bloqueios à evolução do mundo
rural.
Já os fatores que propiciam o desenvolvimento rural são a descentralização, com o aumento do
número de equipamentos nas pequenas e médias cidades do interior, e também a qualidade dos produtos e
dos lugares, isto é, as especificidades de cada local, de cada sítio.
Portanto, o desenvolvimento rural representa, hoje, uma das maiores preocupações a nível da
Unidade Europeia por diversas outras razões, que já foram ditas, mas que ficam resumidas da seguinte forma:
Equilíbrio territorial; Preservação do meio ambiente; Novas funções dos espaços naturais e Combate ao
desemprego, entre outros.
Entretanto, a problemática do desenvolvimento rural ganha, cada vez maior atualidade devido à
situação periférica do nosso país, à ausência de grandes recursos e matérias-primas industriais e às
condições climáticas prevalecentes que não favorecem uma vocação produtiva e exportadora no domínio
Agriculturae P a g e | 12
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
Agriculturae P a g e | 13
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O perfil do empreendedor, assim como diversos fatores externos que influenciam a pessoa a
desenvolver a ideia empreendedora, é aquela pessoa capaz de transformar um sonho, um problema ou uma
oportunidade de negócio em uma empresa viável. Mas não basta que exista a motivação para empreender,
é necessário que o empreendedor esteja preparado para isso, ou seja, que conheça formas de análise de
negócio, do mercado e de si mesmo para perseguir o sucesso com passos firmes e saber colocar o sucesso a
seu favor. Ressalta-se a importância da visão empreendedora como agente de mudança, possuidor de
componentes essenciais, mobilizando capital, agregando valor a recursos naturais, produzindo bens e
administrando os meios para incrementar o seu negócio. Deve-se isso ao seu gosto pela diversificação,
comprometimento e disposição em assumir risco.
Portanto, os empreendedores devem estar atentos ao modo como tomam suas decisões e devem
identificar estratégias para organizar seu processo produtivo, com o intuito de agregar valor a seus produtos
e maximizar a inserção nos mercados, buscando sempre melhores estratégias de inovações e
desenvolvimento. Sob essa ótica, torna-se também importante criar estratégias que viabilizem diferentes
formas de associação dos pequenos produtores, a fim de melhorar sua capacidade de negociar compras de
insumos, bem como encontrar mercados mais estáveis para seus produtos.
REFERÊNCIAS
BRANDENBURG, K.. MP3 e AAC explicados. In: AUDIO B. A.; STAMPFER, M. J.; FUCHS, C. S.; WILLETT, W. C..
ENGINEERING SOCIETY CONFERENCE, 17. Anais. New York: Prospective study of fruit and vegetable consumption and
Sociedade de Engenharia de Áudio, 1999. incidence of colon and rectal cancers. Journal of the
National Cancer Institute, v.92, n.21, p.1740-1752, 2000.
BIALOSKORSKI, S.. Agribusiness cooperativo: economia,
doutrina e estratégias de gestão. Dissertação (Mestrado em NAVARRO, Z.. Desenvolvimento rural no Brasil: os limites do
agronomia) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994. passado e os caminhos do futuro. Estudos avançados, v.15,
p.83-100, 2001.
CELLA, R. C. F.; REGITANO, M. A.; SPOTO, M. H. F..
Comportamento do óleo de soja refinado utilizado em PLOEG, J. D.. Revitalização da agricultura: a agricultura
fritura por imersão com alimentos de origem vegetal. Food económica como ponto de partida para o desenvolvimento
Science and Technology, v.22, p.111-116, 2002. rural. Sociologia ruralis, v.40, n.4, p.497-511, 2000.
CONTERATO, M. A.; SCHNEIDER, S.; WAQUIL, P. D.. Estilos de STEGE, A. L.. Desenvolvimento rural nas microrregiões do
agricultura: uma perspectiva para a análise da diversidade Brasil: um estudo multidimensional. Dissertação (Mestrado
da agricultura familiar. Ensaios FEE, v.31, n.1, 2010. em Economia) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá,
2001.
DORNELAS, J. C. A.. Empreendedorismo: transformando
ideias em negócios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. SCHNEIDER, S.; MATTEI, L.; CAZELLA, A.. Histórico,
caracterização e dinâmica recente do PRONAF. Políticas
LAZZARINI, S.; BIALOSKORSKI, S.; CHADDAD, F. R.. Decisões públicas e participação social no Brasil rural. Porto Alegre:
financeiras em cooperativas: fontes de ineficiência e Ed. UFRGS, 2004.
possíveis soluções. Gest. Prod., v.6, n.3, 1999.
TERLUIN, I. J.. Diferenças no desenvolvimento econômico em
MENDES, I. A.. Matemática e investigação em sala de aula. regiões rurais de países avançados: uma visão geral e análise
São Paulo: Livraria da física, 2009. crítica das teorias. Revista de estudos rurais, v.19, n.3,
p.327-344, 2003.
MICHELS, K. B.; GIOVANNUCCI, E.; JOSHIPURA, K. J.; ROSNER,
Os autores detêm os direitos autorais de sua obra publicada. A CBPC – Companhia Brasileira de Produção Científica (CNPJ: 11.221.422/0001-03) detêm os direitos materiais dos trabalhos publicados
(obras, artigos etc.). Os direitos referem-se à publicação do trabalho em qualquer parte do mundo, incluindo os direitos às renovações, expansões e disseminações da contribuição, bem como outros
direitos subsidiários. Todos os trabalhos publicados eletronicamente poderão posteriormente ser publicados em coletâneas impressas ou digitais sob coordenação da Companhia Brasileira de
Produção Científica e seus parceiros autorizados. Os (as) autores (as) preservam os direitos autorais, mas não têm permissão para a publicação da contribuição em outro meio, impresso ou digital, em
português ou em tradução.
Agriculturae P a g e | 14
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022
Desenvolvimento rural: uma revisão bibliográfica
LEITE, M. J. H.
Todas as obras (artigos) publicadas serão tokenizados, ou seja, terão um NFT equivalente armazenado e comercializado livremente na rede OpenSea (https://opensea.io/HUB_CBPC), onde a CBPC irá
operacionalizar a transferência dos direitos materiais das publicações para os próprios autores ou quaisquer interessados em adquiri-los e fazer o uso que lhe for de interesse.
Os direitos comerciais deste artigo podem ser adquiridos pelos autores ou quaisquer interessados através da aquisição, para
posterior comercialização ou guarda, do NFT (Non-Fungible Token) equivalente através do seguinte link na OpenSea (Ethereum).
The commercial rights of this article can be acquired by the authors or any interested parties through the acquisition, for later
commercialization or storage, of the equivalent NFT (Non-Fungible Token) through the following link on OpenSea (Ethereum).
https://opensea.io/assets/ethereum/0x495f947276749ce646f68ac8c248420045cb7b5e/44951876800440915849902480545070078646674086961356520679561157715342871494657/
Agriculturae P a g e | 15
v.4 - n.1 Jan a Dez 2022