•Três semanas de jejum
e oração
•A visão assustadora
•A visão esclarecedora
Panorama Geral
As palavras de abertura do capítulo se dão no terceiro ano do rei Ciro, ou
seja, para muitos autores, em 536 a.C. William Shea, no seu livro sobre
Daniel 10, afirma que o 24º dia do primeiro mês do reinado de Ciro (Nisã,
no calendário judaico) caiu, na verdade, no dia 11 de maio de 535 a.C.
Nesta época, o primeiro grupo de exilados de Judá já tinha retornado à
Palestina conforme o decreto registrado em Esdras 1:1-3. Havia passado
dois anos desde a revelação do capítulo 9 (primeiro ano de Dario é o mesmo
primeiro ano de Ciro).
Panorama Geral
Joyce Baldwin diz que “à luz desta revelação ele (Daniel) passa a entender
tanto a palavra falada como a visão; mas a visão deste capítulo não
necessita de compreensão no mesmo sentido que as outras. Evidentemente,
Daniel pressupôs que todas as visões tinham relação com o mesmo
assunto”.
Panorama Geral
Embora finalmente começasse o
processo de retorno, Daniel ficou
para trás. Já com 90 anos de
idade, curiosamente o fiel profeta
não conseguiu ser parte ativa do
cumprimento da profecia.
Panorama Geral
Ao mesmo tempo, como diz
Stefanovic, “o remanescente
logo enfrentou algumas graves
dificuldades. Em primeiro
lugar, o ambiente onde as
pessoas se opuseram fortemente
à reconstrução do templo. Esta
atitude hostil ocorreu
parcialmente devido à negativa
e uma resposta um tanto
exclusivista de que os judeus
fizeram para aqueles que
ofereceram ajuda no trabalho de
reconstrução do templo”.
Panorama Geral
Doukhan comenta, também, que
“um silêncio hostil envolveu os
brados alegres do retorno do
exílio. Aqueles deixados para
trás, na terra, não esperavam nem
desejavam o retorno dos zelosos
refugiados (Esdras 9;1,2). Em vez
disso, eles fazem toda tentativa
para debilitar os antigos exilados,
usando desencorajamentos,
ameaças, cartas acusatórias às
autoridades persas e corrompendo
os sacerdotes oficiantes do
templo (Esdras 4:4,5).
Panorama Geral
Os esforços deles colocaram em
risco a reconstrução do templo.
As notícias acabam chegando a
Daniel”.
Panorama Geral
É importante ressaltar que o
capítulo 10 é o início de uma
visão completa que vai até o
final do capítulo 12. Trata-se
de um bloco único.
¹No terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, uma palavra foi revelada a
Daniel, cujo nome é Beltessazar. A palavra era verdadeira e envolvia
grande conflito. Ele entendeu a palavra e teve entendimento da visão.
²Naqueles dias, eu, Daniel, fiquei de luto por três semanas.
³Não comi nada que fosse saboroso, não provei carne nem vinho, e
não me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas.
⁴No dia vinte e quatro do primeiro mês, estando eu na margem do
grande rio Tigre,
Daniel 10:1-4
Versos 1 a 4
Daniel introduz a seção final do livro e o capítulo 10 apresenta as
circunstâncias que o rodeavam. Já nos capítulos 11 e 12, a grande profecia
vai até o verso 4 do capítulo 12.
Aqui não teve a simbologia expressa da visão, por isso alguns estudiosos
entendem que a visão que inicia no capítulo 10 e vai continuar pelo capítulo
11 é um detalhamento do que foi visto nos capítulos 8 e 9.
Versos 1 a 4
O lamento de Daniel, com jejum por três semanas, é atribuído ao período
da Páscoa e dos pães asmos. Fato incomum. O problema aí era a
interrupção da construção do templo.
Existia naquele período forte oposição à obra de reconstrução do templo.
E nos livros de Ageu, Zacarias e Esdras, capítulos 5 e 6, fica claro que a
intenção divina não era que a obra atrasasse.
A preocupação de Daniel provavelmente não se deu por conta da
reconstrução de Jerusalém, fato ocorrido um século mais tarde apenas. É
mais plausível compreender que o foco da preocupação do profeta era
com o templo.
O historiador André Reinke explica que a comunidade judaica pós-exílio
se preocupava muito com o templo. Duas razões ele dá para isso.
1. O governo de Israel não tinha mais um rei em seu trono, por isso o
templo seria o centro administrativo e religioso, atraindo, inclusive,
mais investimentos.
2. Além disso, a população pós-exílio era menor do que antes e vivia em
uma área geográfica mais compactada. Isso deixava a maioria da
população mais perto do templo, diferente do vasto território de Judá
e Israel.
“Portanto, o segundo templo tinha condições de ser muito mais
centralizador e relevante do que fora o primeiro, apesar de suas modestas
estruturas em relação à fama dos gloriosos Davi e Salomão. A sociedade
da Judeia poderia, com o passar dos anos, ser chamada de ‘comunidade
do templo’”.
Versos 1 a 4
Stefanovic diz que a referência ao rio Tigre (diferente do que foi
mencionado em Gênesis 2:14) é para dar uma noção de universalidade,
indo além dos limites da aliança de Deus com Israel.
Menção de universalidade, com rio, é feita em Gênesis 15:18, com relação
ao Eufrates. Baldwin diz que “como o rio Trigre desembocava no
Eufrates, às vezes os dois eram usados um pelo outro”.
⁵Levantei os olhos e vi um homem vestido de linho, com um cinto de
ouro puro de Ufaz na cintura.
⁶O seu corpo era como o berilo, o seu rosto parecia um relâmpago, os
seus olhos eram como tochas de fogo, os seus braços e os seus pés
brilhavam como bronze polido, e a voz das suas palavras era como o
barulho de uma multidão.
⁷Só eu, Daniel, tive aquela visão. Os homens que estavam comigo
nada viram, mas ficaram com muito medo, fugiram e se esconderam.
Daniel 10:5-7
⁸Assim, fiquei sozinho e contemplei esta grande visão, e não restou
força em mim. O meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e perdi as
forças.
⁹Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo essa voz, caí sem
sentidos, com o rosto em terra.
Daniel 10:8, 9
Versos 5 a 9
O homem da visão de Daniel faz eco
ao que está em Josué 5:14,15 e
mesmo em Daniel 8:11. Príncipe é a
expressão que mais tarde vai aparecer
neste capítulo.
Mas a própria descrição deste Ser se
parece mais com a de Jesus Cristo
(Ezequiel 1:26 – 2:2 | Daniel 7 |
Apocalipse 1) do que com o anjo
Gabriel.
Versos 5 a 9
O impacto desta visão deixou Daniel
sem forças. Doukhan é taxativo ao
afirmar que “essas imagens paralelas
fora do livro de Daniel indicam que
ele, assim como João e Ezequiel, vê
um ser divino, e não apenas um anjo”.
¹⁰Eis que a mão de alguém tocou em mim, e me ajudou a ficar de
joelhos, apoiado nas palmas das mãos.
¹¹Ele me disse: — Daniel, homem muito amado, esteja atento às
palavras que vou lhe dizer. Fique em pé, porque fui enviado para
falar com você. Enquanto ele falava comigo, eu me pus em pé,
tremendo.
¹²Então ele me disse: — Não tenha medo, Daniel, porque as suas
palavras foram ouvidas, desde o primeiro dia em que você dispôs o
coração a compreender e a se humilhar na presença do seu Deus.
Foi por causa dessas suas palavras que eu vim.
Daniel 10:10-12
¹³Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu durante vinte e um
dias. Porém Miguel, um dos príncipes mais importantes, veio me
ajudar, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia.
¹⁴Agora, vim para fazer com que você entenda o que vai acontecer
com o seu povo nos últimos dias. Porque a visão se refere a dias
ainda distantes.
¹⁵Enquanto ele me dizia essas palavras, dirigi o olhar para o chão e
fiquei mudo.
Daniel 10:13-15
¹⁶Então um ser semelhante aos
filhos dos homens me tocou os
lábios, e passei a falar. Eu disse
àquele que estava diante de mim:
— Meu senhor, essa visão me
causou muita dor, e eu fiquei
sem força alguma.
¹⁷Como pode este seu servo falar
com o meu senhor? Porque,
quanto a mim, não me resta mais
nenhuma força, e quase não
posso respirar.
Daniel 10:16, 17
¹⁸Então aquele ser semelhante a um homem tocou em mim outra vez
e me fortaleceu.
¹⁹E disse: — Não tenha medo, homem muito amado! Que a paz
esteja com você! Anime-se! Sim, anime-se! Enquanto ele falava
comigo, fiquei fortalecido e disse: — Fale agora, meu senhor, pois as
suas palavras me fortaleceram.
Daniel 10:18-19
Versos 10 a 19
A mão aí é de Gabriel levantando o profeta. Daniel era muito apreciado
por Deus, desejável, conforme o sentido original da palavra que vemos
traduzida, muitas vezes, como mui amado.
O profeta recebe palavras de ânimo e explicação. Isso mostra um
profundo cuidado do Senhor com quem ora e sinceramente quer
entender as coisas espirituais ao seu redor.
Versos 10 a 19
Vários comentaristas têm concluído que esse príncipe do reino da
Pérsia é um ser sobrenatural em oposição a Deus em um grande
conflito maior. A expressão sar ali é a mesma usada quando o ser
celestial apareceu a Josué em Jericó.
Daniel também utiliza esta expressão para se referir a seres
sobrenaturais (Daniel 8:11,25 | 10:13, 21).
Versos 10 a 19
Ao mesmo tempo, o termo pode indicar um governante persa que, de
certa maneira, estaria em luta com os propósitos divinos retardando a
promessa de restauração de Jerusalém.
Muitos identificam o príncipe como Ciro, o imperador. William Shea,
no entanto, prefere entender que era o príncipe corregente Cambises,
filho de Ciro. Ele evoca tabletes antigos que registram Ciro como o
imperador mais geral e Cambises atuando mais especificamente na
região da Babilônia.
Versos 10 a 19
Ellen White corrobora com esta ideia ao dizer que “tudo o que o Céu
podia fazer em favor do povo de Deus foi feito. A vitória foi
finalmente ganha: as forças do inimigo foram contidas todos os dias
de Ciro e todos os dias do seu filho Cambises”.
Miguel é mencionado como primeiro dos príncipes, em antagonismo
ao príncipe do reino da Pérsia. Miguel, como nome de um ser
celestial, ocorre em vários lugares (Daniel 12:1 | Judas 9 | Apocalipse
12:7). Significa Quem é como Deus?
Versos 10 a 19
Doukhan diz que “em geral, o livro de Daniel emprega echad em lugar
de rishon para dizer primeiro. O superlativo ‘primeiro dos primeiros
príncipes’, designando Miguel, é o equivalente da expressão Príncipe
dos príncipes de Daniel 8:25 e se refere, portanto, à mesma figura
sobrenatural”.
A vitória mencionada na sequência pode ser compreendida que, com a
vinda de Miguel, o anjo mal foi forçado a se retirar e o anjo de Deus
ficou ali com os reis da Pérsia.
Versos 10 a 19
Vemos que a visão para a qual Daniel recebia compreensão se refere a dias
muito distantes. Se lembrarmos de Daniel 8, entenderemos que vai se tratar
do chamado tempo do fim em diante. Daniel chegou a ficar mudo, mas o ser
celestial tocou em sua boca e ele voltou a falar.
Stefanovic observa que Daniel foi tocado pelo menos três vezes, sente-se
humilhado e dependente de Deus, finalmente fraco, mas é fortalecido. O
texto original hebraico diz que as dores de Daniel foram similares às de
quem está dando à luz.
Versos 10 a 19
O último toque o capacitou para receber a visão, que muitos entendem
ser a mesma a que se referem os capítulos 8 e 9 do livro.
²⁰E ele disse: — Você sabe por que eu vim? Agora voltarei a lutar
contra o príncipe da Pérsia. Quando eu sair, eis que virá o príncipe da
Grécia.
²¹Mas eu direi a você o que está expresso no Livro da Verdade. E na
minha luta contra eles não há ninguém que esteja ao meu lado, a não
ser Miguel, o príncipe de vocês.
Daniel 10:20, 21
Versos 20 e 21
O contexto dá a entender que a luta é contra o príncipe da Pérsia. Trata-se
de uma ideia relacionada a um conflito posterior. O Comentário Bíblico
Adventista informa que “Esdras 4: 4 a 24 mostra que essa luta continuou
até bem depois do tempo da visão de Daniel”.
Versos 20 e 21
O príncipe da Grécia, de acordo com o texto, viria depois sem uma
intervenção mais direta de Deus como havia ocorrido em relação à Pérsia.
O Comentário Bíblico Adventista afirma, sobre isso, que “quando a
influência divina se retirou e o controle dos líderes da nação foi deixado
inteiramente aos poderes das trevas, logo veio a ruína do império.
Liderados por Alexandre, os exércitos da Grécia arrasaram o mundo e
rapidamente exterminaram o império persa”.
Bibliografia consultada:
• Comentário Bíblico Adventista – Francis
Nichol
• Segredos de Daniel – Jacques Doukhan
• Daniel – Wisdow to the wise – Zdravko
Stefanovic
• Profetas e Reis – Ellen White
• Wrestling with the prince of Persia –
A study of Daniel – William Shea
• Aqueles da Bíblia – André Daniel Reinke